HELENA SOLBERG

O CINEMA NA FRONTEIRA DA LINGUAGEM

Por Ramon Mello [Portal Cultura.rj 2009]

 

 

Em fevereiro de 2009 – para ser mais exato no dia 09 – comemorou-se os 100 anos de Carmem Miranda, a Pequena Notável que levou suingue e brasilidade ao mundo inteiro. Entre as diversas homenagens, a Secretaria de Cultura do Estado organizou palestras de Ruy Castro e convidados, exibição de filmes, shows, apresentações da Império Serrano e uma exposição retrospectiva da artista e uma escultura em tamanho natural – vestida com uma réplica do traje usado no filme Uma Noite no Rio – criada pelo artista plástico Ulysses Rabelo.

A cineasta Helena Solberg, que se consagrou com o clássico doc-drama ‘Banana Is My Business’, comemorou a data duplamente. No mesmo ano do centenário da cantora portuguesa (mas brasileira de coração), Helena surpreende-se com a recepção do seu novo filme: ‘Palavra Encantada’ – um ensaio poético sobre música e poesia, assinado em parceria com produtor Marcio Debellian, amante de música brasileira que convidou a cineasta para dirigir o filme depois de conhecê-la através de memorável Elenora de Martino, ex-diretora de patrocínios da BR Distribuidora.

“Fiquei muito surpresa com a aceitação do ‘Palavra’, é emocionante. Diferente de ‘Banana’, escolhemos o caminho de dar voz aos entrevistados, o que me assustou muito. Ou nós íamos por um caminho intimista ou caímos no jornalismo. O ‘Palavra’ é um filme denso de ideias, a música leva o filme. De todos os filmes sobre música brasileira, o ‘Palavra’ é mais abrangente, com um olhar que só podemos ver neste momento. Esse filme não diz nada de definitivo, mas abre uma porta para outros filmes sobre esse tema. A relação da poesia e música no Brasil é fenômeno muito peculiar. Gosto da ideia do Brasil não ser um país letrado, que para suprir essa deficiência salta para música. Aprendi muito com o filme. O contato com os pesquisadores do filme – Julio Diniz, Frederico Coelho e Heloisa Tapajós – foi muito importante”, afirma a cineasta que, depois de se formar em Letras Neolatinas na PUC, morou mais 30 anos fora do Brasil.

“Eu comecei na literatura, queria ser escritora. Quando eu tinha 17 anos eu escrevi uma novela de 300 páginas, mas depois eu queimei. Fiquei raiva de mim, só uma adolescente faz uma coisa dessas. Depois fui para a PUC, onde conheci a turma do cinema: Cacá Diegues e Arnaldo Jabor… E nos reunimos por causa do jornal da Une, o Metropolitano. Nós íamos muito ao MAM ver filme, era intenso. Era um Brasil muito excitante. Achávamos que estávamos nos formando para mudar o país, até chegar o Golpe. Me lembro que nesse período eu fui presa, em São Paulo. (risos) Eu e Jean Claude Bernardet jogamos bolinha de gude nos cavalos. Nós também acolhíamos pessoas que nem sabíamos o nome, um cara morou na minha casa por três meses”, relembra Helena, deixando escapar um pouco de saudosismo.

No jornal Metropolitano a cineasta começou o trabalho de repórter, por dominar Inglês e Francês era requisitada para fazer entrevistas com ícones da cultura – talvez, também seja esse o início da carreira de documentarista. Helena, ainda adolescente, entrevistou, por exemplo, a escritora Clarice Lispector e, também, os filósofos Simone de Beauvouir e Jean Paul Sartre quando estiveram de passagem ao Brasil.

“Simone era uma camponesa, com a cara lavada e cabelos presos. (risos) Eu saí muito com a Simone e o Sartre, mas era uma chatice. Eles ficavam o tempo inteiro discutindo, ela ficava de enfermeira dele, lembrando a hora de tomar o remédio. Eu era uma criança, tinha 17 anos, mas tinha todos os livros da Simone. E o encontro com a Clarice foi lindo. Ela era linda, aquele rosto eslavo. Nós conversamos e os filhos estavam em volta. Essa entrevista foi para a Manchete, não foi uma conversa intensa. Na época, eu tentei ler ‘Perto do Coração Selvagem’, mas desisti. Só descobri Clarice mais tarde”.

A passagem da literatura para o cinema aconteceu naturalmente, segundo a cineasta, como uma “busca de examinar o background”. Assim também surgiu seu primeiro filme ‘A Entrevista’, que discute os valores burgueses entre moças da classe média alta do Rio de Janeiro.

“Na ‘Entrevista’ debatemos sobre a participação da mulher no Brasil. As mulheres hoje vivem outra realidade, o trabalho deixa relação entre o homem e a mulher muito mais interessante. As formas de relacionamento estão mudando. Minha mãe, por exemplo, quando soube que eu ia fazer um filme sobre Carmem, disse: ‘Por quê? Aquela criatura horrenda?’ Havia uma resistência da classe privilegiada em relação à Carmem e também em relação ao samba. A ideia que a Carmem, uma mulher, seria exposta ao mundo, cantando samba, era uma humilhação para essa elite”, para a cineasta ainda não existiu outra mulher como Carmem Miranda:

“Ainda está para nascer uma mulher como Carmem. Quem viu o que a baiana tinha foi o Getúlio (Vargas). Ele enxergou a imagem forte que aquela mulher imprimia. Meu filme não é um trabalho jornalístico ou uma pesquisa acadêmica, é uma biografia afetiva. Carmem Miranda possui os três atos de uma grande ópera. Eu não imaginava que havia tanta tragédia, fiquei tocada. Carmem é incrível. Morando nos EUA eu senti na pele o que era ser latino. A Carmem reunia essas questões, além o papel da mulher. Há uma grande discussão sobre quem deveria encenar Carmem Miranda no cinema. Madonna já disse que gostaria de fazer a Carmem. Outros falam que tem de ser uma brasileira. Quem eu acho que deveria fazer a Carmem? Bebel Gilberto. Ela é cantora, tem uma vivência fora do Brasil, fala outros idiomas… Ela seria a minha candidata”, defende.

Antes do convite para debater a intersecção entre música e poesia, Helena flertou com o documentário político. Em meados dos anos 80, filmou ‘Retrato de um terrorista’, sobre o polêmico Fernando Gabeira.

“A ideia era procurar o Charles Elbrick que estava vivendo em Washington e convencê-lo a se encontrar com o Gabeira, que não pode entrar nos EUA. Pensamos em levar os dois para o Canadá e fazer esse encontro. Ele perdoou o Gabeira e por isso perdeu a carreira diplomática. Na época do sequestro, quando foi solto, ele fez declarações dizendo que ‘entendia a questão dos meninos’. Então, fui visitar o Elbrick e descobri que ele estava com as duas pernas amputadas. Quando o Elbrick foi sequestrado ele levou uma pancada na cabeça e parece que ele teve um coálogo, que resultou na amputação anos depois. Entrevistei o Elbrick mais de uma vez, mas acabei não fazendo o filme com ele. Tive de entrevistar Diego Asencio, que era embaixador da Colômbia. O filme é uma discussão entre o Diego Asencio e o Gabeira sobre a justificativa de um ato terrorista”.

Em seguida, Helena se reaproximou a literatura, ao levar para o cinema os diários da Helena Morley, os registros de uma garota na Diamantina logo após a abolição da escravatura e da proclamação da República. O filme foi um grande sucesso entre intelectuais, entre eles Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Darcy Ribeiro e Elisabeth Bishop.

“Cheguei até a Helena através das correspondências de Elisabeth Bishop. Eu me identifiquei com a ideia de uma adolescente rebelde, transgressora, corajosa. É uma linda imagem de mulher. Curiosamente ela acabou não sendo escritora. A única coisa que ela escreveu foi o diário, incrível. Mas foi muito difícil fazer o filme. Não havia uma narrativa, construímos tudo nas entrelinhas. Eu tinha uma desconfiança que metade daquela história era mentira. As pessoas mentem nos diários. Ela criou um personagem que era ela mesma, se salvou na invenção. O nome dela é Alice Caldeira Brant, mas ela se transformou em Helena Morley. Isso é lindo! Foi tudo isso que me atraiu. A fragmentação acabou criando uma linguagem para o filme. Essa foi minha primeira experiência, quero fazer outras coisas”, explica Helena, admiradora de jovens cineastas como Beto Brant, Heitor Dália, Pedro Cezar, Marcus Prado e Mauro Lima.

“O que mais me interessa no cinema, em termos de linguagem, é essa fronteira entre a ficção e a realidade. Quando usamos a câmera já estamos manipulando, fazendo um corte. O cinema não é realidade. Acho que sem susto a gente não faz nada. O medo é um termômetro que nos mostra que estamos no caminho certo”, finaliza a Helena Solberg, que já prepara seu novo filme de ficção.

“Ainda é segredo. Só vou dizer no susto, assim de repente”.


BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates