TEMPO DE MUTAÇÃO

JEAN WYLLYS NA TRAJETÓRIA POLÍTICA DO BRASIL

Conheci o texto de Jean Wyllys em 2008, após sua participação no Big Brother Brasil 5, por ocasião de uma entrevista sobre "Ainda Lembro" (Editora Globo, 2005), coletânea de crônicas sobre a experiência no reality show e contos do seu primeiro livro, "Aflitos" (Fundação Casa de Jorge, 2001). Com a atuação do escritor, professor e deputado federal Jean Wyllys desfiz alguns equívocos sobre a cultura de massa.

Desde então fiquei atento ao seu crescimento profissional e humano, passei a admirar sua dedicação às palavras – sejam elas escritas ou faladas. Consciente de seu trabalho político-social, acaba de publicar "Tempo Bom, Tempo Ruim – Identidades, Políticas e Afetos" (Cia. das Letras/Paralela, 2014), antologia de ensaios capaz de despertar mentes adormecidas ou aprisionadas por preconceitos e/ou estigmas:

“Sempre que uma minoria reivindica direitos ou procura influir na organização de relações que a oprimem e estigmatizam, os “guardiões” da ordem social – que, claro, gozam de privilégio nessa ordem estabelecida – opõem-se a tais reivindicações, às transformações e ao processo que elas podem trazer. A atitude mais freqüente desses mantenedores da ordem e da moral majoritária consiste em desqualificar os movimentos das minorias por meio de acusações infames e falácias. Um exemplo é afirmação de que as minorias, em sua mobilização, estariam tentando estabelecer uma ditadura. Em relação às reivindicações do movimento, os “guardiões” cunharam até mesmo a descabida expressão “ditadura gay” - como se afirmar o direito à homossexualidade significasse impedir heterossexuais de serem o que são (...) Cada grande momento de afirmação homossexual e reivindicação do direito à homossexualidade provoca, invariavelmente, uma reação homofóbica.”

O lançamento de seus textos engajados registra um capítulo importante na história política do Brasil: o livro é uma referência para se entender a defesa dos Direitos Humanos em tempos atuais, tão sombrios e tão iluminados. "Tempo Bom, Tempo Ruim" também deve ser considerado uma leitura fundamental para os estudos da homossexualidade, ao lado do clássico "Devassos no Paraíso" (Record, 1986) do escritor e ativista João Silvério Trevisan.

Para além da representação como deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro, ele se estabelece como um crítico de seu tempo, pois através da reflexão sobre sua trajetória defende causas urgentes: a criminalização da homofobia, o combate ao fundamentalismo religioso, a efetivação da laicidade do Estado, a solidariedade ao portador do vírus HIV, a democratização dos meios de comunicação e a regulamentação da maconha. Como parlamentar, sua voz faz eco com a voz de seus parceiros de lutas sociais, como, por exemplo, Chico Alencar, Erika Kokay, Marcelo Freixo e Luiz Eduardo Soares.

O escritor e teólogo da libertação, Leonardo Boff, caro na formação de Jean Wyllys, destaca em “Nova Era: Civilização Planetária” (Editora Ática, 1994), que, em tempo de mutações, para transformar as relações sócio-culturais, “devemos acreditar na força revolucionária da semente”. Ou seja, devemos acreditar em nossos ideais e lutar por eles com a “consciência solidária e planetária, o sonho de uma democracia social”.

Pode-se afirmar que Wyllys tem fé (e muita) nesta “semente” que chamo de “palavra”. E que, por sua vez, ele próprio batiza de “arma” – que utiliza para vencer, não somente o embate com a linguagem, mas a “guerra perene” que enfrentamos ao nascer. Em seu caso, uma luta constante (da sobrevivência à infância pobre na Bahia aos atuais embates políticos em Brasília) que tem resultado em suadas vitórias.

Talvez o que mais revolte seus adversários políticos, num meio tão medíocre quanto hipócrita, é a capacidade que Jean Wyllys tem de articular seus pensamentos e defender seus ideais. Gay, pop, altruísta, celebridade, ativista, político... Pois é, ele é tudo isso, sem vergonha, o que faz suas palavras serem pautadas pela liberdade. Que venham mais livros e outros mandatos de parlamentar; aumentando assim sua força para lutar pelos Direitos Humanos.

Ramon Nunes Mello é poeta, jornalista e ativista dos Direitos Humanos.

[Publicado originalmente no site Ornitorrinco]

THAÍS GULIN, PRESENTE PARA A MÚSICA BRASILEIRA

Por Ramon Nunes Mello [Saraiva Conteúdo]

 

Quando criança, Thaís Gulin montava peças de teatro com os vizinhos, inventava música sozinha e obrigava os pais a assistirem às apresentações que organizava. Foi na solidão do seu mundinho, ao som de Balão Mágico, Nara Leão e João Gilberto, que a talentosa menina transformou-se na cantora que ouvimos celebrando seus ídolos. Desde 2007, a curitibana vem conquistando espaço na música popular brasileira, com a aprovação de gente como Tom Zé, Jards Macalé, Nelson Sargento, Zeca Baleiro e Arrigo Barnabé – artistas que têm composições no disco de estreia da jovem.

Do novo time de cantoras da música popular brasileira, Thaís Gulin se destaca “não apenas pela voz clara de emissão segura, mas pela escolha criteriosa do repertório, com um viés de vanguarda de que ela participa como autora, e ainda pelo tratamento instrumental inventivo do tema”, segundo Tárik de Souza, referindo-se ao primeiro álbum da cantora e compositora, Thaís Gulin, lançado em 2007 pela gravadora Rob Digital, que apresentava releituras como “Garoto de aluguel”, de Zé Ramalho, e “Hino de Duran”, de Chico Buarque, além de composições suas em parceria com Arrigo Barnabé e Rogério Guimarães.

Curitibana radicada no Rio de Janeiro, Thaís Gulin se prepara para lançar o segundo álbum em setembro pela gravadora Biscoito Fino, É só você segurar na minha mão quando for mergulhar – título provisório. O repertório do disco, produzido por Alê Siqueira (Marisa Monte, Omara Portuondo, Elza Soares) e Kassin (Vanessa da Matta, Los Hermanos), inclui a música de Ivan Lins – “Paixão, passione” – gravada por Gulinpara a trilha sonora nacional da novela Passione, da TV Globo. E há ainda composições inéditas de nomes como Adriana Calcanhotto e Tom Zé – único artista a fazer participação especial no disco, com “Ali Sim, Alice”.

“Liguei para o Tom Zé e a dona Neuza, mulher dele, atendeu. Falei: ‘Oi, é a Thaís Gulin, que gravou ‘Cedotardar’. Tô fazendo meu segundo disco, será que o Tom Zé se anima em me mandar uma inédita?’ Ela disse: ‘Acho que ele vai adorar.’ Esse é um disco praticamente de inéditas, é mais difícil de se fazer que o primeiro, fui deixando sair, fiquei flutuando por um tempão até ter a primeira ideia. Aí foi indo, indo”, diz a cantora e compositora, que reservou espaço para composições próprias (“Horas cariocas” e “ôÔôôôôÔô”), músicas de jovens compositores como Kassin e Rodrigo Bittencourt, e parcerias com Moreno Veloso. Além dessas novidades, o disco traz também duas releituras, uma delas de música de Jards Macalé.

O que é tão diferente nesta nova fase? “A distração. O acaso das ideias, dos encontros e inspirações.” E completa: “Eu tenho mania de pensar que eu não vou saber fazer nada do que fazia na semana anterior [risos]. Imagina de um disco para o outro. É um abismo, é muita liberdade... Embora este disco seja uma continuação, não consigo seguir o que aconteceu. É como se precisasse dar um chute no castelinho e começar como se nada tivesse acontecido”, revela Gulin, que também investigou o repertório do show, durante o ano de 2009, em apresentações do seu projeto Musiqueria \o/ Processo Aberto e Distraído.

