Criação coletiva na nova era
Artistas mostram como improvisações podem ganhar visibilidade mundial ao misturar tags e links

[Ramon Nunes Mello - O Estado de São Paulo - 31 Outubro 2010]

 

Uma obra pode nascer de uma criação coletiva? Sim. Nas artes, em especial no teatro, a expressão "criação coletiva" é bastante conhecida. Inúmeros grupos de artistas - Asdrúbal Trouxe o Trombone, O Teatro do Ornitorrinco, Mambembe, Ventoforte - já provaram que a construção de uma obra a partir do grupo, através de um processo improvisado, pode ser muito bem realizada quando se tem pesquisa e repertório consistentes.

A extensão desse conceito pode ser vivenciada na web, para além dos limites territoriais, em outras áreas artísticas como a música e a literatura. Em tempos de Web 2.0, os músicos não têm se limitado a compartilhar vídeos ou baixar músicas na rede. Mesmo a criação não sendo propriamente uma novidade, o Control C + Control V pode colaborar e muito na recriação de um trabalho artístico.

O autor de um projeto original pode ganhar uma visibilidade mundial em poucos dias, ao se misturar entre tags e links. O músico israelense Kutiman, de 27 anos, por exemplo, era pouquíssimo conhecido até que no começo desse ano disponibilizou sua ideia na rede.

Kutiman criou o projeto Thru You e ficou famoso como "o homem que entortou o YouTube". Ele combinou trechos de sons e imagens desconhecidos, criando assim músicas inéditas, como um jazzista a improvisar. Suas experimentações são cultuadas por especialistas do universo musical como verdadeiras obras primas.

Há poucos dias foi a vez do músico Andy Rehfeldt, que ganhou fama por transformar toda a música e manter a característica dos artistas: o metal vira música da Disney e o pop vira metal. Um dos vídeos mais conhecidos é Enter Sandman (Metalica) apresentado em smooth jazz.

Para o compositor e cantor Dimitri BR, autor do projeto Diahum, que consiste em publicar online uma videocanção original, a cada dia primeiro do mês, o trabalho de Kutiman pode ser considerado autoral. O que coloca em pauta a discussão a expressão artística autoral.

"O Kutiman está tocando a internet, utilizando elementos que já existem como instrumento musical. A imagem é determinada pelo som, o que aparece é consequência do som que se quer ouvir. Eu considero o trabalho do Kutiman autoral, embora as influências estejam explícitas. As colaborações estão presentes, é inegável, mas o DJ é o autor. O imbróglio é comercialização. Como pagar os samplers? É a questão. Mas o crédito é indispensável, pois a divulgação é grande moeda de troca", afirma Dimitri, que disponibiliza seu trabalho, Música Sólida, para download na internet através do Pay with a Tweet - site que permite o usuário baixar vídeos, músicas inéditas e e-books, "pagando" ao artista através da divulgação do seu trabalho em comunidades virtuais como o Twitter.

Em território tupiniquim, o músico João Brasil criou o blog 365 Mashups, um projeto em que reúne mashup diferente por dia desde o primeiro dia de janeiro de 2010, faz mistura satíricas de Steve Jobs com Lady Gaga, Beatles com Funk e Tessália com Glen Gould. Há dois anos, até mesmo o carioca Marcelo Camelo, ex-Los Hermanos, se encantou com esquizofrenia audiovisual da internet e inventou fazer colagens com pedaços de vídeos do YouTube. O projeto, intitulado Orquestra YouTube, foi tomado como experiências de e-music e levado para o palco.

Assim, misturando o acorde de uma guitarrista brasileiro, o vocal de um músico inglês e alguns samplers de diferentes canções, temos um mashup - expressão cunhada a partir de remixagens musicais, também conhecidas como bastard pop ou bootlegs. A cultura do mashup já foi apropriada pela música contemporânea, marcada pelo caos e fragmentação, mas há quem defenda que literatura é pioneira nessa "brincadeira".

