ARQUIVO-MUSEU DE LITERATURA BRASILEIRA

Por Bruno Dorigatti e Ramon Mello 

Fotos de Tomás Rangel, Marcos Dantas e Arquivo-Museu de Literatura Brasileira (FCRB)

 

Quem passa em frente ao velho casarão, sede da Fundação Casa de Rui Barbosa, na rua São Clemente, em  Botafogo, por vezes ignora que lá exista o fruto de um sonho do poeta Carlos Drummond de Andrade. No fundo do silencioso quintal, próximo ao jardim da moradia do ilustre diplomata, onde atualmente mães e babás fazem passeios diários com seus carrinhos de bebês, está localizado o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira.

“O Arquivo-Museu foi criado por sugestão do poeta Carlos Drummond de Andrade. Quando Drummond foi procurado por Dona Lili Brant para autografar um caderno em capa dura com anotações e recortes de textos de escritores, ele percebeu que aquilo servia como um micro arquivo-museu pessoal. Em seguida, publicou uma crônica no Jornal do Brasil [em julho de 1972] referindo-se à ‘velha fantasia’ de criar um museu de literatura que reunisse papéis e objetos relacionados à criação e à vida dos escritores brasileiros”, diz Eduardo Coelho, chefe do Arquivo-Museu de Literatura da FCRB, cujo cargo já foi ocupado por Plínio Doyle e Eliane Vasconcellos.

Drummond e seus contemporâneos reuniam-se aos sábados em encontros na biblioteca da casa do advogado Plínio Doyle, em meados dos anos 1960. Na famosa reunião, batizada de Sabadoyle, Carlos Drummond deu prosseguimento ao seu sonho. Plínio Doyle apelou aos amigos escritores e intelectuais: “Para evitar que se perca ou se disperse a preciosa documentação da nossa história literária, mandem para a Casa de Rui Barbosa todo tipo de material que sirva à nossa finalidade específica”. Ele foi atendido prontamente, e assim juntou em 15 dias mais de 500 documentos.

Américo Lacombe, então presidente da Casa de Rui Barbosa, frequentador das tertúlias, logo aderiu à empreitada, recebendo o apoio de escritores como Paulo Mendes Campos, Murilo Araújo, Wilson Martins, Aurélio Buarque de Holanda, Alphonsus Guimaraens Filho, Pedro Nava, Afonso Arinos, Raul Bopp, Ciro dos Anjos e Peregrino Júnior. Em 28 de dezembro de 1972, a Fundação Casa de Rui Barbosa instalou em sua sede o Arquivo-Museu de Literatura, inaugurado com a exposição Camoniana, comemorativa do quarto centenário de Os Lusíadas, e com uma amostra com cerca de cem documentos do recém-criado arquivo.

 

Acervos e coleções

Neste centro de memória e informação, através do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, são preservados e divulgados alguns dos mais expressivos acervos documentais de escritores brasileiros, entre eles Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Antonio Callado, Lúcio Cardoso, Pedro Nava, Plínio Doyle, Adalgisa Nery, Fernando Sabino, Cacaso, Vinicius de Moraes, Helio Pellegrino, Rubem Braga, Osman Lins, Caio Fernando Abreu e Carlos Drummond de Andrade.

“O Arquivo-Museu é constituído de arquivos e de coleções. Os arquivos reúnem acervos de escritores que são titulares desses arquivos, ou seja, tudo que foi acumulado pelo próprio autor, o titular. Por exemplo, o arquivo do Drummond possui documentos que ele próprio guardou ao longo de sua vida. E as coleções agrupam documentos doados por pessoas distintas. Já temos cerca de 124 acervos de escritores brasileiros, além de coleções com mais de 600 pastas, entre documentos avulsos, diversos originais e coleções de recortes de jornais”, explica Coelho, que completa:

“Há arquivos antigos como o de Machado de Assis, José de Alencar, Cruz e Sousa. E, nas coleções temos as mais representativas, como a do Guimarães Rosa. A coleção de Lauro Escorel, por exemplo, é pouco estudada, mas tem documentos extremamente importantes. Uma das boa s qualidades de Escorel era a curiosidade, ele perguntava muito aos autores sobre os processos construtivos. Então, por meio dessa coleção seria possível fazer o mapeamento da constituição do plano poético no Brasil”.

