ANTÔNIO XERXENESKY
OBSESSÕES LITERÁRIAS

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010 ]

   

 

Antônio Xerxenesky é escritor. Mas, aos 25 anos, ainda não se sente confortável com o título. Ele também atua como editor na Não Editora, onde organiza a revista online de crítica literária Cadernos de Não-Ficção. E, entre tantas leituras, mantém suas obsessões literárias: Julio Cortázar, Roberto Bolaño, Thomas Pynchon, Javier Marías, André Sant’Anna…

Gaúcho de Porto Alegre, filho de pais leitores, Xerxenesky acaba de relançar seu primeiro romance, Areia nos dentes, pela editora Rocco num contrato que consiste, ainda, na publicação de dois novos livros. Um trabalho realizado em paralelo à constante reflexão sobre o ofício. O romance é um faroeste com zumbis, narrado por um bêbado mexicano, inspirado no Alone in the Dark 3, o jogo de videogame. Uma prosa repleta de referências cinematográficas, como Sergio Leone e Sam Peckinpah, além de um forte diálogo com a literatura de Cormac McCarthy, autor de Onde os velhos não têm vez (Alfaguara, 2006), que virou o premiado filme dos irmãos Coen. Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Antônio Xerxenesky fala com paixão sobre a dedicação à escrita.

Você se formou em Letras e está cursando mestrado em Literatura Comparada. Como você concilia os estudos acadêmicos com o ofício da escrita?

Antônio Xerxenesky  – Bom, acabei virando “escritor”. Me sinto ainda esquisito com o rótulo “escritor”. Acho esquisito uma pessoa de 25 anos se dizer escritor. Me tornei escritor porque eu lia muito. Sou, antes de tudo, um leitor. Escrever é consequência. Como é que me tornei um leitor? A câmera não pega, mas estou na casa dos meus pais, minha mãe tem uma biblioteca enorme. Três quartos aqui da casa são forrados de livros. Ela é formada em Crítica Literária. Desde criança, vivi cercado de livros, meus pais sempre leram muito. É quase natural, para alguém que vê pessoas lendo, um dia querer descobrir o que tem de tão emocionante nesse “objeto-livro”. Algum dia começa com um livrinho besta, mas algum tem que roubar um livro do (Julio) Cortázar e descobrir o que é que tem de bom. E quando tu vês não consegue mais parar de ler, meio que uma doença (risos). Escrever acaba sendo consequência. Se a pessoa ler demais, ela acaba pirando com isso e querendo escrever. Foi o que aconteceu comigo. E também por isso que entrei na faculdade de Letras e agora estou no mestrado de Literatura Comparada. Mas quanto mais tempo passo na academia, mais eu vejo que isso não é para mim.

O conhecimento acadêmico não ajuda ao seu processo de escrita ficcional?

AX  – A vida acadêmica me tirou muitas ingenuidades quanto à escrita. Quando vejo um escritor falando: “Tenho uma ideia, inspiração, as mãos não param…” Se eu tinha a chance de fazer esse tipo de escrita, ela acabou para mim. Minha escrita é totalmente racional, desenhando mil esquemas, pensando todas as reflexões teóricas que podem até surgir do livro… Acaba se tornando uma escrita um pouco empedrada, mas eu tento contrapor com alguma leveza, algum humor. Acho que dá certo. Se a minha ficção deu certo foi por causa disso. A academia não aborda a literatura do jeito que eu gosto de abordar enquanto leitor. Não pretendo seguir carreira acadêmica, a não ser que tudo dê errado na minha vida (risos). Se eu estiver muito desesperado, volto e faço um doutorado… A academia faz ler os livros de uma forma diferente, o que é muito interessante. Ela vai contra o senso comum, isso é muito importante. Mas, de certa forma, ela drena o prazer da leitura. E o prazer da leitura nunca se pode tirar. Se vai se falar de leitura tem que se falar sobre o prazer que é ler um livro. Isso é sagrado pra mim.

Na descoberta da biblioteca de seus pais, que autores despertaram seu interesse pela escrita?

AX  - As primeiras grandes descobertas para mim foram Cortázar e, curiosamente, o Daniel Galera. Porque eu era adolescente, tinha 16 anos, quando saiu Dentes guardados (Livros do Mal, 2002), o primeiro livro de contos do Galera. Que, lendo em retrospecto, acho um livro bem fraco, acho que ele também concordaria que é um livro fraco. Mas um livro muito importante para mim. Um livro que aqui no Rio Grande do Sul chamamos de um “livro de guri”, que tu escreves quando está naquela idade que transmite uma gama de sensações. E aquilo me marcou muito, mostrar uma pessoa que vivia numa situação parecida com a minha — Porto Alegre, classe média — podia escrever algo esteticamente tão interessante. Depois, obviamente, surgiram outros escritores que marcaram muito: Thomas Pynchon, que me ensinou tudo que eu sei sobre o que se costuma chamar de “pós-modernismo”, onde supostamente o que escrevo se encaixa; e o (Roberto) Bolaño, que foi a descoberta mais recente, com quem trabalho na faculdade.

Já leu as 852 páginas do 2666 (Companhia das Letras, 2010)?

AX  – 2666? Li faz tempo, em espanhol. O Bolaño é uma paixão recente, contrária a tudo que eu gostava antigamente na literatura… Porque acho a prosa dele extremamente política. Não do sentido “sou de esquerda contra a Ditadura”. Essa é uma visão muito reducionista do Bolaño. Mas o Bolaño tenta pensar qual é a importância da literatura. E, de certa forma, conclui em tom decepcionado que a literatura não serve para muita coisa. Mas ainda sim é tudo que nós, obcecados por literatura, temos. Tive uma identificação muito forte com esse personagem do Bolaño, que é, ao mesmo tempo, um herói, que tenta escrever a todo custo, e um idiota, porque aquilo não serve para absolutamente nada.

Para que serve a literatura para você?

AX  – Eu estou nessa com o Bolaño. Livros não vão mais mudar o mundo. E dificilmente vão mudar muitas pessoas. Se tu escreves, tu escreves para um gueto. Não é um gueto econômico… Alguns escritores, pouco literatos que simplesmente gostam de ler. O alcance da literatura é mínimo, sempre foi mínimo. Não está diminuindo, eu diria. Diria até que está aumentando, nunca se leu tanto no Brasil. Não adianta, se a pessoa gosta realmente de ler, ela não tem saída… Inevitavelmente você vai ler muito, inevitavelmente você vai querer escrever. Mas não serve para nada no final das contas. Cômico, trágico.

Além de autor, você é editor da Não Editora. Como é essa experiência?

AX  – A Não Editora começou assim… Um grupo de amigos percebeu que tinha tudo para montar uma editora: um revisor, um diagramador, um designer gráfico, uma assessora de imprensa… E tinha eu, que não faço nada, mas que conheço todo mundo (risos). A gente pensou: “Temos tudo para montar uma editora! Vamos combinar nossos ‘talentos’ para publicar os nossos textos e das pessoas que a gente gosta. E vamos fazer edições realmente bonitas que devam convencer as pessoas a comprar. As livrarias não querem livros feios.” A Não Editora surgiu nesse sentido. E, agora, alguns de nossos autores foram para grandes editoras, como a Carol Bensimon (autora do livro de contos Pó de parede, Não Editora, 2008, e do romance Sinuca debaixo d’água, Companhia das Letras, 2009). As editoras pequenas têm a função meio cretina no mercado literário: descobrir os novos autores. As grandes editoras estão esperando que a gente faça esse trabalho de descobrir quem é que está escrevendo bem na cidade e publique. Depois elas: “Esse aqui é realmente é muito bom, para o segundo livro vamos chamar ele…”

Olha quem estamos lançando!

AX  - Enfim, é complicado. Mas é assim que funciona o mundo.

Você acaba de republicar seu livro Areia nos dentes, cuja primeira edição foi lançada pela Não Editora, em 2008.

AX  – A Rocco me contratou para três livros. A reedição do Areia, que acabei mudando muita coisa, tem cinco páginas a mais de texto e um monte de frases, que estavam feias, eu ajeitei… O próximo livro, não está com o título definido, é de contos. Não porque eu não consigo escrever um romance, voltei aos contos com intenção de escrever um bom conto. É uma carta de amor cheia de ironia e deboches, bem sarcástica.

E o terceiro livro?

AX  – Eu não tenho ideia (risos). Mas tenho um prazo, isso que é o pior. O Areia nos dentes nasceu de uma forma meio sofrida. Quem está acostumado a escrever contos, que não precisa de muito fôlego, sofre para escrever um romance. Romance precisa da disciplina. E ainda mais um romance como o meu, que, boa parte dele, se passa no Velho Oeste. Tinha várias vezes que eu acordava de manhã e não queria escrever uma história no Velho Oeste… Eu queria escrever alguém pedindo uma Coca-Cola, fazendo alguma coisa que não seria possível no Velho Oeste. O romance tem essa disciplina de te obrigar a permanecer naquele universo, com aqueles personagens. Então, foi sofrido. O primeiro romance deve ser um sofrimento para todos os escritores. O Areia nos dentes tem uma ideia, muita gente achou original, que é faroeste com zumbis. É isso que ele é na essência dele. Na verdade isso veio do videogame porque sou um gamer inveterado. Tem um jogo chamado Alone in the Dark 3, que é um faroeste com zumbis. Eu roubei descaradamente disso, mas, ao mesmo tempo, é um livro muito literário. Não só por causa das referências, tem toda uma meditação sobre qual a função da literatura; qual a “intenção” da literatura; por que alguém vai narrar uma história. Todo narrador tem um motivo, consciente ou inconsciente. Mais do que um faroeste com zumbis, eu tentei pensar sobre o fazer literário. A relação com o cinema é muito evidente no Areia nos dentes

Fui um grande cinéfilo e hoje em dia meio que abandonei de vez. Obviamente o cinema me influenciou muito no Areia nos dentes porque é totalmente baseado nos filmes do Sergio Leone e Sam Peckinpah, grandes diretores de faroeste. Mas, hoje em dia, quase não vou ao cinema. São linguagens que não se comunicam tanto. O cinema chega a lugares que a literatura não chega. E a literatura chega a lugares que o cinema não chega. Já viu uma adaptação de Ulisses (de James Joyce)? Sempre fico constrangido quando vejo alguém adaptando Ulisses, fica um horror. Tenho visto cada vez menos filmes.

E as influências literárias? Areia nos dentes fala do México, faço uma associação com o Roberto Bolãno.

AX  – Obviamente, eu tinha lido Detetives selvagens (Companhia das Letras, 2006) em 2007. Para o Areia nos Dentes, as principais influências foram oAgainst the Day (Putnam, 2006, não traduzido no Brasil), do Thomas Pynchon — minha grande paixão, um escritor norte-americano completamente louco que escreve calhamaços de 700, 1.200 páginas sobre tudo e tenta dar conta de um universo e sempre fracassa. E o Cormac McCarthy, que pensou como seria possível escrever um faroeste nos dias de hoje. E tenho lido coisas um pouco diferentes, com muito rigor: Roberto Bolaño; Enrique Vila-Matas, outro obcecado por literatura; e, principalmente, Javier Marías, um escritor espanhol que aqui no Brasil ainda não recebeu a atenção que merece. Ele é um escritor de se ler em voz alta. Não sei como estão as traduções porque sempre li em espanhol. Ele é um escritor de sintaxe. Sempre que estava lendo o Coração tão branco (Companhia de Bolso, 2008), eu tinha que fechar o livro e dizer: “Esse cara é um gênio!” E tinha que ler trechos em voz alta, de tão boa que era a prosa, uma prosa crocante.

E os autores brasileiros?

AX  – No Brasil, tenho que dizer que meu escritor favorito, vivo, é, sem dúvida, o André Sant’Anna. A minha escrita não tem absolutamente nada a ver com a do André Sant’Anna, nunca escrevi nem um conto parecido com o que ele escreve. Mas não tem ninguém empurrando as fronteiras da linguagem como o Andre Sant’Anna. O que é curioso, ele é visto como um escritor pop, meio bobão. Não faz sentido para mim, os livros deles são violentíssimos. O paraíso é bem bacana (Companhia das Letras, 2006) que, para mim, é o grande romance brasileiro, é uma reflexão sobre como a linguagem constitui o ser humano. E o livro dele é lido de maneiras bestas, como se fosse panfleto político, comentários sociais rasos… Não. André Sant’Anna é gênio. Ninguém escreve tão bem como André Sant’Anna. E o pai dele também, o Sérgio Sant’Anna, eu diria que é o segundo maior escritor vivo, brasileiro. (risos) Que família essa dos Sant’Anna.

Seu primeiro livro é um livro de contos, Entre…

AX  - (risos)

Um “livro de guri”?

AX  - É. Um “livro de guri”. No “inicíssimo” da minha carreira de escritor eu lancei um livro de contos chamado Entre, que é um livro de alguém que está iniciando. Ele tem boas ideias e péssimas execuções. É um livro que foi esquecido, merecidamente foi esquecido. Mas ele serviu de laboratório com que eu viria a trabalhar depois. Por isso, ele é minimamente relevante.

Você é otimista em relação à produção de jovens autores?
AX - Acho que a literatura brasileira está vivendo uma fase excelente. Tem que ser muito cego para não enxergar a quantidade de escritores maravilhosos que estão publicando agora. Tem gente demais escrevendo? Tem. Qual o problema? Não é um problema. Se alguma coisa me incomoda é aquele autor novo que não leu o seu livro, mas ele quer que tu leias o dele. Não porque tu és editor, mas não sei por que insiste que vai ajudá-lo a ser publicado ou alguma coisa… Ele não leu o teu livro, não é leitor da literatura brasileira contemporânea, mas quer ser um escritor contemporâneo. Isso não faz sentido para mim, é muito comum. E me irrita. Mas a gente está vivendo um período excelente, que bom que tem tanta gente escrevendo.

 

 

ARMANDO FREITAS FILHO

POESIAS COM ROUPAS DE CASA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009 ]

   

 

Aos 69 anos, Armando Freitas Filho não quis fazer noites de autógrafos para o lançamento do seu novo livro, Lar  (Companhia da Letras). Preferiu ficar em casa com a família, dedicando-se à literatura, cercado por seus livros.

“Não tenho mais tempo a perder. Tenho muitas coisas para estudar, o que é diferente de ler.Lar  é o livro mais importante que já escrevi. Por quê? Porque é um livro onde a veste está mais rasgada. Literatura é sempre uma veste. Esse livro é o que mostra mais o coração”, declara o poeta, ao falar de sua publicação mais recente, um “livro da memória”.

“É um livro que resgata vivências pretéritas, sensações de quando eu era pequeno. Mas não há um fio de condução, é algo que se superpõe como a memória — o que Proust chamava de ‘memória involuntária’. É um livro longo, o maior que escrevi, deve ter uns 121 poemas.”

Autor de mais de 20 títulos, o poeta reuniu, em 2003, sua obra no livro Máquina de escrever  (Nova Fronteira): Palavra, Dual, À mão livre, 3×4 (Prêmio Jabuti de Poesia 1986), De corNúmeros anônimosFio terra, entre outros livros que registraram seus 40 anos de carreira. Antes de Lar, estreou na Companhia das Letras com Raro mar, lançado em 2006.

Sentado numa poltrona, Armando relembrou sua trajetória literária, detalhando episódios importantes da sua vida, desde a experiência na biblioteca do pai ao lançamento do seu primeiro livro, Palavra  (1963), com a benção de Manuel Bandeira, um de seus poetas prediletos junto a Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto — Santíssima Trindade da poesia de Armando.

Impossível conversar com Armando Freitas Filho e não falar de Ana Cristina César, os dois mantiveram uma relação marcada por poemas e cartas de amor e amizade. Não é a toa que ele tornou-se guardião e referência da obra de Ana C.

Curiosamente, na semana do encontro com o poeta, encontrei o livro Longa vida (Nova Fronteira) num sebo no Centro do Rio de Janeiro. Ana C., que assinou o prefácio do livro, fez a seguinte observação:

“Eu sou um livro — declara o poeta de saída, invertendo a fórmula de Walt Whitman, que concluía o seu Leaves of Grass  (Folhas de relva, Iluminuras, 2005) com um ‘este livro sou eu’. Quem? Who’s dunnit? ‘Quem escreve aqui? Essa questão atravessa uma longa vida.”

Por que você optou por não fazer o lançamento do novo livro, Lar (Companhia das Letras)?

Armando Freitas Filho  – Fazer noite de autógrafos é muito chato e cansativo para quem faz e para quem vai. Já fiz tantos lançamentos, mais de 50 noites de autógrafos desde 1973. Depois de um tempo — quando se tem 69 anos — fica um pouco chato. Prefiro ficar em casa com minha família. A editora me deixou livre para não fazer o lançamento.

É a primeira vez que você assina a orelha do seu próprio livro?

AFF  – Sim. Não quis que ninguém escrevesse nada. Até que consegui escrever uma orelha bastante isenta.

Lar  é um livro de memórias?

AFF  – Não. É um livro “da memória”. Inclusive a orelha começa assim: “Este não é um livro de memórias, mas pode ser um livro da memória.”

Por quê?

AFF  – É um livro que resgata vivências pretéritas, sensações de quando eu era pequeno. Na primeira parte do livro — “Primeira Série” — há trinta e poucos poemas que tratam do jogo lúdico da criança. Mas não há um fio de condução, é algo que se superpõe como a memória — o que Proust chamava de “memória involuntária”. É um livro longo, o maior livro que escrevi, deve ter uns 121 poemas. A segunda parte tem o título de “Formação”, e os poemas têm nomes, diferente da primeira parte em que os poemas são “esquetes”. É como se na segunda parte eu objetivasse a subjetividade da primeira parte. É um jogo de pegada e “repegada”. O jogo da memória é perder e ganhar, a gente nunca sabe mensurar. A terceira parte começou no livro Numeral nominal  (Nova Fronteira, na coletânea Máquina de escrever), uma série que não tem fim. São pequenos poemas com números, uma contagem infinita. Essa parte é muito importante porque, desde 2003, marca os passos da minha vida de poeta. Uma poesia companheira, que está sempre retomando. É como olhar as refrações de uma pedra. Lembro dos belos versos do Drummond: “Dos cem prismas de uma joia, quantos há que não presumo.”

O seu primeiro livro, Palavra, foi lançado em 1963. Qual a diferença de lançar um livro aos 23 e aos 69 anos?

AFF  – Acho que aos 23 anos eu não sabia que a pele era tão fina (risos ). Agora eu sei, mas não criei calo. Isso não é uma regra. Por exemplo, meu filho trouxe um simulado de vestibular de 2005 que tem o primeiro poema que escrevi para o livro Palavra: “Corpo”. Esse poema já ganhou tradução em inglês e agora está numa prova de vestibular. Inclusive li as perguntas: acertei duas e errei uma (risos). O poema, antropologicamente falando, atravessou mais de duas gerações.

Qual a sensação?

AFF  – É forte. A sensação de enxergar o que não se pode enxergar: a posteridade. Uma sensação ambígua.

Você pode ler o poema “Corpo”?

AFF  – Eu não gosto de ler porque sou gago, fica estranho. Mas leia, por favor.

 

Corpo

Acrobata enredado

Em clausura de pele

Sem nenhuma ruptura

Para aonde me leva

Sua estrutura?

Doce máquina

Com engrenagem de músculos

Suspiro e rangido

O espaço devora

Seu movimento

(Braços e pernas

sem explosão)

Engenho de febre

Sono e lembrança

Que arma

E desarma minha morte

Em armadura de treva.

 

AFF  – Escrevi esse poema aos 20 anos. Eu levei o livro Palavra , em originais, para o Manuel Bandeira ler. Ele disse: “Seu livro é interessantíssimo. Mas quem vai poder dizer uma coisa ‘batata’ são os seus companheiros de geração. Vou lhe dar dois nomes: Ferreira Gullar e José Guilherme Merchior.” José Guilherme acabou virando meu prefaciador. Eu tinha 22 e o Zé tinha 20 anos. Foi o Zé que me fez lançar esse livro. O Rubens Gerchman, meu amigo que morreu há anos atrás, fez todas as capas. Lar é dedicado a ele. Eu e Rubens fizemos dois livros juntos.

Como você conheceu o Gerchman?

AFF  – Nós nos conhecemos no Colégio Andrews, eu tinha 17 e ele tinha 15 anos. Amigos de “longa vida” (risos ). Faríamos 51 anos de amizade (O artista plástico faleceu em janeiro de 2008). Nós estávamos programando outro livro juntos. Era um entendimento de vida inteira. Sou filho único, ele era meu irmão.

Você também teve uma relação muito forte com a poeta Ana Cristina César. É inevitável falar com você e não perguntar sobre ela.

AFF  – Nossa relação foi intensa e produtiva. Por vontade da família, fiquei como curador da obra de Ana Cristina César. Organizei quatro livros póstumos por causa da intimidade que compartilhávamos. Mantínhamos uma relação de confiança pessoal e literária. Nós ficamos nessa transação forte e intensa por dez anos, de 1973 a 1983.

Qual o impacto do suicídio dela em sua vida?

AFF  – É enorme. No livro Lar , escrevi o poema “Nas bodas de prata de lei da sua morte”, sobre os 25 anos da morte dela em 1998. Nesse poema eu digo: “nunca pensei que uma coisa tão selvagem acontecesse comigo”. Fui a última pessoa que falou com ela. Eu tinha combinado de ir a casa dela, mas eu liguei dizendo que não iria porque não queria que ela pegasse gripe. Ela estava frágil. Uns 40 minutos mais tarde a mãe dela me ligou contando o que tinha acontecido e dizendo que havia uma carta pra mim.

 

NAS BODAS DE PRATA DE LEI DA SUA MORTE

 

pensando na Ana

A intimidade da sua morte pública

espetacular, com a cortina aberta

marcou minha vida funcionária.

Nunca pensei que me acontecesse

alguma coisa assim – selvagem –

tão próxima, ou que fosse possível

a alguém, contida, mas em guarda

desatar-se no espelho, de uma vez

e partisse para o ataque a si mesmo

através de dias de decididos suicídios:

primeiro, em narcótico mar, depois

corte! para o abismo da queda livre

traduzindo, à sua maneira, o tumulto

do tempo no qual viveu, de modo

perfeito, fidedigno, sensacional.

 

O que dizia essa carta?

AFF  – É uma carta escrita três meses antes. Como sei disso? Pelo que a carta dizia e pela firmeza da letra dela, que depois ficou muito trêmula por causa dos medicamentos.

Vocês foram namorados?

AFF  – Sim. Mas isso importa pouco. O que era mais forte era a ligação, a amizade. Era uma relação intensa, com muita briga e carinho.

Ela também foi amiga do Caio Fernando Abreu.

AFF  – A Ana teve conhecimento do Caio no final da vida dela. O Caio foi a pessoa que batalhou pelo lançamento do livro dela, A teus pés , na Brasiliense. Ele já era um escritor conhecido, a palavra dele era muito forte, influente.

EM 2003, na comemoração aos 40 anos de carreira, você lançouMáquina de Escrever. Por que revisar e reescrever todos os poemas?

AFF  – Eu agi como muitos autores fazem. Mas eles não dizem nada. Dylan Thomas e Murilo Mendes, dois grandes poetas, assumiram essas mudanças. Convoquei os dois e publiquei as palavras deles na contracapa do livro.

Encontrei o livro Longa Vida (Nova Fronteira) num sebo, no centro do Rio de Janeiro. O que você sente quando encontra um livro seu num sebo?

AFF  – Eu nunca encontrei, acredita? Uma vez, um rapaz encontrou um livro meu cheio de anotações e me presenteou.

Como encarar a passagem do tempo?

AFF  – É uma faca de dois gumes. O gume bom: ver pessoas novas indo ao sebo, encontrando meu livro, conversando sobre literatura. O gume ruim marca e mata. Nunca pensei que o tempo fosse passar tão rápido. Agora estou falando sobre esse assunto. É estranho. Estou falando de alguém que já escreveu e viveu muito. E pergunto: Falta o quê? Quanto tempo ainda falta? Você vai se lembrar disso quando tiver a minha idade. Vai lembrar que um homem de 69 anos disse: “Nessa idade a gente nunca sabe o que falta. Não se sabe se conta mais ou menos um dia.” Você vai se lembrar. É uma espécie de praga… (risos ) Eu conto minha vida por livros publicados e Copas do Mundo. Até que Copa eu vou? Em 2014 espero estar vivo para assistir a próxima Copa no Brasil, como assisti em 1950. Depois de um tempo a gente vive fazendo contas, algo inimaginável quando se tem 20 ou 30 anos. Eu lido muito mal com o envelhecimento, fico indignado. Não sou um velho bonzinho. Fico puto! Sou católico, mas não cumpro todos os ritos. Acredito em Deus. Mas isso não me impede de ficar revoltado. Quero ir para o céu. Mas o que é o céu? Pode ser uma delícia insuportável, como o pudim de leite. Quero que o fim seja uma delícia suportável.

De onde surgiu essa paixão pelas palavras?

AFF  – Eu fui parcialmente cooptado para a literatura através de minha família. Meu pai era procurador, lia muito e vivia rodeado de livros. Eu sempre gostei de ler. Sou mais leitor do que escritor, passo minha vida lendo. Mas eu fui um menino rebelde e difícil. Aos 15 anos, comecei a escrever, era bom em português e adorava escrever redação. Em 1956, meu pai me presenteou com as obras completas do Manuel Bandeira e do Carlos Drummond de Andrade.

Você costuma dizer que Manuel Bandeira, Drummond e João Cabral de Melo Neto formam a santíssima trindade da sua poesia…

AFF  – Exatamente. E junto agora o poeta Ferreira Gullar, meu amigo.

Você Já afirmou que seu “poeta de vanguarda, poeta lato sensu, foi Ferreira Gullar”. Mas ao mesmo tempo você esteve engajado à Poesia Práxis, movimento de vanguarda rival à Poesia Concreta, do qual Gullar fez parte.

AFF  – Eu e o Gullar não tínhamos a relação que temos hoje. Sobre a Práxis: eu acreditava muito pouco na proposta dos concretistas. E apoiei o Neoconcretismo, movimento que repôs o coração de volta ao poema. O Concretismo extraiu o coração do poema e não colocou nada no lugar. A Práxis mantinha o curso e a coloquialidade da frase. Eu queria escrever e não ter uma “prisão de ventre estética”. Compreende? Quero escrever os porquês todos.

Como é escrever depois da produção dos grandes poetas?

AFF  – Temos de querer ultrapassá-los. Há dois lados: o amor e a raiva, a vontade de matá-los para criar. É escrever.

Você tem algum ritual na escrita?

AFF  – Não tenho rituais para escrever, mas tenho manias. Sou muito mais preso em casa, por exemplo. Não tenho mais tempo a perder. Tenho muitas coisas para estudar, o que é diferente de ler. Estou sempre escrevendo no meu escritório. Lar é o livro mais importante que já escrevi. Por quê? Porque é um livro onde a veste está mais rasgada. Literatura é sempre uma veste. Esse livro é o que mostra mais o coração.

Costumam dizer que sua obra apresenta uma “escrita viceral”?

AFF  – De fato, sempre mostrei as vísceras na escrita. Só que o empenho estético, muitas vezes, veste essas vísceras. No Lar , estou com a roupa de casa. Quem escreve nunca está nu, escrever é um escudo de papel. Por isso acho que Lar é o meu livro mais forte.

E a partir dos livros De Corpo Inteiro (1975) e À Mão Livre (1979) você se aproximou do racionalismo de João Cabral De Melo Neto…

AFF  – Sim. Mas não perdi as vísceras. Quando eu tinha 15, meu pai me deu um vinil com Bandeira lendo poemas no lado A e Drummond lendo poemas no lado B. Esse foi meu grande feito intelectual. Amei o lado B. Conheci o Bandeira, tive uma convivência amistosa com o Drummond e com João Cabral conversei muito. Eu e João fomos confidentes. Esses três foram a minha base e formação. Sou extremamente grato a eles. Eu não me entenderia como ser humano, por exemplo, sem a poesia Drummond.

Heloisa Buarque de Hollanda, sua amiga, disse que “a espinha dorsal de sua poesia é constituída por três grandes enigmas que a psicanálise chama do ‘real': a morte, a origem e o sexo”. Concorda?

AFF  – Eu devo muito a Heloisa Buarque. Ela foi a primeira pessoa que me convidou a falar numa universidade, isso em 1970. Ela levou uma legião de jovens para a academia: Chico Alvim, Cacaso… Sobre esse comentário, esses elementos estão presentes em Lar . Helô acerta em cheio. O escritor é aquele que reescreve. Aos 20 anos eu já falava em morte. Ou seja, eu sou um obcecado mórbido (risos). Talvez, a palavra que mais aparece em minha poesia seja “morte”, o Control+L comprova.

Como você utiliza a Internet?

AFF  – Lido com o que preciso: editor de texto, e-mail  e Google — mas não abro mão da enciclopédia. Outro dia, andando na rua, tirei uma foto pelo celular. Ando muito a pé. Então, tirei a foto da minha sombra contra o asfalto e enviei do celular para minha caixa de e-mail. Chama-se “De cara no chão”. Essa foto é inspirada numa foto que Mário de Andrade tirou da sombra dele contra a terra.

