VIVIANE MOSÉ

PALAVRA DE POETA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

vivianemoseDivulgação

 

A capixaba Viviane Mosé é filósofa, psicanalista e poeta. Sua produção literária é tão intensa como sua maneira de levar a vida: “Toda vez que estou tomada por uma sensação quero imediatamente escrever. Colocar palavra no papel é um alívio. Eu sou uma pessoa de palavra. As palavras dominam a minha cabeça”.

É um engano creditar ao quadro ”Ser ou não ser”, do Fantástico, o reconhecimento do seu trabalho. O programa de TV trouxe popularidade, mas foi através da paixão pelas palavras e maneira de dizer poesias que Viviane, cria do CEP 20.000, conquistou seus leitores.

O livro Receita para lavar palavra suja (Arte Clara) foi o convite que recebi para conhecer seus poemas. Encontrei o exemplar rasurado num sebo, no Centro do Rio de Janeiro, em 2004. Sem saber, a poeta me ensinou a ”arte de lavar palavras”. Desde então, a minha relação com a poesia se modificou: a leitura, antes considerada chata, passou a ser sinônimo de prazer.

Outro livro também chamou minha atenção: Stela do Patrocínio – Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (Azougue Editorial), uma coletânea de poemas de Stela do Patrocínio, paciente da Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira. Mas o que me impressiona em Viviane é sua capacidade de transitar entre o universo acadêmico e a efervescência da produção literária contemporânea.

Além dos livros de poesia, como Escritos (Ímã e UFES); Toda Palavra ePensamento Chão (ambos pela Record), Viviane participou da coletânea de artigos filosóficos, Assim Falou Nietzsche (7Letras, UFOP), e publicou sua tese de doutorado, Nietzsche e a grande política da linguagem (Civilização Brasileira) – filósofo que ela estuda desde os 16 anos. E, ainda, é autora dos textos poéticos da personagem Camila no filme Nome Próprio, do cineasta Murilo Salles.

Não faltou assunto em nosso encontro no Rio de Janeiro, no Talho Capixaba – local escolhido pela poeta. A conversa foi muito longa, por isso teve de ser publicada em três partes. Viviane fala sobre psicanálise, filosofia, família, amores e o ofício da escrita. Enfim, um bate-papo realizado por um admirador confesso.


Foto Tomas Rangel

Você é filósofa, poeta, psicanalista e, agora, roteirista. Como é relação da psicanálise com o seu processo de criação literário?
VM – Eu entrei na faculdade aos dezesseis anos. E sempre foi assim, sei muito o que sei e não sei nada o que não sei. Depois que fiquei mais velha, fui obrigada a aprender o que também não gosto. Aos 15 anos, tive de decidir por fazer faculdade de psicologia. Havia uma coisa insuportável dentro de mim, eu não cabia dentro de mim. Tenho um poema novo, Rio, que diz assim: ”eu sofro de excessos.” A psicologia ajudou a enfrentar esse monstro insuportável que há dentro de mim. Nunca separei uma coisa da outra: estudava psicologia, monitorava uma turma de filosofia e escrevia poemas. Sempre gostei de escrever e falar poemas, tudo está misturado dentro de mim. Quando terminei a faculdade, fiz mestrado em filosofia e continuei escrevendo.

Você faz análise?

VM – Fiz análise dos 19 anos aos trinta e poucos anos. E trabalhei 15 anos como psicanalista. Fiquei cerca de sete anos morando no Rio de Janeiro e trabalhando num consultório no Espírito Santo. Eu só conseguia ganhar dinheiro em Vitória. Quando meu filho nasceu, há quatro anos, eu parei trabalhar como psicanalista.

Como é ser psicanalista?

VM – É ótimo, mas há um lado complicado. Uma vez fui convidada para ser passista da União da Ilha. E eu adoro sambar, é o que faço melhor na vida. Se você acha que escrevo bem poemas é porque nunca me viu sambando (risos). Eu amo samba. Então, eu estava em um ensaio e me chamaram para um teste para ser passista. Mas não concorri porque era psicanalista. Imagina? Uma psicanalista de tapa-sexo e sandálias (risos). O que tornou minha vida insuportável em Vitória era que eu atendia metade da cidade, não podia nem tomar um porre. Mas é maravilhoso ser psicanalista. As pessoas derramam, transbordam na sua frente. São momentos de extrema beleza. Adoro lágrimas. O dia que me toquei foi quando vi o afeto de uma pessoa se transformar num rio. As pessoas viram água.

Foto Tomas Rangel

E você chora muito?

VM – Eu choro com facilidade, mas não na frente dos outros. Eu choro de dobrar. Mas transbordo sem lágrima, por pura timidez.

O que atrai no Rio de Janeiro e no Espírito Santo?

VM – Adoro o Espírito Santo. Moro no Rio há 18 anos, mas faço questão de não mudar o meu sotaque.

Há um poema seu que fala do Espírito Santo…

VM – Eu venho do Espírito Santo / Eu sou do Espírito Santo / Eu trago a Vitória do Espírito Santo / Santo é um espírito capaz de operar milagres sobre si mesmo. O povo do Espírito Santo é muito forte. Eu saí de lá porque estava pequeno para mim. As coisas não me cabem, sinto muita angústia.

O que foi melhor na mudança de cidade?

VM – Na época, foi andar na rua e ninguém me conhecer.


vivianemose5Foto Tomas Rangel

Como você lida com a popularidade do quadro Ser ou Não Ser no Fantástico?

VM – Eu adoro quando estou andando na rua e me dizem: “minha vida mudou porque assisti o quadro do Fantástico.” Se o programa agrada a pessoas que não leem é porque o meu trabalho funciona. Quando passo no Jardim Botânico e o porteiro fala – “ser ou não ser?” – fico satisfeita. O programa abriu portas profissionais, mas não é uma carreira que me interessa. Tive convites para fazer outros trabalhos e neguei. Gosto de produzir conteúdo para televisão. Essa é a popularidade que posso suportar. Preciso de pouco para ser invadida, porque sou envergonhada.

Como reage às críticas ao seu quadro no Fantástico?

VM – Eu tive medo, mas não tive críticas dos acadêmicos. Meus professores elogiaram, isso importa. Os jornalistas criticaram, mas não entendem nada. Sou muito rigorosa com meu trabalho. Trabalhei um ano inteiro para ficar três meses no ar. Se falam mal do meu quadro no Fantástico é pelo excesso de zelo.

O que une a poesia, a psicanálise e a filosofia?

VM – A palavra. A paixão pela palavra. Tenho um poema que diz:

Palavras são estacas fincadas no chão / Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso.

Fale dessa relação com as palavras.

VM – Toda vez que estou tomada por uma sensação, quero imediatamente escrever. Colocar palavra no papel é um alívio. Eu sou uma pessoa de palavra. As palavras dominam a minha cabeça. Por que faço filosofia e psicanálise? Para dar vazão a essas palavras, encaminhar a galera. Eu tenho perplexidade pela palavra. Como pode um som dar conta de tanta coisa? Eu me casei com um homem que fala bem, por exemplo. Ele fala com amor e isso é essencial.

Você é casada com o cineasta Daniel Rocha. Você se casou com um homem mais jovem e foi mãe aos 37 anos…

VM – Exatamente. Saí de casa aos 19 anos e fui morar com o namorado, ficamos quatro anos juntos. Casei cedo, mas quando me separei, senti não podia ter uma família. Eu demorei muito a ser uma pessoa. O que eu era? Um monte de pedaços que eu ia juntando, não tinha pé no chão. Eu me separei, mesmo amando, consciente de que precisava de mais. Tive muitos amores, mas com nenhum tive a ideia de ter filho. Quando fiz trinta anos achei que estava velha, que não podia usar determinada roupa. Mas esse pensamento ridículo não durou três meses. Sei que uma mulher de trinta anos é uma menina (risos). Mas não tive crise de idade, não. Tenho 44 anos e nunca tive dor de idade. Sou uma pessoa que vai querer morrer, mas não tenho problema com isso.

Você tem poemas que abordam o envelhecimento: ”Por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo”. ”O tempo riscou meu rosto com uma navalha fina”. Como é a sua relação com o tempo?

VM – Posso morrer com uns 95 anos, minha família vive muito. Eu adoro a velhice! Tenho saudade da minha velhice, quase. O tempo tira determinadas expectativas. Já não dá mais para ser bailarina, não preciso sofrer. Tenho uma lista de livros para serem lidos. A vida não para, não tem pausa. Não tenho medo da morte. Mas tenho um filho, então só posso morrer depois dos setenta.

O que é ser mãe?

VM – Ser mãe é mudar radicalmente de perspectiva. Quando Davi nasceu, aprendi a esperar e a ser portadora de algo. No primeiro ano de vida do meu filho, não existi como “eu”. Existi para o trabalho, que era para ele. Sempre defendi o não ser. O ”eu” é a desgraça contemporânea, uma centralização em torno do nome. Somos muito mais do que o ”eu”, que é reduzido. O meu filho me faz exercitar menos o ”eu”. Davi é a palavra, ele fala coisas incríveis com um discurso elaborado. As pessoas se impressionam, é engraçado.

Na infância, você teve relação com livros?

VM – Tive. Meu pai só cursou o segundo grau, supletivo, porque teve de trabalhar para ganhar dinheiro. Mas ele sempre foi apaixonado por estudo. No almoço, meu pai sempre discutia um livro que estava lendo. Eu digo, explicitamente, me relacionei com os livros para seduzir meu pai.

Quais escritores influenciam o seu trabalho?

VM – Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Machado de Assis, Drummond, Arnaldo Antunes, Manuel de Barros e Guimarães Rosa. Tenho muita dificuldade com outras línguas. Leio bem, mas não falo e não escrevo nada em outro idioma. É um problema.

Você lê os contemporâneos?

VM – Leio pouco. Quando leio literatura, sempre vou para os clássicos. Até na filosofia é assim, raramente leio filosofia contemporânea. O mais recente que li foi o Arnaldo Antunes. Falta tempo. Mas nos próximos anos quero me dedicar mais a literatura do que a filosofia.

”Nietzsche, João Cabral de Melo Neto, Jorge Luis Borges, Clarice Lispector, Michel Foucault, Tom Jobim e Astor Piazzola. Mas meu grande ídolo mesmo é Pelé”. É isso mesmo?

VM – (Risos.) Sim, é o Pelé. Adoro futebol. O futebol é uma arte impressionante, como se o mundo estivesse no pé. Pelé é um gênio do futebol. Adoro o Garrincha, mas o Pelé me emociona.

Você tem dois sambas compostos com a Martinália?

VM – (Risos.) São antigos. Conheci o Martinho da Vila, em Vitória, num encontro de arte negra, o Quizomba. Tentei ser letrista com a Martinália, mas nunca me satisfiz. Uma letra chama-se ”Contradição” e a outra ”Não me balança mais”. O Emílio Santiago e Martinália gravaram. Tenho outras letras não gravadas em parceria com compositores capixabas. Mas essa não é minha praia, é difícil.

Você estreou como atriz no monólogo de sua autoria, Pensamento Chão, dirigido por Ana Kfouri, em cartaz no Teatro Sérgio Porto, em janeiro de 2001. Em novembro e dezembro de 2004, esteve em cartaz no Teatro ArteClara com o monólogo Receita para lavar suja, dirigido por Daniel Rocha. Você também é atriz? Pretende voltar a atuar no teatro?

VM – Não trabalho como atriz. Sou muito ruim como atriz porque só sei fazer o meu papel. Num espetáculo de poemas, eu me transponho a um personagem meu. O que sei fazer é ficar no palco falando poemas. Em 2009 quero fazer um novo espetáculo de poemas. É isso que me interessa. Sabe qual o meu sonho de vida? Falar poemas num teatro grande, como o Theatro Municipal. É um sonho megalomaníaco.

Como consegue conciliar a professora de filosofia, a poeta, a mãe, a apresentadora de TV e a esposa?

VM – Faço uma coisa de cada vez. Quando escrevo filosofia, tenho de eliminar a poesia. Espero que um dia tudo isso se junte. Espero um dia escrever poesia com filosofia e vice-versa. É difícil, mas um dia, quem sabe…

O que é mais importante para você?

VM – Transformar a intensidade em signo. É o mesmo que viver. Viver é transformar a vibração em palavra, signo. O que importa é manter os poros abertos para continuar sentindo. A coisa mais importante do mundo é ser um filtro. Recebo o tempo inteiro da vida.

As pessoas estão interessadas em literatura?

VM – Muito! Quando cheguei ao Rio, para falar poesia no CEP 20000, eu dava autógrafo no Posto 9. No Rio de Janeiro, fiquei conhecida pelos poemas. Sabe por que poesia vende pouco? Porque um livro de poesia dura a vida inteira. É diferente do romance, acabou você sabe o final.

Você tem experiência em falar seus versos em público. Qual a importância do CEP 20 000?

VM – Conheci o Chacal em Vitória, nas minhas falações de poesias. Eu nem tinha um livro escrito. Quando vim morar no Rio, fiz uma oficina com o Chacal no Parque Lage. A oficina acabou, mas o grupo ficou se reunindo por dois anos. Depois, fui convidada para participar do CEP e fiquei. O CEP é uma das coisas por que mais tenho carinho no Rio de Janeiro. O CEP faz as pessoas virarem adultas sem enlouquecer, sem se matar. O CEP deveria ser política pública. O Chacal e o (Guilherme) Zarvos inventaram algo que vai ficar eterno.

Você publicou um livro sobre a Stela do Patrocínio. Como você descobriu a Stela? Qual a relação entre a loucura e a arte?

VM – A Stela é uma das pessoas mais incríveis que já existiu. Na época, fui convidada pelo diretor do Museu Bispo do Rosário para organizar a área de literatura. Fiquei lá um tempo catalogando e no meio disso apareceu um livrinho da psicóloga da Stela do Patrocínio. Então, resolvi procurar a Stela e me disseram que ela já tinha morrido há muitos anos. Fiquei arrasada. Contei minha angústia para o Chacal e ele disse já ter ouvido falar na Stela. O Cabelo, do grupo Boato, falava poemas dela no CEP. A estagiária, Carla Gaiarde, era a melhor amiga do Cabelo e tinha as fitas de entrevista da Stela. Ela me deu as fitas e consegui fazer o livro.

Por que você escolheu estudar Nietzsche?

VM – Porque me apaixonei por ele aos 16 anos. Desde o primeiro dia de aula, na faculdade de psicologia, quando o professor falou de existencialismo. Ao mesmo tempo conheci o Daniel Lins, que na época trabalhava como terapeuta em Vitória e fazia um grupo para estudar Nietzsche. E depois conheci o professor Nelson Lutero. Cresci com o Nietzsche, fiz mestrado e doutorado.

Qual a importância do filósofo Roberto Machado na sua vida?

VM – Toda. Se Chacal tem importância para mim na poesia, o Roberto Machado é fundamental na filosofia. Conheci o Roberto na graduação, quando apresentei um trabalho chamado ”Nietzsche, Artaud e a Arte”. Fiz mestrado na PUC-RJ só para estudar com ele.

Por que a maioria das pessoas tende a achar que filosofia é chata?

VM – Porque os professores são chatos. Não todos, mas alguns. A Filosofia tem de resgatar o saber explosivo, o exercício vivo do pensamento. Mas ela fica chata quando alguém ensina como uma coisa morta. A Filosofia está morta por culpa da universidade. Como diz Cristóvão Buarque: ”A universidade é um cemitério de intelectuais.” A Educação está enterrada, a universidade precisa se renovar.

Como foi a experiência de trabalhar com Murilo Salles, em Nome Próprio?

VM – Quando fui convidada, achei que não fosse conseguir fazer. Mas o Murilo falou: “O filme está pronto, na verdade você vai inserir poemas em determinadas cenas.” Decidi que faria o trabalho em trinta segundos de filme, fiquei impressionada com a câmera do Murilo. Fiz o filme porque fala de transbordamento e intensidade. Amo. Foi uma ótima parceria. O Murilo me convidou para participar de seu novo filme. Vou dar intensidade filosófica e poética para o texto dos personagens.

O que é poesia?

VM – É um estado poético. É o momento em que me encaixo na vida. Não sou nada, não tenho medo ou angústia. É situação de perfeição, rara (risos).

(Viviane ri da própria empolgação)

Você pode falar um poema?

VM – Vou falar um que eu adoro falar quando termino de falar poemas:

era tarde nas janelas da sala / gosto de tarde que eu queria lamber / eu tenho vontade de lamber as coisas que gosto / mesmo as que não gosto costumo lamber sem querer / às vezes com língua molhada escorrida / outras vezes com a língua da palavra / quando tem cheiros ruins ou asperezas estranhas ao paladar de minha pessoa / ou por nada mesmo por gosto / passo a língua nas coisas que vejo / e passo as coisas que vejo para língua

(Risos.)

O que você diria para um jovem que deseja ser escritor?

VM – Jamais aconselharia um jovem escritor a fazer Letras. Estudar Letras pode humilhar um iniciante. Para mim, é humilhante ler Clarice. Ninguém precisa escrever mais nada depois dela. Eu tenho sempre que matar Clarice para poder existir. A arte é igual para todos. Sou artista. O que é ser artista? Ficar disponível a exterioridade. Da vida interior não sai nada, é da relação com a vida. Temos que desenvolver a perplexidade do olhar, alguns suportam o fardo e continuam. O Nietzsche diz que a condição da arte é a coragem.

EUCANAÃ FERRAZ

ALGUMA POESIA - ESTREIA DE DRUMMOND COMPLETA 80 ANOS E GANHA EDIÇÃO LUXUOSA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

eucanaa

 

“Às vezes, as pessoas me perguntam que poeta jovem que estou lendo hoje… Drummond é o poeta jovem que estou lendo que me deixa impactado.” A afirmação do professor e poeta Eucanaã Ferraz é a prova de que os poemas de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) ainda têm muita vitalidade.

Alguma poesia, livro de estreia de Drummond lançado em 1930 pelo selo imaginário Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro, ganhou uma edição fac-similar organizada por Eucanaã Ferraz. A publicação — Alguma poesia, o livro em seu tempo (Instituto Moreira Salles, 2010) — é baseada no volume que pertenceu ao próprio autor e contém anotações de Drummond, que tinha 28 anos quando o livro foi editado, além de correspondências trocadas com amigos e críticas publicadas nesse período.

“É um livro importante não só para compreender a obra do Drummond, mas o movimento da poesia moderna como um todo”, explica Eucanaã ao falar e ler poemas da edição comemorativa do poeta mais influente da literatura brasileira. Confira a entrevista e alguns dos poemas do livro.

Qual a importância de lançar a edição especial fac-similar do primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, Alguma poesia?

Eucanaã Ferraz – Esse ano se comemora 80 anos da edição do livro, lançado em 1930. É o primeiro livro do Drummond, um marco na poesia moderna brasileira. Em função desta data, pensei em fazer algum tipo de comemoração… Sugeri que fizéssemos alguma coisa no Instituto Moreira Salles, onde cuido da programação de literatura. Mas não sabia exatamente o que fazer. Conversando com Pedro Drummond, neto do poeta, ele deu a ideia: “Por que vocês não fazem uma edição fac-similar do Alguma poesia?” Eu achei a ideia muito boa, até que ele me mostrou o livro e vi que a ideia não era só boa, era excelente. Porque não era o fac-símile de um exemplar, mas o exemplar que pertenceu ao Drummond. Você não tem só uma primeira edição, mas a primeira edição anotada, com pequenas emendas que o Drummond incorporaria na edição seguinte, que é de 1942. Isso torna, de fato, esse livro um tesouro. E uma coisa que o Pedro gosta muito, esse exemplar do Drummond tem uma capa dura em couro azul e, em baixo relevo, desenho do (ilustrador) Santa Rosa (1909-1956). Achei a ideia excelente. “Vamos fazer!” A ideia do Pedro era fazer mesmo o livro, com mesmo tamanho, para se ter o próprio livro na mão. Achei que a ideia era boa, mas talvez fosse melhor crescer um pouco… É melhor que o leitor tenha uma orientação: “O que é o livro? O que o livro significa? Que livro foi esse?” Fazer simplesmente o fac-símile não era suficiente. Resolvemos fazer o fac-símile dentro e acrescentar as críticas que saíram na época. Isso é uma coisa muito curiosa porque eu sempre ouvi falar que o livro tinha sofrido ataques muito fortes. Você imagina que tipos de ataques seriam… Mas, na verdade, eu nunca tinha visto. Na (Fundação) Casa de Rui Barbosa, no Arquivo-Museu (de Literatura Brasileira) há um arquivo enorme, organizado pelo próprio Drummond, onde se tem muitos recortes de jornais. E, espalhadas ao longo, várias críticas do livro. Então, reuni essas críticas, a primeira recepção do livro, todas de 1930, duas ou três de 1931. De fato, é um levantamento histórico da recepção crítica. Além do interesse para conhecimento do livro, é curioso compreender a própria crítica. Como é que se escrevia em 1930? Como é que se recebia, em 1930, um livro tão impactante quanto esse, de fato, tão moderno, tão arrojado? Participam desse mesmo universo da recepção do livro, que descobri também na Casa de Rui Barbosa, trocas de correspondências do Drummond com seus amigos. O Drummond mandava o livro e os amigos escreviam de volta. Amigos e outros menos íntimos… Há também um quadro da recepção do livro pelas cartas. Eu já tinha montado, portanto, o livro e a recepção do livro. E fiz um prefácio, uma apresentação, contando um pouco como o livro se construiu. Na verdade, quando o livro se constrói, em 1930, o meu texto para.

Alguma poesia é fundamental para entender a obra de Carlos Drummond de Andrade, pois neste livro encontram-se características que permanecem em sua produção poética. O que há de tão impactante na poesia do Drummond?

Eucanaã Ferraz – É um livro importante não só para compreender a obra do Drummond, mas o movimento da poesia moderna como um todo. Em 1930, juntamente com Alguma poesia, tem o primeiro livro modernista do (Manuel) Bandeira (1886-1968), Libertinagem, e o primeiro livro (Poemas) de Murilo Mendes (1901-1965). Três livros que são definitivos para a poesia moderna. Em 1930, há uma consolidação do Modernismo, que vai se desenvolver na década de 1920, sobretudo na Semana de 1922, como “Festa de inauguração” — há quem não considere inauguração, mas um fio de um processo… De qualquer modo, em 1930 há o fechamento de um ciclo e o início de outro ciclo da poesia moderna. Várias questões que evoluíram, foram tramadas ao longo dos anos 1920, se resolvem. A questão do nacionalismo se resolve de outra maneira, o olhar é mais crítico, mais diferenciado. E, ao mesmo tempo, há o processo de amadurecimento de certas técnicas. Não tem mais uma certa ingenuidade do primeiro Modernismo… O livro do Drummond, na verdade, leva dez anos para ser feito. Ele vai mandando os poemas, trocando correspondência com os amigos, sobretudo com Mario de Andrade (1893–1945), que tem um papel fundamental na construção deste livro.Alguma poesia é um divisor de águas da própria poesia moderna no Brasil. Com relação ao Drummond, esse livro é fundamental porque já temos o Drummond neste livro. Quando você lê o “Poema de sete faces” — embora seja um poema muito específico, com um tipo de construção que não se encontra, por exemplo, ao longo do livro — tem todas as faces do Drummond. Você tem humor, dramaticidade, choques, ritmos e, ao mesmo tempo, o senso da medida, quase metrificada… Um jogo com as repetições, um distanciamento irônico, que é típico do Drummond: “Vai, Carlos! Ser gauche na vida.” Ele está se vendo de fora, ele chama a si mesmo de Carlos, ele inventa uma cena onde ele é o personagem… Têm vários jogos estilísticos, certas questões psíquicas e emocionais que vão continuar ao longo da obra do Drummond. É como se o livro fosse um grande balão de ensaio para a obra futura, mais madura, do Drummond. Então, quando você lê esse livro é muito surpreendente porque ele soa muito moderno hoje. Às vezes, as pessoas me perguntam que poeta jovem que estou lendo hoje… Drummond é o poeta jovem que estou lendo que me deixa impactado. Tem muito frescor, humor, erotismo, experimentação… É um livro muito corajoso formalmente. É um grande livro.

 

> Leia três poemas do livro de estreia de Drummond

 

Poema de sete faces

Quando nasci um anjo torto

desses que vive na sombra

falou: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

As casas espiam os homens

Que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

Não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:

Pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos não perguntam nada.

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raymundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.

Infância

A Abgar Renault

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

Minha mãe ficava sentada cosendo.

Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras

lia a história de Robinson Crusoé,

comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu

a ninar nos longes da senzala – nunca se esqueceu

chamava para o café.

Café preto que nem a preta velha

café gostoso

café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo

olhando para mim:

– Psiu… Não acorde o menino.

Para o berço onde pousou um mosquito.

E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava

no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história

era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Coração numeroso

Foi no Rio.

Eu passava na Avenida quase meia-noite.

Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.

Havia a promessa do mar

e bondes tilintavam,

abafando o calor

que soprava no vento

e o vento vinha de Minas.

Meus paralíticos sonhos desgosto de viver

(a vida para mim é vontade de morrer)

faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente

na Galeria Cruzeiro quente quente

e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,

nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.

Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas

autos abertos correndo caminho do mar

voluptuosidade errante do calor

mil presentes da vida aos homens indiferentes,

que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.

O mar batia em meu peito, já não batia no cais.

A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu

a cidade sou eu

sou eu a cidade

meu amor.


DIRA PAES

DO CINEMA PARA LITERATURA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

dirapaes

 

Conhecida pelos filmes de que participou, e mais recentemente pela aparição na TV, com destaque para a Solineuza, do programa “A Diarista”, e a Norminha, de “O Caminho das Índias”, a paraense lançou em Paraty seu primeiro livro, Menina flor e o boto, dentro da Coleção Mãe África, da Língua Geral, voltada a narrativas infantis a partir de mitos e lendas. A iniciativa partiu de um convite da editora, que ela prontamente aceitou. Depois do sim, ela foi buscar saber o porquê dessa aceitação tão automática e espontânea. A resposta, encontrou na lembrança de sua avó que teria “visto o boto”, presenciado a lenda. O livro parte dessa reminiscência para contar a história da menina ribeirinha, que vai para a escola de canoa e ama mais as letras que as brincadeiras.

A seguir, a atriz e escritora fala sobre o livro, de como descobriu a literatura, dos personagens literários que já interpretou e recomenda o escritor paraense Dalcídio Jurandir, autor de uma bela saga amazônica, admirado por Jorge Amado, mas pouco editado hoje em dia.

Você está lançando pela Língua Geral, na Coleção Mãe Brasil, o livroMenina flor e o boto. Como surgiu essa nova experiência?

Dira Paes – Eu acreditava, mas não tanto, na máxima: plante uma árvore, escreva um livro e tenha um filho. E comigo, de certa forma, aconteceu isso. Foi um convite da Connie Lopes, uma das sócias da Língua Geral. A gente se encontrou, e ela falou assim: “Queria te fazer um desafio. Quero te convidar para ser umas das autoras da nossa Coleção Mãe Brasil.” Ela é inspirada na Coleção Mama África, em que eles experimentavam com autores de Língua Portuguesa da África. Uma história infanto-juvenil baseada numa lenda, que, no meu caso, por ser paraense e amazônica, seria uma lenda amazônica. Imediatamente eu falei sim. Só que depois que falei sim, pensei: “Onde fui me meter? Por que eu disse um sim tão espontâneo?” Tempos depois, agora que o livro está pronto, e que as coisas estão mais amadurecidas na minha cabeça, percebi que eu tenho essas histórias entranhadas no meu consciente e inconsciente, na minha formação. Comecei a lembrar nos tempos remotos da minha infância; o máximo que consegui lembrar: eu realmente ouvia as histórias das lendas amazônicas para dormir, antes de ouvir Cinderela e Branca de Neve. Antes de ouvir o universo infantil, literário, que só veio penetrar mesmo na minha vida aos 12 anos, pela puberdade.

Eu tinha que escolher qual lenda ia trabalhar a minha história. Aí lembrei que minha mãe contava que minha avó tinha visto o boto. Você sabe o que significa isso, você ver uma lenda? Minha avó viu o boto. “É isso, é isso que vou fazer.” Vou escrever a história da minha mãe, que foi essa criança ribeirinha, essa criança amazônica, essa criança que viveu a ilha e o rio como se fosse a sua rua. E vou colocar esse personagem rondando essa casa. O fato de estar aqui em Paraty é extremamente emocionante. Eu vivi em Paraty seis meses: três, quatro meses fazendo A floresta das esmeraldas (John Boorman, 1985), que é o meu primeiro filme; e o meu segundo trabalho, que foi Ele, o boto (1987), do Walter Lima Jr., que foi feito aqui (em Paraty). Eu falei: “É essa lenda que tenho que trabalhar mesmo”, e foi ótimo porque vieram as lembranças.

A menina flor é uma criança amazônica, que vive no seu habitat, uma ilha. Ela vai para a escola de canoa, volta da escola, ama as letras, decora seus livros e lições, declama para os irmãos que gostam mais de brincadeiras… Essa menina tem, vamos dizer, entre nove e onze anos, ela está no desabrochar de virar menina, de deixar de ser criança e virar menina. Durante esse período da família, o boto vai visitar a casa… Aí tem que ler o livro para saber (risos).

Na infância, você teve contato com livros?

DP – Não. Era a oralidade. O que eu consigo lembrar, de mais remoto, do livro… Tinham os livros, mas tinha uma escassez de impressão de livros infantis. Sou uma pessoa da classe média, muitos irmãos mais velhos, eu absorvia mais uma literatura juvenil dos meus irmãos do que uma literatura infantil. Lembro, assim, de começar no colégio a ter (acesso a) um volume de literatura infantil.

Você estudou teatro na Escola Estadual de Teatro Martins Pena (no Rio de Janeiro). Como foi o contato com a literatura dramática?

DP – Quando eu cheguei ao Rio e decidi ser atriz, eu fiz Martins Pena, CAL, fiz todos os cursos que apareceram… Mas me formei na Universidade do Rio de Janeiro (Unirio), que foi uma decisão maravilhosa. O autodidatismo dos artistas… Tem uma hora que você quer pertencer a uma classe, estar junto com pessoas que tem o mesmo interesse que você. E eu sempre fiz cinema, quase vinte anos de carreira, dezessete deles fazendo cinema, exclusivamente. Quando comecei a fazer televisão já estava formada pelo que eu queria: estudo de História da Arte, Teatro Brasileiro, Teatro Universal. A universidade foi maravilhosa para isso.

Que autor você descobriu nesse período?

DP – Minha primeira descoberta realmente foi Machado de Assis e, depois, José de Alencar. Foi a época que tinha quatorze anos, antes de fazer meu primeiro filme; o professor de literatura propunha redação sobre os livros. Eu tinha bloqueio com redação. Eu me boicotava muito, escrevia e, imediatamente, achava bobo o que acabava de fazer. Fizemos coisas muito interessantes que hoje eu paro pra lembrar. E depois, a partir dessa experiência, a gente começou a escrever nossos próprios textos. Acabou que a gente fez um caminho até, talvez, mais difícil. Nesse período, eu lembro que os romancistas brasileiros eram mais legais de fazer essa encenação.

Você é muito privilegiada por fazer bons filmes no cinema. Há algum personagem literário que tem orgulho de ter feito?

DP – O personagem mais literário que eu fiz foi a Leocádia, o primeiro amor de Castro Alves. Leocádia foi o primeiro amor, mas não foi o amor mais eloquente dele. Mas quando ficou muito doente, aos 24 anos, ele voltou para esse primeiro amor, como um lugar seguro, um lugar onde ele poderia estar. Inclusive, ele fez um poema como se ela estivesse falando com ele. Eu me lembro de algumas estrofes em que ela falava assim:

Onde vais ó estrangeiro

O que busca no solitário albergue do deserto

Por que cruzar os píncaros dos montes

Se podes achar o amor tão perto

Acho lindo demais. Era uma fala minha para o Castro Alves. É um personagem pequeno no filme, que é do (cineasta) Sílvio Tendler. (O filme é Castro Alves – Retrato falado de um poeta, 1998). É um filme de que gosto muito, e foi pouco visto. Acho que é o personagem mais literário que eu fiz. Adoraria fazer outros, adoraria. Será que estou esquecendo? Não. Acho que foi esse mesmo.

De quais poetas você gosta?

DP – O Castro Alves. Nessa época, rolou uma paixãozinha louca pelo Castro Alves. Dizem que ele era um homem irresistível, dizem que quando ele subia para declamar, desmaiava homem, mulher… (risos) Eu nutri um paixãozinha muito real por esse homem que existiu na vida. Eu li bastante Castro Alves, Augusto dos Anjos… Augusto dos Anjos tem um exercício vocal para ator que é incrível. Dos poetas paraenses, tem o João de Jesus de Paes Loureiro, um professor, primo do meu pai, um grande filósofo paraense. Eu estou numa fase voltada para a Amazônia. Tenho uma vontade de ir fundo, não tanto de poesia, mas de literatura amazônica. Onde estou agora é no Dalcídio Jurandir. Muita gente não conhece o Dalcídio Jurandir, é normal não conhecer. Mas estou querendo muito divulgar esse grande nome da literatura brasileira, para fazer um paralelo entre os grandes autores: ele seria um Guimarães Rosa da Amazônia se tivesse sido mais relacionado, no sentido de se promover na sua época. Ele é contemporâneo do Graciliano Ramos, ele é um dos “musos” do Jorge Amado, uma pessoa incrível. Estou recomendando mesmo: Dalcídio Jurandir. Não temos as obras dele, só em sebo, é uma dificuldade muito grande de se conseguir. Ele tem uma saga norte, que são dez livros, sendo nove livros amazônicos e um livro que se passa no Rio Grande do Sul. Eu estou apaixonada por esse universo.

Você gosta do Milton Hatoum?

DP – O Milton foi uma injeção de ânimo para a descoberta desses literatos amazônicos. E o Milton, apesar de ser manauara — porque ele é de Manaus, e eu sou paraense — ele tem uma universalidade daquela Amazônia. Eu, como paraense, percebo algumas diferenças entre as influências, mas é impressionante… Eu ainda não o conheço pessoalmente, a gente já se conhece de e-mail. Os livros dele eu gosto muito. Comecei com Dois irmãos (Companhia das Letras), como todas as pessoas estão começando, mas o Cinzas do Norte (Companhia das Letras) me pegou mais profundamente — foi mais inusitado para mim.

