A LINGUAGEM É O VERDADEIRO VÍRUS

CORPO É TEXTO

Por Ramon Nunes Mello | originalmente publicado na apresentação do livro “Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv/aids” (Bazar o Tempo, 2018)

 

A linguagem é um vírus do espaço sideral

William S. Burroughs

Tenho uma doença: vejo a linguagem

Roland Barthes

A linguagem é o verdadeiro vírus. Só pude compreender essa sentença quando, em 2012, peguei um diagnóstico em que constava reagente: HIV positivo. Ao reelaborar minha visão de vida, tive a compreensão que eu não deveria silenciar sobre minha sorologia, tendo liberdade para escrever, de forma subjetiva ou não, sobre o assunto quando tivesse vontade e desejo, sem medo do julgamento alheio.

Em 2015, quando resolvi escrever o texto “O sentido da urgência: a necessidade de se conversar sobre o HIV”[1], em que abri publicamente sobre a vivência com vírus, passei a mergulhar em livros que abordavam o tema como uma busca de diálogo, fortalecimento emocional, aceitação de uma nova condição e entendimento da linguagem literária como busca e forma de vida. Conforme comecei a escrever os poemas do meu último livro, Há um mar no fundo de cada sonho (2016), aceitei minha convivência com o vírus que está hospedado no meu sangue.

Foi durante a leitura dos livros dos escritores e ativistas Herbert de Souza (o Betinho) e Herbert Daniel, e do pesquisador e escritor Marcelo Secron Bessa, autor de obras referenciais sobre questão do HIV na literatura brasileira - Histórias positivas, a literatura desconstruindo a Aids e Os perigosos, autobiografias & AIDS - que pude, de fato, perceber o tabu sobre uma questão que há mais de três décadas se espalhou pelo planeta, infectou 60 milhões de pessoas, e causou mais de 30 milhões de mortes, inclusive de ativistas, artistas e escritores que admiro, aos quais dedico essa publicação.

Após 36 anos do surgimento do HIV/AIDS, desde de sua descoberta em 1981, é relevante lembrar de Susan Sontag, no livro Doença como metáfora, obra que continua atual, em que afirma: “pronunciar o nome é sinal de saúde, sinal de que a gente aceitou ser do jeito que é, mortal, vulnerável”. HIV/AIDS. Palavras que impõem limites e mudanças profundas, entretanto penso que, para romper com o tabu e o preconceito do HIV/AIDS, tanto na vida como na literatura, é necessário encarar essas siglas. HIV/AIDS. Pronunciá-las e escrevê-las, só assim podemos criar um novo imaginário diferente do estigma associado ao início da epidemia. É possível ressignificar a ideia em torno do vírus, que não mais significa uma sentença de morte, e além disso tratar do tema de forma estética, através do trabalho com linguagem.

Nesta era “pós-coquetel”, em que a resposta brasileira à epidemia de HIV/ AIDS, antes exemplo mundial, tem se enfraquecido diante do retrocesso conservador e persistência do preconceito, estigma e moralismo, como a literatura, sobretudo poética, tem registrado as formas de apreensão da infecção? É possível compreender tais transformações no “enquadramento” sócio-histórico do HIV/ AIDS a partir da poesia? Como o próprio corpo do soropositivo, marcado pela terapia de antirretrovirais e seus efeitos, é assimilado pela linguagem poética e como esta contribui para narrar a própria história na perspectiva não da pesquisa biomédica e da saúde pública, mas dos “pacientes”? Como essa doença é percebida pelos indivíduos que são diretamente afetados por ela, podem colaborar para a (re)construção da história da epidemia de HIV/AIDS no Brasil? As notícias de imprensa, as experimentações poéticas, as narrativas ficcionais e os relatos biográficas podem ser considerados corpos textuais da história do HIV/AIDS? De que maneira a literatura ajuda a compreender o impacto do diagnóstico de soropositivo nas trajetórias de vida, bem como os significados de se relacionar afetivamente com as pessoas que vivem com o vírus? A temática do HIV/AIDS no campo das artes pode ser considerada como estratégia política de atuação e visibilidade? A poesia pode ser vista como forma de reação ao diagnóstico? Nesse sentido, é possível uma literatura de HIV/AIDS? De que forma o tema pode ser abordado na poesia brasileira?

Acredito que a busca por possíveis respostas a essas inquietações, especificamente através da poesia, podem mobilizar aportes da história cultural da doença e da literatura, nos permitindo compreender como "o tempo – o da antecipação do fim, o ritmo da tomada dos remédios, a expectativa com a chegada de novas drogas, o tempo de formas de amor muitas vezes impacientes". - é tratada na trajetória dessa doença.

Há um texto recente, escrito por Danilo Rodrigues Melo e João Camillo Pena (UFRJ), intitulado “Literatura e HIV/AIDS; reflexões sobre a era pós-coquetel” [2], que nos ajudam a comprender tais questões, a partir do panorama da literatura produzida no Brasil abordando o tema do HIV/AIDS, destacando a importância da obra de Herbert Daniel e Caio Fernando Abreu na desconstrução dos discursos sensacionalistas e folhetinescos construídos nos textos jornalísticas dos anos 80 e 90 e investigando a busca por novas abordagens ao HIV.

O tortuoso caminho trilhado no âmbito da epidemia do HIV/AIDS desde os anos 1980 sempre passou, de uma forma ou de outra, pelas diferentes formas de apropriação da linguagem. No seu início, o total desconhecimento sobre a doença e suas causas, o desejo de apontar culpados e o imenso número de mortes, que tornava impossível ignorar a questão, levou ao que se chamou de “epidemia discursiva”. Cristalizou-se, a partir da predominância de uma forma de linguagem pretensamente científica, sensacionalista e folhetinesca, estigmas e estereótipos ainda hoje muito fortes.

Com a introdução dos medicamentos antirretrovirais, contudo, veio não apenas a possibilidade de sobrevivência, mas também a reação dos setores mais conservadores da sociedade, cada vez mais representados na esfera governamental, com a imposição do emudecimento das campanhas de conscientização e da discussão ampla e aberta sobre o vírus e seus riscos, possivelmente contribuindo para os dados alarmantes refletidos nas estatísticas mais recentes.

Em um momento como em outro, a literatura se viu num cenário de confrontação com discursos retrógrados. Paradoxalmente, apesar das diversas mudanças atravessadas pela epidemia, com destaque para a introdução do coquetel antirretroviral na segunda metade dos anos 1990, muitas das questões iniciais se mantiveram. Se Herbert Daniel se insurgia contra a forma pela qual os doentes de AIDS eram retratados, e Caio Fernando Abreu falava da “paranoia sexual” e buscava fugir dos estigmas construídos em torno do vírus, as obras mais atuais revelam que essas visões datadas ainda hoje impõem sua força.

 Aliando essas reflexões sobre o vírus e a linguagem, as indagações do meu processo individual com o HIV e a poesia, e ao prazer de ler textos de João Silvério Trevisan, Herbert Daniel, Caio Fernando Abreu, Bernardo Carvalho e Silviano Santiago - autores que, cada um ao seu modo, trataram do HIV na literatura -, surgiu o desejo de organizar a antologia TENTE ENTENDER O QUE TENTO DIZER, cuja pretenção é tentar provocar uma expressão artística e uma reflexão crítica sobre o vírus, o corpo e a linguagem através das trajetórias individuais de vida e do contexto histórico do HIV/AIDS.

O título do livro foi retirado da Primeira Carta Para Além dos Muros, de Caio Fernando Abreu, crônica em forma epistolar, publicada no jornal Estado de São Paulo, em 21/08/1994, em que o autor revela sua sorologia publicamente. Escolhi como título um texto do Caio F. porque ele é, entre outros autores brasileiros, o que trabalhou a questão do HIV/AIDS de modo mais subjetivo e metafórico em seus textos, permitindo assim uma leitura mais aberta como a poesia.

Quanto a organização, propriamente dita, optei por não fazer um recorte cronológico sobre a questão, e sim reunir a partir de eixos como a linguagem, o corpo, o tempo e seus desdobramentos, de modo a permitir uma leitura mais fluida e livre. Trata-se de uma antologia possível, uma seleta da produção poética contemporânea, composta por gerações, gêneros e sorologias distintas. Um espaço onde poetas - brancos e/ou negros, cis e/ou trans, hetéros, bi e/ou homossexuais, soronegativos, sorointerrogativos e/ou soropositivos – foram convidados, em sua maioria, a escrever poemas tendo o HIV/AIDS como temática, de forma direta ou indireta. Ao todo estão reunidos centenas de poetas, pois prefiro o excesso para preencher a lacuna existente em nossa literatura e incitar a inspiração de poetas, escritores e editores.

O diálogo do HIV com a poesia, embora escasso, não é inédito. Curiosamente, vale lembrar que, como registrou em suas pesquisas Marcelo Secron Bessa, o Ministério da Saúde utilizou os versos do poema “Quadrilha” [3], de Carlos Drummond de Andrade, para uma campanha de prevenção sobre HIV/AIDS em 1987. Os versos do poeta são transformados numa a paráfrase de gosto duvidoso: “João que amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria que amava Joaquim que amava Silvio que amava Ana / que amava Zeca que amava Rita que amava Fábio / que morreu de Aids.” E por fim é dito: “não morra de amor, use camisinha".

De acordo com minhas pesquisas, o poeta e professor Italo Moriconi (que aqui assina como ItaloMori), é um dos poetas que de forma mais atenta vem produzindo sobre o tema, na poesia brasileira, desde o início da epidemia nos anos 80 até hoje, como poderemos ler na antologia. Com a produção atual, principalmente dos poetas mais jovens, nota-se uma abordagem mais voltada para a linguagem, o tempo, o amor, e, principalmente, o corpo – não o corpo frágil e ferido, apresentado no início da epidemia, eclipsado com a morte, mas um corpo contagiado de vida, tesão e esperança. Há ainda, nesses versos, a entrada dos medicamentos antirretrovirais como companheiros de uma saga, os dilemas das relações sorodiscordantes, maior abertura para a conexão a vida espiritual, o medo do diagnóstico e dos efeitos colaterais e as dificuldades de abrir a sorologia para o outro. Além da memória como forma de abordar (e homenagear) pessoas que não sobreviveram à epidemia.

Vale destacar, por fim, que uma referência importante, para esse livro, é a VISUALAIDS [http://visualaids.org/] organização internacional que reúne artistas para provocar o diálogo com o HIV/AIDS e artes, o hibridismo de linguagens, além de apoiar os artistas HIV + e preservar o legado, porque a AIDS não acabou.

Agradeço a cada um dos poetas que participam desse projeto, seja prontificando a escrever versos inéditos ou indicando onde poderia encontrá-los. Estendo meu agradecimento a família de Caio Fernando Abreu - Marcia de Abreu Jacintho e Claudia de Abreu Cabral - e da agente literária Lúcia de Melo e Souza Riff pelas autorizações necessárias. Minha gratidão a editora Ana Cecilia Impelizari Martins, que acreditou na proposta, viabilizando a publicação, e, ainda, aos professores Denilson Lopes, Alexandre Nunes de Sousa e Eduardo Jardim pelos textos que complementam o livro. Agradecido, Felipe Stefani, pelas belas ilustrações de traço delicado que se uniram a capa e as páginas dessa seleta.

Desejo que esse livro possa abrir espaço, amplificar as vozes, para além dos dados médicos e estatísticos, para que possamos entender melhor como podemos falar sobre HIV/AIDS, sem medo ou pudor, e (por que não?) com poesia. Sim, com a apropriação da linguagem modificamos o vírus do preconceito, aqui corpo é texto.

Ramon Nunes Mello

Araruama/RJ, 19 de outubro de 2017.

Notas:

1. “O Sentido da Urgência: a necessidade de se conversar sobre o HIV” foi publicado no blog de Jean Wyllys, no site da revista Carta Capital, em 01 de dezembro de 2015. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-sentido-de-urgencia-a-necessidade-de-se-conversar-sobre-o-hiv-9676.html

2. “Literatura e HIV/AIDS; reflexões sobre a era pós-coquetel”, foi publicado na Z Cultural - Revista do Pograma Avançdo de Cultura Contemporânea.Disponível em: http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/literatura-e-hivaids-reflexoes-sobre-a-era-pos-coquetel/

3. Carlos Drummond de Andrade , Nova reunião. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1985. QUADRILHA: “João amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili / que não amava ninguém. / João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento, / Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, / Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes / que não tinha entrado na história.” 

[1] “O Sentido da Urgência: a necessidade de se conversar sobre o HIV” foi publicado no blog de Jean Wyllys, no site da revista Carta Capital, em 01 de dezembro de 2015. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-sentido-de-urgencia-a-necessidade-de-se-conversar-sobre-o-hiv-9676.html

[2] “O Sentido da Urgência: a necessidade de se conversar sobre o HIV” foi publicado no blog de Jean Wyllys, no site da revista Carta Capital, em 01 de dezembro de 2015. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-sentido-de-urgencia-a-necessidade-de-se-conversar-sobre-o-hiv-9676.html

[3] “O Sentido da Urgência: a necessidade de se conversar sobre o HIV” foi publicado no blog de Jean Wyllys, no site da revista Carta Capital, em 01 de dezembro de 2015. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-sentido-de-urgencia-a-necessidade-de-se-conversar-sobre-o-hiv-9676.html

ENTRE GÊNEROS: LIBERDADE E RESISTÊNCIA

Por Ramon Nunes Mello e Wagner Alonge

 

Vivemos hoje mais do que nunca um momento de sociabilidade de estabelecimento de espaços e construção de si quando o assunto é gênero. A transformação da sexualidade num ponto relevante para a promoção da identidade acentua a crescente importância de áreas até então protegidas pela barreira do privado, tais como o corpo, a orientação sexual e o gênero.

As chamadas minorias sexuais estão muito mais visíveis e, consequentemente, torna-se mais explícita e acirrada a luta delas com os grupos conservadores. A denominação minoria que lhes é atribuída parece, contudo, bastante imprópria. As minorias nunca poderiam se traduzir como uma inferioridade numérica, mas sim como maiorias silenciadas que, ao se politizar, convertem o gueto em território e o estigma em orgulho de gênero, ou étnico. Entretanto, mesmo diante da construção de liberdades de gênero e do lento avanço das políticas públicas ocorridas nas últimas três décadas, o Brasil lamentavelmente lidera os rankings de assassinatos de gays, travestis e transexuais.

Diante desse cenário, com o aumento da visibilidade e do debate sobre o tema de gênero no meio artístico no Brasil; em agosto de 2016, o fotógrafo Diego Ciarlariello foi convocado pela então gerência de cultura do SESC Rio, para retratar personalidades contemporâneas que suscitavam o rompimento com o padrão binário masculino e feminino. Pela sensibilidade do olhar, Ciarlariello conseguiu capturar o sentimento de liberdade no exercício da diferença de conduta de identidades e a intenção inerente de resistência individual a tendência enquadradora da sociedade.

Os sujeitos retratados – em sua maioria artistas, cantores e ativistas dos direitos humanos – na exposição Entre Gêneros, composta por 17 fotografias, contemplam em suas trajetórias a escolha de não se submeter ao padrão heteronormativo, criando assim o sentimento de ruptura com a opressão que quase sempre suscita a imposição da clandestinidade de suas verdades e identidades. Mais do que um simples registro fotográfico de personalidades como Ney Matogrosso, Laerte e Pablo Vittar, entre outros nomes da cena contemporânea, a mostra firma-se como uma cartografia sobre a liberdade e resistência de pessoas que se propõem a quebrar paradigmas de gênero e de representatividade no Brasil.

O RESGATE DA MEMÓRIA E DO LEGADO DE HERBERT DANIEL

Por Ramon Mello

 

A biografia Revolucionário e Gay – a vida extraordinária de Herbert Daniel (Civilização Brasileira) escrita pelo ativista LGBTQI+ e professor de História Latino-Americana na Brown University, James Green, mais do que um resgate da figura múltipla do escritor, integrante da luta armada contra a ditadura militar (1964-1985), exilado político, militante gay e ativista de hiv/aids [1]Herbert Daniel (1946-1992), é a revelação de como o empobrecimento sócio, político e cultural pode colaborar para a destruição da memória de um país. Sendo a memória uma construção social, o livro colabora para que minorias possam entrar em contato com o inventário da luta pela democracia, diversidade e justiça social.

A motivação principal da narrativa de James Green, construída ao longo de 10 anos, é a perplexidade diante do esquecimento da figura de Herbert Eustáquio de Souza, o Herbert Daniel na história do ativismo de esquerda e dos direitos humanos. Identificado com a trajetória de Herbert Daniel - esquecido pelo movimento gay e pelo ativismo em prol da democracia durante a ditadura no Brasil – o autor reconstrói uma trajetória, sem ter conhecido pessoalmente seu personagem, com detalhes pesquisados em jornais, revistas, vídeos, arquivos e entrevistas com contemporâneos de Herbert – entre eles, a ex-presidente Dilma Rousseff, companheira de guerrilha na tentativa de reconstruir o país através da luta armada, que assina a orelha do livro.

Na publicação (traduzida por Marília Sette Câmara) James Green contextualiza extensamente o período histórico-político vivido por Herbert Daniel, sem perder as contradições do biografado, levando em consideração um fator fundamental: a repressão de sua sexualidade por conta do preconceito no ambiente machista e homofóbico da esquerda brasileira naquele momento, que marcou a elaboração a gênese de um pensamento político e intelectual. Acompanha-se assim os passos de Herbert Daniel como estudante de Medicina em Belo Horizonte no início da década de 1960 até, em seguida, se juntar ao movimento de resistência à ditadura civil-militar, onde descobriu sua homossexualidade e teve de escondê-la por receio de preconceito. O exílio, para fugir da prisão e tortura, junto com o companheiro Claudio Mesquita, em 1974 em Portugal e, depois, na França. O retorno ao Brasil na década de 80, sendo um dos últimos brasileiros a voltar do exílio, quando passa a escrever diversos livros, engajar-se nas campanhas em prol do meio ambiente e das minorias, a buscar a compreensão das homossexualidades (de acordo com Herbert, ela só existe no plural) como criação e não de aprisionamento e a defesa do corpo político. E, posteriormente, de forma pioneira, candidatar-se a deputado estadual pelo Partido Verde e a assumir se publicamente como gay. E, ainda, tornar-se, ao lado de Herbert de Souza, o Betinho, importante ativista pelos direitos das pessoas portadoras de hiv/aids no Brasil com a atuação na ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de aids) e do Grupo Pela Vidda e criação da Declaração dos Direitos Fundamentais da Pessoa Portadora do Vírus da aids que estruturou o discurso em relação a epidemia, além de cunhar o conceito de “morte civil” – mostrando que o hiv não é apenas uma questão de saúde, mas também sexual, social, econômica e de direitos humanos.

A narrativa sobre a história de Herbert Daniel, vem acompanhada por notas, caderno de fotografias e reprodução de documentos de períodos mencionados na história, permitindo uma reflexão sobre a crise dos valores democráticos e da desvalorização da memória.  O autor analisa a produção literária do escritor, entre ensaios, romances e livros memórias - Passagem para o Próximo Sonho, Jacarés e Lobisomens (com a poeta Leila Miccolis), Meu Corpo Daria um Romance, A fêmea Sintética, As três moças do sabonete, Alegres e Irresponsáveis Abacaxis Americanos, Aids - a terceira epidemia (com o sociólogo Richard Parker) e Vida antes da Morte - questionando sobre a relação entre a ficção e a realidade na vida de seu biografado, para compreender que a vida, por vezes, de tão extraordinária torna-se mais interessante do que a ficção.

James Green escreve sobre um menosprezado passado recente buscando parâmetros para ler o presente que se apresenta cada vez mais contraditório, talvez por isso aponte na figura de Jean Wyllys uma representatividade ou espelhamento para a continuidade das lutas de Herbert Daniel, que reflete não somente o pensamento político, mas, sobretudo, a subjetividade de um homem gay e militante. Nesse sentido o livro do brasilianista Green sobre o brasileiro Herbert amplia discussões importantes no Brasil, que ocupam o debate através da figura de Wyllys, autor a apresentação,  como, por exemplo: a necessidade de se aprofundar a história da ditadura a partir da história de seus participantes; o enfrentamento do pagamento da memória pela homofobia; e a urgência dar visibilidade ao debate sobre o hiv/aids - principalmente neste momento em que a epidemia apresenta um recorte que atinge mais os pobres, os negros, os pobres e os gays e os travestis.

Uma leitura possível, após percorrer a reconstrução da trajetória de um revolucionário pautada em amor e luta, é que uma vida, independente da causa ou partido, torna-se válida quando o senso de alteridade e respeito às diferenças estão presentes. Por fim, reverbera o questionamento sobre a necessidade de (nós, brasileiros) precisarmos do olhar de fora para legitimarmos a nossa própria história, ainda que possamos reconhecer que essa visão externa redimensiona nossos valores frente a luta pela cidadania e igualdade.


[1] As siglas hiv e aids foram grafadas em minúsculas com a intenção de acompanhar a posição adotada pelo escritor e ativista Herbert Daniel em seus ensaios e manifestos, referindo-me assim ao fenômeno ideológico e político do hiv/aids, na intenção de diminuir o protagonismo da doença em si frente à vida do indivíduo (Cf. H. Daniel; R. Parker, Aids: dois olhares se cruzam numa noite suja – a terceira epidemia. Ensaios e tentativas. São Paulo: Iglu, 1991, p. 47-52).

ADALGISA NERY, A MUSA DE VÁRIAS FACES

Por Ramon Mello (Prosa & Verso, O Globo 19/06/10)

 

“Adalgisa e Adaljosa,/ Parti-me para vosso amor/ Que tem tantas direções/ E em nenhuma se define/ Mas em todas se resume./ Saberei multiplicar-me/ E em cada praia tereis/ Dois, três, quatro, sete corpos/ De Adalgisa, a lisa, fria/ E quente e áspera Adalgisa,/ Numerosa qual Amor.”

Nestes versos do poema “Desdobramento de Adalgisa”, publicado em Brejo das almas (1934), Carlos Drummond de Andrade cantou as faces de Adalgisa Nery, poeta, jornalista e política, morta há 30 anos, em 7 de junho de 1980. Atuando em áreas tradicionalmente masculinas, Adalgisa colecionou amores e, também, alguns desafetos, mas conquistou reconhecimento e espaço na intelectualidade brasileira. No fim da vida, Adalgisa escolheu a solidão, recolhendo-se num asilo em Jacarepaguá.

Adalgisa Nery estreou na literatura após a morte do pintor modernista Ismael Nery (1900 – 1934), seu primeiro marido. Viúva, casou-se com o chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da ditadura Vargas, Lourival Fontes, desempenhando um papel crucial nas relações entre o Estado Novo e os intelectuais. Em 1954, após o suicídio do presidente, já separada de Lourival, Adalgisa estreou no jornalismo, fazendo carreira no jornal de Samuel Wainer,Última hora, ao assinar a lendária coluna “Retrato sem retoque”, espaço em que abordava, diariamente, com tom nacionalista, assuntos de política e economia, atacando os desafetos políticos.

Tendo a elegância como marca, andando sempre com cabelos e unhas impecáveis, Adalgisa atuou no campo intelectual, transgredindo na prática o papel da mulher, desde os anos 1930. A poeta deixou um legado para as mulheres que hoje ocupam lugar de destaque, principalmente no campo jornalístico.

“Ela escrevia com muita personalidade e voz própria. O exercício do jornalismo diário com textos políticos foi o que elegeu a deputada Adalgisa Nery, uma mulher sedutora e, ao mesmo, tempo muito dura”, afirma a escritora e jornalista Ana Arruda Callado, autora da biografia Adalgisa Nery, muito amada e muito só (Perfis do Rio, 1999), o único livro sobre a trajetória da poeta, que está esgotado.

Em 1960, sua carreira jornalística a projetou na política. Cercada de inimizades, como o então governador Carlos Lacerda, e herdeira política de Getúlio Vargas, Adalgisa foi deputada, pelo PTB, ao longo de três mandados, até ser cassada em 1969 pelo regime militar – o que a motivou a abandonar tudo: família, amigos e literatura.

Contemporânea das escritoras Dinah Silveira de Queiroz e Eneida de Moraes, Adalgisa Nery foi uma mulher de personalidade forte, contraditória, que buscou inspiração em outras mulheres modernas, como a escritora feminista francesa George Sand – de quem traduziu, do inglês, a biografia. Ela também estabeleceu uma relação de amizade com Frida Kahlo, que lhe dedicou uma página de seu diário. A Casa de Rui Barbosa guarda cartas trocadas com o pintor Diego Rivera, marido de Frida, por quem Adalgisa foi retratada na época em que foi embaixatriz no México.

A poeta também foi musa de Cândido Portinari, que ilustrou muitos de seus livros. Em depoimento para a biografia escrita por Ana Arruda, a viúva do pintor, Maria Portinari, relembrou o fascínio que Adalgisa causava nos homens: “Minha filha, que impressão ela causava nos homens! E no meu marido também.”

A mulher bonita e sedutora, muitas vezes excêntrica, com seus chapéus enormes, causava antipatia em alguns. É o que diz Raquel de Queiroz, ainda na biografia escrita por Ana Arruda Callado: “Ela não era simpática, nem educada. Mas era bonita. Muito bonita… Embora se achasse mais bonita do que era. Era pobre e ambiciosa […] Eu não a considerava elegante; era extravagante nas roupas. […] Ela queria ser a deusa: a deusa da poesia, a deusa da beleza…”

Autora de inúmeros livros de poesia, cujos títulos estão reunidos no volume Mundos oscilantes (1962), Adalgisa também se traduziu na prosa.  Todas as publicações foram bem recebidas pela crítica da época. No entanto, os títulos estão fora de catálogo e sem previsão para reedições. Com sorte, garimpando muito, encontra-se alguns exemplares em sebos. O esquecimento desagrada seus admiradores, como o poeta Armando Freitas Filho.

“Adalgisa era formidável, foi uma das nossas primeiras protagonistas intelectuais. Podemos dizer que ela antecedeu Cecília Meireles, em termos de representação pública. A interpretação que faço é que ela ficou marcada por uma ambiguidade. Sua produção em prosa teve uma recepção crítica mais forte do que a poética. Além do romance A imaginária, lembro do livro de poemas Ar do deserto, publicado em 1943. Sua poesia me parecia que tinha um eco com a de Augusto Frederico Schmidt. É fundamental que seus livros voltem a circular para que os leitores conheçam sua produção intelectual”, diz Armando.

A reedição da obra da poeta também é defendida por Eduardo Coelho, Chefe do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, que guarda grande parte do acervo de Adalgisa (como correspondência com Drummond, Veríssimo, Jorge Amado, Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, entre outros documentos).

“A poesia dela é marcada por um tom grandiloquente, fervoroso. Seus versos tratam do cotidiano do homem comum e também da força do cosmo. Há um movimento paradoxal em sua poesia, intenso, que une o natural ao sobrenatural, a preocupação social ao erotismo. Trata-se de uma obra irregular, sem qualquer dúvida, mas com excelentes poemas. Uma obra que deve ser republicada e sofrer uma reavaliação crítica sobretudo em relação ao contexto da literatura brasileira daquele período, com Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes e Vinícius de Moraes, que podem revelar alguma aproximação com a poética de Adalgisa Nery”, afirma Coelho.

No romance mais conhecido de Adalgisa, A imaginária, a personagem Berenice narra o drama psicológico em suas passagens de vida: a família pobre; o curso primário iniciado num colégio de freiras e concluído numa escola de Botafogo; os conflitos de infância e adolescência; o casamento sem consentimento da família; a convivência triste com a família do primeiro marido; e a morte do cônjuge, aos 33 anos, vítima de tuberculose.

“Até que ponto esta Berenice apaixonada e mais tarde aterrorizada, heroína do romance que foi o maior sucesso editorial da autora, é Adalgisa Nery?”, pergunta o jornalista Paulo Silveira, amigo de Adalgisa, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som gravado em 26 de julho de 1967, questão replicada em Adalgisa Nery, muito amada e muito só, onde se lê a resposta da própria escritora: “Ali tem muita coisa de minha biografia, tem muita coisa reforçada com minha imaginação.”

Mesmo com o passar dos anos, Adalgisa Nery, continua apaixonante, seduzindo pela biografia e pela imaginação, pela personalidade e pelas palavras.

Trecho do romance autobiográfico A imaginária, publicado em 1957, o sétimo livro de Adalgisa Nery

Um dia, como um dia para toda adolescente, eu senti que amava um homem. Conheci então uma nova paisagem da minha alma. Descobri nesse sentimento um senso de beleza capaz de afugentar todas as sombras acumuladas dentro do meu ser. Pela primeira vez, tive a sensação exata de força e liberdade. Lembro-me que, imantada por ele, eu me integrei totalmente em todas as partículas da vida e da natureza. Subindo os degraus de uma escada de pedra, reparei nas formigas que cruzavam e, com cuidado especial, procurei não esmagá-las com os meus pés. Fitei com uma ternura cuidadosa as plantas, as flores, as andorinhas, que traçavam espaço e a poeira de orvalho caída sobre as folhagens. Aprendi as cores nas luzes das manhãs e nas tonalidades do anoitecer. Eu estava no processo da metamorfose. Em tudo eu encontrava uma duplicidade de sentido. Estava sob a função de reminiscências eternas que atuavam como ligação do divino que surge no humano e com o divino que se entende no universo.  Havia um abandono alegre no meu ser acompanhando a causa misteriosa. E, de repente, me senti identificada com a vida. Tive a impressão de que uma grande chuva caíra sobre o mundo, e agora se apresentava lavado, fresco, radiante. Creio que os meus gestos se tornaram harmoniosos, a minha voz era o eco da música das águas cantantes e a minha memória só se recordava das formas perfeitas, para essa nova construção. Foi uma fase de grandeza aguda e espetacular da minha alma. De tudo emanava doçura e leveza compensadoras.

[…]

Não creio que haja nenhum período feliz na nossa vida. Às vezes há uma fase de inconsciência da infelicidade. Nesse espaço de tempo, julgamos estar vivendo uma época feliz. Em realidade, o descontentamento não veio à tona. Estava em gestação no acontecimento. Só notamos quando a ocorrência vem à superfície dos nossos cinco sentidos. Porém ele nunca deixou de existir. É a esse hiato entre a ignorância e o conhecimento do desagradável que denominamos puerilmente de “época feliz”. O próprio amor que é a mais verdadeira proximidade da felicidade, não desligado jamais de um grande subterrâneo sofrimento. Sobre as horas ardentes de uma plena satisfação amorosa, estão o desgosto e o sofrimento vigiando o primeiro cansaço e o primeiro tédio para flutuarem num tempo mais largo, com maior duração e fundas consequências do que o momento nos trouxe a sensação do eterno. A minha natureza não é de mulher pessimista. Sou um ser anaglífico vivendo uma sincera fusão de duas imagens de perspectivas semelhantes. Há uma intensidade de forças em profundidade e em extensão girando em meu redor como o ectoplasma. Daí sentir-me constantemente no limbo. Essa explicação tem como finalidade desviar qualquer julgamento precipitado para classificar-me de pessimista. Apesar de ter sido desde menina violentada pela vida, os meus olhos não perderam a noção dos coloridos e dos contornos e a minha alma não esqueceu a música e a harmonia.

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