mrdc capa

 

Me roubaram uns dias contados

orelha do livro Me roubaram uns dias contados, de Rodrigo de Souza Leão

 

 * * * * *

Ser autor e personagem de suas próprias histórias talvez seja uma das características marcantes da obra de Rodrigo de Souza Leão. No entanto, não se trata somente de extrapolar esses limites em que a noção de realidade está cada vez mais em expansão. “Havia muitas coisas que Rodrigo queria dizer, como angústia, medo, alucinação e dor e perda e morte, e todos os problemas de quem é um sobrevivente.” O autor investiga esse processo e suas palavras ganham outra dimensão na medida em que nos aproximamos delas.

“Eu sou. Rodrigo é. Você é. Ela é. Temos distúrbio delirante. Mania de grandeza. Esquizofrenia. Psicose. Neurastenia. Bipolaridade. Somos um exército de loucos. Sou louco lúcido. Não dá ibope ser assim.”

A polifonia de vozes que constitui a narrativa tece laços, mais do que afetivos, criados pelos personagens. Não há um único Rodrigo, há muitos e distintos entre si. “Ele estava em busca de algo. O algo não procurava por ele. O algo podia ser um elefante ou um peixe-voador.” E nós, leitores, consequentemente nos transformamos em cúmplices de cada linha desta história.

Humor, ironia, derrisão fazem as palavras, muitas vezes duras, fruírem espontaneamente em meio a sorrisos amarelos. Como Rodrigo de Souza Leão se desdobra em personagens, este livro se desdobra em outros livros – que só faz sentindo se estiverem reunidos dentro do mesmo caos: sexo virtual, gozofones, eletrochoques, perseguições da CIA ou KGB, filmes, músicas, pinturas, poemas e cacos emocionais...

“Este livro é uma canção. Um sambinha de nota só. Masturbação. É um cão grande sem coleira na rua. O cão está próximo de mim. Ele não me vê, mas sabe que eu estou ali. O livro vê e sabe que eu estou aqui. O cão me morde. Mordo o cão e mordo o livro. Tudo está claro agora. Ser anônimo não é ser invisível.”

Me roubaram uns dias contados foi último livro escrito pelo autor, falecido em 2 de julho de 2009 numa clínica psiquiátrica no Rio de Janeiro. Este romance – se é que podemos classificá-lo apenas como um romance – é um mergulho na condição humana, em especial, na dura tarefa de existir de um escritor, que convive não só com seus fantasmas, mas também com seus remédios.

Ramon Mello


BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates