FRANCISCO BOSCO

 ENSAIOS EM VERSO E PROSA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

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Francisco Bosco é ensaísta, compositor e poeta. Entretanto, ele se considera “primordialmente ensaísta”. Seu pensamento passeia no universo da música e poesia — as primeiras publicações (hoje renegadas) foram livros de poemas. Não é raro encontrar artigos do autor com o crédito de crítico e poeta; confusão que o agrada.

Banalogias, seu livro de ensaios, exibe uma relação afetiva e criteriosa com as palavras, que foge da frieza dos textos acadêmicos. O mérito de Francisco é oferecer ao leitor a possibilidade de pensar assuntos do cotidiano, aparentemente banais, de forma crítica e sensível. Habilidade de cronista, eu diria.

Francisco costuma dizer que “escrever é uma forma de manter um pacto com a admiração, isto é, com a erotização do mundo”. Essa relação, explícita nos textos, também está presente em sua palavra oral. Cada palavra é cuidadosamente escolhida para melhor revelar o pensamento, rigor de poeta e professor. Resultado? Uma conversa que desperta a percepção.

Como surgiu o Banalogias (Editora Objetiva, 2008)?

Francisco Bosco – Esse livro é o resultado de um percurso longo que remonta ao meu livro de poesia Da amizade (Editora 7Letras, 2003) e à minha dissertação de mestrado em teoria literária (defendida na UFRJ, também em 2003). É uma espécie de síntese das diversas vertentes da minha escrita e das questões que eu me colocava nessa época. Tanto no livro de poesia como na dissertação de mestrado há a presença forte de (Roland) Barthes.

Fabrício Carpinejar disse que você “mudou a pauta do ensaio”, que “costuma sofrer uma linguagem acadêmica, casmurra, com equações que espantam os iniciados”. Há influência de críticos como Ezra Pound, Roland Barthes, Walter Benjamin, por exemplo?

FB – Sim. Na escrita do Barthes há uma reivindicação central, que é a assunção do corpo pelo discurso crítico-teórico. Ele diz que foi formado por dois sistemas opressores, o marxista-historicista e o cientificista. Ou seja, o estudo literário dava pouco espaço para um tipo de escrita que trouxesse a marca da subjetividade. O que Barthes faz é trazer a possibilidade de um pensamento pessoal e inventivo para o campo da crítica literária. A partir dele, as fronteiras da crítica e da literatura se borraram muito. Ele tem um texto lapidar sobre esse assunto: “Da obra ao texto”.

Roland Barthes foi fundamental na sua formação?

FB – É verdade. Barthes desenvolveu uma espécie muito particular de semiologia. Ele radicalizou a negatividade fundamental da semiologia — o fato de ela não ter propriamente um objeto, pois é um conhecimento do signo, e qualquer coisa é potencialmente um signo —, levando seu olhar a fenômenos tradicionalmente ignorados pela tradição teórica. Banalogias procura levar adiante essa espécie de paixão pelo sentido, essa prática incessante de procurar dar espessura a tudo que há no mundo, até e sobretudo às coisas mais banais, aparentemente foscas, intratáveis.

Praticamente o olhar de um poeta.

FB – O que você acabou de dizer me agrada muito. Sabe por quê? Existe um frequente mal-entendido a meu respeito que eu gosto de alimentar. Quase sempre que publico um texto em jornal ou revista o crédito é de poeta e ensaísta. Entretanto eu não escrevo poesia desde 2003. Mas adoro ser chamado de poeta porque meu ensaísmo tem uma relação muito forte com a poesia, a começar por ele estabelecer uma relação mais “imediata” com a vida. Em geral, costuma-se pensar que a literatura é um discurso “direto” sobre a vida; a crítica, uma metalinguagem; e a teoria, uma metametalinguagem. Então o que eu quis fazer foi uma espécie paradoxal de teoria concreta.

Um trabalho entre a poesia e o ensaio…

FB – O compromisso desse livro é com o prazer, a ludicidade, a inventividade e o sentido. Não há compromisso com o saber, a verdade ou a demonstração. Existe uma forma de viver poética que considero existencialmente muito salutar. Quando um poeta tem um vislumbre, uma protoideia, uma abertura para escrever um poema, ele não lê uma série de livros com a finalidade de escrever esse poema. É a totalidade do lido e do vivido que será mobilizada a cada verso. Já o filósofo, o teórico, lê uma série de livros ad hoc, ou seja, há neste caso uma distância grande entre a ideia e a ação. O estudo é aquilo que permitirá que a ideia seja realizada nas suas melhores condições, mas é também aquilo que adia, indefinidamente, a realização. Essa tensão, para mim, é dolorosa. (Giorgio) Agamben resumiu-a bem quando disse que “Nada se compara à tristeza do letrado”. Em minha forma de viver ensaística, eu tenho procurado encurtar essa distância entre a ideia e a ação.

Qual o tema da sua dissertação de mestrado?

FB – É sobre literatura moderna. Basicamente, tento identificar e conceitualizar quais foram os procedimentos da literatura moderna que começaram a mudar drasticamente a relação do leitor com o texto, tornando a produção de sentido mais lenta.

Como a filosofia interage na sua produção?

FB – Acredito, de uma maneira geral, que meu trabalho é dotado de um espírito filosófico, o que é diferente de uma escrita filosófica. Embora Banalogias esteja numa coleção intitulada “filosófica”, ele não é propriamente um livro de filosofia. Não há um diálogo direto com a tradição filosófica, com seu campo conceitual. O que há é o espírito filosófico, que pode ser entendido como na bela definição citada por Arthur Danto: “O filósofo é aquele que mostra que as coisas que parecem iguais são, no fundo, diferentes; e as coisas que parecem diferentes são iguais.”

Sempre que falo do seu livro, eu não penso em ensaio, é inevitável. Penso crônica. Como é essa relação?

FB – O Carpinejar falou disso em termos adequados: segundo ele, há um aproveitamento da crônica para o ensaio. Gosto dessa colocação porque esse livro tem pontos de contatos e pontos de desencontros com a crônica — esses últimos são mais decisivos do que os primeiros. Quais são os pontos de contato: a relação “direta” com a vida, o humor, a leveza, o olhar poético… Mas a crônica é uma tentativa de se irmanar com o tempo, daí seu próprio nome e o fato de ela estar ligada a suportes efêmeros como o jornal. Esse compromisso com o tempo é também o seu maior risco: o de não sobreviver a ele. É diferente da relação conceitual, que procura fixar as multiplicidades. Banalogias se relaciona com o conceito. E o conceito quer durar.

Você escreve o ensaio “O indireto afetivo na linguagem do carioca”, que retrata exatamente o “jeitinho” carioca de se relacionar. Fale um pouco sobre esse texto.

FB – De todos os textos do livro, eu diria que esse é o mais próximo da crônica. Esse texto surgiu antes do livro. O livro é um grande desdobramento do texto “Indireto afetivo”, que surgiu num momento de impasse da minha escrita. Eu já tinha escrito o livro Da amizade e em seguida defendido minha dissertação de mestrado. Eu percebia que minha escrita de poesia se esgotava, dava lugar a uma escrita teórica, em que, entretanto, eu não conseguira ainda obter um resultado inventivo. Esse texto foi uma tentativa de sair desse impasse, por meio de uma espécie de síntese entre a poesia — que se esgotava, enquanto tal — e a teoria.

Você é autor de dois livros de poesia: Florestado (editora 7 letras, 1996) e Da Amizade (editora 7 letras, 2003). Não há interesse de voltar a escrever poesia?

FB – Não é uma questão de interesse. Acho que não vai mais acontecer. Não está mais no horizonte, só isso. Hoje não tenho mais ideias-poemas, só ideias-ensaios.

Por que você renega os livros que publicou dos 18 aos 22 anos? Há até um ensaio sobre o tema no Banalogias

FB – Sou recordista mundial de livros renegados, tenho três (risos). O Da amizade não é renegado. O que faz com que um livro seja renegado? É o livro ser publicado num estado ingênuo de linguagem.

Você também analisa as dedicatórias. Qual foi a sua pior dedicatória?

FB – A gente nunca sabe (risos). O que falo nesse ensaio é que existem dois sistemas que se chocam quando o escritor vai autografar o livro: o sistema literário e o sistema afetivo. E eles nem sempre coincidem. Por exemplo, têm muitos amigos que nem vão ler o livro, só foram ao lançamento porque gostam de você. O que está em jogo é uma crise social da linguagem. A linguagem do livro não se comunica com a linguagem dos amigos que não o lerão. As dedicatórias tentam lançar uma ponte impossível entre esses dois mundos — e com isso acabam revelando o mal-estar dessa incomunicabilidade.

No ensaio sobre futebol, “Os nomes e a bola”, você examina a afetividade brasileira de apelidar os jogadores. Há pessoas que consideram o futebol alienante. Concorda?

FB – Nos últimos anos, mudou muito a relação do futebol com o pensamento intelectual. É cada vez mais frequente a produção de textos críticos sobre futebol. Atualmente, quem pensa melhor essa questão é José Miguel Wisnik. O futebol está relacionado às nossas maiores mazelas, aos aspectos mais perversos da nossa formação: a escravidão brasileira e a ociosidade a que os negros foram condenados após a abolição. Wisnik cunhou uma expressão perfeita para o futebol: Veneno remédio (título do livro de ensaio sobre o assunto) (Companhia das Letras, 2008). Existe uma dificuldade de se aceitar o futebol como realização brasileira pela relação com a nossa miséria, assim como ocorre com o carnaval e o samba. Mas temos que saber pensar o Brasil na sua ambiguidade irredutível, pois a chance de afirmarmos um projeto original de civilização está ligada a ela.

Que projeto é esse?

FB – Eu estou do lado dos intérpretes do Brasil que pensam o nosso projeto de civilização a partir da originalidade da formação do país, tentando detectar o que nela há de bom e ruim: Gilberto Freyre, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Caetano Veloso e a Tropicália… Atualmente, Antonio Risério, José Miguel Wisnik, Antonio Cicero, Roberto Mangabeira Unger… Estou me esquecendo de outras pessoas. Mas é a essa configuração que me alinho.

Ensaísta, crítico, compositor, poeta. Como se dá a intersecção desses trabalhos? Qual a diferença no processo de criação da literatura e da música?

FB – Sou primordialmente ensaísta. Hoje em dia quase não faço mais letras, comecei a pensar ensaisticamente a canção e isso foi tomando o lugar das letras. Além disso, meu trabalho como letrista tem uma ambição menor do que como ensaísta: apenas escrever uma boa letra para que ela ajude a formar uma boa canção.

E a questão do fim da canção? O que pensa sobre isso?

FB – Foi Chico Buarque quem trouxe essa questão. A canção popular no Brasil se formou no século XX com determinadas características: melodia muito marcante; letras com forte relação com a coloquialidade; desenvolvimento harmônico a partir da bossa-nova; relação com a alta cultura sobretudo a partir dos anos 1960… A canção que se apresenta hoje não tem essas características, sobretudo o rap. O rap faz tabula rasa da harmonia e da melodia, a letra tem uma crueza sem precedentes na tradição. Sobretudo Os Racionais MCs, que mostram uma cisão com o registro da canção. Eles estão dizendo: “Nós somos contra toda a interpretação do Brasil que postula uma harmonia.” No primeiro momento orap traz a palavra da cisão. Portanto, o que o Chico Buarque diz é que a canção hoje é diferente da canção no século XX. Mas é ainda a canção.

Qual a diferença no processo de criação na música? Você toca algum instrumento? 

FB – Não toco nenhum instrumento. Escrevo a partir de uma melodia que recebo. O que considero importante é que minha formação teve uma relação com as formas fixas da poesia. O meu livro Florestado (que é um renegado) é todo em decassílabos. A experiência com a forma fixa possibilita agir melhor diante das coerções da melodia. Não é à toa que Antonio Cicero é um grande compositor. Considero uma impossibilidade teórica fazer uma letra para ser musicada. Uma letra só é letra se ela estiver atrelada a uma melodia. O que se faz é um texto, que pode se tornar uma letra se receber uma música. É uma tolice achar que um texto é mais musicável do que outro. Se fosse assim a Cecília Meireles seria sempre musicada. E, no entanto, Caetano Veloso pega o poema concreto “Pulsar”, aparentemente imusicável, e faz uma canção belíssima.

Você faz música, escreve ensaio, pensa a canção. É impossível não relacioná-lo a escritores que fazem o mesmo: Eucanaã Ferraz, Antonio Cicero, Wisnik… Como lidar com as comparações?

FB – Hoje em dia está muito mais “borrado”. Perguntam muito: “Cadê os críticos literários jovens?” São escritores, cancionistas… As fronteiras não estão mais definidas.

Você nasceu num meio musical, seu pai (João Bosco) é cantor e compositor. De onde surgiu essa vontade de se dedicar à literatura?

FB – Acho que tem uma razão existencial. A adolescência estigmatiza a diferença, opera com registros ”identitários” grupais: os nerds, as patricinhas, osplayboys… Eu nunca me identifiquei plenamente com nenhum desses grupos (e nem eles comigo). E isso causava uma sensação existencial de desconforto, de atopia. Por acaso, esbarrei na literatura e descobri que por ela, com ela, poderia fundar um lugar próprio. Meus pais tinham uma biblioteca com livros maravilhosos, em algum momento bati ali e fiquei.

Você não tem blog, mas publica na Internet. Como você se relaciona com universo digital?

FB – Sou viciado em e-mailsE-mail é algo extraordinário porque você acessa as pessoas de maneira menos invasiva, elas respondem quando puderem. O blogtambém é interessante do ponto de vista das trocas afetivas e da interlocução entre artistas. Mas eu não tenho tempo mental para fazer blog. É preciso estudar.

Que escritores você destaca?

FB – Em poesia, gostaria de falar do Renato Rezende. Ele tem um livro lindo chamado Noiva, que merece um olhar especial. Há muitos outros: Angélica Freitas, Caio Meira, Claudia Roquette-Pinto, Eucanaã Ferraz, Paulo Henriques Britto… Em prosa leio os mais jovens, mas a geração mais velha, por ser mais velha, já tem uma obra mais desenvolvida, como Bernardo Carvalho, Chico Buarque e Milton Hatoum. Não tenho dúvidas de dizer que Budapeste(Companhia das Letras, 2003), de Chico Buarque, é um livro que fica para a História. E Dois irmãos (Companhia das Letras, 2000) é, pra mim, o maior romance brasileiro dos últimos 20 anos.

Budapeste é melhor do que Leite Derramado (Companhia das Letras, 2000), que você resenhou para o Prosa & Verso, d’O Globo?

FB – Sim. No jornal, fiz uma análise teórica, mais neutra. Aqui posso fazer um julgamento mais panorâmico, da ordem do gosto: esse livro não é tão bom quanto Budapeste. E Chico Buarque — o escritor e o cancionista — tem um único defeito: a perfeição.

Quais suas impressões sobre o filme Palavra Encantada?

FB – Esse filme é a transposição para o audiovisual, com todas as implicações que isso tem, de um pensamento crítico-teórico que vem se disseminando nas últimas décadas. É uma contribuição importantíssima a esse debate.

Um ensaio audiovisual sobre a canção.

FB – Essa definição é perfeita.

Recentemente você fez uma crítica sobre o livro Ensaios Radioativos(Confraria do Vento, 2008), de Márcio-André. E o autor reagiu com um artigo-resposta. Como você lida com essas manifestações?

FB – Faz parte do debate público. É desejável que todos digam o que pensam. Eu fui requisitado pelo jornal O Globo para fazer a resenha, li o livro e não gostei. E li com o cuidado e o rigor que me são habituais. Nunca faço nada com negligência, sempre leio com muita atenção. O problema desse tipo de reação é que ela se situa no campo do imaginário, do narcisismo. (Aliás, o livro dele transborda o imaginário. E eu ter identificado isso o incomodou, como sempre incomoda a revelação de um sintoma para quem o apresenta.) É evidente que não concordo com a resposta dele, ela me atribui posturas territoriais que me são completamente estranhas. Mas eu prefiro não tentar dirimir o mal-entendido, porque: 1) provavelmente ele responderia novamente e ressuscitaria os mal-entendidos e ainda lançaria outros; 2) o assunto — o livro dele — não me interessa; e 3) eu não tenho tesão em chafurdar no imaginário. A polêmica do pensamento é com o próprio pensamento, o que já dá muito trabalho.