"O escritor Leonardo Villa-Forte, o DJ da literatura, realiza com o projeto MixLit um trabalho de seleção e edição de textos, assim como os DJs que adicionam e cruzam instrumentos e músicas em uma única faixa. A mistura diversos autores e estilos pode gerar surpreendentes mash-ups literários.

Mashup. "O Mix Lit surgiu no fim do ano passado, durante minhas leituras percebi a conexão entre os textos e o caráter político sobre o trabalho do leitor/autor. Neste projeto, sou autor de um remix, de um mashup, busco as palavras nas páginas de outro. A grande questão é a comercialização dessa obra. Um livro do Flavio Carneiro, O Leitor Fingido, que fala justamente como liberdade do leitor. A tradição literária, de uma certa forma, é um grande mashup", diz Villa-Forte que pesquisa e seleciona trechos de diferentes autores, consagrados ou não, para misturar num novo texto, intitulando seu trabalho de "literatura remixada".

Toda essa ideia remixagem lembra a composição Remix Século XXI (1999), de Wally Salomão e Adriana Calcanhotto: "Armar um tabuleiro de palavras-souvenirs. / Apanhe e leve algumas palavras como souvenirs. / Faça você mesmo seu microtabuleiro enquanto jogo linguístico".

Entre o amalgama de tantas vozes, é fácil notar que autoria está em processo de transformação. O semiólogo francês Roland Barthes (1915-1980), autor do polêmico texto A Morte do Autor, entendia o escritor como o imitador de um gesto anterior a ele, nunca original. Assim sendo seu único poder misturar escritas. A questão é entender como preservar os direitos de múltiplos autores.

FERNANDA MONTENEGRO 8.0

HOMENAGEM A ATRIZ MAIS RESPEITADA NO TEATRO BRASILEIRO

FERNANDA MONTENEGRO E A BUSCA DO OUTRO

Por Ramon Nunes Mello [Portal Cultura.rj 2010]

 

Fernanda Montenegro estreou no teatro, aos oito anos, interpretando um menino na peça Dois Soldados, numa Paróquia em Campinho, no subúrbio do Rio de Janeiro – nessa época, ela ainda se chamava Arlette Pinheiro Esteves da Silva. Em 2009, ano em que comemora 80 anos, a ‘dama do teatro brasileiro’ estreou, também no subúrbio do Rio, o monólogo Viver sem tempos mortos, com a direção de Felipe Hirsch, onde vive a intelectual francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), a partir da correspondência dela com o marido, o filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980).

“Em nenhum momento me perguntei se o público entenderia Simone de Beauvoir. Não carrego o preconceito de achar que as pessoas do subúrbio têm menos intelecto, o que eles têm é menos oportunidade. Não há cidadania de segunda classe no subúrbio! Nasci em Campinho, mas depois morei muito tempo em Jacarepaguá, aliás, foi onde frequentei a primeira escola pública”, afirma a atriz, que estreou o espetáculo em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, antes de partir em temporada.

Quando Fernanda sobe ao palco, o silêncio impera, a plateia se concentra para, mais do que assistir, acompanhar a viagem de condução ao outro. Quando a luz se acende, não é Arlette, não é Fernanda, diante do público, sentada numa cadeira no centro do palco, está Simone de Beauvoir e a história de amor que transformou o século XX. ‘Não se nasce mulher, torna-se mulher’, Fernanda é exemplo vivo da teoria de Simone.

O nome da peça, slogan de 68 – “Viver sem tempos mortos” – traduz toda encenação: “é preciso lutar, ter capacidade de agir, ter presença na vida”, como a própria Fernanda explica no debate e como age na premiada carreira.

Durante o espetáculo, quando Simone fala da morte de Sartre, é impossível não associar Fernanda Montenegro e Fernando Torres, o casal que vivenciou a história do teatro brasileiro. Emoção toma a cena, aprende-se, sem querer, a lidar com a perda – lembra-se da cadeira vazia no centro do palco.  Como lidar com esse sentimento?

