BEATRIZ BRACHER
ENTRE LIVROS E FILMES

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 

Numa silenciosa casa em São Paulo, a escritora Beatriz Bracher se recolhe para escrever suas histórias. Desde sua estreia com Azul e dura (2002), Bracher tem cultivado a disciplina necessária para trabalhar sua linguagem, o que rendeu livros como Não falei (2004) e Antonio(2007), todos bem recebidos pela crítica.

Nascida em 1961, em São Paulo, Beatriz Bracher começou seu trajeto literário na revista34 Letras  e como cofundadora da editora 34, onde trabalhou de 1992 a 2000. Além da dedicação à literatura, a escritora paulista mantém parcerias no cinema com Sérgio Bianchi e Karim Aïnouz, entendendo bem a diferença entre o ofício de escritor e o de roteirista.

Convidada para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Beatriz Bracher acaba de lançar mais um livro, Meu amor . A edição reúne contos que foram publicados em jornais (Correio Braziliense) e revistas literárias (Ficções e Bravo), com outros inéditos. A narrativa, embora de temática parecida com os romances, é apresentada de forma mais enxuta.

Em conversa exclusiva ao SaraivaConteúdo, Beatriz Bracher fala sobre cada um de seus projetos, sem deixar de se encantar com a descoberta das histórias.

Qual foi seu primeiro encontro com a literatura?

Beatri Bracher – Sempre adorei ouvir histórias, minha mãe contava muitas histórias da vida dela. Havia um anedotário familiar de quando ela era criança. Minha avó contava histórias clássicas brasileiras. Desde então, passei a gostar de contar histórias para meus primos, aos 9, 10 anos. Eu sempre fui muito sensível para os sotaques diferentes, em São Paulo, há pessoas do Brasil inteiro. Na minha casa, meu pai e minha mãe sempre chamaram muita atenção para o modo certo de falar, da maneira correta de usar os pronomes… Aos 10 anos, eu não era uma pessoa que lia muito, não. Eu lia muito história em quadrinhos… Aos 11 anos, fiz uma viagem para a Alemanha, fiquei dois meses por lá. Aprendi muito rápido o idioma, hoje em dia esqueci tudo. Mas senti saudades enormes dos meus, pais, irmãos… Alguém me arranjou um livro chamado Boi Aruá , de Luiz Jardim. Li várias vezes o livro, fiquei tão feliz. O que mais gostava era estar lendo em português, estar em contato com a língua. Outro livro que adorava ler era O pequeno Nicolau, uma série para crianças. Logo depois passei a ler livros mais adultos.

Foi nesse período que você sentiu vontade de escrever suas histórias?

BB – Eu escrevia histórias, contos, mas não para publicar. Quando participei do grupo que fez a revista 34 Letras , a ideia era fazer um espaço para publicar. Mas nunca publiquei as minhas coisas. E com a editora 34 eu fui sendo editora, no sentido de conversar com autores, ler manuscritos e avaliar, e ler muitos livros que eu não iria ler: ensaios de música, filosofia… Não sei qual a relação, quando fui editora parei de escrever. Eu parei com a editora para tirar um ano sabático e me propus a escrever um livro. Comecei a escrever, mas não acabei em um ano. Não tive dúvida que eu queria ser escritora. Esse livro era o Azul e dura, meu primeiro romance.

São três romances: Azul e dura (2002), Não falei (2004) eAntonio (2007)…

BB – Azul e dura  é a história de uma mulher de 42 anos, o livro começa com ela indo para a Suíça, com os dois filhos, esquiar. Na mala, ela leva papéis com anotações feitas ao longo da vida e romances que gostou de ler. Ela tem três semanas para reavaliar a vida, não sabe o que vai acontecer depois… É a história dessa mulher de classe média alta que faz cinema na faculdade, tem uma relação mais alternativa, mas se casa e fica alheia ao mundo. Até que ela se envolve num acidente, em que atropela e mata uma menina com deficiência mental. O segundo livro, Não falei, é sobre um professor universitário, aos 60 anos, que passou a vida inteira na mesma casa, que será vendida para dividir o dinheiro com os irmãos. Ele resolve que vai se aposentar da faculdade e se mudar para São Carlos para continuar com as pesquisas… Ele pensa muito sobre educação, foi preso em 1970 pelos militares, apesar de não fazer parte da luta armada. Logo que sai da prisão, onde fica por um mês ou dois, é morto o cunhado, que participava da luta armada. Fica a dúvida se ele havia denunciado o cunhado ou não. Isso acaba desestruturando a família dele. É um livro sobre uma pessoa de hoje revendo a trajetória, tanto ligada à política, quanto à educação. Ele tinha uma ligação muito forte com os livros. As leituras que você fez são experiências de vida, como fazer um amigo, uma viagem, ou ter um emprego. O terceiro, Antonio, é sobre um rapaz, Benjamin, que resolve saber sobre a vida do pai dele, Téo. Então, ele vai conversar com Isabel, mãe de seu pai; com Haroldo, amigo do avô Xavier; e Raul, amigo do pai. Nunca se ouve a voz do Benjamin, os três que falam sobre o Téo. Na verdade, se sabe muito sobre quem está falando, sobre quem se fala fica um pouco embaralhado. O Téo é o rapaz que nasceu em 1960 e aos 18 anos, ao invés de cursar uma faculdade, resolve seguir os caminhos de Guimarães Rosa. Dessa viagem, resolve que quer ficar e se emprega como vaqueiro. O livro começa com a revelação que nessa viagem ele conhece uma mulher mais velha que ficou grávida de um filho dele. Eles se casam, mas ela morre no parto do filho, o Benjamin. Essa mulher foi casada com o avô, com quem também teve um filho chamado Benjamin. O cara resolver ser um vaqueiro é diferente…

Como surgem suas histórias? Há disciplina em seu processo de escrita?

BB – Tenho uma disciplina de trabalho, escrevo quatro horas por dia. Depois trabalho em outras coisas. Quando começo um romance não sei onde ele vai acabar. Conforme vou escrevendo, ele vai escolhendo suas saídas. Trabalho muito na limpeza do livro, limpando a história. Nesse trabalho de edição, de limpar, de cortar, tem um trabalho criativo muito grande. Talvez seja diferente de quando escrevo, mas é de qualidade mais sofisticada. Sou mais dona do que estou fazendo quando revejo do que quando escrevo. Porque quando escrevo é quase uma matéria bruta.

E o livro de contos Meu Amor? Há diferença na escrita de uma narrativa curta?

BB – Metade do livro são contos que escrevi antes de fazer a editora. Há contos que publiquei em revistas e jornais. A outra metade são contos inéditos. Comecei lendo contos: Cortázar, Borges, Kafka… Pra mim, o conto sempre foi uma forma mais elevada do que o romance, mais pensada e burilada. Eu tinha mais medo de escrever conto do que romance. Ao contrário do romance que te diz o caminho, o conto nunca te diz, você tem descobrir. O romance é bom que seja um pouco sujo, o conto, não, precisa ser mais enxuto para ter mais força. Mesmo que mais enxuto seja uma verborragia muito grande, tem alguns contos que são assim.

Você também trabalha com cinema. Escreveu a ideia original do filme Cronicamente inviável e o roteiro de Os inquilinos, ambos de Sérgio Bianchi. Como é escrever roteiros? Há alguma relação com a literatura?

BB – O problema é que a gente acha que tem alguma coisa a ver (com literatura ), quando não tem nada a ver. O roteiro está a serviço de uma coisa que não é escrita, que é o filme. Ninguém vai ler o que você está escrevendo. O filme não vai existir se não existir roteiro, mas depois que o filme estiver pronto, o roteiro desaparece, não existe mais o texto. E é um trabalho com muitas pessoas envolvidas. Primeiro é o roteirista e o diretor, que é o autor do filme. É quase insuportável para o escritor de literatura porque não posso escrever “ela estava triste”. Tenho de escrever “ela baixou os olhos e olhou para o lado”. Como assim, está triste? Não existe. O que tem de igual é a capacidade de fabulação, de criar histórias, de unir um personagem com outro. Além disso, no roteiro você está discutindo o tempo inteiro: “Qual a função dessa cena?” Quando escrevo literatura: “Qual a função desse capítulo?” Não sei. Talvez alguém vai descobrir e me contar. Só sei que funciona… E depois, quando está pronto, o roteiro é enviado para um monte de gente, que faz críticas. Reescreve. E ainda, vai vir o produtor, o fotógrafo, diretor de arte… Fica essa discussão sobre filme de autor. Todo filme é de autor, só que o autor é o diretor. Se há alguém que é quase autor do filme é o editor, que faz a edição final. Escrever um roteiro existe um “baixar a bola” muito grande para um escritor de literatura (risos). Você é um, o comecinho de uma etapa que vai se distanciar muito de você. Mas trate de apontar muito bem onde as pessoas devem chegar.

Atualmente você está trabalhando no roteiro de um filme do Karim Aïnouz…

BB – Ainda não sabemos o nome. É a história de uma moça, dentista, casada com um dublador, que acabou de se mudar para um apartamento com o marido e o filho de 14 anos. No intervalo do consultório, o marido liga para o celular dizendo que se separou, não sabe para onde vai… O roteiro você tem que deixar descansar, como o livro, como qualquer coisa. Depois é muito fácil ver o que é ruim, salta aos olhos. Mas se não se tem esse tempo, dependemos do que o outro tem a dizer, com olhos frescos.

Como autora e editora, o que você diria a um jovem que deseja ser escritor?

BB – Escrever, escrever, escrever… Obviamente, um escritor precisa escrever muito. Uma vez que já escreveu, ouvir o que outros têm a dizer é muito importante. É muito chato ler o que um amigo escreveu para avaliar. Tem de escolher bem o amigo, vai ser muito legal quem fizer a leitura, no aspecto de ele ser honesto. Vale a pena trabalhar bastante e insistir.

 

AS PAIXÕES DE ANA ARRUDA CALLADO

Escritora reconstrói o olhar feminino a partir de biografias de Adalgisa Nery e Lygia Lessa Bastos

Por Ramon Nunes Mello [PortalCultura.rj – 2009 ]

   

 

Ana Arruda Callado é “uma mulher de sorte”. É o que a jornalista e escritora gosta de dizer quando avalia sua trajetória de vida, principalmente quando se refere aos 20 anos de união com o escritor Antonio Callado, o “intelectual-operário” – como definiu a companheira.

Ana e Callado compartilharam, além do amor pelas palavras, muitas paixões: a política, olhar feminino, o jornalismo e o Rio de Janeiro, em especial Jardim Botânico – onde Ana Arruda teve o privilégio de morar com a família.

Nascida em 1937, na cidade de Recife, Ana Arruda Callado veio para o Rio de Janeiro aos oito anos de idade. Formada em Jornalismo na Faculdade Nacional de Filosofia, Ana começou a trabalhar como repórter no Jornal do Brasil  em 1958, quando ganhou o prêmio Herbert Moses por uma série de reportagens sobre a reforma agrária. E, no ano seguinte, recebeu a Menção Honrosa do Prêmio Esso, após escrever matérias especiais sobre a infância abandonada.

Ana Arruda também se dedicou a carreira acadêmica, trabalhou como professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) durante 14 anos, além de ter lecionado na Universidade Federal Fluminense (UFF) e na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Atualmente é presidente do Conselho Estadual de Cultura.

Em entrevista ao Cultura.rj , Ana Arruda fala das mulheres fortes e politizadas que biografou, entre elas Adalgisa Nery, Maria José Barbosa Lima, Jenny, Maria Martins e Lygia Maria Lessa Bastos – a mais recente perfilada em Lygia, a recordista.

Por que escrever o perfil de Lygia Maria Lessa Bastos, Lygia – a recordista?

Ana Arruda Callado  – A Lygia está com 90 anos, corri para fazer o livro. Conheci a Lygia quando fui fazer a biografia da Adalgisa, ela meu deu um depoimento muito importante. Reinaldo Barros que me indicou a Lygia, mas eu inicialmente tinha a imagem que ela era um general. Eu tinha um preconceito ideológico sério em relação a ela. Só quebrei essa imagem depois de entrevistá-la. Ela é uma mulher fascinante e independente, foi amiga de Adalgisa – reza missa para ela todos os anos. Ela não quis escrever a própria biografia porque tinha medo de ferir alguém. Então, ela me disse: “Se outra pessoa escrever é diferente”. Atendi ao pedido dela.