A cidade interage na sua poesia de que forma?

AFF  – O tempo inteiro. Minha poesia é muito urbana. Inclusive no livro Raro mar  (Companhia das Letras, 2006), A cidade muitas vezes se confunde com o corpo, conjugam o mesmo verbo.

Numa entrevista ao escritor e jornalista Luciano Trigo, você declarou que o período da Ditadura militar mutilou seu livro Marca Registrada (Pongetti, 1970). Como a situação política interfere em sua produção?

AFF  – Continuo sendo uma pessoa de esquerda; nunca votei na direita. Embora eu vote no PT, nunca me filiei a nenhum partido. O Golpe Militar (em 1964 ) foi terrível para minha geração, nós tínhamos 20 anos… (silêncio) Um golpe no peito da minha geração. Amigos foram presos, foram mortos inocentes! Amigas foram torturadas. Os militares brasileiros foram infames e não lavaram a farda suja de sangue, passaram incólumes. Não gosto de falar desse assunto porque fico revoltado. Companheiros de geração foram exilados, submetidos à tortura. O poeta Ferreira Gullar foi preso e colocado numa câmara fria. Também prenderam Graciliano Ramos (durante a Ditadura do Estado Novo, instituído por Getulio Vargas, em 1937). O Brasil tem a triste tradição de encarcerar alguns dos seus melhores cérebros.

E o governo Lula?

AFF  – É o melhor governo que o Brasil já teve. Por que não é melhor? Porque as alianças políticas são vergonhosas. O que é o Sarney? Esse homem destila como uma epidemia que contamina todo o governo. Para governar um país complexo é preciso fazer alianças complexas. É triste, mas é verdade.

Em 1986, você ganhou o prêmio Jabuti com o livro 3×4 (Nova Fronteira). em 2007, o livro Raro Mar (Nova Fronteira) ficou em 3º lugar. O que muda com esses prêmios?

AFF  – Não muda nada. Não posso dizer que não fico contente e envaidecido. Mas não muda nada. Agora quero um prêmio com grana (risos ).

Você foi assessor da presidência da Funarte, pesquisador da Biblioteca Nacional, pesquisador na Fundação Casa Rui Barbosa. Como conciliar o ofício de poeta com os outros trabalhos?

AFF  – São inconciliáveis. Eu trabalhava brigando. Trabalhei 35 anos, mas nunca fui um funcionário público exemplar,como Carlos Drummond. Aliás, nunca fui exemplar em nada. Sabe o que é ir para o prédio do MEC durante 27 anos? Eu precisava trabalhar para sustentar minha família.

Qual seria a maior característica da produção poética atual? Há um diálogo forte com os poetas dos anos 70?

AFF  – Não vou citar nomes porque uma vez fiz isso e caiu a casa em cima de mim. Considero essa produção excelente. Não estou fazendo média com os moços. Há um ponto muito positivo: essa produção não é uniformizada. A poesia marginal, por exemplo, “desengravatou” a poesia brasileira, mas criou uniforme com chinelos de dedos — o que foi ótimo. A geração atual é variada, tem o Google nas mãos. É positivo desde que se tenha cuidado. A época de se escrever nas pernas das moças passou, tem de haver dedicação.

O que é necessário para ser poeta?

AFF  – Paixão e desconfiança. Tem de ser apaixonado, mas tem de contestar essa paixão.

ARNALDO BLOCH
O OFÍCIO DA ESCRITA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010 ]

   

 

Arnaldo Bloch é escritor e jornalista, autor de Os irmãos Karamabloch  (Companhia das Letras, 2008): “uma vida romanesca transposta para o livro de uma determinada maneira, a família que parece saída dos livros”. A carreira de Arnaldo foi influenciada diretamente pelo conglomerado de comunicação da família Bloch. Desde pequeno, ele frequentou redações e chegou a ilustrar a capa da revista Manchete, completamente nu, no primeiro ano de sua vida.

“O jornalismo era algo que não me interessava, realmente, de uma maneira muito vivaz. É claro, o fato de ter crescido dentro da Manchete me influenciou: ir ao parque gráfico, sentir o cheiro da tinta, ver as rotativas, aquela energia… Isso encantava, era um mundo espetacular. O burburinho das redações, as máquinas de escrever, que ainda existiam… Os jornalistas fumando, escrevendo. Aquele visual das janelas lá do prédio na Glória (no Rio de Janeiro ), aquele prédio lindo do Niemeyer. Tudo isso me fascinava.”

A partir daí, cursou jornalismo na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ ) e começou mesmo sua carreira como repórter e redator da Manchete. Porém, antes da decisão de dedicar-se às palavras, Arnaldo foi seduzido pela música, o som do sax. Chegou a montar uma banda de rock, O Nome do Grupo, que teve o humorista Bussunda como integrante. E, ainda, teve o privilégio de conviver com o escritor Carlos Heitor Cony, que exerceu a função de mentor intelectual.

“Eu ia à casa do Cony, que me mostrava os livros, as pinturas de que gostava. Me lembro, uma vez, que ele me mostrou aquele monstro devorando o filho, do Goya (Saturno devorando um filho, 1820-1825 ). Ele dizia: ‘Veja bem, compreendeu? Aqui na Manchete eu pinto a corte, como Goya. Quando escrevo os livros, é o monstro devorando o filho…’ Ele já me falava dessa dicotomia entre o jornalismo e a literatura. Era um tempo de censura, ele representava um pouco a liberdade para mim.”

O fato é que, para além do berço de palavras, Arnaldo Bloch transita entre gêneros, fazendo uma espécie de intercâmbio entre as linguagens. Seja na prosa ficcional, nas crônicas jornalísticas, ou na biografia, sua linguagem irônica é presente. Talvez, o sarcasmo se evidencie mais em suas crônicas — como podemos conferir no livro O ciclista da madrugada , reunião dos textos publicados em sua coluna no jornal O Globo, recém-lançado pela editora Record.

Nesta longa conversa, ocorrida no Caroline Café, no bairro carioca do Jardim Botânico, em um fim de tarde chuvoso, Arnaldo relembrou detalhes de sua trajetória profissional. Instantes após o termino da entrevista, o bistrô começou a pegar fogo. Todos saíram ilesos, apesar do susto.

Você escreveu Os irmãos Karamabloch (Companhia das Letras, 2008), sobre o império de comunicação de sua família. Fale sobre a influência desse ambiente jornalístico na sua carreira de escritor e jornalismo.

Arnaldo Bloch – As coisas caminharam em paralelo, mas o meu tesão mesmo foi mais para a criação. Fosse na literatura ou, por exemplo, na música, que sempre foi uma área de interesse. Tive uma relação com o fazer musical. O jornalismo era algo que não me interessava, realmente, de uma maneira muito vivaz. É claro, o fato de ter crescido dentro da Manchete me influenciou: ir ao parque gráfico, sentir o cheiro da tinta, ver as rotativas, aquela energia… Isso encantava, era um mundo espetacular. O burburinho das redações, as máquinas de escrever, que ainda existiam… Os jornalistas fumando, escrevendo. Aquele visual das janelas lá do prédio na Glória, aquele prédio lindo do Niemeyer. Tudo isso me fascinava. Mas essa fascinação não significava que eu desejasse ser jornalista. São muito diferentes as sensações, as linhas. Por outro lado, o meu pai, uma figura muito histriônica, muito engraçada, ao mesmo tempo, um boêmio… Figura muito bem retratada no livro, com suas luzes e suas sombras. Ele me empurrava muito à literatura russa. Tendo eu crescido dentro de um clã familiar — imigrantes, figuras exóticas, da geração do meu falecido avô Arnaldo, que nem cheguei a conhecer —, a literatura russa me fazia ver esse comportamento da minha família retratada em livros. Essa carga russo-judaica, quer dizer, tinha outro componente bem tragicômico. Ao mesmo tempo, a relação com gente ligada à empresa, por exemplo, Carlos Heitor Cony. Eu ia à casa do Cony, que me mostrava os livros, as pinturas de que gostava. Me lembro, uma vez, que ele me mostrou aquele monstro devorando o filho, do Goya (Saturno devorando um filho, 1820-1825 ). Ele dizia: “Veja bem, compreendeu? Aqui na Manchete eu pinto a corte, como Goya. Quando escrevo os livros, é o monstro devorando o filho…” Ele já me falava dessa dicotomia entre o jornalismo e a literatura. Era um tempo de censura, ele representava um pouco a liberdade para mim. Naquela época, comecei a fazer umas tentativas de contos. E comecei a ler Nelson Rodrigues. O próprio Cony me deu uma lista, foi uma espécie de mentor do que eu deveria ler. Chegando ao período universitário, eu ainda era muito fechado na família e na comunidade judaica, minha relação com a comunidade em geral era ir ao Maracanã — meu pai me levava e depois comecei a ir de ônibus, 464, com meus colegas de colégio judaico. E meu pai me levava aos botequins. Eu tinha uma relação democrática com a comunidade em geral, mas eu não tinha amigos que não fossem da família ou do meio judaico. Só quando cheguei à faculdade, na UFRJ, no jornalismo que era o caminho nessa encruzilhada…

Em algum momento você ficou em dúvida sobre que curso ingressar na faculdade?

Arnaldo Bloch – As dúvidas eram as seguintes: eu tinha a vontade de estudar química. Não sei porque. Química industrial. Uma paixão muito grande por astrofísica, isso eu tenho até hoje, por tudo que se refere ao universo, ao cosmos. Mas nada disso me parecia viável. E como eu queria criar, já escrevia os contos… O Cony lia e minha mãe ficava preocupada que eu passasse as noites em claro, lendo e me masturbando, essas coisas… Tinha (o mito d )a tuberculose. E Cony dizia: “Não, isso é bom. Deixa ele morrer. Ele tem que morrer e escrever…” Mas eu não tinha escrito nada ainda, eram várias coisas se resolvendo ao mesmo tempo, uma certa timidez… Eu cheguei à faculdade, vi aquela coisa: o laguinho da ECO/UFRJ, aquele fumacê, aquelas figura cabeludas pós-hippie, ainda era um “hippismo” tardio. Eu falei: “Aqui é Shangri-la” Mergulhei naquele mundo universitário, comecei a fazer música. Formei uma banda de rock, que se chamavaO Nome do Grupo — o Bussunda chegou a fazer parte dessa banda. Eu fiquei mais dividido ainda. A vontade de escrever ficou um pouquinho de lado para fazer música e compor.

Você se arrepende?

AB – Não, de forma alguma. Comecei naquele caminho da Manchete. Ainda era uma puta escola, havia gente muito boa lá. Resisti a todas as tentativas do Adolfo de me alçar para cima. Alçar é sempre pra cima, né? Ele queria me alçar para cargos, que eu fosse logo para a redação. Eu queria ganhar o respeito de meus colegas, ser um jornalista. Cheguei a presenciar um tiroteio. Fui para São Paulo fazer reportagem sobre AIDS, sobre a onda dos grafites na década de 80.

Quando criança você foi capa da revista Manchete…

AB  – Com um ano de idade, me fotografaram nu para uma reportagem sobre o primeiro ano de vida, capa. Depois, com uns anos, mostrava a foto para as meninas, na adolescência: “Olha só, cresceu.” Usava para fazer piada para pegar gente. Aquela coisa: “Vamos ver se cresceu mesmo…” (risos ) Como eu estava na barriga da família, nasce e é capa pelado da revista. Inclusive rendeu debate televisivo com Nelson Rodrigues na mesa e outras pessoas dizendo que era imoral. Nelson Rodrigues encerrando a discussão: “Crianças são como anjos, não têm sexo.”

Você considera Os irmãos Karamabloch uma biografia ficcional?

AB – Não é uma biografia romanceada, é uma vida romanesca transposta para o livro de uma determinada maneira, a família que parece saída dos livros. Essa família que parece saída dos livros já me circundava desde criança. A minha vida, até hoje, vem sendo de interpretar o mundo, tentando sair dessa redoma, dessa ótica. A chegada à faculdade foi a primeira libertação do útero. A atitude de sair da empresa e ir para O Globo.

Como foi essa transição?

AB – Tive vários cargos na Manchete: repórter, redator, editor de uma revista feminina — Sétimo Céu — e depois fui para a França, ser correspondente e representante da empresa, durante três anos, uma espécie de faz tudo. A Manchete não tinha mais um escritório grande em Paris. Num dado momento, percebo que as coisas estavam degringolando na empresa e dentro de mim. Porque eu precisava correr riscos, saber quem eu sou fora do útero da família. O segundo salto foi sair da Manchete e ir para O Globo. Deixar Paris, voltar para o Rio, para ver seu eu sobrevivia profissionalmente. Em minha carreira n’O Globo, que já dura 16 anos, escrevi meus primeiros romances, que são mais fáceis, romances mais fabulatórios, sem conexão direta com a realidade. O primeiro se chamaAmanhã a loucura  (Nova Fronteira, 1998). E o outro se chama Talk Show(Companhia das Letras, 2000).

Neste primeiro livro, você já aponta o caminho de Os irmãos Karamabloch, a investigação das origens…

AB – De uma maneira muito cifrada, através de um personagem que busca sua identidade. O segundo também, que é um negro falacha de olhos azuis, onde usei uma máscara judaico-africana para esconder ainda mais a identidade. Um livro difícil de ler, mas que teve muita fortuna crítica na área de transgressão. E escrevi uma biografia pequena do Fernando Sabino.

Por que Fernando Sabino?

AB – Foi um convite, um livro que escrevi sobre encomenda.

Havia uma identificação com o Sabino?

AB – Não especial. Eu tinha lido O encontro marcado  (Record) e vários outros livros. O Sabino passou pela Manchete, foi um dos cronistas importantes entre os mineiros. Na época, o editor Alberto Sprejer, que fazia a série Perfis do Rio, me chamou para fazer o perfil do Sabino e eu fui à luta. Li toda a obra, a parte que faltava, consegui um só encontro com ele por várias questões: o livro da Zélia (Zélia, uma paixão, Record, 1991), os amigos tinham morrido, a separação com Lygia Marina, que foi muito traumática… Fiz um livro cercando a vida dele através de outras pessoas, foi muito legal como experiência. A partir daí, passei a trabalhar só n’Os irmãos Karamabloch.

E continuou trabalhando como jornalista.

AB – Nesse momento, eu já estava com uma carreira jornalística mais forte n’O Globo. Comecei editando um caderno chamado Boa Chance, depois fui para São Paulo chefiar a redação. Quando voltei, fui editor do Segundo Caderno, editor-executivo de cultura. Mas a literatura já estava voltando para mim. De uma maneira que minha carreira administrativa n’O Globo começou a não dar certo, percebi que meu negócio é escrever mesmo. Num acordo com o jornal, deixei o cargo de liderança e voltei a ser repórter, repórter especial. Trabalhei muito, fiz muita coisa, mas sempre com o tom autoral. Querendo trazer a literatura para o jornalismo.

Você é jornalista e escritor, autor de romance e biografia. Como é essa transição entre gêneros?

AB – Enquanto escritor, eu trabalho de uma maneira muito intuitiva. Comigo sempre foi assim. Nunca fiz um curso de literatura, do fazer literário, seja os mais formatados, seja os cursos bons, como as oficinas do Flávio Moreira da Costa. Todo meu trabalho foi na base da tentativa e erro. Não no jornalismo, onde tive escola profissional: a Manchete e O Globo. Mas, na literatura, tentativa e erro. Escrever, reescrever, errar, me perder. Sempre achei que esse era o método. Evidentemente, a capacidade de edição de texto que adquiri no jornalismo me ajudou a aparar os excessos na literatura, me preocupar com o formato final do texto. Nos últimos anos, venho tentando trazer o lirismo para o jornalismo, tanto que acabei tendo um espaço de crônica. No final da contas, o que houve foi uma grande convergência. N’Os irmãos Karamabloch , um romance familiar, há tonalidades de crônica e jornalismo. E no jornalismo há tonalidades ficcionais e de lirismos. Depois voltei mais forte ao jornalismo com a criação dessa página semanal n’O Globo, que se chama Logo, a página logo, que desafia o jornal. A página livre, meio porra louca.

Você tinha um autor ou jornalista como referência?

AB – Na minha trajetória, eu nunca tive apenas um. O Cony foi uma grande referência. A literatura russa, alguns autores, especificamente, Kafka… Por estranho que pareça, Eugênio Ionesco, um autor de teatro do absurdo. Fiquei três anos só lendo Ionesco…

Você foi à casa do Nelson Rodrigues.

AB – Eu escrevi uma peça e levei para o Nelson. Ele me recebeu naquele lusco-fusco, fim de tarde. Tinha uma irmã dele vendo a novela das seis, sabe essas coisas meio depressivas de Copacabana? “Tudo bem? É Adolfo e tudo…” Deixei com ele a peça, ele me despachou. Quando eu voltei, um mês depois, ele me recebeu de novo, sentou comigo e disse (imitando a voz de Nelson ): “Lê Tolstói, lê Dostoiévski, lê Kafka, lê tudo… Deus te abençoe.” Não falou uma palavra sobre a peça em si, que eu tinha escrito. Me levou pela porta da cozinha, desta vez. Mas era uma coisa muito crua, uma tentativa…

Quantos anos você tinha?

AB – Quartorze anos, não sei. Mas eu nunca voltei ao teatro, não. Estou voltando, aos poucos, ao diálogo. Eu gosto muito de diálogo, tenho vontade de escrever textos encenados, seja teatro ou cinema. A ideia de entrar na roteirização me interessa muito, acho que vou acabar cruzando com essa área.

Você tem uma relação com artes plásticas?

AB – Minha relação com artes plástica é completamente amadorística. Num determinado momento, que me separei de um casamento tradicional, minha mulher, na época, teve que ficar no Leblon e eu aluguei um apartamento na Glória, perto dos travestis. Nesse período, comecei a comprar papel e pastel oleoso, carvão, misturar com Nescafé… Fiz 80 telas, emoldurei tudo. Eu já gostava de fazer crônicas ilustrando.

Em O ciclista da madrugada (Record) você utiliza suas ilustrações…

AB – Minha primeira seleção de crônicas tem um caderno central ilustrado. Algumas pessoas gostam e outras dizem: “Pô, o cara está querendo ser ilustrador.” Não, eu não estou. Estou é brincando mesmo, aquilo faz parte da minha relação com a escrita. Derramei mel, sem querer, no mármore da cozinha e um bando de formiga cercou essa mancha de mel, ficou parecendo o mapa do Brasil. Fotografei aquilo e fiz uma crônica sobre um general reformado que nunca matou ninguém durante a Ditadura, que era um homem correto… A história desse general que queria matar as formigas e quando vai dormir, morre. A questão não é a violência, é a dissuasão.

Como é esse fazer da crônica?

AB – Hoje em dia, acho que muitos cronistas sofrem porque têm um pouco de medo do leitor. O leitor é muito cruel com a questão pessoal. É reativo. Vivemos uma época muito utilitária, tudo tem que ter uma função. O Zuenir (Ventura) mesmo relatou que uma vez ele contou um fato pessoal e o leitor ficou puto. O ponto de ironia que o (Luis Fernando) Veríssimo fala. Alguns cronistas focam suas crônicas, ou estão relacionadas a fato político ou com o dia a dia da cidade. Eu busquei o contrário. Não que eu não faça crônica assim, eventualmente eu faço. Às vezes, por um foco diferente. Ou, às vezes, vou lá num filme – Tropa de Elite – e pergunto: “É fascista?” O que me interessa na crônica é o ecletismo, é fazer o que der na veneta. E, às vezes, partir do vazio mesmo. O que o Cony chama de “método digital”, não no sentido cibernético, mas no sentido de digitar qualquer coisa, nem que seja uma palavra inexistente, consoantes. Digita: oi, homem na rua. Isso não quer dizer nada, mas daí você começa a puxar… Isso deve ter alguma relação com a escrita automática, com os fluxos do inconsciente. Muitas vezes, gosto de explorar isso porque confio muito naquilo que não está revelado.

E os comentários dos leitores? E o retorno?

AB – Descobri que o e-mail  não é bom sinalizador para o número de leitores. Às vezes, vem muito e-mail porque está relacionado a um determinado segmento que foi tocado por aquela crônica. Por outro lado, têm crônicas que não dão retorno escrito, mas que são muito mais comentadas na cidade. Depois que vieram osblogs, eu não me preocupo com e-mails.

Como é sua relação com a Internet?

AB – É uma relação claudicante. Por exemplo, nunca entrei em Orkut. Tenho umblog . É um blog que, às vezes, sou mais militante, às vezes, abandono um pouco. Hoje em dia estou mais militante. Não somos remunerados pelo blog, n’O Globo. É um espaço de interação com as comunidades. Recentemente entrei no Facebook, estou achando mais legal do que esperava. Já tive uma relação mais preconceituosa com os meios digitais. E, hoje, começo a achar que a democratização vem por aí. Têm muitos autores que são cânones com maior medo porque o interesse das pessoas está tribalizado. Assim como as gravadoras já não são mediadoras para a criação musical, é claro que as editoras vão deixar de ser mediadoras da criação literária. Os autores vão ganhar menos dinheiro do que já ganham. Tudo bem que muita coisa ruim vai acabar indo à luz, mas coisa boa vai também. É a capacidade das pessoas de julgar, elas vão se educar.

Como você avalia a literatura contemporânea?

AB – É curioso porque sempre reclamamos que as pessoas leem pouco. Leem pouca literatura ficcional. Ou a “alta literatura”, que busca a estética e não contar a história. As pessoas podem ler menos esse tipo de literatura, o que é uma pena. Percebo que as feiras literárias atraem cada vez mais os leitores. Então, me contradigo: o papel ainda tem uma vitalidade tremenda.

É o fim do livro?

AB – O fim não, de forma alguma. Acredito no fim da fita cassete, que é uma merda, derrete no sol. As mídias que sobrevivem são as mídias que são boas. Por que o vinil está sobrevivendo? O CD vai sobreviver, até um certo ponto, mesmo com as mídias digitais. Tem coisas que se evidencia: o celular, quando surgiu, ficou óbvio que era melhor que telefone fixo, que os sinais de fumaça. Ele se impôs. O notebook se impôs. Mas os dispositivos de leitura são ruins. E vão ser ruins enquanto não forem moles, gostosos de manusear. Sabemos que o papel tem uma proporção de crescimento fabulosa nos países em desenvolvimento. Até jornais populares têm crescido no Brasil, imagine na China e na Índia. Já na Europa, países desenvolvidos, o papel começa a estagnar um pouco. As pessoas não percebem, papel é tecnologia. Uma mídia muito interessante de manusear, muito fácil de ir e voltar, não precisa apertar botão. A substituição (do papel) será progressiva. Mas nunca total. Eu duvido muito.

ARTHUR DAPIEVE
NO RITMO DAS PALAVRAS

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010 ]

   

 

As palavras do escritor e jornalista Arthur Dapieve têm ritmo. Conhecedor e fã de música popular e erudita, podemos constatar a musicalidade de seus textos nas crônicas que escreve semanalmente para o Segundo Caderno d´O Globo e, melhor, nos romances De cada amor tu herdarás só o cinismo (Objetiva, 2004) e Black Music (Objetiva, 2008).

Sua trajetória se cruza com diversos personagens da cultura brasileira, mas é na escrita, junto com os mestres Luis Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura, que entendemos mais de sua escolha pelo ofício. Exímio observador, Dapieve mediou um encontro histórico entre os dois ícones da crônica jornalística no Brasil — registrado no livro Conversa sobre o tempo (Ediouro/Agir, 2010) —, fazendo de uma simples conversa uma profunda reflexão sobre o tempo.

Em entrevista ao SaraivaConteúdo, durante a Festa Literária Internacional de Paraty 2010, Dapieve contou sobre os bastidores de seu trabalho, relembrando suas escolhas profissionais e suas paixões pela música e pela escrita.

Como surgiu a ideia do livro Conversa sobre o tempo (Ediouro/Agir, 2010), um encontro com Zuenir Ventura e Luis Fernando Veríssimo?

Arthur Dapieve  – A editora da Agir, Helena Carone, pensou assim: “Queria colocar os dois para conversar…” O Zuenir e o Veríssimo são amigos e têm pontos de contato: idade, trajetória e tudo. E ela queria um entrevistador, pensou em mim por conta de eu ter trabalhado com o Zuenir, de conhecê-lo há 25 anos, praticamente. Conheci o Veríssimo mais recentemente por conta, não só da distância geográfica, mas do meu temperamento e do dele. Deu certo, não é? É o primeiro título de uma série. Eles (os editores) pretendem fazer uma conversa sobre a fé e ciência, entre Frei Beto e Marcelo Gleiser, o físico, mediada pelo Valdemar Falcão.

Na apresentação desse livro, você conta uma história sobre um encontro com Zuenir Ventura no início da sua trajetória no jornalismo…

AD  – Eu já era formado e tinha trabalhado com o Mauro Ventura, filho dele. Conheci o Mauro quando ele nem era jornalista, era estudante de engenharia. Depois estudamos e fizemos um frila (trabalho freelancer) juntos, propiciado por professores da própria PUC (Rio). Um dia, ele falou: “Meu pai é professor também, adora descobrir gente jovem… Passa lá no JB (Jornal do Brasil), já falei com ele de você…” Fui. Tinha uma lista de proposta de matérias. Tive uma conversa com ele, que o ponto alto, acho, foi ele ter me perguntado o que eu entendia. Respondi que entendia de literatura, de música e de cinema. Ele deu um risinho que levei pelo menos 10 anos para entender. Só alguém que tem 21 anos acha que entende de literatura, de música e de cinema, né? Claro, estava numa entrevista de emprego, de trabalho… Mas eu realmente achava que entendia disso. Hoje em dia a minha resposta seria diferente: “Acho que, talvez, eu entendo um pouquinho de música. E do resto, menos…” Uma dessas pautas vingou, sobre o primeiro LP da Plebe Rude, O concreto já rachou. Foi um primeiro trabalho, que gerou outro trabalho, e outro… E, alguns meses depois, quando o próprio Zuenir criou e editou o Caderno Ideias, no JB, eu e três colaboradores, que estávamos mais ou menos nessa mesma situação, fomos convidados para constituir a primeira equipe do caderno. O Zuenir supervisionava, era o editor tanto do (Caderno) B quando do Ideias. A Vivian Wyler, que trabalha na Rocco, era a editora do Ideias. E eu, Luciano Trigo e Toni Marques éramos colaboradores, fazíamos resenhas de livros, matérias… Aí que começamos a trabalhar propriamente na redação.

Você consegue avaliar a trajetória do jovem que começou no Jornal do Brasil e hoje é um professor universitário e colunista d’O Globo?

AD  – Tem um ponto dessa trajetória pessoal e profissional indissociável. Porque, apesar dessa pretensão, dessa arrogância da minha declaração ao Zuenir, é uma coisa que marcou muito a ele: eu era muito tímido. O Zuenir voltou para casa e disse: “Mauro, ele pode ser um gênio como você diz. Mas ele não fala!” A própria profissão acabou me fazendo falar. Não que o temperamento inicial desapareça, não é isso. Não se aprende a falar, se aprende a se virar numa situação aparentemente adversa. Jornalismo é isso. E, ao mesmo tempo, o trabalho cotidiano nos jornais, a “ralação” toda daquilo: redações, plantões, pescoções etc. E mais, o entendimento melhor da realidade, pela experiência, pelo aprendizado, me fizeram ver que realmente se aprende um pouquinho daquilo que a gente gosta. Eu responderia hoje “um pouquinho de música”. Quanto mais escuto música, mais descubro que têm coisas que nunca escutei, ou que nunca escutei com a devida atenção, que merecem minha atenção. Entender do assunto é estar exposto continuamente à sua ignorância sobre ele. A gente conhece, mas as bifurcações das formas de arte são tantas que você nunca dá conta de tudo. Nos últimos tempos, voltei a prestar atenção para uma área da música pop que deixei meio de lado que é o metal, heavy metal.Conhecia o básico, mas eu sacava que tinha um underground e mais um overground também… Algumas coisas que não prestava atenção. Minha atenção se voltou muito para isso. Coisas incríveis que eu não tinha ideia que existiam. E aí essas coisas incríveis me direcionam para outras coisas que acho incríveis, e outras nem tão incríveis, mas que direcionam… É sempre infinito esse processo. Aquela frase do Sócrates, “Só sei que nada sei”, é real. Quanto mais você se enfronha num assunto, mais percebe sua pequenez diante dele.

O encontro com o Zuenir e o Veríssimo, duas figuras representativas do jornalismo no Brasil, ficou registrado em livro. Mas o que realmente ficou dessa experiência?

AD  – Foi uma experiência, sobretudo, humana, importante. São dois ídolos, que aprendi a respeitar por razões diversas. O Zuenir, por trabalhar muito com ele, e ter percebido o jeito que ele tem de lidar com as pessoas, sempre com muita gentileza, sempre muito atento ao que as pessoas falam, muito gentil. E sendo um chefe que você respeita. E o Zuenir, antes disso, era um dos dois caras que eu lia loucamente no jornal. Ele e o Carlos Eduardo Novaes eram os cronistas do JB que eu mais apreciava. Tem um ponto em comum: os três torcem pelo Botafogo. O Veríssimo é colorado. Então é a humanidade daquele encontro, eles não tinham a pretensão de ter explicação da vida. Não tinha essa pretensão totalizante de uma biografia, eles estavam contando estimulados, ou mesmo espontaneamente, sobre pedaços da vida deles que foram relevantes.

