THIAGO PETHIT

ENTRE BERLIM E TEXAS

Por Ramon Nunes Mello E Márcio Debellian [SaraivaConteúdo – 2010]

   

thiagopethit

 

Um lugar dominado por cabarés misteriosos de uma Alemanha fria e pré-nazista, frequentado por cowboysencharcados de suor, que, segurando suas doses de whisky, exibem suas potentes garruchas no melhor estilo Velho Oeste. Por mais mirabolante que pareça, este local existe, perdido no tempo e no espaço dentro da mente do cantor paulista Thiago Pethit. O som ambiente ora parece de época, ora atual, numa mistura influenciada por nomes como Tom Waits, Kurt Weill e Bertolt Brecht, e criada em pleno século XXI. Para conferir do que se trata, não é necessário voltar no tempo, basta apenas colocar o recém-lançado álbum Berlim, Texas no CD player mais próximo.

 

“Tinha uma inspiração que poderia ser um universo de vaudeville, que eram aqueles teatros bizarros. Conforme as gravações foram rolando, eu sentia que tinha uma parte das músicas com um clima meio de cabaré de Berlim dos anos 1920. Uma ou outra tinha uma cara meio texana, de saloon, de mulheres dançando cancã. O nome do disco seria Prólogo, mas me soava muito empolado. Fiquei mirabolando nomes e, por acaso, fui numa locadora, olhei para o Paris, Texas (do Win Wenders), e falei: Nossa! Berlim, Texas!”, afirma o cantor em entrevista exclusiva ao Saraiva Conteúdo.

Pethit lançou o álbum de forma independente, desembolsando, aproximadamente, 25 mil reais com estúdio, mixagem e lançamento, ocorrido no último mês de abril. Produzido por Yury Kalil, do grupo Cidadão Instigado, o disco conta com tom melancólico de músicas como “Forasteiro”, “Não se vá” e “White hat”. O cantor, formado em teatro, foi morar em Buenos Aires em 2007, com o intuito de estudar literatura, porém acabou sendo levado para o cenário musical. Em 2008, lançou o EP Em outro lugar, já com músicas em francês e inglês, além do português, característica presente também em Berlim, Texas.

“Tenho muitas referências, entre elas o folk, mas o pop nos anos 2000 engoliu qualquer gênero. Eu não sou folk, não sou caipira, não sou hippie. Eu digo que eu faço pop universal contemporâneo. Comecei a fazer música porque eu descobri que podia criar um diálogo artístico com o mundo inteiro. Moro no Brasil, o mercado é brasileiro, que fala português, muita gente não fala inglês. Mas música você entende de algum jeito. Você escuta uma música em russo e algo inspira a gente”, afirma.

O cantor faz parte de uma nova geração de cantores paulistas, juntamente com Tulipa Ruiz, Tatá Aeroplano, Dudu Tsuda e Tiê, com quem faz parcerias em composições e shows. Além disso, ele a considera uma madrinha musical, pois a cantora o ensinou a tocar violão e piano e, segundo Pethit, o estilo tranquilo das músicas dela o interessava.

“A Tiê já tinha esse trabalho autoral dela desenvolvido e tem a ver comigo. É um jeito de dialogar com o mundo que me interessa, esse jeito de fazer as letras, esse tipo de sonoridade. É muito engraçado o jeito que a gente compõe junto. No disco dela, a faixa que se chama ‘Dois’, a letra é minha e dela. No meu EP, tem uma ou outra música que a gente fez junto. De repente, a gente está tomando chá, falando da vida e ela diz: ‘Ah, comecei essa música e não consigo mais fazer a letra’. E eu solto uma frase. Parece que encaixa muito naturalmente a letra”, diz o cantor.

Assim como Tiê, Thiago Pethit não se considera um instrumentista. Aprendeu a tocar para poder trabalhar com música e compor. Desde quando ingressou na área, já tinha certeza de que não gostaria de ser apenas um intérprete de músicas de outras pessoas. Aos poucos, sua sonoridade foi surgindo, juntamente com suas composições.

“Quando comecei a compor, eu não tocava instrumentos. As primeiras três músicas que estão no meu EP eu compus criando uma melodia na cabeça fazendo “lá, lá, lá” e passando pra alguém tirar a melodia. Aí eu descobri alguns acordes no violão. Essa relação com o instrumento automaticamente tornou tudo mais natural. E parece que o mais espontâneo era falar sobre mim, falar sobre o que tinha me acontecido, contar coisas. Ah, eu sou um pouco melancólico mesmo, não tem solução para isso”, conclui.

 

https://www.youtube.com/watch?v=MGtpiVicSjk

 

SANTIAGO NAZARIAN

PALAVRAS DE UM ESCRITOR PSICODÉLICO

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2006]

   

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O escritor paulista Santiago Nazarian, 29 anos, lança seu quarto livro – Mastigando Humanos (Nova Fronteira) – um romance psicodélico, repleto de ironia ácida, referências à cultura pop na voz de um jacaré, o seu protagonista.

Nos seus romances, personagens de livros anteriores passeiam pelos livros atuais, por exemplo, o Thomas Schimidt.

“É engraçado notar que em todos os meus livros há um embate entre o escritor estabelecido e o iniciante. É Olívio com Thomas, Miguel com Thomas, Lorena com o autor e Victório com Sebastian Salto. Então, da mesma maneira que quero ser Thomas Schimidt, quero matá-lo, enfrentá-lo, para manter a liberdade, a independência e os ímpetos criativos”, explica o escritor que tem como referência Oscar Wilde, Kafka, João Gilberto Noll e Caio Fernando Abreu.

Elogiado pela crítica e com uma legião de jovens fãs, Nazarian se estabelece como autor da geração 00 – discutida classificação que batizou os escritores do ano 2000 – e inaugura a coluna Click(in)Versos**, que se propõe a entrevistar jovens autores.

O que ele diria a escritores iniciantes?

“Façam gostoso. Façam por prazer. E não me mandem originais.”, ironiza.

Uma tentativa de entrevista aconteceu num bar do Baixo Gávea, no Rio de Janeiro, após um evento de literatura da PUC. Mas a empolgação dos jovens emos, que nos acompanhavam, não permitiu a conversa. Por fim, as perguntas foram respondidas por e-mail.

O que o motiva a escrever?

Santiago Nazarian – Talvez tenha começado para fugir do chapéu de “burro” na escola. Mas, bem, sempre criei histórias. Tinha a capacidade de lidar sozinho com um universo criado e materializado por minhas paixões e vontades, e de poder viver nele por algum tempo. Podemos chamar isso de um “autismo produtivo”.

Você foi redator de conteúdo erótico, isso influenciou sua maneira de escrever?

SN – Não, era uma escrita bem rasa, calcada em clichês. Talvez me tenha servido como exercício de diálogos coloquiais, só isso.

Como o Jacaré, protagonista do seu livro mais recente, você também escreve para combater a angústia, a depressão ou algo parecido?

SN – Não sei se escrevo exatamente para isso… Mas o efeito é esse. Talvez, quando me sinto desconfortável no mundo, a literatura me lubrifique para que eu passe pelo buraco… É aconchegante poder viver no seu próprio universo. É essa a sensação que tenho quando estou trabalhando num romance.

Por que a escolha de animais para dar voz aos personagens?

SN – Primeiro porque eu nunca o havia feito. Segundo pela necessidade de romper radicalmente com o realismo, essa “representação do humano – inclusive esse é o tema central em Mastigando Humanos. Era preciso encontrar uma maneira menos óbvia e previsível de representar isso.

Como acontece seu processo criativo?

SN – Ocorre antes de eu dormir, quando a inconsciência ronda meus pensamentos, e logo ao acordar, quando a consciência ainda não está totalmente estabelecida. São os momentos mais produtivos para eu escrever. Gosto de manter a porta aberta a esse fluxo do inconsciente, para que a narrativa se desenvolva de maneira mais espontânea. Depois, os fluxos são (re)trabalhados. Releio, acrescento, pesquiso e tiro coisas, mas o primeiro momento é um jorro. Jorro prazeroso, gozo gostoso…

Como é a sua relação com o universo multimídia?

SN – Já fiz algumas experiências multimidiáticas. Por exemplo, uma leitura ao vivo, em Santos, que se misturava com bases pré-gravadas. Acho interessante, quero experimentar mais nesse campo, mas não abro mão também do livro puro e simples.

Nos seus romances, personagens de livros anteriores passeiam pelos livros atuais, como o Thomas Schimidt, por exemplo. Esse é o escritor que gostaria de ser?

SN – Hum, sim, talvez meu “eu ideal público”. Mas é engraçado notar que em todos os meus livros há um embate entre o escritor estabelecido e o iniciante. É Olívio com Thomas, Miguel com Thomas, Lorena com o autor e Victório com Sebastian Salto. Então, da mesma maneira que quero ser Thomas Schimidt, quero matá-lo, enfrentá-lo, para manter a liberdade, a independência e os ímpetos criativos.

Quais foram suas maiores influências literárias?

SN – Wilde, Kafka, Noll, Caio, Mann e, mais recentemente, Dennis Cooper, William Burroughs, Saki, Paulo Henriques Britto. Mas ultimamente tenho lido autores contemporâneos. Acabo de terminar a obra mais recente do Noll e descobrir a Márcia Denser, que é fabulosa.

Sua mãe é escritora, ela o incentiva na escrita? Ou o inverso?

SN – Ela sempre me incentivou à escrita. Eu a incentivei à publicação. Ela sempre escreveu, só não tinha vontade ou coragem de publicar, mas, depois que abri a porta, resolveu experimentar. E gostou, então podemos esperar mais livros dela por aí. Mas nossa relação com a escrita é muito diferente, ela tem outros métodos e outros motivos.

O que você pensa da crítica atual?

SN – Rasa. Ninguém que trabalha em mídia impressa hoje tem tempo nem espaço para ler a fundo um livro e escrever sobre ele.

Você também trabalha como tradutor. Sente prazer nesse ofício?

SN – Sim. Bastante. É o que me dá mais prazer, depois do romance. Mais até do que fazer roteiros, por exemplo. E aprendo muito, muitíssimo traduzindo. Estou me esforçando para me tornar cada vez melhor como tradutor.

Nos livros anteriores, você aparece com a mão sangrando, agora aparece babando um líquido viscoso… Por que essa mudança?

SN – As fotos anteriores eram um link para a body art* e o conteúdo do livro; quase uma forma de me colocar como personagem, ilustração. Mastigando Humanos mantém isso. Mas nela estou babando como autoparódia, para afastar um pouco a aura soturna, a rigidez de estar sangrando em cada orelha. É uma brincadeira com o título do livro e também com a frase “todos os prazeres são orais”…

Esse seria o seu romance mais autobiográfico?

SN – Acho que não. Quer dizer, todos têm componentes autobiográficos, masFeriado de Mim Mesmo era mais relacionado objetivamente com minha vida, enquanto Mastigando Humanos é mais relacionado aos meus ideais e o universo criativo.

Seu último livro é mais cômico que os outros. É o Santiago ou a literatura dele que está mudando?

SN – Espero estar mudando constantemente, é proibido estacionar. Não posso com 29 definir o tom do que vou escrever até o final da vida, senão morro. É preciso estar aberto à experimentação, à mudança. O próximo livro também será diferente de Mastigando Humanos e dos anteriores.

Em Mastigando Humanos, seu protagonista tem um entrave em relação ao meio acadêmico. E você, o que pensa do meio acadêmico?

SN – Uma grande piada. Sinceramente, não sei como alguém pode levar a sério toda essa formatação do conhecimento, esses rituais de ensino. Porque se trata disso, rituais. Então, como podem se pretender absolutamente racionais, sérios? Essas são questões-chave do meu livro.

O que acha das universidades que têm cursos de formação de escritor?

SN – Como é impossível sobreviver diretamente de literatura no Brasil, escritores precisam encontrar outros bicos. A maioria está acima do peso e se dá melhor como professor do que como prostituto.

A crítica literária Beatriz Resende disse que Feriado de mim mesmo é o seu romance mais bem resolvido. Concorda?

SN – É meu romance mais “enxuto”, só isso. Meus favoritos continuam sendoMastigando Humanos e A Morte Sem Nome. Talvez sejam mais imaturos, exagerados, sim, mas é disso que gosto em literatura. E, aliás, para tirar proveito da imaturidade no papel também é preciso talento.

Alguns escritores e críticos acreditam na existência de uma “literatura gay”. Você acredita nesse tipo de classificação?

SN – Sim. Ou não. Acho que a boa literatura não pode ser reduzida só a isso. Mas acho que pessoas com sexualidade semelhante manifestam alguns traços semelhantes em suas obras, por exemplo.

“Todos os prazeres são orais”?

SN – Sim. Mas nem sempre o oral é um prazer.

O que diria para os jovens escritores que estão começando no universo literário?

SN – Façam gostoso. Façam por prazer. E não me mandem originais.

*A Body Art (do inglês, arte do corpo) está associada à arte conceitual e ao minimalismo. É uma manifestação das artes visuais onde o corpo do artista é utilizado como suporte ou meio de expressão. O espectador pode atuar não apenas de forma passiva, mas também como voyeur ou agente interativo.

** O Click(in)Versos surgiu como uma coluna de literatura no portal Click21. Três meses após a implementação do projeto, resolvi transformá-lo num blog.

 

OMAR SALOMÃO

MÚSICA E POESIA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

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Filho de uma entidade poética, Omar Salomão não teme a herança do pai – o poeta Wally Salomão – e ainda reverencia seu mestre em sua poesia. A conversa com o poeta de sorriso largo, e palavras precisas, aconteceu no Rio de Janeiro, na Livraria Letras e Expressões, no Leblon, bairro onde mora.

“Eu não estaria escrevendo poesia se não fosse meu pai. Ele certamente me influenciou bastante, não só pelo fato de ser pai, mas também por ser coruja; era muito carinhoso comigo. O poema que fecha o meu livro ele utilizou como prefácio no livro dele. Então, essa influência carrego no sobrenome.”, explica Omar, e completa:

“Meu pai me abriu várias portas, e num âmbito muito maior do que meramente publicar livro ou trabalho. Ele me ajudou com as amizades; conheci diversos amigos por meio do meu pai, como é caso da Heloisa Buarque de Hollanda, Marcelo Yuka, Ericson Pires, Antonio Cícero… Por outro lado, carrego todo o peso das pessoas me verem como o filho do Wally Salomão, até por conta da aparência física. Isso é complicado porque opressivo. As pessoas esperam que eu seja como meu pai ou pense da mesma maneira. Então, é um orgulho enorme ao mesmo tempo que uma luta para afirmar ‘eu sou outra pessoa’”.

O jovem artista multimídia quando criança queria ser astronauta e se tornou poeta. Publicou seu primeiro poema Pedras Portuguesas aos 13 anos, na revistaO Carioca. E hoje, aos 23 anos, é um dos apresentadores do programa Quarto Mundo (Multishow) e integrante da banda Vulgo Quinho & Os Caras, onde fala poesia. Omar ainda pretende terminar a faculdade de cinema na PUC–RJ, enquanto escreve outro livro.

“Acho letras um saco. Não acredito que uma pessoa vai escrever bem só lendo muito. É claro que tem que ler. Mas e a vida? O que adianta só ler e ficar naquele redemoinho de informações? Acho necessário um equilíbrio nesse casamento. Por que não letras? Porque letras fica nesse âmbito acadêmico, nesse preciosismo. Sou muito preconceituoso com a Academia”, confessa.

Seu primeiro livro de poesias – À Deriva (Dantes) – está cercado de prestígio: Marcelo Yuka e Heloisa Buarque de Hollanda assinaram, respectivamente, a orelha e o prefácio da obra. O texto mistura universos distintos – mitos, utopias e ideologias – infectados por palavras trabalhadas pela sua sensibilidade de “poeta-andarilho”.

“Estou deixando para ver aonde a poesia vai me levar, mesmo fugindo dela. Abro o livro com uma frase que, talvez, traduza: ‘Quis um dia ser poeta para me livrar de todas minhas frustrações’.”

Um bate-papo descontraído, regado à cerveja e poesia.

Omar, não tem como falar de você sem falar do seu pai – o poeta Wally Salomão. No prefácio do seu livro, há um canto da capoeira baiana que diz: “menino quem foi seu mestre?/meu mestre foi Salomão”. Como lida com a influência do seu pai?

Omar Salomão – Eu não estaria escrevendo poesia se não fosse meu pai. Ele certamente me influenciou bastante, não só pelo fato de ser pai, mas também por ser coruja; era muito carinhoso comigo. O poema que fecha o meu livro ele utilizou como prefácio no livro dele. Então, essa influência carrego no sobrenome.

É difícil trabalhar em uma área na qual seu pai se destacava? Ou, ao contrário, isso só lhe abre portas?

OS – São diversas facetas. Meu pai me abriu várias portas, e num âmbito muito maior do que meramente publicar livro ou trabalho. Ele me ajudou com as amizades; conheci diversos amigos por meio do meu pai, como é caso da Heloisa Buarque de Hollanda, Marcelo Yuka, Ericson Pires, Antonio Cícero… Por outro lado, carrego todo o peso das pessoas me verem como o filho do Wally Salomão, até por conta da aparência física. Isso é complicado porque opressivo. As pessoas esperam que eu seja como meu pai ou pense da mesma maneira. Então, é um orgulho enorme ao mesmo tempo que uma luta para afirmar “eu sou outra pessoa”. Às vezes, acho que quanto menos penso na forma como meu pai agiria, mais me pareço com ele.

Seu livro chama-se À Deriva (Dantes Editora). Há alguma relação em estar perdido e não saber se realmente quer seguir a poesia?

OS – Engraçado… hoje recebi um e-mail da Anna, da Livraria Dantes (no Rio de Janeiro)que diz o seguinte: “A vida só da vida se deriva.” (Do livro O Gabinete de Curiosidades, de Domenico Vandelli). E acho que é isso. O livro é derivação de minha vida. E tem essa ideia de estar à deriva, perdido. Mas não perdido em alto-mar, e sim perdido no alto mar – que representam milhões de influências. Se quero ser poeta? Não sei. O que é ser poeta? Não escrevo porque acho interessante o método ou a forma ou porque é bacana escrever poesia. Escrevo por necessidade.

Você consegue interagir com diversos meios. Seja escrevendo poesia, falando poesia na banda lítero-musical Vulgo Quinho & Os Caras, sendo um dos apresentadores do programa Quarto Mundo(Multishow) ou estudando cinema. Qual é o elo de ligação entre tudo isso?

OS – A poesia! (Risos.) A minha poesia é a forma como vejo a vida, e com esta o meu elo de ligação. Talvez seja esse o diferencial, seja isso que aprendi com a poesia. A ter um outro olhar! Na poesia se pesca sutilezas, obviedades e as transforma. E preso ao livro o suporte físico da poesia é muito limitado, por que não levá-la para outros meios? Meu livro teve uma tiragem de 500 exemplares, já esgotou. Por que não levá-la para a música, para o cinema ou a televisão? Não quero fazer nada inteligível, não! A poesia é sutil, é delicada. E tem alguma novidade ali… Ou não.

Por que você escolheu estudar cinema e não letras?

OS – Acho letras um saco. Não acredito que uma pessoa vai escrever bem só lendo muito. É claro que tem que ler. Mas e a vida? O que adianta só ler e ficar naquele redemoinho de informações? Acho necessário um equilíbrio nesse casamento. Por que não letras? Porque letras fica nesse âmbito acadêmico, nesse preciosismo. Sou muito preconceituoso com a Academia. Acho que em comunicação social pude crescer muito, sobretudo com as pessoas, das mais diversas áreas; inclusive quem está perdido na vida vai estudar comunicação.

No programa do evento de poesia Bendita Palavra Maldita (2006) tem uma frase curiosa sua: “Quando criança eu queria ser astronauta. Frustrado, fui escrever poesia.” Fale um pouco sobre isso.

OS – Não sei… Acho que sempre quis tocar as estrelas. E talvez a poesia permita isso. E o cinema também. Tocar as estrelas, sonhar. O cinema me permite sonhar, explorar outros campos. E o jornalismo, que de certa forma é rígido, permite com que eu escreva um texto mais próximo à realidade. Você tem que estar ligado todo momento. O artista tem que estar em sintonia com o seu mundo. Tem que conhecer e respeitar o passado, mas não estar preso a ele.

Certa vez, seu pai declarou numa entrevista para o Jornal do Brasil: “Sonho com um povo mais bem alimentado, letrado, gostando de livro, mas sem estar oprimido pela leitura. Minha meta é transformar o livro numa carta de alforria.”E você, como é a sua relação com os livros ou com a palavra?

OS – Meu pai também dizia que colocaria um dicionário na cesta básica. Eu cresci rodeado de livros, vendo meu pai falando com amigos poetas no telefone, citando Nietzsche, Drummond como se falasse de amigos íntimos; aliás, eu realmente acreditava que eram amigos vivos. Acho que não tenho nenhuma relação interessante com a palavra, mas a adoro; adoro ler, adoro texto, adoro o cheiro do livro…

E por que falar poesia numa banda rock/MPB?

OS – Falar poesia para mim sempre foi coisa estranha; não era confortável. Fui recitar pela primeira vez na exposição Tudo é Brasil (Paço Imperial / RJ), à qual o curador Lauro Cavalcanti me chamou, entre outros poetas. Mas eu ficava com medo de incomodar as pessoas. Depois, no aniversário de dez anos da Livraria Dantes. A ideia era falar junto com o Michel Melamed, mas, como ele não pôde ir, chamei esses meus amigos da PUC para tocar. Assim a banda começou, improvisando um fundo sonoro para eu falar poesia. Depois o Quinho musicou um poema e as pessoas gostaram. É legal, um pouco diferente de lidar com a linguagem.

Você compõe músicas?

OS – Não… (Risos.) Não, não componho. Tento, mas não consigo. Não é nenhum preconceito com a música, mas, até o momento, certa inabilidade.

Como é seu processo criativo?

OS – É intuitivo, mas sento e escrevo. Tenho sempre aquela caneta no bolso, anoto no celular; sempre trabalhando, 24h me relacionando com alguma coisa. Acho que esta é a função: estar sempre ligado. Preciso de certa disciplina, senão não consigo. E mexo muito no poema até achar que ele está bom.

No seu livro você fala que sua poesia está “infectada pela rua”. Até a parte visual do seu livro tem um pouco da rua. É feita por um grafiteiro, não é?

OS – Sim, o Marinho. Quer dizer, não exatamente um grafiteiro, mas ele pinta as ruas. O que me interessa no grafite é certa agressividade que ele traz. Diferente dessa coisa certinha feita hoje para decorar casas. E o mais interessante é que o grafite pode morrer a qualquer momento. O Marinho é genial. A marca dele está espalhada pelo Rio de Janeiro. Acho que temos que sair para a rua. A rua é muito viva! E o que acho interessante nela são os imprevistos que acontecem.

Como vê o movimento artístico da sua geração?

OS – Acho que tem um movimento muito legal de pessoas de vinte e poucos anos. Está na música, na literatura, no cinema… Tem o Botika, que é uma figura bem interessante na literatura. Tudo começando, mas com uma energia muito forte fluindo. Há enorme vontade de mudar esse mercado vazio. Hoje não há crítica, há release. O mercado é Paulo Coelho, são cascas, só entretenimento. O legal do pessoal que está chegando é que ele quer colocar um pouco de conteúdo nesse entretenimento; bagunçar um pouco a hipocrisia.

Além do seu pai, quais são as suas maiores influências?

OS – Não diferencio influência musical de influencia literária ou cinematográfica. Acho que os meus amigos são os que mais me influenciam: o Ingnácio que é artista plástico, o Quinho e o Caio Barreto, que são da minha banda, o Vitor Paiva… São os papos loucos no bar, discutindo a validade do Tropicalismo. Ou falar mal do Caetano Veloso mas mesmo assim chegar em casa e colocar o disco dele para ouvir. É ir à Tijuca conversar com Marcelo Yuka. É ler os antigos: Kafka, Borges, Camus, Pessoa, Drummond, Bandeira… Tudo isso. Acho que William Bonner (risos)…

E o próximo livro?

OS – Estou escrevendo, ainda está bem no Início. Ainda estou tentando entender o que estou fazendo. Tem o nome provisório, Mercador de Nuvens… Estou deixando para ver aonde a poesia vai me levar, mesmo fugindo dela. Abro o livro com uma frase que, talvez, traduza: “Quis um dia ser poeta para me livrar de todas minhas frustrações.”

ZECA FONSECA

AS PALAVRAS QUENTES DE UM ADORADOR

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

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Zeca Fonseca acaba de concluir uma etapa especial de sua vida. Está lançando seu primeiro livro, O Adorador, pela Editora Guarda-Chuva. E a expectativa se torna maior para alguém que acaba de completar 50 anos, afirmando “nunca ter terminado nada na vida”, e ainda mais se tratando do filho de umas das vozes literárias mais importantes do nosso país, Rubem Fonseca.

“Resolvi fazer exatamente o contrário do que meu pai falava. Quer dizer, nem tanto assim, pois ele também foi fotógrafo, e inclusive a minha primeira câmera pertencia a ele. Mas o ato de escrever não tem a ver com o DNA. Você pode saber escrever e não compor três laudas…”.

O Adorador é surpreendente (oticamente atraente), as palavras seduzem em cada página. Ao folheá-lo, é impossível não querer seguir as aventuras do seu protagonista Lemok, um escritor frustrado que passeia por diversas referências contemporâneas expostas no nosso cotidiano. Quem acompanhar a caminhada desse personagem vai vivenciar experiências bastante excitantes. O livro do Zeca é repleto de “vidas possíveis”, como ele mesmo gosta de dizer.

‘’Não existe papo de alter ego! Para mim ficou muito mais claro que deveria escrever as coisas que não vivi ao ler uma frase do escritor francês chamado André Gide: ‘Um escritor medíocre escreve sobre a sua própria vidinha, enquanto um bom escritor escreve sobre as suas vidas possíveis!’ Ouça isso: ’Vidas possíveis!’ E é isso. A nossa vida pode ser outra o tempo inteiro, temos possibilidades…”.

O encontro aconteceu no apartamento do escritor, na Zona Sul do Rio de Janeiro, um espaço repleto de obras de arte – ele também é artista plástico –, fotos penduradas em todas as paredes. Conversamos na sala, com a companhia da sua assessora de imprensa, durante quase duas horas. Pensamentos maduros escapuliam no seu jeito meio adolescente e bem humorado.

“… Adorador de Boceta – assim queria primeiramente chamar o livro, mas a editora preferiu O Adorador, que depois também achei ótimo!”.

O DNA da escrita bateu agora?

Zeca Fonseca – Acho que não existe isso. Eu era “do contra”. Resolvi fazer exatamente o contrário do que meu pai falava. Quer dizer, nem tanto assim, pois ele também foi fotógrafo, e inclusive a minha primeira câmera pertencia a ele. Mas o ato de escrever não tem a ver com o DNA. Você pode saber escrever e não compor três laudas…

Você ainda trabalha com o jornalismo?

ZF – Ainda sou requisitado para trabalhos de fotojornalismo, mas há uns seis anos faço somente fotos por encomenda. Faço a foto que quero fazer. Sou artista-plástico. Olhe para estas paredes, são meus quadros (aponta para quadros pendurados na parede). A capa do meu livro saiu desta foto (aponta para uma foto enorme de uma boca com uma rosa vermelha). Então, comecei a fazer esses trabalhos, passei a ser chamado para exposições e vi que estava me afastando de jornalismo. Ah, tem hora que cansa… Uma vez fui fotografar um personagem para uma matéria de revista cujo tema era maconha. Lá, saiu tudo direitinho, mas, quando cheguei à redação, o editor reclama da foto, da luz… Perguntei se ele queria que eu fichasse o cara! Ele queria a foto do jeito dele, mas não é assim que trabalho, então fui me afastando. Chegou um momento em que eu estava solitário neste apartamento, fazendo fotos da lua.

Na infância você era ligado aos livros? Recebia incentivo para ler?

ZF – Meu pai nunca obrigou a gente a ler, o ambiente já era propício; um ambiente de literatura. Só se obriga a ler numa casa onde não há literatura. O primeiro livro que li foi um do Kafka, aos nove anos, e fiquei muito impressionado. Foi muito importante para mexer com meu imaginário, transformou minha percepção.

Como surgiu o livro?

ZF – Por causa desse caos de não pintar trabalho para mim, fui me transformando. Primeiro, me tornei artista plástico e fui vendendo uns bons trabalhos – tem gente que os curte, que se orgulha em colocá-los na parede! Depois passei a escrever. Já escrevia antes, mas na época desse livro eu estava com uma energia cumulada; estava apaixonado por uma mulher. Mas os personagens não têm nada a ver com a vida real, nada a ver. São ingredientes misturados; ovos, leite e um bocado de experiência acumulada. Não existe papo de alter ego! Para mim ficou muito mais claro que deveria escrever as coisas que não vivi ao ler uma frase do escritor francês chamado André Gide: “Um escritor medíocre escreve sobre a sua própria vidinha, enquanto um bom escritor escreve sobre as suas vidas possíveis!” Ouça isso: “Vidas possíveis!” E é isso. A nossa vida pode ser outra o tempo inteiro, temos possibilidades…

Quando tempo levou para escrever esse livro?

ZF – Pesquisei durante oito meses, depois, comecei a escrever… Acho que gastei um ano para escrever, em setembro de 2006 acabei. Foi a primeira coisa que acabei em minha vida; nunca tinha terminado nada. Nunca terminei nada na minha vida. Escrevia poemas e nada… Em outubro, eu andava com um calhamaço na mão, para baixo e para cima.

A quem primeiro mostrou o livro?

ZF – A uma ex-namorada, que trabalha no mercado editorial e ao meu irmão, Zé Henrique; ambos gostaram e me incentivaram muito. Antes, já tinha contado a meu irmão que estava pesquisando na Internet sobre mulheres casadas caçando homens no meio virtual – as mulheres casadas repetem o padrão dos homens de antigamente; é assustador. Ao ouvir sobre essa pesquisa, ele leu as primeiras páginas – as mais pesadas – e me ofereceu uma grana para comprar uma “escaleta” da história… Mas, ao chegar a minha casa, liguei para ele e falei: “Não, não vou vender. Vou escrever essa história, essa história é minha.” Foi então que mostrei à minha ex. Depois mostrei para o meu padrinho de crisma – que fazia as revisões dos livros do meu pai –, ele se surpreendeu e gostou… Fiquei feliz, porque eram pessoas em quem eu confiava muito!

E seu pai, como soube?

ZF – Não queria falar sobre isso, mas vou te falar como foi. A família inteira ficou sabendo, porque meu irmão contou. Estávamos todos num almoço e minha irmã perguntou “Zeca, é verdade que você escreveu um livro e vai publicar?” Respondi, tímido: “Vou!” E aí meu pai falou: “Então, você não vai fazer igual ao Veríssimo, que esperou o pai morrer para depois publicar? “Não, porque o senhor ainda vai viver muito!” O papo foi indo por aí… Não gosto de falar sobre isso, porque o papo acaba estacionando aí. Sabe-se lá se o Veríssimo esperou mesmo o pai morrer?! Essas coisas já passaram pela minha cabeça, de nunca conseguir escrever pela cobrança de ter um pai escritor. É como se meu pai fosse uma grande mangueira frondosa, e eu estivesse embaixo sem conseguir pegar sol. Agora consegui um “solzinho”… Ó, mas estou correndo há tempos, viu?!

Você se irrita quando o comparam ao seu pai?

ZF – Não me irrito, até sinto uma semelhança de estilo entre nós. Noto muito isso no livro.

Vejo a Internet muito presente no seu livro. Como você lida com essas novas tecnologias?

ZF – Há pouco tempo só usava e-mail, não conhecia o Orkut. Esse mundo de se comunicar na Internet começou para mim em 2005, quando uma amiga me convidou para entrar nessa rede de relacionamentos. Entrei e foi um susto, pois por trás desse mundinho aparente do Orkut, existe um submundo. Iniciei a minha pesquisa quando notei que havia muita mulher casada querendo uma transa. E aí criei uma comunidade chamada de Adorador de Boceta – assim queria primeiramente chamar o livro, mas a editora preferiu O Adorador, que depois também achei ótimo!

As pessoas vão se surpreender com seu livro…

ZF – Acho que se surpreenderão ao verem que não é um livro pornográfico. É um romance quente, que tem o erotismo presente. Está também em minhas obras de artes plásticas… Esse erotismo é presente, porque sou muito erotizado. Acho que é isso.

E por que a presença de personagens hipocondríacos?

ZF – Confesso que me envolvi com uma mulher meio vidrada em remédios. Ela era hipocondríaca total, e acho que depois até fiquei também um pouco… (Risos.) Eu queria dar uma função a esse escritor frustrado, então o coloquei para escrever bulas de remédio.

Já pensa no próximo livro?

ZF – Não queria falar do segundo – meu primogênito acabou de nascer –, mas já existe um movimento, sim…

O que você lê?

ZF – Leio muito Rubem Fonseca! (Risos.) E Nietzsche, Fausto, Henry Miller…

Você lê seus contemporâneos?

ZF – Leio muito a Fernanda Young, o Rubem…

Como é o seu processo criativo?

ZF – Não tenho essa coisa de sentar e escrever, isso não existe! É igual a Coelho da Páscoa. Quando me vêm umas frases, escrevo. Então, só sento em frente ao computador quando pronto para mordê-lo.

O que você diria a um jovem que deseja se tornar escritor?

ZF – Diria primeiro para parar de pensar em publicar! Escreva e leia, leia bastante! E as coisas vão fluindo… Tá certo que, no meu caso, tinha um facilitador, que nem precisamos comentar. Mas é importante ler, escrever e deixar as coisas acontecerem.

FAUSTO FAWCETT

A ESCRITA PROFÉTICA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

faustofawcett

 

Ícone do submundo de Copacabana, o escritor e cantor que eternizou o bairro mais famoso do Rio de Janeiro no imaginário popular, Fausto Fawcett, está de volta. Desta vez, mais literário, “palavroso”, do que quando surgiu na década de 1980 com suas loiras provocantes: a editora Papagaio vai investir em sua produção literária.

“Todos me associam a um trabalho musical e shows. Essa vertente literária ainda não está ‘cravada’, digamos assim, como uma referência. Por isso, vai ser importante (a publicação dos livros). Como derivação dessa iniciativa, também o fato dos textos estarem com força, passando pelo tempo.”

Além de lançar dois títulos inéditos — Favelost e Loirinha levada —, Fausto Fawcett organiza a reedição dos livros anteriores: Santa Clara Poltergeist(1990), Básico instinto (1992) e Copacabana lua cheia (2001). Tudo sem perder a força de suas histórias, que misturam caos tecnológico e urbanidade, e sempre se desdobram em outros trabalhos, seja show musical, teatro ou performance.

“Escrevo ouvindo música, vendo televisão, parando para botar um filme, DVD… Já tenho esse processo tudo-ao-mesmo-tempo-agora-junto-e-misturado. Uma coisa acaba parando na outra. Uma letra que eu faça para Fernanda Abreu pode chegar a ser burilada, virar uma história. Não fico escrevendo e colocando na gaveta. Isso pra mim não existe”, afirma Fawcett.

Na verdade, a literatura sempre serviu como base, e pretexto, para os outros trabalhos de Fawcett, recheados de referências cultivadas ainda na infância. O encontro com os parceiros Laufer, Nélson Meirelles e Sérgio Mekler — os Robôs Efêmeros — foi fundamental para que escolhesse seu caminho.

“O negócio era temático pra mim. O primeiro álbum é Copacabana (Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros (1987)); o segundo tem Copacabana, mas já passou para São Paulo, Império dos sentidos (1989), com Silvia Pfeiffer na capa, como se fosse uma ópera-rap; e o terceiro foi Básico instinto (1993), já com aquele supercabaré, quando inventamos o teatro de revista samba-funk.” A base são os textos, sempre. Por isso, Fawcett comemora a (re)publicação de livros.

A editora Papagaio vai lançar dois inéditos seus: Favelost e Loirinha levada. Além disso, haverá a republicação de títulos anteriores:Santa Clara Poltergeist (1990), Básico instinto (1992) e Copacabana lua cheia (2001). Fale sobre esse investimento em sua produção literária.

Fausto Fawcett – No que diz respeito à republicação dos livros, vai ser importante para colocar essa “marca literária” do meu trabalho de forma mais enfática. Todos me associam a um trabalho musical e shows. Essa vertente literária ainda não está “cravada”, digamos assim, como uma referência. Por isso, vai ser importante. Como derivação dessa iniciativa, também o fato de os textos estarem com força, passando pelo tempo. O Santa Clara…está fazendo 20 anos, teve uma aceitação boa da crítica, acabou se tornando uma referência para o universo de ficção científica.

Você já definiu seu livro Loirinha levada como “um infantil para crianças espertas”…

FF – (risos) Exatamente. Ainda vamos ver como colocar isso. É uma menina sub-12. Não sabemos como estão as crianças hoje. Talvez possamos classificar como tamagotchi até uns três e quatro anos, depois entre quatro e oito: “Tá bom, crianças.” Depois é sub-12, sub-16… São demarcações mentais, comerciais. Até chegar o neoidoso. Acabou essa história do cara ficar velho, aposentado, pijama. Em Copacabana, os velhinhos botam pra quebrar o tempo todo. No caso da menina, a personagem vai contando a história. O adjetivo “levada”, é pelo fato de ela aprontar bastante e por acompanhar os pais a muitos lugares. Ela gostou de ouvir um músico dizer que tinha uma “levada” bacana para uma música. Então, ela gosta de dizer que tem uma “levada” dentro dela. E vive de “tuitagem”, pega todas as falas dos adultos… O irmão morre, os pais se separam… Ainda não acabei. Vai ser um livro para crianças espertas. Ou o primeiro livro infantil só para adultos (risos).

E o Favelost?

FF – Favelost estava na minha cabeça há uns três anos, mas no começo do ano que mandei quinta marcha. Tem quatro núcleos na história. É uma mancha urbana, Rio-São Paulo, ali na Via Dutra, na beira do Paraíba do Sul, completamente tomada. Não tem mais São José dos Campos, Aparecida, Volta Redonda… As cidades são lembradas por causa das entradas. Elas viraram bairros de uma grande mancha, as cidades praticamente se juntaram. Nova York, Tóquio, todas as grandes cidades têm uma mancha urbana. Isso me fascina. Essa mancha ganha o apelido de Favelost. Tem “tuiteiros” multibilionários – aqueles que têm mais de 50 bilhões na conta, o resto é merda — que se perguntam: “O que vamos fazer?” Loucos pelo seriado Lost, sequestraram os atores para colocar numa mancha urbana do Brasil. Nesse lugar se prolifera um território off-off. Favelost pode ser definida como Serra Pelada, Caixa de Pandora, Arca de Noé… Vai muita gente para fazer parte dessas experimentações. Mas ali nada dura muito tempo, inclusive as pessoas. E há um casal — Júpiter Alighieri e Eminência Paula —, uma paulista com uma carioca, que se encontram no meio dessa história. Essa história tem a ver com os livros Santa Clara…, Copacabana eBásico instinto.

O que mudou desde a publicação do seu primeiro livro Santa Clara Poltergeist (1990)? Como avalia sua trajetória literária?

FF – Primeiro, os assuntos. No caso do Favelost, especificamente, urbanidade e tecnologia estão presentes. Todas as observações que venho colocando em música e texto, desde 1980, vêm-se confirmando. É como se eu estivesse falando de um mesmo assunto com amadurecimento em torno do tema.

Há autores que acreditam escrever o mesmo livro. Na sua obra é possível perceber a presença constante desses temas: caos tecnológico, urbanidade, Copacabana, as loiras… Você escreve um mesmo livro?

FF – De certa forma, sim. Essas obsessões, compulsões, para escrever, são fundamentais. Eu gosto de escritores como o Dalton Trevisan. Ele está fazendo várias biópsias sociais, psicológicas. É uma pedra de Sísifo, como uma cobra que morde o próprio rabo. Cada vez que uma mulher abre a perna, coloca um tamagotchi no mundo. Vamos repetir a mesma história etc… Inventamos utopias, civilizações, histórias para dizer que vamos mudar. O cristianismo foi quem mais fomentou essa ideia. Como não tenho essa perspectiva progressista, faço um flagrante dessas redundâncias. Dessa agoniada, mas também maravilhosa forma de vida apelidada de humanidade. E com foco nas grandes cidades, nesse caos. Como se tivesse um cinturão vulcânico, daqueles que têm no Oceano Pacífico. É como se pegasse São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York, Tóquio… Priminhas entre si, por razões capitalistas e poluição humana. Cada uma, obviamente, com seus molhos locais.

Tem uma letra de música sua que diz: “A novidade cultural da garotada favelada, suburbana, classe média marginal é a informática metralha subazul equipadinha com cartucho musical de batucada digital.” Você se considera um profeta da tecnologia?

FF – Essa letra é de “Rio 40 Graus”, de 1992. No primeiro álbum também tinha alguma tirada, reflexão, sobre esse assunto. Temos que ficar atentos para tendências. Assim, na ficção científica e outras literaturas, damos uma exagerada nessa tendência. Faço uma especulação em torno disso, uma espécie de bolsa de valores literária, estética. Não há como negar que uma das características não é a tecnologia como algo que vai nos salvar, mas a banalidade dos gadgets, das quinquilharias. Não precisa se preocupar muito, toda semana tem novidade. A banalização é mais interessante do que certas utopias tecnológicas, a Internet… Tudo que está acontecendo agora como uma recreação da humanidade. Não vejo dessa forma. Temos a classe média mundial, mas também temos a sombra do Mad Max. O Haiti é um exemplo. Alguma hora pode faltar petróleo… Vai ter sempre guerra para sacudir a gente. Tecnologia é um detalhe.

Enquanto músico e escritor, como é sua relação com a tecnologia no dia a dia?

FF – Estamos falando de tecnologia no sentido digital. É muito pouca a inclusão digital. Quando todo mundo souber programar, estiver inventando na máquina, aí sim teremos a utilização em grande escala. Por enquanto é eletrodoméstico. Quando se digita, a solidão parece que fica mais leve. Estou nessa onda de todo mundo, de uso normal, trivial.

Há diferença na sua produção de música e de literatura?

FF – É misturado. Escrevo ouvindo música, vendo televisão, parando para botar um filme, DVD… Já tenho esse processo tudo-ao-mesmo-tempo-agora-junto-e-misturado. Uma coisa acaba parando na outra. Uma letra que eu faço para Fernanda Abreu pode chegar a ser burilada, virar uma história. Não fico escrevendo e colocando na gaveta. Isso pra mim não existe. Gosto muito de trabalhar por encomenda. Estou sempre tomando nota: aforismos, frases, ideias. Se o Chelpa Ferrro — grupo experimental de artistas plásticos — me chama para fazer uma apresentação no CEP 20.000, do Chacal, faço um texto… E isso pode servir como piso literário para encenação, performance. E, ainda, vai servir para música. Mesmo o livro, que tem a mancha de prosa, tem um pé no ritmo. O modo como escrevo, gosto que tenha ritmo. Qualquer página vai ter alta voltagem de batida verbal, a música do verbo cinematográfico. Parte para várias linguagens. O princípio é o verbo, daí vai para música, teatro… A música tem uma ginga de prosa que tem uma sedução literária.

Quando me lembro de Copacabana, algumas figuras se impõem: Drummond, Ana Cristina Cesar e você. Fale sobre sua paixão por Copacabana.

FF – O Gilberto Gil disse que a Bahia deu régua e compasso para ele. Copacabana me deu a papelaria inteira. Ali começa a classe média, a zona Sul, a praia… Se você quiser história, está ali. Tem o Carlos Lacerda tomando tiro. Bossa Nova, Teatro Teresa Raquel, Jovem Guarda, TV Rio… História, história, história… Crimes. O que é interessante? O lugar é o principal cartão-postal do Rio. E cartão-postal do Brasil, em termos de sociedade. Copacabana é como se fosse uma capital humana do Rio de Janeiro. E, na zona Sul, tem a característica de ser um bairro heterogêneo. Você não sabe o que vai encontrar. É interessante para quem escreve. Outra coisa boa: tem uma vida boêmia, boate, submundo. Você pega a revista Cruzeiro, de 1950, está lá o submundo de Copacabana. Uma meia dúzia, mas está lá… (risos) É muito rico, e com todas as mazelas. É um ponto purgatório intenso. Muita gente tem medo de Copacabana: “Não vou aguentar isso aqui. É muita agitação…” Esse bairro é um laboratório, uma coisa vertiginosa e interessante.

Você estourou com o disco Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros, com a música “Kátia Flávia”, em 1987. Pode-se dizer que desde então você está mais literário do que musical?

FF – Sim. Eu sempre me interessei em fazer performance. Fazíamos os Robôs Efêmeros — eu, Laufer, Nélson Meirelles e Sérgio Mekler — com apresentações de histórias, meia hora, eram duas, três histórias. A “Kátia Flávia” era uma história grande, foi retirado um pedaço dela para virar disco — o Liminha fez isso. Então, não tinha o rock and roll, já estava inserido num contexto literário. A apresentação que tinha um jeito de rock e tal… Eu não me via como cantor, eu queria fazer uns espetáculos que tinham a música como base. O negócio era temático pra mim. O primeiro álbum é Copacabana (Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros (1987)); o segundo tem Copacabana, mas já passou para São Paulo,Império dos sentidos (1989), com Silvia Pfeiffer na capa, como se fosse uma ópera-rap; e o terceiro foi Básico instinto (1993), já com aquele supercabaré, quando inventamos o teatro de revista samba-funk. Não era para chegar a virar uma estrela de rock da música popular, tanto que fiquei mais numa linhagem mais de Walter Franco, Arrigo Barnabé… É claro, com um pé na Blitz, a coisa falada. A base, na verdade, eram os textos. Vai ser importante (re)publicar estes cinco livros.

Que escritores são suas referências?

FF – Aos quinze, dezesseis anos, houve uma certa enxurrada de livros que dão uma ideia pelo que mais me interesso. Laranja mecânica. Se eu tivesse que escolher o livro da minha vida seria Laranja mecânica. Pelas antecipações sociais do Anthony Burgess, em uma Inglaterra futurista, que depois virou o filme do Stanley Kubrick. E por esse caráter de prosa com batida poética. Porque Anthony Burgess era um estudioso do James Joyce, que acaba sendo o pai de todos. A Bíblia e depois o James Joyce. O Paulo Leminski com o livro Catatau; a Clarice Lispector, com Água viva e Maçã no escuro… Tinha Flores do mal (Baudelaire).O Muro, do Sartre. E Antonio Callado lançou um livro chamado Reflexos do baile, que é sensacional. O Jorge Mautner, com Fragmentos de sabonete. Toda uma literatura que tinha como mote a experimentação, isso que me interessava. E outro tipo mais filosófico e ensaístico, que é o que mais gosto, eu lia muito Aldous Huxley, Admirável mundo novo e A filosofia perene — um apanhado de ensaios de todas as religiões. Essa primeira fornada de livros que me deu uma base. Dalton Trevisan e Rubem Fonseca também, uma época de contos, contos, contos o tempo todo. Passando por revistas científicas, faunas… Gosto de saber dessas coisas e fuçar.

O que você diria para um jovem que desejar se tornar um escritor?

FF – Leia, primeiro. Leia e estude. É básico. Escreva bastante. Depende o que está na cabeça da garotada que está querendo escrever. Não fique tão preocupado com o best-seller, ou ficar pra trás. Tem que ter obsessão. Um interesse muito genuíno, muito maluco, que precise escrever. E não achar que é a oitava maravilha do mundo. Tem que ter um senso de escriba. Tem que escrever e se interessar.


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