AS PAIXÕES DE ANA ARRUDA CALLADO

Escritora reconstrói o olhar feminino a partir de biografias de Adalgisa Nery e Lygia Lessa Bastos

Por Ramon Nunes Mello [PortalCultura.rj – 2009 ]

   

 

Ana Arruda Callado é “uma mulher de sorte”. É o que a jornalista e escritora gosta de dizer quando avalia sua trajetória de vida, principalmente quando se refere aos 20 anos de união com o escritor Antonio Callado, o “intelectual-operário” – como definiu a companheira.

Ana e Callado compartilharam, além do amor pelas palavras, muitas paixões: a política, olhar feminino, o jornalismo e o Rio de Janeiro, em especial Jardim Botânico – onde Ana Arruda teve o privilégio de morar com a família.

Nascida em 1937, na cidade de Recife, Ana Arruda Callado veio para o Rio de Janeiro aos oito anos de idade. Formada em Jornalismo na Faculdade Nacional de Filosofia, Ana começou a trabalhar como repórter no Jornal do Brasil  em 1958, quando ganhou o prêmio Herbert Moses por uma série de reportagens sobre a reforma agrária. E, no ano seguinte, recebeu a Menção Honrosa do Prêmio Esso, após escrever matérias especiais sobre a infância abandonada.

Ana Arruda também se dedicou a carreira acadêmica, trabalhou como professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) durante 14 anos, além de ter lecionado na Universidade Federal Fluminense (UFF) e na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Atualmente é presidente do Conselho Estadual de Cultura.

Em entrevista ao Cultura.rj , Ana Arruda fala das mulheres fortes e politizadas que biografou, entre elas Adalgisa Nery, Maria José Barbosa Lima, Jenny, Maria Martins e Lygia Maria Lessa Bastos – a mais recente perfilada em Lygia, a recordista.

Por que escrever o perfil de Lygia Maria Lessa Bastos, Lygia – a recordista?

Ana Arruda Callado  – A Lygia está com 90 anos, corri para fazer o livro. Conheci a Lygia quando fui fazer a biografia da Adalgisa, ela meu deu um depoimento muito importante. Reinaldo Barros que me indicou a Lygia, mas eu inicialmente tinha a imagem que ela era um general. Eu tinha um preconceito ideológico sério em relação a ela. Só quebrei essa imagem depois de entrevistá-la. Ela é uma mulher fascinante e independente, foi amiga de Adalgisa – reza missa para ela todos os anos. Ela não quis escrever a própria biografia porque tinha medo de ferir alguém. Então, ela me disse: “Se outra pessoa escrever é diferente”. Atendi ao pedido dela.

Você escreveu biografias de mulheres fortes e politizadas: Adalgisa Nery, Maria José Barbosa Lima, Jenny, Maria Martins e Lygia Maria Lessa Bastos. É uma busca por sim mesma?

AAC  – Penso que um escritor só escreve por si mesmo. Quando comecei a procurar as “minhas mulheres”, fui atrás de pessoas que eram diferentes de mim. Mas descobri que era uma mentira.

Por que biografar mulheres?

AAC  – Primeiro porque elas não são mulheres espetacularmente famosas. Escrevo sobre mulheres comuns, mas que contribuíram para as artes. São mulheres ilustres. Tenho interesse em contar a história contemporânea do Brasil através de um olhar feminino. Sou patriota, quero redescobrir a história desse país.

Como é esse olhar?

AAC  – Vou responder a essa pergunta falando de algumas perfiladas. Por exemplo, Maria José Barbosa Lima, mulher do governador Barbosa Lima Sobrinho. Quando trabalhei com ele na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), eu via aquela mulher pequeninha e pensava: “Será que é uma dessas bobocas que ficam penduradas no braço do marido?” Não! Ela é uma mulher fortíssima. Ao lado – e não atrás – de um grande homem há uma grande mulher. Barbosa Lima não sabia de nada, era Maria José que administrava a família e as finanças. Fiquei fascinada com essa mulher. Entende a questão do olhar?

Como você chegou à escritora Adalgisa Nery?

AAC  – Eu vi Adalgisa uma única vez. Eu estava almoçando com Alberto Rajão -deputado estadual que foi um dos maiores informantes do Sol  - quando entrou uma mulher com ar de rainha, olhar duro, um narigão. Rajão levantou e foi ao encontro dela. Depois perguntei se era a Adalgisa e falei: “Ela é velha, né?” Rajão respondeu: “É velha, mas é um tesão!” (risos) Foi o único encontro que tive com Adalgisa. (risos) Depois de muito tempo me interessei em escrever o perfil. Ela era uma mulher política forte, que foi casada com um homem fascinante, mas malvado: Ismael Nery. Samuel Wainer, que também era uma peste, disse que ela era uma mulher dura, quase perversa. Depois ela se casou com Lourival Fontes, o então chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do regime ditatorial de Getúlio Vargas. E ela adorou, atuou como primeira-dama do DIP. Em depoimento ao Museu de Imagem e do Som (MIS), ela disse que se casou com Lourival pela segurança dos filhos. Ela era sedutora, mas foi ele quem a largou. A carta que ela escreveu para Getúlio, reclamando de Lourival, é patética – não condiz com a inteligência dela. Ela encantava os homens, era amiga do presidente. A viúva do Portinari me disse: “Minha filha, que impressão que ela fazia nos homens! No meu marido também, viu?!” O Portinari não fez quatro perfis dela à toa, as pessoas se apaixonavam por ela. O poema do Drummond é perfeito: De Adalgisa, a lisa, fria / E quente e áspera Adalgisa / Numerosa qual Amor (Desdobramento de Adalgisa). Quem ficou chateado com meu livro foi o crítico Wilson Coutinho. Ele me disse: “Você escreveu o livro que eu queria ter escrito. Adalgisa decidiu minha opção sexual, quando eu a vi fiquei deslumbrado.” (risos) Ela não era adorável. Adalgisa era admirável, é outra coisa.

A biografia da escultora Maria Martins foi uma encomenda?

AAC  – Sim, foi uma encomenda. As pessoas diziam que ela era uma pessoa desagradável. Não gostei dela.

Por que escrever sobre uma pessoa desagradável?

AAC  – Porque vi uma exposição dela e me apaixonei pelas obras dela. Quando vi as esculturas fiquei fascinada. “Quem é ela?”, me perguntei. Mas nunca pensei em biografar. Depois da encomenda, passei a conhecê-la melhor. Ela também fascinava os homens, mas era diferente de Adalgisa. Maria concretizava as fantasias. (risos) As duas eram amigas do Getúlio Vargas, ele adorava se cercar de mulheres inteligentes. Elas também foram amigas da Frida Kahlo, eram mulheres poderosas.

O fato de ter nascido no Recife e mudar, aos 8 anos, para o Rio de Janeiro influencia sua produção jornalística e literária?

AAC  – Sim. Eu me sinto muito pernambucana, apesar de ter vindo muito nova para o Rio – minha vida inteira é o Rio, estou com 72 anos. Toda vez que volto ao Recife me sinto energizada com aquele cheiro, aquele mar sargaço. É como se eu ainda morasse lá.

E você morou numa fazenda…

AAC  – Morei em dois lugares lindos. Cheguei a morar dentro do Jardim Botânico, na Rua Jardim Botânico, 1008. A casa do Pacheco Leão, que hoje está restaurada. Como a família era muito grande e meu pai trabalha no Serviço de Economia Rural, o ministro ofereceu a casa. O Jardim Botânico era o meu quintal. Depois morei durante dois anos numa fazenda no Distrito de Morro Grande, em Araruama. Por esse motivo eu não fiz o curso primário, fui alfabetizada em Recife. Sabe quem foi minha professora na fazenda? A professora de Paulo Freire, Eunice Vasconcelos. Só descobri isso quando Paulo Freire morreu e publicaram um artigo dele: Minha professorinha. Eunice já estava idosa e doente, então meu pai a levou para a fazenda. Foi uma maravilha, ela ficou dois anos com a gente.

Você tem irmãos?

AAC  – Tenho 15 irmãos. Meus pais criaram os 15 filhos, faço questão de dizer. Existe muito preconceito com o nordestino: “Os nordestinos têm filhos, mas morrem todos”. Não! Hoje somos doze, tenho muitos irmãos com mais de 80 anos.

Quais são as lembranças de infância?

AAC  – Nós brincávamos de biblioteca, de preencher fichas para fazer o empréstimo do livro. (risos) Uma maravilha. Na fazenda eu me escondia num telhado que ficava próximo a janela de um dos quartos. Sabe que até hoje sonho com esse telhado? Eu ficava lá quietinha lendo os “livros proibidos”. Toda semana meu pai chegava com um livrinho. Cazuza , do Viriato Correia. E os livros do Érico Veríssimo me marcaram muito, por exemplo, A vida de Joana D’Arc.

Você começou a trabalhar como jornalista aos 20 anos?

AAC  – Eu comecei muito cedo, aos 20 anos já era repórter do Jornal do Brasil . O que me interessava? Os temas esquecidos: reforma agrária e crianças abandonadas. Tenho o orgulho de ter trabalhado no Jornal do Brasil numa época em que se estava fazendo o melhor jornalismo do país. Na época, eu propus o tema da reforma agrária e foi um espanto porque o JB era muito metropolitano. O que mudou na reforma agrária? Nada. Está igualzinho, não mudou nada. O título de uma matéria de 1959: “Reforma Agrária: Todo mundo fala e ninguém faz nada”. Parece que essa frase foi escrita hoje. O interesse por esses temas tem a ver com minha família, meu pai foi um entusiasta do corporativismo. Ele foi diretor do serviço de corporativismo do Ministério da Agricultura. Quando foi inaugurada uma cooperativa em Cabrobó, fui enviada pelo Jornal do Brasil para entrevistá-lo. Foi uma emoção muito grande.

Você foi uma das primeiras mulheres a ocupar o cargo de chefe de reportagem. Fale um pouco sobre sua carreira de jornalista.

AAC  – Sim, trabalhei no Diário Carioca . E tem o Sol que foi uma aventura de adolescente, embora eu estivesse ficando velhinha. O Reinaldo Jardim era a cabeça do Sol, nós queríamos fazer um jornal novo para quebrar todos os padrões. Meu papel era fechar o jornal, amarrar aquela loucura. Tenho muito orgulho da minha trajetória de jornalista.

Como é a relação da internet com seu trabalho?

AAC  – Ainda lido mal com essas inovações. Mas utilizo a internet para pesquisa, isso é fantástico. Infelizmente ainda há muita irresponsabilidade na web, por enquanto é somente um grande meio de comunicação.

Como avalia a questão da não obrigatoriedade do diploma de jornalismo?

AAC  – Eu defendi sempre a obrigatoriedade do diploma. Mas, talvez, seja um pensamento antiquado. Porque agora só vai fazer o curso jornalismo quem realmente quer se dedicar ao jornalismo. Acredito que as empresas não têm interesse de contratar um leigo. Mas tenho medo do pensamento de que qualquer um pode ser jornalista, isso é a era da internet. Jornalismo não é enviar mensagens pelo celular, isso é fonte. Jornalismo é apurar a notícia e escrever.

No documentário A Paixão Segundo Callado, de Jofilly, você é um personagem-chave. Como foi essa relação de 20 anos com Antonio Callado?

ACC  – Sou uma mulher de sorte.

(Silêncio. Ana Arruda se emociona ao falar de Antonio Callado )

ACC  – Quando eu li Quarup  fiquei empolgadíssima, impressionada. Eu trabalhava na Livraria Carlitos, no Leblon. O Antonio frequentava essa livraria quando começou a jogar charme para mim. Fiquei pensando: “Ana, que horror! Parece aluna querendo namorar professor” (risos). Foi um encontro de vida, tivemos um relacionamento adorável. Nós casamos no civil, escondido. Mas o Zuenir (Ventura) descobriu e noticiou: “Casamento escondido”. (risos) Antonio me ensinou muito, ele era um “intelectual-operário”. Quando eu ficava chateada com uma pessoa porque ele fazia alguma coisa errada, ele dizia: “Não se chateie, não é maldade. É burrice.” Uma sabedoria. Eu me lembro dele todos os dias, mas não fiquei uma viúva triste. Ele aprovaria minha alegria de viver.

BETH E CLARICE

Beth Goulart vive no palco a escritora ucraniana Clarice Lispector 

Por Ramon Nunes Mello [PortalCultura.rj – 2009 ]

   

 

Ao entrar no teatro para assistir à atriz Beth Goulart em Simplesmente eu, Clarice Lispector , é impossível ficar indiferente. As semelhanças entre atriz e escritora trazem, ao mesmo tempo, encantamento e estranheza. O impacto é imediato e forte. Beth busca o entendimento do amor da personagem através de uma interpretação pessoal e técnica: a tradução cênica de Clarice Lispector. Um trabalho artesanal onde a atriz utiliza a composição gestual para dar vida aos personagens da escritora e à própria escritora. O jeito de andar e a maneira como mexe os dedos enquanto fuma um cigarro são reproduzidos com precisão, assim como o famoso ‘sotaque’ de erres firmes de Clarice – que na verdade se tratava de uma língua presa.

Elogiada pela polêmica crítica de teatro Bárbara Heliodora, Beth Goulart mergulha no misterioso universo da escritora para trazer à ribalta uma narrativa intimista e fragmentada por fluxos de consciência. Um mergulho iniciado anos antes, quando adaptou cartas trocadas entre Clarice e Fernando Sabino. Na trajetória artística de Beth, literatura e teatro sempre caminharam juntos. Essa aliança, ao que tudo indica, pode render bons espetáculos. Resta-nos acompanhar o “bater desse coração no mundo” – aspas de Clarice.

Em entrevista ao Cultura.rj , Beth Goulart fala da experiência de amor ao viver a escritora Clarice Lispector.

Como surgiu o interesse por Clarice Lispector?

Beth Goulart  – Li a Clarice pela primeira vez na minha adolescência: Perto do coração selvagem . Ou seja, li Clarice nesta fase difícil, quando tentamos descobrir o nosso olhar no mundo, quem somos nós no mundo. Um período difícil, mas a Clarice foi minha companheira. A partir disso, ela passou a me acompanhar em vários outros momentos. E descobri outros livros, a relação foi se intensificando. É como ter uma relação com alguém que conhece um pouco da sua alma. A Clarice está nesse lugar de intimidade.

Você chegou a conhecê-la?

BG  – Pessoalmente não. Não. Mas eu lia muita coisa sobre ela. Gosto muito de livros sobre o processo de criação. Gosto de saber como o personagem vivia, o que gosta, o que não gosta. É uma forma de chegar um pouco mais perto da alma do personagem que será criado, tendo outras referências. Busco essas referências na construção do personagem. É claro que existem vários outros processos. Por exemplo, quando eu fiz o espetáculo Amor consciente , que era baseado em dois textos de dois autores ingleses – Bliss, de Katherine Mansfield, e O homem que morreu, de D. H. Lawrence. A Clarice quando leu a Katherine Mansfield disse: “Mas essa sou eu”. Justamente o conto que encenei. Ou seja, em Amor consciente Clarice esteve presente.

O teatro e a literatura sempre juntos, não é?

BG  – Verdade. Outro trabalho, que fiz com Stela Miranda, foi inspirado na obra da Virginia Wolf. A literatura é muito presente. Gosto muito de literatura. E livros de imagem, livros de arte, fotografias. A nossa criação chega a esse lugar do abstrato, que às vezes na arte é registrado. Às vezes, uma foto ou um poema nos faz chegar perto de um estado da alma para construir um personagem.

Quando você está no palco, vemos a Clarice. Mas, ao mesmo tempo, é a Clarice da Beth. Como lidar com essa dicotomia?

BG  – Nesse espetáculo sou totalmente Beth, a começar pelo nome da peça: Simplesmente eu, Clarice Lispector . É uma ponte entre a Beth e a Clarice. Tento ser pessoal na minha interpretação como ela foi pessoal nos textos que escreveu. A minha arte é palco, o corpo, a voz, o espaço cênico, o jogo teatral que se estabelece. O local onde posso brincar e me colocar de maneira bastante forte. Inclusive, o Amir (Haddad), quando estava fazendo a supervisão, falou: “Você nunca reparou que esse depoimento da Clarice é seu? Você está aí.” Estou vendo o meu processo criativo de busca de personagem. Como vivo ela sendo eu?

É possível medir essa troca? 

BG  – Medir não, mas é possível sentir. Eu sou mãe, a maternidade também tem importância na minha vida. Eu não me contentei em ficar só como atriz, quis me expressar de uma forma mais criativa, autoral. Eu tinha que assumir esse impulso criativo que era tão forte quanto a Joana (personagem de Perto do coração selvagem ). Entendeu? É como a Clarice, que se sentia morta quando não estava criando.

Como foi a gestação desse espetáculo?

BG  – Foi uma longa gestação para existir. Lembrei de uma frase de Clarice: “Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa.” Eu ia fazer a Clarice em outro projeto, na verdade um encontro de Clarice com Fernando Sabino. Seria em cima da correspondência dos dois, que está no livro Cartas perto do coração. Cheguei a adaptar e nomeei Cartas perto do coração selvagem , fiz logo uma ponte com o livro da Clarice. Mas os herdeiros do Sabino não quiseram.

É difícil essa relação com os herdeiros da obra?

BG  – Sim, muito. Mas temos que aceitar, obviamente. Naquele momento, que eu estava mergulhada no processo, não dava mais para não fazer a peça. Claro que tive que recomeçar tudo novamente.

Acabou sendo uma preparação para esse espetáculo?

BG  – Na verdade, eu queria dividir o palco com outro ator, fazer o jogo de cena. Mas fui levada para o monólogo, não dava para não fazer. Se eu não realizasse eu ia pirar.

Esse é o seu terceiro monólogo. Como é estar sozinha no palco?

BG  – O primeiro foi Pierrot , o texto era de poesias, uma pesquisa de linguagem. Foi a primeira viagem sozinha.

Na verdade não é sozinha, a equipe é enorme…

BG  – Exatamente. São quase 20 pessoas para eu subir sozinha no palco. Depois dessa fase do Pierrot  fiz Doroteia minha – a primeira dramaturgia que realmente assinei. Doroteia foi escrito a partir de cartas de amor do Nelson Rodrigues para minha avó, Eleonor Bruno. É uma história muito pessoal. Minha avó nunca respondeu às cartas do Nelson, então eu dei voz a esses escritos. Eram cartas lindas, de uma poesia incrível para ficar sem respostas. Respondi como se fosse uma mulher de hoje em busca desse grande amor na vida. Ela só leva porrada da vida, mas escreve cartas para cultivar esperança.

Foi uma longa trajetória até chegar a Clarice.

BG  – É uma relação de amadurecimento. Tudo que somos hoje é um somatório do que passamos na vida. Essa bagagem é experiência.

Que pessoas passaram por sua vida e transformaram o seu modo de lidar com a arte?

BG  – Por exemplo, eu era adolescente, e tive um encontro fortíssimo com Juliana Carneiro da Cunha. Ela estava chegando da França e iniciou um workshop com um grupo de pessoas. Eu fiz esse curso e até hoje utilizo exercícios que aprendi com ela. Depois fui trabalhar com o Gerald Thomas, outra referência de corpo, voz e conceito cênico.

Você chegou a gravar discos, não é?

BG  – Aos três anos de idade eu já queria ser atriz, brincava de fazer teatro. Distribuía personagens para meus amiguinhos. Devo a minha estreia, ainda criança, ao Abujamra (diretor de teatro), ele me fez gostar do palco. Trabalhei com música logo que cheguei ao Rio e fazia novelas. Sou muito inquieta artisticamente. Casei com Nando Carneiro, um excelente músico, e desenvolvemos um trabalho juntos. Fui ser cantora, apesar de todo preconceito. Valeu a experiência. Falei: “Não sou mais cantora!” Mas não parei de cantar em espetáculos.

O artista não precisa estar vinculado a apenas uma linguagem.

BG  – É, não preciso do rótulo. Tudo está junto. Por exemplo, o Arnaldo Antunes conseguiu conceber muito bem o trabalho dele, a poesia dele está na performance, no disco, no livro. O teatro é o templo de todas as artes, podemos nos expressar da forma como desejarmos. Aprendi que o desequilíbrio é que dá o primeiro passo, se você não corre o risco, não caminha.

Quando você pensa em Clarice, que frase você lembra?

BG  – Agora me lembro de: A maior salvação do homem é o amor. Ninguém estará perdido se der amor e, às vezes, receber amor em troca . Tudo isso tem ligação com os valores que permeiam a minha vida. Por isso, o espetáculo tem tanto de mim, porque falo de valores que são caros para mim. Falo da fé, sem ela eu não subiria no palco. O teatro é uma arte de resistência, se você não tiver fé, amor, paixão e teimosia, você não consegue realizar. Acho que Clarice era assim também, lidava com a dificuldade de ser escritora no Brasil. Além da dicotomia de ser mulher, mãe, dona de casa e escritora. Para resumir, diria: “O amor ainda salva tudo.”

ACC  – Quando eu li Quarup  fiquei empolgadíssima, impressionada. Eu trabalhava na Livraria Carlitos, no Leblon. O Antonio frequentava essa livraria quando começou a jogar charme para mim. Fiquei pensando: “Ana, que horror! Parece aluna querendo namorar professor” (risos). Foi um encontro de vida, tivemos um relacionamento adorável. Nós casamos no civil, escondido. Mas o Zuenir (Ventura) descobriu e noticiou: “Casamento escondido”. (risos) Antonio me ensinou muito, ele era um “intelectual-operário”. Quando eu ficava chateada com uma pessoa porque ele fazia alguma coisa errada, ele dizia: “Não se chateie, não é maldade. É burrice.” Uma sabedoria. Eu me lembro dele todos os dias, mas não fiquei uma viúva triste. Ele aprovaria minha alegria de viver.

BOTIKA

LOUCURA E LIBERDADE CRIATIVA 

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007 ]

   

 

O encontro com Botika finalmente aconteceu no (extinto) Café Severino, da Livraria Argumento, em Copacabana, depois de um atraso por conta de uma ressaca do artista que comemorava a gravação do primeiro CD da sua banda na noite anterior.

O nome dele é Bernardo Botkay, mas é mais conhecido por seu apelido de infância: Botika. Poeta, escritor e músico – vocalista da banda de rock Os Outros –, já cursou Letras e Filosofia na PUC-RJ, mas abandonou pela preguiça que o persegue. Como só faz o que tem muita vontade, resolveu se dedicar somente à música e à literatura, que no momento têm sido onde mais se reconhece.

“Sempre cantei; o meu pai é músico, então é herança de família. Mas não consigo me considerar mais uma coisa que a outra, não. Ultimamente tem sido mais confortável escrever, eu me reconheço mais na escrita. A música trabalha mais o coletivo, essa necessidade de coletivo, do palco”.

Performático no palco, Botika tem uma atitude que lembra muito o Cazuza. Não é tímido, mas tem inibição para se expressar em entrevistas. Há mais de dois meses estávamos planejando esta conversa, mas várias situações atrasaram o encontro; inclusive, seu romance, Autobiografia de Lucas Frizzo  (Editora Azougue), me foi furtado num ônibus da Zona Sul do Rio.

O que ele pensa da produção contemporânea?

“Espero que a minha mãe esteja certa: essa galera nova que está batalhando vai ocupar o lugar desses grandes que já estão indo… Preencher as lacunas desse processo. Acho que tem muita gente boa por aí. E também muita gente preguiçosa, como eu. Mas não sei se dá para olhar para o próprio umbigo agora, talvez daqui a uns anos”, completa:

“Tento escrever todos os dias. São várias as ideias de livros e preciso trabalhar cada uma. Alguns já têm títulos, estão mais adiantados. O Búfalo  já está pronto e, no momento, me dedico ao Calendário – livro que terá 365 páginas, representando cada dia do ano. Diariamente, entro no Google e faço uma pesquisa superficial sobre fatos importantes daquela data, que guardo para uma desconstrução. Tenho escrito bastante por causa da proposta do livro, mas a televisão sempre me atrapalha; fico preso a ela, mudando de canal.”

Uma conversa com autor (e amigo) que vai preencher as lacunas daqueles que nos fazem sorrir com as artes e a loucura.

Em 2003, você lançou Uma Autobiografia de Lucas Frizzo (Editora Azougue). Como surgiu esse livro?

Botika  – Foi em 2003? Nem lembro, faz tempo… Comecei a escrever sem saber que estava escrevendo um livro, sem me considerar escritor. Isso partiu de uma necessidade muito grande de vomitar as ideias. Em relação à forma, eu estava impregnado de José Agrippino de Paula, autor de PanAmérica , que tem uma linguagem própria de ritmo, sem capítulo e sem muita pontuação. Tive a sorte de conhecer o editor da Azougue, Sérgio Cohn, que topou publicar essa maluquice. Acho que ninguém além dele toparia. O livro é bem pesado…

Esse livro fala de violência, aborto, incesto, pedofilia… Por que tanta agressividade? Você quer chocar?

B  – Não, não quero chocar ninguém. Mas há pessoas, amigos e parentes, que vêm perguntar: “Por que você escreveu esse livro?” Estou experimentando, escrevendo, só isso. As pessoas não conseguem separar o escritor do personagem. Quero usar o potencial do bizarro, do que é real e do que as pessoas têm pudor de falar.

É, você mistura nomes de pessoas famosas nas histórias, como: Malu Mader, Guilherme Zarvos, ACM…

B  – Sim, mas tive que assinar um termo de responsabilidade sobre o livro. Até agora não tive problemas, ninguém me processou.

Você sabe que perdi seu livro num ônibus e só encontrei outro na Livraria Da Conde, na seção de biografias…

B  – Isso é muito bom (Risos)… É um romance.

E tem muito de você nesse livro?

B  – Sim, muita situação maluca em que me joguei mesmo. À medida que me lembrava delas, as colocava no Lucas Frizzo .

Além de escrever, você fala poesia e é vocalista da banda de Rock Os Outros. Em que área você atua melhor: música ou literatura? Sente muita diferença de uma para outra?

B  – Sempre cantei; o meu pai é músico, então é herança de família. Mas não consigo me considerar mais uma coisa que a outra, não. Ultimamente tem sido mais confortável escrever, eu me reconheço mais na escrita. A música trabalha mais o coletivo, essa necessidade de coletivo, do palco.

Você também é ator?

B  – Fiz a peça A Mulher que matou os peixes , da Clarice, durante um ano, junto com a Zezé Polessa. Mas não sou ator, isso foi no início…

Sabia que no palco você tem algo que lembra muito o Cazuza?

B  – (Risos.) É engraçado, as pessoas andam me falando isso …

Como é circular entre a música e literatura?

B  – Tenho muita dificuldade de escrever letras para música, mas acabo me dando bem com uma banda, isto é, parceiros musicais. É mais natural surgirem melodias e cantos na minha cabeça, e a palavra para a composição peço muito para o outro; para o Vitor Paiva, por exemplo.

O que você ouve?

B  – Não escuto muita música, gosto do silêncio. Já há tanto barulho o tempo inteiro, que quando chego a minha casa prefiro não ter som… Gosto de muita coisa – Radiohead, Macalé, Barnabé, que é incrível – , mas não baixo, não compro disco…

Como acontece o seu processo criativo?

B  – Tento escrever todos os dias. São várias as ideias de livros e preciso trabalhar cada uma. Alguns já têm títulos, estão mais adiantados. O Búfalo  já está pronto e, no momento, me dedico ao O Calendário – livro que terá 365 páginas, representando cada dia do ano. Diariamente, entro no Google e faço uma pesquisa superficial sobre fatos importantes daquela data, que guardo para uma desconstrução. Tenho escrito bastante por causa da proposta do livro, mas a televisão sempre me atrapalha; fico preso a ela, mudando de canal.

E de onde vem seu interesse pelos livros, pela literatura?

B  – Da criação; o interesse se intensificou a partir do momento em que escrevi o primeiro livro. Mas também de sempre estar rodeado de livros e de todo mundo lendo. Minha avó, Dona Ivone Botikay, é escritora e tem livros bem simpáticos. Meu pai, Caíque Botikay, tem dois livros publicados e é músico, compõe para teatro. Também há escritores na família da minha mãe, mas não os conheço.

Você não participou um tempo do CEP 20.000?

B  – Bem lembrado, tenho uns 10 anos de CEP. Logo que entrei, fui ajudar a produzir com uma galera. Ali praticamos as palavras e a vontade de estar no palco, improvisando.

Por que você escreve?

B  – Para conversar; não escrevo para mim. Desabafo para chegar ao outro; é comunicação. Além disso, pela vontade de chegar a lugares diferentes, experimentar, propor ideias… Não tenho feito nada a partir de leituras. Talvez porque eu não tenha lido nada que me surpreenda, ao menos no momento.

O que você está lendo?

B  – Guia das Galáxias  – um guia de mochileiros com um quê de Cortázar – e As Palavras, do Sartre, que é excelente…

E o que você leu? Quais são as suas referências?

B  – Cortázar – bastante e na veia –, Borges, Zarvos… Sou péssimo para lembrar nomes. Ah, o Vitor Paiva é uma influência grande. Ele está lançando um livro agora, Boca Aberta  (Editora Confraria do Vento); uma prosa maluca, muito boa.

O que você pensa dessa turma que está aí batalhando, produzindo arte?

B  – Espero que a minha mãe esteja certa: essa galera nova que está batalhando vai ocupar o lugar desses grandes que já estão indo… Preencher as lacunas desse processo. Acho que tem muita gente boa por aí. E também muita gente preguiçosa, como eu. Mas não sei se dá para olhar para o próprio umbigo agora, talvez daqui a uns anos.

O que você falaria para a galera da nossa idade que deseja entrar nesse universo de letras?

B  – Para ler o meu livro? (Risos.) Brincadeira… Acho que a pessoa tem que ler muito, viajar, acho que é isso.

BOTIKA

AUTOR

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 

Seu nome de batismo é Bernardo Rinaldi Botkay, mas ele é conhecido por Botika, apelido de infância que se tornou nome artístico. Escritor e músico — vocalista da banda de rock Os Outros —, Botika tem imaginação fértil, terrível, seus personagens não perdoam nada, nem ninguém.

É possível vivenciar suas histórias no livroBúfalo , recém-publicado pela editora Língua Geral. Suas palavras duras e, por vezes, engraçadas, são cobertas de violência, pornografia e escatologia. Assim como o livro de estreia, Uma autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue, 2004), o autor se apropria de personagens alegóricos para criticar o social, sem pudor.

Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Botika contou como passeia pela música e a literatura, além de falar sobre o próximo livro, Calendário.

Seu nome é Bernardo Botikay…

Botika – Minha mãe e meu pai me chamaram de Bernardo Rinaldi Botikay. É o nome que os pais deram. Eu acho bonito o nome, mas eu não me identifico muito com Bernardo mais não. Todo mundo me chama de Botika há muito tempo.

E Bernardo?

B – Só minha mãe me chama assim. E minha família lá de São Paulo.

Você os atende?

B – (risos ) Atendo. Sacanagem, eles me viram nascer assim… Mas a minha carteira de motorista, ó, vou mostrar… Já pesquisei para mudar o nome no cartório, na certidão de nascimento. Tipo a Xuxa, mas ela é Xuxa Meneghel. E você não pode ter um nome só, eu queria que fosse só Botika. Eu renovei minha carteira de motorista, está oficialmente: Bernardo Rinaldi Botikay. Mas eu assinei Botika… (risos) Eu estou assinando como acho que tem que ser. Foi um amigo, Miguel Gandelman, filho do saxofonista Leo Gandelman, que me batizou. A história do nome é essa.

Além da literatura, você flerta com o teatro e com a música…

B – A música sempre rolou muito, principalmente de teatro, por causa do meu pai (Caique Botkay), que é músico de teatro. Ele também dirige de vez em quando, mas é especificamente músico. Nasci e cresci dentro de teatro, vendo ensaio ou meu pai compondo… Sempre vendo meu pai trabalhar. Aos 12 anos, acabei fazendo, como ator, uma peça com a Zezé Polessa, minha madrinha, Lúcia Coelho tinha feito a direção do infantil. Eu fiz um ano de experiência no palco de teatro, o suficiente para eu não me sentir ator. E logo comecei a compor música, na peça eu já tocava algumas coisas. Depois veio o negócio de banda, conheci o Vitor Paiva, conheci uma galera que fez uma banda chamada Aneurisma, que virou Neura. Depois acabou essa banda e fizemos Os Outros.

Recentemente vocês lançaram um CD…

B – Pacote felicidade . Os Outros: eu, Vitor Paiva, Eduardo Sodré, Papel e Fabiano Ribeiro.

Basicamente as letras são suas e do Vitor Paiva.

B – As bases das composições são nossas, letra e melodia. Só que a banda toda trabalha as músicas, com a liberdade de mudar, fazer tudo.

Você diferencia a letra de música da literatura?

B – Diferencio totalmente, são duas coisas extremamente diferentes para mim. O Vitor, por exemplo, fala que para ele tem uma aproximação. Eu vivo de duas formas, respiro de um jeito quando estou no meu quarto, escrevendo sozinho, e respiro de outro, quando estou compondo uma letra junto com uma melodia na minha cabeça. Ou a letra chama a melodia ou a melodia chama a letra. Mas quando paro para escrever livro, conto ou alguma coisa parecida com prosa, é outra sensação, outro sentimento, outra forma de lidar com a palavra.

Você escreve poemas?

B – Não. Não consigo escrever, tenho dificuldade de ler poesia. Acho difícil pra caralho! Sei que é lindo, genial. É um limite meu, com certeza. Terminei de ler o livro do Ericson Pires  (Pele tecido) e fiquei emocionado, meu peito ficou estufado. Comecei a ler o do Pedro Rocha (Chão inquieto), também estou muito emocionado dentro do livro. Mas eu não sei, talvez porque sou amigo, eu “saco” eles, a gente se identifica… Poesia é muito bom, mas não entendo de poesia. Poesia é muito difícil.

Seu primeiro livro, Uma autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue, 2004), é polêmico, utiliza nomes de personalidades em situações nada amistosas… Você foi processado por alguém?

B – (risos ) Não me processaram, ainda bem, senão ia dar merda. Mas o Sérgio Cohn, editor da Azougue, me fez assinar um contrato que me responsabilizasse por possíveis danos. Cheguei a dar o livro para a Malu Mader, pessoalmente. Mas não sei se ela leu, ou se leu e jogou fora… Ou entendeu que é uma coisa louca, mas ela não me processou. E ela é a que mais sofre na mão do personagem. Mas comecei a escrever esse livro sem saber que queria ser escritor, sem me sentir escritor. Comecei numa necessidade de ter que botar para fora, de forma textual, um monte de coisa que estava sentindo… Eu estava vindo de uma relação que tinha acabado; uma merda… E quando vi foi virando um texto mesmo. E o Guilherme Zarvos (poeta), que sempre me acompanhou e me indicou várias direções, me disse: “Você está escrevendo uma parada, vai, considere isso um texto.” Então, levei mais a sério, virou um livro. Eu entreguei o livro para o Sérgio Cohn num avião, com um monte de poeta maluco indo participar de uma Bienal do Livro no Ceará… O Sérgio estava no meio da galera, leu o livro e topou publicar. Depois eu demorei um pouco mais para conseguir publicar o Búfalo(Língua Geral, 2010)… (risos)

A Língua Geral demorou a editar o seu livro…

B – Não só a editora, não. Para eu conseguir uma editora demorou. Escrevi a primeira versão e sai procurando editora, corri atrás… Não rolava. Até que o Rodrigo Bittencourt, que havia lançado pela Língua Geral, sugeriu para o (editor, na época) Eduardo Coelho, que é um cara da pesada. Ele topou, depois de um bom tempo. Além disso, o livro ficou parado um tempo por conta da crise…

O que é o Búfalo?

B – Búfalo  já um livro pensado, eu sabia que estava escrevendo um livro desde o início. Eu trabalhei muito o texto depois de achar que tinha terminado. Até por sugestões de pessoas como a Bia (Beatriz) Bracher, que foi a primeira a ler o livro. Ela me conhece desde criança, enviei o livro para ela, o livro impresso, xerocado, pensando que ela pudesse sugerir para a (editora) 34. E ela me devolveu anotado, página por página, lindamente anotado. Eu nunca tinha visto isso, fiquei até assim: “O que é isso? Como é que faz isso com meu livro?” No final das contas, me ajudou muito, cortei uns capítulos. Um processo completamente diferente do primeiro livro, onde não cortei nada. Lucas Frizzo é um livro sem parágrafo, sem capítulo, inspirado no Agripino (de Paula), no PanAmérica. Mas Búfalo, não. Este livro tem capítulos e parágrafos, é mais formal nesse sentido. Ele também vem do término de uma relação que estava pegando…

A falta de amor inspira?

B – O poço. O “poção” dá onda. Escrever quando há tensão sempre me dá leveza. Isso também acontece na música, quando estou muito fodido, consigo escrever letras alegres.

E o novo livro, Calendário?

B – Voltei a escrever depois que Búfalo  finalmente saiu. Calendário é uma tentativa de sair desse tipo de prosa corrida, “linear”. Calendário é uma pesquisa que faço no tempo, escrevendo todos os dias do ano, o livro vai ter 365 páginas. Vou lá e dou um Google no dia, que me traz uma informação incerta porque é Internet, e detono isso. Mudo a informação que me interessa. É mudar a história a partir de informações incertas da Internet para ser uma espécie de livro de consulta, que a pessoa pode abrir em qualquer página e ter uma sacanagem ali.

A arte é a única saída?

B – Não tem outro jeito, depois que entrei nessa parada, que senti que tinha que me expressar, não tem mais saída. É uma coisa mesmo de sobrevivência. Se não fizesse essas coisas acho que não seria feliz. Seria infeliz, triste. É da nossa espécie, a gente gosta de se comunicar muito. Isso tem a ver com a necessidade de criação, de produção. Por que faço isso? Não é essa a pergunta? (risos ) Por quê? Acho que eu consegui responder… (risos) Deve ter muito mais coisa… (risos)

ZUENIR VENTURA

O TEMPO DE HOJE

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

zuenirventura

 

Para o escritor e jornalista Zuenir Ventura, o tempo pode se confundir com palavras como amor e amizade. Aos 79 anos, a reflexão não poderia ser diferente: “Não me sinto com 79 anos. Eu me lembro quando fiz 60, levei um susto. Acordei e estava com 60 anos. ‘Mas eu não mereço isso…’”, ri. Resultado concreto desse passar do tempo foi, recentemente, testemunhado por Luis Fernando Veríssimo, no livroConversa sobre o tempo (Ediouro, 2010), papo que teve a mediação de Arthur Dapieve. Os três se reuniram num sítio para registrar a efemeridade de uma vida marcada pela amizade.

Dedicando-se diariamente ao ofício da escrita, Zuenir Ventura busca no cotidiano, entre os livros de seu escritório e o calçadão da orla de Ipanema, a inspiração necessária para expor sua visão de mundo. A memória, muito prezada por Zuenir, sua grande companheira, assim como a esposa Mary, é uma forte aliada. Assim como a reportagem, vide os livros publicados ao longo dos anos: 1968, o ano que não terminou / 1968, o que fizemos de nós (Planeta, 2008), Cidade partida(Companhia das Letras, 1994), Chico Mendes, crime e castigo (Companhia das Letras, 2003), Minhas histórias dos outros (Planeta, 2005)…

Não é à toa que, atualmente, dedica-se a escrever suas “memórias inventadas”: uma espécie de inventário sobre adolescência passada em Friburgo, interior do Rio de Janeiro, nos anos 1940, tendo como pano de fundo a II Guerra e a Ditadura do Estado Novo (1937-1945), comandada por Getúlio Vargas. Nesta conversa em seu escritório, Zuenir passeou pelo tempo, buscou significados para ele, comentou sua trajetória do interior de Minas Gerais a Friburgo, até chegar ao Rio de Janeiro, para onde se mudou nos anos 1940 com o intuito de cursar a Faculdade de Letras e se tornar professor. Obra do acaso, importante em sua trajetória, começou no jornalismo trabalhando no arquivo da Tribuna da Imprensa, onde logo estaria escrevendo e reportando.

Sobre a próxima grande reportagem, Zuenir diz que não faz projetos, eles caem em seu colo. Mesmo sem saber sobre o que irá tratar, será algo que aborde o Brasil, ou o Rio, mais especificamente: “Gostaria muito de poder escrever ainda em vida alguma coisa contra Cidade partida. Que pudesse ser, enfim, a cidade unida”, finaliza. A seguir, a íntegra da conversa com Zuenir Ventura.

Recentemente você se reuniu com Luis Fernando Veríssimo para conversar sobre o tempo, sob a mediação de Arthur Dapieve. O resultado é o livro Conversa sobre o tempo (Ediouro). Você está com 79 anos, o que muda nesse tempo escrevendo?

Zuenir Ventura – Primeiro, essa relação com a idade é muito curiosa. Eu não me sinto com 79 anos. Eu me lembro quando fiz 60, levei um susto. Acordei e estava com 60 anos. “Mas eu não mereço isso…” (risos) “Sessenta anos? Eu não mereço!” Depois, quando fiz 65, escrevi uma crônica, que fica correndo por aí, em antologias, chama-se “Um idoso na fila do Detran”. Foi quando presenciei uma cena no Detran, que era uma fila enorme, e a mulher que estava organizando, de repente: “Deixa o idoso passar! Deixa o idoso passar…” Eu também comecei a ajudar: “Deixa o idoso passar…” O idoso era eu (risos). Eu nunca tinha sido chamado por essa palavra, foi realmente um certo choque. A partir daí, eu realmente convivo… O problema não é idade, o problema é doença, não é? Eu não tenho problema com a morte, medo da morte, não é uma obsessão… Não é uma coisa que me persiga como medo ou pensamento. Mas eu tenho muito medo do sofrimento. Essa talvez seja a pior coisa. Conversamos muito sobre isso, Luis Fernando é bem mais novo do que eu, uma criança. Foi um papo descontraído, durante dias, ficamos num sítio, isolado, só conversando sobre amizade, amor, tempo… Enfim, foi uma experiência muito curiosa, em que se falou muito do tempo, sem ver o tempo passar. Passou muito rápido.

Sobre sua amizade com o Luis Fernando Veríssimo…

ZV – Nós nos conhecemos em Paris. Quem nos levou, a mim e Mary (esposa de Zuenir), para conhecer o Luis Fernando e Lucia foi o Roberto D’Ávila. Luis Fernando estava morando em Paris. Ele fazia isso, morava em temporadas com a família, ia para Paris, Roma, Estados Unidos… Ele estava em Paris naquela época. Já têm 20 anos, ficamos muito amigos. As mulheres, Lucia e Mary, são muito amigas também. Nós participávamos, às vezes, de um tour de palestras, os dois juntos… Eu costumo dizer: “Entre nós, já rolou tudo, menos sexo. Assim mesmo porque ele não quis.” Ele completa: “Por enquanto…” (risos) Nós viajamos muito juntos, Luis Fernando é uma grande companhia. Já viajei com ele como motorista. Ele é um ótimo motorista porque não fala (risos). Há toda essa lenda de que o Luis Fernando não fala. Na verdade, ele diz: “Eu não falo pouco, os outros é que falam muito” (risos). Ele tem razão. É realmente uma grande amizade, figura maravilhosa. Fizemos várias viagens, fomos ao Amazonas juntos… É uma amizade, realmente, muito gostosa. Adoro o casal.

O que mudou em sua escrita com o passar dos anos? O que se aprende com o tempo?

ZV - Se há uma coisa desagradável nisso tudo é escrever. Eu não gosto de escrever. Eu prefiro ter escrito a escrever. Prefiro ler, é muito melhor, muito mais agradável do que escrever. Escrever é uma tarefa. Depois que você escreve, quando dá certo, é até legal. Bom é ter escrito. O processo da escrita é um processo penoso, de busca da palavra, de corte… Cortar palavras é cortar um pouco de você. Esse trabalho é um trabalho penoso. Eu, se pudesse, se soubesse fazer outra coisa… Mas, enfim, tem que escrever. Escrevo duas vezes por semana, uma crônica, um artigo, para o jornal O Globo, às quartas e sábados, trabalho com o cotidiano. Meus temas são o que vejo na rua, observo… Escrevo aqui (no escritório) o dia inteiro. Saio todo dia, para mim é sagrado caminhar na praia de manhã. Não é nem para o físico, é para cabeça. É um remédio, uma endorfina que isso gera. Se eu tive umas boas ideias na vida, foi andando no calçadão de Ipanema de manhã. Teve um dia que eu estava reclamando para mim mesmo da falta de tempo: vários compromissos, tendo coisas para entregar, angustiado… Falei: “Que coisa, trabalho… Não tô com tempo nem para parar. O meu ócio…” Eu não vejo o tempo passar. Não é que eu tenha muita atividade, para mim o tempo passa bem com os amigos, indo ao cinema, lendo… E não tenho muito essa “angústia do tempo passar”, eu levo susto, assim como levei. Hoje mesmo quando falo que tenho 79 anos, que ano que vem vou fazer 80 anos, já é mais para lá do que para cá (risos), eu me surpreendo. Já? Quanto tempo… Não me angustia não, o passar do tempo eu levo bem. Meu pai morreu aos 97 anos, pareço com ele (aponta o pai em um porta-retrato). Espero chegar até lá, sem sentir. Tomara.

Você está escrevendo suas “memórias inventadas”, sobre a adolescência passada em Friburgo (interior do Rio de Janeiro), nos anos 1940, com a II Guerra e a Ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945) como pano de fundo. O que o motivou a escrever sobre esse período? Como está esse projeto?

ZV - Pois é, ele (o livro) se passa nos anos 1940, período que passei em Friburgo, na cidade da Serra, no Estado do Rio. Na verdade, eu não nasci lá, meu pai nasceu. Minha mãe nasceu em Minas. Eu nasci em Além Paraíba, fui com dias (de nascido) para Ponte Nova… Aí fomos para Friburgo, passei minha adolescência lá. Foi uma adolescência de um tempo muito curioso porque era uma cidade que estava há cento e poucos quilômetros do Rio, mas, digamos, culturalmente e psicologicamente era uma distância enorme. Estava havendo a Segunda Guerra Mundial, a Ditadura do Estado Novo no Brasil, e a gente enclausurado lá na serra. As coisas chegavam pelo rádio com muito atraso. E os usos e costumes daquela época eram muito diferentes dos de hoje, sobretudo no comportamento sexual, comportamento amoroso, com todos aqueles preconceitos, aqueles tabus. Fico lembrando, as minhas primas, as minhas irmãs, a dificuldade que era para uma moça, por exemplo, namorar. Ela podia ficar mal falada, ter a reputação estraçalhada, de um dia para o outro porque, por acaso, segurou a mão do namorado ou foi vista no cinema. Isso me marcou muito. Eu vivi os anos 1960, a transição, a revolução sexual, toda aquela libertação dos costumes, a mulher tomando consciência do seu corpo. Então, resolvi escrever, menos por saudosismo ou nostalgia. Não tenho nostalgia do passado. Como diz Paulinho da Viola: “Meu tempo é hoje”. Não tenho essa coisa de olhar para o passado: “Aquele tempo que era bom…” Não era não! Muito pior do que hoje. Enfim, eu quis registrar na minha memória, com todo esse imaginário da época, aquela coisa que se passou. Eu digo que são memórias inventadas ou emprestadas porque tem muito da minha vida, mas muito mais da vida coletiva, dos meus amigos, das pessoas que conheci, dos casos que ouvi e vivi. É a história de duas irmãs que se apaixonam por dois irmãos. Uma foi muito infeliz, o marido batia nela. E a outra, por isso mesmo, acaba não se casando… Uma história muito bonita de amor. E o pano de fundo é o Brasil daquela época, o registro desses costumes repressivos, sobretudo para a mulher, tudo era muito repressivo. E hoje, que vivemos esse tempo de permissividade, é curioso olhar para trás e ver como era uma época como aquela.

E, hoje em dia, o que espanta?

ZV - (risos) O problema é que hoje não tem mais espanto, não tem mais perplexidade. Tudo é possível. Realmente é o fim do espanto, tudo é possível. Eu acho que era bom ter (o espanto), já escrevi muito sobre isso. Tudo acontece e é possível acontecer, para o bem ou para o mal. Então, você perdeu aquela capacidade de se espantar, se surpreender. A outra coisa é o fim do pudor, no tempo despudorado como é nosso. Nem tanto os anos 1940, todo repressivo. Mas hoje a sensação é que se pode tudo, não existe mais limite, não existe mais barreiras, não existe mais referências… Essa permissividade não é legal. Um pouco de recato não faz mal, não, até para o sexo. Um pouco de pudor faz muito bem. Lembro a passagem dos anos 1970 para os anos 1980, quando começa no Rio de Janeiro a libertação sexual, as mulheres começam a falar… A fala sobre o falo. Falava-se mais até do que se fazia. Aquilo realmente foi um choque. As mulheres começavam a falar de sua intimidade, de sua relação. Não estávamos acostumados. Perde um pouco a graça quando tudo fica exposto…

Numa de suas crônicas, você lembrou uma declaração de José Saramago sobre o Twitter: “De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.” Como é sua relação com a Web?

ZV - (risos) Não é boa, não. A Internet já me matou, né? Um site botou no ar que eu tinha morrido. E isso ficou no ar durante três horas. Eu estava num lugar inacessível, as pessoas não chegavam, uma reunião que não podia entrar ninguém. Era a inauguração do Instituto Moreira Salles (IMS), com o presidente da República, o governador e o prefeito. E tinha ido como jornalista convidado, mas a imprensa não podia chegar lá. Eu estava lá dentro e correu essa notícia. Meu filho ficou, durante três horas, procurando meu corpo nos hospitais do Rio. Uma mulher, que tinha um telefone antigo meu, já não aguentava mais as pessoas ligando por engano, e resolveu fazer essa gracinha, dizendo: “Zuenir teve um acidente às quatro horas da tarde e às seis ele morreu. A Mary está inconsolável”. Ainda fez essa graça, essa maldade. As pessoas começaram a correr e não conseguiam confirmar. Houve gente que levou três dias para ressuscitar, eu levei três horas (risos).

Isso foi uma missão, virou um case, passaram a estudar nas redações, nas escolas de comunicação… É evidente, com toda a revolução tecnológica, tem os ganhos e as perdas. É claro, o ganho para a minha profissão. Imaginar que a gente já pode viver sem o Google? Se tivesse o Google quando comecei o jornalismo, eu teria morrido de fome. Eu comecei em arquivo, recortando jornal para guardar, fazendo pastas de arquivo. Hoje você aperta (uma tecla) e tem todas as informações que quiser. E tem questões como a autoria, por exemplo: todo mundo pode ser autor. É uma democratização legal da escrita, publicar o que quiser na Internet. Há questões para se resolver. São questões complicadas, não se pode achar que a censura vai resolver. Não vai, já tivemos censura, sabemos o mal que ela faz. Mas têm essas falsificações, o Luis Fernando é vítima…

Os textos apócrifos.

ZV - As pessoas escrevem e assinam Luis Fernando. E não tem como desmentir. Há um certo deslumbramento em relação à Internet. Sobre o Saramago, me ocorreu em relação ao Twitter. Há pessoas que defendem tese que você pode escrever tudo em 140 toques. Converter Os lusíadas… Não pode, não é bem assim. Pode converter, mas com perda de substância, de conteúdo, de tudo. Saramago que disse: “De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido” (risos). Ele temia essa comunicação monossilábica. É um exagero, mas é muito engraçada a imagem dele, do grunhido. Tem que olhar com distanciamento, e sem esse deslumbramento que temos com a tecnologia. Sempre que existe uma revolução tecnológica, vem essa fantasia de que vai resolver todos os problemas. Não é a tecnologia que vai resolver, é o homem.

Você viaja bastante participando de debates e palestras. Quais são as principais angústias dos jovens, que desejam ser jornalista e/ou escritor?

ZV - Tive uma grande surpresa no começo, hoje menos porque já me acostumei. Nós aqui, do eixo Rio-São Paulo, achamos que tudo passa pelo nosso umbigo, que não há vida inteligente fora do eixo Rio-São Paulo. Eu me surpreendia com o público numa cidade do interior do Brasil. Tive agradáveis choques culturais. Eles sabem, às vezes, mais da gente do que nós mesmos. Talvez por causa do tempo, tem um pouco mais de tempo, prestam mais atenção nas coisas. Um pouco daquilo que estávamos falando do mundo moderno, dessa velocidade que tudo passa, o tempo corre. O tempo realmente está mais acelerado. Não é só uma percepção psicológica, ele está acelerado. Você tem informação antes de acontecer. Todo mundo viu as Torres Gêmeas caindo, no momento que estavam caindo. Qual a preocupação desses jovens? Eles veem uma pessoa velha, um velhinho, querem conselho. Digo: “Conselho quem dá é velho. Eu não sou velho, então não dou conselho. Vocês quem sabem o que fazer. Eu já fiz a minha parte, já dei o que tinha que dar.” Temos que estabelecer um diálogo. A minha geração olha com certo desprezo para esses jovens, como quem diz: “Não fazem nada…” Não é bem assim. Essa revolução tecnológica é toda feita por jovens. Ficaram ricos (risos). É uma inteligência mais voltada para a tecnologia e não para a leitura, por exemplo. Um dos problemas do Brasil, hoje, é o baixo índice de leitura. Eu fico com pena quando um jovem diz: “Não gosto de ler.” É uma pena. Leitura é um prazer.

Dá angústia de não conseguir ler todos os livros…

ZV - Dá angústia. Os jovens chegam aqui (no escritório) e perguntam: “Já leu tudo?” (risos) Respondo: “Ainda não. Não é bem assim. Por exemplo, dicionário…” (risos) A iniciação da leitura é muito falha. O livro chega pelo dever e não pelo prazer. Se chegar para o jovem mostrando a descoberta daquele mundo, ele não larga mais o livro. Tem que motivar pelo prazer.

Em Minha história dos outros (Planeta, 2005), você fala sobre sua formação, quando teve aula com Manuel Bandeira, entre outros escritores. Fale um pouco sobre seu início, seu despertar para a leitura.

ZV - É uma coisa curiosa, porque fui para Friburgo com 11 anos, comecei a trabalhar com meu pai. Éramos uma família pobre, ele era pintor de parede, comecei como auxiliar dele. Depois trabalhei num banco, como contínuo, office-boy, hoje. Trabalhei num bar, também como office-boy, depois num laboratório de prótese dentária, ainda como boy, e depois caixeiro em uma camisaria. Atividades que não tinham nada a ver com a leitura, com os livros. E se lia muito pouco lá em Friburgo. A minha família mesmo não lia muito. Mas aí sempre tem umas coisas misteriosas. Eu sempre gostei muito de ler, e acabei descobrindo, meio que por acaso, às vezes por causa de um amigo ou outro, livros que acabaram sendo fundamentais. Lembro-me dessa época em Friburgo, dos 11 aos 20 anos. Se você me perguntar quais são os livros… era uma quantidade de livros que chegava, e eu lia misturando tudo. Então claro que a minha leitura foi toda desorganizada, cheia de lacunas nesse período. Como último emprego em Friburgo, fui professor, alfabetizando, lá no colégio onde estudava. Para ter o ensino de graça, à noite, a diretoria me ofereceu lecionar de manhã para as crianças.

E aí descobri uma vocação. Eu queria aquilo, lecionar, dar aula. E para fazer isso, tinha que vir para o Rio, fazer a faculdade de Letras, que formava para o magistério. E assim que fui parar no curso de Letras Neolatinas da Universidade Nacional de Filosofia. E dei essa sorte de cair lá, onde tinha um timaço. Você falou no Manuel Bandeira. Ele já era um grande poeta da língua portuguesa, um dos maiores, e professor de Literatura Hispano-americana. Tinha o Alceu Amoroso Lima, figura também incrível. Tinha a Cleonice Berardinelli, famosa Divina Cléo, queridíssima, eu que dei esse apelido a ela, do qual me orgulho muito. Divina Cléo. Ela até hoje me cobra isso, “você que ficou inventando essa coisa”. E está aí. E hoje, quando digo “atrás de um bom leitor tem sempre uma grande professora”, penso sempre na Cleonice. Porque eu, lá no secundário, ensino médio, detestava Os lusíadas, porque me obrigavam a ler para fazer análise lógica, sintática, para procurar o sujeito oculto, como se você fosse um investigador. Eu odiava Os lusíadas. Aí fui para a faculdade e caí nos braços da Cleonice Berardinelli como professora de Literatura Portuguesa. E hoje é um dos livros de minha preferência, que me dá o maior prazer, porque ela me ensinou, mostrou o que tinha de bonito. Então é fundamental isso, voltando àquela tese que você tem que dar prazer ao jovem através da leitura, e não obrigá-lo a ler.

Então lá foi o lugar que eu queria, dei essa sorte, com todos esses professores, um timaço, que incluía o Celso Cunha, José Carlos Lisboa, Thiers Martins Moreira, Elson Martins, que, na verdade, era aluno, mas, ao mesmo tempo, professor, e que foi fundamental na minha vida, ele que me acabou levando para o jornalismo.

Como foi essa transição das letras para o jornalismo?

Zuenir – Sabendo que eu estava com problemas de dinheiro, o Elson Martins, que dirigia o arquivo da Tribuna da Imprensa, jornal do Carlos Lacerda, então me ofereceu um emprego no arquivo do jornal, de seis à meia-noite, a única hora em que eu podia, pois passava o dia inteiro na faculdade. Eu fui para lá para ler os jornais, recortar, fazer clipping e separar as fotografias. A partir daí, com o Elson Martins insistindo sempre para que eu escrevesse para o jornal. “Aproveita essa chance, você está no jornal, a linguagem do jornal dá disciplina, ela melhora o estilo…” Ele fazia todo um discurso de convencimento e eu resistindo. Não vou ser jornalista, não vou ser escritor, eu quero é ler. Mas, enfim, acabei no jornalismo e de lá nunca mais saí.

A respeito dos seus livros, de reportagens, memórias, ficção, volta a eles, relê, tem vontade de reescrevê-los?

ZV - Não, não volto por isso. Porque se voltar eu vou querer reescrever. Então não volto. Só para você ter uma ideia, esse último eu não li até hoje (Conversa sobre o tempo, Ediouro, 2010), com Luis Fernando Veríssimo e org. de Arthur Dapieve]. E esse foi curioso, porque me mandaram para fazer umas correções, eu fiz, devolvi e achei que teria mais uma leitura, mas não. E não tinha lido, só feito as correções. Um dia, liguei para lá para saber da última leitura que faria e o livro já estava impresso. Meu Deus! E é um livro muito confessional, com muitas confidências, muitas coisas que eu não diria, porque foi num papo muito descontraído, informal. Aí simplesmente não quis ler. Porque a gente tem, e vocês sabem disso, como jornalistas, esse cacoete de reescrever sempre. Até o último momento você está reescrevendo, reescrevendo, reescrevendo. Então prefiro não ler. Não leio, não. Às vezes, leio assim, 20 anos depois um artigo e acho engraçado. “Olha, até que não tá ruim, não…” Mas prefiro não ler.

Já que você falou desse livro confessional, queria que falasse de outro, Minhas histórias dos outros (Planeta, 2005). Como foi selecionar o que entra ou não, já que tem relatos de pessoas muito próximas, como Leon Hirszman, Pedro Nava, Glauber Rocha?

ZV - Isso foi difícil. Até onde posso ir? O capítulo emblemático desse dilema foi o do Pedro Nava. Porque a história, resumindo, é que, quando ele morreu, eu estava na revista Istoé, tinha saído da Veja. E ele, na verdade, foi vítima de uma extorsão de um garoto de programa, uma coisa assim. E houve uma pressão muito grande dos amigos dele para que não se dissesse, revelasse sua opção sexual. Falavam algo como “Você vai comprometer a reputação dele.” E aí, também por preconceito nosso, e não só esta pressão, a gente omitiu coisas nesse episódio. E ficou uma dívida grande, minha, ao menos, com o leitor. Com que direito você fica omitindo, faz essa censura? E não deixa o leitor fazer. Enfim, aquilo tinha pesado e na hora de fazer o livro esse episódio voltou com uma força muito grande e resolvi então contar, e contar as dificuldades. Repórteres de vários jornais que tinham participado da apuração na época estavam aí, procurei ouvi-los. E contei, fazendo uma autocrítica, mostrando que a gente deveria ter publicado direito a história na época, fiquei devendo. E também por preconceito individual, não só coletivo, social. Já com o Leon, ele foi uma das primeiras pessoas públicas a morrer de AIDS, declaradamente, na mesma época que o Cazuza. Muita gente morreu, mas não se sabia, não se dizia. Eu era muito amigo dele e fui encarregado de fazer o obituário, trabalhava no Jornal do Brasil e escrevi sobre a morte dele. Acompanhei ao lado da cama, no hospital, até o último momento, nós éramos muito amigos. O Leon vivia lá em casa, morava lá, se separava muito aí ia para lá, queridíssimo, quase irmão. E achei que devia começar e comecei assim o texto: “Morreu ontem de AIDS o cineasta Leon Hirszman.” E fui muito patrulhado por isso. As pessoas, amigos queridos, da família, acharam que eu não tinha o direito de ter declarado isso, confessado que ele tinha a doença. Naquele momento, imagina, AIDS era um tabu, não podia dizer. Como você lembrou há pouco, era o câncer gay. Mas achei que, até em homenagem a ele, eu deveria dizer. O Leon era uma pessoa tão corajosa, verdadeira, transparente, que seria hipocrisia inventar outra causa para a morte dele. Ele não iria gostar. As dificuldades foram estas. E sobre o Pedro Nava, com o tempo isso foi ficando claro que era isso mesmo que tinha que fazer.

E o ofício da crônica no jornalismo diário, em um jornal de grande circulação, como é o seu vínculo com os leitores?

ZV - Até tirei meu endereço de e-mail da coluna há algum tempo, porque criava o seguinte problema: o leitor escreve para você e você não pode desconhecer, virar as costas. E aí eu não fazia outra coisa a não ser ficar respondendo e-mails todo o dia. Isso diminui muito esse fluxo de e-mails. Mas é curiosa essa relação, porque às vezes o leitor faz uma leitura que é completamente diferente das suas intenções. Não só a escrita é aberta, mas a leitura também. Você, na verdade, lê um pouco o que quer. Então tem coisas curiosíssimas, de você escrever numa direção e o leitor ler na outra. Há poucos dias, teve um episódio, até muito desagradável, onde o leitor me escreveu e respondi com bom humor, brincando. E ele respondeu uma tréplica, desaforado, dizendo que eu o tinha desrespeitado, não o levava a sério, estava brincando. Foi uma coisa tão desagradável que resolvi desconhecer. Tinha vontade de dizer: “Cara, peraí, você não entendeu o que escrevi?” Mas aí ia virar um… e achei melhor engolir a seco e deixar passar, porque se ele entendeu dessa maneira, equivocada… Então tem muito isso, de que a sua intenção nem sempre é apreendida, captada pelo outro lado. E eu não dedico muito tempo a Internet, apesar de já ficar parte do dia no computador.

Você escreveu Chico Mendes, crime e castigo (Companhia das Letras, 2003), um desdobramento do que aconteceu lá depois do assassinato dele, quando foi ao Acre cobrir para o Jornal do Brasil e como estava a situação anos depois. Como vê a ascensão da Marina Silva, alguém que surgiu com Chico Mendes naquele momento, com uma trajetória única, que se alfabetiza na adolescência, surge na selva, chega ao Ministério do Meio Ambiente, onde travou uma batalha pesada, e depois como candidata à presidência?

ZV - Conheci a Marina em 1989, quando fui ao Acre pela primeira vez, um mês depois da morte do Chico Mendes. Fui cobrir aquele período e aí conheci, primeiro, a história de Chico Mendes, que não conhecia, uma figura extraordinária, acho que nosso protomártir da causa ambiental. Ele era mais conhecido lá fora do que aqui, nessa época. E (conheci) seus discípulos, amigos, entre os quais a Marina, que era uma figura que me chamou logo a atenção, aquela figura magrinha, e ao mesmo tempo, quando abre a boca, tem aquela força. E as histórias da Marina, histórias do “empate”. O empate era algo que Chico comandava lá, reunia as famílias, crianças, mães e se colocavam entre os jagunços e as árvores, para não deixar abaterem-nas. Era uma coisa de coragem, e tinha histórias incríveis da Marina, que comandou um empate e começou a cantar o hino nacional e a polícia também se comoveu. E as histórias de alguém com a saúde frágil, que teve problemas de envenenamento, foi se alfabetizar com 16 anos. Figura lenda e não sabia bem o que era verdade ou lenda naquela história sobre ela. E 15 anos depois voltei para fazer o livro. Na época (1989), o Luiz Schwarcz (editor da Companhia das Letras) quis fazer o livro e eu não quis, pois estava muito em cima. E, quinze anos depois, eles estavam lançando a Coleção Jornalismo Literário e eu não teria mais desculpas para recusar. Então decidi voltar lá, revisitar aqueles personagens, aquelas situações. O livro tem duas partes, a primeira que vai até o julgamento dos assassinos de Chico Mendes, e a outra, que é a minha revisita ao Acre. E nesse tempo todo, pude conhecer melhor a Marina. Ela é muito melhor do que imaginava que se dizia dela. E não só a história de vida dela, ela é uma mulher atuante hoje, tem uma presença na vida nacional. É um luxo para o país você ter a candidatura da Marina, comparo um pouco com o advento de Barack Obama.

E em relação à Marina, o fato de ela ser evangélica, ligada à Assembleia de Deus, não te incomoda? Isso não contradiz a história dela?

ZV - Isso me incomoda, já escrevi sobre isso, inclusive. Não tanto a crença, mas o que isso impõe como restrição, como preconceito em relação a coisas como homossexualidade, aborto, isso que sabemos. Isso realmente me incomoda. Agora, isso é uma questão de fé, então acho que é uma perda. Mas ela é tão grande em relação a tudo o mais. É uma pena que esses princípios religiosos impeçam que ela seja em relação ao comportamento tão revolucionária quanto é com o meio ambiente, por exemplo.

Você já escreveu sobre a violência no Rio de Janeiro (Cidade partida, Companhia das Letras, 2003), a revolução cultural nos anos 1960 e 1970 (1968, o ano que não terminou / 1968, o que fizemos de nós – Planeta, 2008, a Amazônia (Chico Mendes, crime e castigo, Companhia das Letras, 2003), um livro de memórias (Minhas histórias dos outros, Planeta, 2005). Tem algum tema que pensa em escrever, investigar, se dedicar na próxima década, próximas duas décadas…

ZV -… ou nas próximas três, né? (risos)

… três, né? vamos estender esse tempo. Mas algo que te interessa muito e ainda não abordou longa e profundamente, como fez nesses livros reportagens.

ZV - Esses temas surgiram e se impuseram para mim. Não parei e disse: “Vou escrever sobre a Amazônia etc.” Fui meio que obrigado a escrever sobre estes temas, obrigado pelos fatos, pelas circunstâncias. Os temas se impuseram. Cidade partida, por exemplo, nunca tinha pensado (em escrever a respeito) antes de passar a conviver e frequentar uma favela durante dez meses. E quando comecei a fazer isso, não estava pensando em colocar em um livro. O material que observei, recolhi, acabou se impondo. Não faço esses projetos. Para a Amazônia, também, fui mandado pelo jornal, depois virou livro. Brinco que o acaso na minha vida é impressionante, tudo acontece por acaso. E todos os livros também surgiram por acaso ou encomenda. Eu não sei, mas certamente algum tema desse vai se impor. E é um pouco também com o negócio da crônica. “Como você escolhe os temas e assuntos?”, me perguntam. Na verdade, entram dentro de mim. Você está escrevendo sobre porque aquilo que te mobilizou, aí você escreve. Não tenho projeto, mas será certamente alguma coisa sobre o Brasil, que é minha grande obsessão, minha segunda é o Rio de Janeiro. Não sei, mas gostaria muito de poder escrever ainda em vida alguma coisa contra Cidade partida. Que pudesse ser, enfim, a cidade unida. Isso me pesa muito, no sentido de que dá sempre a impressão o fato de ter escrito Cidade partida e isso ter virado um bordão, gostaria muito que fosse substituído por um outro. Quem sabe, ainda tenho esperança de que o Rio atenda a sua vocação do encontro, da festa, da comemoração. O Rio é uma cidade do encontro, não é uma cidade da segregação. Então, essa apartheid social que a gente vive é uma circunstância que vai ser vencida com o tempo. Eu gostaria muito de estar vivo para escrever sobre esse momento.

Muito obrigado, Zuenir.

ZV - Obrigado a vocês.

 

PARTE 1

 

PARTE 2

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