ENTRE GÊNEROS: LIBERDADE E RESISTÊNCIA

Por Ramon Nunes Mello e Wagner Alonge

 

Vivemos hoje mais do que nunca um momento de sociabilidade de estabelecimento de espaços e construção de si quando o assunto é gênero. A transformação da sexualidade num ponto relevante para a promoção da identidade acentua a crescente importância de áreas até então protegidas pela barreira do privado, tais como o corpo, a orientação sexual e o gênero.

As chamadas minorias sexuais estão muito mais visíveis e, consequentemente, torna-se mais explícita e acirrada a luta delas com os grupos conservadores. A denominação minoria que lhes é atribuída parece, contudo, bastante imprópria. As minorias nunca poderiam se traduzir como uma inferioridade numérica, mas sim como maiorias silenciadas que, ao se politizar, convertem o gueto em território e o estigma em orgulho de gênero, ou étnico. Entretanto, mesmo diante da construção de liberdades de gênero e do lento avanço das políticas públicas ocorridas nas últimas três décadas, o Brasil lamentavelmente lidera os rankings de assassinatos de gays, travestis e transexuais.

Diante desse cenário, com o aumento da visibilidade e do debate sobre o tema de gênero no meio artístico no Brasil; em agosto de 2016, o fotógrafo Diego Ciarlariello foi convocado pela então gerência de cultura do SESC Rio, para retratar personalidades contemporâneas que suscitavam o rompimento com o padrão binário masculino e feminino. Pela sensibilidade do olhar, Ciarlariello conseguiu capturar o sentimento de liberdade no exercício da diferença de conduta de identidades e a intenção inerente de resistência individual a tendência enquadradora da sociedade.

Os sujeitos retratados – em sua maioria artistas, cantores e ativistas dos direitos humanos – na exposição Entre Gêneros, composta por 17 fotografias, contemplam em suas trajetórias a escolha de não se submeter ao padrão heteronormativo, criando assim o sentimento de ruptura com a opressão que quase sempre suscita a imposição da clandestinidade de suas verdades e identidades. Mais do que um simples registro fotográfico de personalidades como Ney Matogrosso, Laerte e Pablo Vittar, entre outros nomes da cena contemporânea, a mostra firma-se como uma cartografia sobre a liberdade e resistência de pessoas que se propõem a quebrar paradigmas de gênero e de representatividade no Brasil.


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