AMORES, PERDAS, LEMBRANÇAS

“COMO ESQUECER”

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2010)

 

“O que será que é o contrário do amor?”, essa pergunta fica latejando na memória, após a exibição do novo filme de Malu de Martino, Como Esquecer, que estreia nesta sexta-feira, dia 15 de outubro, nas principais capitais do país.

A indiferença, talvez seja a resposta mais adequada. Malu concorda, mas, referindo-se ao momento de reflexão sobre as eleições presidenciais, sugere outra resposta: “também pode ser a intolerância…”

A atriz Ana Paula Arósio vive a personagem Júlia, uma bela mulher que luta para reconstruir sua vida depois de viver intensa e duradoura relação amorosa com Antônia. Ao longo do filme, Júlia se relaciona com outras pessoas que também, cada uma a seu modo, estão vivenciando a experiência da perda.  No papel de Hugo, um personagem também homossexual, Murilo Rosa faz um contraponto à situação de sua amiga Júlia. Ao perder um amor, que faleceu em um acidente, mostra-se otimista, e quebra o clima pesado da história. Além de Arósio e Rosa, os atores Pierre Baiteli, Natália Lage, Arieta Corrêa, Bianca Comparato participam da trama.

O longa-metragem é uma adaptação do livro Como esquecer – Anotações quase inglesas, de Myriam Campello. Malu chegou à publicação por indicação da escritora Sonia Hirsh, que enxergava na história a possibilidade de um belo filme. “Li e concordei com ela. Acho a história muito forte e achei que seria um desafio transportar para a tela grande. A maneira de lidar com as perdas é o foco principal do filme. Percebi que é um sentimento comum aos adultos e isso me instigou a fazer a adaptação”, explica Malu.

Mesmo após a finalização do roteiro, criado coletivamente por José Carvalho, Sílvia Lourenço, Sabina Anzuategui e Douglas Dwight, os atores utilizaram o livro de Myriam Campello como fonte principal de consulta no processo para criação das personagens. “Primeiro eu tive contato com o roteiro, depois a gente começou estudando o livro… O livro virou a minha Bíblia na filmagem. O bacana do filme é porque é muito o livro, tem transcrições quase inteiras. O diálogo todo é muito em cima do livro. É muito bacana a Malu ter conseguido transformar em imagens o que a Myriam escreveu. Até porque é um ‘livro-catarse’. A Júlia vomita aquelas palavras, ela está enlouquecida de dor quando ela escreve. O livro é na primeira pessoa…”, conta Ana Paula Arósio, que tem sido elogiada pela crítica pela forte atuação no filme.

“Ana Paula é a melhor atriz dramática da geração dela e foi um prazer enorme trabalhar com ela. Ela é uma atriz que mergulha no trabalho de uma forma incrível! Super aplicada ela faz o tipo de imersão necessária para compor personagens densos como a Julia.”, comemora a diretora que convidou Ana Paula Arósio por indicação de Murilo Rosa, ator com que trabalhou no filme Ismael e Adalgisa (2001).

A parceria bem sucedida ao lado da diretora Malu de Martino também é comemorada pela atriz, que conseguiu construir a personagem com humanidade, fugindo dos clichês geralmente atribuídos ao homossexual no cinema brasileiro.

“Malu ficou muito atenta, com a gente, nos ensaios. Ela queria a gente chegasse pronto para filmar. A Malu é rigorosa, mas ela é muito segura e sabe como chegar lá. A gente se deu muito bem trabalhando. Tive uma confiança total e absoluta, me entreguei na mão dela e falei: ‘Seja o que Deus quiser!’ Malu é uma diretora que precisa dessa devolução. É muito gostoso.”

O filme, segunda experiência de Malu de Martino na direção de longa-metragem, pode ajudar na “homovisibilidade”, trazendo à ribalta um assunto que, embora não pareça, ainda é cercado de tabu e preconceitos.  “Espero que o Como Esquecer sirva para mostrar que todos os cidadãos tem direitos iguais e que a homofobia é parte da intolerância às diferenças, portanto já passou do tempo de quebrarmos esse paradigma”, afirma a diretora.

Para além das questões sociais, Ana Paula Arósio esclarece que não se trata de um filme que levanta uma bandeira. “A homossexualidade, de ninguém no filme, é mais uma preocupação. São pessoas assumidas e bem resolvidas com isso. Quem for para ver uma sessão da tarde gay… Não é exatamente isso. Porque a questão são os sentimentos das pessoas e não o que elas fazem com a vida delas”.


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