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Por Ramon Nunes Mello

 

Não sei precisar o ano exato, mas creio que foi em 2003. O episódio aconteceu no extinto Habib’s da Nossa Senhora de Copacabana com a Figueiredo de Magalhães, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Entrei na lanchonete, acompanhado de amigos, e pedi algumas esfirras – provavelmente, frango ou queijo. Enquanto aguardávamos a comida, alguém iniciou um ‘guerrinha de papel’. Pra quê? Acertei a cabeça de uma mulher que estava comendo as gordurosas esfirras, sozinha. Silêncio. Levantei para pedir desculpas e a mulher sorriu e, gentilmente, me convidou para sentar ao seu lado.

Iniciamos a conversa e ela se apresentou: Anna França. Em menos de cinco minutos, deixei os amigos e as esfirras de lado, fiquei fascinado com história dessa mulher. Anna de Lourdes França nasceu no Maranhão e foi para o Rio de Janeiro aos 16 anos de idade. Ela foi para a Província Franciscana, em Santa Tereza, onde ficou até seus 32 anos. Após ter um caso com irmã Heloar, sua Madre Superiora da Casa Belo Horizonte – que permanece com seus votos até hoje –, Anna escreveu a autobiografia Outros hábitos (Garamond), livro que encontrei alguns anos depois num sebo em Copacabana.

E agora Anna França volta a rondar minha vida. Há três dias, terminei de ler o livro O que cabe em duas malas (Editora Guarda-Chuva), relato da alemã Veronika Peters, jovem protestante, que se converte ao catolicismo e resolve largar a vida burguesa para embarcar num mosteiro beneditino. Não, Veronika não se apaixona por uma freira. Mas ela enfrenta dificuldades em largar os velhos hábitos para viver uma vida de clausura. Até que ela se apaixona por um homem e…

Ao ler o livro, lembrei imediatamente de Anna França. Por quê? Tanto Veronika quanto Anna decidiram pela vocação religiosa, abdicando dos prazeres mundanos. Mas a vida surpreendeu as duas com paixões avassaladoras, talvez, tão intensas quanto o amor de Sóror Mariana Alcoforado – a freira portuguesa que se apaixonou por um militar francês e escreveu doloridas cartas de amor, que resultaram livro Cartas Portuguesas (Assírio & Alvim):

“Bem sei que te amo perdidamente; no entanto, não lamento a violência dos impulsos do meu coração; habituei-me à sua tirania, e já não poderia viver sem este prazer que vou descobrindo: amar-te entre tanta mágoa. O que me desgosta e atormenta é o ódio e a aversão que ganhei a tudo”.

Sóror Mariana continuou no convento, fazendo ásperas penitências durante a vida, sem nunca chegar à abadessa, até a morte, em 1723, aos 83 anos de idade. Veronika Peters ainda vive na Alemanha e curte o sucesso editorial do livro. E Anna?

Por onde andará Anna França?

Fiquei surpreso com a notícia: Depois de ter se apresentado em diversos programas TV para lançar o seu livro, Anna França foi presa, em Pendotiba, Niterói, no dia 11 de abril de 2007. Acusada de estelionato, furto, roubo e falsidade ideológica, ela não reagiu à prisão, mas negou todas as acusações. A ex-freira franciscana foi indiciada por estelionato e pode pegar de um a cinco anos de cadeia por cada golpe cometido. Que pena!

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[...] quando conheci a escritora e jornalista  portuguesa Alexandra Lucas Coelho no Rio de Janeiro, em 2010,  apelidou-me de imediato de Dylan Thomas:


"Dylan Thomas apareceu na praia. Chamaram-me, voltei a cabeça, e era a cara dele à minha frente, com aquele topete de caracóis e sem álcool. Dylan Thomas aos 20 anos."

soube depois, quando já havia criado um personagem para suas crônicas no jornal O Público, agora reunidas no livro Vai, Brasil (Tinta da China, 2013), publicado em Portugal. ela me achava parecido com o poeta inglês.


achei engraçado, fui rever a imagem do poeta. há semelhança, o cabelo ondulado e o olhar triste, um pouco mais gordo talvez. ao apelido acrescentei um sobrenome: Tupiniquim.

"O Dylan Thomas que batizei na praia agora assina Dylan Tupiniquim. Brasileiro não teme deixar de o ser, ao comer o outro fica mais forte. Antropofagia é fusão, seria a saída para israelitas e palestinos."

no Brasil, tive a alegria de receber esta portuguesa-carioca com a benção dos Orixás: na praia de Ipanema com Yemanjá e na Floresta da Tijuca com Oxóssi e Oxum.

"Dylan Tupiniquim me abriu as magias..."

e você, caríssima Alexandra, com sua brincadeira me fez reler os versos do poeta idolatrado pela geração beat: "não entre tão depressa nessa noite escura" – se tornou meu mantra.

feliz com sua passagem pelo Brasil (em breve ela retorna a Portugal, infelizmente), sigo seus passos na escrita, trilha amorosa do presente. já estou com saudades de sua amizade que tanto me enriquece; admiro e me encanto por sua paixão pela literatura.

amor, Ramones, seu Dylan Thomas Tupiniquim.

Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2014.

 

ps: com meu bigode, como você percebeu, estou agora mais para "Chico Buarque fase-bigode" anos 70.

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Quando acordo, sempre penso que eu poderia ser outra pessoa. A época também poderia mudar, conforme meu humor. Ao escovar os dentes os pensamentos intrusos desaparecem, estou repleto deles, aceito cada apresentação cotidiana. Vontade obsessiva de criar outros eus. Observo minha morte todos os dias, em cada linha que se forma no esboço de um sorriso. Ou melhor, minhas mortes. Escrevo, cometo pequenos suicídios no decorrer da manhã, logo após o café. Normal. O fim faz parte / o que é vivo / por ser vivo / contrai, descontrai / e morre / ela me disse. Escrever poemas dói, insisto apesar de. Pessoas especiais morrem no dia do nascimento, não será o meu caso. Silêncio. Batizei um dos meus gatos de Silêncio para me lembrar disso. Passo a maior parte do dia calado, sem música – valorizo a quietude dos objetos, dos livros. À noite, para dormir ouço mantras, ou cantos indígenas. Tenho muitas manias, só me desfaço delas quando percebo que se tornaram obrigação. Mania não é obrigação, é mania mesmo. Anotar num caderno trecho de livros possíveis, a primeira frase de um romance inacabado: É perigoso quando o espírito inquieto passeia assim pelo espaço, fica sempre ligado aos sentidos por um laço secreto. Mania. Também gosto de comprar edições autografadas de escritores que admiro. Mania. Sou esquisito. Eu sei. Não sou fácil. Difícil é eu mesmo me aguentar. Tem dia que tenho vontade de sair do corpo, por isso medito diariamente. Um vazio sinistro. Fico quieto esperando o coração acalmar, nem sempre é possível. O que fazer com tanta inquietude? Por um coração que compreenda, repito. A meditação me trouxe a fé. Ou será o contrário? Tenho muita fé, na vida e na arte. Encarando a angústia, motivos humanos passam a ocupar meus vazios. Quem disse que seria fácil o retorno de Saturno? Além de dois gatos, tenho dois livros de poemas publicados e um livro de contos auto-rejeitado. Estou escrevendo o terceiro livro de versos: “a vida efêmera dos peixes de aquário”. Ah, quando mudar para uma casa maior, quero adotar outro gato, branco. Ou, quem sabe, uma lebre que mia. Seria interessante a lebre miando entre os livros, subindo na estante de poesia. Pretendo finalizar o primeiro romance aos 30 anos, promessa interior. E, antes disso, apresentar o infantil “a menina que queria ser árvore”. Sempre quis ser árvore, mas nunca quis ser menina. Gosto de ser homem, e amo homens autênticos. Interesso-me mais por pessoas solidárias do que inteligentes, observo. No mais, tenho preguiça de preconceito, e pessoas que falam em excesso. É sempre complicado falar de mim, fico perdido em labirintos, deixo os outros constrangidos. Prefiro falar sobre sonhos que surgem quando estou presente, agora por exemplo.



Ramon Nunes Mello
Rio de Janeiro, 04 de janeiro de 2014.

[Texto escrito para o "
Projeto Autoretrato", de Renan Nazzos e Sandra Alvarez]

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Por Ramon Nunes Mello
Rio de Janeiro, 07 de outubro de 2012.

A cada dia que passa, entendo a importância dos encontros que tenho na vida - motivo para seguir adiante. Assim, acompanhado de pessoas que compartilham comigo uma determinada afinidade, vou caminhando. Tenho tido a sorte de encontrar seres talentosos, seja no meio profissional ou pessoal. O bom mesmo é quando esse espaço se mistura, borrando as relações sem perder o respeito mútuo.

Há sete anos tive a felicidade de conhecer Marcio Debellian, quando ainda germinava a ideia do ‘Palavra Encantada’, documentário audiovisual sobre música e poesia no Brasil, com depoimentos de nomes consagrados da música popular brasileira. Um encontro, não um esbarrão, que trouxe outras pessoas especiais, que dia a dia modificam meu modo de encarar a vida. Gente que me enriquece, ensinando sobre ética, amizade e amor, no simples ato de existir.

Essa reflexão sobre a arte dos encontros (e outros cruzamentos) surgiu após um ensaio emocionante com a banda Tono para o ‘Palavras Cruzadas’- projeto idealizado pelo Marcio, esse menino das palavras, que resolveu reunir tribos de uma mesma geração para trocar experiências. Sentado no chão de um estúdio em Botafogo, assistindo Ana Claudia Lomelino com sua voz de cristal cantarolar os versos de ‘Eu vou mandar você pro espaço’, parceira minha com Rafael Rocha, tive a dimensão desse encontro. Da importância de se fazer o que ama, com outros que também amam o que fazem.

Recebi o convite para integrar ao projeto quando estava em Londres, em julho, acompanhado de 30 artistas cariocas (outro encontro que revirou minha cabeça), de imediato afirmei meu interesse. Empolgado com a possibilidade de trabalhar com uma banda que eu já acompanhava da plateia, e reencontrar o artista visual João Penoni, cuja amizade foi cultivada na viagem. Juntos formarmos um microcosmo com Ana Claudia Lomelino, Dom, Bem Gil, Bruno di Lullo, Thiare Maia, Rafael Rocha, Kim, Martim (poetastronauta), Bela Meirelles, Eduardo Manso, Paulo Camacho, Miguel Jost, Flávia Paulo, Alessandro Boschini, VJ Notívago, Estevão Casé, Clara Cavour, Daniel Nogueira, Davi Coelho e Marcio Debellian. Ou seja, além da Tono, outras pessoas se aproximaram com contribuições; dos bebês aos amigos.

Os ensaios foram animados, João com suas luzes, Paulo com seus vídeos, os ‘Tonos’ com suas sonoridades, Marcio com suas ideias, Martim com sua pureza e eu com meus poemas. As condições astrológicas não poderiam ser melhores: “O mapa aponta um quadrado fechado entre ninguém mais, ninguém menos do que o Sol, a Lua, Urano e Plutão!!!! Temos também um triângulo fechado com Marte focal, uma oposição entre Vênus e Netuno.  Preparem-se! Este evento tem tudo pra mudar nossas vidas.”

De fato, mesmo antes da apresentação pública, durante três dias no teatro do Oi Futuro – Ipanema, eu pensava: “esse evento vai mudar nossas vidas”.  Pelo menos para mim, o movimento foi intenso. Escrevi minha primeira letra de música, um novo poema especificamente para o projeto, e estou aqui compartilhando a alegria de conviver num universo inventado com arte. Enfim, só me resta agradecer.