Que escritores fazem a sua cabeça?

FB – A lista seria tão longa que prefiro não começá-la. Eu sou sobretudo um leitor. Poderia, talvez, deixar de escrever (se bem que acho que não), mas jamais poderia deixar de ler.

Você costuma dizer que “escrever é uma forma de manter um pacto com a admiração, isto é, com a erotização do mundo”. Então você escreve para erotizar o mundo?

FB – As coisas não têm um valor por si mesmas; é preciso ter força de percepção para lhes atribuir valor, para enxergar nelas a beleza, a grandeza, a profundidade. Escrever é uma forma de oferecer ao outro uma percepção das coisas na qual se possa fundar a admiração. E um mundo admirado, por sua vez, é um mundo erotizado.

O que diria para um jovem escritor?

FB – Rejuvenesça.

FERREIRA GULLAR

 A POESIA QUE NASCE DO ESPANTO

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

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Durante um encontro com a poeta e atriz Elisa Lucinda, na Casa Poema, no Rio de Janeiro, o poeta Ferreira Gullar nos concedeu uma descontraída entrevista, onde falou, entre outras coisas, sobre arte, e a sua arte específica, a poesia, que passou por mudanças notáveis ao longo do anos. “Porque você vai descobrindo outras coisas, indagando outras coisas, e isso se reflete no modo de fazer poesia.”

Uma das vozes mais importantes da arte brasileira, Ferreira Gullar é um exemplo de vigor intelectual — é crítico de arte, poeta, tradutor, biógrafo, memorialista e ensaísta. Aos 79 anos, numa trajetória que atravessa momentos decisivos da formação da nossa cultura, Gullar ainda permite se espantar com o dia a dia. A gênese da obra do poeta está nas surpresas que a vida reserva.

“A minha poesia, costumo dizer, nasce no espanto. Precisa de alguma coisa que me surpreenda — que eu não tenha descoberto ainda na vida, com minha experiência de vida”, confessa Gullar, defensor da prática da simplicidade na escrita do poema.

“Eu só, realmente, não gosto de uma certa tendência, que às vezes se manifesta, de uma poesia hermética, uma poesia incompreensível. Acho que isso não é um caminho certo. Poesia não é ‘vou ao mercado comprar banana’. Não é isso. Não é o óbvio. Mas não deve ser uma coisa que a pessoa lê e não compreende.”

Nascido em São Luís do Maranhão, e radicado no Rio de Janeiro desde 1951, José Ribamar Ferreira é um cidadão atuante, político. Atento à educação e à arte, consciente da força de suas palavras, o poeta não poupa críticas ao governo Lula.

“O Brasil corre um risco grave. O Lula, que é um sindicalista, junto com os companheiros de sindicato, está ocupando setores importantes da sociedade: fundos de pensão, as grandes empresas estatais. Eles pretendem ficar no governo para sempre, fazendo uma política de caráter sindicalista, oportunista e demagógica”, afirma.

Antes do término da entrevista, Elisa Lucinda é convidada a ler alguns versos para Ferreira Gullar. O poema escolhido é “Ao rés do chão”, escrito durante o exílio em Buenos Aires, nos anos 1970.

O motivo do encontro? Entre sorrisos, Elisa justifica: “A Escola (Lucinda de Poesia Viva) sempre teve o Gullar como referência. Ferreira é um poeta afinado com o seu tempo. O poeta é o tradutor dos sentimentos humanos, dá testemunho. Gullar é receitado e recitado.”

No dia 10 de setembro, você completou 79 anos. Está escrevendo um novo livro?

Ferreira Gullar – Vou escrevendo ao longo dos anos. Quer dizer, escrevo um poema hoje, daqui a seis meses escrevo outro, daqui a um mês escrevo outro…

Seu primeiro livro, Um pouco acima do chão (1949) foi publicado aos 23 anos. Desde então, o que mudou no seu processo de criação até hoje?

FG – No meu caso mudou muito, há poetas que são mais constantes. No meu primeiro livro, que eu ainda estava em São Luís (do Maranhão), Um pouco acima do chão, é um livro imaturo que botei fora, tirei do conjunto da minha (obra)… Eu escrevi com 18, 19 anos. O livro que considero a minha estreia chama-se A luta corporal (1954), que escrevi dos 20 aos 23 anos, é um livro que termina com a implosão da linguagem. O livro seguinte já é bastante diferente d’A luta corporal, um desdobramento em outro nível. Depois vem a poesia concreta, os poemas neoconcretos, poemas espaciais… Depois abandono toda vanguarda, entro para o CPC da UNE, vou fazer poesia política. Então, minha poesia mudou muito ao longo dos anos, de acordo com determinadas perspectivas e atitudes diante do processo social, político e cultural. O último livro, Muitas vozes, publicado em 1999, já é diferente do anterior. Não é uma diferença enorme, mas há diferença de tom, da colocação temática… Sempre tem diferença. Esse último é sempre um desdobramento do outro… Porque você vai descobrindo outras coisas, indagando outras coisas, e isso se reflete no modo de fazer poesia.

Hoje em dia, o que te motiva a escrever poemas?

FG – No fundo, a motivação não é constante. Tanto que escrevo muito pouco. Escrevo muito pouco. A minha poesia, costumo dizer, ela nasce no espanto. Precisa de alguma coisa que me surpreenda — que eu não tenha descoberto ainda na vida, com minha experiência de vida. Entendeu? Nasce, assim, de uma coisa que não controlo. Não posso dizer: “vou escrever dez poemas esse mês”. “Vou escrever um poema amanhã.” Não posso. Está inteiramente fora do meu controle. Tanto que posso passar um ano sem escrever nada… Eu estava oito meses sem escrever, fui fazer uma viagem para Nova York, no hotel… Cheguei lá, de repente, e aconteceu que escrevi cinco poemas numa tarde. É uma coisa, nasce de descobertas da vida.

Você acompanha a produção de poesia contemporânea?

FG – Não vou dizer que acompanho porque é muita gente publicando, pelo Brasil inteiro. Eu leio os livros que me mandam e algumas coisas que aparecem em revistas. Mas é difícil fixar os nomes das pessoas, são muitos (risos). Rio (de Janeiro), São Paulo, Maranhão… É uma quantidade enorme de poetas. Têm bons poetas jovens escrevendo. E têm maus poetas, que não têm a mesma qualidade dos outros. Eu só, realmente, não gosto de uma certa tendência, que às vezes se manifesta, de uma poesia hermética, uma poesia incompreensível. Acho que isso não é um caminho certo. Poesia não é “vou ao mercado comprar banana”. Não é o óbvio. Mas não deve ser uma coisa que a pessoa lê e não compreende. Se eu, com a experiência que tenho, leio e não entendo, então imagina o leitor comum. Tem que buscar uma maneira de — aquilo que ele descobriu que é misterioso e difícil — encontrar a forma de dizer, mesmo sem trair o mistério que a poesia tem que ter. Dizer de uma maneira que o outro compreenda, não pode ficar uma coisa hermética. Acho que muitos bons poetas enveredaram por esse caminho. Deve dar uma “meia-trava” para ver, refletir. Mas isso também muda. Termina descobrindo, buscando o caminho.

Depois de construir uma vida no Rio de Janeiro, como fica a sua relação com São Luís do Maranhão. De que forma as cidades interagem na sua produção poética, intelectual?

