IGOR COTRIM

LIBERTADO PELAS PALAVRAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

nelson

 

Fico muito feliz por poder compartilhar a entrevista que realizei com o escritor moçambicano, Nelson Saúte – publicado no Brasil pela editora Língua Geral. “Fui libertado pelas palavras. Eu me libertei através da cultura”. As palavras desse homem são um verdadeiro um incentivo à arte de escrever.

“Quando tinha uns oito anos, conheci o filólogo Antônio Houaiss e ele me disse: ‘Sou de uma cidade muito bonita: o Rio de Janeiro. Um dia você vai crescer, começar a viajar e ver que não estou mentindo. Mas você vive em Maputo, que é uma cidade maravilhosa.’ Esse episódio me marcou muito. E tem uma coisa, o pôr do sol na África é o que de melhor a condição humana pode experimentar”.

Nelson se atrai pelas metrópoles do mundo como se entrega à poesia do dia a dia, sempre levando um pedaço da África em tudo que realiza. Basta ler os contos do seu último livro, Rio dos Bons Sinais, para comprovar o que digo.

“Não escrevo com os pés numa bacia de água ou contra a parede. Escrevo poemas no celular, por exemplo. Há momentos de inspiração, sim, mas o mais importante é o trabalho. É um trabalho de marceneiro”.

Seu modo de enxergar a vida demonstra uma sabedoria de quem sobreviveu à violência, em Moçambique, nos emblemáticos anos 80. Mas nem por isso seu texto é rancoroso ou pessimista, muito pelo contrário, valoriza sentimentos nobres como amor e solidariedade.

“Escrevo sobre o sonho de sobreviver. A grande profissão dos moçambicanos é sobreviver”.

Essa conversa aconteceu num hotel em Ipanema, no Rio de Janeiro, durante a passagem do escritor pelo Brasil, no mesmo dia do encontro com a escritora portuguesa Patrícia Reis.

No dia 20 de novembro, é comemorado, no Brasil, o Dia da Consciência Negra. Você já sofreu preconceito por ser negro?

Nelson Saúte – Não noto esse preconceito no meu país. Percebo-o mais em outros lugares. Há circunstâncias em que sou o único preto, então tenho que lutar. Existe preconceito, sim; os pretos do Brasil ou de qualquer parte do mundo têm de se sentir tão cidadãos como os outros. Não acho que você é um cidadão diferente porque é mais branquinho. Eu me libertei através da cultura, fui libertado pelas palavras. Se você é uma pessoa inteligente, tem que responder ao preconceito com inteligência. Não temos que reclamar como negros, mas como cidadãos. Não sou um “escritor negro”. Sou escritor. Sou cidadão. Enxergo as pessoas pelo que elas são e não por conta da cor.

Quando você começou a se interessar pelas letras?

NS – O interesse pela literatura é um território banal. Acho que todos nós começamos pelos livros. Nasci numa família muito humilde. Meu pai foi conferente de carga de uma estrada de ferro por mais de quarenta anos. O encontro entre meu pai e minha mãe se deu sob o signo do livro. Ela entrou num ônibus, no subúrbio de Moçambique, e o viu lendo um livro chamado Alice Sampaio e ficou atenta, pois se chamava Alice. Ela se interessou pelo livro, foi assim que começou o romance deles. Acho maravilhoso ter vivido numa casa cheia de livros, com pais de gostavam da leitura, mas isso não quer dizer nada, porque meus irmãos não têm nenhum interesse por literatura. Quero dizer que o interesse começa na infância, porque a gente se deixa influenciar por um livro ou por alguém. Ou qualquer coisa que eu puder inventar agora para que você possa dizer que a história do escritor moçambicano é fantástica. Sou tão banal como qualquer outro.

Gostaria que você falasse um pouco sobre a importância dos anos 80 na sua vida.

NS – Falo muito dessa época porque foram anos emblemáticos. Moçambique se tornou independente em 1975, portanto nossa democracia é muito recente – apenas 32 anos. Eu tinha sete. Os anos 80 foram muitos difíceis; período de quase bloqueio do país, faltava de tudo. Tínhamos a profissão de formar filas – acordávamos as quatro da manhã e íamos para a fila –para conseguir carne, pegar um pedaço de pão… Muitas vezes, quando chegávamos, a carne já estava esgotada e não havia o que comer. Nessa época, a profissão do padeiro era a mais generosa e importante do mundo, porque não havia pão. São anos de extrema violência – em que a guerra atinge sua expressão mais violenta –, mas, ao mesmo tempo, de grande humanismo. Anos em que as pessoas viviam de portas abertas e todos saiam às ruas para pedir emprestado um bocado de açúcar. As pessoas iam até a casa do outro para ver a novela O Bem Amado, mas chegavam mais cedo para poder jantar. Comíamos o queijo enviado pelo Ronald Reagan, e aquilo nos dava uma imensa alegria porque saíamos de casa sem comer nada. Anos do repolho, um prato de repolho feito mil e uma vezes, sem mais nada. São anos de humanismo, que me trazem uma nostalgia incomensurável. Por isso sou o que sou. Acredito que no código genético da minha geração está gravado os anos 80. Moçambicano que se preze viveu nos anos 80. Quem sobreviveu nos anos 80 em Moçambique sobrevive a qualquer coisa…

O que você guarda dessa experiência?

NS – Tiro muitas coisas. Acho que escrevo melhor sobre a década de 80. Década de todas as esperanças e desesperos. Década que vi desaparecer grande parte da minha geração, vi muitos amigos morrer. Eu também morri de alguma forma… É tanta coisa que não sei dizer.

(Nelson se emociona e para de falar.)

Depois de tudo isso que você vivenciou, como é ser escritor em Moçambique hoje?

NS – Acho que sou um homem de muita sorte, um homem privilegiado. O fato de ter hoje a minha literatura reconhecida é importante. Principalmente por ser reconhecido no Brasil, um país importante para mim. Meu pai, ainda vivo, é apaixonado por música brasileira. Acordávamos todos os dias ao som de Martinho da Vila. Desconfio que meu nome tenha a ver com o músico Nelson Ned. Lembro muito de ouvir, na minha adolescência, Roberto Carlos e Lindomar Castilho. Através da música e da palavra, me libertei! A bossa nova é muito importante para mim; Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso têm importância fundamental. Ou a poesia do Carlos Drummond. Tudo isso faz de mim o que sou. O que me dá mais felicidade é saber que o Brasil também está descobrindo os escritores moçambicanos. Aliás, defendo a ideia de que o Brasil tem uma dívida de afeto conosco, porque amamos imensamente o Brasil.

O escritor Ruy Guerra assina apresentação do seu livro. Fiquei surpreso ao descobrir que ele é moçambicano…

NS – Em 1958, esse moçambicano veio para o Rio de Janeiro, depois de estudar cinema em Paris e contribuiu demais para o Brasil. Fiquei muito feliz em ter um conterrâneo no meu livro; fico feliz demais com a presença desse “carioca-moçambicano” por perto. Quando eu era jornalista, perguntei a ele como um jovem sai de Moçambique para estudar cinema em Paris e depois se instalar no Brasil. E ele respondeu: “Nós de Moçambique amamos o Brasil.”

O que mais o tocou quando conheceu o Brasil?

NS – Difícil dizer. Só este ano visitei quatro vezes o Brasil, tenho quase uma família aqui. Sou um homem perfeitamente urbano, adoro o Rio de Janeiro, São Paulo, Nova Iorque, Madri, Lisboa – onde vivi cinco anos da minha vida. Tudo o que é grande cidade me fascina. As livrarias me encantam muito. Chegar em Madri e ir à Casa Del Libro é fantástico, me torna mais feliz. Eu e a (escritora) Patrícia (Reis) estamos no Rio de Janeiro e almoçamos todos os dias na (livraria) da Travessa. No fundo, sou um animal da grande cidade. Mas nasci numa cidade muito linda, Maputo é muito bonita. Quando tinha uns oito anos, conheci o filólogo Antônio Houaiss e ele me disse: “Sou de uma cidade muito bonita: o Rio de Janeiro. Um dia você vai crescer, começar a viajar e ver que não estou mentindo. Mas você vive em Maputo, que é uma cidade maravilhosa.” Esse episódio me marcou muito. E tem uma coisa, o pôr-do-sol na África é o que de melhor a condição humana pode experimentar. Aconteceu uma coisa interessante aqui no Brasil. Fui cortar o cabelo e fazer as unhas, essas maluquices que a gente inventa, e fui atendido por uma “miúda” muito bonita, que veio do Pará. Por conta disso escrevi esse poema:

(Nelson tira um celular do bolso e começa a ler o poema)

Perdoai-me Senhor

Nunca fui a Belém do Pará

Eu vim do Sul do Equador

Trago poeira nos olhos

Mas enxergo-a como vento

E beleza que geraste

No vento híbrido de Belém

Perdoai-me Senhor

Hoje é um dia sorumbático

Chove na Cidade Maravilhosa

Mas eu banho-me de sol

Com esses olhos do Atlântico

Iluminando-me de azul

Como os pintores que me assombraram

Desde o dia inaugural, Senhor

Perdoai-me Senhor

Sou um homem feliz

Você, além de escritor, é professor de ciências da comunicação. Fale um pouco sobre esse trabalho.

NS – Na minha vida de jornalista, o que mais fiz foram entrevistas. Aliás, publiquei livros de entrevistas, fiz antologias e divulguei muito o trabalho dos outros – igual ao que você está fazendo agora. Isso, às vezes, é um trabalho mal compreendido, e que gera muita inveja. Mas nos dá notoriedade, quando é bem feito. Acho que fui excelente jornalista, modéstia à parte. Acho que foi importante para o meu país e para Portugal, num contexto que havia um olhar diferente. Mas eu não queria ser jornalista e sim escritor. Acredito que o jornalismo é um bom exercício para um escritor, pois se aprende a conduzir pelo trilho da condição humana. O jornalismo ensina a amar os outros. A minha vida é me interessar pelo outro. Quem não se interessa pela matéria-prima chamada homem não pode escrever. O olhar de uma mulher ou o rosto do homem são páginas para escrever.

O Apóstolo da Desgraça (estórias; Publicações Dom Quixote, Lisboa); Os Narradores da Sobrevivência (romance; Publicações Dom Quixote, Lisboa); As Mãos dos Pretos (Publicações Dom Quixote, Lisboa) e Rio dos Bons Sinais (Língua Geral). De todos os seus livros publicados qual o seu predileto? Por quê?

NS – O mais importante é sempre o próximo.

No seu livro, a morte é muito presente. Por quê?

NS – A morte está muito perto de nós. Principalmente dos moçambicanos. A morte, na minha realidade, é coisa cotidiana. Todos os dias, quando abro o jornal, é olhar a página de óbitos. Uma das coisas importantes em Moçambique é ir aos funerais. Não se conhece a pessoa que morreu, mas é importante estar lá para ser solidário. Para mim isso é uma coisa normal, é o universo em que vivo. Quase todas as semanas vou a um funeral.

Você tem medo de morrer?

NS – Não. O que escrevo não tem nada a ver com medo de morrer. A única coisa que me dava medo era morrer jovem e deixar os meus filhos numa situação insegura. Não tenho medo ou pânico, a minha relação com a morte não se dá por isso. Se você me perguntar se a morte me obceca, responderei que sim. A presença da morte no que escrevo vem das histórias sobre morte na casa da minha bisavó e também pelo fato de ter visto um caminhão cheio de cadáver nos anos 80. Mas o meu livro não é sobre a morte, é sobre o desencontro da vida, é sobre a condição humana. Escrevo sobre o sonho de sobreviver. A grande profissão dos moçambicanos é sobreviver.

Você acredita em Deus? Tem religião?

NS – Não, não acredito em Deus. Acredito em deuses, é outra história. Acredito nos meus antepassados. É complicado acreditar nesse Deus de olhos claros, para mim é muito difícil. Acredito em deuses. Em momentos de recolhimento penso nos meus antepassados.

O que você lê?

NS – Brasileiros: Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Rubem Fonseca, Jorge Amado… Também leio os novos autores. Outro dia li o Mauro Santa Cecília. Gosto do Tony Bellotto! Tem o Agualusa, a Patrícia Reis, a Inês Pedrosa…

Como acontece o seu processo de criação?

NS – As coisas vêm de repente. Não tenho ritual. Não escrevo com os pés numa bacia de água ou contra a parede. Escrevo poemas no celular, por exemplo. Há momentos de inspiração, sim, mas o mais importante é o trabalho. É um trabalho de marceneiro.

Por que escrever?

NS – Porque é isso que me dá sentido na vida.

O que você diria aos jovens que desejam ser escritores?

NS – Um bom escritor é um grande leitor. A leitura que faz o escritor. O exercício do escritor não é sonhar e sim ler para buscar a sua própria voz. Tem de se ter curiosidade pelo trabalho dos outros. Antes de ser um bom escritor, seja um bom leitor. Um conselho? Tranque-se num quarto e leia, leia sempre!

DIANA DE HOLLANDA

OS BASTIDORES DA ESCRITA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

 

Diana de Hollanda é escritora, poeta e diretora teatral. Também já teve vontade de ser atriz, até descobrir que a timidez a levaria ao recolhimento necessário para refletir sobre sua produção literária/teatral, nos bastidores.

Diana lida com essas diferentes personas, enfrentando conflitos e escolhendo linguagens, sem limites. Dois que não o amor (7Letras), seu primeiro livro de poemas, lançado em 2007, pode ser lido como um pequeno e intenso romance, recheado de referências literárias e cinematográficas — o cinema também é uma paixão da poeta.

“Há quem prefira impor e se impor limites. Quanto a mim, não consigo, nem quero, me tachar assim ou assado. Meu próximo livro é de fragmentos. Se eu disser que é poesia vão falar ok. Se eu afirmar é prosa, vão dizer ok também (risos). Para mim, chamar de texto é suficiente.”

Se ela acredita no amor? “Não duvido.” Ela acredita na palavra como oxigênio: “Escrevo para respirar melhor.” Essa conversa numa ruela do Catete (RJ) e a produção exposta em seus blogs (são mais de três) comprovam essa relação (afetiva?) com as palavras. Vide o título de um deles: Não proferir palavras em vão.

“(…) daí você poderia me perguntar: ‘Mas quando não é em vão?’ E eu não saberia te responder”.

Você é poeta e diretora de teatro. Como iniciou essa trajetória?

Diana de Hollanda – Aos nove, comecei a CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), depois passei pelo Tablado e, enfim, entrei para a Unirio, onde me formei em direção teatral. Também escrevo desde cedo, porque, como no colégio não conseguia prestar atenção às aulas — achava o sistema de ensino entediante, massacrante —, para não dormir, passava o tempo escrevendo.

Então, inicialmente, você queria ser atriz?

DH – É. E também escrever. Aliás, esse último lado sempre foi mais perceptível. Tanto que, na época do vestibular, os meus colegas afirmavam “você vai fazer Letras, né?”, mas eu nunca tinha pensado em fazer Letras porque achava que isso poderia me afastar da literatura.

Por quê?

DH – Porque… Hum, é complicado de explicar porque é bem idiossincrático. Deixa eu dar um exemplo: depois de completar metade do curso de cinema na UFF (Universidade Federal Fluminense), não só chutei o balde e larguei a faculdade, como fiquei um ano sem conseguir ver filmes. Acho que, intuitivamente, eu desconfiava que se cursasse Letras poderia ficar de saco cheio a ponto de não querer mais escrever. Tem a ver com confundir ambiente, pessoas, estudos e a coisa em si. Confundir não é difícil, aliás, acho que agora estou um pouco confusa (risos). Mas apenas três considerações. A primeira: na época do vestibular, eu achava que precisava estreitar e reafirmar o vínculo com o cinema e o teatro, e não sentia essa necessidade em relação à literatura. A segunda: a principal razão de ter abandonado cinema foi o curso de direção, com o qual estava muito envolvida — e não me sentia capaz de levar os dois ao mesmo tempo. A terceira: contrariando tudo o que disse acima, hoje até que me agrada a ideia de fazer mestrado em letras.

Há quem diga que quando o ator pensa demais ele desiste de ser ator…

DH – É, parece que sim (risos).

Como surgiu seu interesse por direção teatral?

DH – Na Unirio entrei como atriz, mas já querendo dirigir. Lá a prova é interna, não tem vestibular direto para o curso de direção, ao contrário da UFRJ (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). Optei pelo caminho mais longo porque na Unirio eram no máximo quatro alunos por turma — e, considerando o que te disse sobre a dificuldade de prestar atenção às aulas, achei esse caráter intimista significativo. Descobri que devia seguir na área de direção porque enquanto interpretava, pensava “nossa, está uma merda”. Daí cada vez fui ficando mais tímida. Não sei se tímida é a palavra. O fato é que fui ficando com vergonha da exposição, do palco. Não dava para ser atriz assim. Mas ao mesmo tempo eu precisava — preciso — do teatro, então tinha que entender qual era o meu lugar. Mas sei também que os lugares mudam. Ainda que continue me parecendo muitíssimo remota, não desconsidero a possibilidade de um dia atuar. Da mesma forma, acho que só sou diretora quando e se dirijo.

E a escrita?

DH – Também é um lugar constantemente em crise (risos). Minha mãe tem uma relação forte com as palavras — cresci e continuo envolvida por muitos livros, para o desespero de minha alergia —, e meu irmão do meio, que sempre foi uma referência para mim, é jornalista, então o interesse surgiu naturalmente.

Havia uma predileção entre prosa e poesia?

DH – Não. Nem há. Os primeiros livros de que participei foram de contos, mas o primeiro livro que lancei foi de poesia.

E como é essa definição? Ainda há essa separação: fulano é poeta, sicrano é escritor, beltrano é contista…

DH – Há quem prefira impor e se impor limites. Quanto a mim, não consigo, nem quero, me tachar assim ou assado. Meu próximo livro é de fragmentos. Se eu disser que é poesia vão falar ok. Se eu afirmar é prosa vão dizer ok também (risos). Para mim, chamar de texto é suficiente.

Quando li o livro Dois que não o amor (7letras, 2007), entendi como uma história só… Como foi o processo desse livro?

DH – Começou com poemas esparsos. Alguns vinham de longe, dos meus dezessete anos. Claro que os retrabalhei. O livro ficou pronto quando fiz 21, mas esperou Godot durante um ano na gaveta. Godot era alguma editora que o bancasse. Não rolou, e isso sim é de se esperar quando se trata de um autor estreante.

E esse título misterioso?

DH – Dois que não o amor? (risos) Hum… Prefiro não explicar. Seria um pouco autoritário.

O que é o amor?

DH – (risos) Ah, eu sabia que você ia me perguntar isso! Mas, se eu soubesse, não escreveria sobre o assunto.

Tá bom. Mas se eu exigisse uma definição… (risos)

DH – Então eu responderia que espero que não tenha nada a ver com o do meu livro (risos). Nem com os que tive até hoje, que me exauriram…

Você ainda acredita no amor?

DH – Não duvido (risos)

Não?

DH – Não.

Como é lidar com essas personas: escritora, poeta, diretora?

DH – Para mim, é lidar com a escolha da linguagem. Não sei se há conflito (pausa). Mentira. Há conflitos.

Dirigir uma peça de teatro é como escrever um livro?

DH – Não, absolutamente. Até porque, antes mesmo da questão de serem linguagens distintas, o diretor é uma figura pública, então, por mais que esteja nos bastidores, está sempre socialmente ativo. E estar socialmente ativa me cansa. Ainda que isso não seja regra, para mim o lugar do escritor é o do recolhimento. Nesse sentido, fico mais à vontade como escritora — ainda que escrever também provoque outros desgastes.

O que é desgastante na escrita?

DH – A dificuldade. Para chegar a um parágrafo bom é preciso lapidar, lapidar, lapidar. Bem, mas, até aí, a verdade é que no teatro também.

O processo de criação da direção e da escrita são diferentes?

DH – Diferentes na medida em que são linguagens e meios distintos. Mas acabam, cada um à sua maneira, obedecendo à seguinte ordem: experimentação (armazenamento de conteúdo) e edição. É assim que vem funcionando para mim, ao menos. Também são diferentes pelo que acabo de te dizer: ao dirigir, além da dificuldade da criação, é preciso lidar com os entraves do coletivo. Não que o coletivo não possa ser agregador, mas a verdade é que não é toda equipe que se dispõe a arriscar. Então, ao conduzir um processo experimental, além de o diretor lidar com as próprias dúvidas, às vezes precisa ter ânimo para não se deixar abater pelas dúvidas alheias. Mais que isso, precisa atuar como psicólogo ou marqueteiro, defendendo o projeto. Quando se trata de atores, por exemplo, muitas vezes eles são agressivos, exigem respostas. E isso pode me deixar tensa, porque, quando começo um processo desses, não tenho respostas, nem quero ter.

Você é reclusa?

DH – Recluso é um rótulo como tantos outros, mas, considerando isso, sou reclusa (risos). Eventualmente, tento não ser.

Tem um poema do livro que fala sobre isso, até sublinhei: “Não serei mais socialmente sóbria. / Cansei-me de pessoas ao redor. (…)”.

DH – É, me sinto mais tranquila com poucas pessoas à minha volta. Mas, claro, estamos falando de um livro e não de uma biografia.

É mais difícil lidar com atores ou escritores?

DH – A questão é que não preciso dirigir os escritores (risos).

Você é filha única?

DH – Não. Tenho dois irmãos mais velhos.

Sua mãe tem um sebo online?

DH – Sim, o XPTW Livros.

Por que esse nome?

DH – Minha mãe tem umas gírias estranhas. Uma delas é essa. Ela fala “aquilo ali é muito XPTW”…

(risos) Como assim? Agora entendi a dedicatória do seu livro.

DH – Pois é. Não dá para explicar, porque XPTW é uma palavra polissêmica. De toda forma, é uma dedicatória bem pessoal.

Quantos blogs você tem?

DH – Muitos, mas grande parte só para mim. Os públicos são o Ainda há música, o Mais de mil palhaços no salão — que é a quatro mãos com outro escritor, o Bruno Domingues Machado —, os finados Candeia de Vento e Meus Cotos e, por fim, o não saber a morte.

Você tem uma teoria do blog como obra…

DH – É, na verdade, um tema de estudo. O blog tem uma linguagem subutilizada. Vejo nos elementos que ele oferece potência para a composição de uma obra literária interessante, nunca entendi como demérito ser “escritor de blog”. O demérito não pode ser o meio, mas a forma como ele é aproveitado. Acho que isso não se restringe a blogs.

Você tem vontade de fazer mestrado sobre esse assunto?

DH – Já faço, só não oficializei (risos).

Me fala sobre esse prêmio que você ganhou com o blog não saber a morte.

DH – Foi um prêmio muito bacana do Fórum Virtual de Literatura da UFRJ. Tem a ver com o que eu disse agora sobre a linguagem do blog. Não adianta eu falar, porque acabaria me focando na história e a história não é o ponto. Tem que acessar para ver.

Você faz parte de um coletivo de literatura. Por quê?

DH – Um coletivo de literatura que busca lugar para promover a literatura, para abrir espaço para o debate.

Com tantas opções de entretenimento e informação, as pessoas estão interessadas em literatura?

DH – Sim. Sempre houve e sempre haverá pessoas interessadas em literatura. Não quero dizer que há milhares delas. Já participei de eventos sensacionais em que a plateia era formada por pouquíssima gente. Também não estou dizendo que grande parte não seja composta pelos próprios escritores. Ou que não haja aqueles que são mais seduzidos pelo lobby que propriamente pelo debate. Nenhuma dessas ressalvas invalida a importância desse espaço.

Quem você aponta como referência?

DH – Há muita referência. David Lynch, Gus Van Sant, Won Kar Wai, Rohmer, Polanski, Tarkovski, Antonioni, Fellini, Truffaut, Pasolini, Glauber Rocha, Beckett, Kafka, Perec, Sade, Cortazar, Goya, Hopper, Nietzsche, Artaud… Música, então, nem se fala. Uma vez, um amigo me disse “ainda que não haja mais nada, ainda há música”. Foi daí que criei meu blog Ainda há música, em que posto diariamente o que ando ouvindo.

Na antologia Contos sobre tela (Pinakotheke, 2005), você escreveu um texto chamado “Vãos”, em que se inspira numa obra do Ismael Nery. Como surgiu o convite?

DH – Veio através do Marcelo Moutinho. Eu havia mostrado um outro conto para o Flavio Izhaki, que o repassou para o Marcelo. Eles estavam procurando gente nova para a antologia.

Foi difícil escrever um conto inspirado numa tela?

DH – Foi bem difícil. Mas principalmente porque eu acreditava que deveria escrever um “conto”. A palavra “conto” limita tudo. Ou, na época, eu sentia assim.

O que você sente mais dificuldade de escrever: conto, poesia ou romance?

DH – Nunca escrevi um romance, ainda é um projeto. Mas não acho que vou ter um problema de gênero. O que é um romance? Sei que há milhares de respostas preconcebidas, e não quero adotar nenhuma delas.

Por que você escreve?

DH – Escrevo… Para respirar melhor. Não sei. Qualquer coisa que eu responder, mesmo que sincera, vai soar cafona (risos).

E o teatro?

DH – O teatro é pelo aqui e agora. Mas digo aqui e agora no sentido de perto e vivo. Normalmente — para toda exceção, tem sua regra — não me comovo com o teatro que parece cinema realista ou clássico-narrativo. Considero teatro o que põe o aqui e agora em risco.

O ator é o coração do teatro?

DH – Não. Não sei se precisa de ator para ter teatro. Muito menos se o teatro tem coração.

Que ator você admira?

DH -  Vou citar quatro atrizes novas e do Rio: Marina Hodecker, Paula Lanziani, Giselle Sabattini e Clarisse Zarvos.

No seu livro, há um poema sobre felicidade: “Feliz, como se houvesse possibilidade. / Abraçada a alguém, o cigarro em seu pescoço, seria feliz: / saltos, verdes campos. (…)” O que é a felicidade? Que doença é essa que nos persegue?

DH – Felicidade é uma palavra que não me diz nada. Mas se você me perguntar o que me faz bem, respondo que costuma funcionar quando tenho tempo para parar, me sentar e olhar para uma árvore. Aqui ao lado, no jardim do Palácio do Catete, é um ótimo lugar para isso. Ou, no caso de não ter tempo para jardins, às vezes funciona simplesmente sentar no sofá da casa e olhar para a estante (risos). Mas tenho vontade de morar fora. De perceber concretamente que o mundo é maior do que “x” problemas. Porque as coisas se repetem muito e quando elas se repetem muito num mesmo lugar, fica cansativo. É preciso mudar o lugar. Mas não se trata necessariamente de questão geográfica, claro, senão teria de se virar nômade (risos).

Para escrever, você precisa de tranquilidade?

DH – Não preciso sofrer para escrever, mas o que escrevo precisa ser para mim um problema. Não me comove a literatura que não me apresenta problemas. De toda forma, definitivamente não escrevo jorrando. Reescrevo muito mais do que escrevo. Vejo o trabalho de escritor como sobretudo o de edição. E não sinto escrever como sofrido, mas como um alento.

O que você sente quando escreve?

DH – É como um jogo. Primeiro, mais aeróbico. Depois, mais racional, matemático.

Você acredita em deus?

DH – Não.

Por quê?

DH – Por que acreditar em Deus?

Em que você acredita? No acaso?

DH – Em que eu acredito? (pausa) Vou te dizer que essa é para mim uma questão. Mas me disseram, e acredito nisso, “descrentes não existem”.

Você acredita na arte? Na palavra?

DH – É… Deve ser…

Não quero induzir ninguém a acreditar em nada… (risos)

DH – E viva o amor! (risos)

Como é essa relação com a palavra?

DH – Não é à toa que o título do meu blog é Não proferir palavras em vão. É mais ou menos essa a minha relação. Por isso, não gosto de falar oralmente; não há tempo de reflexão (risos). Você sabe disso, porque pedi que fizéssemos essa entrevista por e-mail. Falar é um convite para muitas palavras em vão. Claro que daí você poderia me perguntar “mas quando não é em vão?”. E eu não saberia te responder.

O que é preciso para ser escritor?

DH – Ver. Todo o resto se exercita. Para ver é preciso coragem.

EDNEY SILVESTRE

MEMÓRIAS AFETIVAS

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 

 

Edney Silvestre é muito conhecido por sua dedicação ao jornalismo. Entre matérias e reportagens guardam-se muitas imagens antológicas, como, por exemplo, a visita do Papa João Paulo II a Cuba e a cobertura do 11 de Setembro. Agora, vale reservar um tempo para as histórias ficcionais do escritor Edney Silvestre, autor do romance Se eu fechar os olhos agora (Record).

“Tentei escrever o livro de várias formas. Eu não tinha entendido que são várias histórias reunidas numa única: um polaco que vem parar no Brasil na época da Primeira Guerra; uma mulher condenada a uma vida religiosa; uma menina arrogante que tem uma libido muito desenvolvida… Todas essas histórias giram em torno de Anita, mulher que aparece morta no primeiro capítulo. Eu não havia entendido porque não encontrava a voz narrativa.”

Depois de mais de quatorze anos pensando no esboço dessa história, Edney conseguiu desenvolver uma narrativa do romance a partir de uma frase: “Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos.”

Um cadáver de mulher é encontrado no meio do mato por meninos de doze anos. A história se passa numa pequena cidade da antiga zona do café fluminense, em abril de 1961 — assim como a cidade de Valença, onde autor morou os primeiros anos de vida: “A história se passa numa cidade que mistura a topografia de Tiradentes e de Valença. Fiquei até meus 15 anos lá. E Tiradentes tem uma mágica e um lado, ao que me parece, muito sombrio.”

Antes do romance, Edney Silvestre publicou outros livros, entre elesContestadores (entrevistas, Francis, 2003); Outros tempos (crônicas e memórias, Record, 2002) e Dias de cachorro louco (crônicas, Record, 1995). Apresentador do programa Espaço Aberto Literatura, na Globo News, o jornalista também exercita a paixão pela literatura através de diálogos com escritores como Antonio Lobo Antunes, Lygia Fagundes Telles, José Saramago, Milton Hatoum, João Ubaldo Ribeiro e Luiz Ruffato — referências para sua produção ficcional.

De onde vem esse interesse pelas letras? “Eu era uma criança doente, aos quatro anos eu não andava. Alguém me alfabetizou e me deu livros. Eu me apaixonei pelas histórias, era uma criança pobre que vivia numa cidade muito pequena. Havia uma biblioteca em Valença — hoje parece que funciona mal — que tinha todo tipo de livro que se possa imaginar”, relembra Edney.

A memória é elemento catalisador da narrativa do romance — e dessa entrevista.

“Escrevendo descobri que as pessoas ainda estão comigo.”

Você se sente mais confortável como entrevistador ou entrevistado?

Edney Silvestre – É muito mais fácil não responder nada, perguntar e ficar olhando. Mas eu tenho gostado muito de falar do livro, muito. Eu passei seis anos escrevendo, quase secretamente, pouca gente sabia. Falar sobre o livro, discutir, ouvir o que as pessoas têm a dizer sobre o romance e os personagens é muito enriquecedor. É outra visão que se dá dos personagens. Mostra também a minha relação afetiva com os personagens — quando falo sobre eles é como se falasse de pessoas.

Além do romance Se eu fechar os olhos agora (Record, 2009), você publicou livros de entrevistas e crônicas: Contestadores (entrevistas, Francis, 2003); Outros tempos (crônicas e memórias, Record, 2002) e Dias de cachorro louco (crônicas, Record, 1995). Por que a demora para estrear na ficção?

ES – Eu não conseguia escrever. Quem lia minhas crônicas acreditava, pela maneira que elas estavam escritas, que eu havia feito de uma tacada. Mas não era verdade, levava três ou quatro dias escrevendo. Eu sou lento, edito muito. Não sou José Saramago que se senta, digita e o que sai ele publica. Não tenho o talento do Saramago. Eu tinha a história, ela já estava na minha cabeça. Tinha feito um esboço, mas não conseguia o formato. Fiz um primeiro formato, mas não acontecia, não acontecia, não acontecia… Tentei escrever o livro de várias formas. Eu não tinha entendido que são várias histórias reunidas numa única: um polaco que vem parar no Brasil na época da Primeira Guerra; uma mulher condenada a uma vida religiosa; uma menina arrogante que tem uma libido muito desenvolvida… Todas essas histórias giram em torno de Anita, mulher que aparece morta no primeiro capítulo. Eu não havia entendido porque não encontrava a voz narrativa.

Você levou seis anos para publicar…

ES – Seis anos escrevendo. Essa história já existia antes, quatorze anos antes. Eu tinha medo, leio muito.

Você é muito crítico?

ES – Tenho que ler, não é? Quer dizer, todo mundo… (risos) Eu me perguntava: “Por que publicar?” É pretensioso falar: “Acho que faz diferença.” Acho. Ninguém escreveu sobre aquela região da forma que escrevi; os anos 1960 em geral são abordados de uma forma Anos Dourados, ou se fala após o Golpe Militar, a Bossa Nova… Não é nada disso, não é verdade. É verdade para quem viveu uma situação muito protegida. Para quem viveu no interior não era assim, não.

Gostaria de entender o quanto de Valença tem neste livro.

ES – A cidade do livro tem uma topografia… A topografia de Valença está presente no livro, mas está muito misturada com Tiradentes.

Por quê?

ES – Gosto de Tiradentes, acho que a cidade tem uma atmosfera também sombria, com aquelas montanhas em volta. Quando eu imaginava a história, imaginava as madrugadas. Quando os personagens caminham, eles caminham por Valença e, em alguns momentos, por Tiradentes. A história se passa numa cidade que mistura a topografia de Tiradentes e de Valença. Em Valença porque foi muito do que vivi, fiquei até meus quinze anos lá. E Tiradentes tem uma mágica e um lado, ao que me parece, muito sombrio. Muitos momentos da trama parecem se passar em Tiradentes.

Valença contribui de que forma para seu trabalho de escritor e jornalista? Você é capaz de identificar?

ES – Valença é cenário de um grande livro do século XX: A crônica da casa assassinada (Civilização Brasileira, 1999. A primeira edição é de 1973), de Lúcio Cardoso. Meus anos de formação foram lá. Não nasci em Valença, mas tinha meses quando cheguei à cidade. Os barões de café levaram o Brasil a Valença. Lá tem uma catedral de 1800, gigantesca, muito bonita. Umas das demonstrações do poderio dos barões de café. Próximo a Valença, em Santa Clara, tem uma fazenda com terras de má qualidade. Então, não cultivavam café nem cana, era uma fazenda de criação de escravos. Toda a parte da senzala — veja que coisa perversa — tem as janelas pintadas para que o aspecto estético continue muito bonito, mas era toda fechada. Tudo isso se reflete na história.

Você é um jornalista respeitado que apresenta diversos quadros na televisão, inclusive um programa onde entrevista escritores. Como é sua relação com o tempo e atividade literária?

ES – Eu escrevo em aviões, de madrugada, no fim de semana, quando espero… Eu escrevo no tempo em que não trabalho como jornalista. No começo, há seis anos, me incomodava. Mas depois que encontrei a voz (narrativa), a qualquer momento eu voltava para a história. Eu faço em ordem, há autores que conseguem escrever o 13º capítulo seguido do 58º…

Há alguns anos você se dedica a entrevistar escritores no programaEspaço Aberto Literatura, na Globo News. Quais são os autores você tem como referência?

ES – Isso é fácil, começo com (José) Saramago. Fico impressionado como Saramago consegue construir da maneira que ele constrói. Eu gosto das construções do Milton Hatoum, ele vai descendo até chegar ao clímax. Gosto muito do Luiz Ruffato. Há muitos outros, mas cito esses três… Agora me veio a imagem do João Ubaldo (Ribeiro), ele tem uma dança com a língua, escreve de tal forma que você se sente bailando. Fico encantado, adoro ler.

De onde vem o amor pela literatura?

ES – Eu era uma criança doente, aos quatro anos não andava. Alguém me alfabetizou e me deu livros. Eu me apaixonei pelas histórias, era uma criança pobre que vivia numa cidade muito pequena. Havia uma biblioteca em Valença — hoje parece que funciona mal — que tinha todo tipo de livro que se possa imaginar.

Lembra de algum livro que tenha marcado sua infância?

ES – Claro. Lembro de David Copperfield, que eu lia escondido. Às vezes, chegava certa hora da noite que meus pais me obrigavam a apagar a luz. Mas eu acendia o abajur e ficava lendo escondido. E lia Tarzan, adorava história em quadrinhos. Gosto até hoje de quadrinhos. O Garfield era interessante no começo. Eu também adorava o Calvin, mas o criador desistiu dele. Fiquei com pena…

Você declarou numa entrevista que “a ficção trouxe a compreensão do poder da memória”. Fale mais a respeito.

ES – Ao sair de Valença, perdi muitos amigos. Depois perdi por overdose, Aids, câncer e, muitos, por acidente de moto, carro… Acho que todos nós. Quando me mudei para os Estados Unidos, perdi o contato com meus amigos, alguns, realmente, eu perdi. Quando me mudei de volta perdi os amigos que tinha lá. Escrevendo, descobri que as pessoas ainda estão comigo. Escrevendo, se lembrando delas, as pessoas estão com você. Isso me deu um grande alívio. Até porque, alguns anos antes, eu perdi amigos muito queridos e muito próximos e foi muito doloroso e muito triste. Foi um período muito triste para o Brasil. Nada nesse país é o que parece. Fiquei muito triste, pelas perdas pessoais e de sonho: percebi que não vou ver o país que sonhei. Mas posso continuar a sonhar. De repente, daqui a 50 ou 100 anos, teremos um país melhor.

Você é otimista em relação à política brasileira?

ES – Estamos aprendendo, duramente, dolorosamente. Estou cético, não tenho esperança em pessoas. Tenho esperança em nós, cidadãos. Quando era jovem, achava que tudo ia acontecer em 20 ou 30 anos, mas não. Só daqui a 100 anos. E mesmo que eu viva até os 90 anos, não vai dar tempo.

O que você diria a um jovem autor?

ES – Eu recebi um conselho da minha primeira professora, Odete Coutinho da Silveira: Leia. Leia. Eu diria isso: leia. É bom ler, a gente aprende e viaja.

TICO SANTA CRUZ

POETA COM VEIAS POLÍTICAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

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Tico Santa Cruz é conhecido através das músicas dos Detonautas ou por sua atuação política em manifestações contra a violência e impunidade junto à Ong Voluntários da Pátria. Poucos sabem que por trás das tatuagens, dos piercings e da insatisfação do músico está um poeta sensível e angustiado. Não, ele não está lançando nenhum livro (ainda), mas a cada dia mais se envolve entre as palavras.

O que ele pretende com protestos?

“Não espero nada… Na verdade, espero que pelo menos uma pessoa pare diante dessa mobilização e questione. O povo brasileiro aceita muitas coisas sem questionar. Se tocar uma pessoa, estou satisfeito. O que estamos tentando plantar é o questionamento.’’, e continua:

“Não tenho rabo preso com ninguém. Vejo que a nossa política ainda está muito poluída, e para despoluir é um processo lento. Estou do lado oposto, do lado da contestação. Isso não quer dizer que, daqui a 20 ou 40 anos, não cogite a possibilidade de me tornar político. Mas, neste momento, não penso nisso de forma alguma”, declara o músico que tem Raul Seixas, Cazuza e Renato Russo como ícones.

Há um ano, conheci o Tico no Corujão Poético – Universo da Leitura, um encontro de poetas que acontece durante as madrugadas na Livraria Letras e Expressões, no Leblon. E foi nesse mesmo lugar que conversei com o músico-poeta, que toda semana bate ponto no evento de plateia cativa: atores, músicos, poetas, professores e boêmios apaixonados por literatura.

“Gosto de poesia marginal, não gosto tanto de coisas muito clássicas. Embora, outro dia, eu tenha descoberto o Drummond e me encantado. Antes falavam em Drummond e eu lembrava daquela coisa chata, quando você está na escola e é obrigado a ler. Foi assistindo a um documentário sobre o poeta que desfiz essa imagem”.

O papo rápido, nos corredores da livraria e durante a falação poética, foi muito produtivo. Em pouco mais de dez minutos Tico falou de política, literatura, música e processo criativo. A cada poesia falada, ele se comportava como um adolescente embevecido.

Gostaria que você começasse falando sobre a sua atuação política, sobre as manifestações contra a violência, impunidade, corrupção…

Tico Santa Cruz – Na verdade, fazemos um movimento simbólico. Por não contarmos com o apoio popular de massa, resolvemos fazer ações como a do Greenpeace: atuamos para gerar a reflexão, fazemos o protesto e pessoas pensam… Nesta quarta-feira, dia 25 de abril, vamos fazer uma manifestação dos fantasmas, nas escadarias da ALERJ, representando a sociedade fantasma: a justiça fantasma, os funcionários fantasmas, os políticos fantasmas, o STJ fantasma… Tudo o que é fantasma no Brasil, que nós pensamos que existe, mas não conseguimos ver além da imaginação. É isso o que queremos representar.

E o que você espera com esses protestos?

TSC – Não espero nada…Na verdade, espero que pelo menos uma pessoa pare diante dessa mobilização e questione. O povo brasileiro aceita muitas coisas sem questionar. Se tocar uma pessoa, estou satisfeito. O que estamos tentando plantar é o questionamento.

Na rua, há rumores de que o Tico Santa Cruz quer se tornar político. Isso é verdade?

TSC – Não. Quem falou isso? Não, não… (Risos.) Não tenho rabo preso com ninguém. Vejo que a nossa política ainda está muito poluída, e para despoluir é um processo lento. Estou do lado oposto, do lado da contestação. Isso não quer dizer que, daqui a 20 ou 40 anos, não cogite essa possibilidade. Mas, neste momento, não penso nisso de forma alguma. Até porque, se me colocar à frente de um partido político, limitarei o que quero falar; quero poder me expressar livremente!

Você é músico e um grande simpatizante de poesia. Como funciona essa relação da música com a literatura?

TSC – Isso tudo é muito novo para mim. Comecei a ler e a me dedicar à literatura realmente de uns 5, 6 anos para cá. Até os meus 23 anos, que foi quando o meu filho nasceu, descobri que eu tinha o hábito de ler. Mas nessa época não era algo frenético como é hoje, que leio muito e escrevo.

O que chegou primeiro, a música ou a literatura?

TSC – A música chegou primeiro! A música veio para mim de uma forma diferente;por meio da sonoridade e não da letra em si. Na música, gosto de fonemas e não necessariamente da palavra como significado poético. E, hoje em dia, o que tento fazer no meu trabalho é fonemas com a poesia. Isso é um trabalho difícil – as pessoas pensam que é porque é uma melodia popular –, realizar um trabalho bonito, bem escrito, é complicado. Estou começando a aprender agora.

E como funciona o seu processo criativo?

TSC – Sou meio livre. Não tenho uma regra, não me condiciono a nada. Aparece e vem… O novo CD do Detonautas – O Retorno de Saturno – que estamos produzindo, por exemplo, foi assim: viajei para Trancoso; lá foram batendo várias inspirações e assim surgiram sete músicas. Para mim, isso é uma riqueza espiritual. Não sigo uma regra, mas, quando aparece, estou atento. Meu celular tem um gravadorzinho, com que gravo tudo, qualquer ideia.

Há pouco tempo você declarou numa entrevista que é um eterno angustiado. Você só escreve quando está neste estado?

TSC – Ah, normalmente sou angustiado, então costumo escrever angustiado. Mas aprendi a lidar com essa angústia de forma positiva, entendendo que ela faz parte da minha natureza e que tenho de aprender a lidar com isso.

Quais são as suas maiores influências, seja na música ou na literatura.

TSC – Na música, posso citar três pessoas com quem me identifico imediatamente; grandes ícones para mim: Raul Seixas, Cazuza e Renato Russo. Três caras que eu miro, é onde miro. Três músicos que reverencio. Já na literatura, gosto muito de ler filosofia. Dois autores são meus mestres filosóficos: um é Osho e o outro é André Comte-Sponville – um autor contemporâneo, que escreveu Bom DiaAngústiaFelicidade DesesperadamenteO Pequeno Tratado das Grandes virtudes… E gosto muito do Irvin D. Yalom, que escreveu Quando Nietszche Chorou e A Cura de Schopenhauer. Gosto dessas leituras que misturam psicanálise e trabalho da mente. Poesia leio pouco, mas há um tempo peguei Florbela Espanca, que é incrível. Gosto também de poesia marginal, não gosto tanto de coisas muito clássicas. Embora, outro dia, eu tenha descoberto o Drummond e me encantado. Antes falavam em Drummond e eu lembrava daquela coisa chata, quando você está na escola e é obrigado a ler. Foi assistindo a um documentário sobre o poeta que desfiz essa imagem. Tem Mário de Sá-Carneiro, um poeta português contemporâneo do Fernando Pessoa, de quem gosto bastante.

E os autores contemporâneos?

TSC – Tem uma galera que conheci no Corujão Poético, no Leblon: o Tavinho Paes, Leprevost, Igor Cotrim, Gean Queiroz… Todas essas pessoas que conheci, com quem convivo e cujo trabalho admiro.

Esse evento – Corujão Poético – da Letras e Expressões é o primeiro movimento poético de que participa?

TSC – Sim, foi onde comecei. E o vi acontecer numa época em que não era tão grandioso; era uma coisa muito sublime, voltada para poucas pessoas. Era impressionante, parecia a época do Tom e do Vinícius, a galera de chapeuzinho… Eu me perguntava se era verdade mesmo. É muito bom ver pessoas interessantes, falando coisas boas. E aí comecei a frequentar e isso foi mudando minha vida.

Você tem vontade de publicar um livro?

TSC – Sim, tenho vontade. Tenho um blog, Clube da Insônia, em que escrevo muito, desde 2004. Não tenho pretensão de lançá-lo agora não, ainda quero adquirir mais bagagem, mais carga para poder usar isso como literatura e não só como forma de expressão.

Que recado deixaria para jovens autores e jovens músicos que estão por aí?

TSC – Ah, isso é engraçado… Sei lá! Eu diria “experimente!”. Experimentar é tudo, a transformação vem da experimentação.

ELIAS COSTA

POLICIAL-POETA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

 eliascosta

 

Eu estava no Dizer Poesia do Bairro Peixoto, no (extinto) Café Vommaro, em Copacabana, quando um homem pediu para ler alguns poemas do seu livro Intérprete do Mal. Timidamente, disse seu nome: Elias Costa. Em seguida, com um sotaque que denunciava sua origem – Goiânia – explicou que era a primeira vez que pisava no Rio de Janeiro. E declarou ainda que, além de poeta, era policial militar.

“(…) sou 1º tenente da Polícia Militar do Distrito Federal. Fico lotado no 3º Batalhão, que compreende a maior área de Brasília: Asa Norte, Lago Norte, Varjão, Granja do Torto, Vila Planalto, Colorado, Setor Militar Urbano e as demais áreas. Há muitas comunidades problemáticas com características bastante parecidas com as das favelas do Rio de Janeiro”.

As pessoas fizeram silêncio para ouvir as poesias de cunho social, religioso e sexual. Elias esboçou um sorriso e fez outra revelação: ”é a primeira vez que falo minhas poesias”. Ele mora e trabalha em Brasília, mas sente-se desconfortável em recitar para os colegas da cidade.

“Por inveja ou ignorância, não sei explicar, as pessoas me olhavam com os olhos diferentes. Alguns não compreendiam o fato de ser polícia e fazer poesia. Isso me prejudicou em determinado momento. Havia muito preconceito, sofri. Mas acabei vencendo e conquistando espaço”, afirma o autor dos livros Sonhos de um Bruxo,Flor na TempestadeA Águia Escarlate e O Intérprete do Mal.

No fim do evento, resolvi marcar uma conversa com o poeta na Livraria Argumento, no falecido Café Severino, na Barata Ribeiro. À paisana, ele contou como mistura a paixão pela poesia com a brutalidade do ofício militar.

É raro, mas existe ”policial-poeta”.

Você é poeta e policial?

Elias Costa – Sim. Além de poeta, sou 1º tenente da Polícia Militar do Distrito Federal. Fico lotado no 3º Batalhão, que compreende a maior área de Brasília: Asa Norte, Lago Norte, Varjão, Granja do Torto, Vila Planalto, Colorado, Setor Militar Urbano e as demais áreas. Há muitas comunidades problemáticas com características bastante parecidas com as das favelas do Rio de Janeiro.

Joaquim Elias Costa Paulino?

EC – Sim, sou eu. Mas na poesia uso Elias Costa.

Você trabalha em Brasília, mas nasceu em Goiânia?

EC – Exatamente. Nasci em Goiânia e resido no Distrito Federal há cerca de 16 anos. Decidi ir a Brasília para estudar no Colégio Militar. Depois prestei vestibular para Direito na UnB e para o Curso Superior de Segurança Pública. Passei nos dois, mas fiquei com a Segurança Pública, que forma os oficiais da Polícia Militar do DF.

Você já conhecia o Rio de Janeiro?

EC – Não, é a primeira vez que visito o Rio. Fiz questão de conhecer os morros de Copacabana. Fui, à paisana, em dois morros de que não lembro o nome. Lá em cima, se alguém me perguntasse, diria que sou poeta (risos). O Rio é lindo.

Como foi sua infância?

EC – Eu era muito curioso, destoei das crianças que residiam perto da minha família. Naquele tempo, não tínhamos televisão, então busquei entretenimento fora de casa. Foi ótimo o ensinamento do meu pai. Porque não fiquei bitolado pela mídia. Fui para o mundo conhecer a vida, observar o cotidiano das pessoas. Passei a buscar assunto nos livros. Gosto muito de ler: (William) Blake, Victor Hugo, Baudelaire, Omar Caian… Uma literatura variada. Não senti falta da TV, me acostumei. Meu pai gostava muito de música clássica e música francesa, era tudo diferente lá em casa. Só aos 19 anos comprei uma televisão, mas até hoje assisto pouco. Vi muito desenho do Pica-Pau e Pato Donald (risos). Lá em casa há duas televisões grandes, mas quase não assisto. Moro numa chácara no lado Norte de Brasília, prefiro dedicar meu tempo às plantas.

Quando você começou a despertar para a escrita?

EC – Escrevo desde os 14 anos de idade. Mas aos 19 anos surgiu o desejo de publicar, eu já tinha cento e poucas poesias. Nessa época, eu já era cadete da Polícia Militar. Então, um escritor goiano chamado José Mendonça Telles teve acesso às minhas poesias. Foi através dele que publiquei meu primeiro livro, Sonhos de um Bruxo, com uma tiragem de mil exemplares.

O que você lê?

EC – Gosto de autores clássicos da literatura brasileira. Meu primeiro contato com a poesia brasileira foi na infância, meu pai tinha muitos livros: Augusto dos Anjos, Alvarez de Azevedo, Vinícius de Moraes, Mário Quintana… Li e leio todos eles. E acompanho os autores de Goiânia: Gilberto Mendonça Telles, Anderson Braga Horta, Fernando Mendes Vianna, José Jeronymo Rivera, José Mendonça Telles…

Você gosta de falar poesia?

EC – Aqui no Rio foi a primeira vez que falei minhas poesias. Em Brasília, fico muito acanhado.

O que sua família pensa sobre o poeta Elias Costa?

EC – Meu pai acha bacana. Ele também escreve algumas poesias. Coloquei uma poesia dele no meu livro Intérprete do Mal.

Seus colegas policiais têm preconceito contra sua atividade poética?

EC – No começo, tive um pouco de dificuldade. Por inveja ou ignorância, não sei explicar, as pessoas me olhavam com os olhos diferentes. Alguns não compreendiam o fato de ser polícia e fazer poesia. Isso me prejudicou em determinado momento. Havia muito preconceito, sofri. Mas acabei vencendo e conquistando espaço. Tenho quatro livros publicados: Sonhos de um BruxoFlor na TempestadeA Águia Escarlate e O Intérprete do Mal. Hoje é diferente.

Por que você optou pela carreira militar?

EC – Não foi uma questão de escolha, mas de circunstância. Em Brasília, o policial militar ganha muito bem. E também porque sou muito apegado à questão da justiça. Trabalho na área operacional, na rua. Já troquei muito tiro.

Há militares em sua família?

EC – Só meu pai, que é do Exército. Ele entrou como soldado e chegou ao posto de capitão. Eu entrei como cadete e, se eu permanecer, posso chegar a coronel – o posto mais alto da Polícia Militar.

De que maneira o trabalho militar influencia sua produção poética?

EC – Acredito que é um trabalho muito enriquecedor para minha poesia. Porque situações conflituosas e revoltantes me fazem escrever.

Você consegue enxergar poesia nesse trabalho?

EC – Sim. A vida em todos os aspectos é poesia. Até mesmo da situação ruim eu consigo tirar um poema.

Como é seu processo de criação?

EC – Não há regra. Pelo menos na poesia, não é? (Risos.) Gosto de escrever sobre a alma humana. Minha poesia também aborda muito o aspecto social. Tento tirar a brutalidade da minha poesia. Gostar de falar do sublime que há na mulher.

Você pode ler um poema?

EC – Sim. Vou ler o “O suicida”:

A caminho do sepulcro, sobre um parapeito

O homem decide o seu tempo

E pensa encontrando seu leito.

Um atordoado olhar no vale do nada

Uma amargura infinda

Uma palavra não encontrada.

Decidido em destino imperfeito,

Premeditado à luz da madrugada

O homem se rende aos caprichos do mal

O grito engasga, o olhar enlouquece,

Um coração se confunde; um corpo já desce

Rumo ao funeral.

Arrependido no meio da estrada

O irreversível suicida observa sua vida

Num intervalo de uma gota d’água.

Em breve ânsia de não despedida

Arrependido no meio da estrada,

O suicida percebe que o inferno

É a sua próxima morada.

E tudo gira em um só momento

No curto flash do seu último lamento

E frente a frente com a única verdade

Ele grita: Deus, Deus, tende piedade.

Fale sobre essa poesia.

EC – Fiz essa poesia depois que atendi a um chamado no trabalho: um senhor havia pulado de uma ponte, no Lago Sul. Quando cheguei perto, vi que seus pulsos estavam quebrados, como se quisesse segurar a queda…

Você acredita em Deus?

EC – Sou cristão. Mas não sou religioso. Gosto de ler a Bíblia. E ler sobre outras religiões.

O que é Deus?

EC – Deus é Deus. Não sei definir. Sinto que está além de mim. Ninguém compreende o que é Deus. Sei o que é vida, amor e solidariedade. E o mais importante na minha vida é Deus. Acho que nem todo mundo vai entender, mas eu entendo… (Risos.)

Por que escrever poesia?

EC – Eu não gostava de escrever poesia. Tinha raiva, mas não conseguia parar de escrever. Minha poesia é meu grito de amor e revolta. Não há jeito.

O que você diria para um jovem que deseja ser poeta?

EC – Nunca desista. Leia, muito. E tenha cuidado com a arte, pois ela pode mudar a sua vida.

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