CHACAL

POETA MAGISTRAL

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 

Quem convive com Chacal, seja no CEP 20.000 ou nos arredores do Baixo Gávea, consegue entender que, prestes a completar 60 anos — em 24 de maio de 2010 —, o poeta carioca mantém o vigor e o entusiasmo do garoto que estreou com o livro Muito prazer, no início dos anos 1970.

Autor de 13 livros de poemas, entre os quais Drops de abril,Letra elétrika e A vida é curta pra ser pequena, em 2007 lançou Belvedere – Poesia Reunida, pela Editora Cosac Naify. Integrante de grupos emblemáticos como Asdrúbal Trouxe o Trombone e Nuvem Cigana, Chacal faz de sua poesia um dínamo para lidar com o dia a dia. Dono de uma linguagem ágil, característica da poesia marginal, movimento ao qual até hoje é associado, o poeta circula entre diversos meios sem se prender a nenhum.

No recente livro de memórias, Uma história à margem (7Letras, 2010) — motivo do encontro — Chacal faz uma revisão biográfica, registrando a convivência com artistas no Circo Voador até a criação do CEP 20.000, o Centro de Experimentação Poética que comemorou 20 anos de formação em 2010. Chacal relembra também, personagens que, ao longo de 40 anos, passaram por sua trajetória.

Em entrevista ao SaraivaConteúdo, em seu apartamento, Chacal ilustra detalhes desses episódios que marcaram a cultura brasileira, testemunhando que a busca pela melhor maneira de dizer seus poemas é uma obsessão.

Chacal – Quarenta anos da minha vida em 150 páginas? Uma história à margemfoi um projeto meu de 2007 para o edital da Petrobras Cultural. Na verdade, Uma história à margem começa antes… Indo para um festival de poesia em Goiás Velho, em dezembro de 2006, encontro Augusto Massi, editor da Cosac Naify, e pergunto: “E meu livro? Vai sair ou não vai?” Seria o próximo livro da Coleção Ás de Colete. Esse livro já estava há dois anos na mão da Cosac…

Belvedere, sua reunião de poemas produzidos de 1971 a 2010.

C – Sim, a coletânea, poesia reunida, Belvedere, que foi lançado em 2007. Nessa viagem, ele me contou histórias e comecei a contar histórias sobre poesia marginal… Os primeiros fracassos da Nuvem Cigana, que gerou grandes sucessos mais à frente. Ele falou: “Por que você não coloca isso no livro? Seria interessante dar uma contextualizada…” Quando cheguei ao Rio, depois do festival, fui para a máquina e, rapidamente, deram 20 páginas de histórias… Histórias não faltam, não é? Eu já tinha vontade de escrever essas histórias. Enviei essas vinte páginas para o Massi, ele demorou um pouco a me responder. Foi o tempo para eu pensar que uma coisa iria brigar com a outra. Eu não queria que a minha poesia reunida ficasse brigando com o texto introdutório… As pessoas, de repente, iam se orientar para ler os poemas através da minha vida pregressa. Eu falei: “Não! Faço, então, uma pequena introdução para Belvedere, falando sobre o título do livro, e o texto eu guardo. Vamos fazer outro livro com essas histórias.” Ao mesmo tempo, abria o edital da Petrobras pela primeira vez para literatura, poesia e ficção. E o que precisava? Justamente 20 páginas do livro e o compromisso de uma editora para publicar. Escrevi de 2008 a 2010, dois anos foi o prazo que me deram. A Cosac demorou a me dar a resposta se iria publicá-lo, então falei com a 7Letras.

Como é rememorar sua trajetória?

C – É mais alegria que dor. Quando se passa a vida a limpo e vejo tantas coisas produzidas, mesmo em situações adversas, que foi a maior parte do tempo… Todo o período da Ditadura, muitas dificuldades financeiras e de cabeça… Conseguir passar pela história, estando vivo, contando sem ser psicografado… (risos) É um motivo de orgulho. Não só de orgulho, mas entender que valeu a pena, que se construiu alguma coisa. Não só uma obra literária, uma obra mais ampla… Se for pensar no CEP 20.000, uma área de produção de cultura, de produção de acontecimento, isso é bom.

Em 24 de maio 2011, você completa 60 anos. Como lidar com o tempo?

C – Quando eu fizer 60, vou ter a crise dos 20 (risos). Eu não sei, não tenho tempo para ficar pensando em idade, tempo. Aquelas coisas de sempre, o tempo não perdoa, como a bola, segundo Muricy (Ramalho, treinador de futebol hoje no Fluminense). Problemas de vista, pequenos problemas de ordem física, ter que usar óculos, perder óculos, e não sei o quê… Mas o resto eu me cuido.

Você é sempre rotulado como “poeta marginal”, mesmo após a publicação da coletânea de poemas em edição de luxo. Ainda se considera um “poeta marginal”?

C – Não. Costumo dizer que agora sou um poeta magistral (risos). Só para tirar uma onda. Eu não gosto dessa coisa de estigmatizar. A academia gosta muito de classificar o poeta, e coloca num escaninho, como para esquecer… Identificou, classificou, pronto. E todas as características identificadas naquele movimento passam para o poeta. Então, se sou um poeta marginal, devo escrever como se fala, distribuir meu livro de mão em mão, publicar em mimeógrafo… Não é isso. A categorização é da academia, às vezes, me preocupa querer sair desse museu. Eu sou outras coisas, sou um poeta concreto, sou um cordelista, sou um repentista, falo meus poemas… Não que eu seja contra ou tenha algum problema com poesia marginal, foi um movimento que trouxe muitas conquistas. Como o concretismo também trouxe. Não gosto de ser classificado assim, estou sempre mudando. Sei que vou terminar minha vida como vilão de teatro infantil…

Um objetivo?

C – Objetivo. A minha fantasia, meu sonho é esse…

Afinal, Chacal é um nome assustador.

C – Justamente (risos).

Seu nome é Ricardo Carvalho.

C – O Chacal veio do vôlei. Eu jogava vôlei na seleção carioca. Acabou o treino, me atrasei no banheiro, tomando banho… Quando cheguei à cantina, ali onde era ginásio do Mourisco, a turma estava comendo e bebendo: “Que onda Chacal.” Uma gíria que tinha na época, não sei mais o que quer dizer… Talvez, “onda devagar”.

Seus pais não ficaram assustados?

C – “Bicho carniceiro! O que é isso? Ricardo, um nome tão bonito…” Mas gostei da mudança, é sonoro. Na época, só tinha o meu, nem tinha o terrorista boliviano, colombiano… Hoje tem uma porção de MCs, grafiteiros.

E a Nuvem Cigana, nos anos 1970?

C – É uma história longa. A gente já tinha começado o movimento da Poesia Mimeógrafo, Poesia Marginal. Meu primeiro livro é de 1971, junto com o Charles Peixoto, ainda não havia a Nuvem Cigana. Depois, em 1973, encontrei o Ronaldo Bastos, parceiro do Milton Nascimento, em Londres. Ele falava que queria fazer uma produtora no Rio, que se assemelhasse a Apple inglesa, produzindo capas de discos, long plays, livros, shows… Voltei para o Brasil no final de 1973, o movimento de poesia independente estava em ebulição, principalmente com o Cacaso fazendo a Coleção Frenesi: Chico Alvim, Roberto Schwarz, Geraldo Carneiro e João Carlos Pádua. Naquela efervescência, escrevi outro livro, chamado América, que saiu pela Coleção Vida de Artista, que Cacaso organizava. Nesta coleção, saíram livros de Luís Olavo Fontes, Zuca Sardana, Eudoro Augusto e Cacaso. A importância da Nuvem Cigana foi que, pela primeira vez, tinha uma organização mais profissional na poesia marginal e nós mesmos cuidávamos da distribuição e do lançamento. Eram lançamentos maravilhosos, que a gente dava nome de Artimanhas. Em determinado momento a gente começou a falar nossos poemas. Mas não daquele jeito formal, parnasiano, clássico de leitura de poemas, com a voz impostada e embargada. A gente falava com o corpo todo, era uma poesia rock’n’roll.

Inclusive influenciado pela sua experiência de assistir Allen Ginsberg em Londres…

C – Justamente. Assisti Allen Ginsberg em Londres, em 1973, num festival internacional de poesia. Foi engraçado, porque tinham vários poetas de vários lugares do mundo, todos de paletó e gravata, lendo os textos. A visão de poesia sempre foi essa… Quando entrou o Ginsberg de macacão, muleta, perna engessada e barba toda desgrenhada… Eu fiquei maluco com aquilo. Primeiro ele não pegou nada para ler! Acho que ele falou um trecho de “Uivo”. Gargalhava e berrava, sabe? Depois tirou uma sanfoninha da bolsa e disse: “Vou falar um blues.” Pegou a sanfona, em pé, amparada na mesa, e começou a marcar e entoar um blues. Eu que já tinha ficado pirado com Bob Dylan em 1965, 1964, ele cantando “Like a rolling stone”. Para mim, foi a primeira vez que havia poesia falada, só que cantada. Quando vi Ginsberg, lembrei do Dylan.

Em 2010, o CEP 20.000 completou 20 anos. O que esse Centro de Experimentação Poética representa hoje?

C – O CEP 20.000 começou a partir de um projeto chamado Terças-Feiras Poéticas, do Guilherme Zarvos, na Faculdade da Cidade (hoje, UniverCidade), em abril ou maio de 1990. Ele convidava um artista consagrado: Ferreira Gullar, Antonio Assis, Silviano Santiago, João Cabral de Melo Neto, Gerardo de Mello Mourão… E no final, Zarvos, muito abusadamente, convidava um garoto, poeta, amigo dele da rua, Baixo Leblon, Baixo Gávea… Foi uma coisa ousada, uma garotada não conhecida. A turma que ia assistir o Gullar viu uma garotada. Essa mistura é sempre poderosa para cultura, cria uma soma, um atrito, que vai juntar público, dicções, tudo… Quando o projeto acabou, lá pela sexta ou sétima edição, fui convidado pelo Zarvos — que eu não conhecia — para fazer a última edição. Era a Heloisa Buarque (de Hollanda) falando dos poetas dos anos 1970 e eu lendo os poemas deles. E aí vi o Boato, um grupo que estava começando, alunos da PUC, performáticos até a medula. Eu estava ali na meia idade, com uns 40 anos…

E você continua dialogando com a nova geração de poetas.

C – Isso me traz sempre felicidade. É saber que tem sempre novas gerações com a mesma doença que tenho: a palavra escrita, falada… Eu acho que você só escreve se tem essa doença, se não tem, pode esquecer. Você precisa estar sempre cuidando da doença, (tomar) alguns remédios, (produzir) uma página por noite (risos).. O CEP tem essa contribuição de ser o primeiro palco para muitos artistas do Rio, e alguns do Brasil. As novas gerações vão chegando e ocupando o espaço delas no CEP. Acho que a gente está na quarta geração de poetas no CEP…

O que você busca na poesia?

C – Quero estar sempre começando. Outro dia, ouvi o Carlito Azevedo, uma pessoa que admiro, dizendo: “Quando estou feliz com um tipo de poema, quero ficar infeliz para começar outra coisa.” Eu venho perseguindo uma forma ótima de falar. A apresentação oral do poema é uma forma, é nela que me interesso mais. Eu e a Saraiva temos conteúdo, sabe? (risos) Um pé na Internet e outro no papel. Quero continuar escrevendo poesia, qualquer verso é bem-vindo.

 

CHACAL

 UMA HISTÓRIA À MARGEM

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

 

Fiz uma oficina de produção textual com Chacal e assisti ao evento V de Verso, no Sesc de Copacabana – onde o poeta contou a trajetória junto com os amigos Charles Peixoto, Fausto Fawcett, Mimi Lessa, Viviane Mosé e Raul Mourão. Então, aproveitei o mergulho para ler Belvedere 1971-2007 (7Letras, Cosac Naify) e marcar uma breve conversa.

“Todos os movimentos de que participei ativamente. Quando o livro estiver pronto, vou fazer uma nova edição desse evento com muito mais força. Confesso que não pude preparar como deveria os encontros. O V de Verso serviu para que eu pudesse ganhar força e entusiasmo para começar a navegar nessa maré. É muita coisa! São muitas vidas! Vou fazer 60 anos daqui alguns anos, sinto a necessidade de contar essas histórias”.

Acompanhado do fotógrafo Tomás Rangel e da atriz Débora Almeida, fui ao encontro de Chacal para que pudesse falar mais sobre a paixão que o mantém com um espírito tão jovem: a poesia.

“A tendência é viver o presente. A cultura contemporânea é a cultura do presente. Aqui no Brasil não há a preocupação com a memória. Eu quero escrever para acreditar que vivi esse tempo todo”.

Vestindo uma calça jeans, um blusão de malha e um gorro verde-amarelo, o poeta-ícone da geração marginal respondeu, lentamente, a cada pergunta com atenção. Com voz rouca, baixa, confessou que está numa fase da vida em que deseja contar histórias.

“Do CEP 20000 para cá, percebo duas correntes: uma de estudantes de Letras que tem um repertório maior sobre o que é poesia; e outra, mais vitalícia, na linha da Nuvem Cigana. Uma vai para a (editora) 7 Letras e outra vai para o CEP. As duas são boas. Mas eu me identifico mais com a linha do CEP. Como diz a academia, o meu repertório é baixo. Eles não entendem nada e deveriam “fumar um” de vez em quando”.

Mimeógrafo, Nuvem Cigana, Asdrúbal Trouxe o Trombone, Circo Voador, Blitz, CEP 20000 são algumas das muitas vidas de Chacal. Aos 57 anos, ele comemora os 18 anos do CEP como se estivesse brindando a própria maioridade. Um poeta que ao longo de décadas vem formando novos poetas merece, no mínimo, vida longa.

Ricardo de Carvalho Duarte. Por que o pseudônimo Chacal?

C – Chacal é uma gíria antiga que usei depois de um treino da Seleção Carioca de Vôlei, em 1964. Depois a gíria caminhou para a rua e assim ficou: Chacal.

Durante a oficina Pintura e Lanternagem do Texto, no Sesc de Copacabana, você disse que o Oswald de Andrade foi uma grande influência. E a família o influenciou de alguma maneira?

C – Em casa, eu lia Guimarães Rosa. Nos tempos de colégio, lia os autores da época, por exemplo, o Herman Hesse. Conheci a obra do Oswald em 1970, na Escola de Comunicação (ECO/UFRJ), através do (poeta) Charles Peixoto. Depois que li Oswald comecei a escrever muito próximo, como os poemas Kodak, com ideia de fotografar o ambiente.

Depois você foi para Londres e assistiu a uma performance do Allen Ginsberg. Esse fato influenciou sua maneira de dizer poesia?

C – Sim, foi um start. A performance foi muito forte, não tinha aquela leitura formal de dizer poesia. O Ginsberg chegou todo desgrenhado, vestindo um macacão jeans, e começou a falar o texto sem ler nada. Ele dava uivos e gargalhadas, era fascinante. Eu olhei aquilo e pensei que o poeta tinha de ter aquele tipo de atitude. Ainda mais naquela época, em 1973, quando tudo era contestado. Assim que pude, coloquei em prática aquele aprendizado.

Você sente preconceito da academia em relação aos poetas que falam poesia?

C – Para a academia é difícil absorver. Mas não acredito que exista preconceito, até porque muitos acadêmicos começaram a falar poesia ou, pelo menos, a ler. (Chacal interrompe a entrevista com um grito de saudação a Raul Mourão, artista plástico que finalizou o dueto do evento V de Verso’ representando a geração 00: “Salve mocorongo, mestre!”). Então, é natural que a academia vire a cara porque ela gosta da coisa morta, do poema frio para análise do texto. A presença do poeta causa um problema para eles. Primeiro, porque entra a emoção da fala do poeta e, segundo, porque é efêmero. Seria necessário que eles se deixassem levar pela emoção, isso é difícil. E dissecar uma performance não é possível, porque o momento morre. Uma fotografia de uma performance não é performance. A gravação de uma performance não é performance. É a emoção do momento que é interessante, é o que vale. E os acadêmicos não têm instrumental para analisar isso. Ou melhor, não sei se existe instrumental para essa análise. Tenho alguns poemas que são contra a academia, como o “Bendita Palavra Maldita”.

O que é preciso para ser um poeta?

C – Fazer um bom poema, um bom texto. Tem de ser guerreiro, ter atitude, mas isso está em segundo plano. Em primeiro plano está o poema.

Você é formado em jornalismo pela ECO/UFRJ…

C – Fiz comunicação social, com especialização em Teoria da Informação e Editoração. Mas não cheguei a exercer a profissão. Fui cronista na Folha e no Correio Braziliense, mas o jornalismo nunca me atraiu.

Como está sendo a experiência de rever a vida no evento V de Verso?

C – É uma experiência muito boa, principalmente porque serviu como pontapé inicial para o que será este momento do meu trabalho: uma revisão dos 40 anos de poesia e produção cultural no Rio de Janeiro. Serviu para esquentar os motores para o livro que pretendo escrever sobre essa trajetória. E serviu em relação aos meus amigos que são pessoas importantes para esse trabalho. Eu ganhei uma bolsa da Petrobras para escrever um livro, Uma História à Margem, sobre essa caminhada. Vou falar de vários momentos da poesia: Mimeógrafo, Nuvem Cigana, Asdrúbal Trouxe o Trombone, Circo Voador, Blitz, CEP 20000, Free Zone, Miscelânea… Todos os movimentos de que participei ativamente. Quando o livro estiver pronto, vou fazer uma nova edição desse evento com muito mais força. Confesso que não pude preparar como deveria os encontros. O V de Verso serviu para que eu pudesse ganhar força e entusiasmo para começar a navegar nessa maré. É muita coisa! São muitas vidas! Vou fazer 60 anos daqui alguns anos, sinto a necessidade de contar essas histórias.

Você transmite muita jovialidade. Como é envelhecer com a vida marcada por gerações?