Você escreveu biografias de mulheres fortes e politizadas: Adalgisa Nery, Maria José Barbosa Lima, Jenny, Maria Martins e Lygia Maria Lessa Bastos. É uma busca por sim mesma?

AAC  – Penso que um escritor só escreve por si mesmo. Quando comecei a procurar as “minhas mulheres”, fui atrás de pessoas que eram diferentes de mim. Mas descobri que era uma mentira.

Por que biografar mulheres?

AAC  – Primeiro porque elas não são mulheres espetacularmente famosas. Escrevo sobre mulheres comuns, mas que contribuíram para as artes. São mulheres ilustres. Tenho interesse em contar a história contemporânea do Brasil através de um olhar feminino. Sou patriota, quero redescobrir a história desse país.

Como é esse olhar?

AAC  – Vou responder a essa pergunta falando de algumas perfiladas. Por exemplo, Maria José Barbosa Lima, mulher do governador Barbosa Lima Sobrinho. Quando trabalhei com ele na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), eu via aquela mulher pequeninha e pensava: “Será que é uma dessas bobocas que ficam penduradas no braço do marido?” Não! Ela é uma mulher fortíssima. Ao lado – e não atrás – de um grande homem há uma grande mulher. Barbosa Lima não sabia de nada, era Maria José que administrava a família e as finanças. Fiquei fascinada com essa mulher. Entende a questão do olhar?

Como você chegou à escritora Adalgisa Nery?

AAC  – Eu vi Adalgisa uma única vez. Eu estava almoçando com Alberto Rajão -deputado estadual que foi um dos maiores informantes do Sol  - quando entrou uma mulher com ar de rainha, olhar duro, um narigão. Rajão levantou e foi ao encontro dela. Depois perguntei se era a Adalgisa e falei: “Ela é velha, né?” Rajão respondeu: “É velha, mas é um tesão!” (risos) Foi o único encontro que tive com Adalgisa. (risos) Depois de muito tempo me interessei em escrever o perfil. Ela era uma mulher política forte, que foi casada com um homem fascinante, mas malvado: Ismael Nery. Samuel Wainer, que também era uma peste, disse que ela era uma mulher dura, quase perversa. Depois ela se casou com Lourival Fontes, o então chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do regime ditatorial de Getúlio Vargas. E ela adorou, atuou como primeira-dama do DIP. Em depoimento ao Museu de Imagem e do Som (MIS), ela disse que se casou com Lourival pela segurança dos filhos. Ela era sedutora, mas foi ele quem a largou. A carta que ela escreveu para Getúlio, reclamando de Lourival, é patética – não condiz com a inteligência dela. Ela encantava os homens, era amiga do presidente. A viúva do Portinari me disse: “Minha filha, que impressão que ela fazia nos homens! No meu marido também, viu?!” O Portinari não fez quatro perfis dela à toa, as pessoas se apaixonavam por ela. O poema do Drummond é perfeito: De Adalgisa, a lisa, fria / E quente e áspera Adalgisa / Numerosa qual Amor (Desdobramento de Adalgisa). Quem ficou chateado com meu livro foi o crítico Wilson Coutinho. Ele me disse: “Você escreveu o livro que eu queria ter escrito. Adalgisa decidiu minha opção sexual, quando eu a vi fiquei deslumbrado.” (risos) Ela não era adorável. Adalgisa era admirável, é outra coisa.

A biografia da escultora Maria Martins foi uma encomenda?

AAC  – Sim, foi uma encomenda. As pessoas diziam que ela era uma pessoa desagradável. Não gostei dela.

Por que escrever sobre uma pessoa desagradável?

AAC  – Porque vi uma exposição dela e me apaixonei pelas obras dela. Quando vi as esculturas fiquei fascinada. “Quem é ela?”, me perguntei. Mas nunca pensei em biografar. Depois da encomenda, passei a conhecê-la melhor. Ela também fascinava os homens, mas era diferente de Adalgisa. Maria concretizava as fantasias. (risos) As duas eram amigas do Getúlio Vargas, ele adorava se cercar de mulheres inteligentes. Elas também foram amigas da Frida Kahlo, eram mulheres poderosas.

O fato de ter nascido no Recife e mudar, aos 8 anos, para o Rio de Janeiro influencia sua produção jornalística e literária?

AAC  – Sim. Eu me sinto muito pernambucana, apesar de ter vindo muito nova para o Rio – minha vida inteira é o Rio, estou com 72 anos. Toda vez que volto ao Recife me sinto energizada com aquele cheiro, aquele mar sargaço. É como se eu ainda morasse lá.

E você morou numa fazenda…

AAC  – Morei em dois lugares lindos. Cheguei a morar dentro do Jardim Botânico, na Rua Jardim Botânico, 1008. A casa do Pacheco Leão, que hoje está restaurada. Como a família era muito grande e meu pai trabalha no Serviço de Economia Rural, o ministro ofereceu a casa. O Jardim Botânico era o meu quintal. Depois morei durante dois anos numa fazenda no Distrito de Morro Grande, em Araruama. Por esse motivo eu não fiz o curso primário, fui alfabetizada em Recife. Sabe quem foi minha professora na fazenda? A professora de Paulo Freire, Eunice Vasconcelos. Só descobri isso quando Paulo Freire morreu e publicaram um artigo dele: Minha professorinha. Eunice já estava idosa e doente, então meu pai a levou para a fazenda. Foi uma maravilha, ela ficou dois anos com a gente.

Você tem irmãos?

AAC  – Tenho 15 irmãos. Meus pais criaram os 15 filhos, faço questão de dizer. Existe muito preconceito com o nordestino: “Os nordestinos têm filhos, mas morrem todos”. Não! Hoje somos doze, tenho muitos irmãos com mais de 80 anos.

Quais são as lembranças de infância?

AAC  – Nós brincávamos de biblioteca, de preencher fichas para fazer o empréstimo do livro. (risos) Uma maravilha. Na fazenda eu me escondia num telhado que ficava próximo a janela de um dos quartos. Sabe que até hoje sonho com esse telhado? Eu ficava lá quietinha lendo os “livros proibidos”. Toda semana meu pai chegava com um livrinho. Cazuza , do Viriato Correia. E os livros do Érico Veríssimo me marcaram muito, por exemplo, A vida de Joana D’Arc.

Você começou a trabalhar como jornalista aos 20 anos?

AAC  – Eu comecei muito cedo, aos 20 anos já era repórter do Jornal do Brasil . O que me interessava? Os temas esquecidos: reforma agrária e crianças abandonadas. Tenho o orgulho de ter trabalhado no Jornal do Brasil numa época em que se estava fazendo o melhor jornalismo do país. Na época, eu propus o tema da reforma agrária e foi um espanto porque o JB era muito metropolitano. O que mudou na reforma agrária? Nada. Está igualzinho, não mudou nada. O título de uma matéria de 1959: “Reforma Agrária: Todo mundo fala e ninguém faz nada”. Parece que essa frase foi escrita hoje. O interesse por esses temas tem a ver com minha família, meu pai foi um entusiasta do corporativismo. Ele foi diretor do serviço de corporativismo do Ministério da Agricultura. Quando foi inaugurada uma cooperativa em Cabrobó, fui enviada pelo Jornal do Brasil para entrevistá-lo. Foi uma emoção muito grande.

Você foi uma das primeiras mulheres a ocupar o cargo de chefe de reportagem. Fale um pouco sobre sua carreira de jornalista.

AAC  – Sim, trabalhei no Diário Carioca . E tem o Sol que foi uma aventura de adolescente, embora eu estivesse ficando velhinha. O Reinaldo Jardim era a cabeça do Sol, nós queríamos fazer um jornal novo para quebrar todos os padrões. Meu papel era fechar o jornal, amarrar aquela loucura. Tenho muito orgulho da minha trajetória de jornalista.

Como é a relação da internet com seu trabalho?

AAC  – Ainda lido mal com essas inovações. Mas utilizo a internet para pesquisa, isso é fantástico. Infelizmente ainda há muita irresponsabilidade na web, por enquanto é somente um grande meio de comunicação.

Como avalia a questão da não obrigatoriedade do diploma de jornalismo?

AAC  – Eu defendi sempre a obrigatoriedade do diploma. Mas, talvez, seja um pensamento antiquado. Porque agora só vai fazer o curso jornalismo quem realmente quer se dedicar ao jornalismo. Acredito que as empresas não têm interesse de contratar um leigo. Mas tenho medo do pensamento de que qualquer um pode ser jornalista, isso é a era da internet. Jornalismo não é enviar mensagens pelo celular, isso é fonte. Jornalismo é apurar a notícia e escrever.

No documentário A Paixão Segundo Callado, de Jofilly, você é um personagem-chave. Como foi essa relação de 20 anos com Antonio Callado?

ACC  – Sou uma mulher de sorte.

(Silêncio. Ana Arruda se emociona ao falar de Antonio Callado )

ACC  – Quando eu li Quarup  fiquei empolgadíssima, impressionada. Eu trabalhava na Livraria Carlitos, no Leblon. O Antonio frequentava essa livraria quando começou a jogar charme para mim. Fiquei pensando: “Ana, que horror! Parece aluna querendo namorar professor” (risos). Foi um encontro de vida, tivemos um relacionamento adorável. Nós casamos no civil, escondido. Mas o Zuenir (Ventura) descobriu e noticiou: “Casamento escondido”. (risos) Antonio me ensinou muito, ele era um “intelectual-operário”. Quando eu ficava chateada com uma pessoa porque ele fazia alguma coisa errada, ele dizia: “Não se chateie, não é maldade. É burrice.” Uma sabedoria. Eu me lembro dele todos os dias, mas não fiquei uma viúva triste. Ele aprovaria minha alegria de viver.

BETH E CLARICE

Beth Goulart vive no palco a escritora ucraniana Clarice Lispector 

Por Ramon Nunes Mello [PortalCultura.rj – 2009 ]

   

 

Ao entrar no teatro para assistir à atriz Beth Goulart em Simplesmente eu, Clarice Lispector , é impossível ficar indiferente. As semelhanças entre atriz e escritora trazem, ao mesmo tempo, encantamento e estranheza. O impacto é imediato e forte. Beth busca o entendimento do amor da personagem através de uma interpretação pessoal e técnica: a tradução cênica de Clarice Lispector. Um trabalho artesanal onde a atriz utiliza a composição gestual para dar vida aos personagens da escritora e à própria escritora. O jeito de andar e a maneira como mexe os dedos enquanto fuma um cigarro são reproduzidos com precisão, assim como o famoso ‘sotaque’ de erres firmes de Clarice – que na verdade se tratava de uma língua presa.

Elogiada pela polêmica crítica de teatro Bárbara Heliodora, Beth Goulart mergulha no misterioso universo da escritora para trazer à ribalta uma narrativa intimista e fragmentada por fluxos de consciência. Um mergulho iniciado anos antes, quando adaptou cartas trocadas entre Clarice e Fernando Sabino. Na trajetória artística de Beth, literatura e teatro sempre caminharam juntos. Essa aliança, ao que tudo indica, pode render bons espetáculos. Resta-nos acompanhar o “bater desse coração no mundo” – aspas de Clarice.

Em entrevista ao Cultura.rj , Beth Goulart fala da experiência de amor ao viver a escritora Clarice Lispector.

Como surgiu o interesse por Clarice Lispector?

Beth Goulart  – Li a Clarice pela primeira vez na minha adolescência: Perto do coração selvagem . Ou seja, li Clarice nesta fase difícil, quando tentamos descobrir o nosso olhar no mundo, quem somos nós no mundo. Um período difícil, mas a Clarice foi minha companheira. A partir disso, ela passou a me acompanhar em vários outros momentos. E descobri outros livros, a relação foi se intensificando. É como ter uma relação com alguém que conhece um pouco da sua alma. A Clarice está nesse lugar de intimidade.

Você chegou a conhecê-la?

BG  – Pessoalmente não. Não. Mas eu lia muita coisa sobre ela. Gosto muito de livros sobre o processo de criação. Gosto de saber como o personagem vivia, o que gosta, o que não gosta. É uma forma de chegar um pouco mais perto da alma do personagem que será criado, tendo outras referências. Busco essas referências na construção do personagem. É claro que existem vários outros processos. Por exemplo, quando eu fiz o espetáculo Amor consciente , que era baseado em dois textos de dois autores ingleses – Bliss, de Katherine Mansfield, e O homem que morreu, de D. H. Lawrence. A Clarice quando leu a Katherine Mansfield disse: “Mas essa sou eu”. Justamente o conto que encenei. Ou seja, em Amor consciente Clarice esteve presente.

O teatro e a literatura sempre juntos, não é?

BG  – Verdade. Outro trabalho, que fiz com Stela Miranda, foi inspirado na obra da Virginia Wolf. A literatura é muito presente. Gosto muito de literatura. E livros de imagem, livros de arte, fotografias. A nossa criação chega a esse lugar do abstrato, que às vezes na arte é registrado. Às vezes, uma foto ou um poema nos faz chegar perto de um estado da alma para construir um personagem.

Quando você está no palco, vemos a Clarice. Mas, ao mesmo tempo, é a Clarice da Beth. Como lidar com essa dicotomia?

BG  – Nesse espetáculo sou totalmente Beth, a começar pelo nome da peça: Simplesmente eu, Clarice Lispector . É uma ponte entre a Beth e a Clarice. Tento ser pessoal na minha interpretação como ela foi pessoal nos textos que escreveu. A minha arte é palco, o corpo, a voz, o espaço cênico, o jogo teatral que se estabelece. O local onde posso brincar e me colocar de maneira bastante forte. Inclusive, o Amir (Haddad), quando estava fazendo a supervisão, falou: “Você nunca reparou que esse depoimento da Clarice é seu? Você está aí.” Estou vendo o meu processo criativo de busca de personagem. Como vivo ela sendo eu?

É possível medir essa troca? 

BG  – Medir não, mas é possível sentir. Eu sou mãe, a maternidade também tem importância na minha vida. Eu não me contentei em ficar só como atriz, quis me expressar de uma forma mais criativa, autoral. Eu tinha que assumir esse impulso criativo que era tão forte quanto a Joana (personagem de Perto do coração selvagem ). Entendeu? É como a Clarice, que se sentia morta quando não estava criando.

Como foi a gestação desse espetáculo?

BG  – Foi uma longa gestação para existir. Lembrei de uma frase de Clarice: “Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa.” Eu ia fazer a Clarice em outro projeto, na verdade um encontro de Clarice com Fernando Sabino. Seria em cima da correspondência dos dois, que está no livro Cartas perto do coração. Cheguei a adaptar e nomeei Cartas perto do coração selvagem , fiz logo uma ponte com o livro da Clarice. Mas os herdeiros do Sabino não quiseram.

É difícil essa relação com os herdeiros da obra?

BG  – Sim, muito. Mas temos que aceitar, obviamente. Naquele momento, que eu estava mergulhada no processo, não dava mais para não fazer a peça. Claro que tive que recomeçar tudo novamente.

Acabou sendo uma preparação para esse espetáculo?

BG  – Na verdade, eu queria dividir o palco com outro ator, fazer o jogo de cena. Mas fui levada para o monólogo, não dava para não fazer. Se eu não realizasse eu ia pirar.

Esse é o seu terceiro monólogo. Como é estar sozinha no palco?

BG  – O primeiro foi Pierrot , o texto era de poesias, uma pesquisa de linguagem. Foi a primeira viagem sozinha.

Na verdade não é sozinha, a equipe é enorme…

BG  – Exatamente. São quase 20 pessoas para eu subir sozinha no palco. Depois dessa fase do Pierrot  fiz Doroteia minha – a primeira dramaturgia que realmente assinei. Doroteia foi escrito a partir de cartas de amor do Nelson Rodrigues para minha avó, Eleonor Bruno. É uma história muito pessoal. Minha avó nunca respondeu às cartas do Nelson, então eu dei voz a esses escritos. Eram cartas lindas, de uma poesia incrível para ficar sem respostas. Respondi como se fosse uma mulher de hoje em busca desse grande amor na vida. Ela só leva porrada da vida, mas escreve cartas para cultivar esperança.

Foi uma longa trajetória até chegar a Clarice.

BG  – É uma relação de amadurecimento. Tudo que somos hoje é um somatório do que passamos na vida. Essa bagagem é experiência.

Que pessoas passaram por sua vida e transformaram o seu modo de lidar com a arte?

BG  – Por exemplo, eu era adolescente, e tive um encontro fortíssimo com Juliana Carneiro da Cunha. Ela estava chegando da França e iniciou um workshop com um grupo de pessoas. Eu fiz esse curso e até hoje utilizo exercícios que aprendi com ela. Depois fui trabalhar com o Gerald Thomas, outra referência de corpo, voz e conceito cênico.

Você chegou a gravar discos, não é?

BG  – Aos três anos de idade eu já queria ser atriz, brincava de fazer teatro. Distribuía personagens para meus amiguinhos. Devo a minha estreia, ainda criança, ao Abujamra (diretor de teatro), ele me fez gostar do palco. Trabalhei com música logo que cheguei ao Rio e fazia novelas. Sou muito inquieta artisticamente. Casei com Nando Carneiro, um excelente músico, e desenvolvemos um trabalho juntos. Fui ser cantora, apesar de todo preconceito. Valeu a experiência. Falei: “Não sou mais cantora!” Mas não parei de cantar em espetáculos.

O artista não precisa estar vinculado a apenas uma linguagem.

BG  – É, não preciso do rótulo. Tudo está junto. Por exemplo, o Arnaldo Antunes conseguiu conceber muito bem o trabalho dele, a poesia dele está na performance, no disco, no livro. O teatro é o templo de todas as artes, podemos nos expressar da forma como desejarmos. Aprendi que o desequilíbrio é que dá o primeiro passo, se você não corre o risco, não caminha.

