ALICE SANT`ANNA

MEMÓRIAS AFETIVAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

 

  

 

A delicadeza de Alice Sant’Anna me seduz. Gosto da doçura de suas palavras, poemas quase fotográficos, recortes do cotidiano, resquícios de memórias afetivas. Não é à toa que a menina encantou os poetas Chacal e Armando Freitas Filho, seus padrinhos.

“A memória perde as coisas, não conserva nada – estava falando sobre isso com minha professora de francês. Tenho de ler Proust. Minha memória prática não serve para nada. Mas minha memória afetiva é muito forte. Lembro, perfeitamente, de um cheiro – pelo menos na minha cabeça. Não consigo contar histórias, mas lembro dessas sensações”.

Carioca, estudante de jornalismo, estagiária do selo Alfaguara da editora Objetiva, Alice prepara as malas para fazer um intercâmbio de seis meses em Lyon, na França. Pretende estudar Letras, aperfeiçoar o Francês, conhecer pessoas diferentes do seu meio. E, em breve, voltar ao Brasil para continuar dedicada ao trabalho no mercado editorial.

“Comecei a fazer jornalismo porque não tive coragem de fazer Letras. Por enquanto, quero continuar na editora mesmo, é um trabalho maravilhoso”.

Prometi a conversa há mais de um ano, antes do lançamento do seu primeiro livro, Dobradura  (7 Letras), mas imprevistos adiaram os planos. Até, finalmente, nos encontrarmos no apartamento da Gávea, onde mora com a família e a gata Juju.

“Cachorro é alegre, abana o rabo. E gato não. Chego em casa e Juju não está nem aí para me receber. Mas gosto de gatos, eles têm vida própria. Acho o ronronar deles incrível. O gato é tão discreto que até a felicidade dele é um motorzinho dentro. É um bicho interiorizado. To falando um monte de besteiras (risos). Eu gosto de gato porque gato é legal”.

O bate-papo, bem humorado, passeou pelas lembranças de infância, sons de piano e trechos de poesia.

“cabelos esvoaçantes emolduram o rosto / os óculos são grandes para cobrir os olhos / não quero fazer aniversário / gosto dos meus quinze”.

Seus poemas remetem muito a sua infância. Fale um pouco sobre essa fase da vida.

Alice Sant’Anna  – Sou carioca. Nasci aqui, nesse apartamento, na Gávea. Sempre morei nesse apartamento, nunca mudei de quarto. Tenho uma irmã mais velha, chama-se Marina. Mas somos completamente diferentes. Sobre o livro, realmente meus poemas são muito ligados à infância. A memória perde as coisas, não conserva nada – estava falando sobre isso com minha professora de francês. Tenho de ler Proust. Minha memória prática não serve para nada. Mas minha memória afetiva é muito forte. Lembro, perfeitamente, de um cheiro – pelo menos na minha cabeça. Não consigo contar histórias, mas lembro dessas sensações.

Lembra de algum episódio de infância que tenha sido marcante?

AS  – Lembrei de dois momentos, assim que você perguntou. O primeiro: casa no campo, essa coisa lúdica de que todo dia é fim de semana.

Você ia para o campo quando era criança?

AS  – Sim. E agora temos um sítio no Sul de Minas. Mas antes disso, eu ia muito para Caxambu com a minha família. Sempre tive contato com cidades do interior: Araras, Petrópolis… Gosto do fato de a memória não ser fiel, pois assim você redesenha e reescreve. Não lembro muito dos momentos críticos. Mas lembro que fiquei angustiada com uma prova de matemática, esse foi o segundo momento. Eu era boa em química, mas em matemática e física sempre fui terrível.

Química tem as letrinhas da tabela periódica…

AS  – (Risos.) Verdade. Tirando a angústia da prova de matemática, minha infância foi muito boa. Sempre tive muitos primos, brinquei muito quando era pequena. A música me trouxe alegria. Eu ouvia Tom Jobim, adorava a Maria Luiza Jobim.

Você toca piano, não é?

AS  – Toco.

Há quanto tempo?

AS  – Se eu falar, você vai achar que eu toco muito bem. Mas não toco.

Poderia tocar uma música?

AS  – Não (risos ). Não lembro de nada, minha memória não é boa. Comecei a fazer aula aos seis anos. Eu tinha um pianinho de madeira, vermelho. Em 94, no dia que o Ayrton Senna morreu, fui para o piano e tirei a música: tantantan tantantan tantantan… E toda vez que eu tocava minha irmã chorava. Não sei por que aquilo tocava tanto a ela. Então, achei que fosse um dom (risos). Eu amava tanto o piano que ele se tornou um gato, uma coisa incrível. Até que um dia resolvi dar um banho no piano. Eu não era muito esperta. Peguei um balde d’água e joguei em cima do bicho. Meu piano morreu. Meu pai ficou com pena e me deu um teclado de aniversário. O teclado veio junto com uma professora. Foi ótimo! Fiz aulas dos seis aos 11 anos, mas depois parei.

Você tinha uma banda?

AS  – Sim. Os Subterrâneos.

De onde surgiu essa relação com a música?

AS  – Sempre gostei do Tom Jobim. Meu pai ouvia o Tom no carro e em casa. Depois ele me deu o teclado. Já toquei violão e violino, mas eles já estão enferrujados. Ninguém aguentava mais me ouvir.

Hoje você ouve o quê?

AS  – Continuo ouvindo Tom Jobim (risos ). Gosto da Billie Holiday, Nina Simone, Marisa Monte, Gal – há uma música dela… Não lembro. Memória não serve para nada.

E quando você despertou para a Literatura?

AS  – Sempre gostei de ler. Não lembro o que me despertou assim. Lembro na poesia: Ana Cristina César. Eu era muito ruim em educação física, então tive de me dedicar à outra coisa. Eu sempre era última a ser escolhida no grupo, muito dramático. Mas eu era boa em português e redação. Entre os 17 e 18 anos, dei aula de português na Escola Parque. Eu gostava de escrever. Gostava de Clarice Lispector, eu era tão pequena. Mas aquilo fazia todo o sentido.

Clarice é uma influência?

AS  – Com certeza. Mas tenho medo de “influência”, pois parece que quero escrever igual. Não é isso. É perigoso. É legal ter muitas influências, mas tem de saber lidar.

Há muitos textos em prosa no seu livro de poesia.

AS  – Verdade. Quando eu estava na escola, só escrevia prosa. Só no final do Ensino Médio que comecei a escrever poesia. A escola foi muito importante, havia um grupo de estudos, o Oficina da Palavra. O professor João Guilherme Quental, por exemplo, era fantástico. Ele levava haikais, contos do Borges… Foi muito importante.

Seu pai é fotógrafo e sua mãe produtora de moda. Eles a incentivaram à leitura?

AS  – Sim. Minhas tias também me incentivavam muito. Estou lendo um livro por indicação de uma delas: O Bigode , de Emmanuel Carré. É sobre um cara que tem um bigode há dez anos. Até que ele resolve raspar o bigode, mas ninguém percebe. Você não sabe se ele enlouqueceu, é muito bom. Meu pai sempre quis que eu lesseQuarup, do Antonio Callado, mas não li ainda. Quando eu estava na escola, dois livros me marcaram muito: A Hora da Estrela, da Clarice Lispector e Ensaio Sobre a Cegueira, do José Saramago.

Você citou a Ana Cristina Cesar como um despertar para a poesia. Fale um pouco mais sobre isso.

AS  – Eu estava na oitava série, tive de fazer um trabalho sobre Modernismo. Então, fui pesquisar e caí num site em que tinha vários autores. E tropecei de paraquedas num poema dela. Fiquei impressionada por ter achado um poema curtinho e forte, sem formato medido. E isso coincidiu com a época do lançamento do livro Novas Seletas  (Nova Fronteira), organizado por Armando Freitas Filho. E meu pai conhecia o Tutty Vasquez que conhecia o Armando, que sabe tudo sobre a Ana Cristina. Nós fomos encontrar com ele e eu levei uns textos meus. Ele e sua mulher, Cristina, foram uns amores. Depois, ele leu meus textos e me enviou um e-mail. Foi genial, ele fez vários elogios e deu várias dicas. Mandou ler Drummond, que ele ama. Foi bom conhecer a Ana, uma mulher que estava ”fora” e ao mesmo tempo era sociável.

Você se considera “fora”?

AS  – Eu me considero ”fora”, mas não sou essa pessoa incompreendida. Não acho isso legal. Essa coisa de “sou um gênio e ninguém me entende” não é comigo. Gosto de me relacionar, de conhecer lugares diferentes. Ao mesmo tempo, gosto de privacidade.

Como você entende a morte da Ana C.?

AS  – Eu não sei. Acho triste. Não sei falar sobre isso. É uma relação estranha, eu não a conheci. Mas nunca contestei a morte dela, eu nasci com esse fato. Ana se matou jovem e isso a imortalizou. Só lembro dela linda com óculos escuros.

De que outros poetas você gosta?

AS  – Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes. Das mulheres: Emile Dickson, Silvia Plath, Elizabeth Bishop.

Você publicou o primeiro livro de forma independente e foi bem recebida pela imprensa e pela crítica. Como é isso aos 20 anos?

AS  – É legal. Todo mundo gosta de receber elogio. Tô adorando ouvir elogio por aí. Mas adoro ouvir uma crítica mais pensada. Por exemplo, o professor João Guilherme comprou o livro e me chamou para conversar. Ele apontou várias coisas: “Isso aqui eu acho infantil. Por que você não fez de outro jeito?” Gosto de ouvir uma crítica construtiva. Ainda bem que há um monte de falhas. Eu tenho 20 anos, posso errar e amadurecer. Acho que tenho o complexo de Peter Pan, sempre odiei fazer aniversário (risos). Até fiz um poema aos 15 anos. Vou tentar lembrar. É ruim, tá?

Sem críticas…

AS  – “cabelos esvoaçantes emolduram o rosto / os óculos são grandes para cobrir os olhos / não quero fazer aniversário / gosto dos meus quinze”. (Risos .) Eu falei que era ruim. É bobo.

Houve algum momento em que você decidiu ser escritora?

AS  – Houve. Era engraçado, porque eu era muito mais séria do que sou hoje. Escrevi dois livros que não chegaram nem à metade. O primeiro, sobre um dentista frustrado de Copacabana. Eu pesquisei sobre odontologia (risos). Eu adorava esse projeto, mas não tinha o que escrever. O dentista perdeu os pacientes (risos). E eu perdi esses textos. Ainda bem, né? Eu estava levando tudo muito a sério. O outro projeto era sobre um menino de 14 anos que viajava o mundo de caminhão para ficar bem depois da morte do pai. Esse projeto também foi por água abaixo.

O que é ser poeta?

AS  – Não sei. Não faço a menor ideia.

Você não é poeta?

AS  – Se você fala que eu sou, eu sou. Ramon, é que assim fica uma coisa pretensiosa. (Pausa.) Mas para ser poeta não precisa ser o Manuel Bandeira. Tá, eu sou poeta.

Você já está escrevendo o segundo livro?

AS  – Acho que estou.

Já tem nome?

AS  – Não faço a menor ideia.

Como é o seu processo de criação?

AS  – Geralmente, vem com um tema ou uma frase que fica na minha cabeça um tempo até decidir o que fazer com ela. O meu processo de criação é mambembe. Não tenho hora para escrever. Escrevo à noite, andando, no ônibus. Por isso, acho que não vou conseguir escrever um romance. Hoje em dia, escrevo mais no computador do que no caderno.

Você usa muito a Internet?

AS  – Uso, mas sou muito ignorante em relação à Internet. Eu mal baixo música. Ou uma pessoa diz, ”aperta aqui”, ou…

Você tem um blog A dobradura e o seu livro chama-se Dobradura

AS  – O livro iria se chamar ”a dobradura ”, mas o Armando (Freitas Filho) disse que o artigo enfraquecia o título. Então, deixei só Dobradura.

(Juju, a gata de Alice, invade a entrevista .)

AS  – Juju, esse é o Ramon. Amigo.

Há muitos poemas sobre gatos no seu livro.

AS  – Acho gato um bicho engraçado. Sempre gostei mais de cachorro, achava gato um bicho arisco e esquisito. Não tive como ter cachorro no apartamento. Cachorro é alegre, abana o rabo. E gato não. Chego em casa e Juju não está nem aí para me receber. Mas gosto de gatos, eles têm vida própria. Acho o ronronar deles incrível. O gato é tão discreto que até a felicidade dele é um motorzinho dentro. É um bicho interiorizado. To falando um monte de besteiras (risos ). Eu gosto de gato porque gato é legal.

Você trabalha na Editora Objetiva. O que faz exatamente?

AS  – Um pouco de tudo. Sou estagiária, estou fazendo o sétimo período de jornalismo na PUC – Rio. Trabalho no selo Alfaguara, eu e meu chefe. Ajudo em tudo: revisão, escrever orelha, avaliar originais, tradução, pagamento de capista, cobrar o tradutor… Aprendo o processo editorial.

Você pretende trabalhar em redação de jornal ou no mercado editorial?

AS  – Comecei a fazer jornalismo porque não tive coragem de fazer Letras. Por enquanto, quero continuar na editora mesmo, é um trabalho maravilhoso.

Você namora o poeta Mariano Marovatto. É bom namorar um poeta?

AS  – É ótimo. Leio poemas para ele. Ligo e falo: ”acabei de escrever um poema. Diz o que você acha.” E ele: ”esse aí é mais ou menos.” Eu fico arrasada e digo: ”Então tá, Mariano. Boa noite!” (Risos .) É legal. A poesia foi o que nos uniu. Ele não pede pitacos para os textos dele.

O que você espera daqui a vinte anos?

AS  – Viajar muito. E ter um monte de livros publicados, inclusive romance. E acho que vou trabalhar em editora, virou até um sonho.

Por que escrever?

AS  – Não sei. Eu poderia viver se não escrevesse. Mas teria de fazer outra coisa. Talvez, ginástica olímpica. Ou, desenho. Gosto de escrever, faço o que acredito. Mas não acho que isso vai mudar a vida de ninguém.

Há tanta imagem de santo na sua casa. Você é religiosa?

AS  – Não. Ninguém é religioso, é só decoração. Eu não acredito em nada. Mas deve haver alguma coisa regendo esse relógio. Não tenho um ‘deus’, ainda.

Você está indo morar fora do Brasil. Fale sobre isso.

AS  – Sim, vou fazer intercâmbio. Já fiz seis meses de intercâmbio na Nova Zelândia, foi importante. Agora vou para França, em Lyon, de julho a dezembro. O processo de seleção foi tenso, precisava de carta de recomendação e tudo mais. Vou feliz, deixando as coisas no lugar para a retomada.

O que você diria para alguém que deseja ser poeta?

AS  – Ter sensibilidade e trabalhar muito. Não gosto da ideia de que alguns podem ser escritores e outros não. Você tem de trabalhar no que você gosta. Se você acha que a escrita é o seu lugar, siga em frente. Não acredito em dom. Será que existe isso? Será que com o trabalho você também não alcança? Ou seja, não daria conselho nenhum (risos). Vai ler. O conselho mais valioso que meus pais me deram foi: nunca perder o bonde. Tem bonde passando? Pega! Não deixa os bondes passarem. Bota a cara à tapa!

ALLAN SIEBER

ANIMAÇÃO, QUADRINHOS E AUTOBIOGRAFIA

Por Ramon Nunes Mello [PortalCultura.rj  – 2010 ]

 

  

 

O premiado quadrinista, cartunista e animador gaúcho Allan Sieber é reconhecido por suas tiras de humor ácido, que abordam temas como religião e sexo – tudo que está ao redor do autor tem possibilidade de se transformar em quadrinhos, inclusive sua própria vida. “É tudo mentira!”, afirma -embora confesse que muitas das histórias sejam autobiográficas.

Há 10 anos morando no Rio de Janeiro, fugindo da correria de São Paulo, Sieber leva uma vida tranquila rodeado dos amigos boêmios, a maioria autores como ele. No “desassossego” de sua produtora Toscographics, numa recolhida vila em Copacabana, entre guimbas de cigarros, manchetes infames de jornais e bonecos de desenhos animados, Allan Sieber cria histórias e desenhos.

Oséias, de Vida de Estagiário , personagem mais famoso do quadrinista, ganhará vida em breve numa série de TV. Em tempo, em parceria com o quadrinista Arnaldo Branco, Allan colabora como roteirista do programa Casseta & Planeta. Essas e outras histórias de sua carreira foram contadas numa entrevista ao Cultura.rj

Você chegou ao Rio de Janeiro em 1999. Por que decidiu trocar Porto Alegre pelo Rio?

Allan Sieber  – O natural que os gaúchos saiam para São Paulo porque o mercado é muito maior, todas as revistas estão lá. E, para começo de conversa, eu não dirijo, não tenho carro. São Paulo é muito infernal com aquele trânsito, megalópole demais. Eu não tenho noção da diferença de Barra Funda e Higienópolis, apesar de ter muitos amigos em São Paulo. A Zona Sul do Rio é uma cidade de interior, é ridículo de tão pequena, mas com a vantagem de ter cinemas, livrarias, blábláblá… O calor que é triste! Não suporto calor, precisamos de uma estação fria nessa cidade. Não acha?

De que forma essas cidades interferem em seu trabalho?

AS  – Qualquer cidade grande tem seus estereótipos, neuroses e pessoas deprimidas. Meu trabalho é muito de voyeur, observar as pessoas para utilizar em meu trabalho. Está tudo ao redor, as pessoas falam muitas besteiras. Mas não sei precisar as interferências dessas cidades no meu trabalho. Não sei dizer se interfere no jeito que olho para essas coisas.

Quais estereótipos são apontados em seus quadrinhos?

AS  – Vários. São os estereótipos humanos: a dinâmica de relacionamento, que todos já escreveram. Porque as pessoas insistem em relacionamentos fracassados? Sou uma pessoa de relacionamentos longos, são acordos mais saudáveis de liberdade. Não temos controle da nossa vida e queremos tomar conta dos outros? Esse é o meu material. Outro exemplo: o clichê dos cariocas: “Me liga, hein!” E eles nem se quer passam o número do telefone. (Risos.)

Você tem de ler o texto ‘Indireto afetivo na linguagem carioca’, de Francisco Bosco. Fala exatamente sobre esse comportamento.

AS  – Esse comportamento é engraçado. O carioca é muito solar e acaba não suportando uma pessoa deprimida. Do tipo: “Não convido você para a festa porque está deprimido”. (Risos.) A lógica é inversa. Mas não quero generalizar. Gosto do espírito leve e solar do carioca.

A religião, a sexualidade são características muito marcantes em seu trabalho. Por quê?

AS  – Não sei. Sei apenas que religião e pornografia (e suas modalidades) sempre me chamaram muita atenção. Hoje em dia um jovem tem a vida muito fácil, a vida está num Google . Sou obcecado pela obsessão das pessoas por esses assuntos. Enfim, esse assunto toma muito tempo… (Risos.)

Você já foi evangélico?

AS  – Adventista do 7º Dia. Minha mãe era muito católica, só uma freira era superior a ela. E eu entrei nessa onda de Igreja, por sorte sai fora. Eu era totalmente fanático para uma criança, era muito preto no branco. Ou você era adventista ou ia amargar o Juízo final. Eu ficava o tempo inteiro fazendo suposições, horrível. Aos 13 anos fiz amigos de minha idade, então resolvi deixar a religião de lado. Optei pelos meus amigos. Tive uma epifania e saí fora, encontrei os quadrinhos. (Risos.)

Sobre os quadrinhos: Vida de Estagiário, um dos seus trabalhos mais conhecidos, está se tornando numa série de TV.

AS  – Sim. Foi através de um edital do MinC. Um amigo sugeriu escrever um projeto como sitcom, eu nunca havia pensado nisso. Tinha apenas o projeto para desenho animado. A série já está filmada, em fase de montagem. Vai passar na TV Brasil . Dos doze pilotos aprovados, parece que é o único de humor. E a vida de estagiário é universal.

Você chegou a ser estagiário?

AS  – Não. Mas fui office boy, o que é bastante correlato: ambos ganham uma mixaria, tem uma carga enorme de trabalho, e são explorados por um chefe cretino. Oséias, o estagiário da série, não é um idiota completo, quando pode ele mata trabalho. Um pouco como eu fazia quando era obrigado a pagar contas. Se não tinha vida no banco, pagava as contas e fugia para minha casa jogar vídeo game. (Risos.)

Como você lida com essas ferramentas de relacionamento na internet?

AS  – A internet é ótima, você pode trabalhar em qualquer lugar do mundo. Tenho um amigo que está na Patagônia e trabalha de lá, envia as tiras para jornais e revistas. Isso é incrível. E, por exemplo, já acabei um relacionamento por e-mail. (risos) E depois não preciso utilizar o telefone, que detesto. Mas esse lance de redes de relacionamento eu detesto. O que é isso? Documentar todos os passos? Tô fora. “Partiu, o bar da esquina”. Não! Eu vou para o bar, mas só quero encontrar meus amigos. Esse lance de “minha vida é um livro aberto” é uma bobagem. Que merda de vida é essa?

Você é amigo dos quadrinistas Andre Dahmer e Arnaldo Branco. Como é essa relação com o trabalho. Há competição?

AS  – Sou amigos deles, mas “amigos amigos, negócios à parte”. (risos) Brincadeira. Diferente das outras áreas – há muito companheirismo. Indicamos trabalho um para o outro e nos desviamos de possíveis furadas.

Você e Arnaldo estão com uma parceria no Casseta & Planeta.

AS  – Sim. Estamos escrevendo alguns roteiros. Eu nunca havia escrito para televisão, mas está sendo uma experiência muito legal. Muito diferente dos quadrinhos, envio as histórias e eles montam tudo por lá.

Que autores são referências?

AS  – Sou muito filho do Angeli, Chiclete com banana  foi uma bíblia. (risos) E depois fui beber no Krumb, uma fonte óbvia, ele tem uma vertente muito autobiográfica. Eu também sou um pouco assim. Mas, lembre-se: É tudo mentira!

ANA PAULA MAIA

A CASINHA DE BONECA DE UMA ESCRITORA PUNK

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos   – 2007 ]

 

  

 

Ana Paula Maia. Já ouviu falar neste nome? Trata-se de uma das escritoras mais promissoras da nossa geração. Autora de Habitantes das Falhas Subterrâneas  (Editora 7 Letras); Sexo, Drogas e Tralálá… (Editora 7 Letras);Entre Rinhas, Cachorros e Porcos Abatidos (folhetim virtual) e Guerra dos Bastardos (lançado recentemente pela editora Língua Geral).

“Escrever é minha casinha de boneca, sempre digo isso. Porque é mundo de fantasia. Só escrevo ficção e dentro dela tem um pouco de mim, de bom e ruim. É o lugar onde brinco e choro. Não bebo, não fumo, não me drogo; sou uma mocinha…(Risos.) Meu vício é a escrita, na verdade é mais um comichão do que um vício. Tenho uma relação de sonhar muito com o que escrevo; tenho muitos pesadelos”.

Uma mulher que escreve com uma voz masculina e mancha o papel com a violência dos meninos que povoam seu imaginário. Uma moça certinha que esconde uma escritora punk, um texto ácido e um humor leve. Ou seja, uma bastarda, como ela mesma se considera, que te arrasta para o lado avesso do cotidiano, para os lugares que poucos gostam de frequentar.

Por que a sua voz literária é masculina?

“Eles me perseguem. Sou impregnada de homem na cabeça. Gosto tanto, tanto, que eles não me largam. (Risos.) Já escrevi um conto narrado por uma mulher, mas percebo que é um homem falando. Eu me dou bem com os meus meninos, é melhor continuar com eles. Talvez a explicação seja que, quando criança, eu quisesse ser o Luke Skywalker, acho que o cinema me trouxe muito isso. Acho que é uma questão de empatia com o universo masculino”.

Conheci seu trabalho depois de entrevistar Fábio Fabrício Fabretti e Thiago Picchi, seus parceiros de projetos literários.

“Em 2005, participei de uma antologia chamada Contos sobre Tela, do Marcelo Moutinho. Nesse meio tempo, eu estava escrevendo Guerra dos Bastardos  e o Fábio Fabretti teve a ideia de fazer um livro de microcontos, o Sexo, Drogas e Tralálá… Em princípio, não queria fazer, porque não sou boa em microcontos, tenho fôlego diferente. Aí eu escrevi, ele e o Thiago Picchi viram e gostaram…”.

A conversa, mais do que interessante, foi divertida e coberta de ironia.

Como você entrou para o universo das letras?

Ana Paula Maia  – Comecei na literatura em 2000, tem sete anos que escrevo. Comecei escrevendo um roteiro de curta-metragem. Ficou um roteiro “meio” livro, mostrei para um colega, que passou para outro, e acabou sendo filmado. Fui escrevendo pelo incentivo, no anonimato. Não dava credibilidade grande àquilo, apesar de gostar muito. Depois, veio Habitantes, que escrevi em dois meses e meio. Em seguida, o enviei para as editoras, mas não tive retorno de ninguém. Aí consegui uma indicação na editora 7 Letras, a mesma para onde eu já havia mandado o livro. Para você ver como é indicação, né?! Da próxima vez, posso blefar e falar que fulano me indicou. Acho que funcionaria da mesma maneira. Em um mês, o editor aprovou, mas nunca falei para ele que já lhe havia mandado o livro pelas vias tradicionais.

Você também escreveu para antologias não é?

APM  – Sim, em 2004 participei da antologia do Luiz Ruffato, As 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira . Também participei de uma antologia italiana chamada Sexy in Bossa, um trabalho bacana, com textos do Noll, da Hilda Hilst, do Campos de Carvalho… Em 2005, participei de uma antologia chamada Contos sobre Tela, do Marcelo Moutinho. Nesse meio tempo, eu estava escrevendo Guerra dos Bastardos e o Fábio Fabretti teve a ideia de fazer um livro de microcontos, o Sexo, Drogas e Tralálá… Em princípio, não queria fazer, porque não sou boa em microcontos, tenho fôlego diferente. Aí eu escrevi, ele e o Thiago Picchi viram e gostaram…

O que é o Entre Rinhas, Cachorros e Porcos Abatidos?

APM  – É uma novela que escrevi na net, o meu Folhetim Pulp. Os três primeiros capítulos foram publicados na antologia Sexy in Bossa e se chamam “Não deve se meter em porcos que não te pertencem”. Eu tive a ideia de colocar na net depois que publiquei o meu blog, o Killing Travis . É uma história mais violenta e difícil de digerir. É uma zombaria que também tem um lado político.

Como é essa sua relação com a Internet?

APM  – A Internet facilita escoar a produção, ela sempre foi minha grande aliada. Tenho blog, Orkut, MSN; me dou muito bem com a net, estou sempre pesquisando nela, sou “interneteira” mesmo.

Como acontece o seu processo criativo? Como surgem as suas histórias?

APM  – Não tenho horário para escrever, não. Mas, quando surge uma história, fico um tempo com ela na cabeça. A cabeça começa a pedir alguma coisa além do meu cotidiano. Começo a sentir a necessidade de criar um mundinho. Escrever é minha casinha de boneca, sempre digo isso. Porque é mundo de fantasia. Só escrevo ficção e dentro dela tem um pouco de mim, de bom e ruim. É o lugar onde brinco e choro. Não bebo, não fumo, não me drogo; sou uma mocinha…(Risos.) Meu vício é a escrita, na verdade é mais um comichão do que um vício. Tenho uma relação de sonhar muito com o que escrevo; tenho muitos pesadelos.

De onde vem essa violência que você escreve?

APM  – Então, do sangue, dos meus sonhos. Não sei explicar o porquê disso! Tenho muitos sonhos, às vezes sou a vítima… Pego isso tudo e coloco na escrita. Antes de escrever, já estou vivendo aquela história por algum tempo, tudo o que está ao redor pode entrar no personagem.

Por que você escreve?

APM  – Deve ser porque não aprendi a andar de skate…(Risos.) Não sei. Não escrevo porque sou introspectiva – fui uma adolescente piradérrima, tocava bateria numa banda de punk rock – nem tenho perfil de escritor atormentado, com as coisas dos demônios da escrita. Escrevo porque é o lugar que encontrei para brincar de casinha, desde pequena crio esses universos. Eu era uma criança narrativa, não consegui sair disso e levei para a literatura.

Você teve incentivo da família?

APM  – Sim. Quando criança, dormia ouvindo boas histórias que minha mãe e avó contavam. Cada dia eu dormia com uma delas para ouvir histórias diferentes. Minha avó contava realismo fantástico e minha mãe era realismo urbano…(Risos.) Ouvi muitos disquinhos. E depois, aos sete anos, passei a fugir delas para assistir filmes.

Por que a sua voz literária é masculina?

APM  – Eles me perseguem. Sou impregnada de homem na cabeça. Gosto tanto, tanto, que eles não me largam. (Risos.) Já escrevi um conto narrado por uma mulher, mas percebo que é um homem falando. Eu me dou bem com os meus meninos, é melhor continuar com eles. Talvez a explicação seja que, quando criança, eu quisesse ser o Luke Skywalker, acho que o cinema me trouxe muito isso. Acho que é uma questão de empatia com o universo masculino.

Quais são as suas maiores influências?

APM  – Começou com o cinema, depois vieram os desenhos animados e as séries de TV. Cresci na frente da televisão e assisti toda a porcaria B do cinema. Tudo o que passou na década de 80 no cinema… Também assisti a todas as novelas e filmes de terror. Minha mãe e avó que foram fundamentais como contadores de histórias. Na literatura, li os tradicionais: “Os Três Porquinhos”. (Risos.) Eu não fui criança “Monteiro Lobato”, fui criança “Os Três Porquinhos”. Li pouco na infância. Na adolescência, lia revista de rock e biografia do Metallica. Ah, eu estava cheia de hormônios e queria era beijar na boca.

Então, quando você começou a ler?

APM  – Aos 18 anos, comecei lendo filosofia… eu não sabia nem por onde começar. Nessa época, comecei a sentir a necessidade de ler e um livro foi puxando outro. A Internet me ajudou muito, o mundo se abriu para mim. Eu tinha uma janela no meu quarto que tinha tudo! Acho que comecei lendo pensadores, li muito Platão. Eu não tive um mestre, um professor…

Você lê os seus pares?

APM  – Às vezes leio um pouco, não gosto e paro. Li todos os livros do Santiago Nazarian. A gente faz uma barganha e hoje somos amigos. Isso devido ao meu primeiro romance, que mandei para ele. Além dele, leio a Simone Campos, as antologias que já têm uma galera… E poesia é um negócio que não aprendi a ler. Mas outro dia descobri a poesia de autor português que morreu, o Luis Miguel Nava. Ele é mágico.

Você acredita que as pessoas ainda estão interessadas em literatura?

APM  – Sim, olha essa livraria lotada de livros. É claro que será sempre uma parcela menor. As pessoas preferem o cinema, afinal, em duas horas você pode absorver tudo comendo pipoca e ainda beijando na boca. A leitura é introspectiva, você precisa ficar sozinho. Mas a literatura está na moda! Porque o que tem de escritor/modelo, escritor/big brother, prostituta/escritor… Tá na moda, mas acredito que vai passar.

Como é para uma mulher trabalhar em um meio dominado por homens?

APM  – Por isso que escrevo pela pessoa masculina (risos). Para ver se ajuda! Sou um menino quando escrevo. Quem escreve é o Travis, o menino que mora na minha cabeça. Não cresci lendo a literatura feminina.

Você acredita na existência de uma literatura feminina?

APM  – Acho que existe uma voz feminina – isso é perceptível –, mas não acredito na existência de uma literatura feminina.

Você se considera uma bastarda?

APM  – Ah sim, apesar de ter pais, me considero uma bastarda. Bastardo significa para mim exatamente o que diz o dicionário Aurélio: degenerado da espécie que pertence. Eu dedico o meu livro a essas pessoas: aos bastardos, renegados e degenerados.

Por que o interesse por essas pessoas?

APM  – Porque são as mais interessantes. Numa festa, reparo muito mais no garçom do que no convidado. Tenho essa coisa de olhar para o rodapé da parede. E uma mania: sigo pessoas estranhas na rua e fico observando.

Enxergo uma crítica ao cristianismo na sua escrita. Você acredita em Deus?

APM  – Sim, acredito em Jesus, oro tudo direitinho. Sou protestante, olha o meu cabelo… (Risos.) Mas geralmente não o divulgo muito; as pessoas me aborrecem um pouco com isso. Se fosse uma louca, drogada e com piercing, seria muito mais fácil. É isso que as pessoas esperam. Se tivesse uma tattoo e fumasse um baseado, não teria que dar metade das explicações que preciso dar. Comecei a escrever depois que já era protestante. Mas como sou uma garota careta para cacete e tenho Chuck

Norris como ídolo, é complicadíssimo! Mas fico tranquila, não existe pecado na literatura.

É verdade que o trailer do seu livro vai para o cinema?

APM  – Sim, verdade! Esse lance do trailer do livro nenhuma editora faria, só a Língua Geral mesmo. Quando escrevi o roteiro do livro e arrumei a trilha, conheci o Fabiano Viana, o Fabis, um designer de Curitiba. Eu estava passeando numa comunidade no Orkut e ficamos amigos. Ele fez a ilustração do meu folhetim e depois surgiu a oportunidade do trailer. Ele chamou um amigo dele, o Marcelo Calazans, e o gravou. Depois vendi para a editora, e em breve estará no cinema. A cena do trailer está escondida entre um capítulo e outro do livro, ninguém conhece.

O que você diria aos jovens que gostariam de escrever?

APM  – Sejam econômicos; arranjem um trabalho de meio expediente para custear vida modesta; sempre que escreverem um livro, que seja o seu melhor livro; usem a imaginação; sejam ridículos; e não tenham medo, tenham fé.

ANDRÉ DAHMER

 “O DESENHO NÃO É A COISA MAIS IMPORTANTE DO MEU MUNDO”

Por Ramon Nunes Mello e Bruno Dorigatti [SaraivaConteúdo – 2010 ]

   

 

André Dahmer não perdoa e há dez anos é assim. Suas tirinhas, charges, cartuns, que apareceram na Internet, apresentam algumas das melhores críticas, com muito sarcasmo e escárnio, um humor negro corrosivo e autodepreciativo, sempre direto e claro a estes estranhos anos que inauguram o novo século. A solidão é algo presente no trabalho deste carioca que começou a desenhar ainda criança, uma das maneiras que os pais encontraram para tentar melhorar o problema de déficit de atenção e a hiperatividade. Vem funcionando, e bem. Através do desenho, ele ri deste mundinho covarde, de si e da gente. Os solitários, “seguem morrendo aos poucos nos bares e dentro dos quartos, varando madrugadas sinistras com a ajuda da pornografia em banda larga e álcool, muito álcool”, escreve o quadrinista no prefácio de seu livro mais recente, A cabeça é a ilha, lançado pela Desiderata em 2009, assim como seus outros dois livros, O livro negro de André Dahmer(2007) e Malvados (2008).

Estes últimos personagens, parecidos com um sol e que destilavam veneno e crueldade sem pudor nem piedade, o desenhista matou, para desespero de centenas de milhares de órfãos. “Eles dizem: ‘Ah você abandonou a gente…’, mas não tem importância nenhuma, porque saudade também é bom, faz coisas boas. Eu precisava de mais coisa, não fiz de sacanagem. Também corri riscos, porque tem que correr, abandonar certas coisas. Se tiver que largar amanhã os quadrinhos para fazer o que descobri que gosto de fazer de verdade, não tem problema nenhum pra mim”, afirma Dahmer, que também pinta em aquarela seus solitários e rechonchudos personagens. Em um de seus sites, há uma frase do escritor polonês Witold Gombrowicz: “A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados.” O que ela resume? “Não se pode confundir arte com mercado de arte. A arte, já foi dito, é um pedaço do que o rico pode comprar por não conseguir fazer. Claro que a maioria deles compra por pura especulação. É também uma ótima forma de lavar dinheiro de drogas, armas, diamantes. É um campo que não é dos mais bonitos de se olhar. Arte é outra coisa. Conheço gente que está fazendo arte dentro de casa, grande arte, há muitos anos, e que nunca vai mostrar na rua.”

Dahmer finaliza seu primeiro livro de poesias, Amor como audácia, uma edição com 600 exemplares e capa pintada a mão. “Vai dar um trabalho danado. Mas quando vi que o Liniers tinha feito a mão 5 mil capas, achei que era possível. Sempre tive vontade, imagina, um livro com todas as capas diferentes. E eu duvidava. Mas eu não sou o Liniers, então eu posso fazer 600.” Ele também finaliza um documentário com o amigo Terêncio Porto, onde entrevistaram só pessoas uniformizadas: bombeiro, médico, guardador de carro, gari, garçom. “A gente falava: ‘Você pode dar uma entrevista?’ Aí quando ligava a câmera: ‘Você pode contar como foi seu primeiro beijo na boca?’ O uniforme desumaniza muito a pessoa, depois que você veste um, ninguém te olha, você vira um mobiliário. E são incríveis as histórias, eles choram contando”, diz Dahmer, que se considera só um desenhista esforçado. “Não tenho vergonha nenhuma de falar. Porque o desenho não é a coisa mais importante, do meu mundo, pelo menos.” E o que é mais importante no seu mundo? “O meu funcionamento. Tenho vários problemas, não consigo me deslocar de carro, de avião. Então meu mundo também é ter coragem, para fazer o mínimo que consigo fazer.”

 

Como foi o começo com o desenho?

André Dahmer  – Até a quarta série, já tinha reprovado dois anos. Chamaram meus pais na escola e disseram que provavelmente eu não chegaria à faculdade. Ou seja, me tiraram de burro, ou demente, ou o que for. Eu tinha inquietação, essas coisas que hoje dopam as crianças com ritalina. Na minha época, não tinha ritalina, então me dei bem. Não me drogaram, mas… Eu era hiperativo. Tenho também distúrbio de atenção realmente alto. Tentaram o judô primeiro, mas eu só ficava calado, quieto, desenhando. Colocaram-me em uma escola de arte em frente de casa, da Maria Teresa Vieira, minha professora de pintura até os 16 anos. Entrei lá com 6 anos.

Depois que entrei nessa escola de arte, nunca mais fiquei de prova final, repeti o ano e fui até a faculdade resolvido. Aí em 1994 entrei para Belas Artes, na UFRJ, não me adaptei a todas aquelas questões teóricas. Eu era muito cobrado lá e não tenho paciência para fazer um desenho de quatro horas, por exemplo, que era o que eles queriam. E se o desenho tivesse uma marca de mão — você tem que desenhar com um pano em cima, ou com luva na Belas Artes — o cara falava: “Não, faz de novo.” Aí eu fazia e ele: “Tá vendo essa marca de lápis no papel? Não pode, faz de novo.” E um dia, quando esse cara me mandou fazer de novo, chutei o cavalete e mandei tomar no cu, o filho da puta, reacionário. E fui embora. Ainda bem que fui embora, porque senão acho que não teria feito quadrinhos.

Por sorte, eu tinha passado em outros vestibulares no mesmo ano. Para Desenho Industrial, na PUC-RJ, e para Direito, na UERJ. Então quase que me tornei advogado. Mas fui fazer Desenho Industrial e no terceiro período já estava muito decepcionado: “Caralho, vou fazer embalagem de sabonete para sempre.” Esse papo que falavam no primeiro semestre: “Ah, você vai ter uma profissão criativa”, é tudo mentira.

Você se formou?

AD  – Só pelos meus pais.

Não te acrescentou em nada?

AD  – Sem querer desdenhar do curso, só um professor me ajudou, se chama Urian. Ele foi o cara que falou: “Você não pode pintar mexendo o pulso, tem que pintar mexendo o sovaco”; “Quem pensa, não pinta; quem pinta, não pensa.” No primeiro dia de aula, ele falou assim: “Quem não quiser assistir, ganha 10. Me dá o nome e pode sair.” Depois falou: “Quem fizer o maior número de trabalhos, ganha 10. O último, fica com zero.” Ele queria uma corrida, que a gente desenhasse o máximo possível sem pensar, para desenvolver o traço. Passou na sala inteira, recolhendo as borrachas — pegou minha borracha alemã, eu não tinha dinheiro nenhum — jogou tudo no lixo. Essa era a linha de trabalho dele. E hoje, certamente, se eu vier a dar aula de desenho, vou jogar a borracha de todos eles fora, porque foi muito importante, sabe?

Ele que me ensinou que é preciso abandonar o mestre, acabar com o culto do faixa preta. Que falou que professor de pintura é tudo picareta, porque a pintura, tal qual o desenho, é que nem uma digital, a sua assinatura. Cada um tem o seu desenho. O problema é quando a gente chega na quinta, sexta série, você troca as aulas de arte e música por ciências, por uma questão cultural. Mas todo mundo nasce com o próprio desenho, sabe desenhar. Porque desenhar não é retratar nada, sabe? Qualquer um sabe reproduzir a Mona Lisa, por exemplo, por regras de geometria, matemática. Na verdade, não há segredo algum em retratar, o problema é achar uma linguagem para o seu desenho, não roubar de ninguém. Referência atrapalha muito. Ainda bem que quando cheguei aos quadrinhos, não tinha lido nada.

Você sofre com a angústia da referência?

AD  – Nossa, morro de medo de roubar, chupar dos outros.

De ser acusado de roubar?

AD  – Não, não é de ser acusado, é de roubar mesmo, saber que está roubando.

Mesmo inconscientemente?

AD  – A vigília é para que não roube ninguém, mas é impossível, né? Um come do outro. Sou muito amigo do Allan Sieber, há anos, desde que ele chegou ao Rio, e do Arnaldo Branco também. Foi por acaso e foi ótimo, porque ninguém falou “vamos unir vocês”. Com certeza, as coisas que faço os influenciaram e vice-versa. Mas morro de medo. Tanto que o lugar das grandes obras é entre os 20 e 35 anos. É difícil você pegar um coroa, que só apareceu na música, na poesia com 50 anos. Porque dos 20 aos 35 — cheguei ao limite agora, estou com 35 — a cabeça está fresca. Não estou fazendo um discurso aqui de que a técnica não serve para nada. Eu mesmo sou um interessado, apesar de ser só um desenhista esforçado. É o que realmente sou, não tenho vergonha nenhuma de falar. Porque o desenho não é a coisa mais importante, do meu mundo, pelo menos.

O que é mais importante no seu mundo?

AD  – O meu funcionamento… Tenho vários problemas, não consigo me deslocar de carro, de avião. Então meu mundo também é ter coragem, para fazer o mínimo que consigo fazer. A questão de carreira, eu não sou exatamente um alpinista de carreira. “Ah, agora eu tô fazendo isso para depois fazer aquilo.” Faço mais porque preciso. Que bom que veio o dinheiro, consigo receber pelo que faço. Sei que muita gente não consegue. Hoje, quando vou à uma universidade falar, a pergunta que sempre me fazem e nunca deixam de fazer é: “Como ganhar dinheiro?” Nunca deixaram de fazer essa pergunta. E ganhar dinheiro é uma coisa facílima, na verdade. Você abre um apartamento em Copacabana, bota cinco putas e faz 20 mil por mês. Ou, se você só tem 20 reais, compra uma caixa de cerveja e, quando voltar de noite pra casa, vai ter 40 reais.

Então, na verdade, não é ganhar dinheiro, isso é mole. É como você ganha dinheiro. Você quer abrir um puteiro? Eu não quero. É uma distância enorme entender isso. Esses garotos que estão saindo da faculdade são reféns: “Ah, você não vai sobreviver, vai fracassar, não vai ter emprego.” Isso é uma mentira, um pensamento hegemônico, uma ameaça que a gente está mais distante que imagina, principalmente quem chegou à universidade. Se bem que hoje em dia não mais, porque tem tanta faculdade ruim. Você é capaz de construir sua casa, plantar para comer, de criar animais. Isso é um fetiche, a questão da grana. Você vê gente com muita grana, que continua acordando e trabalhando é um fetiche, você nem tem mais como gastar. Se você morrer, teu neto ainda vai ter, e você tendo dor de cabeça com dinheiro. Quanto mais dinheiro, mais dor de cabeça. Quem cuida do meu trabalho todinho é minha mulher, ela nunca chegou e falou: “Falta dinheiro.” Ela controla tudo, passa as notas, faz tudo. Mas o dia que faltar, tenho saúde, tenho cabeça, não quero perder a saúde, porque o dia que faltar, quero trabalhar em outra coisa.

O que você lia no início?

AD  – Não lia quase nada de quadrinhos, até 2001, quando comecei a fazer e publicar na Internet. E também numa ingenuidade muito grande. Sou autodidata, não consigo aprender nada com os outros. Tive que aprender sozinho a colocar os desenhos na Internet. Um tempo de ingenuidade. Um ano depois, me ligaram e falaram “Aqui é do Jornal do Brasil, você quer publicar quadrinhos?” Desliguei o telefone e falei: “Meu amor, acho que um amigo meu ligou me sacaneando.” Porque não sabia que era tão acessado, o site dos Malvados. Naquele tempo não existia essa corrida por acessos. Esses jovens de hoje já nasceram profissionalizados, a fim de ganhar dinheiro. Naquele tempo, a gente não sabia que isso poderia dar dinheiro. Não condeno, não, mas vejo muita gente começar já pensando nisso, em ser assediado por empresas de publicidade, como sempre acontece. A publicidade caminha junto com qualquer novo veículo importante que surge. Depois que fui saber que muita gente lia os Malvados. E é incrível como o despreparo faz coisas boas, sabe? Porque se eu soubesse que desde o início essa gente toda estava lendo, eu iria me preocupar muito mais. Hoje tomo cuidado para não fazer quadrinhos mecanicamente.

E o que mudou depois que descobriu?

AD  – Acredito que a crítica é uma das coisas que mais engrandece as pessoas, saber escutar é muito importante. Inclusive os meus melhores amigos não são as que batem nas minhas costas e falam: “Ah, que bom, que coisa maravilhosa que você fez, que tira linda!” São exatamente os que me ligam e dizem assim: “Porra, não faz merda, André, tá errado.” Principalmente para aceitar trabalho, que ligam muito, trabalho, trabalho. Tem que ter o maior critério para fazer as coisas. Para não se misturar com pessoas que não são da minha praia. Mas recebi muita crítica, porque a Internet é o lar dos corajosos, né? Então escrevem para você: “Seu trabalho é uma merda, você não sabe desenhar, odeio você, sua mãe é uma puta.” Isso, no início não tinha. E hoje tem o cara que escreve “Puxa, você estava tão bem fazendo aquilo, porque começou a fazer isso?” E tem o cara que acordou com o ovo virado e, no caso, resolve xingar na minha. Não tem problema nenhum. O anonimato engrandece essas pessoas, que são frágeis, até de caráter e tudo, sei que no fundo ela sabe a condição dela, de se fantasiar de anônimo para falar mal dos outros. Além de achar que ela sabe quem eu sou, ela sabe muito bem quem ela é. Não tenho muita preocupação, mas também não tenho saco para ler. No Orkut, tem os órfãos dos Malvados, um grupo grande com 100 mil pessoas. “Ah você abandonou a gente…”, mas não tem importância nenhuma, porque saudade também é bom, faz coisas boas. Eu precisava de mais coisa, não fiz de sacanagem. Também corri riscos, porque tem que correr riscos, abandonar certas coisas. Se eu tiver que largar amanhã os quadrinhos para fazer o que descobri que gosto de fazer de verdade, não tem problema nenhum pra mim. Minha mulher talvez fique apavorada, mas, para mim, não tenho nenhum apego. Como falei, o desenho não é a coisa mais importante da minha vida, é muito complementar, me acalma, me ajuda a pensar, me faz pensar melhor. Mas não tenho nenhum apego.

E os poemas, como surgiram?

AD  – Tenho um grande amigo que é poeta, Rodrigo Linares, e já fizemos coisas juntos, desde jornalzinho de faculdade. Um dia, falei pra ele que queria tirar da gaveta, mas não tenho coragem. Vou lançar um livro de charges no final do ano, não tem problema nenhum para mim, já sei fazer. Mas fico com o maior medo de sair no jornal: “Esse cara devia ter ficado nos quadrinhos.” Um medo danado. Mas é também correr riscos. Esse livro está sendo feito com todo o cuidado do mundo. Se não for para ser, se falarem que não é bom, não é bom, tudo bem. Se chamaAmor como audácia, uma edição com 600 exemplares, capa pintada a mão, vai dar um trabalho danado. Mas quando vi que o (quadrinista argentino) Liniers tinha feito, vi que era possível fazer. Porque sempre tive vontade, imagina, um livro com todas as capas diferentes. E eu duvidava. Mas um dia alguém me falou “O cara fez 5 mil, André, então você pode fazer.” Mas eu não sou o Liniers, então posso fazer 600. Consegui acertar com essa editora, a Flâneur.

Qual o preço que se paga — se é que se paga — com tipo de trabalho que você faz, muito crítico, corrosivo, humor negro, autodepreciativo, muitas vezes? Por que essa opção?

AD   – Já disseram que eu faço humor político, já falaram que faço humor de escárnio. Mas já fiz humor de costumes, pastelão, gosto de tudo. E na Internet eu sou o meu editor, os limites são menores, tenho mais espaço para fazer o que quiser e arco com isso. E posso tomar um processo.

Alguém já lhe processou?

AD  – Cara, de vez em quando alguém ameaça, mas nunca de processo, sempre de violência, de morte, gente de religião. Fui lançar um livro uma vez e escreveram ameaçando me pegar, por causa de uma tira sobre a Palestina. E o cara botou isso num fórum de judeus radicais. E quem me conhece sabe, para mim, guerra não tem lado certo. Palestinos e israelenses, os dois estão errados, ninguém tem o direito de fazer violência com ninguém. Aí escreveu que iria me pegar, colocou o endereço da livraria. E cachorro que late não morde, né? Você fica dizendo pro outro, “vou te matar”? Não, né? Não sei, acho que tem pouca gente no mundo radical, considero que o mundo tem mais gente tolerante do que intolerante. Sou um otimista, ao contrário do que vocês pensam. Por isso que ainda não acabou. Não tenho muito medo, não.

E como é trabalhar com a autoficção, até onde vai ou até onde pode ir?

AD  – Isso quem faz mais entre os meus amigos é o Allan (Sieber). Fiz umas 30 tiras, mas todo o resto é referência das coisas que eu vivo. Anoto muita coisa, agora pedi para minha mulher comprar um aparelho para gravar. Falar, ao invés de anotar no caderno, é mais rápido. E na rua, a riqueza está no outro, né? Não é só em você. O mundo do outro também… Adoro gente tímida. Quando encontro um tímido eu colo no cara. “Quero falar com você.” Queria entender. Têm vários desenhistas que são muito tímidos, Daniel Lafayette, esse rapaz que faz a Menina Infinito, Fábio Lyra. Durante anos, em eventos de quadrinhos, estava aquele cara de óculos e nunca falou nada. Aí um dia me falaram, “esse é o Fábio Lyra”. E eu: “Porra, cara, a gente já se viu tantas vezes, por que você não falou pra mim que você fazia essa Menina Infinito?” E ele: “É, porque não deu pra falar.” E ele que me contou a piada que está no prefácio de A cabeça é a ilha (Desiderata, 2009): “André, o que um tímido falou pro outro quando eles se encontram? Nada.” Dentro dos tímidos tem um universo enorme. Tem muita coisa que pego de matéria bruta que é minha. Mas o do outro é muito engraçado também, é mais fácil rir do outro do que rir de você.

Em um dos seus sites, que vende pinturas, tem uma frase do (escritor polonês Witold) Gombrowicz: “A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados.” O que ela resume?

AD  – Não se pode confundir as coisas, porque tem a arte, que é uma discussão que a gente não pode acabar hoje aqui. Uns falam que artesanato não é arte. Arte é o que está no museu? Há grande arte nas ruas hoje. Até cortam um pedaço da rua e levam pro museu. Se você perguntar para um acadêmico, ele vai dizer: “arte tem que ser rara, cara, transferível, transportável”. São 11 elementos, eu acho. E se perguntar para minha tia que pinta porcelana, aquelas rosas, ela vai falar: “Eu sou artista.” É um conceito muito elástico.

Mas não pode confundir a arte com o mercado da arte. São duas coisas que dissocio completamente. A arte, também já foi dito, que é um pedaço do que o rico pode comprar por não conseguir fazer. Claro que a maioria deles compra por pura especulação. Você compra um Mondrian por 30 milhões. Aí no final do ano você vai à Receita Federal e declara que ganhou 80 milhões. Como? Comprei por 30 e vendi por 80 milhões. E isso acontece em arte, em um ano triplicar o preço. Basta o cara morrer, por exemplo. É também uma ótima forma de lavar dinheiro de drogas, de armas, de diamantes. Então tem que dissociar, não pode ter estes dois conceitos juntos. O mercado da arte é uma coisa e é um campo que não é dos mais bonitos de se olhar. E a arte é outra. Conheço gente que está fazendo arte dentro de casa, grande arte, há muitos anos, e que nunca vai mostrar na rua. O Rodrigo Linares é um desses, esse cara merecia uma entrevista, não eu. Mas ele não vai dar essa entrevista para vocês. Ele foi um cara que em certo momento expôs no MAM da Bahia, fez uma exposição na galeria não-comercial mais importante aqui do Rio, só expõe, não vende. Aí o (Gilberto) Chateaubriand comprou dois trabalhos dele, que seria o suficiente, um aval para que ele ganhasse dinheiro pro resto da vida, mas muito dinheiro. E não foi o que ele quis, não foi o que ele fez. Começaram a ligar, porque a caneta desse cara, quando ele passa um cheque para você, é melhor nem descontar o cheque. A assinatura vale mais que o valor. E é disso que muita gente corre atrás, mas para outros, que não se movem pelo dinheiro, é outra coisa. Por exemplo, artista, esse conceito. O Mauricio Mattar é considerado artista. Só perguntar para dez pessoas na rua. Não é porque você é muito visto e o seu trabalho muito conhecido que você é um grande artista. Não é porque ninguém sabe, que você não é. Não é esse o parâmetro de medida. Tem mais gente que acha que é artista do que é artista. Tem mais gente que é vendida como artista e que não é. Eu aprendi a tomar esse cuidado, dissociar uma coisa da outra.

O que você lê, tem lido?

AD  – Quando me perguntam isso, sempre falo de um livro que está fora de catálogo, Uma autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue, 2004), do Botika. Eu tinha três, aí toda vez que vinha alguém aqui em casa, nego bebia muito e eu falava: “Você tem que ler o livro do Botika”, aí entregava e fiquei sem nenhum. De tanto desapego, fiquei sem o livro. Mas depois me deram outro. É sensacional o livro, tem uma relação com PanAmérica, do José Agrippino. O PanAmérica é no pau, ele não, começa com pontuação, letra maiúscula. Ele corta a Mallu Mader, amarra num cachorro e come o cachorro e a Mallu Mader, só o tronco. Acho que a cabeça também, ou ele poupou a cabeça. Ele tem que relançar esse livro. O Lucas Frizzo tem seis filhas e aí faz um time de vôlei. E aí engravida essas seis filhas, gera 11 garotos e faz um time de futebol. É um dos livros mais duros que já li também; por que o personagem principal é de uma pequenez, um medíocre, escroto. Vou ler agora Cachalote (Companhia das Letras, 2010), do Rafael Coutinho (e Daniel Galera). Tenho livros do lado da cama, aí eu troco sempre, não consigo ficar na mesma coisa. Tem um de poemas, tem esse outro aqui, que está aos pedaços, é um Fernando Pessoa, que alguém roubou de uma biblioteca pública, achei em Friburgo.

Vou lendo o que dá pra ler. Não vejo mais filme, é muito tempo e tenho muita coisa pra fazer. Ao cinema, por exemplo, eu não vou. E livro é mais ou menos a mesma coisa. Então passar o dia todo lendo, não vou fazer mais nada. Duas vezes por semana, leio na cama, para dormir mesmo, tomei uma garrafa de vinho. Mais me ajuda a dormir do que qualquer outra coisa. É uma vergonha falar isso para uma livraria. Mas quem disse que fazer dormir não é bom? Eu que preciso tanto dormir e não consigo. Vinho e livro. Ao vinho, devo minha vida, senão não dormiria.

E música, o que você ouve?

AD  – Não ouço quase nada de música. Sou muito desconcentrado, então não pode chegar em casa e ligar a música, pois não consigo pensar em nada, fazer nada. Prefiro o silêncio. Quando vem um grupo de amigos, às vezes meia-noite, uma hora da manhã, eles falam: “Poxa, André, você não poderia botar um sonzinho pra gente?” A música é um negócio maravilhoso, só dei valor agora. Antes achava uma besteira. Para você ver como é importante, como a gente vai mudando. Há dois anos, eu falava: “Desliga essa merda que eu quero trabalhar.” Não conheço nada, todas essas coisas que vocês ouviram nos anos 1990, do Nirvana em diante, não sei nada. Escuto um pouco de música brasileira, de jazz, mas muito pouca coisa.

 

E animação, assiste, pensa em fazer um dia?

AD – Não vejo TV. O Allan (Sieber) tem um estúdio de animação, a Toscographics — o melhor lugar para se trabalhar —, às vezes eu olho alguma coisa. Sei que têm muitas coisas, mas não dá pra conhecer tudo. Estou terminando um curta com um amigo meu, Terêncio Porto, falta só sonorizar. Então consegui fazer, sabe? É um documentário onde passamos dois dias entrevistando só gente uniformizada. Bombeiro, médico, guardador de carro, gari, garçom. A gente falava: “Você pode dar uma entrevista para a gente?” Aí quando ligava a câmera: “Você pode contar pra gente como foi seu primeiro beijo na boca?” E o cara: “Mas como assim, primeira foda?” “Não, o seu primeiro beijo na boca.” E você tem que ver que coisa linda. O objetivo do filme, quando fiz o argumento, era mostrar… o uniforme desumaniza muito a pessoa, depois que você veste e anda num shopping, ninguém vai te olhar, você vira um cinzeiro, um mobiliário. A minha vontade era fazer isso. E são incríveis as histórias, nego chora contando. O nome provisório é, que tem essa definição bonita, do que está correto, pleno, mas também é o que está normatizado, uniformizado. Só falta botar a música, mas tudo é difícil, né? O documentário é lindo você tem que ver. Não sei quando vai sair.

ANDREA DEL FUEGO

 FICCIONISTA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010 ]

   

 

Desde que começou a publicar e participar de antologias, a escritora paulista Andréa del Fuego (pseudônimo em referência à dançarina dos anos 1950, Luz del Fuego ) já marcava seu espaço na literatura brasileira contemporânea.

Autora de, entre outros, livros como Minto enquanto posso  (2004), Nego tudo (2005) eEngano seu (2007), e integrante das antologiasOs cem menores contos brasileiros do século(2004) e +30 mulheres (2005), del Fuego mergulha na história familiar para transformar lembranças em ficção no romance Os Malaquias, publicado pela Língua Geral em 2010.

A narrativa se passa no sul de Minas Gerais, em Carmo do Rio Claro, e é inspirada em sua história familiar, quando seus bisavôs deixaram seus filhos órfãos ao morrerem eletrocutados depois que um raio caiu em sua casa. A realidade dura, aos poucos, vai flertando com a literatura fantástica, entre delírios e imagens líricas, como um longo poema de Herberto Helder. Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Andréa del Fuego detalha o processo de criação de Os Malaquias , além de falar sobre a paixão por escrever literatura infanto-juvenil.

Por que assinar com um pseudônimo?

Andréa del Fuego  – Andréa del Fuego é um pseudônimo, meu nome de RG é Andréa Fátima dos Santos. Ele surgiu em 1998, na primeira vez em que publiquei um texto, uma crônica para uma coluna que respondia dúvidas sexuais dos leitores da revista da rádio 89 FM. Eu tinha levado (o texto ) para o editor, que se chama Ricardo Cruz, hoje editor da Rolling Stone, para ler o conto. A partir dessa leitura, ele propôs: “E se você respondesse dúvidas sexuais dos leitores como o personagem desse conto?” Achei isso incrível, brincadeira interessantíssima. E a possibilidade de publicar um texto… Ele me pediu, então, um pseudônimo porque Andrea Fátima dos Santos não entra no jogo, não é? Aí, a minha sogra: “Por que você não coloca, então, Andréa del Fuego?” Imediatamente, achei muito sonoro, e acabou ficando. Depois, eu não sabia muito sobre a vida da Luz del Fuego, fui atrás, li uma biografia dela, procurei informações. Foi uma mulher muito interessante, muito pioneira em diversas frentes… Mantive um pseudônimo não como um tributo a ela, mas pelo som mesmo. Pela ideia do fogo, e Andréa também é um nome masculino. Já criei diversos motivos para continuar mantendo ele, mas o principal é pela sonoridade.

O encantamento com as palavras surgiu antes desse episódio?

ADF  – Eu escrevi antes de ler, na verdade. Primeiro tive uma paixão por escrever e depois uma paixão por ler. A paixão pela leitura surgiu muito depois. É interessante porque a maioria das pessoas que conheço, que se dedicam a escrita, elas, primeiro, se apaixonaram muito pela leitura, tiveram uma experiência muito intensa com a leitura, e disso veio uma vontade de escrever. Eu tive uma vontade de escrever antes. Não venho de uma família de leitores, na minha casa existiam dois livros: uma Bíblia e um livro de receitas. Mas minha mãe e meu pai não eram religiosos, a Bíblia estava lá porque se tinha aquele objeto em casa. E o livro de receitas também nunca foi aberto, quer dizer, nem ler uma receita… Teve um momento que comecei a escrever cartas para familiares em Minas (Gerais ), era muito caro ligar para eles. Minha mãe falou: “Vou escrever uma carta… Escreve você, que escreve melhor” (risos).

Você morava em São Paulo?

ADF  – Morando em São Bernardo do Campo, que é uma cidade industrial. São Paulo cresceu tanto que, hoje, São Bernardo é mais o subúrbio da cidade. Escrevendo cartas, percebi que tinha um retorno interessante, a resposta. E, em certo momento, eu comecei a inventar notícias. Só que não podia inventar notícias naquela carta… Esse bordado tem muito a ver com minhas tias que trabalham com artesanatos, elas tecem tapetes e bordam toalhas, elas vivem disso até hoje. Eu tenho muitas tias, minha mãe teve 13 irmãos e meu pai, nove. Pequenininha, no sítio da minha avó, eu via minha tia pensar em quantos tapetes ela faria, isso seria o tamanho dos fios na vertical. E colocar no tear, pensar que tamanho tinha, aquele movimento vai e volta um fio, fazendo uma trama… Acho que isso me influenciou muito na escrita, pelo bordado, o artesanato. Tanto que meus primeiros textos são curtos e tem um trabalho mesmo de artesanato.

Uma trama.

Andréa del Fuego  – De fato, é uma trama.

Quando criança, você inventava notícias. E, hoje, você tem uma trilogia intitulada: Minto enquanto possoNego tudo e Engano seu. Como é sua relação com a verdade no seu ofício?

ADF  – Os três títulos têm uma relação com a verdade, é de ocultamento dela. Realmente, tenho um pouco de ojeriza à realidade nua e crua, muito cruel. É muito verdadeira (risos ). Minto enquanto possoNego tudo e Engano seu é a ficção em si, a invenção em cima do real.

E o seu primeiro romance, Os Malaquias (Língua Geral)? Como foi utilizar a história de sua família como matéria-prima para a narrativa?

ADF  – Ele é baseado numa verdade, numa história da minha família. O livro começa com um acidente natural, um raio que cai na casa de um casal e deixam órfãos os filhos. Isso aconteceu mesmo com meus bisavós, eu não os conheci porque eles morreram eletrocutados por um raio. Meu avô é o Nico… Eu mantive, inclusive, os nomes deles: Nico, Julio e Antonio, são os nomes verdadeiros. Sempre existiu um mito familiar em volta dessa história, sempre foi contado, de vez em quando, mas com certo tabu. Eu sabia que, um dia, escreveria a respeito, mas o realismo fantástico vem de uma certa fuga da realidade mesmo, de construir um mito familiar. A verdade da família já é uma ficção. Quando o meu avô tem uma impressão, ainda infantil sobre o acidente natural que aconteceu na vida dele, esse trauma… Ele nunca conseguiu narrar essa história, ele não narrou. Uma tia comenta: “Não, porque acho isso, isso e isso…” Já começa o mito, uma construção. A verdade, mesmo? Eu posso me perguntar se realmente isso aconteceu. A essa altura do campeonato isso não interessa mais, não é? O que fiz foi narrar, pelo menos o começo do livro, aquilo que ele não consegue, tomado de tanta emoção. Meu avô, minha família é muito emotiva. Eles são muito contidos, a força é sempre latente. As coisas estão acontecendo, as piores que você possa imaginar, e eles estão calados.

Em relação aos primeiros livros, o que há de tão diferente neste romance?

ADF  – Eu comecei a escrever Os Malaquias  em 2003, 2004. Eu fiquei trabalhando nesse livro, desde vários abandonos ao retorno a ele, seis, sete anos. E, durante esse tempo, publiquei outros seis livros: três juvenis e outros três de contos. Então, muita coisa aconteceu durante esse processo. O romance, que estou começando a escrever agora, esse vai ser uma nova fase. A gente sempre tem essa impressão a cada livro novo, não é? Os Malaquias é uma coisa que já ficou para trás. A linguagem… Não sei se ela continua ou se ela me satisfaz. O realismo fantástico, eu tive um trabalho enorme para limpar esse realismo todo. Porque eu delirei com o livro, delirei mesmo. Tinha algumas passagens, assim, desnecessárias, mas eu me encantava com aquilo. O trabalho de anos foi limpando os excessos. Meu sonho de escrita é escrever de pronto, com os excessos já para trás.

Esse novo livro já tem nome?

ADF  – Tem o nome provisório, Sonar. Estou começando do zero. Eu já tinha escrito algumas páginas, mas limpei tudo, estou começando do zero.

Você também é autora de livros infanto-juvenis. Como é escrever para esse público? Há muita diferença quando você escreve para adultos?

ADF  – O público juvenil é muito mais exigente. Porque o adulto, de saída, já faz um pacto de cooperação com autor. Se ele já gastou, 30 reais, 40 reais, com aquele livro, já fez um pacto de entrega. O adulto dá uma chance. O adolescente não, e ele quer uma explicação exata das coisas. Com o público adulto você pode não deixar as coisas explicadas, elas estão subtendidas… A maturidade faz com que você não tenha tanta necessidade de certezas, já se acostumou com as não-respostas. Com o adolescente, não é qualquer resposta, ele exige uma lógica fria, quase matemática. É muito interessante. É o que tenho percebido com os leitores juvenis, principalmente com o Sociedade da Caveira de Cristal , o primeiro que escrevi. É uma história em que o bairro está em quarentena porque tem um vírus letal, está matando muita gente, eles (os personagens) não têm mais aula, ficam em casa… Através do computador, eles entram em contato com um jogo, que a medida que vai passando de um fase para outra… Em determinada fase, o jogo acontece em sonho. Eles dormem, deixam o computador ligado, e se encontram com outros jogadores online, em sonho. Eles entram numa plataforma onírica, ali começa o sonho. Tem uma organização por trás disso… E aí a trama vai. Altera a realidade através do sonho. Tenho um bom retorno desses leitores. De vez em quando, ganho — acho que é essa a palavra, “ganho” — um e-mail com alguns comentários… Há professores que incentivam os alunos a escreverem resenhas em blogs da escola. Já encontrei vários (blogs), tem aquela resenha que é de um aluno que nem imagina que o autor do livro vai ler aquele texto. É muito livre, é muito sincero. Tem um retorno muito sincero, que é interessante, para o bem e para o mal (risos).

Você costuma dizer que São Paulo é uma cidade “indoor“. Como São Paulo interfere em sua escrita?

ADF  – São Paulo é uma cidade interessante porque ela não é aquela cidade do devaneio explícito, você não sai andando por ela e se inspira. Claro, até pode. Mas não é. A cidade é indoor, as coisas acontecem nos encontros, dentro dos lugares. Você precisa ser iniciado na cidade. À medida que você está iniciado, você entra numa conexão de pessoas próximas daquilo que você está fazendo. Até pelo número de pessoas de diversos Estados, que, sobretudo, têm alguma saudade, alguma ideia de voltar que nem mesmo viveu… A cidade, nesse quesito, é indoor, dos encontros, os encontros literários fizeram muita diferença, um impacto muito grande, no que entendo de literatura. Os encontros com os amigos, os escritores que dividem com você as angústias, as alegrias da escrita… Parece tão bobo, tão superficial, mas não é. Você não volta para casa sem conforto, existe um conforto em ter com quem dividir. Não é com qualquer pessoa que você consegue dividir, dizendo metade de uma frase sobre a angústia da escrita. O outro, que faz aquilo, que é um cúmplice, sabe do que você está falando. Acho que isso vai se construindo. Os encontros, os bate-papos, as cervejas, as viagens, são muito aconchegantes, diminuem um pouco o impacto da solidão na escrita.

O que você almeja enquanto autora?

ADF  – Almejo continuar escrevendo. Continuar a escrever com menos angústia. Não acho fácil escrever. Reescrever não é fácil, exige uma disciplina enorme, que também não é fácil. Continuar a escrever é uma opção sem retorno. Minha grande vontade é continuar a escrever, não sei, deslizando mais…

Há algum autor que tenha um caminho literário que você se espelha?

ADF  – O autor que me toca muito é o Roberto Bolaño. Mas, enfim, é uma febre mundial em torno desse nome. Mas não é o tipo de vida em que me espelho. Acho que a vida dele não foi nada fácil… Essa ideia, por exemplo, de sacrificar a vida em nome da literatura, acho que não foi o caso dele… Mas existe essa ideia de sacrificar a vida para fazer a grande obra. Eu não gostaria disso para minha vida. Eu só prefiro a vida.

O que é mais importante na vida?

ADF  – Poder continuar a escrever. Muitas coisas que precisam dar certo para você acordar e escrever. Eu espero poder continuar a escrever. É mistura, não é? A vida é mais importante, mas a vida tem importância porque se escreve… (risos )

É confuso.

ADF  – (risos ) Bem confuso.

O que é preciso para se tornar um autor?

ADF  – Para se tornar escritor é preciso ter passado boas frustrações. Porque você vai se frustrar muito, por maior que seja o sucesso, por menor que seja o sucesso, enfim, em qualquer possibilidade a carga de frustração é muito grande. Escrever um livro que você não sabe para quem vai, o retorno é sempre muito silencioso. Escrever exige uma energia mental absurda. O tempo inteiro você vai lidar com uma expectativa enorme. Ao mesmo tempo, para você escrever, tem que acreditar muito naquele trabalho. Qual a razão para você parar e escrever um romance, poesia ou um livro de contos? Que motivo move uma pessoa para fazer uma escolha como essa? De cara, você tem esse impulso gigantesco. Assim que termina uma obra, aquilo publica, e já foi embora. Foi para onde? Para onde vão os livros que escrevemos? Quem são os leitores? E por mais que ele diga, dê um retorno sobre aquilo que leu… E? É um suspiro. Quem começa a escrever, o teste é a vontade da

escrita por si.

 

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