Ultimamente as editoras têm lançado muitos livros de entrevistas com escritores. Enquanto escritor e jornalista, como você entende a publicação desses diálogos?

AD  – É uma maneira de ampliar, popularizar, aquilo que se faz, por exemplo, aqui na Flip (a entrevista foi realizada na Festa Literária Internacional de Paraty 2010, em agosto), milhares de pessoas correm à cidade para ver escritores falarem de processos criativos, de suas vidas etc. Só que dura poucos dias, nem todo mundo pode vir… Um livro aumenta enormemente esse universo, embora as conversas possam ter um teor ligeiramente diferente, é mais ou menos a mesma coisa. Se você gosta do livro, você se interessa pelo autor. Não significa que você goste do autor. Porque têm autores perfeitamente canalhas e desprezíveis que escreveram obras-primas.

Falando sobre essa relação com a profissão, o que te levou à escrita?

AD  – O que me levou a fazer jornalismo (no vestibular) foi porque eu sabia que queria escrever. Eu não sabia fazer mais nada. Tinha cogitado fazer outras coisas, pensei em fazer Direito… Mas cheguei à conclusão de que não era isso, queria escrever outro tipo de coisa. Prestei vestibular para Letras e Comunicação. E eu nem sabia que seria jornalismo, era Comunicação. Talvez pudesse ser publicidade… Eu sabia que era algo que me forçaria a escrever. A escrita é exercício, ela só melhora se você exercita. A escrita não é algo abstrato. O que torna o texto melhor, ou menos pior, é o fato de ter burilado aquela linguagem, o estilo. O curso de jornalismo me proporcionou isso, me colocou para escrever. Mas, ao mesmo tempo, me afastou do meu objetivo inicial. Porque quando você entra numa redação é um moedor de carne de tal forma… Não interessa se você quer escrever um livro ou escrever outra coisa. Você está escrevendo a matéria do dia a dia e está feliz com isso. Eu me formei em 1985 e dez anos depois fui fazer um livro sobre rock no Brasil nos anos 1980 (BRock, Editora 34, 1995). Meu objetivo inicial não era escrever ficção, esse livro era um desdobramento do trabalho de jornalismo. O primeiro livro de ficção só saiu em 2004 (De cada amor tu herdarás só o cinismo (Objetiva)). Então, foi um desvio longo. Mas eu sei que foi importante, para esse livro de ficção, ter “ralado” em redações, escrevendo jornalisticamente esse tempo todo. E, quando fui fazer Comunicação, não tinha ideia de que poderia escrever sobre música em variadas formas. Quando comecei a trabalhar, vi que não tinha sido em vão todos aqueles cruzeiros, cruzados, que pedia, esmolava da minha mãe para comprar LPs. Aquilo ali não era só uma perversão, uma perda de tempo, eu tinha me dado um patrimônio cultural importante. Ela tinha compreendido isso. Eu podia utilizar aquelas informações todas que discutia com os amigos.

Você é jornalista e escritor. Há diferença entre os dois ofícios?

AD  – A (escrita) ficcional exige um planejamento maior, sei como vai ser a história, monto um organograma e vou preenchendo aquelas lacunas. A (escrita) jornalística é muito feita em cima do laço porque precisa ter uma quentura diferente. Embora, às vezes, eu até planeje alguns textos com antecedência, quando o assunto não é tão quente. Quando comecei a escrever ficção, finalmente, tive um grande problema de me desvencilhar da linguagem jornalística, que é muito explicadinha… É muito pautada por datas, eventos, lugares. Quem, quando, onde, como, porque… Aquele negócio do jornalismo. O primeiro romance é muito mais assim, parece muito mais um reportagem em alguns aspectos, de tal forma que muita gente acreditou, ou acredita, que é uma história minha na qual troquei nomes. Não é. Porque tem botequins e garçons reais mencionados, como o Manoel, do Nova Capela (na Lapa carioca), que está no livro. No segundo livro (Black Music (Objetiva, 2008), consegui me desvencilhar dessa carga estilística, jornalística. Embora se passe no Rio de Janeiro, numa data precisa, a história é muito mais maluca do que meramente uma coisa que poderia ter acontecido.

O Rio de Janeiro é quase personagem de suas histórias.

AD  – Eu sempre penso naquela história: cante a sua aldeia e você cantará o universo, do Tolstói. É um pouco isso. É uma proeza literária e intelectual o que o Chico Buarque fez com Budapeste (Companhia das Letras, 2003). Não que Budapeste seja um personagem do livro dele, mas um estado de espírito. No meu, (o Rio de Janeiro) é um personagem, como você disse, e é também o estado de espírito. Tem uma geografia sentimental da cidade. E também uma geografia amorosa musical dessa cidade, áreas da cidade que evocam um determinado tipo de música.

A música é muito presente em sua trajetória, inclusive em sua literatura. Os seus livros de ficção — De cada amor tu herdarás só o cinismo (Objetiva, 2004) e Black Music (Objetiva, 2008) — muito estão ligados à música, desde o título ao ritmo da narrativa. Você se lembra do início dessa relação? Seus pais incentivaram?

AD  – Meus pais não eram melômanos de forma alguma, poucos discos em casa. Meu pai era amigo de botequim do Jorge Ben. Sempre gostei muito do Jorge Ben, talvez até estimulado por isso, sabia que meu pai conhecia, sem que eu conhecesse. Eu não tinha idade para frequentar o botequim, lá na (Rua) Paula Freitas, em Copacabana. Em determinado ponto, por alguma razão, não me lembro qual foi a razão inicial, pedi um violão para o meu pai.

Você tinha quantos anos?

AD  – Dez anos, talvez. Quando chegamos à loja, acho que ainda existe, perto do Largo da Carioca (no Centro do Rio), eu vi uma guitarra e disse: “Eu quero isso!” Ele disse: “Não. Você só vai ter isso se aprender a tocar isso. É mais caro, não vou fazer um investimento…” Na verdade, nunca dominei o violão. Aprendi um pouquinho, em variados surtos de vontade de tocar violão, o mais grave foi na adolescência porque tinha amigos que tocavam. Mas nunca dominei, me pareceu mais um brinquedo daqueles que você se desinteressa quando entende como funciona. Demorei a entender isso. No decorrer da vida, percebi que o violão, o instrumento de cordas, não era minha praia e troquei por uma bateria. Na bateria, me achei melhor. Mas a bateria exige espaço, um certo isolamento acústico… E todos os instrumentos exigem disciplina. Mas não aprendi com a experiência, vendi minha bateria e comprei timbales, aqueles dois tambores muito usados na música cubana. Aquilo, bem menor, ainda faz barulho, ocupa espaço… Antes dos timbales, por conta do Paul Desmond (1924-1977), saxofonista de jazz, parecia que era fácil ele tocando… Falei: “Vou comprar um sax alto”, que é o instrumento dele. Mas a história deles (os instrumentos) é mais ou menos a mesma coisa: comecei a tocar, achei que estava começando a avançar, e caía meu nível de interesse… De vez em quando, têm voltas desse negócio, voltar a ler pauta com mais atenção.

Você chegou a ter uma banda?

AD  – Dois amigos, um baixista profissional e um dos guitarristas, nós ensaiamos bastante. Mas nunca nos apresentamos fora dos nossos quartos. Era um hard rock um pouco punk, a partir de determinado momento bem pesado. Mas nada muito brilhante.

Entre seus livros, o mais conhecido é Renato Russo, o trovador solitário (Ediouro, 2006). Em 2010, Renato Russo completaria 50 anos; se estivesse vivo, o que ele estaria fazendo?

AD  – O Renato, segundo o planejamento dele, estaria fazendo cinema. Ele tinha planejado que até os 40 anos faria rock. E como o rock exige muito fisicamente, entre os 50 e 60 ele faria cinema, que exige também fisicamente, mas menos do que ser o frontman de uma banda tão popular. Então, hoje, aos 50 anos, ele seria um cineasta. Ele queria ser cineasta, já escrevia alguns roteiros. E quando completasse 60, ele queria se dedicar à escritura, simplesmente porque demanda menos fisicamente. Ele tinha a vida toda planejada, mas aconteceu um imprevisto.

Atualmente, quem representa a importância musical e social da Legião Urbana?

AD  – Ninguém. A coisa mais parecida que houve em tempos recentes, e de vez em quando ainda faz shows, foi Los Hermanos. Não tanto pela mensagem das letras, que é mais intimista do que a Legião. Mas a idolatria em torno, as pessoas seguindo. O clima que eu senti quando vi Los Hermanos no Canecão é parecidíssimo, as pessoas cantando as letras todas, berrando, aquela coisa religiosa… Não fossem eles barbudos, aquela figura messiânica. Foram os que chegaram mais perto disso, não tanto pela mensagem, mas por conta de um clima que se criou entre eles e os fãs. Enquanto professor, jornalista e escritor, o que dizer a um jovem que deseja ser escritor?

AD - Primeiro, precisa ler como um condenado. Tem muita gente que tem a ilusão que para escrever precisa começar a escrever. Não, precisa começar a ler. Depois de ler bastante, você começa a escrever. Pode ser concomitante, pode ser ao mesmo tempo. A leitura tem precedência sobre a escritura. O nosso mundo interior não é por si só tão rico que se expressa de uma maneira literariamente relevante. Tem que ler pra burro. Primeiro: pessoas que você gosta. Depois, pessoas que você não gosta… Para se colocar, entender quais são os estratagemas que o autor usou, quais são os truquezinhos que ele usou para você gostar ou não gostar daquilo… Você vai incorporando ou descartando na sua própria escritura. Comece a ler pesadamente e depois comece a escrever. Ainda que depois seja na semana seguinte. Devore Moby Dick (de Herman Melville) numa semana e na semana seguinte comece a escrever alguma coisa.

