FERNANDA MONTENEGRO 8.0

HOMENAGEM A ATRIZ MAIS RESPEITADA NO TEATRO BRASILEIRO

FERNANDA MONTENEGRO E A BUSCA DO OUTRO

Por Ramon Nunes Mello [Portal Cultura.rj 2010]

 

Fernanda Montenegro estreou no teatro, aos oito anos, interpretando um menino na peça Dois Soldados, numa Paróquia em Campinho, no subúrbio do Rio de Janeiro – nessa época, ela ainda se chamava Arlette Pinheiro Esteves da Silva. Em 2009, ano em que comemora 80 anos, a ‘dama do teatro brasileiro’ estreou, também no subúrbio do Rio, o monólogo Viver sem tempos mortos, com a direção de Felipe Hirsch, onde vive a intelectual francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), a partir da correspondência dela com o marido, o filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980).

“Em nenhum momento me perguntei se o público entenderia Simone de Beauvoir. Não carrego o preconceito de achar que as pessoas do subúrbio têm menos intelecto, o que eles têm é menos oportunidade. Não há cidadania de segunda classe no subúrbio! Nasci em Campinho, mas depois morei muito tempo em Jacarepaguá, aliás, foi onde frequentei a primeira escola pública”, afirma a atriz, que estreou o espetáculo em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, antes de partir em temporada.

Quando Fernanda sobe ao palco, o silêncio impera, a plateia se concentra para, mais do que assistir, acompanhar a viagem de condução ao outro. Quando a luz se acende, não é Arlette, não é Fernanda, diante do público, sentada numa cadeira no centro do palco, está Simone de Beauvoir e a história de amor que transformou o século XX. ‘Não se nasce mulher, torna-se mulher’, Fernanda é exemplo vivo da teoria de Simone.

O nome da peça, slogan de 68 – “Viver sem tempos mortos” – traduz toda encenação: “é preciso lutar, ter capacidade de agir, ter presença na vida”, como a própria Fernanda explica no debate e como age na premiada carreira.

Durante o espetáculo, quando Simone fala da morte de Sartre, é impossível não associar Fernanda Montenegro e Fernando Torres, o casal que vivenciou a história do teatro brasileiro. Emoção toma a cena, aprende-se, sem querer, a lidar com a perda – lembra-se da cadeira vazia no centro do palco.  Como lidar com esse sentimento?

“Não é que seja impossível, mas a vida toma outro rumo, se torna outra coisa. Foram anos tão juntos que é como se estivesse junto. Tem a falta da presença física, mas é cumplicidade que é inerente. Compreende? É como se”, generosamente, Fernanda tenta explicar o sentimento em relação à perda do companheiro de longa data.

Para a socióloga e escritora Rosiska Darcy Oliveira, que divide o palco com a atriz, após a apresentação do espetáculo, para um debate com a plateia, Fernanda Montenegro tem muito de Simone de Beauvoir:

“Fernanda tem dignidade, a coragem e a persistência de Simone. Hoje para manter uma relação amorosa de 60 anos é preciso ser muito revolucionária. Fernanda Montenegro faz parte do que chamo de o melhor do Brasil”, Rosiska elogia e completa:

“Somos pessoas preocupadas com a democracia. Essa questão da igualdade de gênero é importante para os jovens: homens e mulheres. No debate, tentamos criar um clima de conversa, reconstruir espaços de conversa. É uma oportunidade de ser mais que um espectador. O projeto tem esse objetivo, trocar ideias e provocar reflexão”.

Para Fernanda, como para Sartre e Simone, o ‘acaso’ tem um papel fundamental, dita a última palavra e traduz a realidade.

“Eu não armei isso, não esperei. A vida foi me surpreendendo à medida que fui vivendo. Eu amava, desde cedo, isso que eu quis fazer. Quanto aos resultados?! Se nada disso tivesse acontecido, se tivesse sido menos, eu estaria fazendo o que sempre quis fazer. Eu nunca esperei que Deus me desse o que me deu, que o Teatro me desse o que me deu. Mas na medida em que fui trabalhando o ‘acaso’, segundo Simone e Sartre, a vida foi me dando. E assim eu fui tocando a minha vida”, diz, Fernanda, com a simplicidade de quem tem mais de 60 anos de teatro.

Caetano Veloso, na apresentação da biografia Fernanda Montenegro em o exercício da paixão (Rocco, 1990), de Lúcia Ritto, se sentiu intimidado ao escrever sobre a atriz. Segundo Caetano, o trabalho de Fernanda “transcende a evidente excelência: suas criações são como os romances de Machado, os poemas de Drummond – descobrem (inventam), o sentido do nosso modo de ser; nos fundam nos filtram, nos projetam”.

Assim, fica mais fácil entender a declaração poeta Drummond sobre Fernanda, na epígrafe do livro Viagem ao outro – sobre a arte do ator (Minc – Fundacem, 1988).

“Não se sabe o que mais admirar nela: se a excelência de atriz ou a consciência, que ela amadureceu, do papel do ator no mundo. Ela não se preocupa somente em elevar ao mais alto nível sua arte de representar, mas insiste igualmente em meditar sobre o sentido, a função, a dignidade, a expressão social da condição de ator em qualquer tempo e lugar”.

Fernanda Montenegro no palco é compreender que confundir-se com o outro é fundamental.

(Texto escrito a partir de entrevista exclusiva com Fernanda Montenegro, antes da apresentação do espetáculo Viver sem tempos mortos, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro)


BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates