TONY BELLOTTO

EM HARMONIA COM A LITERATURA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

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Depois de ter lido Bellini e a Esfinge e Os Insones, respectivamente, o primeiro e o último livro de Tony Bellotto, fiquei com vontade de conversar com o escritor. O encontro ocorreu no seu escritório, em Ipanema, no Rio de Janeiro, na companhia de Guga – o cão de estimação da sua esposa, a atriz Malu Mader.

A cada pergunta, as mãos de Tony se movimentavam e, muitas vezes, seu olhar ficava distante, como se estivesse, imediatamente, buscando palavras para organizar um pensamento. É possível perceber que a dedicação e a disciplina utilizadas para construir sua carreira na banda de rock Titãs têm sido a base do seu trabalho como escritor.

“No início da minha carreira com os Titãs, dos vinte aos trinta anos, eu não escrevia, só fazia poucas anotações com projeto de contos. Assim apareceu o Bellini, que era um personagem jovem com as características do detetive que existe hoje. Mas só a partir dos 30 anos que levei a sério”.

Com um especial gosto pelo gênero policial, Tony Belloto lançou três romances com o detetive Bellini: Bellini e a Esfinge (1995), Bellini e os Demônio (1997) eBellini e os Espíritos (2005). Também escreveu BR163: Duas histórias na estrada (2001), O Livro do Guitarrista (2001).

“Eu sempre gostei de literatura policial, mas gostava de outras literaturas também. O meu escritor favorito era o Hemingway, que não tem nada de escritor policial. Mas quando comecei a escrever, estava muito envolvido pela literatura policial. Talvez por ter percebido, intuitivamente, que eu conseguiria começar a escrever por aquele caminho. Acredito que, por causa da estrutura, a trama facilita, quando se vai começar a escrever”.

No entanto, com o lançamento de Os Insones (Cia. das Letras), o autor se afastou, temporariamente, de Bellini para apresentar a crônica de uma sociedade permeada pela violência.

Como é sua relação com a música e a literatura?

Tony Bellotto – Na verdade, o interesse por música surgiu aos 10/12 anos, um pouquinho antes dos livros. Mas desde cedo eu já lia muito, a adolescência foi cercada por livros. Assim como a figura do guitarrista me fascinava, a figura do escritor me despertava também. Quando fiz uns 18/19 anos, a música me absorveu. Cheguei a entrar na faculdade de arquitetura, mas frequentava pouco porque minha atenção estava orientada para a música. Então, a ideia de escrever foi adiada. Mas sempre li muito, nunca parei de ler.

O que você lê?

TB – Na juventude, os escritores americanos tinham um espaço muito grande. Hemingway, por exemplo, é um escritor que sempre foi uma grande referencia. Quando comecei a ter desejo pela literatura, no fim dos anos 70, eu descobri uma geração de escritores brasileiros: Sérgio Sant’Anna, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, João Antonio, Domingos Pellegrini Jr… Li os clássicos brasileiros: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos… Dos contemporâneos, acompanho o trabalho da Patrícia Melo, Marçal de Aquino, Marcelo Mirisola, Bernardo Carvalho, Milton Hatoun, Marcelino Freire… Mas se eu precisasse dizer uma escola, diria que a literatura americana me influenciou mais do que a brasileira.

Você escrevia na adolescência?

TB – Sim, escrevi muitos contos. Havia uma revista, chamada Escrita, que eu lia muito. Cheguei a participar de um concurso dessa revista com uma novela complicada, inspirada no realismo mágico de Garcia Márquez (risos) Não era algo muito consistente, então parei de escrever. No início da minha carreira com os Titãs, dos vinte aos trinta anos, eu não escrevia, só fazia poucas anotações com projeto de contos. Assim apareceu o Bellini, que era um personagem jovem com as características do detetive que existe hoje. Mas só a partir dos 30 anos que levei a sério.

O Bellini amadureceu…

TB – (Risos.) Sim, amadureceu! Sempre achei que para escrever – e você sabe muito bem disso – precisamos de disciplina, tranquilidade, concentração e dedicação. Eu não tinha essa paz, só quando casei com a Malu é que consegui me dedicar à escrita.

Você já declarou que sua primeira leitora é a Malu Mader. Há mais alguém em quem você busca uma opinião sobre seu texto?

TB – Sim. Até Os Insones eu fazia um ritual, entregando o livro para Malu, meu pai, Rogério – primo da Malu – e Patrícia Melo. Depois do último livro eu achei que já estava crescido (risos). Acho importante essa leitura crítica. Acredito que ficamos tão evolvidos com o livro que, às vezes, não conseguimos enxergar alguma coisa. E no gênero com que trabalho, o suspense, é necessário testar se funciona com o leitor.

Seus filhos gostam de literatura? Já leram seus livros?

TB – Não, eles são muito pequenos ainda. O meu filho mais novo, o Antônio, que tem 11 anos, escreve. Às vezes, eu o encontro concentrado no computador e ele diz que está escrevendo um livro. Eles acabam participando dos acontecimentos, respiram um pouco o ambiente. O João sabe tudo sobre jornalismo esportivo (Risos.).

Como é seu processo de criação?

TB – Varia muito. Quando começo a pensar em uma história, tento não me aprofundar muito. Abro um arquivo no computador e jogo ideias para que possam amadurecer. Permito, inicialmente, que o próprio processo mental filtre o que vale a pena ficar. A partir de um momento as ideias não cabem mais na cabeça, aí começo a sentar e escrever.

Há diferença entre o processo da música e da literatura?

TB – O processo é diferente, pois são formas muito distintas de criar. No romance é sempre um processo de longo prazo, com muitas palavras. Quando escrevo um livro, trabalho com uma continuidade e um fluxo de narrativa que são mais importantes que cada palavra em si. Na música, quando componho, o processo é mais próximo da poesia. O processo de escrever é prazeroso, mas há sofrimento e muitas dúvidas.

Você sente preconceito pelo fato de você ser músico e escritor?

TB – Sinto, sim. Mas é engraçado, porque no Brasil a maioria dos escritores tem um trabalho paralelo. Todo escritor faz outra coisa, mas acho que existe um preconceito maior quando você tem destaque em outro tipo de arte. Há quem considere a literatura uma arte muito nobre, na qual um músico de rock não pode entrar. Música e literatura para mim funcionam de uma maneira orgânica, uma coisa não atrapalha a outra.

Por que o gênero policial?

TB – É algo que penso muito. “Por que optei por isso?” Eu sempre gostei de literatura policial, mas gostava de outras literaturas também. O meu escritor favorito era o Hemingway, que não tem nada de escritor policial. Mas quando comecei a escrever, estava muito envolvido pela literatura policial. Talvez por ter percebido, intuitivamente, que eu conseguiria começar a escrever por aquele caminho. Acredito que, por causa da estrutura, a trama facilita, quando se vai começar a escrever.

Você sente vontade de matar o Bellini?

TB – (Risos.) Não dá para saber direito. Tenho vontade de escrever uma história dele, então vou lá e faço. Mas desde que terminei Bellini e os Espíritos que não sinto o desejo. É engraçado, mas ele já tem vida própria.

O detetive Bellini é diferente de outros detetives que conheço. Ele tem a vida amorosa bem conturbada e é bem sensível…

TB – Quando eu decidi fazer o Bellini, o personagem já existia muito antes do detetive. Então coloco muitas reflexões minhas no personagem.

Você ficou satisfeito com adaptação do Bellini e a Esfinge para o cinema?

TB – Fico satisfeito porque parto da premissa que o filme muda muito o livro. Os roteiristas adoram mudar, é impressionante. Não dá para jogar a literatura no cinema, acho natural a adaptação. Agora, o Bellini e os Demônios está sendo filmado pelo Marcelo Galvão. Mas eu sempre prefiro o livro.

Se você tivesse que escolher um dos Bellinis, qual seria o eleito?

TB – É difícil. É como escolher o filho preferido. Eu tenho um carinho muito grande pelo Bellini e a Esfinge por ser o primeiro. Mas, atualmente, gosto muito do Os Insones que sai um pouco dessa forma da literatura policial.

Os Insones  aborda muito o aspecto social. Por que o interesse?

TB – Sim está mais ligado ao Brasil atual. Foi uma necessidade de falar um pouco desse assunto. No Rio de Janeiro, principalmente, a diferença social é muito gritante, mexe comigo.

Você dedicou o último livro ao seu amigo Marcelo Fromer…

TB – Sim, dedico o livro ao Marcelo, ainda penso muito nele. É absurdo ele ter morrido. Quando morre um amigo você sente muito intensamente mas depois vai se acostumando. Foi uma maneira de cultuar a lembrança dele, uma homenagem.

Você apresenta o Afiando a Língua, um programa no Canal Futura sobre literatura e música.

TB – Faz uns seis anos que Hugo Barreto me convidou para o programa. Nesta nova temporada vamos focar em bandas novas. Pegamos uma música inédita e relacionamos com a língua portuguesa e a literatura.

O Titãs começou em 1982, está fazendo 26 anos. Como é tocar por tanto tempo com o mesmo grupo de pessoas?

TB – É incrível! Criamos uma banda na juventude, fez muito sucesso, e estamos chegando aos cinquenta anos de idade. Mas o espírito é o mesmo, parece que estamos tocando há 20 anos. É um prazer muito grande, que se renova com a permanência na música. Estar na estrada tocando é a razão de uma banda de rock. Nossa luta consiste em não nos tornarmos uma caricatura de nós mesmos. Vimos o vinil morrer e agora estamos vendo o CD ir embora.

Qual a sua relação com o download de música?

TB – Sou muito antiquado, ainda tenho uma relação de comprar CD. Eventualmente eu baixo música, mas não tenho o hábito como os meus filhos têm. Eu me sinto meio ultrapassado, pois tenho uma relação de afetividade com o objeto. Estamos num caminho de transição.

Que músicas você ouve?

TB – Ouço cada vez menos coisas novas, com o passar dos anos estou ouvindo mais as bandas de que gosto (risos). Mas há uma banda de Brasília de que gosto: Móveis Coloniais de Acaju – eles são geniais. Há uma banda que acabou de que também gosto: Lasciva Lula. Gosto do Marcelo D2 e sua união do rap com o samba. Tem o Cordel do Fogo Encantado, que também é genial.

O que você diria aos jovens que desejam se dedicar à música e/ou à literatura?

TB – Dedique-se profundamente a produzir e a encontrar uma voz própria. Tocando ou escrevendo é necessário encontrar uma personalidade naquilo que se faz. E não desista quando as coisas parecerem difíceis, é preciso superar essa fase. Sempre se chega a algum lugar se houver disciplina e perseverança.

CRISTOVÃO TEZZA

RINDO À TOA

Por Ramon Nunes Mello e Bruno Dorigatti [SaraivaConteúdo – 2009]

   

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Entre risos e gargalhadas, Cristovão Tezza falou sobre seu ofício literário, que começou nos anos 1980, em Curitiba, cidade que o catarinense de Lages habita desde os 7, 8 anos, quando perdeu o pai. De um mundo de “paisagem do Cebolinha” à uma cidade fria (no clima e nas pessoas), que não tem Carnaval, como ele mesmo define, aos poucos, foi criando relação com ela, se entranhando no seu jeito curitibano. Em 1988, foi publicadoTrapo, pela editora Brasiliense, livro que abriu espaço para o escritor e conta com um curioso posfácio de Paulo Leminski, “que praticamente convida o leitor a não ler aquele livro. Felizmente, é no fim, daí você já leu”, como nos conta Tezza nessa conversa.

O escritor ficou conhecido nacionalmente no ano passado, quando O filho eterno(Record, 2007) arrebatou os prêmios mais importantes do país — o Prêmio São Paulo de Literatura, o Portugal Telecom de Literatura, o Jabuti, o Prêmio Bravo!, e o da Associação Paulista dos Críticos de Arte. Desde então, tem tido pouco tempo para se dedicar ao novo romance, que tem o título provisório de Um erro emocional e teve um trecho lido durante a última Festa Literária Internacional de Paraty (veja ao final da entrevista), onde Tezza participou da mesa ao lado do mexicano Mario Bellatin. “Mas eu preciso de tempo para me concentrar, agora no segundo semestre de 2009 realmente vou conseguir escrever. Faz um ano que estou vivendo só de fama (risos). Escrever que é bom, nada”, admite.

Recentemente, Tezza viu-se enredado na polêmica questão dos livros indicados a estudantes. A história que começou com um álbum de quadrinhos, indicados para crianças, quando continha conteúdo para adolescentes, por conta do baixo calão e de termos obscenos, seguiu com uma coletânea de poesia e um livro do poeta Manoel de Barros, também com a indicação equivocada de faixa etária. Até aí, tudo bem, uma questão de idade, já que crianças não estão em tempo de lidar com certos temas. A coisa modifica-se, porém, quando se trata de adolescentes a partir de quinze anos, que já têm discernimento para lidar com temas e linguagens mais ásperas, digamos.

Foi o que aconteceu com a graphic novel de Will Eisner, Um contrato com Deus e outras histórias de cortiço (Devir, 2007), acusada de apresentar cenas de violência doméstica e insinuações de pedofilia, no áspero e brutal retrato que Eisner faz da Nova York dos anos 1930, na rebarba da crise de 1929, supostamente impróprias para jovens. E com o romance de Tezza, Aventuras provisórias(Record, 2007, 2ª ed.), indicado para o vestibular em Santa Catarina, mas considerado por uma auxiliar pedagógica de ter linguagem chula, discurso logo encabeçado por alguns pais de alunos. Em entrevista à Agência Brasil, Tezza disse que “a escola tem muita dificuldade em lidar com literatura, com a vida real da linguagem. O Brasil é um país conservador. O caso de Santa Catarina chamou a atenção porque foi uma reclamação pontual e o Estado imediatamente mandou recolher todos os exemplares. Foi uma coisa exagerada. Até porque o livro era para o ensino médio, que tem estudantes acima dos 16 anos. Se podem dirigir ou votar, podem ler também”. O escritor não vê o caso como censura. “São manifestações isoladas de conservadorismo, visões retrógradas da literatura, que pipocam aqui e ali. Não é sistêmico”, acredita. A respeito escreveu a coluna “Não me adotem”, na Gazeta do Povo, de Curitiba, onde colabora toda terça-feira.

A seguir, na entrevista realizada em Paraty, durante a Flip, o escritor fala ainda de outros assuntos, como o seu começo no teatro, como iluminador de Denise Stoklos e depois como ator, a relação com o leitor, que, enfim, se fez presente para Tezza, quando passou a escrever para jornal, e a necessidade de inadequação para se levar a sério neste ofício.

Curitiba é muito presente nos seus livros. Como é essa relação da cidade na sua literatura?

Cristovão Tezza – Dois motivos: Curitiba é uma cidade bastante diferente no panorama brasileiro. Eu cheguei à cidade em estado de choque porque meu pai tinha morrido — eu tinha sete, oito anos. Saí do mundo da “paisagem do Cebolinha”: aquelas casas na rua e amigos, e de repente fui morar em Curitiba, em 1961. Uma cidade fria, que eu não conhecia ninguém. Então foi um impacto a chegada a Curitiba desde criança. E depois você vai entranhando naquele jeito curitibano, para dar uma definição: uma cidade que não tem Carnaval [risos]. Você vai criando uma certa relação com a cidade. E por ela eu também fui descobrindo um registro da minha literatura. Eu lembro quando escrevi o Trapo, em 82, foi a primeira vez que comecei a usar a cidade como espaço geográfico, como cartografia, dar nome de rua, dar nome de espaço. Era coisa que me intimidava antes, criar esse vínculo com uma microrrealidade. Isso acabou me dando uma dimensão para meu tipo de texto que trabalha com esse registro espacial bastante preciso. E é uma forma de criar uma relação de intimidade entre personagem, autor e leitor com um determinado espaço geográfico concreto. E que não tem importância nenhuma se o leitor conhece ou não o espaço. Mas ele sente essa aura, você está falando de uma atmosfera vivida, intensa.

Sobre essa relação da realidade com a cidade: quando você publicouTrapo (Brasiliense, 1988. 1ª ed.; Record, 2008, 7ª ed.), o poeta Paulo Leminski se identificou com o personagem Paulo…

CT – Essa é uma histórica anedótica (risos). A Brasiliense na época resolveu… Porque levei muito tempo para publicar o Trapo, escrevi em 82 e levou seis anos: foi recusado por editoras, perdeu concurso e tal. Até sair finalmente em 88. Aqueles eram tempos duros para quem escrevia, hoje é mais fácil. Quando o livro saiu, sem nenhum aviso prévio, eu vi lá: posfácio de Paulo Leminski, na capa.

Na época, você levou quase um mês para ver o livro…

CT – Exatamente. Havia uma greve de Correios, em julho… Vi primeiro alguma referência no jornal, acho que o Estadão botou que saiu o livro com posfácio de Paulo Leminski. Fiquei curioso: “De onde saiu isso?”

O Leminski falava mal do livro…

CT – Exatamente. É um caso único na literatura brasileira que se tem um posfácio que praticamente convida o leitor a não ler aquele livro. Felizmente, é no fim, daí você já leu (risos). Algum tempo depois acabei encontrando o Leminski, com quem eu não tinha propriamente intimidade, vi o Leminski raras vezes na vida. Ele era de outra geração, pertencia a mundos diferentes. E ele confessou, bebendo cerveja: “Eu achava que o Trapo era eu” [risos]. De certa forma, teve uma chave para a leitura. Anos depois, saiu uma edição das cartas do Leminski, muito interessante. Curioso era que as cartas do Trapo tinham relação com o jeito do Leminski escrever, alguns traços estilísticos.

Você o conheceu?

CT – Conheci duas ou três vezes. Ele era uma referencia obrigatória no final dos anos 70, principalmente em Curitiba. O próprio Leminski pichava os muros, botava assim: “Pau no Leminski” (risos). Era um performático de alto estilo, Leminski era uma figura engraçada. Lembro que Catatau (Edição do autor, 1976) foi um impacto quando ele publicou. Eu era de uma geração mais nova, mais insipiente também. Eu estava em processo de aprendizagem. Os anos 70 eu acompanhei de longe, nunca fui precoce literariamente. Minha literatura amadureceu mais tarde. Essa é uma história anedótica, não tem importância nenhuma [risos].

Em 1975, você publicou o seu primeiro livro: Gran Circo das Américas (Brasiliense). Não é isso?

CT – Isso. Foi um livro que saiu na Coleção Jovens do Mundo Todo. Foi um acidente. O surgimento desse livro foi muito engraçado: eu vivia na comunidade do Wilson Rio Apa, que era um mestre e guru de teatro. Eu escrevia os primeiros contos de A cidade inventada e o Rio Apa disse assim: “Você não sabe escrever diálogo, seus contos não têm diálogos. Você não domina o diálogo!” Eu levei aquilo a serio e escrevi o romance Gran Circo das Américas, é quase inteiro dialogado… (risos) Tem muita conversa, muito teatral. Foi uma coisa que me afinou o ouvido, o teatro me ensinou muita literatura.

Você fez teatro?

CT – Fiz teatro. Nessa época eu fazia teatro. Primeira atividade minha: fui iluminador de uma peça de Denise Stoklos [risos]. No final dos anos 60, em Curitiba tinha uma efervescência muito boa: o grupo da Denise Stoklos, o diretor Ary Pára-Raios, o próprio Rio Apa com a comunidade de teatro dele… Era uma época de grandes utopias, transformações. Denise até hoje faz o teatro essencial, pelo título é próximo ao imaginário que a gente vivia no final dos anos 60. Rio Apa fazia teatro popular sem texto, teatro de rua. Eram uns lances assim, curiosos.

Como aconteceu a transição do ator para o autor?

CT – Comecei poeta, como todo mundo escrevendo poesias, imbuído daquele espírito… Nos meus 15, 16 anos eu já trabalhava num escritório, foi o grande erro que cometi em minha vida: aprendi datilografia com os dez dedos. Fui fazer demonstração em casa: “Falem o que vocês querem que eu escrevo com uma venda nos olhos.” Minha mãe me pegou pelo braço e me arranjou um emprego no dia seguinte [risos]. Fui trabalhar com um advogado, naquele tempo, meio expediente. Trabalhei no escritório do Dr. Blege, no centro de Curitiba, das duas às seis. Era um trabalho leve, batia contratos, não era exploração de trabalho infantil [risos]. Depois acabei me envolvendo com declamações de poesias, encontros poéticos que tinha do DCE. Eu nem era universitário, mas ia ver toda aquela agitação estudantil. Acabei me envolvendo com um grupo de teatro, conheci a Denise Stoklos e depois o Wilson Rio Apa… E pedi demissão e comecei a trabalhar em teatro. Inclusive, escrevi peças de teatro que foram montadas na época. E, paralelamente, mantinha meu projeto literário. Incrível, escrevi três romances entre os 18 e os 22 anos — todos imprestáveis, depois joguei tudo fora.

Você tem mais de dez romances publicados?

CT – Publicados, sim. Era uma época de grande densidade. Não tinha muita pressa, era um tempo diferente do tempo de hoje. Não dá para comparar. Era tudo uma coisa de longo prazo, muito introvertida, muito para dentro. Esse livro foi o exercício de diálogo, Gran Circo das Américas, que foi publicado. Para a segunda edição, a editora queria que eu cortasse um parágrafo, o Caio Graco Prado [editor da Brasiliense]. Estavam reclamando de uma cena de um casal se beijando, naqueles anos 70. Eu tive um ataque de fúria e disse que não ia cortar nada no meu livro. E nunca mais teve segunda edição para a felicidade de todo mundo, inclusive dos leitores [risos]. Encerrou minha carreira de autor juvenil. Publiquei depois aqueles contos iniciais e A cidade inventada, escrevi O terrorista lírico eEnsaio da paixão, que é um livro mais maduro, relançado no final dos anos 90, pela Rocco.

Seu livro último, O filho eterno (Record, 2008), ganhou quase todos os prêmios de 2008. Como é lidar com essa “revelação” a partir de um romance?

CT – É muito engraçada essa questão da lentidão da literatura. Um livro que me projetou nacionalmente, digamos, foi o Trapo em 88. Teve uma repercussão crítica maravilhosa na época, eu passei a ser uma referência no meio literário. Mas, assim, aquela referência difusa. Lá no fundo você sabe que existe um cara em Curitiba que escreve romance. Cada livro você aparece um pouco e depois desaparece por mais dois anos, lança outro livro e tal… O filho eterno realmente foi um estouro, me surpreendeu. Eu sabia que era um livro que ia ter algum impacto pelo tema, mas eu estava me preparando para levar pau da crítica. Achei que eu fosse ser soterrado. Você vê que escritores são seres mesquinhos, pensam logo o pior das pessoas (risos). E, na verdade, foi um livro muito bem recebido, literariamente inclusive — esse era o temor que eu tive, que não fosse lido como de fato é: registro ficcional sobre dados biográficos meus. E depois, lá fora, começaram a surgir traduções, isso me abriu muito caminho.

Você costuma dizer que é O filho eterno (Record, 2008) é um livro confessional e não autobiográfico…

CT – Eu digo que sou um escritor confessional. O único livro que trabalhei biografia é esse. Todos os outros não têm dados biográficos nenhum, mas têm a estrutura de confissão. Quer dizer, textos que se articulam, a apropriação da linguagem narrativa é de alguém que se confessa ao leitor e conta sua história:Juliano PavolliniUma noite em CuritibaBreve espaço entre cor e sombra… O próprio Trapo tem o professor Emanuel, as cartas. Digamos, é um registro literário meu, desse processo confessional, embora não biográfico. Nesse livro (O filho eterno) não, eu juntei as duas coisas. Ele confessionalmente é até mais distante, um livro em terceira pessoa — foi a grande chave técnica do livro porque não me envolvi. A terceira pessoa me deu liberdade para lidar com o narrador. Eu trabalho escancaradamente com dados biográficos: eu tenho um filho com síndrome de Down e esse é o tema central do livro.

Você já está trabalhando no próximo livro?

CT – Estou, esse livro já está com 30 páginas e vendido para a Record. Na Flip, vou ler um trecho do próximo romance, preferi ler esse livro ao O filho eterno.

Qual o título do novo livro?

CT – Por enquanto, Um erro emocional — um título provisório, como todos os meus títulos. Mas eu preciso de tempo para me concentrar, agora no segundo semestre realmente vou conseguir escrever. Faz um ano que estou vivendo só de fama (risos). Escrever que é bom, nada.

Você declarou que escrever crônicas em jornais mudou a sua relação com o leitor…

CT – É verdade. Aliás, de certa forma, descobri uma coisa que eu como escritor nunca tinha pensado a respeito: existe um sujeito chamado leitor [risos]. Você quando escreve um romance não tem leitor nenhum na cabeça. Meu leitor sou eu mesmo, escrevo o livro que gostaria de ler. É essa relação pessoal com o próprio texto, você não está nem aí para o que o leitor vai dizer. Num texto para jornal — comecei faz um ano que escrevo na Gazeta do Povo, em Curitiba, na página três, toda terça-feira — a figura do leitor aparece brutalmente. O jornal não é um espaço estritamente literário, só seu, é uma sala de visitas dos textos. Você está com um monte de gente, tem uma relação direta com o leitor, que é inescapável. Você não pode dar uma de autista e fingir que não tem ninguém lendo. E a resposta do leitor do jornal é imediata, às sete da manhã você recebe um e-mailcomentando ou falando mal ou discordando. O leitor se sente no direito de comentar imediatamente o que se diz no jornal. E o jornal trabalha com o pressuposto da verdade, que é uma coisa interessante, não propriamente o registro ficcional. Mesmo quando você faz um registro de ficção numa crônica, ela é atravessada por essa leitura do leitor. Então, é uma experiência muito interessante. Você pode escrever tudo na crônica até certo ponto, mas não de qualquer modo. Não vai encher um texto de palavra. Aquela liberdade absoluta que se tem na ficção, ela tem restrições num texto de crônica de jornal. É um tipo de pragmatismo de texto, ele está no meio do caminho. Pode usar registro literário eventualmente, mas nunca se entregar totalmente a ele. Pode usar um registro informativo, opinativo. Mas a literatura sempre deixa um pé, um rastro, por marcas de estilo e linguagem. É um exercício interessante, a crônica.

Há diferenças entre o processo de criação de um texto de crônica e um texto de ficção?

CT – É diferente. Tem um aspecto psicológico, na crônica nunca me entrego completamente por essa objetividade. Ao pensar no leitor eu já estou me limitando, tem quase que uma função didática. Tem uma restrição prática no texto da crônica, ela tem um traço utilitário. E na literatura isso está completamente ausente, não existe. Literatura é uma viagem às cegas num buraco negro que você entra e não sabe como vai sair do outro lado. A crônica, não, tem que saber até o número de toques: 2.800. No meu texto ainda tem que ter uma unidade interna, não pode simplesmente começar a escrever e interromper. É muito interessante, o escritor domesticado (risos).

Na ficção, você tem horários para escrever?

CT – Eu sou bastante organizado com isso. Não consigo escrever numa segunda-feira à tarde e daí passar uma semana e meia sem fazer nada, e na quinta-feira da outra semana de manhã escrevo mais um… Para mim tem que ser diário, por isso eu parei completamente (o novo romance). Porque não estava conseguindo essa continuidade. Já escrevi em vários horários: de tarde, de madrugada… Eu lembro do Trapo, no tempo que minhas crianças eram pequenas, só minha mulher trabalhava fora, eu ficava em casa e trabalhava de madrugada. Então, às dez da noite, que é a hora do silêncio total do mundo, inclusive das crianças, eu escrevia o livro. Agora estou gostando de trabalhar de manhã, acho que é coisa de velho (risos). Acordar cedo, cinco ou seis horas de sono e não passa disso, a cabeça ainda está muito boa. Das sete às dez é um horário maravilhoso para escrever.

Que autores você carrega como referência para sua escrita?

CT – Eu não sei. Sou um leitor do livro, leio de tudo. Eu tenho lido muito profissionalmente também. Ou participando de júri de concursos ou escrevendo resenhas para jornais e revistas.

E que é uma leitura completamente diferente.

CT – É diferente, ler objetivamente. É um semiprazer. É sempre bom ler, mas, às vezes, você está lendo só para ter que fazer um texto. Eu estou fazendo umas leituras laterais, de história e filosofia, que não são propriamente leituras ficcionais. Estou sentindo que estou gostando de enveredar por um tipo de linguagem de ciência, de historiografia particularmente, que me interessa bastante. É uma época da minha vida que quero mergulhar nisso aí. Quando escrevo, não, quando estou fazendo literatura é toda história da minha vida de escritor que está escrevendo. Sempre digo que o texto sabe mais do que eu. Por exemplo, o livro O filho eterno me ensinou isso, eu estava com uma visão muito limitada dele, até que eu disse: mesquinha. Eu percebi que escrevi um livro muito maior do que eu. Tem coisa ali que foi a minha história que escreveu, não foi aquele provavelmente sujeito que estava dizendo opiniões e colocando visões de mundo. Isso para mim é maturidade literária.

O que é necessário para ser escritor?

CT – Talvez eu puxe muito a sardinha para a brasa da minha geração: um certo sentido de inadequação. Para o sujeito se perguntar: “Será que não tem uma coisa normal que eu possa fazer?” [risos] Se ele se sentir bem no trabalho, como médico, advogado, ótimo. Fique aí, tem coisas boas e sólidas para se fazer. Se você tiver o sentido de inadequação, que é fundamental na arte — a arte é justamente esse contradiscurso —, aí sim, vá de cabeça, e veja até aonde aguentar o tranco. O Sérgio Rodrigues tem uma frase que eu acho uma ótima pergunta para se fazer: “Você é capaz de desistir de escrever?” Se for capaz, desista, faça outra coisa (risos). Se realmente não der jeito, vá em frente. E também mudou o panorama: aquela visão meio messiânica, que a minha geração tinha nos anos 60 e 70, a atividade artística como uma missão que você cumpre no mundo, aquela coisa em que você é o grande herói… Isso, nos tempos mais pragmáticos de hoje, mudou. A própria relação da sociedade com a literatura e da literatura com a sociedade tem um nível um pouco mais tranquilo e menos angustiado. Parece que a atividade artística está muito mais integrada no mundo social do que aquele desajuste social que era essencial no final dos anos 60.

> Leia um trecho de Um erro emocional, novo livro de Cristovão Tezza, que deve ser lançado em 2010

Eu tive uma boa infância, ele quase disse, mas então a imagem de seus cinco anos voltou bruta à memória. A porta do quarto aberta e ele vê, quase como um ensaio, como se todas as noites eles repetissem os mesmos gestos de modo a aperfeiçoá-los — o pai na sombra, com a rigidez de um militar (havia algo de militar em seu pai); e a mãe na luz, aquele belo e ostensivo rosto na luz, o desafio na ponta do queixo, brevemente erguido, os olhos de gelo; estão a meio metro um do outro, e ela diz: ê isso mesmo. E daí? O menino lembra que se passaram alguns segundos, como se o pai tentasse recapitular o que ele teria de fazer naquele momento de ensaio, a equipe de filmagem na sombra à espera; mas certamente todas essas camadas de interpretação foram se sobrepondo nos quarenta anos seguintes, de modo que o que de fato aconteceu não importa mais. Ele viu o braço do pai se erguer e ouviu o tapa no rosto da mãe — um tapa em cheio, à mão aberta. Era como se não houvesse fúria, como se não fosse um gesto desesperado de alguém que se lança compulsivamente ao erro, para depois arrepender-se até o último dia do que fez; ao contrário, era como se ele conquistasse aquele momento duro para então ter o que fazer o resto da vida — pensar sobre ele; o corpo do pai, aquela retidão de gesso, a coluna empinada, a sombra daquele queixo também erguido na mesma esgrima mental diante do desafio do olhar dos outros, o corpo do pai praticamente não se moveu – apenas o braço, como um exercício a mais de todos que ele fazia, o cuidado de Narciso com os próprios músculos, às vezes ao espelho.

 

CID MOREIRA

A VOZ DO BRASIL

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

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Durante 27 anos, sua voz grave e inconfundível foi responsável por informar milhões de brasileiros nos cantos mais remotos do país. A vasta carreira de Cid Moreira é lembrada não só pelo Jornal Nacional, da TV Globo, mas também por diversas locuções no rádio, cinema, além de seus comentários no final do Fantástico.

Nascido em Taubaté, São Paulo, no ano de 1927, o narrador já conta com mais de 60 anos de carreira, marcados pelo “Boa noite” que proferia aos espectadores na hora de finalizar um programa, que o credenciou como umas das personalidades mais queridas e conhecidas da radiodifusão brasileira.

Não por acaso, a expressão compôs o título de sua biografia, lançada este ano e escrita pela jornalista Fátima Sampaio Moreira. Boa noite: Cid Moreira, a grande voz da comunicação do Brasil aborda a vida do locutor desde a infância, passando pelos momentos marcantes da carreira até a atualidade, quando passou a narrar textos bíblicos. A obra traz ainda imagens do apresentador ao longo dos anos, com diversos nomes da comunicação do Brasil e histórias curiosas que ocorriam nos bastidores de seus programas.

No quintal de sua casa, no Rio de Janeiro, o casal Moreira concedeu uma entrevista com exclusividade para o Saraiva Conteúdo.

Como é rever a sua vida num livro?

CM – É uma situação inédita pra mim. A minha vida eu divido em fases. Teve a fase do rádio no interior, do rádio nas capitais, primeiro em São Paulo e depois vim para o Rio. Depois uma ligeira fase no teatro, fiz uma narração. Até que comecei na televisão. Tive fase também no cinema. Gravei um jornal que foi o primeiro a dar closes nos jogadores após o jogo, a expressão do goleiro que, por exemplo, comeu um frango. Era o Canal 100. Eu nunca imaginei isso. Com o lançamento desse livro pude avaliar a extensão daquilo que eu representava para o público. Só mesmo tendo contato corpo a corpo, como eu tive no lançamento desse livro, em que recebi carinho de muita gente pelo país todo. As pessoas vão criando cada vez mais uma lenda em torno da pessoa, do nome, da voz. Eu conheço, por exemplo, muito profissional aí com a voz muita boa, boa aparência, mas que não teve relevo nenhum. É uma questão daqueles que conseguem ter uma oportunidade e o público gosta, a pessoa passa a viver aquela fase. E o nome começa a ser construído ali.

Você começou no rádio. Fale um pouco do que significou essa escola pra você.

CM – Está tão longe. Tem mais de 60 anos. Começou lá em Taubaté. Agora, há uns dois ou três meses eu estive lá no lançamento do livro, que o prefeito fez num cinema antigo que eu frequentava quando garoto. Eu tive também a oportunidade de dar uma entrevista na rádio que eu comecei e lembrar daquela época. Enfim, é uma volta, uma regressão na história. É muito sensacional. Antigamente, as novelas radiofônicas tinham grande audiência. Eu fui narrador de uma delas. Ator mesmo, não. No cinema, eu fiz algumas pontinhas, mas tudo com relacionamento com o rádio.

Como foi a transição do jornalismo para a narração de textos bíblicos?

CM – O jornalismo foi uma fase que já passou. Hoje eu estou inteiramente dedicado à produção, divulgação da bíblia. Mensagens por telefone. Todas elas relacionadas com o conteúdo bíblico. A coisa vem acontecendo. Eu acho que o início de tudo isso foi no Fantástico. Evidentemente que o Jornal Nacional também tinha uma projeção maravilhosa. O “Boa noite”, tanto que é o titulo do livro, marcou muito. Mas eu acho que o que deu origem a essa fase minha bíblica e de narrador foi o Fantástico, porque no final do programa era feito um comentário, uma crônica, baseada em alguma matéria veiculada no programa. E aquilo marcou muito. Quando eu viajava por aí, naquela época eu não viajava muito, mas no pouco que eu viajava eu sentia um interesse do publico dizendo: “Eu não perco o final do Fantástico para ver o que você vai falar.” Aquilo ali marcou porque, o jornal, por exemplo, era um noticiário. Já o final do programa era uma fala mais coloquial. As pessoas foram vendo. Aquilo foi marcando e criando um outro caminho na profissão que é o de narrador. Então eu recebi, na época, um convite. Foi uma gravação de grande sucesso, que está fazendo sucesso nos Estados Unidos, que foi o Desiderata. Uma mensagem encontrada numa Igreja num Estado dos Estados Unidos. O narrador lá foi o famoso, falecido ator, Anthony Queen. E fizeram uma versão aqui e essa gravação foi produzida pela Som Livre. Eu fiz a gravação, depois o primeiro clipe também que eu fiz, que foi um sucesso, para o Fantástico. E aí os convites foram acontecendo. Depois gravei para as irmãs paulinas, umas quatro produções, oração número 1, número 2 e tal. Depois também tive um contrato com a Warner Continental. Fiz duas produções lá. Quando eu deixei o Jornal Nacional foi lacuna aberta. ”E agora, o que eu vou fazer?” Fiquei 27 anos. Aí surgiu um convite para gravar o Novo Testamento. Gravei o Novo Testamento na íntegra. Foram 23 CDs. A que realmente arrebentou foi o lançamento Passagens Bíblicas. Esses CDs foram lançados em bancas de jornal por um preço inferior e numa época áurea do CD. Então foi aquele estouro. Foram vendidos mais de 30 milhões de CDs.

A Bíblia sempre foi presente na sua vida?

CM – A Bíblia sempre foi presente, mas de uma maneira não tão dedicada como agora. Era uma curiosidade. Eu acho que há ate uma predestinação nisso. Quando eu era garoto, no interior fazia mais frio do que aqui no Rio, o pessoal acabava de almoçar e ia pro quintal, minha mãe, minhas avós, meus irmãos, chupar laranja ao sol. Tomando aquele solzinho para esquentar. Aí eu pegava a Bíblia e começava a ler provérbios. Aquilo estava ali, latente. Então com a minha carreira evoluindo, passando daqui para lá, de um lugar para outro, do rádio para a TV, aquilo estava lá. E de repente brotou. É como se fosse uma sementinha que estava lá e com o tempo ela brotou.

O que você faz para cuidar da voz?

CM – Eu usava o sal marinho. Eu tinha um tubinho de madeira que eu batia e dava uma lambidinha no sal. Eu usei isso durante um tempo e vários colegas vinham me pedir uma pitadinha. Isso na fase do rádio. Um dia, eu apresentava o programa de uma cantora, Elizete Cardoso, falecida, excelente cantora, considerada a diva da música popular brasileira. Ela falou: “Cid, há muito tempo eu uso cravo da Índia.” Ele é meio ardidinho. Usa muito em doce. Comecei a usar e gostei. Eu tinha sempre um cravinho, deixava entre o dente e a bochecha. Usei ali por um tempo e todo mundo vinha me pedir um cravinho. Deixava a voz mais limpa. Até que de repente eu peguei uma gengivite danada. Aquilo irritou a gengiva. Eu parei com o cravinho. Sugeriram o gengibre. É muito bom. De vez em quando, eu costumo mastigar um pedacinho de gengibre.

A sua biografia cita algumas das suas leituras da infância, como Monteiro Lobato. Fale um pouco sobre isso.

CM – O meu pai era bibliotecário no colégio. Quando faltava um professor, eu ia para a biblioteca e ficava lendo esses livros. Tesouro da juventude, tem muita coisa boa. E um outro livro, que até tenho um exemplar dele, tem mais de 100 anos, Manual de saúde, ainda com a ortografia antiga. Quando eu tinha resfriado, eu procurava saber a causa, como se prevenir daquilo, alimentação, o que fazia bem, o que não fazia. Até hoje eu tenho essa mania. Eu parei de comer carne aos 30 anos. E estou aqui. Todo mundo diz assim: “Não vai comer carne? Vai ficar anêmico”. Comigo não aconteceu nada. Pelo contrário. Eu tenho uma disposição.

Você citou a Elizete Cardoso. O que você ouve de música? Que cantores te agradam?

CM – Às vezes, eu ouço disco antigo, com aquele som bem fraquinho, sem qualidade. Mas eu gosto, de maneira geral, de som muito bom. Agora mesmo, fizemos uma viagem lá fora, no exterior, e assisti a uma peça do Michael Jackson. Eu fiquei até emocionado com o som do teatro. Muito bom. Eu curto isso. Um bom som, graves e agudos e num volume aceitável. Às vezes, você vai assistir a um show, já aconteceu comigo, que eu sou obrigado a tapar o ouvido, devido ao excesso no volume. O som não pode agredir o ouvido.

No início, quando você começou a trabalhar no rádio, existia alguma voz que era referência?

CM – Sempre houve. Qualquer profissional, se o cara disser que não, está mentindo. Se você está numa determinada profissão você sempre pauta o seu pensamento no profissional que você admire e, sem querer, você começa a imitar o cara. Eu tinha uns 12, 13 anos, nem pensava em rádio. Ele fazia um “Boa noite”, dedicava sempre a alguém de projeção. Carlos Frias. Ele foi deputado aqui no Rio e depois teve um estúdio de gravação. Eu gravei muito no estúdio dele, fiquei amigo dele Ele dedicava sempre um “Boa Noite” a alguém: “Fulano de tal, boa noite.”

Como foi escrever a biografia do Cid Moreira?

FSM – Já teve oportunidades, até de pessoas muito conceituadas, de fazer a biografia dele. E ele ia adiando por causa dos compromissos dele. Um dia, a gente estava aqui no estúdio e um amigo em comum estava com a gente e o Cid viu no e-mail dele mais uma proposta de uma editora para fazer o livro. Aí esse amigo falou assim pro Cid: “Por que a Fátima não escreve o seu livro? Ela é jornalista.” Mas eu sou jornalista e escrevo para revista. Passei muito tempo em rádio, não faço ideia de como se escreve um livro, não tenho essa noção. Aí o Cid virou para mim brincando e falou: “Ih, achei minha autora.” Ele falou: “Vai ser bom.” Primeiro, porque ele gosta do meu texto, do meu trabalho. Eu trabalho junto com ele aqui, me conheceu trabalhando, fazendo entrevista com ele. E depois ele achou interessante por causa da falta de tempo dele. Se for uma pessoa de fora, ele vai ter que ficar disponibilizando tempo, uma coisa mais formal, mais complexa. E comigo a gente fez um esquema muito legal. Eu tinha toda a liberdade para pesquisar. Eu tenho dez anos com ele, então já algumas histórias eu sabia, por causa do relacionamento, ele vai me contando, infância, juventude e tal. Com um olhar de marido, é muito interessante. Aí eu fiz uma sequência mais ou menos do que eu tinha aprendido da historia dele e a gente foi recheando com dados mais concretos da história do jornalismo e da comunicação do país, as pessoas que cercaram ele nesse período. As transições importantes. Na era de ouro do rádio, que era o máximo, as pessoas nem queriam nada com televisão, era uma coisa muito incipiente ainda. E na infância, que não tinha televisão. Cinema era tudo, rádio era tudo também. Aquelas seções, shows de rádio aos sábado com as pessoas de longo e de chapéu, de luvas. É uma historia muito rica. E hoje ele está no Twitter, no Ipad, mandando e-mail de voz. Ele não precisa sair de casa, do estúdio para trabalhar. Ele grava em casa e manda para o mundo, para qualquer lugar, todas as agências para onde ele trabalha. Grava milhões de coisas, manda mensagens, está super moderno. Ele é um homem que acompanhou o tempo dele.

Como é estar casada com o Cid Moreira, uma pessoa que é referencia em comunicação, uma voz conhecida no Brasil inteiro?

FSM – Têm dois lados. Do portão aqui para dentro de casa não tem ninguém famoso, importante, conhecido, não. É o Cid, meu marido e eu a Fátima, esposa dele. É muito legal. O convívio faz perder, graças a Deus, essa coisa de ficar lembrando toda hora de que ele é conhecido. Quando a gente sai na rua não tem jeito. Pode ser no supermercado aqui perto que a gente vai uma vez por semana, ele gosta de fazer super mercado, compras as coisas que ele gosta. Vai ter alguém comentando, chegando e fazendo um carinho, comentando qualquer coisa, não passa indiferente. Mas aqui em casa, não. É uma pessoa. No começo, é uma fantasia. A gente se apaixona por um ideal interno. Acontece com todo mundo. Depois você vai convivendo com a pessoa e vê se aquilo é amor. Tem orgulho. É muito mexido, uma emoção muito interessante. Já chegaram a falar assim para mim: “Cuida bem dele porque ele é patrimônio nacional.” Mas ele é meu marido. É claro que eu cuido dele. É muito estranho isso. Eu não faço mal nenhum para ele. Ao contrário.

O que de mais surpreendente você se deparou ao fazer esse trabalho?

FSM – Uma coisa que eu acho muito interessante é a extrema timidez. Era um garoto tão tímido que quando era pequeno foi proibido de jogar bola porque quando foi fazer o exame médico da educação física, ele ficou tão angustiado de se ver nu perto do médico que o coração disparou e o medico deu arritmia para ele. Disse que ele tinha problema no coração. Ele não pôde praticar esportes na escola por causa disso. Corria que nem louco na rua, aprontava para caramba, mas na escola não podia praticar porque tinha problema cardíaco. E era só uma extrema timidez que acompanhou ele durante muito tempo. Até agora, quando ele vai falar em publico, dá tremor, fica preocupado, fica ansioso. Quem viu o Cid no Jornal Nacional não podia imaginar a ansiedade antes e depois, o medo dos erros, a expectativa de estar sendo visto por milhões. Um homem de comunicação para milhões é uma pessoa extremamente tímida e fechada, caseira, na dele. É uma contradição. Não gosta de festas, não é um cara de badalações.

Você pretende continuar esse trabalho, escrever um próximo livro?

FSM – Eu acho que é muita arrogância da minha parte. É muita pretensão. Foi por amor, não tive intenção nenhuma de me promover como autora. Claro, ninguém é inocente. É fascinante. Mas foi um risco muito grande. Eu gosto de ler. Conheço autores. Lya Luft, amo, Raquel de Queiroz. É muita gente boa. E eu escrevendo, metida. Eu achei muita arrogância, muita pretensão minha. Vou parar por aí. Espero que as pessoas curtam e gostem. Não é a minha praia. Eu tenho outras pretensões na vida. Quero fazer só projetos sociais, amar e cuidar do meu marido e as minhas coisinhas diárias, uma ioga e tal. Não tenho pretensão nenhuma para nada mais. Surgiu por um amor a ele.

 

CLARAH AVERBUCK

PERSONAGEM DE SI MESMO

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

clarah

 

“Nós que não somos como as outras”. Clarah Averbuck tem o título do livro da escritora espanhola, Lucía Etxebarria, tatuado no corpo. E definitivamente ela é diferente: é uma mulher de personalidade forte. Talvez por isso, uns a adorem e outros a detestem.

“Sou eu e é uma ficção. A partir do momento que está escrito não interessa se é verdade ou não. As pessoas se preocupam muito com isso. Aconteceu ou não? As pessoas sabem o que deixo elas saberem. Só quero escrever e não me incomodem muito. Elas deviam ler e não se importar tanto”, declara.

Se todos somos personagens de nós mesmos, eu diria que Clarah se diferencia por assumir esse papel. Com tudo isso, misturado com sua literatura, ela também atraiu a atenção do diretor de cinema Murilo Salles, que adaptou sua obra para o cinema. Em Nome Próprio sua história é vivida pela atriz Leandra Leal.

“Gostei [do filme], mas fiquei chateada com a modificação que fizeram no meu texto que aparece na tela. Eu escrevi o texto, reescreveram no meu lugar, escrevi novamente e acabou ficando uma coisa diluída. As pessoas sabem que é baseado na minha obra e o que aparece escrito no filme não é meu. Isso me incomoda”, reclama a autora.

Máquina de Pinball (Editora Conrad); Das coisas Esquecidas Atrás da Estante(Editora 7 Letras) e Vida de Gato (Editora Planeta) são seus livros publicados. Ela prefere o último! E já está com outros três no prelo: Toreando o DiaboDelírio de Ruína (em parceria com a estilista Rita Wainer); Eu Quero Ser Eu(contemplada pelo Programa Petrobrás Cultural).

“Lembro que sempre escrevi. Eu me divertia escrevendo, assim como me divirto hoje. É um grande prazer. Não teve um dia em que decidi me tornar escritora. Só me dei conta de que estava indo para esse caminho. A minha mãe sempre leu muito, ela escrevia também. Sou filha de artista, meu pai é músico e ator. Tive isso tudo muito forte em casa”.

Quando não está escrevendo, ela está “cuidando da filha, fuçando pela Internet ou bebendo pelas ruas…” Li sua obra recentemente, depois de assistir a pré-estreia do filme, no Odeon BR, no Rio de Janeiro, local onde aconteceu essa conversa.

A entrevista foi realizada em companhia da poeta Maria Rezende e do músico, escritor e cineasta Rodrigo Bittencourt, que estava produzindo um documentário sobre a Clarah para o Canal Brasil.

O que achou do filme Nome Próprio, de Murilo Salles?

Clarah Averbuck – Gostei, mas fiquei chateada com a modificação que fizeram no meu texto que aparece na tela. Eu escrevi o texto, reescreveram no meu lugar, escrevi novamente e acabou ficando uma coisa diluída. As pessoas sabem que é baseado na minha obra e o que aparece escrito no filme não é meu. Isso me incomoda.

Seu livro Máquina de Pinball (Editora Conrad) ganhou adaptação para o teatro, roteirizado por Antônio Abujamra e Alan Castelo, em 2003…

CA – Odiei muito. Estava grávida e quase pari de desgosto. Juro por Deus! Acabou que o Abujamra não teve muita participação na montagem, foi montado por outra pessoa. E a atriz também não era boa, ficava dando piruetas no monólogo. Tudo com a entonação errada: quando era para ser blasé ela gritava, e quando era para gritar ela era blasé. Eles não mexeram no texto, nada, tudo estava lá. É o inverso do que aconteceu no cinema, que tem a Leandra Leal com uma interpretação maravilhosa.

Como a escrita chegou até você? A família influenciou?

CA – Lembro que sempre escrevi. Eu me divertia escrevendo, assim como me divirto hoje. É um grande prazer. Não teve um dia em que decidi me tornar escritora. Só me dei conta de que estava indo para esse caminho. A minha mãe sempre leu muito, ela escrevia também. Sou filha de artista, meu pai é músico e ator. Tive isso tudo muito forte em casa.

Quando você percebeu que queria apenas escrever?

CA – Quando me mudei para São Paulo. Antes eu trabalhava numa agência de publicidade em Porto Alegre, mas não queria ser redatora publicitária. Meu chefe dizia que eu tinha grande potencial, mas eu não queria. Teve a ver muito com o John Fante isso. Tenho um ciúme do Fante! Todo muito chega falando dele como se conhecesse. Teve a ver com o (Arturo) Bandini, na verdade. Achei que estava saindo do colorado para ser uma escritora em Los Angeles… (Risos.) Cheguei a cursar letras e jornalismo. Mas sou vagabunda, não gosto de estudar, de trabalhar…

Foi assim que surgiu o pseudônimo Camila?

CA – Camila já meio que existia. Eu publicava com outro nome quando namorava, usava o da Camila. Já era um alter ego meu, depois assumi. As pessoas que estiverem perto de mim vão entrar na minha literatura…

Dá para traçar um paralelo com o pseudônimo do Bukowski?

CA – Acho que dá para traçar um paralelo com várias pessoas que escrevem usando um alter ego. Ou que escrevem usando a vida como matéria prima. Não necessariamente o (Henry) Chinaski.

Esse alter ego da literatura se infiltra na sua vida?

CA – Sou eu. Não tem o que se infiltrar. Sou eu e é uma ficção. A partir do momento que está escrito não interessa se é verdade ou não. As pessoas se preocupam muito com isso. Aconteceu ou não? As pessoas sabem o que deixo elas saberem. Só quero escrever e não me incomodem muito. Elas deviam ler e não se importar tanto. Mas também tenho essa curiosidade: fui para Los Angeles para ver onde o Fante morava. Há três, também fui visitar o túmulo do Bukowski e deixei uma garrafa de Ypióca lá.

Como é a relação da música e da literatura?

CA – Sou 50% música e 50% literatura. Fiz outra banda agora, não tem nome ainda. Quero um nome em português. Gosto muito de ouvir Vanguart, uma banda de Cuiabá ótima! Porcas Borboletas, uma banda de Uberlândia excelente! Ainda pouco eu estava ouvindo Rolling Stones. Gosto de Velvet Undergound, Fiona Apple, Bob Dylan…

E música brasileira? Você quase não tem referencia brasileira.

CA – Quase não ouço. Não me identifico com as coisas daqui. Não bate. Mas, em literatura, gosto muito da Márcia Denser – minha irmã mais velha –, do Leminski, da Cecília Giannetti – uma grande amiga –, do Daniel Galera, do Mário Bortolotto – o cara com quem mais me identifico –, e não li a Mayra Dias Gomes, mas também gosto bastante dela, diante de quem me sinto uma tia! Ela falou que leu meu livro aos 14 anos. Agora estou lendo o Guimarães Rosa.

Atualmente você escreve o blog Adiós Lounge. Por que você acabou com o seu primeiro blog, o Brazileira Preta?

CA – Enchi o saco, cansei e não tava mais a fim de escrever lá. Depois fiz um blog escondido. Casei, e o casamento me consumiu, a gente se consumia muito. E para escrever se precisa de solidão. O que escrevo é muito visceral. Não posso esconder ou fugir. Eu fujo é das pessoas, que, de maneira geral, são muito chatas. Não têm muita coisa a dizer e isso me irrita bastante. Falam, falam e não falam nada. Antes eu até discutia com elas, mas agora não tenho mais paciência, me retiro.

E existe literatura de blog? Você acha que você se encaixa em que lugar na literatura?

CA – Quem tem que saber disso são vocês… (Risos.) Não existe literatura de blog; não existe. É apenas um meio de publicação com uma data embaixo. Por isso, tem blog de receita de bolo, de resenha de discos, de política… É apenas um rótulo idiota. Quero escrever, não quero me inserir em nada. “Literatura pop” é outro termo de que não gosto.

Como é seu processo criativo?

CA – Ando com um caderninho na bolsa, quando tenho vontade vou lá e escrevo. Não tenho regra para nada! Nem para comer, dormir ou escrever. Sou completamente desregrada.

A metrópole está muito presente na sua literatura. Tem vontade de sair de São Paulo? Voltar para Porto Alegre?

CA – Voltar para Porto Alegre nunca mais! Fugi de lá, para que vou voltar? Apenas para visitar as pessoas, mas nunca mais morar lá. Nem quando ficar velha e herdar a casa dos meus pais; minha filha que vai cuidar disso. Gosto de cidade grande e de barulho. Só saio de São Paulo para ir embora do Brasil. Tenho uma relação de amor e ódio com São Paulo. Moro num lugar muito feio, na Praça Roosevelt. Feio, cheio de concreto, mas há certa beleza naquilo tudo.

E o Rio de Janeiro a atrai?

CA – Ah, vou ser um pouco hippie: o Rio tem uma mágica, uma coisa no ar… Gosto muito da arquitetura, dos prédios antigos e do mar – sempre! Esses prédios brotando em meio das pedras, essas pedras brotando em meio aos prédios.

Você teve sua filha num parto normal, em casa. Depois que ela nasceu, o que mudou na sua vida e literatura?

CA – Na minha literatura, nada. E as pessoas fazem muito alarde dizendo que filho muda tudo. Tem aquelas pessoas que deixam de ser elas mesmas: param de sair, engordam, não se penteiam mais. Sou a única mãe que posso ser. O que ela vai achar das coisas que escrevo? Espero que goste! Não tem muita putaria. Mas outro dia me tacharam como literatura erótica…

O que a atrai na vida?

CA – A paixão. O que me atrai é a paixão: por um homem, por um livro, pelo Rio de Janeiro, por um filme, pela arte em geral. Coisas que fazem o coração bater mais rápido.

Quantas tatuagens você tem?

CA – Não sei. Quer contar? Já tentei contar algumas vezes, mas me perco. Tenho umas vinte e poucas. Faço tatuagens com minhas amigas, tenho essa mania. É melhor do que fazer aliança com homem, né? Amizade, quando é de verdade, não acaba. Tenho interesse por moda, tenho muitos amigos do mundo da moda. Gosto de me ornar. A roupa também é maneira de se comunicar, se colocar. Sou muito vaidosa.

Há leitores que acreditam que seus gatos são alter egos. Como é sua relação com os felinos?

CA – (Risos.) Convivo com gatos há muito tempo. Tenho três e minha mãe uns cinquenta. Sem exagero! Claro que eles existem. Tem o Joo, a ‘A gatinha’ e outro que se chama Jimi Hendrix – mas este minha filha mudou para Marcelo, nome do pai dela.

O que diria para os jovens que querem escrever?

CA – Escrever não é brincadeira. Tem que levar a sério, colocar uma alma, porque senão fica apenas uma palavra depois da outra. A pessoa tem que dar um pouco do sangue dela para acreditar no que escreve. Não é para qualquer um.

 

Clarah Averbuck entrevista por Ramon Mello (2008) com participação de Rodrigo Bittencourt e Maria Rezende

parte 1

parte 2

parte 3

parte 4

IGOR COTRIM

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

igorcotrimSeu primeiro trabalho foi no seriado juvenil Sandy e Junior, protagonizado pela dupla homônima e levado ao ar de abril de 1999 a março de 2003 pela Rede Globo. Neste seriado interpretou, durante todas as quatro temporadas, Cleosvaldo (apelidado de Boca), o líder de uma gangue que fazia de tudo para prejudicar Sandy e Junior e seus amigos.

Logo após o término do seriado, fez uma participação na telenovela Mulheres Apaixonadas, levada ao ar em 2003 pela mesma emissora. Em sua primeira telenovela, interpretou Romeu, namorado da rebelde Dóris, – personagem interpretada por Regiane Alves que se tornou muito conhecida do público por espancar e maltratar os avós -, no início da trama.

Ficou por algum tempo afastado das telas e em 2005 retorna como Mateus na primeira temporada da telenovela infanto-juvenil Floribella, levada ao ar pela Rede Bandeirantes. Mateus é o melhor amigo do protagonista Frederico (personagem interpretado por Roger Gobeth). Floribella se trata de um bem-sucedida adaptação do seriado argentino Floricienta.

Em 2008, se afasta de seus papéis tradicionais em seriados infanto-juvenis e estréia no cinema como a travesti Madona em Elvis & Madona, filme de Marcelo Laffitte com data de lançamento ainda não anunciada. A travesti é apaixonada pela lésbica conhecida como Elvis, interpretada por Simone Spoladore, que engravida dela. Durante o processo de seleção do elenco do filme, Cotrim disputou o papel com travestis da vida real. Sua atuação foi chamada de “o coração da história” pelo colunista Diego Castro, do portal LGBT Mix Brasil. No mesmo ano, é lançada a telenovela Chamas da Vida, sua primeira na Rede Record, onde interpreta Jairo, integrante de uma gangue liderada por Antônio (interpretado por Dado Dolabella). Jairo morreu de overdose no meio da novela.

Você é paulista, mas mora no Rio…

IC– Sou paulistano. Nasci em São Paulo, no Campo de Marte4, no Hospital da Aeronáutica – meu pai é sargento. Nasci com minha irmã gêmea, Carolina. E fui criado em Garulhos. Vim para o Rio para trabalhar como ator, para fazer novelas e seriados. Inicialmente, morei dois anos no Rio de Janeiro, mas não deu certo e resolvi voltar para Sampa. Só regressei ao Rio em 2004 para fazer outro trabalho como ator. Nessa época, conheci Natali, minha mulher, e comecei a escrever música. Foi um exercício, passei a andar com um caderno e trabalhar com as aliterações e os malfadados trocadilhos para trabalhar com a sonoridade.

Você utiliza muitos trocadilhos em sua poesia.

IC – Sim. Mas trabalho com o viés crítico e o humor. Gosto de brincar com o lugar comum, trabalhando com o contemporâneo. Falo sobre coisas que me incomodam, nos outros e na sociedade. É um show-room de carapuças, veste quem quiser. Lido com a criação de universos, mas não tenho vaidade como escritor. Já basta o ator que é muito vaidoso. Igor pra ego é só trocar algumas letras.

Você é formado como ator na Escola de Arte Dramática (EAD), em São Paulo. Como surgiu seu interesse por literatura?

IC – Sempre tive uma memória muito forte. E gostava de brincar com as palavras. Meu pai é militar e não tinha relação com as artes. Um fato que marcou essa ligação com a arte foi quando meu pai fez um quarto separado para mim. Na verdade era um alçapão, onde eu assistia muito cinema de madrugada. Nunca tive incentivo nenhum. Larguei o colegial de Mecânica numa Federal para fazer Teatro. Freqüentei muita oficina gratuita de Teatro porque nunca tive dinheiro para estudar.

Você trabalhou quatro anos no seriado ‘Sandy & Junior’. Como foi essa experiência?

IC – Foi tranqüilo. Eles são muito carinhosos, adoro os dois. Eu chamava todo mundo de ‘galerinha mais ou menos’. Gostei de ter feito.

Você sentiu ‘preconceito’ por trabalhar nesse seriado?

IC – Claro! Preconceito do pessoal de teatro por estar na TV e preconceito do povo de TV porque eu queria ensaiar teatro. Na televisão eles não gostavam dos meus improvisos. E também existe preconceito na literatura. Um dia um filho de literário falou: ‘Nossa me surpreendi com o seu livro’. É engraçado. Surpreendeu? Porque não sou filho de um literário? Tenho preguiça dessas pessoas. Eu gosto do que escrevo! Inclusive dos trocadilhos, tem um que eu adoro: ‘jack cousteau a acreditar que o verdadeiro mergulho se dar noir’.

Você fala poesias…

IC– Sim, participo de saraus e fala os meus textos. Tem o ‘Funk do Bush’:

PUSH BUSH

Bush em inglês é arbusto

E push é empurre

Push Bush into the bush and push

Push o Bush no bush e push

Blaaaaaaaaiiiiiiiirrrrrrr

Bláblábláblábláblábláblá Blair

Bláblábláblábláblábláblá Blair

Ferme la bouche Bush

Bush big bill on Blair

Blair Big Ben on Bush

Bush big bill on Blair

War is money, honey

Guerra é dinheiro, neném

oil is money, honey

Petróleo é dinheiro, neném

War is money, war is money

War is money, honey honey

Oil is money, oil is money

Oil is money, honey honey

Awop-bop-loop Bin Laden BUM! BUM!

Sua poesia aborda muito questões políticas…

IC – Sim, porque é algo que me incomoda. Nós vivemos numa péssima democracia, uma ‘democrassia’ com dois ‘esses’. Participo do ‘Voluntários da Pátria’ com o Tico Sta. Cruz e outros poetas, fazendo manifestações contra improbidade políticas através da poesia performática. A intenção é despertar um pouco de cidadania.

A Literatura tem que ter política?

IC – Não acho que tenha que ter um papel político. Mas se você pode fazer as duas coisas, por que não?

Por que o título do seu livro é ‘Ali como Lá’?

IC – Porque minha poesia pode ir para todos os lados. Poderia ter feito um livro temático, mas não quis. Reuni diferentes tipos de poemas. O João José de Melo Franco e a Thereza Christina Rocque da Motta, meus editores, gostaram do livro. Eu não interferi em nada, a não ser numa foto. Adorei a seleção que os editores fizeram.

Quais são suas referências literárias? O que você lê?

IC – Sou muito autodidata. Sou muito imagético, minhas referências são mais cinematográficas. Mas gosto muito de ler Machado de Assis. Tem um escritor que me marcou muito: Dalton Trumbo, autor de ‘Johnny Vai à Guerra’. Já li muita literatura dramática, teatro: Shakespeare e Nelson Rodrigues. Mas confesso que não sou um grande leitor.

De que maneira o ator ajuda o poeta?

IC – As performances ficam mais interessantes, há um melhor entendimento. Eu me divirto falando poesia. A poesia começou ‘falada’. Por que a poesia não pode ser dita? Qualquer manifestação artística é válida.

Fala sobre o filme ‘Elvis e Madona’.

IC – Fiquei muito feliz com esse trabalho, principalmente com a direção do Marcelo Laffite que me deu muita liberdade para criar. Tem uns trechos do filme no You Tube:

Você se considera escritor?

IC – Sou ator. E me considero um poeta. Posso não ser o melhor poeta para algumas pessoas. Mas também sou poeta. Calma, tem espaço para todo mundo!

Por que escrever?

IC – Porque sinto necessidade. Ou para incomodar que se ressente com os atores que escrevem. (RISOS) Acabei de ganhar um caderno onde estou escrevendo meus poemas.

Como você avalia o cenário literário contemporâneo?

IC – Tem muita gente escrevendo bem. Gosto muito de Juliana Hollanda e da Adriana Monteiro de Barros.

O que você diria para um jovem que deseja ser escritor?

IC – Leia.

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