escolhas

 

Helô 7.0

apresentação do livro Escolhas, de Heloisa Buarque de Hollanda

 

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“O que leva uma renomada professora de setenta anos, com mais de quarenta e cinco anos de magistério, entregar a organização de sua biografia a um jovem poeta?”, foi o que me perguntei ao longo da organização deste livro. E ainda busco a resposta.

Através da poeta Maria Rezende e do cineasta Murilo Salles, tive o privilégio de conhecer a professora Heloisa Buarque de Hollanda, num debate sobre o universo dos blogs, o Blografias. A ocasião não poderia ser mais adequada, já que se trata de uma intelectual inquieta, curiosa com a produção contemporânea.

A certeza do nosso encontro (e não de um esbarrão) fez com que a confiança mútua resultasse numa profícua troca de ideias Logo trabalhamos juntos. Primeiro no Portal Literal e depois na realização de ENTER — antologia digital. Com um misto de medo e admiração, tive a ousadia de propor a Heloisa Buarque a publicação de uma biografia intelectual no ano de comemoração de seus setenta anos. Sem hesitação, Helô aceitou.

Por sugestão do escritor Bernardo Carneiro Horta, biógrafo de Nise da Silveira, apresentei a ideia ao editor da Língua Geral, Eduardo Coelho, responsável pela estruturação do projeto. Escolhas — título criado por Heloisa — é um livro-memória sobre a trajetória da mais “antenada” intelectual brasileira. Uma “contemporânea da contemporaneidade”, como bem a definiu Luiz Ruffato.

A primeira parte do livro é composta pelo memorial apresentado por Heloisa Buarque ao departamento de Teoria da Comunicação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro para o concurso de provimento do cargo de professor titular no setor Teoria Crítica da Cultura, em 1993. Através de uma narrativa biográfica, Heloisa passeia por fragmentos de memórias para estruturar formalmente seu trajeto intelectual. Episódios de infância, a relação com os livros, as aulas, tudo é esmiuçado com rigor e afeto.

E a segunda parte é um texto atual de Heloisa, escrito a partir de mais de oito horas de entrevistas realizadas em seu apartamento no Leblon, zona Sul do Rio de Janeiro. Os encontros foram aulas sobre cultura brasileira — a cada dia uma descoberta, fragmentos da memória aos poucos se transformavam numa emocionante história. Um inesquecível aprendizado. Por fim, a conversa serviu apenas como guia do texto final que Heloisa escreveu para o segundo capítulo de sua biografia, revisitando pontos importantes do memorial e analisando os temas que estão despertando seu interesse, principalmente a internet e a periferia.

O resultado são dois relatos, que juntos podem nos dar a dimensão do trabalho intelectual desenvolvido por Heloisa Buarque de Hollanda. A crítica da literatura Beatriz Resende, ex-aluna de Heloisa, herdeira do interesse pelos “sinais de turbulência” em nossa cultura, assina a apresentação do livro.

Além de analisar o depoimento, Beatriz relata a experiência de compartilhar a trajetória profissional ao lado de Heloisa. Um diálogo textual sobre o nobre ofício do magistério e idiossincrasias do universo acadêmico, um relato apaixonante sobre o ensino no Brasil.

A orelha do livro, assinada por Zuenir Ventura (amigo de longa vida de Heloisa) é um dos raros momentos em que, mesmo em eterno movimento, Heloisa é “fotografada” com precisão. O texto foi originalmente escrito para o prêmio Mulher do Ano, do Conselho Nacional de Mulheres do Brasil, em dezembro de 1993, após o resultado do polêmico concurso para professor titular da UFRJ.

A produção deste livro só foi possível com a parceria e estímulo de diversos profissionais, como o fotógrafo (marido de Heloisa) João Horta; as editoras Carolina Casarin, Connie Lopes e Elisa Ventura; os produtores Marcio Debellian, Suely Abreu e Valeska Zamboni; o professor Nonato Gurgel; as jornalistas Ana Arruda Callado, Ana Madureira e Teresa Karabtchevsky; e a pesquisadora Uyara Louzada — que mergulhou na Biblioteca Nacional para encontrar as matérias sobre o concurso da UFRJ.

É necessário também agradecer a gentileza dos funcionários do CEPDOC dos periódicos Jornal do Brasil (Elaine Loss), O Globo (Marcos Alexandre Mulatinho e Andréa Moraes da Hora) e Jornal do Comércio (Nathália Gomes).

Além dos jornalistas Luiz Noronha e Geneton Moraes Neto, que autorizaram, pessoalmente, a publicação de matérias. E, ainda, ao Instituto Carpe Diem, representado por Antônio Campos, pela coedição que recebeu ainda o apoio de Lula Arraes.

De forma simples e eficaz, uma rede enorme de amigos de Heloisa contribuiu para o resultado final desse trabalho. Heloisa Buarque planejou sua notável carreira seguindo o amor e a poesia. Incansável, dedicou sua vida à palavra. Um legado que nos permite entender a poesia brasileira, o olhar feminino na sociedade, a relação da literatura na web e a atuação da periferia nos campos culturais.

Dialogando com Murilo Mendes, compreendi que para Heloisa Buarque de Hollanda “é muito difícil esconder o amor/ a poesia sopra onde quer”. Ou melhor, a poesia está em cada página.

Ramon Mello


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