C – É isso que estou tentando entender. Talvez esse livro possa ajudar a ter uma melhor perspectiva. A tendência é viver o presente. A cultura contemporânea é a cultura do presente. Aqui no Brasil não há a preocupação com a memória. Eu quero escrever para acreditar que vivi esse tempo todo.

Há algum tipo de crise com a idade?

C – Não. Estou sempre reciclando. A vida para mim é lucro, sabe? Acho que não temos de ter muitas expectativas, o que vier é bacana. O importante é você estar entusiasmado. Eu não quero perder o entusiasmo pela vida. Cada vez mais produzo melhor porque as pessoas já conhecem um pouco do meu trabalho. Quero tentar conjugar o trabalho com o ócio. O poeta vive o ócio sagrado, um sacerdócio.

Diante dessa trajetória, como você avalia a produção poética atual? O que é a “geração 00”?

C – Ainda é um enigma para mim. Eu não sei o que é a geração 70 que dirá a 00 (risos). A cada ano, vamos criando valores diferentes para perceber a geração anterior. Do CEP 20000 para cá, percebo duas correntes: uma de estudantes de Letras que tem um repertório maior sobre o que é poesia; e outra, mais vitalícia, na linha da Nuvem Cigana. Uma vai para a (editora) 7 Letras e outra vai para o CEP. As duas são boas. Mas eu me identifico mais com a linha do CEP. Como diz a academia, o meu repertório é baixo. Eles não entendem nada e deveriam “fumar um” de vez em quando. Então, vejo esses dois pólos. Vejo pouca gente fazendo um cruzamento entre as duas áreas. Há o Domingos Guimaraes que faz uma excelente performance. Torço pela Alice (Sant’Anna), ela tem conhecimento e uma simplicidade que me interessa. Admiro a Claudia Roquete-Pinto e o Carlito Azevedo, mas eles não fazem essa transição.

Qual a importância da comemoração dos 18 anos do CEP 20000?

C – O CEP é muito importante porque é a conquista de uma geração. O CEP instalou uma cultura jovem, pop, dentro de uma área gerida pelo município. É aquele lance de uma zona de ocupação temporária: o que interessa não é chegar ao poder, mas fazer uma zona de ocupação temporária. Só que o CEP é uma zona de ocupação de 18 anos. Ali nós instalamos uma república livre, neguinho faz o diabo e a Prefeitura não se mete. Porque há o apoio de uma galera grande. O que acontece lá? É poesia, música, arte. Mas o mais importante é o encontro das pessoas.

O que representou o Nuvem Cigana?

C – O começo de tudo, em termos de ação poética e musical. Antes disso, teve o Tropicalismo, que foi a grande matriz musical. Mas a ação poética de misturar poesia e política foi na Nuvem. Depois aprendi com Asdrúbal e depois com o Circo Voador.

Qual era diferença entre os três?

C – A Nuvem era extremamente anarquista, misturando vida com poesia. E era assim o tempo todo. O Asdrúbal já tinha um eixo no teatro, o Fernando (Luiz F. Guimarães) e a Regina (Casé) eram concentrados. O início da atividade profissional foi com o Asdrúbal, quando percebi que não era só transportar a vida para a arte. Entrei para o grupo no final de 1977, eu estava lançando Quampérios. Mas a poesia sempre falou mais alto, não sou um ator de teatro. Gosto de falar poesia. Gosto de escrever poesia e prosa poética.

Você tem parcerias com Moraes Moreira, Jards Macalé, Lulu Santos, Cláudio Venturini, Evandro Mesquita e Fernanda Abreu. Como é sua relação com a música?

C – É uma relação muito arisca. A métrica da música me prende um pouco, como se eu tivesse de escrever um soneto. Isso eu não gosto. E também há um sentimento de que é um material para a cultura de massa. Prefiro o meu trabalho com Mimi Lessa, poesia e guitarra, acho que funciona melhor. Fiz muita coisa, mas não é algo de que tenho orgulho. Gosto do trabalho que fiz com a Fernanda Abreu, porque eu mandava a letra e ela jogava um bit em cima, sem muita melodia.

De todos os seus livros, existe algum pelo qual você tenha um carinho especial?

C – O último (Belvedere), que contém todos os outros (risos).

O que você lê?

C – Eu não leio. Leio pouquíssima coisa. Pronto, falei (risos).

Você ainda se considera um poeta marginal?

C – É difícil responder isso. O poeta por si só é uma criatura marginal. A poesia não é indústria cultural, ela é artesanato. O poeta já está à margem do sistema, pois o produto de seu trabalho não tem valor de troca. Eu não sou um poeta acadêmico, não faço o jogo da academia, então já estou à margem desse grupo que é à margem. Por outro lado sou aceito, tenho uma coletânea pela Cosac Naify. Sou um poeta clássico, tenho consciência disso. Não sei… Sou poeta. Não interessa se um poeta é marginal ou não. Vivi os anos 70, continuo ligado a movimentos alternativos e vou vivendo…

Como é o seu processo de criação?

C – Vai muito do momento. Há dias em que escrevo mais, quando aflora um sentimento mais forte. Tenho dois blogs que me estimulam a criar. Mas é um processo intermitente.

O que você diria para um jovem que deseja ser poeta?

C – Seja! E depois vai ser poeta. Primeiro seja. Exercite todo o seu potencial de ser humano. Depois de ser, escreva!

CHRISTIANE TASSIS

 MEMÓRIAS, SONHOS E PALAVRAS

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

 

A escritora Christiane Tassis merece ser lida. O livro Sobre a Neblina (Língua Geral), resultado da Bolsa Criação Literária da Flip 2004, arrasta o leitor junto com as memórias do protagonista, o fotógrafo Henrique. Os personagens são desconstruídos através de textos, cartas, depoimentos e fotos, para dar sentido à narrativa.

A mineira, de Governador Valadares, parece carregar a “mineirice” no modo de se expressar, mesmo depois de ter morado em diferentes países.

“O Rio tem uma sabedoria de vida que me interessa. O carioca é menos autocrítico e faz as coisas sem pensar. O mineiro pensa de mais, é uma carga muito grande. O Rio de Janeiro tem uma leveza que me permite escrever. Se eu não tivesse passado por essa cidade, eu não teria escrito meu livro. Acho que por isso que os escritores mineiros vieram para cá: Drummond, Hélio Pellegrino…”.

Com uma fala bem lenta, quase sem sotaque, a escritora respondeu minhas perguntas sobre sua relação com as letras.

“Acho que escrevemos para encontrar uma coerência na vida, tem muito a ver com o que acabei de dizer sobre ser honesto”.

O encontro aconteceu em dezembro de 2007, com a companhia da escritora Ana Paula Maia, na livraria Argumento, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Por que demorei para publicar a entrevista? A fita do registro desapareceu, junto com outro material de trabalho, por algum motivo inexplicável.

Passado o susto, finalmente compartilho as palavras de uma escritora talentosa

Você é formada em jornalismo, publicidade e, ainda, trabalha como roteirista. Como surgiu seu interesse por literatura?

Christiane Tassis – Na verdade, o interesse pelas palavras surgiu muito antes do universo acadêmico. Tenho uma relação muito forte com a literatura, sempre li e escrevi muito. Mas na época de optar pelo lado profissional, optei pelo jornalismo. Eu pensava na maturidade para poder publicar, só mais tarde consegui encontrar minha linguagem.

Você teve incentivo de alguém?

CT – Não (risos). Ninguém! Tudo aconteceu naturalmente, fui uma criança que gostava muito de ler. É uma relação instintiva mesmo. Sempre tive vontade de trabalhar com a escrita, por isso optei pelo jornalismo. Mas eu queria separar a profissão e a literatura. Acredito que com a literatura como profissão surge a cobrança de vender livros. Não quero isso. Quero uma literatura que não tenha como objetivo a ligação com o mercado.

O jornalismo atrapalha seu trabalho como escritora?

CT – As pessoas que cursam Letras têm um discurso assim: estudar muito teoria faz com que a autocrítica prejudique o processo criativo. Não acredito, a autocrítica surge, com ou sem o estudo da teoria. A publicidade e o jornalismo não afetam nada. Sei separar as personas: uma coisa é a atividade profissional e outra é a escritora Christiane que escreve do jeito que acha legal.

Fez um ano que você publicou o livro Sobre a Neblina. O que mudou após o lançamento?

Ana Paula Maia – Ela me conheceu… (Risos.)

CT – (Risos.) Conheci a Ana Paula… Estou aqui na (livraria) Argumento, em Copacabana. Acho que mudou muita coisa. Tem um conto do Cortázar que fala de uma determinada coceira. Eu sentia essa coceira, como se eu estivesse o tempo todo com fome de publicar. Mas ao mesmo tempo eu não queria escrever qualquer livro. Queria escrever um livro de que eu não tivesse vergonha. Não sei se foi a melhor forma, mas foi o que batalhei. Revelei os conflitos que eu tinha com a publicidade – é inevitável ter questionamentos com a atividade profissional. A publicação do livro mudou minha relação com muitas coisas.

O que mudou no processo de escrita?

CT – Mudou que o meu computador quebrou (risos). Saio amanhã de férias para a Bahia, mas vou ter de levar um caderno para escrever à mão (risos). Quando fui colocar o computador na mochila percebi que ele estava quebrado (risos). O primeiro livro foi resultado de um reencontro com Minas. Morei em muitos lugares: Roma, Barcelona, São Paulo…

Você é brasileira, mas tem traços europeus…

CT – Tenho origem italiana e polonesa.

APM – Você trabalhou nesses países?

CT – Não, juntei dinheiro antes de ir. Sempre faço isso, para ficar exclusiva para literatura. A rotina de trabalhar com outras coisas é muito sufocante, mas aprendi a ser uma pessoa disciplinada. Atualmente, me obrigo a escrever umas três horas por dia.

APM – Você fica emocionalmente desgastada quando escreve ficção?

CT – No primeiro livro eu fiquei muito desgastada por causa do retorno a Minas, da bolsa da Flip… Eu me cobrei muito porque estava experimentando uma linguagem.

Existe a expectativa do segundo livro?

CT – Sim. Mas agora eu tenho todo tempo do mundo. Estou mais tranquila com a angústia de ter de encontrar uma voz, uma dicção, apesar de todo livro ter sua idiossincrasia.

Você mora em Minas Gerais. Há dificuldade com o meio editorial por causa disso?

CT – Acho que afeta porque eu frequento poucos eventos literários. Mas acho que não se deve pensar nisso. Um bom livro vai sair de Minas ou da Paraíba para tomar o mundo.

Que escritores de Minas Gerais você admira?

CT – Há os cânones mineiros: o Guimarães Rosa, Drummond, Hélio Pellegrino… Dos novos tem Maria Esther Maciel, que acho muito interessante. Acho que em Minas, atualmente, a produção audiovisual é bem maior do que a produção literária.

Mesmo com tanto apelo audiovisual as pessoas ainda estão interessadas em literatura?

CT – Acredito que sim. Nunca se publicou tanto no Brasil, a Internet favorece muito essa situação. As editoras pequenas estão interessadas em escritores contemporâneos e as grandes editoras também estão abrindo espaço…

Li, em seu blog, um texto emocionante sobre a perda do seu pai no ano de publicação do seu livro…

CT – Foi um momento muito sensível, ele ficou dois anos doente. Acho que é algo muito pessoal, prefiro não mais tocar no assunto. O que escrevi no blog fechou um ciclo, a superação…

O que é mais importante na vida?

CT – Ser honesto com você mesmo. Viver de acordo com o código de ética que você estabeleceu, sem forçar mudanças. É o que mais procuro como meta de vida.

Por que você escreve?

CT – Vou falar igual a Clarice (Lispector): ”Por que você bebe?” (Risos.) Acho que escrevemos para encontrar uma coerência na vida, tem muito a ver com o que acabei de dizer sobre ser honesto.

APM – Que mundo de ideias norteia o seu livro? O conceito, a busca…

CT – Tenho percebido que me interessa a relação com o outro. O outro é o grande enigma da vida. Por enquanto, me interessa recriar versões de diferentes histórias. Não sou uma contadora de histórias, gosto de trabalhar o texto.

Quais são suas maiores influências?

CT – O filme Rashomon, de Kurosawa. Gosto muito do Borges, Cortázar, Clarice Lispector…

Você escreve roteiros e romances. Existe muita diferença?

CT – Sim. O roteiro é mais pragmático, uma peça de um trabalho. São linguagens diferentes. Mas prefiro o livro a qualquer outra coisa na vida.

Seu livro foi indicado na bibliografia de uma disciplina da UFMG…

CT – Sim. Fiquei muito feliz por ter interlocução com estudantes de Letras. Essas coisas pequenas que valem a pena.

O segundo romance já tem nome?

CT – Não. Nomes são dificílimos, sempre faço a escolha por último. O livro vai mudando…

Como acontece seu processo de criação?

CT – Quando escrevo roteiro, faço uma sinopse. Mas com o livro não consigo fazer nada disso. Geralmente, quando trabalho um romance, não faço a menor ideia do que vou escrever. É estranho, o livro vai mudando.

Se você pudesse escolher um lugar para morar, escolheria o Rio?

CT – Acho que sim. O Rio tem uma sabedoria de vida que me interessa. O carioca é menos autocrítico e faz as coisas sem pensar. O mineiro pensa de mais, é uma carga muito grande. O Rio de Janeiro tem uma leveza que me permite escrever. Se eu não tivesse passado por essa cidade, eu não teria escrito meu livro. Acho que por isso que os escritores mineiros vieram para cá: Drummond, Hélio Pellegrino… (Risos.) Para tirar um pouco do peso do minério… (Risos.)

Li numa entrevista que você escreve sobre o que não entende. Por quê?

CT – Porque tenho interesse pelo desconhecido. Sou minha primeira leitora. A primeira pessoa que tenho de agradar sou eu, o que já é coisa de mais. Levando isso em consideração, preciso me apresentar a coisas que não conheço. Tenho interesse pela elite cultural, pelas pessoas que trabalham com cultura.

Você tinha um blog chamado Basicamente Isso, que agora tem o nome de Multiprocessador. Como é sua relação com a Internet?

CT – Uso mais a Internet como exercício, meu interesse é publicar textos que não tenham outro suporte. Procuro usar o blog escrevendo textos curtos, despretensiosos.

Existe literatura de Internet?

CT – Acho que sim. Mas não me vejo publicando um romance pela Internet, por exemplo. Claro que há textos bons na Internet, mas talvez não sirvam para um livro.

O que você diria para um jovem que deseja ser escritor?

CT – Tente a medicina (risos). A profissão de escritor é difícil, tem de ter vocação. Não existe receita de bolo. Seja honesto com a escrita!

CHICO MATTOSO

 ESTRANHEZA E INTIMIDADE NO PRIMEIRO ROMANCE

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007]

   

 

O livro Parati para mim(Planeta), produzido e lançado na primeira edição da Festa Literária de Parati (FLIP/2003), despertou a minha atenção para os três jovens escritores: Chico Mattoso, Santiago Nazarian e João Paulo Cuenca.

O conto “Emílio”, escrito por Chico, ficou durante algum tempo guardado em minha memória. Mas depois acabei esquecendo e acompanhando mais a produção do Cuenca e do Nazarian, que publicam com mais frequência.

“Eu nunca tive pressa para publicar. Achei que aconteceria na hora certa. A experiência com os livros coletivos foi importante para mim, tanto como exercício literário como pelo contato com outros escritores. Meu romance era até para ter ficado pronto antes, mas me envolvi num projeto que interrompeu o processo. O livro ficou na gaveta por quase um ano, e em 2006 retomei o trabalho”, explica o escritor, que é formado em Letras na USP.

Depois de quase cinco anos, leio o romance do Chico Mattoso, Longe de Ramiro(Editora 34), seu primeiro livro “solo”. Trocamos algumas palavras durante um evento literário no Rio de Janeiro, mas a entrevista ocorreu por MSN. Foi a nossa primeira entrevista ”virtual-instantânea”.

“Eu tinha 17 anos, estava começando a escrever com mais frequência, e aquilo bateu forte em mim. Eu já tinha interesse em literatura, mas nunca tinha pensado que poderia transformar aqueles textinhos de colegial em uma atividade mais séria. Aliás, até hoje não sei se consegui fazer isso”, iniciamos a conversa.

Arrisco dizer que Longe de Ramiro foi um dos melhores lançamentos que li em 2007. O personagem Ramiro causa tanta estranheza ao leitor que, no decorrer das páginas, é impossível não se sentir íntimo dessa história ”kafikiana”. Leia.

Você é francês? Como é essa história?

Chico Mattoso – Não, não tenho nada de francês. Meus pais estavam exilados na França, e aconteceu de eu nascer lá. Vim para o Brasil com seis meses, sou brasileiro de pai e mãe.

Você chegou a morar na França em 1997. De que maneira essa experiência serviu para sua escrita?

CM – Fui para lá com 18 anos. Foi importante para mim, nesse período eu saquei que podia levar mais a sério a escrita. Mas isso não tem muito a ver com o fato de estar lá, acho que teria acontecido se eu estivesse no Brasil.

De que maneira a literatura chegou a você?

CM – Meus pais sempre foram bons leitores, e acho que isso teve alguma influência no meu interesse pela literatura. Desde pequeno tenho certo encantamento por essa coisa de contar histórias, mas não posso dizer que tenha sido um escritor precoce. Gostava de ler e escrever, mas preferia jogar videogame.

Esse interesse pela literatura surgiu por causa de algum livro ou escritor?

CM – Engraçado. Nunca havia pensado nisso, mas acho que houve um livro importante para mim. Fiquei muito impressionado quando li O Estrangeiro, do Camus. Eu tinha 17 anos, estava começando a escrever com mais frequência, e aquilo bateu forte em mim. Eu já tinha interesse em literatura, mas nunca tinha pensado que poderia transformar aqueles textinhos de colegial em uma atividade mais séria. Aliás, até hoje não sei se consegui fazer isso.

Escritor, tradutor, editor, roteirista. Em que você mais se realiza?

CM – Gosto do que faço. Posso dizer que escolhi ser escritor, mas o resto aconteceu meio por acaso. Foram oportunidades que apareceram e eu resolvi encarar. Até porque não dá para viver só de escrita no Brasil.

Como foi esse “exílio” encomendado em Cuba? O que mais o atraiu lá? Já está escrevendo um novo livro?

CM – Não sei dizer o que mais me atraiu. Cuba é um lugar muito particular. É tudo familiar e estranho ao mesmo tempo. Ainda estou aprendendo a entender aquilo lá. Escrever o livro está me ajudando nesse sentido. Mas não gosto de falar de algo que ainda não está pronto. Estou no meio do processo, fica difícil dizer alguma coisa.

De que maneira São Paulo está presente no que você escreve?

CM – Putz, não sei. Cresci aqui, é difícil avaliar. Mas sou apaixonado por São Paulo. Acho um lugar fantástico. Outro dia, um amigo que nunca veio para cá me perguntou como era a cidade, e eu respondi que São Paulo era muito melhor e mais feia do que ele poderia imaginar. Acho que é mais ou menos por aí.

Você é formado em Letras na USP. Você crê que a universidade, a faculdade de Letras em específico, pode travar o processo criativo?

CM – Não acho. Quem quer escrever, escreve. É verdade que o ambiente acadêmico não é o lugar mais propício para grandes voos de imaginação, mas acho perfeitamente possível conseguir separar as coisas. Eu consegui.

Você teve alguma experiência com artistas cubanos?

CM – Tive contato com alguns escritores e músicos. Gente muito legal, muito talentosa. Mas meu interesse maior estava no dia a dia de Havana, nesse exercício absurdo que é tentar decifrar uma cidade estrangeira.

Dois livros em grupo: Cabras (1999) – Com Antonio Prata, Paulo Werneck e José Vicente da Veiga e Parati para Mim (2003) – com João Paulo Cuenca e Santiago Nazarian. Você demorou a escrever e a publicar o seu livro solo – Longe de Ramiro. Por quê?

CM – Eu nunca tive pressa para publicar. Achei que aconteceria na hora certa. A experiência com os livros coletivos foi importante para mim, tanto como exercício literário como pelo contato com outros escritores. Meu romance era até para ter ficado pronto antes, mas me envolvi num projeto que interrompeu o processo. O livro ficou na gaveta por quase um ano, e em 2006 retomei o trabalho.

Como acontece o seu processo de criação? Você é disciplinado para escrever?

CM – Eu gostaria de ser mais disciplinado. É uma luta que tenho travado comigo, porque sou caótico por natureza. Mas tenho evoluído. Acho.

Quem é Ramiro?

CM – Boa pergunta. Eu estava com o telefone dele aqui, comigo, mas agora não estou achando. Vai ficar para outra hora… (Risos.).

Por que você escreve?

CM – Já me perguntei muitas vezes por que escrevo. Não sei a resposta. Mas tenho outros hábitos estranhos, como beber Coca-Cola sem gás e torcer pelo Corinthians.

Você tem algum parentesco com o poeta Glauco Mattoso?

CM – É meu sobrinho. Brincadeira. As pessoas sempre me perguntam. Glauco Mattoso é um pseudônimo, não temos conexão nenhuma.

Como foi a experiência de escrever roteiro de novela?

CM – Foi… intensa. Aprendi muito. Tenho vontade de voltar a trabalhar em Televisão, mas não sei se escrevendo novela. É massacrante demais.

Sua prosa é diferente dos autores contemporâneos que tenho lido. Uma escrita não fragmentada que sai costurando a história e arrastando o leitor. Quais são as suas referências?

CM – Gosto muito dos americanos, dos russos, dos argentinos: Salinger, Saroyan, Roth, Carver, Tchekhov, Tolstói, Cortázar. Ultimamente tenho lido Bolaño, Graciliano, Onetti. O último livro do Javier Cercas é excelente. Mas quem me ensina mesmo a viver é o Bill Watterson.

Você lê a galera nova que está produzindo? Quem?

CM – Acompanho, na medida do possível. Evito um pouco cair na armadilha de ler só os contemporâneos, acho que não faz muito bem para saúde. Mas acho essa geração de escritores brasileiros muito boa. O Daniel Galera, o JP Cuenca, o Edward Pimenta, a Cecilia Giannetti, o Antonio Prata, o Joca Terron. E o legal é que são autores muito diferentes uns dos outros, com vozes muito particulares. Acho que ainda vem muita coisa boa por aí.

Você escreve poesia? Que poetas você lê?

CM – Não escrevo poesia, mas leio com alguma frequência. Gosto de Apollinaire, de Drummond, de Maiakovski, de Ginsberg, de Walt Whitman. No Brasil há também uma boa geração de poetas. Gosto muito da Angélica Freitas e do Fabrício Corsaletti.

O que diria para os jovens que desejam ser escritores?

CM – Leiam. Escrevam. Leiam mais um pouco. Tenham paciência. E não se levem a sério demais.

ZUENIR VENTURA

O TEMPO DE HOJE

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

zuenirventura

 

Para o escritor e jornalista Zuenir Ventura, o tempo pode se confundir com palavras como amor e amizade. Aos 79 anos, a reflexão não poderia ser diferente: “Não me sinto com 79 anos. Eu me lembro quando fiz 60, levei um susto. Acordei e estava com 60 anos. ‘Mas eu não mereço isso…’”, ri. Resultado concreto desse passar do tempo foi, recentemente, testemunhado por Luis Fernando Veríssimo, no livroConversa sobre o tempo (Ediouro, 2010), papo que teve a mediação de Arthur Dapieve. Os três se reuniram num sítio para registrar a efemeridade de uma vida marcada pela amizade.

Dedicando-se diariamente ao ofício da escrita, Zuenir Ventura busca no cotidiano, entre os livros de seu escritório e o calçadão da orla de Ipanema, a inspiração necessária para expor sua visão de mundo. A memória, muito prezada por Zuenir, sua grande companheira, assim como a esposa Mary, é uma forte aliada. Assim como a reportagem, vide os livros publicados ao longo dos anos: 1968, o ano que não terminou / 1968, o que fizemos de nós (Planeta, 2008), Cidade partida(Companhia das Letras, 1994), Chico Mendes, crime e castigo (Companhia das Letras, 2003), Minhas histórias dos outros (Planeta, 2005)…

Não é à toa que, atualmente, dedica-se a escrever suas “memórias inventadas”: uma espécie de inventário sobre adolescência passada em Friburgo, interior do Rio de Janeiro, nos anos 1940, tendo como pano de fundo a II Guerra e a Ditadura do Estado Novo (1937-1945), comandada por Getúlio Vargas. Nesta conversa em seu escritório, Zuenir passeou pelo tempo, buscou significados para ele, comentou sua trajetória do interior de Minas Gerais a Friburgo, até chegar ao Rio de Janeiro, para onde se mudou nos anos 1940 com o intuito de cursar a Faculdade de Letras e se tornar professor. Obra do acaso, importante em sua trajetória, começou no jornalismo trabalhando no arquivo da Tribuna da Imprensa, onde logo estaria escrevendo e reportando.

Sobre a próxima grande reportagem, Zuenir diz que não faz projetos, eles caem em seu colo. Mesmo sem saber sobre o que irá tratar, será algo que aborde o Brasil, ou o Rio, mais especificamente: “Gostaria muito de poder escrever ainda em vida alguma coisa contra Cidade partida. Que pudesse ser, enfim, a cidade unida”, finaliza. A seguir, a íntegra da conversa com Zuenir Ventura.

Recentemente você se reuniu com Luis Fernando Veríssimo para conversar sobre o tempo, sob a mediação de Arthur Dapieve. O resultado é o livro Conversa sobre o tempo (Ediouro). Você está com 79 anos, o que muda nesse tempo escrevendo?

Zuenir Ventura – Primeiro, essa relação com a idade é muito curiosa. Eu não me sinto com 79 anos. Eu me lembro quando fiz 60, levei um susto. Acordei e estava com 60 anos. “Mas eu não mereço isso…” (risos) “Sessenta anos? Eu não mereço!” Depois, quando fiz 65, escrevi uma crônica, que fica correndo por aí, em antologias, chama-se “Um idoso na fila do Detran”. Foi quando presenciei uma cena no Detran, que era uma fila enorme, e a mulher que estava organizando, de repente: “Deixa o idoso passar! Deixa o idoso passar…” Eu também comecei a ajudar: “Deixa o idoso passar…” O idoso era eu (risos). Eu nunca tinha sido chamado por essa palavra, foi realmente um certo choque. A partir daí, eu realmente convivo… O problema não é idade, o problema é doença, não é? Eu não tenho problema com a morte, medo da morte, não é uma obsessão… Não é uma coisa que me persiga como medo ou pensamento. Mas eu tenho muito medo do sofrimento. Essa talvez seja a pior coisa. Conversamos muito sobre isso, Luis Fernando é bem mais novo do que eu, uma criança. Foi um papo descontraído, durante dias, ficamos num sítio, isolado, só conversando sobre amizade, amor, tempo… Enfim, foi uma experiência muito curiosa, em que se falou muito do tempo, sem ver o tempo passar. Passou muito rápido.

Sobre sua amizade com o Luis Fernando Veríssimo…

ZV – Nós nos conhecemos em Paris. Quem nos levou, a mim e Mary (esposa de Zuenir), para conhecer o Luis Fernando e Lucia foi o Roberto D’Ávila. Luis Fernando estava morando em Paris. Ele fazia isso, morava em temporadas com a família, ia para Paris, Roma, Estados Unidos… Ele estava em Paris naquela época. Já têm 20 anos, ficamos muito amigos. As mulheres, Lucia e Mary, são muito amigas também. Nós participávamos, às vezes, de um tour de palestras, os dois juntos… Eu costumo dizer: “Entre nós, já rolou tudo, menos sexo. Assim mesmo porque ele não quis.” Ele completa: “Por enquanto…” (risos) Nós viajamos muito juntos, Luis Fernando é uma grande companhia. Já viajei com ele como motorista. Ele é um ótimo motorista porque não fala (risos). Há toda essa lenda de que o Luis Fernando não fala. Na verdade, ele diz: “Eu não falo pouco, os outros é que falam muito” (risos). Ele tem razão. É realmente uma grande amizade, figura maravilhosa. Fizemos várias viagens, fomos ao Amazonas juntos… É uma amizade, realmente, muito gostosa. Adoro o casal.

O que mudou em sua escrita com o passar dos anos? O que se aprende com o tempo?

ZV - Se há uma coisa desagradável nisso tudo é escrever. Eu não gosto de escrever. Eu prefiro ter escrito a escrever. Prefiro ler, é muito melhor, muito mais agradável do que escrever. Escrever é uma tarefa. Depois que você escreve, quando dá certo, é até legal. Bom é ter escrito. O processo da escrita é um processo penoso, de busca da palavra, de corte… Cortar palavras é cortar um pouco de você. Esse trabalho é um trabalho penoso. Eu, se pudesse, se soubesse fazer outra coisa… Mas, enfim, tem que escrever. Escrevo duas vezes por semana, uma crônica, um artigo, para o jornal O Globo, às quartas e sábados, trabalho com o cotidiano. Meus temas são o que vejo na rua, observo… Escrevo aqui (no escritório) o dia inteiro. Saio todo dia, para mim é sagrado caminhar na praia de manhã. Não é nem para o físico, é para cabeça. É um remédio, uma endorfina que isso gera. Se eu tive umas boas ideias na vida, foi andando no calçadão de Ipanema de manhã. Teve um dia que eu estava reclamando para mim mesmo da falta de tempo: vários compromissos, tendo coisas para entregar, angustiado… Falei: “Que coisa, trabalho… Não tô com tempo nem para parar. O meu ócio…” Eu não vejo o tempo passar. Não é que eu tenha muita atividade, para mim o tempo passa bem com os amigos, indo ao cinema, lendo… E não tenho muito essa “angústia do tempo passar”, eu levo susto, assim como levei. Hoje mesmo quando falo que tenho 79 anos, que ano que vem vou fazer 80 anos, já é mais para lá do que para cá (risos), eu me surpreendo. Já? Quanto tempo… Não me angustia não, o passar do tempo eu levo bem. Meu pai morreu aos 97 anos, pareço com ele (aponta o pai em um porta-retrato). Espero chegar até lá, sem sentir. Tomara.

Você está escrevendo suas “memórias inventadas”, sobre a adolescência passada em Friburgo (interior do Rio de Janeiro), nos anos 1940, com a II Guerra e a Ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945) como pano de fundo. O que o motivou a escrever sobre esse período? Como está esse projeto?

ZV - Pois é, ele (o livro) se passa nos anos 1940, período que passei em Friburgo, na cidade da Serra, no Estado do Rio. Na verdade, eu não nasci lá, meu pai nasceu. Minha mãe nasceu em Minas. Eu nasci em Além Paraíba, fui com dias (de nascido) para Ponte Nova… Aí fomos para Friburgo, passei minha adolescência lá. Foi uma adolescência de um tempo muito curioso porque era uma cidade que estava há cento e poucos quilômetros do Rio, mas, digamos, culturalmente e psicologicamente era uma distância enorme. Estava havendo a Segunda Guerra Mundial, a Ditadura do Estado Novo no Brasil, e a gente enclausurado lá na serra. As coisas chegavam pelo rádio com muito atraso. E os usos e costumes daquela época eram muito diferentes dos de hoje, sobretudo no comportamento sexual, comportamento amoroso, com todos aqueles preconceitos, aqueles tabus. Fico lembrando, as minhas primas, as minhas irmãs, a dificuldade que era para uma moça, por exemplo, namorar. Ela podia ficar mal falada, ter a reputação estraçalhada, de um dia para o outro porque, por acaso, segurou a mão do namorado ou foi vista no cinema. Isso me marcou muito. Eu vivi os anos 1960, a transição, a revolução sexual, toda aquela libertação dos costumes, a mulher tomando consciência do seu corpo. Então, resolvi escrever, menos por saudosismo ou nostalgia. Não tenho nostalgia do passado. Como diz Paulinho da Viola: “Meu tempo é hoje”. Não tenho essa coisa de olhar para o passado: “Aquele tempo que era bom…” Não era não! Muito pior do que hoje. Enfim, eu quis registrar na minha memória, com todo esse imaginário da época, aquela coisa que se passou. Eu digo que são memórias inventadas ou emprestadas porque tem muito da minha vida, mas muito mais da vida coletiva, dos meus amigos, das pessoas que conheci, dos casos que ouvi e vivi. É a história de duas irmãs que se apaixonam por dois irmãos. Uma foi muito infeliz, o marido batia nela. E a outra, por isso mesmo, acaba não se casando… Uma história muito bonita de amor. E o pano de fundo é o Brasil daquela época, o registro desses costumes repressivos, sobretudo para a mulher, tudo era muito repressivo. E hoje, que vivemos esse tempo de permissividade, é curioso olhar para trás e ver como era uma época como aquela.

E, hoje em dia, o que espanta?

ZV - (risos) O problema é que hoje não tem mais espanto, não tem mais perplexidade. Tudo é possível. Realmente é o fim do espanto, tudo é possível. Eu acho que era bom ter (o espanto), já escrevi muito sobre isso. Tudo acontece e é possível acontecer, para o bem ou para o mal. Então, você perdeu aquela capacidade de se espantar, se surpreender. A outra coisa é o fim do pudor, no tempo despudorado como é nosso. Nem tanto os anos 1940, todo repressivo. Mas hoje a sensação é que se pode tudo, não existe mais limite, não existe mais barreiras, não existe mais referências… Essa permissividade não é legal. Um pouco de recato não faz mal, não, até para o sexo. Um pouco de pudor faz muito bem. Lembro a passagem dos anos 1970 para os anos 1980, quando começa no Rio de Janeiro a libertação sexual, as mulheres começam a falar… A fala sobre o falo. Falava-se mais até do que se fazia. Aquilo realmente foi um choque. As mulheres começavam a falar de sua intimidade, de sua relação. Não estávamos acostumados. Perde um pouco a graça quando tudo fica exposto…

Numa de suas crônicas, você lembrou uma declaração de José Saramago sobre o Twitter: “De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.” Como é sua relação com a Web?

ZV - (risos) Não é boa, não. A Internet já me matou, né? Um site botou no ar que eu tinha morrido. E isso ficou no ar durante três horas. Eu estava num lugar inacessível, as pessoas não chegavam, uma reunião que não podia entrar ninguém. Era a inauguração do Instituto Moreira Salles (IMS), com o presidente da República, o governador e o prefeito. E tinha ido como jornalista convidado, mas a imprensa não podia chegar lá. Eu estava lá dentro e correu essa notícia. Meu filho ficou, durante três horas, procurando meu corpo nos hospitais do Rio. Uma mulher, que tinha um telefone antigo meu, já não aguentava mais as pessoas ligando por engano, e resolveu fazer essa gracinha, dizendo: “Zuenir teve um acidente às quatro horas da tarde e às seis ele morreu. A Mary está inconsolável”. Ainda fez essa graça, essa maldade. As pessoas começaram a correr e não conseguiam confirmar. Houve gente que levou três dias para ressuscitar, eu levei três horas (risos).

Isso foi uma missão, virou um case, passaram a estudar nas redações, nas escolas de comunicação… É evidente, com toda a revolução tecnológica, tem os ganhos e as perdas. É claro, o ganho para a minha profissão. Imaginar que a gente já pode viver sem o Google? Se tivesse o Google quando comecei o jornalismo, eu teria morrido de fome. Eu comecei em arquivo, recortando jornal para guardar, fazendo pastas de arquivo. Hoje você aperta (uma tecla) e tem todas as informações que quiser. E tem questões como a autoria, por exemplo: todo mundo pode ser autor. É uma democratização legal da escrita, publicar o que quiser na Internet. Há questões para se resolver. São questões complicadas, não se pode achar que a censura vai resolver. Não vai, já tivemos censura, sabemos o mal que ela faz. Mas têm essas falsificações, o Luis Fernando é vítima…

Os textos apócrifos.

