contos de mary

 

Ela não queria falar sobre Kentucky

orelha do livro Contos de Mary Blaigdfield — A mulher que não queria falar sobre o Kentucky , de Lucas Viriato

 

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Contos de Mary Blaigdfield — A mulher que não queria falar sobre o Kentucky é o primeiro livro de prosa de Lucas Viriato de Medeiros. A estreia do poeta na ficção comprova um fato: sua escrita é marcada pelo movimento. Neste livro, o autor acompanha as viagens de seus personagens, mesmo quando eles não saem do lugar.

Um simples feixe de luz, entrando por uma porta de vidro, pode ser o ponto de partida para um caleidoscópio de emoções. “Prismas que captam luz e a jogam em todas as direções.” Impossível é não acompanhar a trajetória de uma protagonista misteriosa, de nome estranho: “Ela é Mary Blaigdfield e ela não quer falar sobre o Kentucky.” Não se preocupem, Mary não precisa falar sobre suas angústias. Os outros personagens falam por ela: “Eu sei! Crupac! Eu sei o que você fez no Kentucky! Crupac! Crupac!”

Podemos ler esse livro como um romance, degustando-o lentamente. Cada um dos contos, mesmo com suas histórias independentes, constrói o universo de Mary Blaigdfield, mulher que se animaliza diante de uma simples suspeita sobre a descoberta de seu passado. Sem dúvidas, uma mulher tão instigante como as outras personagens do livro. Em muitos dos contos, as personas femininas são os catalisadores das histórias, como Lúcia, de ‘Faxina Geral’, que nos faz enxergar que “as flores do jardim eram outras”.

As 13 histórias sintetizam a intensidade da prosa de Lucas Viriato. “Porém, a vida não é feita de possibilidades.” É justamente a impossibilidade de cada personagem, a falta de diálogo, a estranheza diante da vida que transformam a narrativa de um cotidiano sem graça numa história que merece ser lida. O autor mantém um estilo de escrita ousado, sem a pretensão de escrever numa linguagem nova.

No conto ‘Amor de Armário’, um dos melhores do livro, seres inanimados são humanizados através da história de amor entre uma caixa de cereal e de uvas-passas. Lucas Viriato segue a cartilha do poeta Manoel de Barros: As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis — elas desejam ser olhadas de azul. Essa lente poética (cor de mendolatium?) na narrativa prende o leitor, que é levado a mergulhar “nas experiências pessoais, memórias de supermercado, naquela vida de prateleira.”

Em ‘Uma Aventura no Alto do Himalaia’ — releitura contemporânea do monstro das neves, o Grande Vuitton — encontramos a herança do autor: o Oriente. Entendemos que não há para onde fugir — mesmo em movimento, retornamos ao começo. “Ela é Mary Blaigdfield…” Na prosa de Lucas Viriato “muitas coisas resistem”, a lembrança dessas histórias é uma delas.

Ramon Mello 


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