Em Menina flor e o boto (Língua Geral, 2009), aparecem vários termos amazônicos.

DP – Eu tentei usar dos meus “paraensismos” todos porque eu, como paraense, me sinto muito estrangeira, quando vou falar. Agora menos até, assim: azeite de andiroba, copaíba, cupuaçu, taperebá, uchi, bacuri, tracajá… É uma linguagem que dá para fazer uma poesia só de falar os nomes amazônicos, você pode colocar em qualquer ordem que vai falar de poesia. Então, imagina numa atividade extraclasse você colocar esses nomes, colocar as crianças para tirarem e começar com um nome. O que é cupuaçuzeiro? Ou açaizal? O próprio boto. A minha expectativa com o livro é aguçar a curiosidade em torno de palavras muito comuns para uma criança amazônica e totalmente incomuns para uma criança que não teve essa relação com a Amazônia. Um afilhado meu, o Lourenço, oito anos, disse: “Tia, mas seu livro é difícil.” É? E o que é difícil? “Olha aqui: a-ça-i-zei-ro; cu-pu-a-çu-zei-ro; ta-pe-re-ba-zei-ro.” Falei: “É porque você não conhece.” Na verdade, ele tinha entendido a historia, tinha absorvido, mas realmente: cu-pu-çu.. cu-çu.. cu-a-pu.. Nem eu sei falar mais essa palavra (risos). Cupuaçuzeiro, pronto, foi. Mas achei legal essa observação porque era isso que eu queria realmente despertar. E eu perguntei: “O que é cupuaçuzeiro?” Ele: “O quê?” “Você não toma suco de cupuaçu? Já experimentou?” “Ah é, a árvore do cupuaçu.” E aí começa a descobrir.

Você lembra algum poema de cor?

DP – Eu não tenho. Engraçado, outro dia eu estava conversando com meu marido sobre isso: os que conseguem declamar; é um exercício. Eu já declamei muito, e já decorei poemas enormes. Mas é como se eu precisasse vagar o espaço para entrar outras coisas. Então, eu não me atreveria a declamar, mas, por exemplo, tem coisas que eu gosto muito: de Manuel de Barros. Ele traz uma sensibilidade muito acessível e muito atemporal; parece que ele está escrevendo para um ser humano que não tem idade. Eu aprecio muito, mas eu não sei de cor. Infelizmente vou ficar devendo.

Então, fica a indicação do filme do cineasta Pedro Cezar: Só dez por cento é mentira — um documentário sobre Manuel de Barros.

DP – Ainda não assisti. Quero ver.

 

DANIEL GALERA

GALERA E SEU RANCHO DE PALAVRAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

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Daniel Galera é escritor, tradutor e editor. Mas também tem fases de envolvimento com jornalismo, música e design gráfico. Mora em São Paulo, mas viveu durante algum tempo em Porto Alegre – onde exerceu, em 2005, o cargo de coordenador do Livro e da Literatura na Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura. Cultura – especificamente a literatura – o acompanha desde a infância.

“Tive incentivo para ler; meus pais liam muito, tinham livros à vista pela casa. Considero-me muito mais leitor que escritor. Só me ocorreu que podia tentar escrever lá pelos 16 ou 17 anos, mas quando descobri a força da expressão por meio da literatura não consegui abrir mão dela. Parar de escrever me traria de volta a um estado relativamente solitário ao qual, por enquanto, não tenho interesse em retomar”, revela Galera.

Seu livro Mãos de Cavalo foi indicado ao 49º Prêmio Jabuti, concorrendo com os consagrados escritores Moacyr Scliar e Luis Fernando Veríssimo. O primeiro romance, Até o dia em que o cão morreu foi adaptado para o cinema por Beto Brant e Renato Ciasca, no filme O cão sem dono.

“Gostei do filme. É uma releitura, tem a visão de outros autores ali, e isso dá novo sentido à minha história. Ao mesmo tempo, a adaptação foi bem mais fiel ao livro do que eu esperava. Achei que mudariam quase tudo, mas, no fim, o essencial está preservado. Há diferenças, é claro. O filme dá um tratamento mais redentor ao protagonista e omite a versão da personagem Marcela para a história – o que me incomoda um pouco –, mas não é algo que o comprometa. Acho Cão sem Dono inteligente e intenso, tanto em termos de narrativa quanto de estética”, defende.

Galera já está trabalhando num novo romance, que faz parte do projeto Amores Expressos. Ele passou um mês em Buenos Aires e agora tem a missão de escrever uma história de amor ambientada na cidade.

“Creio que pude aproveitar muito bem a oportunidade. Estou no meio do romance, e acho que está ficando bom. É uma história que poderia se passar em qualquer lugar, mas a situei na Argentina – porque foi para lá que resolveram me mandar –, e isso lhe deu uma cor inesperada. Adorei Buenos Aires, mas não vivi nenhuma estranheza na cidade; ela é muito acolhedora e tem algo semelhante a Porto Alegre, onde passei 80% da minha vida. O que mais me atrai em Buenos Aires é a carne”, brinca.

A entrevista foi realizada, por e-mail, na época da pré-estreia do filme.

O que você mais gosta de escrever: conto ou romance? Sentiu muita diferença ao passar de uma estrutura para a outra?

Daniel Galera – Gosto dos dois. Passar de um para o outro não fez muita diferença. Um conto é um tiro de 50m (ou um salto ornamental), um romance é uma travessia em alto-mar, mas no fundo é tudo natação. Sinto falta de escrever contos, que foi o gênero com o qual comecei. Estou escrevendo outro romance agora, mas adoraria me dedicar a um punhado de contos depois disso. É um projeto.

Por que você escreve?

DG – Isso é um pouco como perguntar “por que você fala?” ou “por que você usa expressões faciais?”. Escrevo para me expressar, não sei justificar de outra forma.

Enxergo a presença constante da angústia em todos os seus livros. Você se considera muito angustiado?

DG – As pessoas vivem me chamando de sério, introspectivo, angustiado, mas por dentro eu me acho bem feliz e saltitante. Já me acostumei com isso, deve ser a minha cara, meu jeito de falar, sei lá. Quando me bate angústia, eu a mastigo com gosto – é crocante –, mas não é frequente. Já tentei muito ser angustiado e infeliz, mas não consigo.

Seus personagens, na maioria das vezes, estão passando por uma crise existencial. Como ocorre o seu processo criativo? Você cria durante suas crises?

DG – Minhas crises existenciais cabem nos dedos de uma mão. O resto é frescura; aquela coisa de acordar meio de mal com a vida, tomar um trago e acordar bem no dia seguinte. Aproveito as crises e os ataques de frescura para pensar um pouco e ter ideias, mas não consigo escrever nada nesses períodos. Acho que meus personagens não passam exatamente por crises, mas estão sempre tentando interpretar o mundo, se dedicando ao esporte inútil de cultivar certezas.

Como é sua relação com as letras? Teve incentivo da família para se aproximar dos livros?

DG – Tive incentivo para ler; meus pais liam muito, tinham livros à vista pela casa. Considero-me muito mais leitor que escritor. Só me ocorreu que podia tentar escrever lá pelos 16 ou 17 anos, mas quando descobri a força da expressão por meio da literatura não consegui abrir mão dela. Parar de escrever me traria de volta a um estado relativamente solitário ao qual, por enquanto, não tenho interesse em retomar.

O seu primeiro livro Dentes Guardados está disponível para download na Internet. Por que se interessou em fazer isso? Como é a sua relação com a Internet?

DG – O Dentes Guardados teve duas edições independentes que esgotaram. Não tenho interesse em republicar o livro em papel, mas sei que muitos leitores ainda o procuram, então achei que seria legal deixá-lo no meu site para download, bonitinho, em PDF, com uma foto de bigode. Muita gente o baixa.

Como foi assistir à adaptação do seu livro Até o Dia em que o Cão Morreu para o cinema? Ficou satisfeito?

DG – Gostei do filme. É uma releitura, tem a visão de outros autores ali, e isso dá novo sentido à minha história. Ao mesmo tempo, a adaptação foi bem mais fiel ao livro do que eu esperava. Achei que mudariam quase tudo, mas, no fim, o essencial está preservado. Há diferenças, é claro. O filme dá um tratamento mais redentor ao protagonista e omite a versão da personagem Marcela para a história – o que me incomoda um pouco –, mas não é algo que o comprometa. Acho Cão sem Dono inteligente e intenso, tanto em termos de narrativa quanto de estética.

Li resenhas que relacionam o seu último romance, Mãos de Cavalo, com a crise dos trinta anos. O que pensa sobre isso?

DG – Não sei o que seria uma crise dos trinta anos. Daqui a algum tempo descobrirei se tal coisa existe. Meu personagem passa por uma crise particular. É uma tensão entre adolescência e maturidade. Ele acredita que descobriu quem é e planeja a vida toda com base nessa descoberta, mas é claro que sua convicção logo vai por água abaixo.

Como está sendo a experiência de participar do projeto Amores Expressos? O que mais o atrai em Buenos Aires?

DG – Creio que pude aproveitar muito bem a oportunidade. Estou no meio do romance, e acho que está ficando bom. É uma história que poderia se passar em qualquer lugar, mas a situei na Argentina – porque foi para lá que resolveram me mandar –, e isso lhe deu uma cor inesperada. Adorei Buenos Aires, mas não vivi nenhuma estranheza na cidade; ela é muito acolhedora e tem algo semelhante a Porto Alegre, onde passei 80% da minha vida. O que mais me atrai em Buenos Aires é a carne.

Do que se trata o próximo livro?

DG – Gravidez e limites entre vida e literatura.

A sua passagem por Porto Alegre parece ter marcado a sua escrita. O que mais o atrai na cultura dos gaúchos?

DG – Porto Alegre é meu habitat. Posso passar o resto da minha vida morando em outros lugares, mas sou um bicho de lá. Não é questão de ter atração pela cultura, mas a noção de pertencer a um lugar.

Como surgiu a ideia da editora Livros do Mal?

DG – Surgiu quando três amigos que não apenas escreviam, mas também gostavam da ideia de editar livros, perceberam que era possível criar um selo caseiro e colocar uns livrinhos para circular, precisando somente de um pouco de dinheiro (conseguido em parte com um financiamento cultural da Prefeitura) e know-how básico de produção editorial. Foi quase como criar um fanzine, só que um pouco mais elaborado.

Como é ser um jovem escritor no Brasil?

DG – Essa pergunta trava o meu sistema operacional sempre. Desculpa, não sei responder.

Quais são as suas maiores influências?

DG – Tchekhov, Philip Roth, Georges Bataille, Abel Ferrara, Sam Peckinpah, a revista Piratas do Tietê e os jogos da série “The Secret of Monkey Island”.

Que autores contemporâneos você lê?

DG – Inúmeros, mas, no Brasil, da minha geração, destacaria Daniel Pellizzari, Joca Reiners Terron, Edward Pimenta, Simone Campos, João Paulo Cuenca e Paulo Scott. Gosto muito de Sérgio Sant´anna e João Gilberto Noll. De fora, estou lendo muito os americanos Cormac McCarthy e o David Foster Wallace, e tem um inglês também, David Mitchell, que eu adoro. E ando correndo atrás de uns latino-americanos. Andei lendo Mario Levrero e Andrés Neuman, para citar uns vivos, e Onetti e Bolaño, na patota dos já falecidos.

O que você diria a um jovem que deseja se tornar escritor?

DG – Nunca esqueça que não há evidência nenhuma de que qualquer ser humano na face da terra esteja minimamente interessado no que você tem a dizer.

DODÔ AZEVEDO

DJ DE PALAVRAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

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Dodô Azevedo é um indivíduo que faz “tudo-ao-mesmo-tempo-agora” e que não se incomoda em assumir que nem tudo que resolve fazer é sempre bom. Escritor, DJ, professor de literatura, pesquisador e crítico musical, ou seja, ele é um DJ de palavras.

“O homem sempre foi múltiplo; o Leonardo Da Vinci é um dos paradigmas disso. Você não encontra nenhum escritor anterior ao século XIX que não tivesse uma segunda profissão. É claro que ele pode ser melhor em uma coisa do que na outra, mas isso é outra história. Todo mundo faz tudo. Assumo, e não tenho nenhum pudor de dizer isto: algumas coisas não faço bem… É uma bobagem afirmar que só existe um modo de fazer bem alguma coisa”, defende.

O que ele faz melhor?

“Hoje? DJ! Estou no auge da minha maturidade como DJ, até porque, de todas as atividades, é a mais fácil’”

Seu primeiro livro Pessoas do Século Passado, uma referência na literatura da virada deste século, foi seu trabalho de estreia. Mas é com DJ Pessoal – Áudio-Ajuda (ambos da editora Rocco) que ele afirma que veio para ficar e escrever sobre o umbigo do leitor.

“O Áudio Ajuda surgiu na gestação do que seria meu segundo livro, o Pé na Estrada. A Rocco acompanhou uma viagem que fiz em 2003, na época do lançamento do meu primeiro livro, a mesma viagem que fez Jack Kerouac comOn The Road. Fui com a Luiza Leite, uma fotógrafa brasileira que mora nos EUA. Mas aí a editora me convidou para realizar o Áudio Ajuda. Esse seria o livro para viver uma vida ideal, uma audiobiografia ideal.”

Num restaurante do cinema Arteplex, em Botafogo, no Rio de Janeiro – entre uma garfada e outra num waffer coberto de sorvete – Dodô revelou como consegue administrar tantas ideias e palavras simultaneamente.

Entre no ritmo dessa conversa.

Escritor, DJ, professor de literatura e linguística, além de pesquisador crítico musical; como você consegue transitar em todas essas áreas?

Dodô Azevedo – É natural, porque todas elas têm em comum a arte. E, mesmo que não tivessem, ainda seria natural. Essa história de que nós fazemos uma coisa só na vida é invenção recente da Revolução Industrial. O homem sempre foi múltiplo; o Leonardo Da Vinci é um dos paradigmas disso. Você não encontra nenhum escritor anterior ao século XIX que não tivesse uma segunda profissão. É claro que ele pode ser melhor em uma coisa do que na outra, mas isso é outra história. Todo mundo faz tudo. Assumo, e não tenho nenhum pudor de dizer isto: algumas coisas não faço bem… É uma bobagem afirmar que só existe um modo de fazer bem alguma coisa. Mas só entro em algum projeto quando eu não tenho dúvidas que vou conseguir realizá-lo. Tenho uma banda, por exemplo, em que os membros tocam todos os instrumentos…

E qual instrumento você toca melhor?

DA – Nenhum… (Risos.) Não falei para você que não tenho vergonha de assumir quando não faço algo bem?!

Então, o que você faz melhor?

DA – Hoje? DJ! Estou no auge da minha maturidade como DJ, até porque, de todas as atividades, é a mais fácil.

Mas, se é tão fácil ser DJ, por que você lança um livro chamado Áudio Ajuda?

DA – O livro mostra exatamente como é fácil; ensina as pessoas a perceberem o DJ que existe dentro delas. No dia do lançamento, uma pessoa chegou para mim e disse: “Dodô, faltou incluir “Get Up Stand Up”, do Bob Marley, na lista de músicas para funeral.” Achei genial… Essa pessoa é tão DJ, ou melhor, do que eu. Era um leigo, que conseguiu despertar o DJ adormecido. Se a ideia do primeiro livro é despertar o escritor e a ideia do segundo é despertar o DJ, então sou um professor. E, de fato, sou professor, então não há nada desconectado.

E o que você não fez ainda, mas gostaria de fazer?

DA – Dirigir um longa-metragem. Já fiz um curta e gostei tanto, que quero fazer um longa com o Pessoas do Século Passado. Acredito que esse livro daria um bom filme, como Magnólia. Ah, mas ainda quero fazer cenário para uma peça de teatro, fotografia…

E o que chegou primeiro? A música ou a literatura?

DA – O cinema. Ele junta literatura e música, o que me encanta. Assisti ao Guerra nas Estrelas, em 77, aos sete anos de idade, e isso me despertou para os quadrinhos. Os filmes da Disney me despertaram para a música. Ah, e não disse antes, mas dou aula sobre o Stanley Kubrick.

Como funciona o seu processo criativo? É diferente em cada área?

DA – Há dois processos criativos para mim: a ideia e a execução. A ideia, a famosa inspiração, aparece de repente. Então, paro para a executar, é uma construção. Não tenho disciplina nenhuma para sentar e escrever ou compor. Só faço isso quando vem a ideia, e, muitas vezes, passo meses sem nenhuma. Quando tenho várias ao mesmo tempo, é problema sério…

De que forma você chegou a uma editora para publicar seus livros? Foi fácil ou difícil?

DA – Foi difícil chegar a uma editora. Por incrível que pareça mais difícil chegar a uma editora pequena do que a uma grande. Uma editora grande é movida pela subjetividade, ou seja, publica o que o corpo de profissionais diz que tem qualidade e vale a pena. Uma editora pequena, em 90% dos casos, é feita por profissionais que vieram de uma editora grande e publica apenas os amigos – eventualmente, estes são mais talentosos do que os autores publicados numa grande editora –, o que é até natural, mas é preciso uma abertura… Estou falando isso para mostrar como é difícil publicar. E, mais difícil do que publicar, é um novo autor conseguir espaço na imprensa.

Pessoas do Século Passado antes de ser livro era uma festa?

DA – Não, veio tudo junto. Mas, como a festa é só fazer, ela veio um pouco antes…(Risos.) Pensei como um projeto: festa, site, livro, companhia de teatro e, eventualmente, cinema – acho que seria um ótimo nome para uma produtora.

E como surgiu o Áudio Ajuda?

DA – O Áudio Ajuda surgiu na gestação do que seria meu segundo livro, o Pé na Estrada. A Rocco acompanhou uma viagem que fiz em 2003, na época do lançamento do meu primeiro livro, a mesma viagem que fez Jack Kerouac com On The Road. Fui com a Luiza Leite, uma fotógrafa brasileira que mora nos EUA. Mas aí a editora me convidou para realizar o Áudio Ajuda. Esse seria o livro para viver uma vida ideal, uma audiobiografia ideal. Escrevi esse livro em três meses, parei tudo na minha vida para escrevê-lo. Para escolher as 10 melhores músicas de cada tema, ouvia umas 150 músicas…

O que mudou depois que você publicou o primeiro livro?

DA – Ninguém se tornou meu conhecido ou amigo por causa do livro. Todos os conhecidos já sabiam que eu era escritor. E também continuei com a mesma postura, não houve diferença. Depois que fui ao Jô, para falar do Pessoas, me reconheciam, mas não sabiam que eu era escritor. As pessoas não compravam meu livro…(Risos.) Já o Áudio Ajuda mudou tudo, as pessoas passaram a me enxergar como escritor.

Seus pais o influenciaram de alguma maneira?

DA – Meu pai tinha o hábito de ouvir muita música, tinha uma coleção de vinis. Com cinco anos de idade, eu já ouvia tudo de bom nessa vida: Beatles, Pink Floyd, Cartola, Clube da Esquina… Meu pai também lia muito, ele era muito politizado, então eu achava tudo muito chato e não lia. Ficava na rua jogando bola, fui ler depois, aos 19. Tenho grande identificação com o Bukowski, que só decidiu ler e se tornar escritor depois que descobriu Fante. Comigo foi assim, com o Cortázar, em O Jogo de Amarelinha. Aí falei: quero ser escritor.

Quais são suas maiores influências?

DA – No cinema, Peter Greenaway, Stanley Kubrick, Jim Hargos e Steven Spielberg. Na música, tive a influência do rock independente dos anos 80, o que chamam de college rock. Depois vieram as influências de Domingos Oliveira, Tom Zé, Cartola e Caetano Veloso. Tem gente que é do time do Chico, sou do time do Caetano.

De que maneira a Internet entra na sua vida?

DA – A Internet é a realização física do que eu já vivia desde os anos 70. Ou do que o Borges já vivia na literatura dele, desde os anos 30. Ou do que o próprio Da Vinci vivia no seu tempo. Ela é a materialização disso, é o veículo que o homem inventou para fazer o que ele já fazia antes.

Você lê os seus contemporâneos?

DA – Não, por falta de tempo. Estou com uma fila enorme e dando prioridade para quem veio primeiro. Sei que é meio maluco, porque estou dizendo para as pessoas não me lerem… Mas, por isso, tento não fazer um livro-umbigo, procuro descrever o umbigo do leitor.

Em seu novo livro, você cita uma pesquisa que diz que o homem contemporâneo ouve, voluntária ou involuntariamente, aproximadamente dois milhões de canções durante toda a vida. Em que momento você fica em silêncio?

DA – Minha mulher falou outro dia que faço um barulho angustiante quando estou escrevendo. Acho que nunca fico.

O que você falaria para os jovens que desejam escrever?

DA – Leiam, leiam… Até encontrar o que vocês gostam e começar a escrever.

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