Quando você pensa em Clarice, que frase você lembra?

BG  – Agora me lembro de: A maior salvação do homem é o amor. Ninguém estará perdido se der amor e, às vezes, receber amor em troca . Tudo isso tem ligação com os valores que permeiam a minha vida. Por isso, o espetáculo tem tanto de mim, porque falo de valores que são caros para mim. Falo da fé, sem ela eu não subiria no palco. O teatro é uma arte de resistência, se você não tiver fé, amor, paixão e teimosia, você não consegue realizar. Acho que Clarice era assim também, lidava com a dificuldade de ser escritora no Brasil. Além da dicotomia de ser mulher, mãe, dona de casa e escritora. Para resumir, diria: “O amor ainda salva tudo.”

ACC  – Quando eu li Quarup  fiquei empolgadíssima, impressionada. Eu trabalhava na Livraria Carlitos, no Leblon. O Antonio frequentava essa livraria quando começou a jogar charme para mim. Fiquei pensando: “Ana, que horror! Parece aluna querendo namorar professor” (risos). Foi um encontro de vida, tivemos um relacionamento adorável. Nós casamos no civil, escondido. Mas o Zuenir (Ventura) descobriu e noticiou: “Casamento escondido”. (risos) Antonio me ensinou muito, ele era um “intelectual-operário”. Quando eu ficava chateada com uma pessoa porque ele fazia alguma coisa errada, ele dizia: “Não se chateie, não é maldade. É burrice.” Uma sabedoria. Eu me lembro dele todos os dias, mas não fiquei uma viúva triste. Ele aprovaria minha alegria de viver.

BOTIKA

LOUCURA E LIBERDADE CRIATIVA 

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2007 ]

   

 

O encontro com Botika finalmente aconteceu no (extinto) Café Severino, da Livraria Argumento, em Copacabana, depois de um atraso por conta de uma ressaca do artista que comemorava a gravação do primeiro CD da sua banda na noite anterior.

O nome dele é Bernardo Botkay, mas é mais conhecido por seu apelido de infância: Botika. Poeta, escritor e músico – vocalista da banda de rock Os Outros –, já cursou Letras e Filosofia na PUC-RJ, mas abandonou pela preguiça que o persegue. Como só faz o que tem muita vontade, resolveu se dedicar somente à música e à literatura, que no momento têm sido onde mais se reconhece.

“Sempre cantei; o meu pai é músico, então é herança de família. Mas não consigo me considerar mais uma coisa que a outra, não. Ultimamente tem sido mais confortável escrever, eu me reconheço mais na escrita. A música trabalha mais o coletivo, essa necessidade de coletivo, do palco”.

Performático no palco, Botika tem uma atitude que lembra muito o Cazuza. Não é tímido, mas tem inibição para se expressar em entrevistas. Há mais de dois meses estávamos planejando esta conversa, mas várias situações atrasaram o encontro; inclusive, seu romance, Autobiografia de Lucas Frizzo  (Editora Azougue), me foi furtado num ônibus da Zona Sul do Rio.

O que ele pensa da produção contemporânea?

“Espero que a minha mãe esteja certa: essa galera nova que está batalhando vai ocupar o lugar desses grandes que já estão indo… Preencher as lacunas desse processo. Acho que tem muita gente boa por aí. E também muita gente preguiçosa, como eu. Mas não sei se dá para olhar para o próprio umbigo agora, talvez daqui a uns anos”, completa:

“Tento escrever todos os dias. São várias as ideias de livros e preciso trabalhar cada uma. Alguns já têm títulos, estão mais adiantados. O Búfalo  já está pronto e, no momento, me dedico ao Calendário – livro que terá 365 páginas, representando cada dia do ano. Diariamente, entro no Google e faço uma pesquisa superficial sobre fatos importantes daquela data, que guardo para uma desconstrução. Tenho escrito bastante por causa da proposta do livro, mas a televisão sempre me atrapalha; fico preso a ela, mudando de canal.”

Uma conversa com autor (e amigo) que vai preencher as lacunas daqueles que nos fazem sorrir com as artes e a loucura.

Em 2003, você lançou Uma Autobiografia de Lucas Frizzo (Editora Azougue). Como surgiu esse livro?

Botika  – Foi em 2003? Nem lembro, faz tempo… Comecei a escrever sem saber que estava escrevendo um livro, sem me considerar escritor. Isso partiu de uma necessidade muito grande de vomitar as ideias. Em relação à forma, eu estava impregnado de José Agrippino de Paula, autor de PanAmérica , que tem uma linguagem própria de ritmo, sem capítulo e sem muita pontuação. Tive a sorte de conhecer o editor da Azougue, Sérgio Cohn, que topou publicar essa maluquice. Acho que ninguém além dele toparia. O livro é bem pesado…

Esse livro fala de violência, aborto, incesto, pedofilia… Por que tanta agressividade? Você quer chocar?

B  – Não, não quero chocar ninguém. Mas há pessoas, amigos e parentes, que vêm perguntar: “Por que você escreveu esse livro?” Estou experimentando, escrevendo, só isso. As pessoas não conseguem separar o escritor do personagem. Quero usar o potencial do bizarro, do que é real e do que as pessoas têm pudor de falar.

É, você mistura nomes de pessoas famosas nas histórias, como: Malu Mader, Guilherme Zarvos, ACM…

B  – Sim, mas tive que assinar um termo de responsabilidade sobre o livro. Até agora não tive problemas, ninguém me processou.

Você sabe que perdi seu livro num ônibus e só encontrei outro na Livraria Da Conde, na seção de biografias…

B  – Isso é muito bom (Risos)… É um romance.

E tem muito de você nesse livro?

B  – Sim, muita situação maluca em que me joguei mesmo. À medida que me lembrava delas, as colocava no Lucas Frizzo .

Além de escrever, você fala poesia e é vocalista da banda de Rock Os Outros. Em que área você atua melhor: música ou literatura? Sente muita diferença de uma para outra?

B  – Sempre cantei; o meu pai é músico, então é herança de família. Mas não consigo me considerar mais uma coisa que a outra, não. Ultimamente tem sido mais confortável escrever, eu me reconheço mais na escrita. A música trabalha mais o coletivo, essa necessidade de coletivo, do palco.

