A LINGUAGEM É O VERDADEIRO VÍRUS

CORPO É TEXTO

Por Ramon Nunes Mello | originalmente publicado na apresentação do livro “Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv/aids” (Bazar o Tempo, 2018)

 

A linguagem é um vírus do espaço sideral

William S. Burroughs

Tenho uma doença: vejo a linguagem

Roland Barthes

A linguagem é o verdadeiro vírus. Só pude compreender essa sentença quando, em 2012, peguei um diagnóstico em que constava reagente: HIV positivo. Ao reelaborar minha visão de vida, tive a compreensão que eu não deveria silenciar sobre minha sorologia, tendo liberdade para escrever, de forma subjetiva ou não, sobre o assunto quando tivesse vontade e desejo, sem medo do julgamento alheio.

Em 2015, quando resolvi escrever o texto “O sentido da urgência: a necessidade de se conversar sobre o HIV”[1], em que abri publicamente sobre a vivência com vírus, passei a mergulhar em livros que abordavam o tema como uma busca de diálogo, fortalecimento emocional, aceitação de uma nova condição e entendimento da linguagem literária como busca e forma de vida. Conforme comecei a escrever os poemas do meu último livro, Há um mar no fundo de cada sonho (2016), aceitei minha convivência com o vírus que está hospedado no meu sangue.

Foi durante a leitura dos livros dos escritores e ativistas Herbert de Souza (o Betinho) e Herbert Daniel, e do pesquisador e escritor Marcelo Secron Bessa, autor de obras referenciais sobre questão do HIV na literatura brasileira - Histórias positivas, a literatura desconstruindo a Aids e Os perigosos, autobiografias & AIDS - que pude, de fato, perceber o tabu sobre uma questão que há mais de três décadas se espalhou pelo planeta, infectou 60 milhões de pessoas, e causou mais de 30 milhões de mortes, inclusive de ativistas, artistas e escritores que admiro, aos quais dedico essa publicação.

Após 36 anos do surgimento do HIV/AIDS, desde de sua descoberta em 1981, é relevante lembrar de Susan Sontag, no livro Doença como metáfora, obra que continua atual, em que afirma: “pronunciar o nome é sinal de saúde, sinal de que a gente aceitou ser do jeito que é, mortal, vulnerável”. HIV/AIDS. Palavras que impõem limites e mudanças profundas, entretanto penso que, para romper com o tabu e o preconceito do HIV/AIDS, tanto na vida como na literatura, é necessário encarar essas siglas. HIV/AIDS. Pronunciá-las e escrevê-las, só assim podemos criar um novo imaginário diferente do estigma associado ao início da epidemia. É possível ressignificar a ideia em torno do vírus, que não mais significa uma sentença de morte, e além disso tratar do tema de forma estética, através do trabalho com linguagem.

Nesta era “pós-coquetel”, em que a resposta brasileira à epidemia de HIV/ AIDS, antes exemplo mundial, tem se enfraquecido diante do retrocesso conservador e persistência do preconceito, estigma e moralismo, como a literatura, sobretudo poética, tem registrado as formas de apreensão da infecção? É possível compreender tais transformações no “enquadramento” sócio-histórico do HIV/ AIDS a partir da poesia? Como o próprio corpo do soropositivo, marcado pela terapia de antirretrovirais e seus efeitos, é assimilado pela linguagem poética e como esta contribui para narrar a própria história na perspectiva não da pesquisa biomédica e da saúde pública, mas dos “pacientes”? Como essa doença é percebida pelos indivíduos que são diretamente afetados por ela, podem colaborar para a (re)construção da história da epidemia de HIV/AIDS no Brasil? As notícias de imprensa, as experimentações poéticas, as narrativas ficcionais e os relatos biográficas podem ser considerados corpos textuais da história do HIV/AIDS? De que maneira a literatura ajuda a compreender o impacto do diagnóstico de soropositivo nas trajetórias de vida, bem como os significados de se relacionar afetivamente com as pessoas que vivem com o vírus? A temática do HIV/AIDS no campo das artes pode ser considerada como estratégia política de atuação e visibilidade? A poesia pode ser vista como forma de reação ao diagnóstico? Nesse sentido, é possível uma literatura de HIV/AIDS? De que forma o tema pode ser abordado na poesia brasileira?

Acredito que a busca por possíveis respostas a essas inquietações, especificamente através da poesia, podem mobilizar aportes da história cultural da doença e da literatura, nos permitindo compreender como "o tempo – o da antecipação do fim, o ritmo da tomada dos remédios, a expectativa com a chegada de novas drogas, o tempo de formas de amor muitas vezes impacientes". - é tratada na trajetória dessa doença.

