mitologia dos restos

 

Arqueologia dos afetos - sobre a beleza das flores que surgem nos finais de ciclos

orelha do livro Mitologia dos Restos, de Henrique Ludgério

 

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Mitologia dos Restos, de Henrique Ludgério, é uma história de delicadeza, dessas que esperamos em dias nublados. A busca de significado para a existência, que o autor desenvolve com sua linguagem, e construída aos poucos, com fragmentos de vida da sua personagem, Catarina.


A voz melancólica de uma mulher, que nos cerca como uma chuva fininha, aos poucos, inunda a narrativa. “Eu não consegui definir se era ilusão de minha mente imaginativa ou aparição do real.” Quando tomamos ciência, estamos imersos num universo muito particular, de difícil definição. A única certeza e a efemeridade dos gestos: a constante mutação das horas.

Ao leitor, resta colecionar algumas pistas – afetos mal resolvidos, manias silenciosas, e declarações pouco prováveis das personagens – para montar seu próprio quebra-cabeça, mesmo sabendo que faltará peças para completar a vida imaginária de quem se despede de amores acabados.

“Anotei numa polaroide imaginária...” Assim empilhamos sentimentos, como quem guarda livros em caixas de sapatos, na tentativa de adivinhar os próximos passos. De quem são os vestígios arqueológicos que abandonamos em cada percurso narrativo?

Ouve-se ecos de artistas, escritores e poetas que fazem a cabeça do autor/personagem, sem deixar-se envolver nesses novelos. “O que e que ainda se lembra? E o que se pergunta a cada página, sendo necessário vivenciar a leitura em cada gesto. Lembrar é impreciso, deve-se desconfiar das reminiscências. 

Um pequeno filme permeado por silêncios. Ou um jardim colorido de flores que, aos bons observadores, traduz a beleza de expressar-se diante do fim (ou seria recomeço?) – batizado, neste caso, de mudança. A memória como protagonista de um encontro de amor.

Ramon Nunes Mello


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