ZV - As pessoas escrevem e assinam Luis Fernando. E não tem como desmentir. Há um certo deslumbramento em relação à Internet. Sobre o Saramago, me ocorreu em relação ao Twitter. Há pessoas que defendem tese que você pode escrever tudo em 140 toques. Converter Os lusíadas… Não pode, não é bem assim. Pode converter, mas com perda de substância, de conteúdo, de tudo. Saramago que disse: “De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido” (risos). Ele temia essa comunicação monossilábica. É um exagero, mas é muito engraçada a imagem dele, do grunhido. Tem que olhar com distanciamento, e sem esse deslumbramento que temos com a tecnologia. Sempre que existe uma revolução tecnológica, vem essa fantasia de que vai resolver todos os problemas. Não é a tecnologia que vai resolver, é o homem.

Você viaja bastante participando de debates e palestras. Quais são as principais angústias dos jovens, que desejam ser jornalista e/ou escritor?

ZV - Tive uma grande surpresa no começo, hoje menos porque já me acostumei. Nós aqui, do eixo Rio-São Paulo, achamos que tudo passa pelo nosso umbigo, que não há vida inteligente fora do eixo Rio-São Paulo. Eu me surpreendia com o público numa cidade do interior do Brasil. Tive agradáveis choques culturais. Eles sabem, às vezes, mais da gente do que nós mesmos. Talvez por causa do tempo, tem um pouco mais de tempo, prestam mais atenção nas coisas. Um pouco daquilo que estávamos falando do mundo moderno, dessa velocidade que tudo passa, o tempo corre. O tempo realmente está mais acelerado. Não é só uma percepção psicológica, ele está acelerado. Você tem informação antes de acontecer. Todo mundo viu as Torres Gêmeas caindo, no momento que estavam caindo. Qual a preocupação desses jovens? Eles veem uma pessoa velha, um velhinho, querem conselho. Digo: “Conselho quem dá é velho. Eu não sou velho, então não dou conselho. Vocês quem sabem o que fazer. Eu já fiz a minha parte, já dei o que tinha que dar.” Temos que estabelecer um diálogo. A minha geração olha com certo desprezo para esses jovens, como quem diz: “Não fazem nada…” Não é bem assim. Essa revolução tecnológica é toda feita por jovens. Ficaram ricos (risos). É uma inteligência mais voltada para a tecnologia e não para a leitura, por exemplo. Um dos problemas do Brasil, hoje, é o baixo índice de leitura. Eu fico com pena quando um jovem diz: “Não gosto de ler.” É uma pena. Leitura é um prazer.

Dá angústia de não conseguir ler todos os livros…

ZV - Dá angústia. Os jovens chegam aqui (no escritório) e perguntam: “Já leu tudo?” (risos) Respondo: “Ainda não. Não é bem assim. Por exemplo, dicionário…” (risos) A iniciação da leitura é muito falha. O livro chega pelo dever e não pelo prazer. Se chegar para o jovem mostrando a descoberta daquele mundo, ele não larga mais o livro. Tem que motivar pelo prazer.

Em Minha história dos outros (Planeta, 2005), você fala sobre sua formação, quando teve aula com Manuel Bandeira, entre outros escritores. Fale um pouco sobre seu início, seu despertar para a leitura.

ZV - É uma coisa curiosa, porque fui para Friburgo com 11 anos, comecei a trabalhar com meu pai. Éramos uma família pobre, ele era pintor de parede, comecei como auxiliar dele. Depois trabalhei num banco, como contínuo, office-boy, hoje. Trabalhei num bar, também como office-boy, depois num laboratório de prótese dentária, ainda como boy, e depois caixeiro em uma camisaria. Atividades que não tinham nada a ver com a leitura, com os livros. E se lia muito pouco lá em Friburgo. A minha família mesmo não lia muito. Mas aí sempre tem umas coisas misteriosas. Eu sempre gostei muito de ler, e acabei descobrindo, meio que por acaso, às vezes por causa de um amigo ou outro, livros que acabaram sendo fundamentais. Lembro-me dessa época em Friburgo, dos 11 aos 20 anos. Se você me perguntar quais são os livros… era uma quantidade de livros que chegava, e eu lia misturando tudo. Então claro que a minha leitura foi toda desorganizada, cheia de lacunas nesse período. Como último emprego em Friburgo, fui professor, alfabetizando, lá no colégio onde estudava. Para ter o ensino de graça, à noite, a diretoria me ofereceu lecionar de manhã para as crianças.

E aí descobri uma vocação. Eu queria aquilo, lecionar, dar aula. E para fazer isso, tinha que vir para o Rio, fazer a faculdade de Letras, que formava para o magistério. E assim que fui parar no curso de Letras Neolatinas da Universidade Nacional de Filosofia. E dei essa sorte de cair lá, onde tinha um timaço. Você falou no Manuel Bandeira. Ele já era um grande poeta da língua portuguesa, um dos maiores, e professor de Literatura Hispano-americana. Tinha o Alceu Amoroso Lima, figura também incrível. Tinha a Cleonice Berardinelli, famosa Divina Cléo, queridíssima, eu que dei esse apelido a ela, do qual me orgulho muito. Divina Cléo. Ela até hoje me cobra isso, “você que ficou inventando essa coisa”. E está aí. E hoje, quando digo “atrás de um bom leitor tem sempre uma grande professora”, penso sempre na Cleonice. Porque eu, lá no secundário, ensino médio, detestava Os lusíadas, porque me obrigavam a ler para fazer análise lógica, sintática, para procurar o sujeito oculto, como se você fosse um investigador. Eu odiava Os lusíadas. Aí fui para a faculdade e caí nos braços da Cleonice Berardinelli como professora de Literatura Portuguesa. E hoje é um dos livros de minha preferência, que me dá o maior prazer, porque ela me ensinou, mostrou o que tinha de bonito. Então é fundamental isso, voltando àquela tese que você tem que dar prazer ao jovem através da leitura, e não obrigá-lo a ler.

Então lá foi o lugar que eu queria, dei essa sorte, com todos esses professores, um timaço, que incluía o Celso Cunha, José Carlos Lisboa, Thiers Martins Moreira, Elson Martins, que, na verdade, era aluno, mas, ao mesmo tempo, professor, e que foi fundamental na minha vida, ele que me acabou levando para o jornalismo.

Como foi essa transição das letras para o jornalismo?

Zuenir – Sabendo que eu estava com problemas de dinheiro, o Elson Martins, que dirigia o arquivo da Tribuna da Imprensa, jornal do Carlos Lacerda, então me ofereceu um emprego no arquivo do jornal, de seis à meia-noite, a única hora em que eu podia, pois passava o dia inteiro na faculdade. Eu fui para lá para ler os jornais, recortar, fazer clipping e separar as fotografias. A partir daí, com o Elson Martins insistindo sempre para que eu escrevesse para o jornal. “Aproveita essa chance, você está no jornal, a linguagem do jornal dá disciplina, ela melhora o estilo…” Ele fazia todo um discurso de convencimento e eu resistindo. Não vou ser jornalista, não vou ser escritor, eu quero é ler. Mas, enfim, acabei no jornalismo e de lá nunca mais saí.

A respeito dos seus livros, de reportagens, memórias, ficção, volta a eles, relê, tem vontade de reescrevê-los?

ZV - Não, não volto por isso. Porque se voltar eu vou querer reescrever. Então não volto. Só para você ter uma ideia, esse último eu não li até hoje (Conversa sobre o tempo, Ediouro, 2010), com Luis Fernando Veríssimo e org. de Arthur Dapieve]. E esse foi curioso, porque me mandaram para fazer umas correções, eu fiz, devolvi e achei que teria mais uma leitura, mas não. E não tinha lido, só feito as correções. Um dia, liguei para lá para saber da última leitura que faria e o livro já estava impresso. Meu Deus! E é um livro muito confessional, com muitas confidências, muitas coisas que eu não diria, porque foi num papo muito descontraído, informal. Aí simplesmente não quis ler. Porque a gente tem, e vocês sabem disso, como jornalistas, esse cacoete de reescrever sempre. Até o último momento você está reescrevendo, reescrevendo, reescrevendo. Então prefiro não ler. Não leio, não. Às vezes, leio assim, 20 anos depois um artigo e acho engraçado. “Olha, até que não tá ruim, não…” Mas prefiro não ler.

Já que você falou desse livro confessional, queria que falasse de outro, Minhas histórias dos outros (Planeta, 2005). Como foi selecionar o que entra ou não, já que tem relatos de pessoas muito próximas, como Leon Hirszman, Pedro Nava, Glauber Rocha?

ZV - Isso foi difícil. Até onde posso ir? O capítulo emblemático desse dilema foi o do Pedro Nava. Porque a história, resumindo, é que, quando ele morreu, eu estava na revista Istoé, tinha saído da Veja. E ele, na verdade, foi vítima de uma extorsão de um garoto de programa, uma coisa assim. E houve uma pressão muito grande dos amigos dele para que não se dissesse, revelasse sua opção sexual. Falavam algo como “Você vai comprometer a reputação dele.” E aí, também por preconceito nosso, e não só esta pressão, a gente omitiu coisas nesse episódio. E ficou uma dívida grande, minha, ao menos, com o leitor. Com que direito você fica omitindo, faz essa censura? E não deixa o leitor fazer. Enfim, aquilo tinha pesado e na hora de fazer o livro esse episódio voltou com uma força muito grande e resolvi então contar, e contar as dificuldades. Repórteres de vários jornais que tinham participado da apuração na época estavam aí, procurei ouvi-los. E contei, fazendo uma autocrítica, mostrando que a gente deveria ter publicado direito a história na época, fiquei devendo. E também por preconceito individual, não só coletivo, social. Já com o Leon, ele foi uma das primeiras pessoas públicas a morrer de AIDS, declaradamente, na mesma época que o Cazuza. Muita gente morreu, mas não se sabia, não se dizia. Eu era muito amigo dele e fui encarregado de fazer o obituário, trabalhava no Jornal do Brasil e escrevi sobre a morte dele. Acompanhei ao lado da cama, no hospital, até o último momento, nós éramos muito amigos. O Leon vivia lá em casa, morava lá, se separava muito aí ia para lá, queridíssimo, quase irmão. E achei que devia começar e comecei assim o texto: “Morreu ontem de AIDS o cineasta Leon Hirszman.” E fui muito patrulhado por isso. As pessoas, amigos queridos, da família, acharam que eu não tinha o direito de ter declarado isso, confessado que ele tinha a doença. Naquele momento, imagina, AIDS era um tabu, não podia dizer. Como você lembrou há pouco, era o câncer gay. Mas achei que, até em homenagem a ele, eu deveria dizer. O Leon era uma pessoa tão corajosa, verdadeira, transparente, que seria hipocrisia inventar outra causa para a morte dele. Ele não iria gostar. As dificuldades foram estas. E sobre o Pedro Nava, com o tempo isso foi ficando claro que era isso mesmo que tinha que fazer.

E o ofício da crônica no jornalismo diário, em um jornal de grande circulação, como é o seu vínculo com os leitores?

ZV - Até tirei meu endereço de e-mail da coluna há algum tempo, porque criava o seguinte problema: o leitor escreve para você e você não pode desconhecer, virar as costas. E aí eu não fazia outra coisa a não ser ficar respondendo e-mails todo o dia. Isso diminui muito esse fluxo de e-mails. Mas é curiosa essa relação, porque às vezes o leitor faz uma leitura que é completamente diferente das suas intenções. Não só a escrita é aberta, mas a leitura também. Você, na verdade, lê um pouco o que quer. Então tem coisas curiosíssimas, de você escrever numa direção e o leitor ler na outra. Há poucos dias, teve um episódio, até muito desagradável, onde o leitor me escreveu e respondi com bom humor, brincando. E ele respondeu uma tréplica, desaforado, dizendo que eu o tinha desrespeitado, não o levava a sério, estava brincando. Foi uma coisa tão desagradável que resolvi desconhecer. Tinha vontade de dizer: “Cara, peraí, você não entendeu o que escrevi?” Mas aí ia virar um… e achei melhor engolir a seco e deixar passar, porque se ele entendeu dessa maneira, equivocada… Então tem muito isso, de que a sua intenção nem sempre é apreendida, captada pelo outro lado. E eu não dedico muito tempo a Internet, apesar de já ficar parte do dia no computador.

Você escreveu Chico Mendes, crime e castigo (Companhia das Letras, 2003), um desdobramento do que aconteceu lá depois do assassinato dele, quando foi ao Acre cobrir para o Jornal do Brasil e como estava a situação anos depois. Como vê a ascensão da Marina Silva, alguém que surgiu com Chico Mendes naquele momento, com uma trajetória única, que se alfabetiza na adolescência, surge na selva, chega ao Ministério do Meio Ambiente, onde travou uma batalha pesada, e depois como candidata à presidência?

ZV - Conheci a Marina em 1989, quando fui ao Acre pela primeira vez, um mês depois da morte do Chico Mendes. Fui cobrir aquele período e aí conheci, primeiro, a história de Chico Mendes, que não conhecia, uma figura extraordinária, acho que nosso protomártir da causa ambiental. Ele era mais conhecido lá fora do que aqui, nessa época. E (conheci) seus discípulos, amigos, entre os quais a Marina, que era uma figura que me chamou logo a atenção, aquela figura magrinha, e ao mesmo tempo, quando abre a boca, tem aquela força. E as histórias da Marina, histórias do “empate”. O empate era algo que Chico comandava lá, reunia as famílias, crianças, mães e se colocavam entre os jagunços e as árvores, para não deixar abaterem-nas. Era uma coisa de coragem, e tinha histórias incríveis da Marina, que comandou um empate e começou a cantar o hino nacional e a polícia também se comoveu. E as histórias de alguém com a saúde frágil, que teve problemas de envenenamento, foi se alfabetizar com 16 anos. Figura lenda e não sabia bem o que era verdade ou lenda naquela história sobre ela. E 15 anos depois voltei para fazer o livro. Na época (1989), o Luiz Schwarcz (editor da Companhia das Letras) quis fazer o livro e eu não quis, pois estava muito em cima. E, quinze anos depois, eles estavam lançando a Coleção Jornalismo Literário e eu não teria mais desculpas para recusar. Então decidi voltar lá, revisitar aqueles personagens, aquelas situações. O livro tem duas partes, a primeira que vai até o julgamento dos assassinos de Chico Mendes, e a outra, que é a minha revisita ao Acre. E nesse tempo todo, pude conhecer melhor a Marina. Ela é muito melhor do que imaginava que se dizia dela. E não só a história de vida dela, ela é uma mulher atuante hoje, tem uma presença na vida nacional. É um luxo para o país você ter a candidatura da Marina, comparo um pouco com o advento de Barack Obama.

E em relação à Marina, o fato de ela ser evangélica, ligada à Assembleia de Deus, não te incomoda? Isso não contradiz a história dela?

ZV - Isso me incomoda, já escrevi sobre isso, inclusive. Não tanto a crença, mas o que isso impõe como restrição, como preconceito em relação a coisas como homossexualidade, aborto, isso que sabemos. Isso realmente me incomoda. Agora, isso é uma questão de fé, então acho que é uma perda. Mas ela é tão grande em relação a tudo o mais. É uma pena que esses princípios religiosos impeçam que ela seja em relação ao comportamento tão revolucionária quanto é com o meio ambiente, por exemplo.

Você já escreveu sobre a violência no Rio de Janeiro (Cidade partida, Companhia das Letras, 2003), a revolução cultural nos anos 1960 e 1970 (1968, o ano que não terminou / 1968, o que fizemos de nós – Planeta, 2008, a Amazônia (Chico Mendes, crime e castigo, Companhia das Letras, 2003), um livro de memórias (Minhas histórias dos outros, Planeta, 2005). Tem algum tema que pensa em escrever, investigar, se dedicar na próxima década, próximas duas décadas…

ZV -… ou nas próximas três, né? (risos)

… três, né? vamos estender esse tempo. Mas algo que te interessa muito e ainda não abordou longa e profundamente, como fez nesses livros reportagens.

ZV - Esses temas surgiram e se impuseram para mim. Não parei e disse: “Vou escrever sobre a Amazônia etc.” Fui meio que obrigado a escrever sobre estes temas, obrigado pelos fatos, pelas circunstâncias. Os temas se impuseram. Cidade partida, por exemplo, nunca tinha pensado (em escrever a respeito) antes de passar a conviver e frequentar uma favela durante dez meses. E quando comecei a fazer isso, não estava pensando em colocar em um livro. O material que observei, recolhi, acabou se impondo. Não faço esses projetos. Para a Amazônia, também, fui mandado pelo jornal, depois virou livro. Brinco que o acaso na minha vida é impressionante, tudo acontece por acaso. E todos os livros também surgiram por acaso ou encomenda. Eu não sei, mas certamente algum tema desse vai se impor. E é um pouco também com o negócio da crônica. “Como você escolhe os temas e assuntos?”, me perguntam. Na verdade, entram dentro de mim. Você está escrevendo sobre porque aquilo que te mobilizou, aí você escreve. Não tenho projeto, mas será certamente alguma coisa sobre o Brasil, que é minha grande obsessão, minha segunda é o Rio de Janeiro. Não sei, mas gostaria muito de poder escrever ainda em vida alguma coisa contra Cidade partida. Que pudesse ser, enfim, a cidade unida. Isso me pesa muito, no sentido de que dá sempre a impressão o fato de ter escrito Cidade partida e isso ter virado um bordão, gostaria muito que fosse substituído por um outro. Quem sabe, ainda tenho esperança de que o Rio atenda a sua vocação do encontro, da festa, da comemoração. O Rio é uma cidade do encontro, não é uma cidade da segregação. Então, essa apartheid social que a gente vive é uma circunstância que vai ser vencida com o tempo. Eu gostaria muito de estar vivo para escrever sobre esse momento.

Muito obrigado, Zuenir.

ZV - Obrigado a vocês.

 

PARTE 1

 

PARTE 2

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