ADALGISA NERY, A MUSA DE VÁRIAS FACES

Por Ramon Mello (Prosa & Verso, O Globo 19/06/10)

 

“Adalgisa e Adaljosa,/ Parti-me para vosso amor/ Que tem tantas direções/ E em nenhuma se define/ Mas em todas se resume./ Saberei multiplicar-me/ E em cada praia tereis/ Dois, três, quatro, sete corpos/ De Adalgisa, a lisa, fria/ E quente e áspera Adalgisa,/ Numerosa qual Amor.”

Nestes versos do poema “Desdobramento de Adalgisa”, publicado em Brejo das almas (1934), Carlos Drummond de Andrade cantou as faces de Adalgisa Nery, poeta, jornalista e política, morta há 30 anos, em 7 de junho de 1980. Atuando em áreas tradicionalmente masculinas, Adalgisa colecionou amores e, também, alguns desafetos, mas conquistou reconhecimento e espaço na intelectualidade brasileira. No fim da vida, Adalgisa escolheu a solidão, recolhendo-se num asilo em Jacarepaguá.

Adalgisa Nery estreou na literatura após a morte do pintor modernista Ismael Nery (1900 – 1934), seu primeiro marido. Viúva, casou-se com o chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da ditadura Vargas, Lourival Fontes, desempenhando um papel crucial nas relações entre o Estado Novo e os intelectuais. Em 1954, após o suicídio do presidente, já separada de Lourival, Adalgisa estreou no jornalismo, fazendo carreira no jornal de Samuel Wainer,Última hora, ao assinar a lendária coluna “Retrato sem retoque”, espaço em que abordava, diariamente, com tom nacionalista, assuntos de política e economia, atacando os desafetos políticos.

Tendo a elegância como marca, andando sempre com cabelos e unhas impecáveis, Adalgisa atuou no campo intelectual, transgredindo na prática o papel da mulher, desde os anos 1930. A poeta deixou um legado para as mulheres que hoje ocupam lugar de destaque, principalmente no campo jornalístico.

“Ela escrevia com muita personalidade e voz própria. O exercício do jornalismo diário com textos políticos foi o que elegeu a deputada Adalgisa Nery, uma mulher sedutora e, ao mesmo, tempo muito dura”, afirma a escritora e jornalista Ana Arruda Callado, autora da biografia Adalgisa Nery, muito amada e muito só (Perfis do Rio, 1999), o único livro sobre a trajetória da poeta, que está esgotado.

Em 1960, sua carreira jornalística a projetou na política. Cercada de inimizades, como o então governador Carlos Lacerda, e herdeira política de Getúlio Vargas, Adalgisa foi deputada, pelo PTB, ao longo de três mandados, até ser cassada em 1969 pelo regime militar – o que a motivou a abandonar tudo: família, amigos e literatura.

Contemporânea das escritoras Dinah Silveira de Queiroz e Eneida de Moraes, Adalgisa Nery foi uma mulher de personalidade forte, contraditória, que buscou inspiração em outras mulheres modernas, como a escritora feminista francesa George Sand – de quem traduziu, do inglês, a biografia. Ela também estabeleceu uma relação de amizade com Frida Kahlo, que lhe dedicou uma página de seu diário. A Casa de Rui Barbosa guarda cartas trocadas com o pintor Diego Rivera, marido de Frida, por quem Adalgisa foi retratada na época em que foi embaixatriz no México.

A poeta também foi musa de Cândido Portinari, que ilustrou muitos de seus livros. Em depoimento para a biografia escrita por Ana Arruda, a viúva do pintor, Maria Portinari, relembrou o fascínio que Adalgisa causava nos homens: “Minha filha, que impressão ela causava nos homens! E no meu marido também.”

A mulher bonita e sedutora, muitas vezes excêntrica, com seus chapéus enormes, causava antipatia em alguns. É o que diz Raquel de Queiroz, ainda na biografia escrita por Ana Arruda Callado: “Ela não era simpática, nem educada. Mas era bonita. Muito bonita… Embora se achasse mais bonita do que era. Era pobre e ambiciosa […] Eu não a considerava elegante; era extravagante nas roupas. […] Ela queria ser a deusa: a deusa da poesia, a deusa da beleza…”

Autora de inúmeros livros de poesia, cujos títulos estão reunidos no volume Mundos oscilantes (1962), Adalgisa também se traduziu na prosa.  Todas as publicações foram bem recebidas pela crítica da época. No entanto, os títulos estão fora de catálogo e sem previsão para reedições. Com sorte, garimpando muito, encontra-se alguns exemplares em sebos. O esquecimento desagrada seus admiradores, como o poeta Armando Freitas Filho.

“Adalgisa era formidável, foi uma das nossas primeiras protagonistas intelectuais. Podemos dizer que ela antecedeu Cecília Meireles, em termos de representação pública. A interpretação que faço é que ela ficou marcada por uma ambiguidade. Sua produção em prosa teve uma recepção crítica mais forte do que a poética. Além do romance A imaginária, lembro do livro de poemas Ar do deserto, publicado em 1943. Sua poesia me parecia que tinha um eco com a de Augusto Frederico Schmidt. É fundamental que seus livros voltem a circular para que os leitores conheçam sua produção intelectual”, diz Armando.

A reedição da obra da poeta também é defendida por Eduardo Coelho, Chefe do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, que guarda grande parte do acervo de Adalgisa (como correspondência com Drummond, Veríssimo, Jorge Amado, Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, entre outros documentos).

“A poesia dela é marcada por um tom grandiloquente, fervoroso. Seus versos tratam do cotidiano do homem comum e também da força do cosmo. Há um movimento paradoxal em sua poesia, intenso, que une o natural ao sobrenatural, a preocupação social ao erotismo. Trata-se de uma obra irregular, sem qualquer dúvida, mas com excelentes poemas. Uma obra que deve ser republicada e sofrer uma reavaliação crítica sobretudo em relação ao contexto da literatura brasileira daquele período, com Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes e Vinícius de Moraes, que podem revelar alguma aproximação com a poética de Adalgisa Nery”, afirma Coelho.

No romance mais conhecido de Adalgisa, A imaginária, a personagem Berenice narra o drama psicológico em suas passagens de vida: a família pobre; o curso primário iniciado num colégio de freiras e concluído numa escola de Botafogo; os conflitos de infância e adolescência; o casamento sem consentimento da família; a convivência triste com a família do primeiro marido; e a morte do cônjuge, aos 33 anos, vítima de tuberculose.

“Até que ponto esta Berenice apaixonada e mais tarde aterrorizada, heroína do romance que foi o maior sucesso editorial da autora, é Adalgisa Nery?”, pergunta o jornalista Paulo Silveira, amigo de Adalgisa, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som gravado em 26 de julho de 1967, questão replicada em Adalgisa Nery, muito amada e muito só, onde se lê a resposta da própria escritora: “Ali tem muita coisa de minha biografia, tem muita coisa reforçada com minha imaginação.”

Mesmo com o passar dos anos, Adalgisa Nery, continua apaixonante, seduzindo pela biografia e pela imaginação, pela personalidade e pelas palavras.

Trecho do romance autobiográfico A imaginária, publicado em 1957, o sétimo livro de Adalgisa Nery

Um dia, como um dia para toda adolescente, eu senti que amava um homem. Conheci então uma nova paisagem da minha alma. Descobri nesse sentimento um senso de beleza capaz de afugentar todas as sombras acumuladas dentro do meu ser. Pela primeira vez, tive a sensação exata de força e liberdade. Lembro-me que, imantada por ele, eu me integrei totalmente em todas as partículas da vida e da natureza. Subindo os degraus de uma escada de pedra, reparei nas formigas que cruzavam e, com cuidado especial, procurei não esmagá-las com os meus pés. Fitei com uma ternura cuidadosa as plantas, as flores, as andorinhas, que traçavam espaço e a poeira de orvalho caída sobre as folhagens. Aprendi as cores nas luzes das manhãs e nas tonalidades do anoitecer. Eu estava no processo da metamorfose. Em tudo eu encontrava uma duplicidade de sentido. Estava sob a função de reminiscências eternas que atuavam como ligação do divino que surge no humano e com o divino que se entende no universo.  Havia um abandono alegre no meu ser acompanhando a causa misteriosa. E, de repente, me senti identificada com a vida. Tive a impressão de que uma grande chuva caíra sobre o mundo, e agora se apresentava lavado, fresco, radiante. Creio que os meus gestos se tornaram harmoniosos, a minha voz era o eco da música das águas cantantes e a minha memória só se recordava das formas perfeitas, para essa nova construção. Foi uma fase de grandeza aguda e espetacular da minha alma. De tudo emanava doçura e leveza compensadoras.

[…]

Não creio que haja nenhum período feliz na nossa vida. Às vezes há uma fase de inconsciência da infelicidade. Nesse espaço de tempo, julgamos estar vivendo uma época feliz. Em realidade, o descontentamento não veio à tona. Estava em gestação no acontecimento. Só notamos quando a ocorrência vem à superfície dos nossos cinco sentidos. Porém ele nunca deixou de existir. É a esse hiato entre a ignorância e o conhecimento do desagradável que denominamos puerilmente de “época feliz”. O próprio amor que é a mais verdadeira proximidade da felicidade, não desligado jamais de um grande subterrâneo sofrimento. Sobre as horas ardentes de uma plena satisfação amorosa, estão o desgosto e o sofrimento vigiando o primeiro cansaço e o primeiro tédio para flutuarem num tempo mais largo, com maior duração e fundas consequências do que o momento nos trouxe a sensação do eterno. A minha natureza não é de mulher pessimista. Sou um ser anaglífico vivendo uma sincera fusão de duas imagens de perspectivas semelhantes. Há uma intensidade de forças em profundidade e em extensão girando em meu redor como o ectoplasma. Daí sentir-me constantemente no limbo. Essa explicação tem como finalidade desviar qualquer julgamento precipitado para classificar-me de pessimista. Apesar de ter sido desde menina violentada pela vida, os meus olhos não perderam a noção dos coloridos e dos contornos e a minha alma não esqueceu a música e a harmonia.


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