Aos 30 anos, Thaís carrega em sua música a inquietude que adquiriu no tempo em que fazia teatro na adolescência. Quase ninguém sabe, mas ainda muito nova ela veio para o Rio de Janeiro fazer as oficinas de teatro de Gerald Thomas. Chegou a cursar Performing Arts no Manchester City College, na Inglaterra. Em 2001, radicou-se no Rio com o propósito de ser atriz e cantora. A música foi trilhando o rumo da sua vida, acabou estudando no Conservatório de Música Brasileira de Curitiba e se formou bacharel na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), no curso de Música Popular Brasileira – Arranjo.

Desde então, vem conquistando crítica e plateia pelo Brasil com interpretação bastante particular, cheia de força, personalidade e lirismo. O sonho de menina se torna cada vez mais real, mas sem perder a fantasia. Thaís Gulin surpreende pela escolha de repertório diferenciado e sofisticado. Em seu canto, a música brasileira é marcada por criatividade e atitude, revelando uma sonoridade ímpar.

YO NO CREO EN BRUJAS, PERO QUE LAS HAY, LAS HAY

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2010)

Quem acompanhou a lista de livros de ficção mais vendidos no Brasil, nos últimos dois meses, se deparou com o nome de um escritor brasileiro até então desconhecido. Acredite ou não, trata-se de um estreante: Eduardo Spohr, autor de A Batalha do Apocalipse (Verus/Record, 2010). Já ouviu falar? Então, guarde o nome desse escritor carioca de 34 anos que tem atraído o interesse de leitores de livros fantásticos como CrepúsculoHarry Potter e Senhor dos Anéis.

A grosso modo, entende-se literatura fantástica como histórias de ficção científica, fantasia e horror. Dentre inúmeras, uma definição aparentemente óbvia, mas instigadora é do escritor americano H. P. Lovecraft (1890 – 1937): “Fantástica é toda história em que alguma coisa impossível acontece”. Se o dito fantástico é gênero que se consolidou a partir do século XIX, com o Romantismo, desde a Antiguidade Clássica, os monstros habitam a literatura, como feiticeiros, bruxas, vampiros, lobisomens, além de animais e elementais sujeitos a transformações. Ao ler uma história de fantasia, concorda-se em deixar de lado os preconceitos para mergulhar na narrativa.

Esse acordo tácito entre a fantasia e a imaginação parece ser o ingresso para que o impossível adentre a realidade. Se assim for, podemos dizer que velhos conhecidos nossos do chamado Realismo Fantástico, como Gabriel Garcia Marquez e Jorge Luis Borges estariam incluídos. Certo? Talvez?! Neste espectro que vai do real ao imaginário parecem caber todos. A literatura será generosa, desde que o leitor se doe sem restrições.

A Batalha do Apocalipse , de Eduardo Spohr, conta a história de anjos como super-heróis, num instigante confronto entre anjos caídos e exércitos celestes, durante os últimos dias da Terra, antes do Apocalipse. Das ruínas da Babilônia ao esplendor do Império Romano, das vastas planícies da China aos gelados castelos da Inglaterra medieval, acompanhamos um épico repleto de lutas heroicas, magia, romance e suspense. Apropriando-se do conhecimento da mitologia, da Bíblia e da cultura nerd, Spohr encoraja jovens leitores (em sua maioria homens) a encarar um calhamaço de 558 páginas e letras diminutas.

“Eu tinha a história na cabeça há mais de dez anos. Quando parei para escrever, fiz um roteiro antes, já estava mais ou menos pronto. Em 2003 eu estava desempregado, o livro só ficou pronto em 2005. Sou muito disciplinado, levei dois anos escrevendo, aproveitei o ócio do desemprego. Star Wars foi um filme que me ajudou a gostar de mitologia. Vertigo, a série de quadrinhos, e o filme Anjos rebeldes são duas grandes influencias marcantes. Além disso, li muito RPG, o que me ajudou bastante no livro. Como não sou gênio, tive de arrumar um esquema de trabalho. Sempre gostei de escrever, sempre fui fascinado por história, mitologia e religião”, conta Spohr que também dá aulas na Facha (Faculdades Integradas Hélio Alonso), na zona sul do Rio de Janeiro, em um curso sobre a jornada do herói no cinema e na literatura. Não por acaso, esse herói tem mil faces. Trata-se do conceito de jornada cíclica introduzido por Joseph Campbell, autor de um dos livros mais influentes do século XX: O herói de mil faces. Esse antropólogo norte-americano, profundo conhecedor da mitologia, respalda-se em arquétipos jungianos para mostrar que a narração da história universal, de Cristo a Buda, passando por Maomé e Moisés, é sempre a mesma. Segundo ele, seria possível estruturar qualquer história a partir do roteiro básico da jornada do herói ou desconstruir as histórias, entendendo os elementos que constituem a jornada. A obra de 1949 vem influenciando escritores, dramaturgos, autores e mestres do RPG e, no cinema, foi fundamental para nomes como Coppola, George Lucas e Spielberg.