Você também é ator?

B  – Fiz a peça A Mulher que matou os peixes , da Clarice, durante um ano, junto com a Zezé Polessa. Mas não sou ator, isso foi no início…

Sabia que no palco você tem algo que lembra muito o Cazuza?

B  – (Risos.) É engraçado, as pessoas andam me falando isso …

Como é circular entre a música e literatura?

B  – Tenho muita dificuldade de escrever letras para música, mas acabo me dando bem com uma banda, isto é, parceiros musicais. É mais natural surgirem melodias e cantos na minha cabeça, e a palavra para a composição peço muito para o outro; para o Vitor Paiva, por exemplo.

O que você ouve?

B  – Não escuto muita música, gosto do silêncio. Já há tanto barulho o tempo inteiro, que quando chego a minha casa prefiro não ter som… Gosto de muita coisa – Radiohead, Macalé, Barnabé, que é incrível – , mas não baixo, não compro disco…

Como acontece o seu processo criativo?

B  – Tento escrever todos os dias. São várias as ideias de livros e preciso trabalhar cada uma. Alguns já têm títulos, estão mais adiantados. O Búfalo  já está pronto e, no momento, me dedico ao O Calendário – livro que terá 365 páginas, representando cada dia do ano. Diariamente, entro no Google e faço uma pesquisa superficial sobre fatos importantes daquela data, que guardo para uma desconstrução. Tenho escrito bastante por causa da proposta do livro, mas a televisão sempre me atrapalha; fico preso a ela, mudando de canal.

E de onde vem seu interesse pelos livros, pela literatura?

B  – Da criação; o interesse se intensificou a partir do momento em que escrevi o primeiro livro. Mas também de sempre estar rodeado de livros e de todo mundo lendo. Minha avó, Dona Ivone Botikay, é escritora e tem livros bem simpáticos. Meu pai, Caíque Botikay, tem dois livros publicados e é músico, compõe para teatro. Também há escritores na família da minha mãe, mas não os conheço.

Você não participou um tempo do CEP 20.000?

B  – Bem lembrado, tenho uns 10 anos de CEP. Logo que entrei, fui ajudar a produzir com uma galera. Ali praticamos as palavras e a vontade de estar no palco, improvisando.

Por que você escreve?

B  – Para conversar; não escrevo para mim. Desabafo para chegar ao outro; é comunicação. Além disso, pela vontade de chegar a lugares diferentes, experimentar, propor ideias… Não tenho feito nada a partir de leituras. Talvez porque eu não tenha lido nada que me surpreenda, ao menos no momento.

O que você está lendo?

B  – Guia das Galáxias  – um guia de mochileiros com um quê de Cortázar – e As Palavras, do Sartre, que é excelente…

E o que você leu? Quais são as suas referências?

B  – Cortázar – bastante e na veia –, Borges, Zarvos… Sou péssimo para lembrar nomes. Ah, o Vitor Paiva é uma influência grande. Ele está lançando um livro agora, Boca Aberta  (Editora Confraria do Vento); uma prosa maluca, muito boa.

O que você pensa dessa turma que está aí batalhando, produzindo arte?

B  – Espero que a minha mãe esteja certa: essa galera nova que está batalhando vai ocupar o lugar desses grandes que já estão indo… Preencher as lacunas desse processo. Acho que tem muita gente boa por aí. E também muita gente preguiçosa, como eu. Mas não sei se dá para olhar para o próprio umbigo agora, talvez daqui a uns anos.

O que você falaria para a galera da nossa idade que deseja entrar nesse universo de letras?

B  – Para ler o meu livro? (Risos.) Brincadeira… Acho que a pessoa tem que ler muito, viajar, acho que é isso.

BOTIKA

AUTOR

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 

Seu nome de batismo é Bernardo Rinaldi Botkay, mas ele é conhecido por Botika, apelido de infância que se tornou nome artístico. Escritor e músico — vocalista da banda de rock Os Outros —, Botika tem imaginação fértil, terrível, seus personagens não perdoam nada, nem ninguém.

É possível vivenciar suas histórias no livroBúfalo , recém-publicado pela editora Língua Geral. Suas palavras duras e, por vezes, engraçadas, são cobertas de violência, pornografia e escatologia. Assim como o livro de estreia, Uma autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue, 2004), o autor se apropria de personagens alegóricos para criticar o social, sem pudor.

Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Botika contou como passeia pela música e a literatura, além de falar sobre o próximo livro, Calendário.

Seu nome é Bernardo Botikay…

Botika – Minha mãe e meu pai me chamaram de Bernardo Rinaldi Botikay. É o nome que os pais deram. Eu acho bonito o nome, mas eu não me identifico muito com Bernardo mais não. Todo mundo me chama de Botika há muito tempo.

E Bernardo?

B – Só minha mãe me chama assim. E minha família lá de São Paulo.

Você os atende?

B – (risos ) Atendo. Sacanagem, eles me viram nascer assim… Mas a minha carteira de motorista, ó, vou mostrar… Já pesquisei para mudar o nome no cartório, na certidão de nascimento. Tipo a Xuxa, mas ela é Xuxa Meneghel. E você não pode ter um nome só, eu queria que fosse só Botika. Eu renovei minha carteira de motorista, está oficialmente: Bernardo Rinaldi Botikay. Mas eu assinei Botika… (risos) Eu estou assinando como acho que tem que ser. Foi um amigo, Miguel Gandelman, filho do saxofonista Leo Gandelman, que me batizou. A história do nome é essa.

Além da literatura, você flerta com o teatro e com a música…

B – A música sempre rolou muito, principalmente de teatro, por causa do meu pai (Caique Botkay), que é músico de teatro. Ele também dirige de vez em quando, mas é especificamente músico. Nasci e cresci dentro de teatro, vendo ensaio ou meu pai compondo… Sempre vendo meu pai trabalhar. Aos 12 anos, acabei fazendo, como ator, uma peça com a Zezé Polessa, minha madrinha, Lúcia Coelho tinha feito a direção do infantil. Eu fiz um ano de experiência no palco de teatro, o suficiente para eu não me sentir ator. E logo comecei a compor música, na peça eu já tocava algumas coisas. Depois veio o negócio de banda, conheci o Vitor Paiva, conheci uma galera que fez uma banda chamada Aneurisma, que virou Neura. Depois acabou essa banda e fizemos Os Outros.