FG – São Luís, que é a minha cidade natal, é onde eu de fato me formei e vivi minha infância — algo importante para mim, essas experiências. Eu era pivete, moleque de rua, roubava coisas em botequim, jogava bilhar. Jamais imaginei que eu ia me transformar em poeta. Mas aquela vida na cidade, tropical, bonita, iluminada, cheia de ventania, as árvores, a luz azul e grossa, os prédios, tudo aquilo me constitui. Acho que eu sou isso. Como personalidade, emoção, memória, sou essa cidade. Mas São Luís, naquela época, era uma cidade pequena, com uma vida cultural limitada. Minha curiosidade, meu interesse pelas coisas, pela arte, me fizeram vir embora para o Rio (de Janeiro), que era, naquela época, a capital do país. Era onde estavam os maiores intelectuais brasileiros, livrarias, editoras. Sempre fui muito interessado por artes plásticas, pintura, escultura, e queria participar disso. Rio de Janeiro é a cidade que eu escolhi para viver, uma cidade linda. A outra cidade, eu nasci nela, sou ela. Quando eu cheguei aqui (no Rio), era uma cidade tranquila, bastante pacífica, hoje é uma tormento com essa violência boçal. Mas, de qualquer maneira, continua sendo uma cidade muito legal, uma cidade encantadora, dá vontade de ver. E continua tendo sua atividade cultural, o eixo se deslocou para São Paulo, mas o Rio continua a ter força, prestígio e uma atividade cultural importante. Vivi a maior parte da minha vida aqui, de modo que hoje sou também essa cidade, meus poemas refletem isso. Há muitos poemas meus escritos sobre o Rio.

Você continua com uma atividade intelectual intensa: escrevendo para jornais, participando de seminários, escrevendo poesia… Como é lidar com o passar dos anos, o envelhecimento? Como é olhar para sua trajetória?

FG – É horrível (risos). Só a quantidade de amigos que perdi. Sem falar filhos, companheira, irmão, irmã… É barra pesada, não é brincadeira, não. Uma coisa é você saber, como todo mundo sabe, eu tinha 15 anos: “Eu vou morrer, né? Todo mundo morre.” A consciência de que você é perecível, mortal. Isso é uma coisa. Outra coisa é a morte real, perder um filho. Não é teoria, o conceito de que se morre. Não. É perder seu filho. É diferente. Perder um amigo querido. É pesado, difícil. Mas a vida é isso.

Tem medo da morte?

FG – Não. Não tenho medo. A morte é boa, não é ruim.

É boa?

FG – É boa. A morte é boa (risos). Primeiro, que é natural. Tem que morrer, né? Depois, porque vai ficando muito caquético. Eu prefiro morrer a ficar caquético. Ficar babando na gravata? Não, não quero. Não quero, absolutamente. Viver enquanto a vida te dar algum prazer, você pode fazer as coisas, trabalhar. Viver numa cama, caído, babando na gravata, não tem sentido. Tem que dar lugar para os outros, os jovens. Se todo mundo ocupasse todos os lugares, os jovens iam fazer o quê, não é verdade? Os jovens são herdeiros do país. Eles que vão dirigir, governar, fazer leis… Eles que vão fazer. A minha preocupação com a formação dos jovens é fundamental. A educação é fundamental, em todos os níveis, não só educação técnica, científica. Mas a educação literária, artística e ética para formar pessoas legais que vão ajudar aos outros. Uma sociedade solidária, fraterna, isso que tem que se construir. É difícil, complicado, sabemos que é. O sentido da vida são os outros, a vida não tem sentido a não ser esse. O sentido da vida são os outros. Você trabalha para os outros, cria para os outros… Não só para teu filho, teu amigo, mas para todos os outros. É o sentido que eu acho que a vida tem.

Em 2009, completaram-se 10 anos de morte da Dra. Nise da Silveira. Você é autor de um perfil dela…

FG – A Nise era uma pessoa especial, uma mulher cheia de generosidade, solidariedade e afeto pelos outros. Ela foi uma mulher que viveu pelos outros. Ela era uma mulher afetuosa, sensível. Tanto que a própria orientação, que terminou dando à vida dela como médica psiquiátrica, foi não fazer as coisas que a psiquiatria fazia: choque elétrico, camisa-de-força… Uma série de coisas que ela se negava a fazer. Então, ela buscou como alternativa a terapêutica educacional, que resultou nos ateliês de pintura, gravura, desenho, cerâmica… E em seguida, no Museu de Imagens do Inconsciente. Porque ela não aguentava o tipo de tratamento que era feito na época. As pessoas têm a mania de pintar tudo de pessimismo, maldade ou perversidade. Não se tinha conhecimento de processos outros, os remédios, não havia. O choque elétrico era uma tentativa de controlar o estado de surto em que o paciente entrava. Mas é evidente que era uma coisa violenta. Nise ficou horrorizada, buscou outro caminho, que revelou uma quantidade de artistas. Terapia ocupacional não cura esquizofrenia, aliás, nada cura esquizofrenia. Até hoje é uma doença sem cura. Vai ter cura, mas por hora não tem. O remédio permite a pessoa ter um equilíbrio. Existe uma política que o governo adotou, chamada “psiquiatria democrática”, que é um absurdo. Impede a internação. Eles acabaram com mais de quatro mil leitos. Por que chama “psiquiatria democrática”? Porque não interna. Mas é uma bobagem, ideológica, cretina, que não tem nada a ver com essa doença real. Eu, que lidei com essa doença, sei muito bem que não tem nada disso. Quando uma médica veio com essa conversa, perguntei: “É a sociedade que adoece o doente mental? A doença mental não existe? É a sociedade que faz ficar doente? O fígado adoece e o cérebro não adoece? Por quê? É o único órgão divino?” A Dra. Nise buscou a expressão artística. Mas ele não é artista porque é doido. Ele é artista, apesar de doido. No ateliê da Nise, havia 50 doentes, só cinco viraram gênios. Não é a loucura que faz o cara ficar genial, isso é besteira. Van Gogh era gênio porque ele era gênio, não porque ele era doido. Loucura é uma doença.

Você avalia a política nacional com otimismo?

FG – O Brasil corre um risco grave. O Lula, que é um sindicalista, junto com os companheiros de sindicato, está ocupando setores importantes da sociedade: fundos de pensão, as grandes empresas estatais. Eles pretendem ficar no governo para sempre, fazendo uma política de caráter sindicalista, oportunista e demagógico. Isso é um perigo, as pessoas têm que pensar nisso. Porque temos que construir um país democrático. A alternância no poder é saudável para a democracia. Não basta voto. O Bolsa Família, que antigamente atingia quatro milhões de pessoas, hoje atende a 50 milhões de pessoas. Isso é comprar voto! Não tem como controlar 50 milhões de pessoas. É neto de prefeito, filho de embaixador, todo mundo recebendo o Bolsa Família. Não tem controle. É uma coisa demagógica, feita para fazer discurso. Artifícios não resolvem problemas, tem que dar trabalhos para as pessoas, e não esmolas. A ajuda tem de ser provisória — o trabalho é que dá dignidade à pessoa. A ameaça é o Brasil virar a Venezuela. As pessoas têm que ter lucidez para colocar estadistas no governo. Quem não lê, não conhece o país. Ninguém pode conhecer o país sem ler. É grave.

(batem na porta, avisam que o horário da entrevista está acabando)

Você pode ler o poema?

(entrego a Gullar o livro Muitas vozes)

FG – “Infinito silêncio”?

Sim.

FG – Houve / (há) / um enorme silêncio / anterior ao nascimento das estrelas / / antes da luz / / a matéria da matéria / / de onde tudo vem incessante e onde / tudo se apaga / / eternamente / / esse silêncio / grita sob nossa vida / e de ponta a ponta / a atravessa / estridente.

(Elisa Lucinda se senta no chão da sala, ao lado da poltrona onde Gullar está sentado)

Por que convidar Ferreira Gullar para uma palestra na Casa Poema?

Elisa Lucinda- É um namoro. A Escola (Lucinda de Poesia Viva) sempre teve o Gullar como referência. É uma palavra moderna e muito fácil, embora seja um homem misterioso. É uma poesia para o esquema da Escola, que gosta de falar poesia sem aquela fleuma, cerimônia que se estabelece antes de se dizer o poema. Essa formalidade com que se trata a poesia acaba atrapalhando o sentido dela. O poema do Ferreira, brotado das profundezas do cotidiano — por isso, acho que ele é misterioso —, é um verso livre que cabe na coloquialidade. Há liberdade no poema dele, embora tenha ritmo e uma musicalidade muito forte. É um poema livre. É um Maranhão que interessa muitíssimo a mim. O Maranhão é uma particularidade do Brasil, muito especial aquele lugar. Quando Ferreira fala de amor, tem uma inteligência maranhense. Tenho a sensação de que o maranhense, mesmo o homem comum, tem amor pelas palavras. Tenho essa sensação. E o fato de ser um poeta que tem essa transversalidade, todo mundo gosta. A durabilidade, a validade do poema dele, é como se fosse a “paudurecência” do verso (risos). Têm muitos motivos. Ferreira é um poeta afinado com o seu tempo. O poeta é o tradutor dos sentimentos humanos, dá testemunho. Gullar é receitado e recitado (risos).

FG – Cura as pessoas (risos).

EL – E o fato de ele ser um poeta experiente, em estado de perfeito uso.

FG – (risos)

EL – Totalmente antenado com toda sua obra. Muito bom ter um poeta vivíssimo, discutindo toda sua obra. É um luxo, categoria luxo. Tomara que a vinda dele aqui seja como uma força atuante para que essa casa não feche. Quero ler um poema. Às vezes, não estamos à altura do poema. Não temos como entender, não temos sinapses para fazer. Têm coisas que só a experiência acorda. O sentido do poema é igual palavra nova. Aprendeu uma palavra? Vai começar a ver em todos os lugares. Ela estava lá. É igual gente, se você não conhece, é multidão sem rosto. O sentido do poema também é assim. Pode ser tudo delírio, mas em subjetividade todo mundo pode ter razão (risos).

“Sobre a cômoda em Buenos Aires / o espelho reflete o vidro de colônia Avant la Fête / (antes, / muito antes da festa!) // Reflete o vidro de Suprady, um tubo / de esparadrapo, / a parede em frente, uma parte do teto. // Não me reflete a mim / deitado fora de ângulo como um objeto que respira. // Os barulhos da rua / não penetram este universos de coisas silenciosas. / Nos quartos vazios / na sala vazia na cozinha / vazia / os objetos (que não se amam): / uns de costas para os outros.”

É mole? (risos)

FG – Poema do exílio. Foi escrito em Buenos Aires, quando eu morava só. Esse poema reflete muito isso. “As coisas que não se amam” No meio de objetos, não é minha gente. Eu sou o objeto que respira (risos).

Obrigado.

EL – Uma benção. Obrigada.

FG – Obrigado você por ter lido esse poema.

 

FERNANDA MONTENEGRO

 Atriz comemora 80 anos e prorroga temporada no rio

Por Ramon Nunes Mello [Portal Cultura.rj 2009]

   

 fernandamontenegro

 

Aos 80 anos, celebrados em outubro, a atriz Fernanda Montenegro quer viver sem tempos mortos. O slogan, que marcou a geração 68 na França, é também o nome do monólogo em que a atriz encena a história da intelectual francesa Simone de Beauvoir. Se a escritora arrebatou o século XX com seus ensaios sobre a condição feminina, Fernandona vem revolucionando a dramaturgia brasileira a cada novo trabalho no teatro, cinema ou televisão.

Se Simone foi duramente criticada pela burguesia ao manter um longo relacionamento aberto com o filósofo Jean-Paul Sartre, Fernanda optou por um casamento tradicional de 60 anos com o ator Fernando Torres, de quem se despediu há um ano, e com quem teve dois filhos, a atriz Fernanda Torres e o diretor Cláudio Torres. Entre semelhanças e diferenças, Fernanda reza pela cartilha de Simone e afirma que não se nasce mulher, torna-se mulher.

Após escolher a periferia do Rio de Janeiro para a estreia de Viver sem tempos mortos, Fernanda passou por São Paulo – sucesso de público e crítica – e, agora, prorroga até novembro as apresentações do espetáculo dirigido por Felipe Hirsch, em cartaz no Teatro Fashion Mall.

Em entrevista ao Cultura.rj, a atriz fala sobre o subúrbio, o teatro, a perda do companheiro e seus sonhos.

Você nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, em Campinho. Essa condição foi importante na decisão de estrear o monólogo na Baixada Fluminense?

Fernanda Montenegro – Sim. Em nenhum momento me perguntei se o público entenderia Simone de Beauvoir. Não carrego o preconceito de achar que as pessoas do subúrbio têm menos intelecto, o que eles têm é menos oportunidade. Não há cidadania de segunda classe no subúrbio. Nasci em Campinho, mas depois morei muito tempo em Jacarepaguá, aliás, foi onde frequentei a primeira escola pública. (risos) Isso já tem mais de 70 anos. Sou uma suburbana. Eu adoro o subúrbio. Na época em que morei, o subúrbio era uma zona rural, havia casas com quintal, bichos domésticos, árvores frutíferas – não digo pomar porque é muito pedante. Não havia essa saturação de prédios. Ah, e aquela neblina de manhã cedo. Era muito bom, tanto que anos depois eu e Fernando voltamos ao subúrbio. Fernando era carioca, embora a família fosse do Espírito Santo, ele morou numa fazendola.

Você e Fernando ficaram muitos anos juntos…

FM – Nós ficamos juntos 60 anos. Hoje em dia ficar – não rapidinho –, ficar muito tempo já é uma atitude revolucionária.

Como é lidar com a vida após a perda do Fernando?

FM – Olha… Não é que seja impossível, mas a vida toma outro rumo, se torna outra coisa. Foram anos tão juntos que é como se ele estivesse junto. Tem a falta da presença física, mas é a cumplicidade que é inerente. Compreende… É como se…

Você estreou no teatro, aos oito anos, fazendo um papel masculino numa peça chamada Dois sargentos…

FM – Sim. Estreei no Campinho, na Paróquia.

Como é estrear, aos 80 anos, fazendo uma feminista?

FM – Para você ver como eu caminhei… (risos) É maravilhoso.

Como é participar da história do teatro brasileiro?

FM – Eu não armei isso, não esperei. A vida foi me surpreendendo à medida que fui vivendo. Eu amava, desde cedo, isso que eu quis fazer. Quanto aos resultados?! Se nada disso tivesse acontecido, se tivesse sido menos, eu estaria fazendo o que sempre quis fazer. Eu nunca esperei que Deus me desse o que me deu, que o teatro me desse o que me deu. Mas na medida em que fui trabalhando o acaso, segundo Simone e Sartre, a vida foi me dando. E assim eu fui tocando a minha vida. Opa! É por aqui? É por ali. É por aqui. Se apanhou, levanta, adiante. Não pode por aqui? A gente faz uma curva. E vamos vivendo porque são 60 anos de palco e cinco anos da Rádio Ministério, na Praça da República.

Nessa caminhada você fez personagens marcantes: Fedra, Lady MacBeth, Heda Glaber, Dona Doida, Romana…

FM – Eu tenho um repertório do qual me orgulho muito, principalmente em relação aos autores brasileiros: Adélia Prado, Jorge de Andrade, Naum Alves de Souza, Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes, Silveira Sampaio, Abílio Pereira de Almeida… E estou me esquecendo de alguns nomes. E na TV, fiz durante 10 anos um teleteatro, ao vivo, com Sérgio Britto, Fernando Torres e Flávio Rangel. Nós fizemos 400 textos ou mais.

E passou pela TV Tupi, Excelsior, Record, Globo…

FM – Quando a televisão começou, em 1951, eu fui a primeira atriz contratada pela TV. E logo fizemos uma retrospectiva do teatro brasileiro e teatro internacional. Nós começamos com Anchieta. Comecei fazendo Antígona, que não poderia estar fazendo, pela coragem e intuição maluca.

Como está o teatro contemporâneo?

FM – Não vejo todo teatro que é feito hoje, mas vejo alguns espetáculos. O Brasil produz muitos espetáculos bons. Há muitos grupos importantes tanto no Sul, Sudeste e Norte do país, com uma produção muito diversificada. Eu seria muito cretina se respondesse como está o teatro hoje. Vejo espetáculos horrendos e espetáculos maravilhosos. Ainda estou dentro do processo para fazer uma avaliação profunda. Está se fazendo o teatro, do ponto de vista de produção, que se pode fazer.

Em 1985, você já foi convidada para ser Ministra da Cultura do Governo Sarney. E se manifesta sobre política cultural toda vez que acha necessário. Como avalia a política cultural de hoje?

