A FILOSOFIA DO ALPISTE NAS PALAVRAS DE UM PAPAGAIO

Por Ramon Mello (Revista Palavra, Sesc – 2010)

 

O livro Prosa de papagaio, de Gabriela Guimaraes Gazzinelli, pode ser classificado como uma rapsódia, considerando que se trata de uma “fantasia instrumental que utiliza temas e processos de composição improvisada tirados de cantos tradicionais ou populares”, segundo Aurélio Buarque de Hollanda. Há também aproximação ao gênero épico, tendo em vista que o livro narra, em fragmentados, a vida de um personagem que simboliza uma nação: um papagaio.

O enredo pode tornar-se confuso ao leitor acostumado ao pacto de verossimilhança realista. É necessário aceitar o fato de a história ser narrada por um papagaio; e que os seres humanos, personagens da história, dialogam a ave de bico curvo e penas coloridas. Uma família de intelectuais de Belo Horizonte (não poderia haver nome melhor para um pássaro) – a poeta Silvia, o professor e tradutor Horácio, as gêmeas Laura e Celina a editora Sibila, o primo Marcos, o cão Cosme e o Papagaio Louro – estão envolvidos em uma relação que resulta numa forte reflexão filosófica sobre alteridade.

A verossimilhança em questão é surrealista e deve ser lida de forma simbólica. O papaigaio-poeta que se coloca de fora do contexto familiar, fazendo uma narrativa crítica pode ser entendido como expressão dessa alteridade. Ou seja, de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal, conduzindo as diferenças à soma nas relações interpessoais. A autora dá sua visão humana ao pássaro, que por sua vez dá sua visão de pássaro aos seres humanos, nós leitores. Mais do que uma ode ao papagaiar dos Psitaciformes, esse livro traz um olhar ornitológico sobre os erros e acertos humanos.

Desde a chegada de Pero Vaz de Caminha, o papagaio foi associado a símbolo da nação (Terra Papagalis) e utilizado como metáfora ornitológica por escritores.  A referência à linguagem oral através do papagaio do referido livro pode ser associada a uma manifestação da primeira fase modernista, quando os escritores se preocupavam em descobrir a identidade do país e do brasileiro. No que se refere ao aspecto formal, a busca ocorre pela linguagem falada de um papagaio com pretensões intelectuais. “Os pássaros – e outros animais, por que não? – são dotados de sensibilidade estética.”

O tom inventivo da narrativa dialoga com o revolucionário texto de Mario de Andrade, Macunaíma, em que o narrador revela que ficou conhecendo a história através do papagaio ao qual Macunaíma havia relatado suas aventuras. O papagaio Loro, com tendência a linguagem formal e excesso de preciosismo, tal qual um poeta parnasiano, cita, durante a narrativa, algumas obras e autores que podem ter – ou não – a escrita do romance: Machado de Assis (Brás Cubas), Homero (Íliadae Odisséia), Gonçalves Dias (Canção do Exílio)…

Prosa de papagaio se constrói como um livro dentro do livro, que mistura a honestidade intelectual e desejo de legitimidade da escritora mineira.  Com a tagarelice de seu pássaro, Gabriela Guimaraes Gazzinelli nos lembra que “melhor se guarda o voo de um pássaro / do que um pássaro sem voos”, como canta o poeta carioca Antonio Cicero.


BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates