CINEMA DE PERIFERIA

ONG faz inclusão social através do estímulo à cultura
Por Ramon Mello [Portal Cultura.rj 2009]

Aros de bicicletas pendurados na fachada de um prédio pintado de vermelho e engrenagens ligadas através de uma longa corrente compõem a entrada da Escola Livre de Cinema (ELC), em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A imagem de integração e movimento contínuo é uma metáfora do trabalho desenvolvido pela ONG Avenida Brasil Instituto de Criatividade Social.

Criada por Marcus Vinicius Faustini, Anderson Barnabé, Alexandre Damasceno e Cristiane Brás (artistas formados pela Escola Estadual de Teatro Martins Pena), a ONG é uma usina de ideias. A base do trabalho é o projeto Reperiferia – idealizado por Faustini –, que defende a inclusão social através da cultura. A partir desse pensamento, entende-se que a distância entre o Rio de Janeiro e Nova Iguaçu pode ser menor do que se imagina.

“A ideia é transformar essa distância numa questão meramente territorial, o acesso à cultura está cada vez mais perto da periferia. Este trabalho é a nossa estrutura, queremos repensar a periferia e seus valores. Há muitos trabalhos interessantes e de qualidade, estamos além dos estereótipos”, afirma Barnabé, diretor da Escola Livre de Cinema – inaugurada, em julho de 2006, como parte do projeto Escola-Bairro, que oferece educação em tempo integral aos jovens da rede pública municipal.

No saguão de entrada da Escola de Cinema, há uma biblioteca com um amplo acervo de importantes obras de cinema e teatro brasileiro, doado pela Funarte. Batizado de Biblioteca Cacá Diegues, durante o II Festival de Cinema da Cidade de Nova Iguaçu (Iguacine), o espaço é referência e pesquisa para os alunos e para a comunidade.

“O Cacá (Diegues) esteve aqui para inaugurar a biblioteca e autografou os roteiros dos filmes dele, a garotada ficou muito emocionada”, conta Barnabé, enquanto exibe os cartazes dos filmes de Diegues, entre eles Joana FrancesaBye Bye BrasilOrfeu Quando o Carnaval Chegar.

No prédio de três andares, as oficinas se espalham pelas salas com trocas de experiências entre alunos e professores. Os alunos utilizam câmeras e aprendem a olhar o que está ao redor. Quem se destaca nas aulas pode ser promovido a monitor, assim compartilhando conhecimento com os iniciantes.

A concorrida seleção para a ELC reúne jovens, crianças e adultos, numa média de 200 inscritos para 60 vagas. O curso regular inclui desde aulas de Roteiro à Iniciação à Linguagem Audiovisual, e são aplicadas por professores convidados, entre os profissionais está Dib Luft, fotógrafo do Cinema Novo. Quem não é aprovado no processo de seleção, pode ser encaminhado para os cursos livres, aos sábados, de Introdução ao Audiovisual, ministrado por Rodrigo Fonseca, crítico de cinema do O Globo.

Durante a programação pedagógica dos cursos – teóricos e práticos –, os professores promovem discussões sobre a relação com a periferia. “Os alunos passam a repensar as visões superficiais sobre o espaço em que vivem. Não há somente violência e miséria. Eles percebem que podem produzir arte com o que existe ao redor”, diz Leandro Souza, professor do curso de animação e ex-aluno da escola, e completa:

“A nossa intenção é ajudar a transformar, pelo menos um pouco, as relações humanas no Rio de Janeiro, e o ensino de cinema é uma das ferramentas para mostrar que a periferia pode produzir arte.”

Há, ainda, produções de sucesso como a realização de uma vinheta de animação para exibição pela Rede Globo durante os Jogos Pan-Americanos. E o documentário Cante um funk para um filme, que reúne moradores do bairro falando e cantando a importância do ritmo em suas vidas, que integrou o Cinesul Festival Latino-Americano 2007.

A gênese de todo projeto está em Santa Cruz, no Teatro das Crianças, na Zona Oeste – onde funciona a Escola Livre de Teatro, a primeira escola gratuita de teatro da periferia.

“Pegamos um teatro e achamos que era pouco montar espetáculos e proporcionar só isso às pessoas de Santa Cruz. Criamos uma forma de possibilitar às pessoas do bairro o acesso à cultura. A partir disso criamos o projeto Reperiferia, assim nasceu a Escola Livre de Cinema. E também a Escola Livre de Música Eletrônica e a Escola Livre de Teatro”, relembra Anderson Barnabé.


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