Há um texto recente, escrito por Danilo Rodrigues Melo e João Camillo Pena (UFRJ), intitulado “Literatura e HIV/AIDS; reflexões sobre a era pós-coquetel” [2], que nos ajudam a comprender tais questões, a partir do panorama da literatura produzida no Brasil abordando o tema do HIV/AIDS, destacando a importância da obra de Herbert Daniel e Caio Fernando Abreu na desconstrução dos discursos sensacionalistas e folhetinescos construídos nos textos jornalísticas dos anos 80 e 90 e investigando a busca por novas abordagens ao HIV.

O tortuoso caminho trilhado no âmbito da epidemia do HIV/AIDS desde os anos 1980 sempre passou, de uma forma ou de outra, pelas diferentes formas de apropriação da linguagem. No seu início, o total desconhecimento sobre a doença e suas causas, o desejo de apontar culpados e o imenso número de mortes, que tornava impossível ignorar a questão, levou ao que se chamou de “epidemia discursiva”. Cristalizou-se, a partir da predominância de uma forma de linguagem pretensamente científica, sensacionalista e folhetinesca, estigmas e estereótipos ainda hoje muito fortes.

Com a introdução dos medicamentos antirretrovirais, contudo, veio não apenas a possibilidade de sobrevivência, mas também a reação dos setores mais conservadores da sociedade, cada vez mais representados na esfera governamental, com a imposição do emudecimento das campanhas de conscientização e da discussão ampla e aberta sobre o vírus e seus riscos, possivelmente contribuindo para os dados alarmantes refletidos nas estatísticas mais recentes.

Em um momento como em outro, a literatura se viu num cenário de confrontação com discursos retrógrados. Paradoxalmente, apesar das diversas mudanças atravessadas pela epidemia, com destaque para a introdução do coquetel antirretroviral na segunda metade dos anos 1990, muitas das questões iniciais se mantiveram. Se Herbert Daniel se insurgia contra a forma pela qual os doentes de AIDS eram retratados, e Caio Fernando Abreu falava da “paranoia sexual” e buscava fugir dos estigmas construídos em torno do vírus, as obras mais atuais revelam que essas visões datadas ainda hoje impõem sua força.

 Aliando essas reflexões sobre o vírus e a linguagem, as indagações do meu processo individual com o HIV e a poesia, e ao prazer de ler textos de João Silvério Trevisan, Herbert Daniel, Caio Fernando Abreu, Bernardo Carvalho e Silviano Santiago - autores que, cada um ao seu modo, trataram do HIV na literatura -, surgiu o desejo de organizar a antologia TENTE ENTENDER O QUE TENTO DIZER, cuja pretenção é tentar provocar uma expressão artística e uma reflexão crítica sobre o vírus, o corpo e a linguagem através das trajetórias individuais de vida e do contexto histórico do HIV/AIDS.

O título do livro foi retirado da Primeira Carta Para Além dos Muros, de Caio Fernando Abreu, crônica em forma epistolar, publicada no jornal Estado de São Paulo, em 21/08/1994, em que o autor revela sua sorologia publicamente. Escolhi como título um texto do Caio F. porque ele é, entre outros autores brasileiros, o que trabalhou a questão do HIV/AIDS de modo mais subjetivo e metafórico em seus textos, permitindo assim uma leitura mais aberta como a poesia.

Quanto a organização, propriamente dita, optei por não fazer um recorte cronológico sobre a questão, e sim reunir a partir de eixos como a linguagem, o corpo, o tempo e seus desdobramentos, de modo a permitir uma leitura mais fluida e livre. Trata-se de uma antologia possível, uma seleta da produção poética contemporânea, composta por gerações, gêneros e sorologias distintas. Um espaço onde poetas - brancos e/ou negros, cis e/ou trans, hetéros, bi e/ou homossexuais, soronegativos, sorointerrogativos e/ou soropositivos – foram convidados, em sua maioria, a escrever poemas tendo o HIV/AIDS como temática, de forma direta ou indireta. Ao todo estão reunidos centenas de poetas, pois prefiro o excesso para preencher a lacuna existente em nossa literatura e incitar a inspiração de poetas, escritores e editores.

O diálogo do HIV com a poesia, embora escasso, não é inédito. Curiosamente, vale lembrar que, como registrou em suas pesquisas Marcelo Secron Bessa, o Ministério da Saúde utilizou os versos do poema “Quadrilha” [3], de Carlos Drummond de Andrade, para uma campanha de prevenção sobre HIV/AIDS em 1987. Os versos do poeta são transformados numa a paráfrase de gosto duvidoso: “João que amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria que amava Joaquim que amava Silvio que amava Ana / que amava Zeca que amava Rita que amava Fábio / que morreu de Aids.” E por fim é dito: “não morra de amor, use camisinha".

De acordo com minhas pesquisas, o poeta e professor Italo Moriconi (que aqui assina como ItaloMori), é um dos poetas que de forma mais atenta vem produzindo sobre o tema, na poesia brasileira, desde o início da epidemia nos anos 80 até hoje, como poderemos ler na antologia. Com a produção atual, principalmente dos poetas mais jovens, nota-se uma abordagem mais voltada para a linguagem, o tempo, o amor, e, principalmente, o corpo – não o corpo frágil e ferido, apresentado no início da epidemia, eclipsado com a morte, mas um corpo contagiado de vida, tesão e esperança. Há ainda, nesses versos, a entrada dos medicamentos antirretrovirais como companheiros de uma saga, os dilemas das relações sorodiscordantes, maior abertura para a conexão a vida espiritual, o medo do diagnóstico e dos efeitos colaterais e as dificuldades de abrir a sorologia para o outro. Além da memória como forma de abordar (e homenagear) pessoas que não sobreviveram à epidemia.

Vale destacar, por fim, que uma referência importante, para esse livro, é a VISUALAIDS [http://visualaids.org/] organização internacional que reúne artistas para provocar o diálogo com o HIV/AIDS e artes, o hibridismo de linguagens, além de apoiar os artistas HIV + e preservar o legado, porque a AIDS não acabou.

Agradeço a cada um dos poetas que participam desse projeto, seja prontificando a escrever versos inéditos ou indicando onde poderia encontrá-los. Estendo meu agradecimento a família de Caio Fernando Abreu - Marcia de Abreu Jacintho e Claudia de Abreu Cabral - e da agente literária Lúcia de Melo e Souza Riff pelas autorizações necessárias. Minha gratidão a editora Ana Cecilia Impelizari Martins, que acreditou na proposta, viabilizando a publicação, e, ainda, aos professores Denilson Lopes, Alexandre Nunes de Sousa e Eduardo Jardim pelos textos que complementam o livro. Agradecido, Felipe Stefani, pelas belas ilustrações de traço delicado que se uniram a capa e as páginas dessa seleta.

Desejo que esse livro possa abrir espaço, amplificar as vozes, para além dos dados médicos e estatísticos, para que possamos entender melhor como podemos falar sobre HIV/AIDS, sem medo ou pudor, e (por que não?) com poesia. Sim, com a apropriação da linguagem modificamos o vírus do preconceito, aqui corpo é texto.

Ramon Nunes Mello

Araruama/RJ, 19 de outubro de 2017.

Notas:

1. “O Sentido da Urgência: a necessidade de se conversar sobre o HIV” foi publicado no blog de Jean Wyllys, no site da revista Carta Capital, em 01 de dezembro de 2015. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-sentido-de-urgencia-a-necessidade-de-se-conversar-sobre-o-hiv-9676.html

2. “Literatura e HIV/AIDS; reflexões sobre a era pós-coquetel”, foi publicado na Z Cultural - Revista do Pograma Avançdo de Cultura Contemporânea.Disponível em: http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/literatura-e-hivaids-reflexoes-sobre-a-era-pos-coquetel/

3. Carlos Drummond de Andrade , Nova reunião. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1985. QUADRILHA: “João amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili / que não amava ninguém. / João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento, / Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, / Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes / que não tinha entrado na história.” 

[1] “O Sentido da Urgência: a necessidade de se conversar sobre o HIV” foi publicado no blog de Jean Wyllys, no site da revista Carta Capital, em 01 de dezembro de 2015. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-sentido-de-urgencia-a-necessidade-de-se-conversar-sobre-o-hiv-9676.html

[2] “O Sentido da Urgência: a necessidade de se conversar sobre o HIV” foi publicado no blog de Jean Wyllys, no site da revista Carta Capital, em 01 de dezembro de 2015. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-sentido-de-urgencia-a-necessidade-de-se-conversar-sobre-o-hiv-9676.html

[3] “O Sentido da Urgência: a necessidade de se conversar sobre o HIV” foi publicado no blog de Jean Wyllys, no site da revista Carta Capital, em 01 de dezembro de 2015. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-sentido-de-urgencia-a-necessidade-de-se-conversar-sobre-o-hiv-9676.html


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