“Não é que seja impossível, mas a vida toma outro rumo, se torna outra coisa. Foram anos tão juntos que é como se estivesse junto. Tem a falta da presença física, mas é cumplicidade que é inerente. Compreende? É como se”, generosamente, Fernanda tenta explicar o sentimento em relação à perda do companheiro de longa data.

Para a socióloga e escritora Rosiska Darcy Oliveira, que divide o palco com a atriz, após a apresentação do espetáculo, para um debate com a plateia, Fernanda Montenegro tem muito de Simone de Beauvoir:

“Fernanda tem dignidade, a coragem e a persistência de Simone. Hoje para manter uma relação amorosa de 60 anos é preciso ser muito revolucionária. Fernanda Montenegro faz parte do que chamo de o melhor do Brasil”, Rosiska elogia e completa:

“Somos pessoas preocupadas com a democracia. Essa questão da igualdade de gênero é importante para os jovens: homens e mulheres. No debate, tentamos criar um clima de conversa, reconstruir espaços de conversa. É uma oportunidade de ser mais que um espectador. O projeto tem esse objetivo, trocar ideias e provocar reflexão”.

Para Fernanda, como para Sartre e Simone, o ‘acaso’ tem um papel fundamental, dita a última palavra e traduz a realidade.

“Eu não armei isso, não esperei. A vida foi me surpreendendo à medida que fui vivendo. Eu amava, desde cedo, isso que eu quis fazer. Quanto aos resultados?! Se nada disso tivesse acontecido, se tivesse sido menos, eu estaria fazendo o que sempre quis fazer. Eu nunca esperei que Deus me desse o que me deu, que o Teatro me desse o que me deu. Mas na medida em que fui trabalhando o ‘acaso’, segundo Simone e Sartre, a vida foi me dando. E assim eu fui tocando a minha vida”, diz, Fernanda, com a simplicidade de quem tem mais de 60 anos de teatro.

Caetano Veloso, na apresentação da biografia Fernanda Montenegro em o exercício da paixão (Rocco, 1990), de Lúcia Ritto, se sentiu intimidado ao escrever sobre a atriz. Segundo Caetano, o trabalho de Fernanda “transcende a evidente excelência: suas criações são como os romances de Machado, os poemas de Drummond – descobrem (inventam), o sentido do nosso modo de ser; nos fundam nos filtram, nos projetam”.

Assim, fica mais fácil entender a declaração poeta Drummond sobre Fernanda, na epígrafe do livro Viagem ao outro – sobre a arte do ator (Minc – Fundacem, 1988).

“Não se sabe o que mais admirar nela: se a excelência de atriz ou a consciência, que ela amadureceu, do papel do ator no mundo. Ela não se preocupa somente em elevar ao mais alto nível sua arte de representar, mas insiste igualmente em meditar sobre o sentido, a função, a dignidade, a expressão social da condição de ator em qualquer tempo e lugar”.

Fernanda Montenegro no palco é compreender que confundir-se com o outro é fundamental.

(Texto escrito a partir de entrevista exclusiva com Fernanda Montenegro, antes da apresentação do espetáculo Viver sem tempos mortos, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro)

GLAUCO MATTOSO, “POETA DA CRUELDADE”

por Ramon Nunes Mello [Revista Saraiva Conteúdo]

 

O anti-herói cego, “pornosiano, barrockista, deshumanista, anarchomasochista, pós-maldito”, como gosta de se rotular, completa 60 anos com lançamentos e relançamentos por diferentes editoras

Autor de uma “poesia viril”, o poeta paulistano Glauco Mattoso completa 60 anos no dia 29 de junho deste ano, produzindo literatura intensamente. Para quem desconhece sua história, seu nome é uma alusão direta ao poeta satírico Gregório de Matos (1633–1695), o Boca do Inferno, além de trocadilho com a doença congênita – o glaucoma – que lhe privou progressivamente da visão. Pedro José Ferreira da Silva é o seu nome de batismo.

Mestre do pastiche literário, já perverteu mais de quatro mil sonetos, série iniciada em 1999, superando o poeta italiano Giuseppe Belli (1791-1863), recordista no gênero, que teria composto 2.279 sonetos em uma obra produzida entre 1830 e 1839. Desde a cegueira total em 1995 – trajetória que lembra a do escritor argentino Jorge Luis Borges –, Mattoso escolheu o soneto como modo de organizar seus escritos. A forma fixa de poema (14 versos compostos por dois quartetos e dois tercetos) auxilia o poeta cego a escrever mentalmente os poemas, sem abandonar a transgressão dos temas.

Autor do romance autobiográfico Manual do podólatra amador: aventuras e leituras de um tarado por pés (All Books/ Casa do Psicólogo), Glauco Mattoso cultiva a fama de escritor maldito com suas preferências excêntricas. Ele é obcecado por pés masculinos, fetiche retratado tanto na prosa quanto na poesia. O pé e a cegueira são temas centrais de muitos de seus livros. Através da perversão sexual, o autor denuncia as perversidades sociopolíticas. Sua temática, que funciona como alicerce do próprio soneto, abusa da pornografia e escatologia, assim como os versos do poeta fescenino do século 17, cuja referência é explícita.

Mattoso cursou biblioteconomia na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e letras vernáculas na USP, sem concluir. Além dos sonetos, já escreveu dezenas de contos, dois romances, centenas de crônicas, vários ensaios, um dicionário de palavrões, um tratado de versificação, publicou dezenas de volumes de poesia e editou um fanzine durante quatro anos. “Mas o soneto é meu maior vício, e só como vício posso definir esse gênero que me serve de válvula para desabafar a revolta contra a cegueira. Parafraseando o Zé Dirceu, eu não posso, não quero e não devo deixar de sonetar…”, ironiza.

Prestes a se tornar sexagenário, o poeta relembra que o interesse pelos sonetos é anterior a cegueira: “Eu já admirava os clássicos pelo rigor com que eram compostos, especialmente um tipo de poema tão difícil como o soneto. Mas, enquanto ainda enxergava, minhas influências eram mais iconoclastas (modernismo, concretismo, tropicalismo e marginalismo), por isso raramente sonetei naquela fase. Quando fiquei cego, percebi que minha capacidade mnemônica era magicamente imensa. Passei, entre a insônia e o pesadelo, a compor freneticamente, salvando na memória os versos que, graças à rima e à métrica, mantinham-se intactos até que eu os digitasse no computador falante. Atribuo tal capacidade, também, a alguma ‘assistência espiritual’, já que me considero um bruxo…”, relata Glauco Mattoso, que trabalha diariamente com um programa de leitura de voz no computador (desenvolvido pela UFRJ), sem perder as subversões que pratica na sua escrita desde a época da poesia marginal nos anos 1970.

Celebração

Em comemoração ao 60º aniversário do “poeta da crueldade”, diversos lançamentos estão programados. A editora Annablume lançará uma caixa com 10 livros, sete já editados e três inéditos: O poeta da crueldade, O poeta pornosiano e Poemídia e sonetrilha. A Annablume detém os direitos de publicação da série de poesias Mattosiana pelo selo literário Demônio Negro e a obra Contos hediondos (2009). É também responsável pela obra ensaística de Mattoso, da qual publicaram, na Coleção Língua, Literatura e Discurso, o Tratado de versificação (2010) – acordo onde o poeta propõe “revisitar as trilhas da versificação e revalorizar o conceito da ‘musa’ no aspecto ‘musical’ do poema”. O selo Tordesilhas também adquiriu toda a prosa escrita do autor, repleta de ironia e humor negro, longe de tudo que se pode classificar como literatura bem comportada. Além de publicar os romances A planta da donzela (Lamparina, 2005) e Manual do podólatra amador, a editora prepara uma nova versão da coletânea Contos hediondos, incluindo textos inéditos. A prosa mattosiana, irreverente como a poesia, é muito bem elaborada, o que elimina a proximidade com a simples pornografia.