Para Sphor, a trajetória foi longa até chegar ao êxito no mercado editorial. Primeiro ganhou o Prêmio Fábrica de Livros, na Bienal do Livro 2007. Tudo começou com 100 cópias cedidas pela vitória do concurso. Em dezembro de 2009, foram vendidos – graças aos nerds – mais de 4.500 exemplares impressos pela Nerdbooks, selo independente criado por Alexandre Ottoni e Deive Pazos, responsáveis pelo bem sucedido site Jovem Nerd, que possui mais 800 mil acessos únicos por mês.

O sucesso na internet foi tanto que atraiu a atenção da editora Raissa Castro que procurava livros do gênero fantástico. Uma semana após o lançamento pela Verus, que tinha acabado de se integrar ao Grupo Record, A Batalha do Apocalipse estava na lista de mais vendidos nas revistas Veja e Época.

“Eu soube do livro através do meu genro, que acompanhava o site Jovem Nerd. Ele me disse o título e eu gostei: A Batalha do Apocalipse. Em seguida entrei em contato com Eduardo, mas ele ficou meio desconfiado, me mandou comprar o livro. [risos] Comprei o livro e enviei para duas mulheres – que, na teoria, não seria o público dele – diferentes analisarem: uma delas era especialista em mitologia e a outra nerd. Elas ficaram muito impressionadas! E eu devorei o livro. Publicar sempre é um risco, mas no caso do Eduardo Spohr eu estava confiante porque ele já tinha um público cativo na internet. O que me surpreendeu foi a rapidez nas vendas, já editamos mais de 40 mil exemplares do livro. Antes de transformar em filme, a ideia é correr para fazer a publicação internacional. Um passo de cada vez”, comemora a editora que prepara uma edição especial de A Batalha do Apocalipse com ilustração de Andres Ramos e uma espécie de dicionário da história, um universo expandido.

O sucesso de Eduardo Spohr, além de abrir caminhos para outros escritores do gênero fantástico, também coloca em pauta uma literatura que se estabelece cada vez mais em constante diálogo com os leitores, principalmente os jovens, através da web.

Os leitores

Qual é o ingrediente para fazer um livro de sucesso entre jovens? Há ingredientes?  Para Rosa Gens, professora e doutora do Departamento de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, há elementos fundamentais para atrair o público leitor em questão.

“Primeiro, a ideia de aventura que está em todos os livros. Em segundo, o amor, não qualquer tipo de amor, mas o amor romântico. E terceiro, a mitologia. O jovem é interessado em leitura? A tendência é dizer não. Mas eles leem muitas narrativas na web. Eu não acho que seja escape a leitura de histórias fantásticas, os jovens tentam entender o mundo a partir da fantasia. Esse universo é muito bom para o jovem porque ele quer ‘dominar o mundo’. Tudo é uma questão de entender o mundo simbolicamente. Ainda não li o Eduardo Spohr, mas sei que o André Vianco, por exemplo, faz uma literatura interessante. Ele sabe contar bem uma história, manter o suspense. Velhos ingredientes que são utilizados de maneira boa”, explica Rosa.

Não é à toa que a história de amor entre vampiros já rendeu tantos desdobramentos. Os quatro livros da série da escritora americana Stephenie Meyer –CrepúsculoLua NovaEclipse Amanhecer – já venderam 77 milhões de cópias no mundo, sendo 2,2 milhões de exemplares só no Brasil.

Para Ana Lima, editora do Selo Galera, criado em 2007 pela editora Record para atender ao público juvenil, as histórias (de amor) têm de ser bem contadas, acima de tudo, para  que o leitor se divirta.

“Os leitores gostam de ser transportados para outro mundo. Já vi meninas dizerem: ‘Não tem amor? Então, não gosto’. É uma geração que quer se apaixonar. O amor romântico é o que está presente nessa febre do Crepúsculo, por exemplo. É algo que ocorre com os livros da nossa autora Cassandra Clare, de 37 anos, autora da série Os instrumentos mortais, uma febre entre as meninas. Ela é muito participativa no Twitter [@cassieclare], o que é importante. Os leitores desse livro interagem muito, eles se relacionam na web e promovem encontros fisicamente. O Twitter da Galera [@galerarecord], por exemplo, já atingiu mais de sete mil seguidores, sempre fazemos promoções. A interatividade com o leitor, a relação interpessoal, é mais importante do que a matéria de jornal”, afirma Ana Lima, que em novembro acompanha os encontros de fãs de Cassandra Clare para falar do livro Cidade dos Ossos em 12 cidades do Brasil.

Editoras brasileiras 

No Brasil, o escritor Bráulio Tavares é o grande responsável por divulgar textos fantásticos que estavam soterrados nas obras de autores canônicos, entre os títulos Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros (2003), Contos fantásticos no labirinto de Borges (2005) e Freud e O Estranho: contos fantásticos do inconsciente (2007), Contos obscuros de Edgar Allan Poe (2010), todos pela editora Casa da Palavra.

A editora Intrínseca é a responsável pela publicação de algumas das séries mais famosas de literatura fantástica: Os imortais, de Alyson Noël; Hush, hush (Sussurro), de Becca Fitzpatrick; Percy Jackson e Olimpianos, de Rick Riordan; Como treinar o seu dragão, de Cressida Cowell; e Crepúsculo, de Stephenie Meyer – a mais bem-sucedida autora do gênero, seguida por Riordan e Noel.  No entanto, a Intrínseca ainda não publica autores nacionais.

A Rocco também possui muitos títulos em literatura fantástica, mas em sua maioria autores estrangeiros. Contudo, recentemente, um dos mais bem sucedidos autores brasileiros de histórias de vampiros, o paulista André Vianco, que já vendeu mais de 700 mil exemplares, fechou contrato com a Rocco para lançar o livro O caso Laura, um policial de atmosfera dark. Além disso, ele continua a publicar pela Novo Século – editora brasileira especializada no gênero fantástico, que investe em autores nacionais, assim como Devir, Draco, Giz Editorial, Tarja Editorial, Aleph e DCL.

Hoje em dia, Andre Vianco – que pagou a edição do seu primeiro livro, Os Sete, com a verba do FGTS, quando estava desempregado – tem um público fiel, 14 títulos publicados, dois livros a caminho e uma trilogia prevista para 2011, além de um piloto para adaptar os volumes de O Turno da Noite para a televisão.

Além de Vianco e Spohr, a relação de brasileiros que têm-se firmado no mercado com suas histórias fantásticas é enorme, entre eles destacam-se Carolina Munhoz, Raphael Draccon, Leonel Caldela, Martha Argel, Nelson Magrini, Roberto de Sousa Causo, Laura Elias, Flávia Muniz, Gerson Lodi-Ribeiro, Eric Novello e  Giulia Moon.

Preconceito?

Se há preconceito, principalmente no meio intelectual, com autores de best-sellers, imagine quando o livro é do gênero fantástico. Embora a literatura oral tupiniquim (curupiras, sacis, ipupiaras, m’bois) seja repleta de fantasia, o preconceito se perpetua devido à falta de tradição do gênero e poucos estudos na área.

Ana Paula Costa, editora-chefe de ficção da Record, pondera: “É um público muito diferente. Os autores que escrevem para jovens têm muita qualidade, não é fácil cativar esses leitores. Talvez os adultos tenham vergonha de ler livros de jovens.”

