OTÁVIO JÚNIOR

PROTAGONISTA DA PRÓPRIA HISTÓRIA

Por Ramon Mello [Cultura.RJ 2010]

Subúrbio do Rio de Janeiro. Uma criança negra, de aproximadamente oito anos, brinca na rua - próximo a montante de lixo. De repente, encontra o exemplar de um livro infanto-juvenil: Don Gatton, um conto espanhol. Imediatamente o menino se interessa pelo universo onírico da literatura e passa a fazer das palavras seus melhores amigos.  Apaixonado pelas histórias infanto-juvenis, o menino resolve compartilhar a descoberta com as crianças que estão a sua volta. Na juventude, seguindo o desejo de infância, torna-se escritor e promotor da leitura.

A descrição desta cena poderia ser encontrada em algum livro de ficção e, quem sabe, ser classificada como utópica.  Mas o fato é que essa história é real, o protagonista chama-se Otávio César de Souza Júnior, mais conhecido como Otávio Júnior - um dos mais importantes representantes do incentivo a leitura no Brasil. O jovem escritor de 25 anos, morador do Morro do Caracol, no Complexo da Penha, filho de um pedreiro e uma dona-de-casa, é criador do Ler é 10, leia favela, que promove a literatura na periferia do Rio de Janeiro, atuando, por exemplo, nos complexo da Penha e do Alemão - onde já reuniu mais de mil crianças para conhecer um pouco de literatura.

"Com o projeto, atendo cerca de 300 crianças por mês. Juntos, nós lemos e discutimos as histórias. Quero, um dia, publicar meus livros.Tenho dos livretos artesanais, mas ainda não consegui uma editora. Não desanimo, quem sabe alguém se interessa pela minha história? Enquanto isso, continuo apresentando um mundo de oportunidades através da leitura", afirma Otávio, que, em 2003, publicou de maneira artesanal seus primeiros livros, As aventuras do pássaro mágico e outras histórias e O Tesouro da Floresta, e já tem mais de dez livros infato-juvenis à espera de um editor.

O projeto não tem uma sede específica, pode ocorrer em diferente lugares como Ongs, associações de moradores, prédios do PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) ou até na casa dos pais de algumas crianças. O importante é que o espaço tenha o mínimo estrutura. "Trabalho com a proposta de biblioteca ambulante, para alcançar um maior número de crianças. A comunidade é muito grande, são mais de 20 favelas. Basta o mínimo de espaço para reunir as crianças e contar as histórias. Elas esquecem que estão numa sala sem conforto e viajam para dentro do livro!"

Nas oficinas, antes de iniciar as atividades, o monitor reúne as crianças e se apresenta: "Sou Otávio Júnior. Estou aqui para levar vocês para uma viagem, dentro do livro". Vestindo a camiseta do projeto, o mesmo modelo de uma camisa de time de futebol, com o número 10 estampado nas costas, o contador de histórias prende a atenção das crianças - em poucos segundos todos ficam envolvidos no jogo. Driblando as dificuldades,  Otávio se aproxima das crianças através da jogos como "O que é, o que é?", para então introduzir o livro na conversa. Em princípio, só ele segura os exemplares e faz leituras interativas, aguçando a curiosidade dos leitores. Quando as crianças estão exaltadas de alegria, é proposta brincadeiras onde os livros são manuseados, lidos. 

"Acima de tudo sou leitor de histórias. Gosto muito de fazer performance literária e criar novas formulas para estimular o ato da leitura. Uso o espaço como centro de experimentação e pesquisas de promoção da leitura", declara o jovem, que assume a função de "coordenador, promotor de leitura, arte-educador, secretário, faxineiro e carregador de livros".

Entre as atividades, destaca-se o Lanchinho Literário, uma pausa na leitura para comer biscoitos reacheados e tomar refrigerante, um momento de confraternização entre o professor e as crianças. Além disso, há o Cineminha Literário: a exibição de filmes infanto-juvenis, adaptações de obras literárias, entre eles O Menino Maluquinho e Harry Potter são os mais solicitados. E, ainda, o Bolivro, um boliche lliterário, em que as crianças fazem boliche com figuras de autores conhecidos no imanginário infantil: Ziraldo, Lígia Bojunga, Ana Maria Machado e Ruth Rocha - a criança tem o direito de escolher um título do autor que derrubou.

Os jogos e as brincadeiras de incentivo a leitura são muitas. No entanto, nem todas as crianças sabem ler. Não é raro encontrar algumas crianças tristes, caladas, sem vontade de interagir com o livro ou com as outras crianças. Quando pergunta-se o motivo do recolhimento a resposta é sempre muito parecida: "Não gosto." Até que a criança cria coragem, assume que não sabe ler, e pede para alguém ler uma história. Otávio esbarra diariamente em situações como essa em suas oficinas.

"Na favela, o índice de analfabetismo funcional é muito grande. Mas eu não desamino. Converso com a criança e apresento um livro só com imagens. Depois vou lendo uma história, apresento as palavras e falo a respeito da importância de se frequentar a escola. Criança tem de brincar e frequentar a sala de aula", defende.

Em 2006, Otávio  ganhou reconhecimento nacional, após participar do quadro Agora ou Nunca, do apresentador Luciano Huck, onde faturou premiação em dinheiro para estruturar seu projeto. E, no início deste ano, foi contemplado com premiado pelo Prêmio Globo Faz a Diferença (categoria Megazine), organizado pelo jornal O Globo. Apesar do apoio do Instituto Kinder do Brasil e da AFEIGRAF,  Otávio ainda aguarda que a repercussão do projeto se reverta em mais apoio financeiro para ampliar o acesso à leitura em comunidades carentes e, também, conseguir custear as viagens a festivais e feiras literárias, onde participa de oficinas de contação de história para aperfeiçoar seu trabalho.

Atualmente,  Otávio Júnior é um dos finalistas do projeto Viva A Leitura, do Governo Federal. "Estou numa ansiedade tremenda, eu ainda não acredito que estou na seleção final. O projeto toma mais de 24 horas do meu dia. Se eu ganhar vou poder ampliar o projeto e atender mais crianças, vai ser maravilhoso! É lindo pode ver a alegria de uma criança que nunca teve acesso a um livro, uma história. Essas crianças são como filhos", diz, emocionado, o jovem pai de João Vitor, de um ano e três meses. E completa:

"Meu filho está muito esperto, inclusive já comprei a caixinha de livros dele. Leio as histórias e tudo. Quando ele menos esperar vai ler muitos livros sozinho. Imagina?", comemora.

Qual o maior sonho do Otávio?

"Tenho o desejo de publicar meus livros.Mas meu maior sonho é criar um modelo de comunidade leitora, que dsicuta sobre literatura nos becos e vielas".

>>> Os interessados em fazer doações livros podem entrar em contato por e-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.


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