entre colchetes flavia muniz ciriloENTRE COLCHETES

(Patuá, 2018), de Flávia Muniz Cirilo

 

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SOBRE OS MISTÉRIOS DO AMOR

 

"O amor é o astrolábio dos mistérios de Deus."?
Jalal ud-Din R?m?

Se a poesia nos permite acessar a suspensão do tempo – quando passado, presente e futuro dançam entre si -, a memória é a grande aliada da linguagem, matéria-prima fundamental para o poema.

Consciente dessa fusão de tempos (e espaços), a poeta Flavia Muniz Cirilo, utiliza o amor como bússola para guiar seus passos, testemunhas de um percurso poético banhado em lirismo. A poeta entoa sensações, sentimentos e experimentações marcadas no corpo físico e no corpo transcendental. Os caminhos são abertos por lágrimas que escorrem pelas cavidades do instante: "E tanta água correu até que eu virasse oceano. / Revelo-me nestas maresias."

Assim, para capturar seu canto, é preciso se deixar afogar em lágrimas, suores, salivas, sem receio da imersão. Os poemas desse livro podem ser lidos como uma longa carta de amor ao tempo, cantos de rezo permeados de silêncios tardios: "Para esquecer teu rosto fiz um inventário de pequenas mágoas. / Para esquecer teu jeito inventei um monstro de grandes tentáculos." O ser amado - reiventado entre os versos - é presença e motivo de cantos e prantos, reminiscências de gestos perdidos no tempo: "Ao desejar-te tanto / Liberto garrafas ao mar / E hei de saber-me estrangeira À espera Das marés cheias Ondas oceânicas"

Ao ler os versos de [ENTRE COLCHETES] a memória me trouxe o canto do "mistério da necessidade" de Ericson Pires (1971-2012): "aquele que escreve é / também aquele que / é escrito". No mesmo instante em que reescreve seu amor em versos, a poeta é escrita pelos próprios escritos, revelando-se a si própria como parte da Unidade: "E não sou eu a contar o tempo no calendário que carrega os dias. / O tempo é que me conta no inevitável acontecimento do viver."

Flavia Muniz Cirilo carrega em sua escrita a urgência de ocupar os espaços com a própria história, a necessidade de nadar no tempo e preservar o silêncio - para, então, gritar pelos cantos a flama da paixão e o brilho do amor (ainda que perdido), e nos lembrar que a vida é líquida, muitas vezes escorre pelas mãos.

Ramon Nunes Mello


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