É possível ainda encontrar originais datiloscritos de Água viva, de Clarice Lispector, antes intitulado de Objecto gritante.  No rico acervo de Pedro Nava estão os originais de Balão cativo, peças raras, com desenhos artísticos ilustrando suas memórias. E pode-se pesquisar, por exemplo, a correspondência entre Adalgisa Nery e o casal de artistas Diego Rivera e Frida Khalo, no período em que a poeta foi embaixatriz no México ao lado do segundo marido, Lourival Fontes. Também estão na Casa de Rui cartas do então jovem poeta Vinicius de Moraes. Por exemplo, uma carta de 1938, quando Vinicius, recém-chegado a Londres, se correspondia com Rodrigo de Mello Franco sobre a literatura inglesa e a obra de Aleijadinho (abaixo, foto do poeta ao pé de uma escultura em Congonhas (MG), 1938). Além disso, destaca-se também a rara coleção bibliográfica com revistas e jornais literários dos séculos XIX e XX , organizada pelo bibliófilo Plínio Doyle (foto abaixo), fundador do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro.

Além dos acervos e coleções, integram o Arquivo-Museu aproximadamente 1.200 peças, entre móveis, canetas, óculos, medalhas, caixas de músicas, esculturas e telas. Pode-se relacionar esses objetos com elementos das obras dos autores, por exemplo, a tela A menina morta (autoria anônima, 1890), que provavelmente inspirou o quarto romance, homônimo, de Cornélio Pena.

O acervo Clarice Lispector é o mais valorizado. Duas exposições já foram realizadas sobre a escritora a partir deste acervo: Clarice Lispector — a hora da estrela, de 2007, que correu o país depois de produzida pelo Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e Clarice Pintora, de 2009, que exibiu no Instituto Moreira Salles as telas da escritora, entre elas Sem sentido, de 1975, descrita no livro Um sopro de vida (1978).

 

Arquivos virtuais, o desafio

Um dos principais desafios do Arquivo-Museu é como tratar e catalogar o acervo, com arquivos enormes e que crescem todos os anos. E com o surgimento das novas tecnologias, a preservação se torna uma questão cada vez mais desafiadora. Como preservar os arquivos digitais? Como comprovar a autoria dos textos digitais? O que fica da geração de escritores que trabalham com o computador, na web?

“Tentamos criar pontos de diálogo com o pesquisador comprometido com aquele arquivo e nossos trabalhos de preservação. O setor público ainda está atrasado na questão da preservação de acervos digitais. Estamos interessados em colher acervos digitais de alguns autores contemporâneos, como Rodrigo de Souza Leão, para criar essa frente de trabalho. Hoje em dia os manuscritos estão praticamente em desuso. Não há respostas, há buscas por soluções. Temos que encarar a superação das tecnologias, esse é o grande desafio”, afirma Ana Pessoa, diretora do Centro de Memória e Informação da FCRB, que também enfrenta a supervalorização dos acervos:

“As famílias acham melhor reter para si na subestimação completa do que seja o processo de arquivamento. Há uma mística sobre os inéditos, é bom esclarecer que quando um acervo é recolhido não se fere os direitos autorais, que continuam sendo da família. Nós temos acervos digitalizados que não foram disponibilizados na internet porque as famílias têm receio de perder o controle do acervo”, diz.

No entanto, há exemplos positivos em relação à disponibilização virtual dos acervos, como a iniciativa da família do poeta Vinicius de Moraes, que digitalizou e publicou a coleção doada por José Mindlin – projeto que, em abril deste ano, inaugurou o Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais, realizado pelo Ministério da Cultura. “Suzana de Moraes, ao digitalizar todo acervo de seu pai, Vinicius, ajuda a provar que não é um risco. Ao digitalizar, cria-se uma rede de leitores em torno do autor, que busca o livro como anteparo de uma ferramenta mais acessível do que a web”, explica Eduardo Coelho.

Preservar é preciso

O trabalho de preservação exige muita modéstia de quem faz, e ao mesmo tempo previsão de futuro em termos históricos. Arquivistas e especialistas em literatura brasileira têm se dedicado à melhoria do Arquivo-Museu. “O padrão é perder, dispersar. Todo projeto de preservação é a eleição de alguma coisa que estaria perdida. O Arquivo-Museu de Literatura Brasileira é fundamental, paradigmático. Ele é a matriz do tratamento de coleções pessoais de literatos. A partir dele foram gerados outros arquivos-museus no Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo… É um padrão, uma referência para os demais arquivos”, defende Ana Pessoa.


Serviço

Arquivo-Museu de Literatura Brasileira
Fundação Casa de Rui Barbosa

Rua São Clemente, 134 – Botafogo – Rio de Janeiro, RJ
Tel.: (21) 3289-4600
Atendimento: 2ª a 6ª feira, de 9 às 18h, com a última entrada 45 minutos antes do fechamento.


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