FM – Acho que estamos numa encruzilhada. Temos um passado, que eu vivi, de total independência do Estado. Você ia a um banco, se endividava e pagava o espetáculo com a bilheteria. Isso com um público diversificado, do espetáculo experimental ao espetáculo mais careta. Era uma independência. Não estávamos nesse funil que leva a todos nós a depender de uma comissão, que pode ser ideológica ou partidária. Sabemos que as comissões podem ser manobradas. Há um perigo de se dividir para governar: o teatro dos grupos e o teatro dos ‘globais’. Isso é uma loucura! Não vejo como aceitar esse preconceito. A sua vida é livre para você caminhar para onde há trabalho. Não pode haver esses estigmas. Não conheço ator de televisão. O Wagner Moura é ator de televisão e está fazendo Shakespeare. Então ele deveria ser olhado preconceituosamente como ‘ator de televisão’? Isso é muito doente e agressivo. Não sei onde vão parar essas discussões. Não sei. Não consigo entender o que está acontecendo. Sou de uma época de total independência: nós assinávamos os papagaios e pagávamos com a bilheteria. Por outro lado, todo mundo diz que teatro é caro. Nunca o teatro foi tão barato. Você tem teatro de cinco, 10, 20 e 50 reais… Meu Deus? Talvez a plateia esteja desmotivada, mas isso é outro problema. Não sei me mexer nesse mundo. Organizamos esse projeto e tivemos o patrocínio de uma firma através da Lei Rouanet, além de outras participações: Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Oi, SESC e Mafre – esta empresa está colaborando com a maior parte para se fazer esse espetáculo. Estou envolvida nessa peça, lutando por ele, se desdobrando como se fosse um ‘estado de emergência’. É a sopa na esquina. O que vai seguir daí? Não sei. Eu gostaria que o teatro não tomasse um rumo de ‘dirigismo’. Gostaria que o atendimento ao teatro não ficasse subordinado a preconceitos de nenhuma ordem. Mas não sei dizer que rumo isso tudo vai dar.

No livro Viagem ao outro – sobre a arte do ator, você cita Shakespeare, que se refere aos atores: “Nós somos feitos à matéria de que são feitos os sonhos”. Quais são seus sonhos?

FM – O que eu sonho? Ter fôlego, memória e saúde. Porque vontade de fazer as coisas e continuar no meu projeto de vida eu tenho. É engraçado que, numa certa altura da vida, acabamos meio fenômenos: tem 85 e fala, tem 85 e pula, tem 85 e faz uma cena que faz um ‘quatro’ bêbado… (risos) As pessoas contam como se fosse uma atração de circo. Não acho ruim me compararem a um artista circense, fiz circo na infância e tenho muito orgulho. Mas esse fenômeno circense tem de funcionar.

Você sempre trabalhou com diretores de diferentes gerações e tendências. Como está a parceria com Felipe Hirsch?

FM – Está ótima. Ele não tem nenhuma prepotência do saber, embora saiba. Ele não tem nenhuma violência cênica, de cutucar ou ‘neurotizar’. Pelo menos, ele segura muito bem os demônios dele. Então, trabalhamos na paz e com criatividade. Há diretor que precisa da doença para poder funcionar, já peguei muitos dessa ordem. Esse encontro com Felipe é na paz.

FELIPE PENA

 LITERATURA POPULAR

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

 felipepena

 

O jornalista e escritor Felipe Pena aprendeu as primeiras lições literárias na infância, quando visitava o avô em Encantado, subúrbio do Rio de Janeiro. Nessa época teve contato com a obra de grandes mestres como Machado de Assis e Lima Barreto.

“Aprendi a ler com os jornais, pesquisando um atlas velho do meu avô, lendo livros infantis que ele comprava pra mim… Li os clássicos e me apaixonei, mas sempre tive uma ‘veia policial’. Sempre gostei de Agatha Christie e Edgar Allan Poe. Na adolescência, lia Kerouac, Eça, Gabriel García Márquez, Borges etc. Mas o início é o subúrbio, a criança suburbana tem mais imaginação.”

Professor do Doutorado em Comunicação da Universidade Federal Fluminense e Doutor em Literatura pela PUC-Rio, com pós-doutorado pela Universidade de Paris/Sorbonne III, Felipe Pena se aprofundou na literatura “justamente para negá-la do jeito que é estudada na academia”. Suas posições polêmicas muitas vezes provocam debates na imprensa.

“Quando digo que a literatura contemporânea é chata, hermética e besta não estou dizendo que ela não deva ser lida. Tem muita coisa boa sendo feita, mas o problema é que não há uma estrada pavimentada para chegar à leitura dela. Por quê? Porque é uma coisa ‘elitizada’. Também não estou dizendo que uma literatura de entretenimento deva apenas servir de estrada para uma leitura erudita. Mas sem ela, fica difícil. O entretenimento basta por si mesmo. Podemos escrever apenas para entreter. Por que não?”

Num encontro informal na Barra da Tijuca, o autor de O analfabeto que passou no vestibular (7Letras, 2008) conversou sobre sua trajetória de professor e escritor, além de expor propostas para que os livros tenham uma linguagem mais acessível ao grande público. E aos jovens que sonham com carreira literária, Felipe Pena relembrou Baudelaire:

“Deve-se estar sempre embriagado, de poesia, de virtude, à tua escolha. Mas embriaga-te, embriaga-te sem cessar. Se você não se embriagar da escrita, nunca será um escritor.”

Você é professor do doutorado em comunicação da Universidade Federal Fluminense e doutor em Literatura pela PUC-Rio, com pós-doutorado pela Universidade de Paris/Sorbonne III. De onde surgiu seu interesse pela literatura e pelo jornalismo?

Felipe Pena – Comecei a ler muito cedo, meu avô me ensinou a ler aos quatro anos. Ele morava no subúrbio do Encantado, na Pompilho de Albuquerque, uma rua cercada de favelas. Cresci jogando futebol. Para você ter uma ideia, eu era o único que tinha tênis. Então, dei o tênis de presente e passei a jogar descalço. Sou carioca, nasci no subúrbio. Tive muito prazer no subúrbio do Encantado, meu avô me ensinou muito. Aprendi a ler com os jornais, pesquisando um atlas velho do meu avô, lendo livros infantis que ele comprava pra mim… Lembro que, aos nove anos, eu lia um livro policial chamado O gênio do crime (primeiro livro de João Carlos Marinho, lançado em 1969 pela Brasiliense. Já vendeu mais de um milhão de exemplares, em 62 edições), assim começou o gosto por policiais. Li Machado e Lima Barreto só depois de ler os livros de entretenimento do meu avô… Li os clássicos e me apaixonei, mas sempre tive uma “veia policial”. Sempre gostei de Agatha Christie e Edgar Allan Poe. Na adolescência, lia Kerouac, Eça, Gabriel García Márquez, Borges etc. Mas o início é o subúrbio, a criança suburbana tem mais imaginação. Depois foquei minha energia no jornalismo.

Você sempre se interessou pelo jornalismo?

FP – Eu queria escrever. Mas eu não queria escrever sem conhecer a sociedade, então fui estudar jornalismo. Achava que só o jornalismo poderia me dar isso, além de dar a técnica de escrita. Depois veio o mestrado e o doutorado em literatura, me aprofundei. Engraçado, me aprofundei na literatura, justamente para negá-la do jeito que é estudada na academia. Foi justamente o que eu quis dizer naquele artigo do “Prosa & Verso” (caderno do jornal O Globo), em que fui muito mal interpretado. Quando digo que a literatura contemporânea é chata, hermética e besta não estou dizendo que ela não deva ser lida. Tem muita coisa boa sendo feita, mas o problema é que não há uma estrada pavimentada para chegar à leitura dela. Por quê? Porque é uma coisa “elitizada”. Também não estou dizendo que uma literatura de entretenimento deva apenas servir de estrada para uma leitura erudita. Mas sem ela, fica difícil. O entretenimento basta por si mesmo. Podemos escrever apenas para entreter. Por que não? Mas inevitavelmente ela vai pavimentar o caminho para outras leituras.

O que é “uma estrada pavimentada”?