BEATRIZ BRACHER
ENTRE LIVROS E FILMES

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 

Numa silenciosa casa em São Paulo, a escritora Beatriz Bracher se recolhe para escrever suas histórias. Desde sua estreia com Azul e dura (2002), Bracher tem cultivado a disciplina necessária para trabalhar sua linguagem, o que rendeu livros como Não falei (2004) e Antonio(2007), todos bem recebidos pela crítica.

Nascida em 1961, em São Paulo, Beatriz Bracher começou seu trajeto literário na revista34 Letras  e como cofundadora da editora 34, onde trabalhou de 1992 a 2000. Além da dedicação à literatura, a escritora paulista mantém parcerias no cinema com Sérgio Bianchi e Karim Aïnouz, entendendo bem a diferença entre o ofício de escritor e o de roteirista.

Convidada para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Beatriz Bracher acaba de lançar mais um livro, Meu amor . A edição reúne contos que foram publicados em jornais (Correio Braziliense) e revistas literárias (Ficções e Bravo), com outros inéditos. A narrativa, embora de temática parecida com os romances, é apresentada de forma mais enxuta.

Em conversa exclusiva ao SaraivaConteúdo, Beatriz Bracher fala sobre cada um de seus projetos, sem deixar de se encantar com a descoberta das histórias.

Qual foi seu primeiro encontro com a literatura?

Beatri Bracher – Sempre adorei ouvir histórias, minha mãe contava muitas histórias da vida dela. Havia um anedotário familiar de quando ela era criança. Minha avó contava histórias clássicas brasileiras. Desde então, passei a gostar de contar histórias para meus primos, aos 9, 10 anos. Eu sempre fui muito sensível para os sotaques diferentes, em São Paulo, há pessoas do Brasil inteiro. Na minha casa, meu pai e minha mãe sempre chamaram muita atenção para o modo certo de falar, da maneira correta de usar os pronomes… Aos 10 anos, eu não era uma pessoa que lia muito, não. Eu lia muito história em quadrinhos… Aos 11 anos, fiz uma viagem para a Alemanha, fiquei dois meses por lá. Aprendi muito rápido o idioma, hoje em dia esqueci tudo. Mas senti saudades enormes dos meus, pais, irmãos… Alguém me arranjou um livro chamado Boi Aruá , de Luiz Jardim. Li várias vezes o livro, fiquei tão feliz. O que mais gostava era estar lendo em português, estar em contato com a língua. Outro livro que adorava ler era O pequeno Nicolau, uma série para crianças. Logo depois passei a ler livros mais adultos.

Foi nesse período que você sentiu vontade de escrever suas histórias?

BB – Eu escrevia histórias, contos, mas não para publicar. Quando participei do grupo que fez a revista 34 Letras , a ideia era fazer um espaço para publicar. Mas nunca publiquei as minhas coisas. E com a editora 34 eu fui sendo editora, no sentido de conversar com autores, ler manuscritos e avaliar, e ler muitos livros que eu não iria ler: ensaios de música, filosofia… Não sei qual a relação, quando fui editora parei de escrever. Eu parei com a editora para tirar um ano sabático e me propus a escrever um livro. Comecei a escrever, mas não acabei em um ano. Não tive dúvida que eu queria ser escritora. Esse livro era o Azul e dura, meu primeiro romance.

São três romances: Azul e dura (2002), Não falei (2004) eAntonio (2007)…

BB – Azul e dura  é a história de uma mulher de 42 anos, o livro começa com ela indo para a Suíça, com os dois filhos, esquiar. Na mala, ela leva papéis com anotações feitas ao longo da vida e romances que gostou de ler. Ela tem três semanas para reavaliar a vida, não sabe o que vai acontecer depois… É a história dessa mulher de classe média alta que faz cinema na faculdade, tem uma relação mais alternativa, mas se casa e fica alheia ao mundo. Até que ela se envolve num acidente, em que atropela e mata uma menina com deficiência mental. O segundo livro, Não falei, é sobre um professor universitário, aos 60 anos, que passou a vida inteira na mesma casa, que será vendida para dividir o dinheiro com os irmãos. Ele resolve que vai se aposentar da faculdade e se mudar para São Carlos para continuar com as pesquisas… Ele pensa muito sobre educação, foi preso em 1970 pelos militares, apesar de não fazer parte da luta armada. Logo que sai da prisão, onde fica por um mês ou dois, é morto o cunhado, que participava da luta armada. Fica a dúvida se ele havia denunciado o cunhado ou não. Isso acaba desestruturando a família dele. É um livro sobre uma pessoa de hoje revendo a trajetória, tanto ligada à política, quanto à educação. Ele tinha uma ligação muito forte com os livros. As leituras que você fez são experiências de vida, como fazer um amigo, uma viagem, ou ter um emprego. O terceiro, Antonio, é sobre um rapaz, Benjamin, que resolve saber sobre a vida do pai dele, Téo. Então, ele vai conversar com Isabel, mãe de seu pai; com Haroldo, amigo do avô Xavier; e Raul, amigo do pai. Nunca se ouve a voz do Benjamin, os três que falam sobre o Téo. Na verdade, se sabe muito sobre quem está falando, sobre quem se fala fica um pouco embaralhado. O Téo é o rapaz que nasceu em 1960 e aos 18 anos, ao invés de cursar uma faculdade, resolve seguir os caminhos de Guimarães Rosa. Dessa viagem, resolve que quer ficar e se emprega como vaqueiro. O livro começa com a revelação que nessa viagem ele conhece uma mulher mais velha que ficou grávida de um filho dele. Eles se casam, mas ela morre no parto do filho, o Benjamin. Essa mulher foi casada com o avô, com quem também teve um filho chamado Benjamin. O cara resolver ser um vaqueiro é diferente…

Como surgem suas histórias? Há disciplina em seu processo de escrita?

BB – Tenho uma disciplina de trabalho, escrevo quatro horas por dia. Depois trabalho em outras coisas. Quando começo um romance não sei onde ele vai acabar. Conforme vou escrevendo, ele vai escolhendo suas saídas. Trabalho muito na limpeza do livro, limpando a história. Nesse trabalho de edição, de limpar, de cortar, tem um trabalho criativo muito grande. Talvez seja diferente de quando escrevo, mas é de qualidade mais sofisticada. Sou mais dona do que estou fazendo quando revejo do que quando escrevo. Porque quando escrevo é quase uma matéria bruta.

E o livro de contos Meu Amor? Há diferença na escrita de uma narrativa curta?

BB – Metade do livro são contos que escrevi antes de fazer a editora. Há contos que publiquei em revistas e jornais. A outra metade são contos inéditos. Comecei lendo contos: Cortázar, Borges, Kafka… Pra mim, o conto sempre foi uma forma mais elevada do que o romance, mais pensada e burilada. Eu tinha mais medo de escrever conto do que romance. Ao contrário do romance que te diz o caminho, o conto nunca te diz, você tem descobrir. O romance é bom que seja um pouco sujo, o conto, não, precisa ser mais enxuto para ter mais força. Mesmo que mais enxuto seja uma verborragia muito grande, tem alguns contos que são assim.

Você também trabalha com cinema. Escreveu a ideia original do filme Cronicamente inviável e o roteiro de Os inquilinos, ambos de Sérgio Bianchi. Como é escrever roteiros? Há alguma relação com a literatura?

BB – O problema é que a gente acha que tem alguma coisa a ver (com literatura ), quando não tem nada a ver. O roteiro está a serviço de uma coisa que não é escrita, que é o filme. Ninguém vai ler o que você está escrevendo. O filme não vai existir se não existir roteiro, mas depois que o filme estiver pronto, o roteiro desaparece, não existe mais o texto. E é um trabalho com muitas pessoas envolvidas. Primeiro é o roteirista e o diretor, que é o autor do filme. É quase insuportável para o escritor de literatura porque não posso escrever “ela estava triste”. Tenho de escrever “ela baixou os olhos e olhou para o lado”. Como assim, está triste? Não existe. O que tem de igual é a capacidade de fabulação, de criar histórias, de unir um personagem com outro. Além disso, no roteiro você está discutindo o tempo inteiro: “Qual a função dessa cena?” Quando escrevo literatura: “Qual a função desse capítulo?” Não sei. Talvez alguém vai descobrir e me contar. Só sei que funciona… E depois, quando está pronto, o roteiro é enviado para um monte de gente, que faz críticas. Reescreve. E ainda, vai vir o produtor, o fotógrafo, diretor de arte… Fica essa discussão sobre filme de autor. Todo filme é de autor, só que o autor é o diretor. Se há alguém que é quase autor do filme é o editor, que faz a edição final. Escrever um roteiro existe um “baixar a bola” muito grande para um escritor de literatura (risos). Você é um, o comecinho de uma etapa que vai se distanciar muito de você. Mas trate de apontar muito bem onde as pessoas devem chegar.

Atualmente você está trabalhando no roteiro de um filme do Karim Aïnouz…

BB – Ainda não sabemos o nome. É a história de uma moça, dentista, casada com um dublador, que acabou de se mudar para um apartamento com o marido e o filho de 14 anos. No intervalo do consultório, o marido liga para o celular dizendo que se separou, não sabe para onde vai… O roteiro você tem que deixar descansar, como o livro, como qualquer coisa. Depois é muito fácil ver o que é ruim, salta aos olhos. Mas se não se tem esse tempo, dependemos do que o outro tem a dizer, com olhos frescos.

Como autora e editora, o que você diria a um jovem que deseja ser escritor?

BB – Escrever, escrever, escrever… Obviamente, um escritor precisa escrever muito. Uma vez que já escreveu, ouvir o que outros têm a dizer é muito importante. É muito chato ler o que um amigo escreveu para avaliar. Tem de escolher bem o amigo, vai ser muito legal quem fizer a leitura, no aspecto de ele ser honesto. Vale a pena trabalhar bastante e insistir.

 

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