Que a vida sempre me reserve o privilégio de trabalhar com pessoas que admiro.

ps: Feliz aniversário Aninha! Cantar em noite de aniversário, além de trazer sorte, abre muitas portas. Parabéns! Que sua voz continue abençoada. Amor.

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Eduardo Coelho (editor)

O BLOG CLICKINVERSOS, destinado a entrevistas com escritores contemporâneos, destaca-se pela produção de conteúdo específico de qualidade. Ratifico a importância deste blog, mantido pelo escritor e jornalista Ramon Mello, como ferramenta na divulgação de escritores contemporâneos e na formação de leitores. É importante ainda destacar que as entrevistas são conduzidas de modo estabelecer um diálogo permanente entre jovens escritores e a tradição.

O CLICKINVERSOS estimula a manutenção da literatura como um sistema, que só faz sentido se existisse a integração entre autores, as obras literárias e os seus leitores, ampliando possibilidades de reflexão não só a respeito de literatura, mas de todas as questões pertinentes a uma sociedade democrática e amadurecida.

Mariza Leão (produtora de cinema e TV)

Destaco a importância do BLOG CLICKINVERSOS para a pesquisa e divulgação da literatura brasileira contemporânea. As entrevistas com jovens escritores, além de servirem de divulgação para trabalhos de qualidade que encontram dificuldade de inserção na imprensa tradicional, incentivam o desenvolvimento de uma nova literatura. O CLICKINVERSOS contribui com a qualidade de informação veiculada na internet e faz da divulgação do conhecimento um projeto empreendedor de alto nível.

Murilo Salles (cineasta)

As novas tecnologias têm despertado meu interesse, principalmente as infinitas possibilidades que essas mídias digitais oferecem para os usuários. Na literatura, os blogs chamaram minha atenção através da escritora e blogueira Clarah Averbuck.

O resultado dessa invenção é o filme Nome Próprio, onde mostro a realidade de uma menina querendo ser escritora, que se isola, que escreve um blog e que usa a sua vida para criar os contornos da sua vida.

Quando lancei esse filme no Rio de Janeiro, fiz questão de convidar o escritor e jornalista Ramon Mello para realizar um debate sobre o filme com a platéia. O evento, intitulado Blografias, reunião a escritora Ana Paula Maia, a poeta Maria Rezende e as críticas literárias Beatriz Resende e Heloisa Buarque de Hollanda para uma conversa com os espectadores do filme.  Encontrei Ramon Mello através da entrevista realizada com a Clarah Averbuck para o BLOG CLIKCINVERSOS. Fiquei impressionado com qualidade dos textos publicados e a quantidade de jovens escritores entrevistados para o blog. O BLOG CLICKINVERSOS certamente servirá como um registro da produção literária contemporânea.

Heloisa Buarque de Hollanda (crítica literária)

O blog hoje tem presença confirmada e legitimada no universo da web. Canal de diários pessoais, de divulgação de livros, de postagem de originais, de jornalismo, tornou-se um espaço de excelência para o desenvolvimento da criação, divulgação da literatura e para reativação da vida literária, há muito pratica perdida no âmbito das letras.

O valor do blog de Ramon Mello, CLICKINVERSOS, é bastante específico visível. CLICKINVERSOS, um espaço criativo de qualidade gráfica incontestável, é onde os novos escritores (e não tão novos assim) deixam seus depoimentos , histórias de vida, comentários de seus processos de criação, fragmentos de obras.

CLICKINVERSOS é um espaço necessário e útil como ferramenta de divulgação de novos autores e um espaço legítimo de pesquisa num panorama em que a grande imprensa não consegue abrigar as novas tendências e as publicações que emergem fora do mercado editorial tradicional. Hoje já temos, por exemplo, abrigados neste blog, depoimentos importantes da nova geração como Michel Melamed, Clarah Averbuck, Adriana Lisboa, Tony Bellotto, Marcelino Freire, Paloma Vidal, Marília Garcia, Flávio Izhaki entre muitos outros.

Enfim, o BLOG CLICKINVERSOS tem tudo para se tornar uma referência obrigatória para a literatura brasileira que se faz hoje no país.

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