CHACAL

POETA MAGISTRAL

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 

Quem convive com Chacal, seja no CEP 20.000 ou nos arredores do Baixo Gávea, consegue entender que, prestes a completar 60 anos — em 24 de maio de 2010 —, o poeta carioca mantém o vigor e o entusiasmo do garoto que estreou com o livro Muito prazer, no início dos anos 1970.

Autor de 13 livros de poemas, entre os quais Drops de abril,Letra elétrika e A vida é curta pra ser pequena, em 2007 lançou Belvedere – Poesia Reunida, pela Editora Cosac Naify. Integrante de grupos emblemáticos como Asdrúbal Trouxe o Trombone e Nuvem Cigana, Chacal faz de sua poesia um dínamo para lidar com o dia a dia. Dono de uma linguagem ágil, característica da poesia marginal, movimento ao qual até hoje é associado, o poeta circula entre diversos meios sem se prender a nenhum.

No recente livro de memórias, Uma história à margem (7Letras, 2010) — motivo do encontro — Chacal faz uma revisão biográfica, registrando a convivência com artistas no Circo Voador até a criação do CEP 20.000, o Centro de Experimentação Poética que comemorou 20 anos de formação em 2010. Chacal relembra também, personagens que, ao longo de 40 anos, passaram por sua trajetória.

Em entrevista ao SaraivaConteúdo, em seu apartamento, Chacal ilustra detalhes desses episódios que marcaram a cultura brasileira, testemunhando que a busca pela melhor maneira de dizer seus poemas é uma obsessão.

Chacal – Quarenta anos da minha vida em 150 páginas? Uma história à margemfoi um projeto meu de 2007 para o edital da Petrobras Cultural. Na verdade, Uma história à margem começa antes… Indo para um festival de poesia em Goiás Velho, em dezembro de 2006, encontro Augusto Massi, editor da Cosac Naify, e pergunto: “E meu livro? Vai sair ou não vai?” Seria o próximo livro da Coleção Ás de Colete. Esse livro já estava há dois anos na mão da Cosac…

Belvedere, sua reunião de poemas produzidos de 1971 a 2010.

C – Sim, a coletânea, poesia reunida, Belvedere, que foi lançado em 2007. Nessa viagem, ele me contou histórias e comecei a contar histórias sobre poesia marginal… Os primeiros fracassos da Nuvem Cigana, que gerou grandes sucessos mais à frente. Ele falou: “Por que você não coloca isso no livro? Seria interessante dar uma contextualizada…” Quando cheguei ao Rio, depois do festival, fui para a máquina e, rapidamente, deram 20 páginas de histórias… Histórias não faltam, não é? Eu já tinha vontade de escrever essas histórias. Enviei essas vinte páginas para o Massi, ele demorou um pouco a me responder. Foi o tempo para eu pensar que uma coisa iria brigar com a outra. Eu não queria que a minha poesia reunida ficasse brigando com o texto introdutório… As pessoas, de repente, iam se orientar para ler os poemas através da minha vida pregressa. Eu falei: “Não! Faço, então, uma pequena introdução para Belvedere, falando sobre o título do livro, e o texto eu guardo. Vamos fazer outro livro com essas histórias.” Ao mesmo tempo, abria o edital da Petrobras pela primeira vez para literatura, poesia e ficção. E o que precisava? Justamente 20 páginas do livro e o compromisso de uma editora para publicar. Escrevi de 2008 a 2010, dois anos foi o prazo que me deram. A Cosac demorou a me dar a resposta se iria publicá-lo, então falei com a 7Letras.

Como é rememorar sua trajetória?

C – É mais alegria que dor. Quando se passa a vida a limpo e vejo tantas coisas produzidas, mesmo em situações adversas, que foi a maior parte do tempo… Todo o período da Ditadura, muitas dificuldades financeiras e de cabeça… Conseguir passar pela história, estando vivo, contando sem ser psicografado… (risos) É um motivo de orgulho. Não só de orgulho, mas entender que valeu a pena, que se construiu alguma coisa. Não só uma obra literária, uma obra mais ampla… Se for pensar no CEP 20.000, uma área de produção de cultura, de produção de acontecimento, isso é bom.

Em 24 de maio 2011, você completa 60 anos. Como lidar com o tempo?

C – Quando eu fizer 60, vou ter a crise dos 20 (risos). Eu não sei, não tenho tempo para ficar pensando em idade, tempo. Aquelas coisas de sempre, o tempo não perdoa, como a bola, segundo Muricy (Ramalho, treinador de futebol hoje no Fluminense). Problemas de vista, pequenos problemas de ordem física, ter que usar óculos, perder óculos, e não sei o quê… Mas o resto eu me cuido.

Você é sempre rotulado como “poeta marginal”, mesmo após a publicação da coletânea de poemas em edição de luxo. Ainda se considera um “poeta marginal”?

C – Não. Costumo dizer que agora sou um poeta magistral (risos). Só para tirar uma onda. Eu não gosto dessa coisa de estigmatizar. A academia gosta muito de classificar o poeta, e coloca num escaninho, como para esquecer… Identificou, classificou, pronto. E todas as características identificadas naquele movimento passam para o poeta. Então, se sou um poeta marginal, devo escrever como se fala, distribuir meu livro de mão em mão, publicar em mimeógrafo… Não é isso. A categorização é da academia, às vezes, me preocupa querer sair desse museu. Eu sou outras coisas, sou um poeta concreto, sou um cordelista, sou um repentista, falo meus poemas… Não que eu seja contra ou tenha algum problema com poesia marginal, foi um movimento que trouxe muitas conquistas. Como o concretismo também trouxe. Não gosto de ser classificado assim, estou sempre mudando. Sei que vou terminar minha vida como vilão de teatro infantil…

Um objetivo?

C – Objetivo. A minha fantasia, meu sonho é esse…

Afinal, Chacal é um nome assustador.

C – Justamente (risos).

Seu nome é Ricardo Carvalho.

C – O Chacal veio do vôlei. Eu jogava vôlei na seleção carioca. Acabou o treino, me atrasei no banheiro, tomando banho… Quando cheguei à cantina, ali onde era ginásio do Mourisco, a turma estava comendo e bebendo: “Que onda Chacal.” Uma gíria que tinha na época, não sei mais o que quer dizer… Talvez, “onda devagar”.

Seus pais não ficaram assustados?

C – “Bicho carniceiro! O que é isso? Ricardo, um nome tão bonito…” Mas gostei da mudança, é sonoro. Na época, só tinha o meu, nem tinha o terrorista boliviano, colombiano… Hoje tem uma porção de MCs, grafiteiros.

E a Nuvem Cigana, nos anos 1970?

C – É uma história longa. A gente já tinha começado o movimento da Poesia Mimeógrafo, Poesia Marginal. Meu primeiro livro é de 1971, junto com o Charles Peixoto, ainda não havia a Nuvem Cigana. Depois, em 1973, encontrei o Ronaldo Bastos, parceiro do Milton Nascimento, em Londres. Ele falava que queria fazer uma produtora no Rio, que se assemelhasse a Apple inglesa, produzindo capas de discos, long plays, livros, shows… Voltei para o Brasil no final de 1973, o movimento de poesia independente estava em ebulição, principalmente com o Cacaso fazendo a Coleção Frenesi: Chico Alvim, Roberto Schwarz, Geraldo Carneiro e João Carlos Pádua. Naquela efervescência, escrevi outro livro, chamado América, que saiu pela Coleção Vida de Artista, que Cacaso organizava. Nesta coleção, saíram livros de Luís Olavo Fontes, Zuca Sardana, Eudoro Augusto e Cacaso. A importância da Nuvem Cigana foi que, pela primeira vez, tinha uma organização mais profissional na poesia marginal e nós mesmos cuidávamos da distribuição e do lançamento. Eram lançamentos maravilhosos, que a gente dava nome de Artimanhas. Em determinado momento a gente começou a falar nossos poemas. Mas não daquele jeito formal, parnasiano, clássico de leitura de poemas, com a voz impostada e embargada. A gente falava com o corpo todo, era uma poesia rock’n’roll.

Inclusive influenciado pela sua experiência de assistir Allen Ginsberg em Londres…

C – Justamente. Assisti Allen Ginsberg em Londres, em 1973, num festival internacional de poesia. Foi engraçado, porque tinham vários poetas de vários lugares do mundo, todos de paletó e gravata, lendo os textos. A visão de poesia sempre foi essa… Quando entrou o Ginsberg de macacão, muleta, perna engessada e barba toda desgrenhada… Eu fiquei maluco com aquilo. Primeiro ele não pegou nada para ler! Acho que ele falou um trecho de “Uivo”. Gargalhava e berrava, sabe? Depois tirou uma sanfoninha da bolsa e disse: “Vou falar um blues.” Pegou a sanfona, em pé, amparada na mesa, e começou a marcar e entoar um blues. Eu que já tinha ficado pirado com Bob Dylan em 1965, 1964, ele cantando “Like a rolling stone”. Para mim, foi a primeira vez que havia poesia falada, só que cantada. Quando vi Ginsberg, lembrei do Dylan.

Em 2010, o CEP 20.000 completou 20 anos. O que esse Centro de Experimentação Poética representa hoje?

C – O CEP 20.000 começou a partir de um projeto chamado Terças-Feiras Poéticas, do Guilherme Zarvos, na Faculdade da Cidade (hoje, UniverCidade), em abril ou maio de 1990. Ele convidava um artista consagrado: Ferreira Gullar, Antonio Assis, Silviano Santiago, João Cabral de Melo Neto, Gerardo de Mello Mourão… E no final, Zarvos, muito abusadamente, convidava um garoto, poeta, amigo dele da rua, Baixo Leblon, Baixo Gávea… Foi uma coisa ousada, uma garotada não conhecida. A turma que ia assistir o Gullar viu uma garotada. Essa mistura é sempre poderosa para cultura, cria uma soma, um atrito, que vai juntar público, dicções, tudo… Quando o projeto acabou, lá pela sexta ou sétima edição, fui convidado pelo Zarvos — que eu não conhecia — para fazer a última edição. Era a Heloisa Buarque (de Hollanda) falando dos poetas dos anos 1970 e eu lendo os poemas deles. E aí vi o Boato, um grupo que estava começando, alunos da PUC, performáticos até a medula. Eu estava ali na meia idade, com uns 40 anos…

E você continua dialogando com a nova geração de poetas.

C – Isso me traz sempre felicidade. É saber que tem sempre novas gerações com a mesma doença que tenho: a palavra escrita, falada… Eu acho que você só escreve se tem essa doença, se não tem, pode esquecer. Você precisa estar sempre cuidando da doença, (tomar) alguns remédios, (produzir) uma página por noite (risos).. O CEP tem essa contribuição de ser o primeiro palco para muitos artistas do Rio, e alguns do Brasil. As novas gerações vão chegando e ocupando o espaço delas no CEP. Acho que a gente está na quarta geração de poetas no CEP…

O que você busca na poesia?

C – Quero estar sempre começando. Outro dia, ouvi o Carlito Azevedo, uma pessoa que admiro, dizendo: “Quando estou feliz com um tipo de poema, quero ficar infeliz para começar outra coisa.” Eu venho perseguindo uma forma ótima de falar. A apresentação oral do poema é uma forma, é nela que me interesso mais. Eu e a Saraiva temos conteúdo, sabe? (risos) Um pé na Internet e outro no papel. Quero continuar escrevendo poesia, qualquer verso é bem-vindo.

 

CHACAL

 UMA HISTÓRIA À MARGEM

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

 

Fiz uma oficina de produção textual com Chacal e assisti ao evento V de Verso, no Sesc de Copacabana – onde o poeta contou a trajetória junto com os amigos Charles Peixoto, Fausto Fawcett, Mimi Lessa, Viviane Mosé e Raul Mourão. Então, aproveitei o mergulho para ler Belvedere 1971-2007 (7Letras, Cosac Naify) e marcar uma breve conversa.

“Todos os movimentos de que participei ativamente. Quando o livro estiver pronto, vou fazer uma nova edição desse evento com muito mais força. Confesso que não pude preparar como deveria os encontros. O V de Verso serviu para que eu pudesse ganhar força e entusiasmo para começar a navegar nessa maré. É muita coisa! São muitas vidas! Vou fazer 60 anos daqui alguns anos, sinto a necessidade de contar essas histórias”.

Acompanhado do fotógrafo Tomás Rangel e da atriz Débora Almeida, fui ao encontro de Chacal para que pudesse falar mais sobre a paixão que o mantém com um espírito tão jovem: a poesia.

“A tendência é viver o presente. A cultura contemporânea é a cultura do presente. Aqui no Brasil não há a preocupação com a memória. Eu quero escrever para acreditar que vivi esse tempo todo”.

Vestindo uma calça jeans, um blusão de malha e um gorro verde-amarelo, o poeta-ícone da geração marginal respondeu, lentamente, a cada pergunta com atenção. Com voz rouca, baixa, confessou que está numa fase da vida em que deseja contar histórias.

“Do CEP 20000 para cá, percebo duas correntes: uma de estudantes de Letras que tem um repertório maior sobre o que é poesia; e outra, mais vitalícia, na linha da Nuvem Cigana. Uma vai para a (editora) 7 Letras e outra vai para o CEP. As duas são boas. Mas eu me identifico mais com a linha do CEP. Como diz a academia, o meu repertório é baixo. Eles não entendem nada e deveriam “fumar um” de vez em quando”.

Mimeógrafo, Nuvem Cigana, Asdrúbal Trouxe o Trombone, Circo Voador, Blitz, CEP 20000 são algumas das muitas vidas de Chacal. Aos 57 anos, ele comemora os 18 anos do CEP como se estivesse brindando a própria maioridade. Um poeta que ao longo de décadas vem formando novos poetas merece, no mínimo, vida longa.

Ricardo de Carvalho Duarte. Por que o pseudônimo Chacal?

C – Chacal é uma gíria antiga que usei depois de um treino da Seleção Carioca de Vôlei, em 1964. Depois a gíria caminhou para a rua e assim ficou: Chacal.

Durante a oficina Pintura e Lanternagem do Texto, no Sesc de Copacabana, você disse que o Oswald de Andrade foi uma grande influência. E a família o influenciou de alguma maneira?

C – Em casa, eu lia Guimarães Rosa. Nos tempos de colégio, lia os autores da época, por exemplo, o Herman Hesse. Conheci a obra do Oswald em 1970, na Escola de Comunicação (ECO/UFRJ), através do (poeta) Charles Peixoto. Depois que li Oswald comecei a escrever muito próximo, como os poemas Kodak, com ideia de fotografar o ambiente.

Depois você foi para Londres e assistiu a uma performance do Allen Ginsberg. Esse fato influenciou sua maneira de dizer poesia?

C – Sim, foi um start. A performance foi muito forte, não tinha aquela leitura formal de dizer poesia. O Ginsberg chegou todo desgrenhado, vestindo um macacão jeans, e começou a falar o texto sem ler nada. Ele dava uivos e gargalhadas, era fascinante. Eu olhei aquilo e pensei que o poeta tinha de ter aquele tipo de atitude. Ainda mais naquela época, em 1973, quando tudo era contestado. Assim que pude, coloquei em prática aquele aprendizado.

Você sente preconceito da academia em relação aos poetas que falam poesia?

C – Para a academia é difícil absorver. Mas não acredito que exista preconceito, até porque muitos acadêmicos começaram a falar poesia ou, pelo menos, a ler. (Chacal interrompe a entrevista com um grito de saudação a Raul Mourão, artista plástico que finalizou o dueto do evento V de Verso’ representando a geração 00: “Salve mocorongo, mestre!”). Então, é natural que a academia vire a cara porque ela gosta da coisa morta, do poema frio para análise do texto. A presença do poeta causa um problema para eles. Primeiro, porque entra a emoção da fala do poeta e, segundo, porque é efêmero. Seria necessário que eles se deixassem levar pela emoção, isso é difícil. E dissecar uma performance não é possível, porque o momento morre. Uma fotografia de uma performance não é performance. A gravação de uma performance não é performance. É a emoção do momento que é interessante, é o que vale. E os acadêmicos não têm instrumental para analisar isso. Ou melhor, não sei se existe instrumental para essa análise. Tenho alguns poemas que são contra a academia, como o “Bendita Palavra Maldita”.

O que é preciso para ser um poeta?

C – Fazer um bom poema, um bom texto. Tem de ser guerreiro, ter atitude, mas isso está em segundo plano. Em primeiro plano está o poema.

Você é formado em jornalismo pela ECO/UFRJ…

C – Fiz comunicação social, com especialização em Teoria da Informação e Editoração. Mas não cheguei a exercer a profissão. Fui cronista na Folha e no Correio Braziliense, mas o jornalismo nunca me atraiu.

Como está sendo a experiência de rever a vida no evento V de Verso?

C – É uma experiência muito boa, principalmente porque serviu como pontapé inicial para o que será este momento do meu trabalho: uma revisão dos 40 anos de poesia e produção cultural no Rio de Janeiro. Serviu para esquentar os motores para o livro que pretendo escrever sobre essa trajetória. E serviu em relação aos meus amigos que são pessoas importantes para esse trabalho. Eu ganhei uma bolsa da Petrobras para escrever um livro, Uma História à Margem, sobre essa caminhada. Vou falar de vários momentos da poesia: Mimeógrafo, Nuvem Cigana, Asdrúbal Trouxe o Trombone, Circo Voador, Blitz, CEP 20000, Free Zone, Miscelânea… Todos os movimentos de que participei ativamente. Quando o livro estiver pronto, vou fazer uma nova edição desse evento com muito mais força. Confesso que não pude preparar como deveria os encontros. O V de Verso serviu para que eu pudesse ganhar força e entusiasmo para começar a navegar nessa maré. É muita coisa! São muitas vidas! Vou fazer 60 anos daqui alguns anos, sinto a necessidade de contar essas histórias.

Você transmite muita jovialidade. Como é envelhecer com a vida marcada por gerações?

C – É isso que estou tentando entender. Talvez esse livro possa ajudar a ter uma melhor perspectiva. A tendência é viver o presente. A cultura contemporânea é a cultura do presente. Aqui no Brasil não há a preocupação com a memória. Eu quero escrever para acreditar que vivi esse tempo todo.

Há algum tipo de crise com a idade?

C – Não. Estou sempre reciclando. A vida para mim é lucro, sabe? Acho que não temos de ter muitas expectativas, o que vier é bacana. O importante é você estar entusiasmado. Eu não quero perder o entusiasmo pela vida. Cada vez mais produzo melhor porque as pessoas já conhecem um pouco do meu trabalho. Quero tentar conjugar o trabalho com o ócio. O poeta vive o ócio sagrado, um sacerdócio.

Diante dessa trajetória, como você avalia a produção poética atual? O que é a “geração 00”?

C – Ainda é um enigma para mim. Eu não sei o que é a geração 70 que dirá a 00 (risos). A cada ano, vamos criando valores diferentes para perceber a geração anterior. Do CEP 20000 para cá, percebo duas correntes: uma de estudantes de Letras que tem um repertório maior sobre o que é poesia; e outra, mais vitalícia, na linha da Nuvem Cigana. Uma vai para a (editora) 7 Letras e outra vai para o CEP. As duas são boas. Mas eu me identifico mais com a linha do CEP. Como diz a academia, o meu repertório é baixo. Eles não entendem nada e deveriam “fumar um” de vez em quando. Então, vejo esses dois pólos. Vejo pouca gente fazendo um cruzamento entre as duas áreas. Há o Domingos Guimaraes que faz uma excelente performance. Torço pela Alice (Sant’Anna), ela tem conhecimento e uma simplicidade que me interessa. Admiro a Claudia Roquete-Pinto e o Carlito Azevedo, mas eles não fazem essa transição.

Qual a importância da comemoração dos 18 anos do CEP 20000?

C – O CEP é muito importante porque é a conquista de uma geração. O CEP instalou uma cultura jovem, pop, dentro de uma área gerida pelo município. É aquele lance de uma zona de ocupação temporária: o que interessa não é chegar ao poder, mas fazer uma zona de ocupação temporária. Só que o CEP é uma zona de ocupação de 18 anos. Ali nós instalamos uma república livre, neguinho faz o diabo e a Prefeitura não se mete. Porque há o apoio de uma galera grande. O que acontece lá? É poesia, música, arte. Mas o mais importante é o encontro das pessoas.

O que representou o Nuvem Cigana?

C – O começo de tudo, em termos de ação poética e musical. Antes disso, teve o Tropicalismo, que foi a grande matriz musical. Mas a ação poética de misturar poesia e política foi na Nuvem. Depois aprendi com Asdrúbal e depois com o Circo Voador.

Qual era diferença entre os três?

C – A Nuvem era extremamente anarquista, misturando vida com poesia. E era assim o tempo todo. O Asdrúbal já tinha um eixo no teatro, o Fernando (Luiz F. Guimarães) e a Regina (Casé) eram concentrados. O início da atividade profissional foi com o Asdrúbal, quando percebi que não era só transportar a vida para a arte. Entrei para o grupo no final de 1977, eu estava lançando Quampérios. Mas a poesia sempre falou mais alto, não sou um ator de teatro. Gosto de falar poesia. Gosto de escrever poesia e prosa poética.

Você tem parcerias com Moraes Moreira, Jards Macalé, Lulu Santos, Cláudio Venturini, Evandro Mesquita e Fernanda Abreu. Como é sua relação com a música?

C – É uma relação muito arisca. A métrica da música me prende um pouco, como se eu tivesse de escrever um soneto. Isso eu não gosto. E também há um sentimento de que é um material para a cultura de massa. Prefiro o meu trabalho com Mimi Lessa, poesia e guitarra, acho que funciona melhor. Fiz muita coisa, mas não é algo de que tenho orgulho. Gosto do trabalho que fiz com a Fernanda Abreu, porque eu mandava a letra e ela jogava um bit em cima, sem muita melodia.

De todos os seus livros, existe algum pelo qual você tenha um carinho especial?

C – O último (Belvedere), que contém todos os outros (risos).

O que você lê?

C – Eu não leio. Leio pouquíssima coisa. Pronto, falei (risos).

Você ainda se considera um poeta marginal?

C – É difícil responder isso. O poeta por si só é uma criatura marginal. A poesia não é indústria cultural, ela é artesanato. O poeta já está à margem do sistema, pois o produto de seu trabalho não tem valor de troca. Eu não sou um poeta acadêmico, não faço o jogo da academia, então já estou à margem desse grupo que é à margem. Por outro lado sou aceito, tenho uma coletânea pela Cosac Naify. Sou um poeta clássico, tenho consciência disso. Não sei… Sou poeta. Não interessa se um poeta é marginal ou não. Vivi os anos 70, continuo ligado a movimentos alternativos e vou vivendo…

Como é o seu processo de criação?

C – Vai muito do momento. Há dias em que escrevo mais, quando aflora um sentimento mais forte. Tenho dois blogs que me estimulam a criar. Mas é um processo intermitente.

O que você diria para um jovem que deseja ser poeta?

C – Seja! E depois vai ser poeta. Primeiro seja. Exercite todo o seu potencial de ser humano. Depois de ser, escreva!

CHRISTIANE TASSIS

 MEMÓRIAS, SONHOS E PALAVRAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

 

A escritora Christiane Tassis merece ser lida. O livro Sobre a Neblina (Língua Geral), resultado da Bolsa Criação Literária da Flip 2004, arrasta o leitor junto com as memórias do protagonista, o fotógrafo Henrique. Os personagens são desconstruídos através de textos, cartas, depoimentos e fotos, para dar sentido à narrativa.

A mineira, de Governador Valadares, parece carregar a “mineirice” no modo de se expressar, mesmo depois de ter morado em diferentes países.

“O Rio tem uma sabedoria de vida que me interessa. O carioca é menos autocrítico e faz as coisas sem pensar. O mineiro pensa de mais, é uma carga muito grande. O Rio de Janeiro tem uma leveza que me permite escrever. Se eu não tivesse passado por essa cidade, eu não teria escrito meu livro. Acho que por isso que os escritores mineiros vieram para cá: Drummond, Hélio Pellegrino…”.

Com uma fala bem lenta, quase sem sotaque, a escritora respondeu minhas perguntas sobre sua relação com as letras.

“Acho que escrevemos para encontrar uma coerência na vida, tem muito a ver com o que acabei de dizer sobre ser honesto”.

O encontro aconteceu em dezembro de 2007, com a companhia da escritora Ana Paula Maia, na livraria Argumento, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Por que demorei para publicar a entrevista? A fita do registro desapareceu, junto com outro material de trabalho, por algum motivo inexplicável.

Passado o susto, finalmente compartilho as palavras de uma escritora talentosa

Você é formada em jornalismo, publicidade e, ainda, trabalha como roteirista. Como surgiu seu interesse por literatura?

Christiane Tassis – Na verdade, o interesse pelas palavras surgiu muito antes do universo acadêmico. Tenho uma relação muito forte com a literatura, sempre li e escrevi muito. Mas na época de optar pelo lado profissional, optei pelo jornalismo. Eu pensava na maturidade para poder publicar, só mais tarde consegui encontrar minha linguagem.

Você teve incentivo de alguém?

CT – Não (risos). Ninguém! Tudo aconteceu naturalmente, fui uma criança que gostava muito de ler. É uma relação instintiva mesmo. Sempre tive vontade de trabalhar com a escrita, por isso optei pelo jornalismo. Mas eu queria separar a profissão e a literatura. Acredito que com a literatura como profissão surge a cobrança de vender livros. Não quero isso. Quero uma literatura que não tenha como objetivo a ligação com o mercado.

O jornalismo atrapalha seu trabalho como escritora?

CT – As pessoas que cursam Letras têm um discurso assim: estudar muito teoria faz com que a autocrítica prejudique o processo criativo. Não acredito, a autocrítica surge, com ou sem o estudo da teoria. A publicidade e o jornalismo não afetam nada. Sei separar as personas: uma coisa é a atividade profissional e outra é a escritora Christiane que escreve do jeito que acha legal.

Fez um ano que você publicou o livro Sobre a Neblina. O que mudou após o lançamento?

Ana Paula Maia – Ela me conheceu… (Risos.)

CT – (Risos.) Conheci a Ana Paula… Estou aqui na (livraria) Argumento, em Copacabana. Acho que mudou muita coisa. Tem um conto do Cortázar que fala de uma determinada coceira. Eu sentia essa coceira, como se eu estivesse o tempo todo com fome de publicar. Mas ao mesmo tempo eu não queria escrever qualquer livro. Queria escrever um livro de que eu não tivesse vergonha. Não sei se foi a melhor forma, mas foi o que batalhei. Revelei os conflitos que eu tinha com a publicidade – é inevitável ter questionamentos com a atividade profissional. A publicação do livro mudou minha relação com muitas coisas.

O que mudou no processo de escrita?

CT – Mudou que o meu computador quebrou (risos). Saio amanhã de férias para a Bahia, mas vou ter de levar um caderno para escrever à mão (risos). Quando fui colocar o computador na mochila percebi que ele estava quebrado (risos). O primeiro livro foi resultado de um reencontro com Minas. Morei em muitos lugares: Roma, Barcelona, São Paulo…

Você é brasileira, mas tem traços europeus…

CT – Tenho origem italiana e polonesa.

APM – Você trabalhou nesses países?

CT – Não, juntei dinheiro antes de ir. Sempre faço isso, para ficar exclusiva para literatura. A rotina de trabalhar com outras coisas é muito sufocante, mas aprendi a ser uma pessoa disciplinada. Atualmente, me obrigo a escrever umas três horas por dia.

APM – Você fica emocionalmente desgastada quando escreve ficção?

CT – No primeiro livro eu fiquei muito desgastada por causa do retorno a Minas, da bolsa da Flip… Eu me cobrei muito porque estava experimentando uma linguagem.

Existe a expectativa do segundo livro?

CT – Sim. Mas agora eu tenho todo tempo do mundo. Estou mais tranquila com a angústia de ter de encontrar uma voz, uma dicção, apesar de todo livro ter sua idiossincrasia.

Você mora em Minas Gerais. Há dificuldade com o meio editorial por causa disso?

CT – Acho que afeta porque eu frequento poucos eventos literários. Mas acho que não se deve pensar nisso. Um bom livro vai sair de Minas ou da Paraíba para tomar o mundo.

Que escritores de Minas Gerais você admira?

CT – Há os cânones mineiros: o Guimarães Rosa, Drummond, Hélio Pellegrino… Dos novos tem Maria Esther Maciel, que acho muito interessante. Acho que em Minas, atualmente, a produção audiovisual é bem maior do que a produção literária.

Mesmo com tanto apelo audiovisual as pessoas ainda estão interessadas em literatura?

CT – Acredito que sim. Nunca se publicou tanto no Brasil, a Internet favorece muito essa situação. As editoras pequenas estão interessadas em escritores contemporâneos e as grandes editoras também estão abrindo espaço…

Li, em seu blog, um texto emocionante sobre a perda do seu pai no ano de publicação do seu livro…

CT – Foi um momento muito sensível, ele ficou dois anos doente. Acho que é algo muito pessoal, prefiro não mais tocar no assunto. O que escrevi no blog fechou um ciclo, a superação…

O que é mais importante na vida?

CT – Ser honesto com você mesmo. Viver de acordo com o código de ética que você estabeleceu, sem forçar mudanças. É o que mais procuro como meta de vida.

Por que você escreve?

CT – Vou falar igual a Clarice (Lispector): ”Por que você bebe?” (Risos.) Acho que escrevemos para encontrar uma coerência na vida, tem muito a ver com o que acabei de dizer sobre ser honesto.

APM – Que mundo de ideias norteia o seu livro? O conceito, a busca…

CT – Tenho percebido que me interessa a relação com o outro. O outro é o grande enigma da vida. Por enquanto, me interessa recriar versões de diferentes histórias. Não sou uma contadora de histórias, gosto de trabalhar o texto.

Quais são suas maiores influências?

CT – O filme Rashomon, de Kurosawa. Gosto muito do Borges, Cortázar, Clarice Lispector…

Você escreve roteiros e romances. Existe muita diferença?

CT – Sim. O roteiro é mais pragmático, uma peça de um trabalho. São linguagens diferentes. Mas prefiro o livro a qualquer outra coisa na vida.

Seu livro foi indicado na bibliografia de uma disciplina da UFMG…

CT – Sim. Fiquei muito feliz por ter interlocução com estudantes de Letras. Essas coisas pequenas que valem a pena.

O segundo romance já tem nome?

CT – Não. Nomes são dificílimos, sempre faço a escolha por último. O livro vai mudando…

Como acontece seu processo de criação?

CT – Quando escrevo roteiro, faço uma sinopse. Mas com o livro não consigo fazer nada disso. Geralmente, quando trabalho um romance, não faço a menor ideia do que vou escrever. É estranho, o livro vai mudando.

Se você pudesse escolher um lugar para morar, escolheria o Rio?

CT – Acho que sim. O Rio tem uma sabedoria de vida que me interessa. O carioca é menos autocrítico e faz as coisas sem pensar. O mineiro pensa de mais, é uma carga muito grande. O Rio de Janeiro tem uma leveza que me permite escrever. Se eu não tivesse passado por essa cidade, eu não teria escrito meu livro. Acho que por isso que os escritores mineiros vieram para cá: Drummond, Hélio Pellegrino… (Risos.) Para tirar um pouco do peso do minério… (Risos.)

Li numa entrevista que você escreve sobre o que não entende. Por quê?

CT – Porque tenho interesse pelo desconhecido. Sou minha primeira leitora. A primeira pessoa que tenho de agradar sou eu, o que já é coisa de mais. Levando isso em consideração, preciso me apresentar a coisas que não conheço. Tenho interesse pela elite cultural, pelas pessoas que trabalham com cultura.

Você tinha um blog chamado Basicamente Isso, que agora tem o nome de Multiprocessador. Como é sua relação com a Internet?

CT – Uso mais a Internet como exercício, meu interesse é publicar textos que não tenham outro suporte. Procuro usar o blog escrevendo textos curtos, despretensiosos.

Existe literatura de Internet?

CT – Acho que sim. Mas não me vejo publicando um romance pela Internet, por exemplo. Claro que há textos bons na Internet, mas talvez não sirvam para um livro.

O que você diria para um jovem que deseja ser escritor?

CT – Tente a medicina (risos). A profissão de escritor é difícil, tem de ter vocação. Não existe receita de bolo. Seja honesto com a escrita!

CHICO MATTOSO

 ESTRANHEZA E INTIMIDADE NO PRIMEIRO ROMANCE

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 

O livro Parati para mim(Planeta), produzido e lançado na primeira edição da Festa Literária de Parati (FLIP/2003), despertou a minha atenção para os três jovens escritores: Chico Mattoso, Santiago Nazarian e João Paulo Cuenca.

O conto “Emílio”, escrito por Chico, ficou durante algum tempo guardado em minha memória. Mas depois acabei esquecendo e acompanhando mais a produção do Cuenca e do Nazarian, que publicam com mais frequência.

“Eu nunca tive pressa para publicar. Achei que aconteceria na hora certa. A experiência com os livros coletivos foi importante para mim, tanto como exercício literário como pelo contato com outros escritores. Meu romance era até para ter ficado pronto antes, mas me envolvi num projeto que interrompeu o processo. O livro ficou na gaveta por quase um ano, e em 2006 retomei o trabalho”, explica o escritor, que é formado em Letras na USP.

Depois de quase cinco anos, leio o romance do Chico Mattoso, Longe de Ramiro(Editora 34), seu primeiro livro “solo”. Trocamos algumas palavras durante um evento literário no Rio de Janeiro, mas a entrevista ocorreu por MSN. Foi a nossa primeira entrevista ”virtual-instantânea”.

“Eu tinha 17 anos, estava começando a escrever com mais frequência, e aquilo bateu forte em mim. Eu já tinha interesse em literatura, mas nunca tinha pensado que poderia transformar aqueles textinhos de colegial em uma atividade mais séria. Aliás, até hoje não sei se consegui fazer isso”, iniciamos a conversa.

Arrisco dizer que Longe de Ramiro foi um dos melhores lançamentos que li em 2007. O personagem Ramiro causa tanta estranheza ao leitor que, no decorrer das páginas, é impossível não se sentir íntimo dessa história ”kafikiana”. Leia.

Você é francês? Como é essa história?

Chico Mattoso – Não, não tenho nada de francês. Meus pais estavam exilados na França, e aconteceu de eu nascer lá. Vim para o Brasil com seis meses, sou brasileiro de pai e mãe.

Você chegou a morar na França em 1997. De que maneira essa experiência serviu para sua escrita?

CM – Fui para lá com 18 anos. Foi importante para mim, nesse período eu saquei que podia levar mais a sério a escrita. Mas isso não tem muito a ver com o fato de estar lá, acho que teria acontecido se eu estivesse no Brasil.

De que maneira a literatura chegou a você?

CM – Meus pais sempre foram bons leitores, e acho que isso teve alguma influência no meu interesse pela literatura. Desde pequeno tenho certo encantamento por essa coisa de contar histórias, mas não posso dizer que tenha sido um escritor precoce. Gostava de ler e escrever, mas preferia jogar videogame.

Esse interesse pela literatura surgiu por causa de algum livro ou escritor?

CM – Engraçado. Nunca havia pensado nisso, mas acho que houve um livro importante para mim. Fiquei muito impressionado quando li O Estrangeiro, do Camus. Eu tinha 17 anos, estava começando a escrever com mais frequência, e aquilo bateu forte em mim. Eu já tinha interesse em literatura, mas nunca tinha pensado que poderia transformar aqueles textinhos de colegial em uma atividade mais séria. Aliás, até hoje não sei se consegui fazer isso.

Escritor, tradutor, editor, roteirista. Em que você mais se realiza?

CM – Gosto do que faço. Posso dizer que escolhi ser escritor, mas o resto aconteceu meio por acaso. Foram oportunidades que apareceram e eu resolvi encarar. Até porque não dá para viver só de escrita no Brasil.

Como foi esse “exílio” encomendado em Cuba? O que mais o atraiu lá? Já está escrevendo um novo livro?

CM – Não sei dizer o que mais me atraiu. Cuba é um lugar muito particular. É tudo familiar e estranho ao mesmo tempo. Ainda estou aprendendo a entender aquilo lá. Escrever o livro está me ajudando nesse sentido. Mas não gosto de falar de algo que ainda não está pronto. Estou no meio do processo, fica difícil dizer alguma coisa.

De que maneira São Paulo está presente no que você escreve?

CM – Putz, não sei. Cresci aqui, é difícil avaliar. Mas sou apaixonado por São Paulo. Acho um lugar fantástico. Outro dia, um amigo que nunca veio para cá me perguntou como era a cidade, e eu respondi que São Paulo era muito melhor e mais feia do que ele poderia imaginar. Acho que é mais ou menos por aí.

Você é formado em Letras na USP. Você crê que a universidade, a faculdade de Letras em específico, pode travar o processo criativo?

CM – Não acho. Quem quer escrever, escreve. É verdade que o ambiente acadêmico não é o lugar mais propício para grandes voos de imaginação, mas acho perfeitamente possível conseguir separar as coisas. Eu consegui.

Você teve alguma experiência com artistas cubanos?

CM – Tive contato com alguns escritores e músicos. Gente muito legal, muito talentosa. Mas meu interesse maior estava no dia a dia de Havana, nesse exercício absurdo que é tentar decifrar uma cidade estrangeira.

Dois livros em grupo: Cabras (1999) – Com Antonio Prata, Paulo Werneck e José Vicente da Veiga e Parati para Mim (2003) – com João Paulo Cuenca e Santiago Nazarian. Você demorou a escrever e a publicar o seu livro solo – Longe de Ramiro. Por quê?

CM – Eu nunca tive pressa para publicar. Achei que aconteceria na hora certa. A experiência com os livros coletivos foi importante para mim, tanto como exercício literário como pelo contato com outros escritores. Meu romance era até para ter ficado pronto antes, mas me envolvi num projeto que interrompeu o processo. O livro ficou na gaveta por quase um ano, e em 2006 retomei o trabalho.

Como acontece o seu processo de criação? Você é disciplinado para escrever?

CM – Eu gostaria de ser mais disciplinado. É uma luta que tenho travado comigo, porque sou caótico por natureza. Mas tenho evoluído. Acho.

Quem é Ramiro?

CM – Boa pergunta. Eu estava com o telefone dele aqui, comigo, mas agora não estou achando. Vai ficar para outra hora… (Risos.).

Por que você escreve?

CM – Já me perguntei muitas vezes por que escrevo. Não sei a resposta. Mas tenho outros hábitos estranhos, como beber Coca-Cola sem gás e torcer pelo Corinthians.

Você tem algum parentesco com o poeta Glauco Mattoso?

CM – É meu sobrinho. Brincadeira. As pessoas sempre me perguntam. Glauco Mattoso é um pseudônimo, não temos conexão nenhuma.

Como foi a experiência de escrever roteiro de novela?

CM – Foi… intensa. Aprendi muito. Tenho vontade de voltar a trabalhar em Televisão, mas não sei se escrevendo novela. É massacrante demais.

Sua prosa é diferente dos autores contemporâneos que tenho lido. Uma escrita não fragmentada que sai costurando a história e arrastando o leitor. Quais são as suas referências?

CM – Gosto muito dos americanos, dos russos, dos argentinos: Salinger, Saroyan, Roth, Carver, Tchekhov, Tolstói, Cortázar. Ultimamente tenho lido Bolaño, Graciliano, Onetti. O último livro do Javier Cercas é excelente. Mas quem me ensina mesmo a viver é o Bill Watterson.

Você lê a galera nova que está produzindo? Quem?

CM – Acompanho, na medida do possível. Evito um pouco cair na armadilha de ler só os contemporâneos, acho que não faz muito bem para saúde. Mas acho essa geração de escritores brasileiros muito boa. O Daniel Galera, o JP Cuenca, o Edward Pimenta, a Cecilia Giannetti, o Antonio Prata, o Joca Terron. E o legal é que são autores muito diferentes uns dos outros, com vozes muito particulares. Acho que ainda vem muita coisa boa por aí.

Você escreve poesia? Que poetas você lê?

CM – Não escrevo poesia, mas leio com alguma frequência. Gosto de Apollinaire, de Drummond, de Maiakovski, de Ginsberg, de Walt Whitman. No Brasil há também uma boa geração de poetas. Gosto muito da Angélica Freitas e do Fabrício Corsaletti.

O que diria para os jovens que desejam ser escritores?

CM – Leiam. Escrevam. Leiam mais um pouco. Tenham paciência. E não se levem a sério demais.

ADÉLIA PRADO
A SIMPLICIDADE DE UM ESTILO 
Por Ramon Nunes Mello (Revista SaraivaConteúdo – 2010)

 

   

 

A poeta Adélia Prado tem profundo respeito pela criação, principalmente no que se refere a sua produção poética. Há dez anos sem publicar um livro de poemas, Adélia lança A duração do dia (Record, 2010), marcado por versos que transmitem desejos, frustrações, sonhos e amor.

Para a autora de 75 anos, nascida em Divinópolis, interior de Minas Gerais, a poesia e a fé são manifestações de revelação da realidade através de um processo divino, a mesma fonte da graça. “O poeta é o cavalo da poesia”, já afirmou.

A lírica de Adélia Prado, ao contrário do que se pensa, nada tem de uma pacata mulher do interior. Pelo contrário, estamos diante de uma intelectual, no sentido de que ela, ao seu modo simples e apaixonado, estuda, reflete acerca de ideias. Uma lente muito pessoal, que conquista pela simplicidade de uma bagagem de vida inteira.

Adélia Prado – (…) Tudo é ficção, viu? Tudo.

A duração do dia, seu novo livro, acaba de ser lançado pela editora Record. Por que dez anos sem publicar um livro de poemas? Como funciona sua experiência poética com a escrita?

AP – Não tem mistério nenhum e tem todo o mistério. Porque passo dez anos sem fazer poesia… Mas nesse intervalo eu fiz prosa, fiz um livro infantil. Eu podia estar num deserto criativo, né? Uma noite escura que não desse conta de nada, já me aconteceu. E também acho que é um processo natural, quer dizer, a musa está dormindo (risos). Qualquer coisa assim. Você não é uma usina permanente, nenhum autor é, em nenhuma categoria de arte. Nesses dez anos, o que eu estava fazendo? Tratando de viver o melhor possível. Então, eu tinha poemas, fragmentos de experiências… Experiências que estavam em algum fragmento de natureza poética, que eu falei: “Isso aqui é matéria de poesia.” Estava guardada. E, de repente, eu começo: “Deixa eu ver minhas coisas de poesia.” Nesse tempo, fiz alguns poemas muito novos, bem recentes, e outros antigos, que falei: “Que poema, gosto desse poema!”, sabe? Outros precisavam só de corte. Corte e costura. Foi assim, não tem esse mistério, não. Acho que isso acompanha a vida da gente. Enfim, quando comecei Bagagem, eu escrevi assim… Eu estava até a tampa, né?


Você estreou com Bagagem (Imago), em 1976, depois de enviar os originais para o poeta e crítico Affonso Romano de Sant’Anna, que repassou para o poeta Carlos Drummond de Andrade…

AP – Pois é. Aos 40 anos fiz Bagagem. Então tinha muita coisa. Depois deBagagem veio Solte os cachorros (1979), O coração disparado (1978), Terra de Santa Cruz (1981). Depois o vulcão dá uma pausa. Mas fiquei feliz por ele não estar extinto.


Você encontra alguma relação entre Bagagem (1976) e A duração do dia (2010)?

AP – Absolutamente, encontro sim. Bagagem é um livro solar, feliz, alegre… A própria dor em Bagagem tem um ritmo diferente, uma percussão diferente. Esse aí (A duração do dia), nessa altura da vida eu sinto que é — do ponto de vista da fundação poética e de fazer um livro de poesia — a mesma alegria de fundação que a gente sente. É absolutamente igual. Mas tenho aí experiências que eu nem sonhava ter em Bagagem, que foram experiências marcantes e tudo. Mas são experiências de outra natureza que Bagagem. Enquanto livro e poesia é uma coisa só. Eu vou fazer um livro só a minha vida inteira. Eu quero escrever Bagagem a vida inteira, a vida inteira. Por causa do limite da gente, né? Eu só tenho essa “vozinha”, eu só tenho esse quadradinho para olhar o mundo. É com essa lente limitada, finita, que eu vou, enfim, experimentando o mundo. E, naquilo que ele tem de beleza, vira poesia. Às vezes.


Essa experimentação surge diretamente da religiosidade. Em entrevista ao Caderno de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, você declarou: “Deus quer falar e me usa, no caso sou eu o oráculo.”

AP – Ele usa você também. Eu acho que todo artista. Toda obra, o objetivo dela é atingir o momento poético. Seja escultura, teatro, cinema, música. Ela só acontece quando ela vibra poeticamente, numa revelação absolutamente original, singular e única. Nesse sentido, você ou eu, qualquer autor é instrumento de algo que o suplanta, que é maior que ele. Você é realmente uma boquinha, um oráculo, para algo que está se dizendo, se expressando, através de você. Em nosso caso, através da palavra. Se eu for cineasta, vou fazer um filme de arrasar (risos). Mas para quê? Para tocar no outro aquilo que é a experiência poética. No caso, é a experiência do religioso — respondendo o outro lado da pergunta. Por uma razão muito simples: tanto a experiência poética quanto a experiência religiosa (vamos dizer, dos místicos ou, simplesmente, do fiel, do crente) remete a você a um centro de significação e sentido. Isso é religioso. A significação e o sentido são de natureza religiosa. Porque você toca em algo maior que você, melhor que você, mais bonito que você. Eterno, não é finito, que te provoca aquela sensação de sentido: “Minha vida tem um sentido! Por alguma razão estou aqui. Por alguma razão, o absurdo da vida pode ser explicado.” Quer dizer, é uma fé religiosa, mas é uma fé poética. Porque ela vem através da revelação do inusitado, da beleza, que é sempre jovem, maravilhosa. Eu não dou conta de associar isso a outra coisa que não seja o Divino. A gente fica assim mesmo diante disso… Vontade de escrever poesia um dia sim, outro também. Mas não tem jeito, é quando Ele quer, quando Ela quer.


Você saberia dizer o que é Deus?

AP – Não, não sei, não! Nossa Senhora! Nó! Nó! O que é D… Não… Você tende a ser atraído para uma coisa inominável, inefável. Mas é isso que dá sentido, esse empuxo na alma de todo ser humano. A alma quer adorar, ela quer prostrar-se, ela quer reverenciar algo maior do que nós. Tem graça eu me curvar diante de alguém do mesmo tamanho meu? Que tem o mesmo medo? (risos) O mesmo limite?! Eu preciso de algo maior do que eu, é isso que me dá segurança, que me consola, que me conforta. É por isso que falo: “Dá para esperar, dá para aguentar, né?” Acho que arte toca nisso aí. A despeito dos criadores que se dizem ateus. O Drummond tem um poema…


Drummond se dizia ateu.

AP – O Drummond nem era propriamente ateu. Ele achava demais. Para um mineiro, “ser ateu” era demais. Ele falava agnóstico. Tem um poema dele sobre uma postada da Igreja de São Francisco, não sei se em Ouro Preto ou São João Del Rei… Mas é maravilhoso. Ele quase que pede desculpa de estar querendo crer. Sabe? É muito bonito! É despeito do poeta que aquilo que é transcendente se manifesta. Não adianta, não adianta, eu não mando nisso. A vingança da poesia é essa: ela ser maior que a gente.


Neste novo livro, no poema “Tão bom aqui”, tem um verso assim: “Só quero saber do microcosmo.”

AP – (risos) Estou fazendo aula de física, agora. Física Quântica (risos).

Como é essa relação consciente com o microcosmo?

AP – É que, afinal, você percebe que tudo é basicamente igual. O que interessa mesmo é a tua vidinha. Porque você não tem mais que ela (risos). Você não tem mais do que as 24 horas do dia. Ninguém tem mais que isso. E é nessa experiência pequeninha, miserável, limitada, carente, que eu vou dar uma resposta ao absurdo da minha existência e do mundo. É esse microcosmo mesmo: a filinha do supermercado, a barra da calça… Não por isso que você é poeta do cotidiano ou poeta da metafísica. A metafísica está aí nessas coisas. Aquilo do (José) Ortega y Gasset (1883-1955, filósofo espanhol): “Admirar-se do que é natural é dom do filósofo.” É o dom do poeta! Todo mundo sai correndo para ver um fenômeno da natureza, sei lá o quê. Mas preocupar-se com aquilo que é absolutamente natural é a grande riqueza, aquilo que é o dado imediato da vida. E o dado imediato são nossas carências e obrigações cotidianas. Não tem nada tão grande porque tudo você pode amansar. Você nunca viu o palácio da Rainha da Inglaterra, fica lá um dia ou dois e amansa o lugar. “Só isso? Eu quero mais, eu quero mais.” Você está sempre querendo além do que você tem. E esse além é de natureza transcendente, é a fome da alma, a fome do espírito. É uma coisa impressionante porque você, limitado e finito, fala em conceitos loucos para nós que somos tão pequenos: o infinito. Infinitamente pequeno (risos). “Infinitamente pequeno” está me perturbando ultimamente (risos). Ele é perturbador mesmo, perturbador.

Você escreveu dois livros Manuscritos de Felipa (1999), de prosa, e Oráculos de maio (1999), de poesia, no mesmo período. O processo de escrita difere entre os gêneros?

AP – Ah, demais, demais. A poesia já vem com aquela laçada própria. Você sabe que aquela coisa que se quer dizer tem o ritmo próprio da poesia. A prosa não, ela exige o discurso. Agora, com uma diferença, se você pretende ser autor de verdade, se a sua prosa não tiver poesia, pode jogar ela fora também. A pretensão da prosa é atingir a mesma coisa que a poesia, mas só que ela, coitada, é mais pobre. Toda hora os teólogos falam isso. Os paradoxos da física e da teologia — lá vem a física de novo! — que, realmente dizem, são flashes. O resto a gente fica pelejando com sintaxe, aquela coisa toda para narrar. Se você ler uma obra-prima do Guimarães Rosa… Quantas páginas tem Grande sertão: veredas (1956)? Mas no final você fica só com aquilo. Só com aquela “suspiração” que ele provoca na gente (risos).

A Bíblia é poesia?

AP – Pura. Ela é uma metáfora. É um discurso religioso vazado em metáforas. Só por isso ela tem a duração que tem. Só por isso ela dura até hoje. Todos os grandes livros, fundadores das grandes religiões, são vazados em poesia. Salmos, Cânticos dos Cânticos. É poesia pura. O subtexto de um relato bíblico, por exemplo, é uma revelação Divina: “Deus nos ama. Deus morre por nós.” É isso tudo que está lá. Mas “vazado” como? Em linguagem poética. Porque fora dessa linguagem o religioso não se apresenta, ele é poético por natureza. Você pode fazer um poema sobre uma missa das 10 ou daquela pedra (aponta para a janela) saindo do mar, ambos religiosos se forem poéticos. E ambos poéticos se forem de fato religiosos. São fontes da mesma água, do mesmo rio. Separar isso é duma infantilidade, é gente muito verde que faz isso. Ou que recusa, por um orgulho profundo, o religioso. Porque o religioso, assim como arte, supõe do fiel, do crente, uma adesão. Você não aceita a fé, você adere. A arte é a mesma coisa. A natureza do religioso e da experiência poética é absolutamente igual.

Você tem um versículo preferido?

AP – É um versículo de um texto evangélico. Prefiro todos porque são maravilhosos demais. Mas tem um que, ultimamente tem me acompanhado, que é uma fala de Cristo, não sei em qual dos Evangelhos: “Não tenhais medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino” (Lucas 12, 32-48). Olha que maravilha! (risos) Você fica em pé de novo. Você fica em pé nas pedras. E diz: “Eu vou dar conta. Eu vou dar conta!”

“Não quero morrer nunca, porque temo perder o que desta janela se desdobra em tesouros” está escrito no poema “Viação São Cristóvão”, do livro Oráculos de Maio.

AP – Não quero morrer nunca. De vez em quando ainda acredito que não vou morrer (risos). Lá no fundo, lá no substrato do microcosmo da alma (risos) eu acredito que não. Porque acho que tem um sentido também, a aspiração humana de viver. O que quero é viver. Ninguém quer morrer. Isso aliado a uma fé que aceito, abraço e que me consola profundamente, que é a vida eterna. Acreditar na vida eterna. Porque se estou viva agora é evidente que posso viver o resto da vida. Isso é absolutamente consolador. E poético até não poder mais.

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