Ao longo dos anos, o Conde Glauco Mattoso – como o nomeou o poeta Roberto Piva (1937–2010) – passou a publicar em diversas editoras, o que dificulta a concentração de sua obra em um único selo. A produção poética inclui 35 títulos fora de catálogo ou com contrato para vencer, sem contar os poemas publicados na internet. O editor Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial, que o conhece desde os anos 1970, o considera “um grande escritor, polêmico e alternativo, implacável diante do mercado, para o qual não faz nenhuma concessão”.

Fase Visual e Face Cega

As referências de Glauco Mattoso passam de Camões a Augusto de Campos, de Gregório de Matos a Luiz Delfino, de Sade a Cego Aderaldo, de Olavo Bilac a Millôr Fernandes. Não é à toa que Caetano Veloso citou o poeta na música “Língua”, do disco Velô, de 1984. O cantor baiano o conheceu através do concretista Augusto de Campos, na época em que Glauco assinava o Jornal Dobrabil (trocadilho com o Jornal do Brasil e com o formato dobrável), um fanzine poético-panfletário feito com uma datilografia minuciosa que imitava as famílias tipográficas utilizadas pelos grandes jornais.

Mattoso também é conhecido pela sua intensa colaboração na imprensa alternativa na década de 1980, como Tralha, Mil Perigos, Som Três, Top Rock, Status, Around e Chiclete com Banana – esta última criada em parceria com o cartunista Angeli, publicada pela Circo Editora. Nos últimos anos, o poeta tem escrito para o site de literatura Cronópios [www.cronopios.com.br] e colaborado para revistas impressas, como a Caros Amigos.

O crítico e ensaísta carioca Pedro Ulysses Campos já dividiu a poesia de Glauco Mattoso em duas fases: “a primeira seria a Fase Visual (1970–1980), enquanto o poeta praticava um experimentalismo paródico de diversas tendências contemporâneas; e a segunda a Fase Cega (1999 até hoje), quando o autor, já privado da visão, abandona os processos artesanais, tais como o concretismo datilográfico, e passa a compor sonetos e glosas”. “Spik (sic) Tupinik” (1977), um dos sonetos mais famosos dá a dimensão da relevância da poesia de Glauco Mattoso: Rebel without a cause, vômito do mito / da nova nova nova nova geração, / cuspo no prato e janto junto com palmito /o baioque (o forrock, o rockixe), o rockão. / Receito a seita de quem samba e roquenrola: / Babo, Bob, pop, pipoca, cornflake; / take a cocktail de coco com cocacola, / de whisky e estricnina make a milkshake. / Tem híbridos morfemas a língua que falo, / meio nega-bacana, chiquita-maluca; / no rolo embananado me embolo, me embalo, / soluço – hic – e desligo – clic – a cuca. // Sou luxo, chulo e chic, caçula e cacique. / I am a tupinik, eu falo em tupinik.

A musicalidade de seus versos pode ser conferida no CD Melopéia (Rotten Records), nas vozes da MPB como Itamar Assumpção, Humberto Gessinger, Inocentes, Billy Brothers, Laranja Mecânica e Arnaldo Antunes. Trata-se de uma antologia de seus sonetos misturada a diferentes ritmos: samba-enredo, techno-samba, samba-canção, punk-rock e bluejazz. O álbum, que tem a capa assinada por Lourenço Mutarelli (uma paródia da capa do disco Tropicália, 1967) está esgotado.

Glauco Mattoso fabrica a própria lenda com a sua obra e sua história: cego, gay, podólotra e masoquista. Sempre que se escreve sobre o poeta, há uma tentativa de defini-lo: marginal, punk, pós-concreto, maldito… “Todos esses rótulos estão corretos. Eu próprio me colei mais alguns: pornosiano, barrockista, deshumanista, anarchomasochista, entre outros. Mas, para melhor sintetizar todos eles, pode me chamar de pós-maldito…”, explica o ícone do “malditismo literário” no Brasil.

E agora, poeta, como é completar 60 anos? “Acho que é como estar prestes a completar 18 quando a gente é menor de idade, ou 100 quando a gente ainda tem 99. Parece que subimos um degrau e só podemos olhar para frente, sob risco de tropeçarmos e cairmos. A partir deste ano, posso ser chamado de ’edoso’ e tenho que me vacinar contra a gripe. Minhas fantasias masturbatórias, entretanto, prosseguem a todo vapor…”, revela o poeta maldito que se tornou um clássico, um dos melhores sonetistas do Brasil.

 

PROFANO PROPHETA [3390]

 

Esperma de palavra se deriva

em fertil mente e em lyra creativa.

Semantica ou syntaxe, só, não basta

nem são imprescindíveis metro e rima

si a escripta surprehende e a penna é vasta.

 

Conheço um tal poeta e nelle vejo

de olympicas metropoles o exgotto,

o gozo azul de impubere garoto,

o samba em harpa e o rock em realejo.

 

É magico e sublime o pederasta

que do maldicto mytho se approxima

e do castiço canone se afasta.

 

No orgasmo oral dos jovens está viva

a chamma que deixou Roberto Piva.

 

SONETO DA CASA INVADIDA [1294]

 

Bandidos, cada vez mais attrevidos,

estão entrando em casas de familia!

O bando macta os donos, rouba, pilha,

saqueia, até em cadaveres cahidos!

 

Agora ja não fogem, nem ruidos

evitam que se escutem! A mobilia

carregam, ou alli mesmo a quadrilha

partilha joias, ternos e vestidos!

 

Num lar de classe media, tomam conta

do proprio immovel! No creado-mudo

da cama de casal, a extrema affronta:

 

Está o portaretracto alli, mas tudo

que a photo mostra, um rosto que amedronta,

é o delle, do assaltante bigodudo!

 

SONETO LINGUOPEDAL [35]

 

Massificada está toda massagem

holística que, como a acupuntura,

em pontos energéticos procura

curar com científica roupagem.

 

Em tudo vejo logo a sacanagem:

A planta do pé fiz numa gravura

e em vez da mão a língua, menos dura,

propus como sistema de lavagem.

 

Criei assim um vivo tipo novo:

o podofelador profissional.

Meu nome andou na má língua do povo.

 

Já cego estou, mas não me saio mal:

Frieiras mentalmente inda removo

do pé de quem me xinga de anormal.

HELENA SOLBERG

O CINEMA NA FRONTEIRA DA LINGUAGEM

Por Ramon Mello [Portal Cultura.rj 2009]

 

 

Em fevereiro de 2009 – para ser mais exato no dia 09 – comemorou-se os 100 anos de Carmem Miranda, a Pequena Notável que levou suingue e brasilidade ao mundo inteiro. Entre as diversas homenagens, a Secretaria de Cultura do Estado organizou palestras de Ruy Castro e convidados, exibição de filmes, shows, apresentações da Império Serrano e uma exposição retrospectiva da artista e uma escultura em tamanho natural – vestida com uma réplica do traje usado no filme Uma Noite no Rio – criada pelo artista plástico Ulysses Rabelo.

A cineasta Helena Solberg, que se consagrou com o clássico doc-drama ‘Banana Is My Business’, comemorou a data duplamente. No mesmo ano do centenário da cantora portuguesa (mas brasileira de coração), Helena surpreende-se com a recepção do seu novo filme: ‘Palavra Encantada’ – um ensaio poético sobre música e poesia, assinado em parceria com produtor Marcio Debellian, amante de música brasileira que convidou a cineasta para dirigir o filme depois de conhecê-la através de memorável Elenora de Martino, ex-diretora de patrocínios da BR Distribuidora.

“Fiquei muito surpresa com a aceitação do ‘Palavra’, é emocionante. Diferente de ‘Banana’, escolhemos o caminho de dar voz aos entrevistados, o que me assustou muito. Ou nós íamos por um caminho intimista ou caímos no jornalismo. O ‘Palavra’ é um filme denso de ideias, a música leva o filme. De todos os filmes sobre música brasileira, o ‘Palavra’ é mais abrangente, com um olhar que só podemos ver neste momento. Esse filme não diz nada de definitivo, mas abre uma porta para outros filmes sobre esse tema. A relação da poesia e música no Brasil é fenômeno muito peculiar. Gosto da ideia do Brasil não ser um país letrado, que para suprir essa deficiência salta para música. Aprendi muito com o filme. O contato com os pesquisadores do filme – Julio Diniz, Frederico Coelho e Heloisa Tapajós – foi muito importante”, afirma a cineasta que, depois de se formar em Letras Neolatinas na PUC, morou mais 30 anos fora do Brasil.

“Eu comecei na literatura, queria ser escritora. Quando eu tinha 17 anos eu escrevi uma novela de 300 páginas, mas depois eu queimei. Fiquei raiva de mim, só uma adolescente faz uma coisa dessas. Depois fui para a PUC, onde conheci a turma do cinema: Cacá Diegues e Arnaldo Jabor… E nos reunimos por causa do jornal da Une, o Metropolitano. Nós íamos muito ao MAM ver filme, era intenso. Era um Brasil muito excitante. Achávamos que estávamos nos formando para mudar o país, até chegar o Golpe. Me lembro que nesse período eu fui presa, em São Paulo. (risos) Eu e Jean Claude Bernardet jogamos bolinha de gude nos cavalos. Nós também acolhíamos pessoas que nem sabíamos o nome, um cara morou na minha casa por três meses”, relembra Helena, deixando escapar um pouco de saudosismo.

No jornal Metropolitano a cineasta começou o trabalho de repórter, por dominar Inglês e Francês era requisitada para fazer entrevistas com ícones da cultura – talvez, também seja esse o início da carreira de documentarista. Helena, ainda adolescente, entrevistou, por exemplo, a escritora Clarice Lispector e, também, os filósofos Simone de Beauvouir e Jean Paul Sartre quando estiveram de passagem ao Brasil.

“Simone era uma camponesa, com a cara lavada e cabelos presos. (risos) Eu saí muito com a Simone e o Sartre, mas era uma chatice. Eles ficavam o tempo inteiro discutindo, ela ficava de enfermeira dele, lembrando a hora de tomar o remédio. Eu era uma criança, tinha 17 anos, mas tinha todos os livros da Simone. E o encontro com a Clarice foi lindo. Ela era linda, aquele rosto eslavo. Nós conversamos e os filhos estavam em volta. Essa entrevista foi para a Manchete, não foi uma conversa intensa. Na época, eu tentei ler ‘Perto do Coração Selvagem’, mas desisti. Só descobri Clarice mais tarde”.

A passagem da literatura para o cinema aconteceu naturalmente, segundo a cineasta, como uma “busca de examinar o background”. Assim também surgiu seu primeiro filme ‘A Entrevista’, que discute os valores burgueses entre moças da classe média alta do Rio de Janeiro.