Recentemente vocês lançaram um CD…

B – Pacote felicidade . Os Outros: eu, Vitor Paiva, Eduardo Sodré, Papel e Fabiano Ribeiro.

Basicamente as letras são suas e do Vitor Paiva.

B – As bases das composições são nossas, letra e melodia. Só que a banda toda trabalha as músicas, com a liberdade de mudar, fazer tudo.

Você diferencia a letra de música da literatura?

B – Diferencio totalmente, são duas coisas extremamente diferentes para mim. O Vitor, por exemplo, fala que para ele tem uma aproximação. Eu vivo de duas formas, respiro de um jeito quando estou no meu quarto, escrevendo sozinho, e respiro de outro, quando estou compondo uma letra junto com uma melodia na minha cabeça. Ou a letra chama a melodia ou a melodia chama a letra. Mas quando paro para escrever livro, conto ou alguma coisa parecida com prosa, é outra sensação, outro sentimento, outra forma de lidar com a palavra.

Você escreve poemas?

B – Não. Não consigo escrever, tenho dificuldade de ler poesia. Acho difícil pra caralho! Sei que é lindo, genial. É um limite meu, com certeza. Terminei de ler o livro do Ericson Pires  (Pele tecido) e fiquei emocionado, meu peito ficou estufado. Comecei a ler o do Pedro Rocha (Chão inquieto), também estou muito emocionado dentro do livro. Mas eu não sei, talvez porque sou amigo, eu “saco” eles, a gente se identifica… Poesia é muito bom, mas não entendo de poesia. Poesia é muito difícil.

Seu primeiro livro, Uma autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue, 2004), é polêmico, utiliza nomes de personalidades em situações nada amistosas… Você foi processado por alguém?

B – (risos ) Não me processaram, ainda bem, senão ia dar merda. Mas o Sérgio Cohn, editor da Azougue, me fez assinar um contrato que me responsabilizasse por possíveis danos. Cheguei a dar o livro para a Malu Mader, pessoalmente. Mas não sei se ela leu, ou se leu e jogou fora… Ou entendeu que é uma coisa louca, mas ela não me processou. E ela é a que mais sofre na mão do personagem. Mas comecei a escrever esse livro sem saber que queria ser escritor, sem me sentir escritor. Comecei numa necessidade de ter que botar para fora, de forma textual, um monte de coisa que estava sentindo… Eu estava vindo de uma relação que tinha acabado; uma merda… E quando vi foi virando um texto mesmo. E o Guilherme Zarvos (poeta), que sempre me acompanhou e me indicou várias direções, me disse: “Você está escrevendo uma parada, vai, considere isso um texto.” Então, levei mais a sério, virou um livro. Eu entreguei o livro para o Sérgio Cohn num avião, com um monte de poeta maluco indo participar de uma Bienal do Livro no Ceará… O Sérgio estava no meio da galera, leu o livro e topou publicar. Depois eu demorei um pouco mais para conseguir publicar o Búfalo(Língua Geral, 2010)… (risos)

A Língua Geral demorou a editar o seu livro…

B – Não só a editora, não. Para eu conseguir uma editora demorou. Escrevi a primeira versão e sai procurando editora, corri atrás… Não rolava. Até que o Rodrigo Bittencourt, que havia lançado pela Língua Geral, sugeriu para o (editor, na época) Eduardo Coelho, que é um cara da pesada. Ele topou, depois de um bom tempo. Além disso, o livro ficou parado um tempo por conta da crise…

O que é o Búfalo?

B – Búfalo  já um livro pensado, eu sabia que estava escrevendo um livro desde o início. Eu trabalhei muito o texto depois de achar que tinha terminado. Até por sugestões de pessoas como a Bia (Beatriz) Bracher, que foi a primeira a ler o livro. Ela me conhece desde criança, enviei o livro para ela, o livro impresso, xerocado, pensando que ela pudesse sugerir para a (editora) 34. E ela me devolveu anotado, página por página, lindamente anotado. Eu nunca tinha visto isso, fiquei até assim: “O que é isso? Como é que faz isso com meu livro?” No final das contas, me ajudou muito, cortei uns capítulos. Um processo completamente diferente do primeiro livro, onde não cortei nada. Lucas Frizzo é um livro sem parágrafo, sem capítulo, inspirado no Agripino (de Paula), no PanAmérica. Mas Búfalo, não. Este livro tem capítulos e parágrafos, é mais formal nesse sentido. Ele também vem do término de uma relação que estava pegando…

A falta de amor inspira?

B – O poço. O “poção” dá onda. Escrever quando há tensão sempre me dá leveza. Isso também acontece na música, quando estou muito fodido, consigo escrever letras alegres.

E o novo livro, Calendário?

B – Voltei a escrever depois que Búfalo  finalmente saiu. Calendário é uma tentativa de sair desse tipo de prosa corrida, “linear”. Calendário é uma pesquisa que faço no tempo, escrevendo todos os dias do ano, o livro vai ter 365 páginas. Vou lá e dou um Google no dia, que me traz uma informação incerta porque é Internet, e detono isso. Mudo a informação que me interessa. É mudar a história a partir de informações incertas da Internet para ser uma espécie de livro de consulta, que a pessoa pode abrir em qualquer página e ter uma sacanagem ali.

A arte é a única saída?

B – Não tem outro jeito, depois que entrei nessa parada, que senti que tinha que me expressar, não tem mais saída. É uma coisa mesmo de sobrevivência. Se não fizesse essas coisas acho que não seria feliz. Seria infeliz, triste. É da nossa espécie, a gente gosta de se comunicar muito. Isso tem a ver com a necessidade de criação, de produção. Por que faço isso? Não é essa a pergunta? (risos ) Por quê? Acho que eu consegui responder… (risos) Deve ter muito mais coisa… (risos)

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