FP – Uma estrada pavimentada é o tipo de literatura que também forma leitores para chegar a essa literatura de linguagem mais complexa e mais difícil de ler. Há muitos autores fazendo literatura boa. Outro dia reli Eles eram muito cavalos(Boitempo 2001; Record, 2007), do (Luiz) Rufatto. É um livro excepcional, um dos melhores que já li, mas é uma leitura complicadíssima. Como você pede para alguém que nunca leu um livro apenas pelo prazer do entretenimento para entrar direto num livro como esse? Não vai entrar. Não estou dizendo que o livro não tenha valor, é exatamente o contrário. Mas o problema é que todo mundo está escrevendo dessa maneira, conforme a crítica literária acadêmica determina. Eu não tenho nada contra as pessoas que escrevem com a linguagem poética, hermética ou rebuscada. Muito pelo contrário, quero valorizar! Mas se só se escrever, assim não vai funcionar, vai ter sempre só meia dúzia de leitores.

Temos que criar espaço para o best-seller, para a literatura de entretenimento, para uma leitura popular. Como se fez com o cinema nacional, por exemplo. Até a década de 70/80 tinha só dois tipos de cinema no Brasil: pornochanchada ou cinema Neville de Almeida, hermético, fechado, numa linguagem que poucos entendiam. Até que chega a Carla Camurati e rompe com isso. E hoje você tem uma linguagem cinematográfica que é popular, mas que é bem elaborada. A música brasileira também é assim. Por que isso não acontece com a literatura? É essa a minha briga. A literatura é a única arte em que ainda permanece essa divisão entre erudito e popular. Em todas as outras, há misturas, fronteiras híbridas.

O que você propõe?

FP – Proponho livros que tenham uma linguagem que seja acessível ao grande público, o que não significa que sejam mal escritos, rasteiros ou vazios. O que vejo hoje são autores que escrevem um livro e dizem: “Olha, está vendo como sou genial!” “Tá vendo aquela passagem? Entendeu a minha sacada? Fui eu que fiz!” Ele não está se propondo a contar uma história. O autor está colocando o nome na frente do livro. Repare: não quero que eles parem de escrever assim. Cada um escreve como acha melhor. Só quero é que exista espaço para o entretenimento.

Você provocou polêmica ao publicar no suplemento “Prosa e Verso”, do jornal O Globo, um artigo que criticava a “mercantilização do saber” nas faculdades privadas e o = “hermetismo” dos escritores brasileiros contemporâneos, classificados de “chatos, herméticos e bestas”. Inclusive a escritora Adriana Lisboa reagiu a suas críticas com um artigo intitulado “A fogueira, as vaidades”. Essa, realmente, é a sua opinião sobre os escritores contemporâneos?

FP – Foi intencional a provocação. Mas a polêmica não foi. Apenas o debate. Queria criar um debate em relação a isso. A Adriana Lisboa se ofendeu à toa, não a citei em momento algum, nem acho a literatura dela tão hermética assim. Adriana faz uma tentativa de uma prosa poética que é muito boa, mas considero Daniela Versiani ainda melhor do que ela nesse estilo, o que é apenas uma opinião, um juízo de valor. Fiz mestrado e doutorado em literatura, estudei a fundo a teoria literária. O que falei foi para provocar um debate sobre a formação do público leitor no país. Quando escrevo meus romances quero simplesmente contar uma história. Enquanto escrevo, consulto pessoas não eruditas, pessoas que leem para se entreter: donas de casa, fisioterapeutas, advogados… E o porteiro do meu edifício, o Major. Ele é um personagem, comenta livros que lê. Proponho uma literatura popular, de fácil acesso. O que, repito, não significa ser superficial.

Há necessidade de se criar uma “literatura popular”?

FP – Não é criar, é valorizar. É necessário valorizar uma literatura popular para que ela seja também — e não apenas isso — uma estrada para a literatura erudita, para que forme leitores e até mesmo proponha misturas, dilua essa fronteira. A maioria da literatura contemporânea produzida hoje em dia é erudita, no sentido de que o autor se propõe a ser reconhecido pelo experimentalismo intelectual que ele faz com a linguagem, e não pela história que conta. Há exceções: Fernando Molica, por exemplo. Mas ele não é devidamente valorizado. Tem o português Miguel de Souza Tavares. Outra escrita excepcional: Tatiana Salem Levy. Mas ela tomou muita porrada, a primeira crítica que saiu foi muito negativa. Se você pega a lista dos dez mais vendidos de ficção não tem nenhum livro brasileiro. É inacreditável. Lá só entram o Chico, o Jô e o Paulo Coelho, que são midiáticos. Meu objetivo não é ser best-seller, mas apenas ser lido.

O objetivo de todo autor, não?

FP – Não, nem todo autor. Muitos querem ser reconhecidos, é uma “panela elitizada”. Existem 500 leitores de ficção no Brasil. E desses 500 leitores, 100 são autores contemporâneos, que ficam lendo uns aos outros, fazendo resenhas dos amigos nos jornais. Não quero fazer isso, não vou entrar nisso. Mesmo sabendo que não vou ter espaço na mídia, que meus livros não vão ter divulgação. Pela distribuição que teve, O analfabeto… está sendo lido pra caramba, estou feliz. Quero que as pessoas leiam meus livros com prazer. Quero propor um tipo de literatura que seja acessível, lúdica, que entretenha, só isso. O que é literatura? A literatura não é um clube de comadres. A literatura é uma forma de expressão que deve atingir a sociedade no maior horizonte possível, não deve se limitar a uma elite.

O que você tem lido?

FP – Tenho lido muitos autores contemporâneos: André de Leones, Nilza Resende, Daniela Versiani, Marcelo Moutinho, Adriana Lisboa, Daniel Galera, Marçal Aquino, Ana Paula Maia, Bernardo Carvalho, João Paulo Cuenca…

Você é professor universitário e escritor. Como você lida com o processo de criação?

FP – Tenho horário para escrever. Tomo um café preto e começo a escrever, cheio de restos noturnos de sono. Escrevo em jejum, embevecido pelo sono, uma três horas por dia. Tenho disciplina. A formação acadêmica não bloqueia o processo de criação, desde que não se fique refém da formação acadêmica — o que acontece frequentemente. Estudei muita literatura para entender o que não quero fazer. O jornalismo me ajudou a entender o que quero fazer: escrever com uma linguagem límpida, cristalina e fluente. Eu sou dos professores que acredita no diálogo claro, sem pompa, sem academicismos.

O Analfabeto… É apresentado como um romance-denúncia sobre a precariedade do sistema de ensino universitário brasileiro. A literatura precisa ter uma função política?

FP – Uma coisa é literatura panfletária e outra coisa é literatura engajada. Não faço literatura panfletária, não defendo ideologias nem partidos. Faço literatura engajada, o que é uma redundância porque toda literatura é engajada, no sentido em que não é solta no mundo, tem função mesmo que não se proponha a ter. O meu engajamento é mais explícito porque tem a intenção explícita de provocar um debate. Gosto de provocar essas discussões. No próximo livro, vou mexer num vespeiro: a psicanálise. Não sei se você sabe, mas a psicanálise não tem regulamentação no Brasil. Quero fazer essas discussões através da ficção, não quero mais escrever livros acadêmicos, tenho oito publicados. Eu quero ser lido por todos e não só pela academia. Quero me comunicar, discutindo temas relevantes. Não significa que eu seja panfletário, sou engajado no tema e quero provocar reflexão sobre esse tema.

Em O Analfabeto… Você une a crítica ao universo acadêmico com a literatura policial. Por quê?

FP – Porque a universidade brasileira é um caso de polícia. É a única explicação. Tanto é que a Receita Federal multou recentemente uma universidade em R$ 478 milhões por sonegação fiscal. A instituição é filantrópica a vida inteira, mas chega num determinado dia ela monta 50 campi e decide vender ações na Bolsa de Valores. Mas cadê o dinheiro que a ajudou a crescer, que veio de isenções de impostos exatamente por ser filantrópica? Isso é estelionato fiscal!

O livro remete ao caso do analfabeto que se classificou em oitavo lugar no vestibular de direito da Universidade Estácio de Sá, em 2001. E você foi vice-reitor da Estácio de Sá. Como é isso?

FP – Primeiro, quero deixar claro que o livro não é sobre a Estácio, apenas se apoia em dois episódios que aconteceram lá para ancorar a narrativa. Todo o resto é ficção. Aliás, gosto da universidade e das pessoas que estão lá. A Estácio em nenhum momento se manifestou oficialmente. É óbvio que houve reações, tenho amigos que me contam. No livro, o reitor Jaime Ortega é uma mistura de vários reitores que conheço, a maioria deles conheci. O objetivo era criar os personagens a partir de pessoas que conheço. Mas não sou contra o ensino privado, que fique claro isso. Quando fui vice-reitor, ainda não havia essa história de lançar ações na bolsa, foi nesse momento que saí da universidade privada e fui para universidade pública. Então, por isso, estou bem à vontade. O livro é ficcional, embora muitos episódios tenham saído do jornal.

Quais escritores você admira?

FP – Gosto muito do Rubem Fonseca, do Marçal Aquino, do Bernardo Carvalho e do (Luiz Alfredo) Garcia-Roza — este indicou uma leitora especial, sua editora, que me ajudou muito com o livro. N’O analfabeto…, faço uma homenagem aos escritores brasileiros de romances policiais. Cito uns seis ou sete.

Você também trabalha com muitos clichês n’O Analfabeto… Não é um risco?

FP – Os escritores tratam os clichês com o mesmo clichê que demonizam. É sinônimo de pouca criatividade e de repetição, mas esquecemos que eles podem ser usados como identificação pelo leitor. O problema é que ao nos identificarmos com eles aparece o medo de que o outro veja em nós um sinal claro de falta de erudição, de baixa cultura. Mas usamos clichês o tempo todo, com o irmão, a mulher, o vizinho. Pode parecer um paradoxo, mas não é: uso clichês para desconstruir os próprios clichês. Os riscos são inevitáveis. Para atravessar uma rua, eu corro o risco de ser atropelado. Utopia é acreditar que você estará vivo no dia seguinte. Não vale a pena escrever se não puder correr riscos. Vou continuar com os clichês e estereótipos porque eu tenho a noção do papel deles, são estratégias para os personagens e para a narrativa. Julgar alguém pelo estereótipo é uma avareza cognitiva que está presente na cultura o tempo inteiro. Uso os estereótipos tentando tornar os meus personagens complexos e marcar o leitor. Não quero deixar cascas de bananas na travessia do leitor, quero que seja lúdico. Quero que os meus leitores alcancem os livros “chatos, herméticos e bestas”.

Em 1998, você escreveu no livro A volta dos que não foram (7letras): “as elzas do catete sucumbiram ao mercado. Foram substituídas pelas patricinhas da Barra, ou melhor do Barra, o shopping”. E em 2008, no livro O Analfabeto que passou no vestibular: “a Barra da Tijuca é uma fauna em equilíbrio homeostático. A cadeia alimentar está bem definida. Não é difícil perceber quem come a carne ou vive dela. (…) Mas a variedade sociológica de espécies sobrevive em harmonia apenas pela unidade religiosa em torno de seus templos, que aqui são chamados de shopping centers”. A crítica continua…

FP – Tudo que faço é provocar discussão, é isso que estamos fazendo aqui. Há uma série de preconceitos e estereótipos com a Barra da Tijuca, então vamos colocar tudo isso no enredo. Adoro morar no Jardim Oceânico, é um pedaço do subúrbio dentro da Barra. Mas ninguém nunca vai dizer isso, porque será criticado, chamado de emergente. Esse é um clichê difundido por intelectuais que criticam os clichês. A Barra é tudo aquilo que descrevo no livro, mas também é o contrário. Tenho que trabalhar com o estereótipo para desconstruir o próprio estereótipo, é dialético. Tenho de criticar para combater os estereótipos e desconstruir mitos. É uma estratégia de risco, eu corro esse risco.

Você trabalhou na extinta TV Manchete. Como foi essa experiência?

FP – Primeiro trabalhei no jornal O Dia. Depois fui morar na Espanha. Em 1995, de volta ao Brasil, fui trabalhar na TV Manchete. Eu estava começando o mestrado quando vi no jornal um anúncio para o curso Bloch de repórter. Fiz uma prova escrita e fui um dos 40 aprovados, em mais de 400 inscritos. Por fim, fui o aluno selecionado. Em janeiro de 1996, comecei a trabalhar na emissora. Acredito na sorte. Mas já percebi que quanto mais trabalho mais sorte eu tenho.

No livro Teoria da biografia sem fim (Mauad, 2004), você pontua que atualmente as celebridades são biografadas diariamente pelas mídias. Como é escrever uma biografia hoje?

FP – Esse livro é a parte teórica da minha tese de doutorado, é um método de se fazer biografias. Eu critico o método utilizado por Ruy Castro e Fernando Morais, embora eu goste muito deles. Ruy Castro costuma dizer que ninguém sabe mais sobre Garrincha do que ele. Nem o próprio Garrincha sabia. Não é verdade! O que ele escreve é uma versão da vida. É o que Pierre Bourdieu (1986) chama de “A ilusão biográfica” (artigo presente no livro Usos e abusos da história oral (FGV, 2006. 8ª ed.)), a ilusão de que se pode circunscrever a história de uma vida com começo, meio e fim. Eu penso que isso é impossível. Por isso, elaborei os “fractais biográficos”. Por exemplo, escrevi a biografia do Adolfo Bloch em que cada capítulo é um fractal contado por alguém: o jornalista, o judeu, o empresário… O autor age como um mediador e não como um biógrafo.

Aos 27 anos, você publicou A volta dos que não foram (7letras, 1998), resultado do projeto de mestrado em Literatura Brasileira realizado na PUC-Rio, em 1998. Na introdução, você afirma: “Durante muito tempo, eu achei que tinha nascido na época errada. Queria participar da Passeata dos Cem Mil. Discursar para estudantes. Frequentar o Opinião. Acompanhar o Lamarca no sertão da Bahia. Lutar com Marighella. Ter um codinome, marcar ponto todo mês, por segurança (…)”. Quais seriam as utopias da Geração Web?

FP – Vejo essa geração com muito otimismo. Os jovens são muito antenados, produzem, estão lendo, criticam… Há um companheirismo nesse trabalho. Sou um professor atento à produção dessa geração. A única coisa de que tenho medo é que essas panelas, que tanto critico, tomem conta da mente desses jovens. Isso é triste e pobre. Quando escrevi esse livro, eu também percebia que aquela época era estereotipada. O Fredric Jameson, em Pós-modernismo: A lógica cultural do capitalismo tardio (Ática, 1996) explica como o que nós temos é uma imagem sobre uma determinada época. E essa imagem gera uma série de mitos. Quando digo que gostaria de estar com Lamarca pelo sertão é porque assisti ao filmeLamarca, do Sérgio Rezende e li sobre o personagem. Essa imagem pop produz simulacros. E refleti sobre esse sentimento, por isso o nome do livro A volta dos que não foram. A geração pós-68 não era alienada. Assim como acho que a geração da Internet não é alienada. A tendência de quem envelhece é considerar a geração anterior melhor do que a atual, isso é uma besteira. Você só chega à conclusão que é uma besteira quando se vê fazendo a mesma crítica. A Internet é uma utopia contemporânea, ainda tem muito para ser explorada.

Você possui cadastro no Orkut e mantém um site —http://www.felipepena.com.br — onde disponibiliza trechos de livros, programas de aulas, informações biográficas e divulga eventos. Como é a sua relação com a web?

FP – Uso a Internet como uma ferramenta de divulgação. Também é uma forma de chegar aos meus alunos. É uma forma de comunicação, abre muitas portas. E a literatura se vale muito da Internet, há muitos autores que publicam em blogs. As editoras e os cadernos literários deveriam se interessar mais com essa produção. O “Prosa e Verso” já faz isso muito bem.

Qual será o próximo livro?

FP – O próximo livro sairá por uma grande editora. A ideia já foi aprovada. Estou escrevendo. Assim como O analfabeto…, é baseada numa pesquisa de campo. Discuto o papel da psicanálise, dos psicanalistas e dos pacientes.

O que diria para um jovem que deseja ser escritor?

FP – Eu diria uma frase de Baudelaire: “Deve-se estar sempre embriagado, de poesia, de virtude, à tua escolha. Mas embriaga-te, embriaga-te sem cessar. Se você não se embriagar da escrita, nunca será um escritor.”

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