“Na ‘Entrevista’ debatemos sobre a participação da mulher no Brasil. As mulheres hoje vivem outra realidade, o trabalho deixa relação entre o homem e a mulher muito mais interessante. As formas de relacionamento estão mudando. Minha mãe, por exemplo, quando soube que eu ia fazer um filme sobre Carmem, disse: ‘Por quê? Aquela criatura horrenda?’ Havia uma resistência da classe privilegiada em relação à Carmem e também em relação ao samba. A ideia que a Carmem, uma mulher, seria exposta ao mundo, cantando samba, era uma humilhação para essa elite”, para a cineasta ainda não existiu outra mulher como Carmem Miranda:

“Ainda está para nascer uma mulher como Carmem. Quem viu o que a baiana tinha foi o Getúlio (Vargas). Ele enxergou a imagem forte que aquela mulher imprimia. Meu filme não é um trabalho jornalístico ou uma pesquisa acadêmica, é uma biografia afetiva. Carmem Miranda possui os três atos de uma grande ópera. Eu não imaginava que havia tanta tragédia, fiquei tocada. Carmem é incrível. Morando nos EUA eu senti na pele o que era ser latino. A Carmem reunia essas questões, além o papel da mulher. Há uma grande discussão sobre quem deveria encenar Carmem Miranda no cinema. Madonna já disse que gostaria de fazer a Carmem. Outros falam que tem de ser uma brasileira. Quem eu acho que deveria fazer a Carmem? Bebel Gilberto. Ela é cantora, tem uma vivência fora do Brasil, fala outros idiomas… Ela seria a minha candidata”, defende.

Antes do convite para debater a intersecção entre música e poesia, Helena flertou com o documentário político. Em meados dos anos 80, filmou ‘Retrato de um terrorista’, sobre o polêmico Fernando Gabeira.

“A ideia era procurar o Charles Elbrick que estava vivendo em Washington e convencê-lo a se encontrar com o Gabeira, que não pode entrar nos EUA. Pensamos em levar os dois para o Canadá e fazer esse encontro. Ele perdoou o Gabeira e por isso perdeu a carreira diplomática. Na época do sequestro, quando foi solto, ele fez declarações dizendo que ‘entendia a questão dos meninos’. Então, fui visitar o Elbrick e descobri que ele estava com as duas pernas amputadas. Quando o Elbrick foi sequestrado ele levou uma pancada na cabeça e parece que ele teve um coálogo, que resultou na amputação anos depois. Entrevistei o Elbrick mais de uma vez, mas acabei não fazendo o filme com ele. Tive de entrevistar Diego Asencio, que era embaixador da Colômbia. O filme é uma discussão entre o Diego Asencio e o Gabeira sobre a justificativa de um ato terrorista”.

Em seguida, Helena se reaproximou a literatura, ao levar para o cinema os diários da Helena Morley, os registros de uma garota na Diamantina logo após a abolição da escravatura e da proclamação da República. O filme foi um grande sucesso entre intelectuais, entre eles Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Darcy Ribeiro e Elisabeth Bishop.

“Cheguei até a Helena através das correspondências de Elisabeth Bishop. Eu me identifiquei com a ideia de uma adolescente rebelde, transgressora, corajosa. É uma linda imagem de mulher. Curiosamente ela acabou não sendo escritora. A única coisa que ela escreveu foi o diário, incrível. Mas foi muito difícil fazer o filme. Não havia uma narrativa, construímos tudo nas entrelinhas. Eu tinha uma desconfiança que metade daquela história era mentira. As pessoas mentem nos diários. Ela criou um personagem que era ela mesma, se salvou na invenção. O nome dela é Alice Caldeira Brant, mas ela se transformou em Helena Morley. Isso é lindo! Foi tudo isso que me atraiu. A fragmentação acabou criando uma linguagem para o filme. Essa foi minha primeira experiência, quero fazer outras coisas”, explica Helena, admiradora de jovens cineastas como Beto Brant, Heitor Dália, Pedro Cezar, Marcus Prado e Mauro Lima.

“O que mais me interessa no cinema, em termos de linguagem, é essa fronteira entre a ficção e a realidade. Quando usamos a câmera já estamos manipulando, fazendo um corte. O cinema não é realidade. Acho que sem susto a gente não faz nada. O medo é um termômetro que nos mostra que estamos no caminho certo”, finaliza a Helena Solberg, que já prepara seu novo filme de ficção.

“Ainda é segredo. Só vou dizer no susto, assim de repente”.

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