O RESGATE DA MEMÓRIA E DO LEGADO DE HERBERT DANIEL

Por Ramon Mello

 

A biografia Revolucionário e Gay – a vida extraordinária de Herbert Daniel (Civilização Brasileira) escrita pelo ativista LGBTQI+ e professor de História Latino-Americana na Brown University, James Green, mais do que um resgate da figura múltipla do escritor, integrante da luta armada contra a ditadura militar (1964-1985), exilado político, militante gay e ativista de hiv/aids [1]Herbert Daniel (1946-1992), é a revelação de como o empobrecimento sócio, político e cultural pode colaborar para a destruição da memória de um país. Sendo a memória uma construção social, o livro colabora para que minorias possam entrar em contato com o inventário da luta pela democracia, diversidade e justiça social.

A motivação principal da narrativa de James Green, construída ao longo de 10 anos, é a perplexidade diante do esquecimento da figura de Herbert Eustáquio de Souza, o Herbert Daniel na história do ativismo de esquerda e dos direitos humanos. Identificado com a trajetória de Herbert Daniel - esquecido pelo movimento gay e pelo ativismo em prol da democracia durante a ditadura no Brasil – o autor reconstrói uma trajetória, sem ter conhecido pessoalmente seu personagem, com detalhes pesquisados em jornais, revistas, vídeos, arquivos e entrevistas com contemporâneos de Herbert – entre eles, a ex-presidente Dilma Rousseff, companheira de guerrilha na tentativa de reconstruir o país através da luta armada, que assina a orelha do livro.

Na publicação (traduzida por Marília Sette Câmara) James Green contextualiza extensamente o período histórico-político vivido por Herbert Daniel, sem perder as contradições do biografado, levando em consideração um fator fundamental: a repressão de sua sexualidade por conta do preconceito no ambiente machista e homofóbico da esquerda brasileira naquele momento, que marcou a elaboração a gênese de um pensamento político e intelectual. Acompanha-se assim os passos de Herbert Daniel como estudante de Medicina em Belo Horizonte no início da década de 1960 até, em seguida, se juntar ao movimento de resistência à ditadura civil-militar, onde descobriu sua homossexualidade e teve de escondê-la por receio de preconceito. O exílio, para fugir da prisão e tortura, junto com o companheiro Claudio Mesquita, em 1974 em Portugal e, depois, na França. O retorno ao Brasil na década de 80, sendo um dos últimos brasileiros a voltar do exílio, quando passa a escrever diversos livros, engajar-se nas campanhas em prol do meio ambiente e das minorias, a buscar a compreensão das homossexualidades (de acordo com Herbert, ela só existe no plural) como criação e não de aprisionamento e a defesa do corpo político. E, posteriormente, de forma pioneira, candidatar-se a deputado estadual pelo Partido Verde e a assumir se publicamente como gay. E, ainda, tornar-se, ao lado de Herbert de Souza, o Betinho, importante ativista pelos direitos das pessoas portadoras de hiv/aids no Brasil com a atuação na ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de aids) e do Grupo Pela Vidda e criação da Declaração dos Direitos Fundamentais da Pessoa Portadora do Vírus da aids que estruturou o discurso em relação a epidemia, além de cunhar o conceito de “morte civil” – mostrando que o hiv não é apenas uma questão de saúde, mas também sexual, social, econômica e de direitos humanos.

A narrativa sobre a história de Herbert Daniel, vem acompanhada por notas, caderno de fotografias e reprodução de documentos de períodos mencionados na história, permitindo uma reflexão sobre a crise dos valores democráticos e da desvalorização da memória.  O autor analisa a produção literária do escritor, entre ensaios, romances e livros memórias - Passagem para o Próximo Sonho, Jacarés e Lobisomens (com a poeta Leila Miccolis), Meu Corpo Daria um Romance, A fêmea Sintética, As três moças do sabonete, Alegres e Irresponsáveis Abacaxis Americanos, Aids - a terceira epidemia (com o sociólogo Richard Parker) e Vida antes da Morte - questionando sobre a relação entre a ficção e a realidade na vida de seu biografado, para compreender que a vida, por vezes, de tão extraordinária torna-se mais interessante do que a ficção.

James Green escreve sobre um menosprezado passado recente buscando parâmetros para ler o presente que se apresenta cada vez mais contraditório, talvez por isso aponte na figura de Jean Wyllys uma representatividade ou espelhamento para a continuidade das lutas de Herbert Daniel, que reflete não somente o pensamento político, mas, sobretudo, a subjetividade de um homem gay e militante. Nesse sentido o livro do brasilianista Green sobre o brasileiro Herbert amplia discussões importantes no Brasil, que ocupam o debate através da figura de Wyllys, autor a apresentação,  como, por exemplo: a necessidade de se aprofundar a história da ditadura a partir da história de seus participantes; o enfrentamento do pagamento da memória pela homofobia; e a urgência dar visibilidade ao debate sobre o hiv/aids - principalmente neste momento em que a epidemia apresenta um recorte que atinge mais os pobres, os negros, os pobres e os gays e os travestis.

Uma leitura possível, após percorrer a reconstrução da trajetória de um revolucionário pautada em amor e luta, é que uma vida, independente da causa ou partido, torna-se válida quando o senso de alteridade e respeito às diferenças estão presentes. Por fim, reverbera o questionamento sobre a necessidade de (nós, brasileiros) precisarmos do olhar de fora para legitimarmos a nossa própria história, ainda que possamos reconhecer que essa visão externa redimensiona nossos valores frente a luta pela cidadania e igualdade.


[1] As siglas hiv e aids foram grafadas em minúsculas com a intenção de acompanhar a posição adotada pelo escritor e ativista Herbert Daniel em seus ensaios e manifestos, referindo-me assim ao fenômeno ideológico e político do hiv/aids, na intenção de diminuir o protagonismo da doença em si frente à vida do indivíduo (Cf. H. Daniel; R. Parker, Aids: dois olhares se cruzam numa noite suja – a terceira epidemia. Ensaios e tentativas. São Paulo: Iglu, 1991, p. 47-52).


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