Já a professora Rosa Gens é categórica sobre o assunto: “Literatura policial, terror e literatura amorosa estão na mesma prateleira do preconceito. Na verdade esses autores são formadores de leitores, ensinam a ler e a pensar. Ler por prazer e para aprender a ler bem”, defende.

Percebe-se que, com ou sem preconceito, além de um bom negócio para autores e editores, a literatura fantástica – em todas as suas vertentes – pode ser promissora para o despertar de novos leitores.  E a internet, de fato, é uma grande aliada.

 

 

Sou Ramon Nunes Mello, 31 anos, poeta, escritor e jornalista. Estou soropositivo. Reagente. Essa é a palavra que consta no resultado de um exame positivo de HIV, metáfora para um despertar da vida. Reagente. No mesmo sangue em que hospedo o vírus HIV, carrego (além de muitos sonhos) o senso de integridade e convicção de que a grande cura da AIDS é o combate ao preconceito.

O primeiro momento - a descoberta - é de desespero. Porque, embora não mais signifique sinônimo de morte, o imaginário em torno do HIV é repleto de sombras. Eu vou morrer? Não vou mais namorar? Como será minha vida agora? Tive de enfrentar meus medos e rever a minha forma de enxergar o mundo. Não foi nada fácil. Procurei amigos, familiares e conhecidos para me entender diante de uma nova dinâmica de vida. Por essas pessoas tenho imensa gratidão, pois fui acolhido com solidariedade e afeto.

Ciente do diagnóstico, passei a cuidar melhor de minha saúde física, mental e espiritual. Optei pela vida, positivo. Amigos queridos me apoiaram e me indicaram um excelente infectologista e pesquisador - Dr. Estevão Portela Nunes – fundamental no processo de enfrentamento dos meus próprios preconceitos. Passado um tempo, criei coragem e conversei com minha família, que tem sido amorosa como sempre. Todo esse caminho foi fundamental para que eu decidisse abrir a questão publicamente, e começasse a direcionar a minha vida para uma possível atuação com direitos humanos.

O que mudou? Inúmeras coisas, principalmente no que diz respeito ao amor próprio. A conexão com o que me fortalece se aprofundou: a linguagem literária como busca e forma de vida; a prática do yoga, da meditação e do silêncio com mais profundidade; o exercício da minha fé na comunhão com a natureza, através da ayahuasca – planta mestra, enteógeno, que ensina a valorizar o ouro das palavras e a ancorar a presença no corpo. Aceito o chamado, integro o medo, confio em minha transformação e agradeço a chegada de dias auspiciosos, em busca de amor, liberdade, humor, paz, alegria e solidariedade.

Após o susto, me encontro em outro momento, entendi a necessidade de se conversar sobre o HIV. Não há culpa ou vergonha, importante lembrar, embora os preconceitos cultivados em nossas sociedades ainda façam pensar o contrário. Vou continuar a me relacionar, transar, namorar e amar, com mais consciência. Amor não tem fim. Obviamente, desde o diagnóstico em 2012, além de usar preservativo, tomo diariamente antirretrovirais, o que tornou minha carga viral indetectável – fundamental para não propagar o vírus, ou seja, não contaminar o outro.

Mas, contar ou não contar? Esse é o grande dilema das pessoas que vivem com HIV. Tenho obrigação de falar sobre a minha sorologia com todos os meus eventuais parceiros? Não. Há responsabilidade com minha saúde e cuidado com as pessoas que se relacionam comigo. E, de acordo com legislação brasileira, quem está soropositivo tem o direito ao sigilo e ninguém pode expor a situação sorológica de uma pessoa. Provavelmente você já se relacionou afetivamente com alguém que vive com HIV, mas poucas vezes devem ter lhe contado do diagnóstico. O receio da rejeição e do preconceito provoca a necessidade de manter segredo. O maior problema da epidemia não é quem está soropositivo em tratamento, mas quem está “sorointerrogativo”, ou seja, desconhece a própria sorologia.

Respeito profundamente quem está soropositivo e opta pelo silêncio, diante do estigma e da discriminação, só quem lida diariamente com o HIV conhece as dificuldades. Mas faz parte da minha natureza, hoje mais do que nunca, viver de forma política. O silêncio seria outra sombra, uma forma de morrer sem lutar. É preciso acabar com o tabu, romper com a representação de que o HIV é igual à morte, e garantir ainda mais a cidadania de quem vive com o vírus. Compartilho publicamente o meu diagnóstico porque hoje tenho consciência de que a visibilidade em relação à vivência com o HIV pode modificar minha realidade e, quem sabe, colaborar com aqueles que passam pela mesma experiência.

Fui em busca de referências em livros, blogs e sites (a internet é uma grande aliada) sobre o assunto, para entender como eu deveria me posicionar. Descobri diversas pessoas corajosas, muitas delas anônimas, que formam uma rede de informação e conhecimento. Mas foi no grande sociólogo e escritor Herbert de Souza, o Betinho (1935 – 1997), fundador da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS), que descobri um pensamento fundamental: “Tenho a convicção de que a AIDS, assim como tudo na vida, é um assunto político, e que a política da AIDS tem de ser construída em base à esperança e à coragem”. E fé na vida, eu acrescento.

Estou entre as 734 mil pessoas vivendo com HIV no Brasil (em todo o mundo, a estimativa é de 37 milhões), de acordo com o Ministério da Saúde. Esse vírus há três décadas se espalhou pelo planeta, infectou 60 milhões de pessoas, e causou mais de 30 milhões de mortes, inclusive alguns “irmãos de alma”, a quem admiro:  Henfil (1944 -1988), Lauro Corona (1957 -1989), Cazuza (1958 - 1990), Reinaldo Arenas (1943 - 1990), Nestor Pérlongher (1949 - 1992), Leonilson (1957 - 1993), Caio Fernando Abreu (1948 - 1996), Renato Russo (1960 - 1996) e Al Berto (1948 - 1997).

É notório o progresso no combate a HIV/AIDS no Brasil, e no mundo, mas não quer dizer que a doença esteja sob controle. Mais de 150 mil brasileiros têm o vírus HIV e não sabem, pois não fazem o exame. Ou até fazem o exame, mas não buscam o resultado por medo de encarar a realidade. Há uma crise mundial, muito próxima de todos nós, que tem implicações sociais, culturais, econômicas e morais. O índice de contaminação cresce diariamente entre jovens héteros e gays, infelizmente vivemos uma epidemia crescente e a vulnerabilidade é igual para todos.

Hoje há tratamento, é verdade, o que diminui consideravelmente a mortalidade por AIDS desde sua descoberta em 1981. Afora os efeitos colaterais dos medicamentos, principalmente o preconceito (muitas vezes do próprio portador) – e não o vírus – destrói a autoestima, o afeto e a sexualidade. Temos de lembrar sempre para evitar mais sofrimento: o HIV atinge pessoas de diferentes camadas sociais, gêneros ou religiões, sem distinção.

O mundo precisa de mais solidariedade, nós precisamos de mais amor: pela cura do planeta. Pela força de mudança que se apresenta no mundo, fixo meu olhar no presente e declaro meu apoio aos cidadãos que lutam pelos Direitos Humanos e trabalham por um Brasil mais igualitário, por um futuro com mais SOLIDARIEDADE – “a grande vacina contra a AIDS”, como ensinou o escritor e ativista Herbert Daniel (1946-1992).

O HIV não mais significa uma sentença de morte. As pessoas que vivem com o HIV não estão doentes, convivem com o vírus. Palavras que impõem limites e mudanças profundas – HIV/AIDS – é necessário pronunciá-las e escrevê-las, só assim podemos criar um novo imaginário diferente do estigma associado ao início da epidemia. O fim é o meio. Ou o recomeço.

Com poesia termino essa carta (que comecei a escrever no ano em que descobri estar soropositivo), ingrediente necessário para afastar a morte e todos os seus fantasmas:

diálogo com William S. Burroughs

ser 
extraplanetário 
eu sou o outro você

in lak'ech ala k’in
transformo 
objeto em sujeito

a linguagem
o verdadeiro
vírus

Rio de Janeiro, 01 dezembro de 2015.

Ramon Nunes Mello

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