FELIPE PENA

 LITERATURA POPULAR

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

 felipepena

 

O jornalista e escritor Felipe Pena aprendeu as primeiras lições literárias na infância, quando visitava o avô em Encantado, subúrbio do Rio de Janeiro. Nessa época teve contato com a obra de grandes mestres como Machado de Assis e Lima Barreto.

“Aprendi a ler com os jornais, pesquisando um atlas velho do meu avô, lendo livros infantis que ele comprava pra mim… Li os clássicos e me apaixonei, mas sempre tive uma ‘veia policial’. Sempre gostei de Agatha Christie e Edgar Allan Poe. Na adolescência, lia Kerouac, Eça, Gabriel García Márquez, Borges etc. Mas o início é o subúrbio, a criança suburbana tem mais imaginação.”

Professor do Doutorado em Comunicação da Universidade Federal Fluminense e Doutor em Literatura pela PUC-Rio, com pós-doutorado pela Universidade de Paris/Sorbonne III, Felipe Pena se aprofundou na literatura “justamente para negá-la do jeito que é estudada na academia”. Suas posições polêmicas muitas vezes provocam debates na imprensa.

“Quando digo que a literatura contemporânea é chata, hermética e besta não estou dizendo que ela não deva ser lida. Tem muita coisa boa sendo feita, mas o problema é que não há uma estrada pavimentada para chegar à leitura dela. Por quê? Porque é uma coisa ‘elitizada’. Também não estou dizendo que uma literatura de entretenimento deva apenas servir de estrada para uma leitura erudita. Mas sem ela, fica difícil. O entretenimento basta por si mesmo. Podemos escrever apenas para entreter. Por que não?”

Num encontro informal na Barra da Tijuca, o autor de O analfabeto que passou no vestibular (7Letras, 2008) conversou sobre sua trajetória de professor e escritor, além de expor propostas para que os livros tenham uma linguagem mais acessível ao grande público. E aos jovens que sonham com carreira literária, Felipe Pena relembrou Baudelaire:

“Deve-se estar sempre embriagado, de poesia, de virtude, à tua escolha. Mas embriaga-te, embriaga-te sem cessar. Se você não se embriagar da escrita, nunca será um escritor.”

Você é professor do doutorado em comunicação da Universidade Federal Fluminense e doutor em Literatura pela PUC-Rio, com pós-doutorado pela Universidade de Paris/Sorbonne III. De onde surgiu seu interesse pela literatura e pelo jornalismo?

Felipe Pena – Comecei a ler muito cedo, meu avô me ensinou a ler aos quatro anos. Ele morava no subúrbio do Encantado, na Pompilho de Albuquerque, uma rua cercada de favelas. Cresci jogando futebol. Para você ter uma ideia, eu era o único que tinha tênis. Então, dei o tênis de presente e passei a jogar descalço. Sou carioca, nasci no subúrbio. Tive muito prazer no subúrbio do Encantado, meu avô me ensinou muito. Aprendi a ler com os jornais, pesquisando um atlas velho do meu avô, lendo livros infantis que ele comprava pra mim… Lembro que, aos nove anos, eu lia um livro policial chamado O gênio do crime (primeiro livro de João Carlos Marinho, lançado em 1969 pela Brasiliense. Já vendeu mais de um milhão de exemplares, em 62 edições), assim começou o gosto por policiais. Li Machado e Lima Barreto só depois de ler os livros de entretenimento do meu avô… Li os clássicos e me apaixonei, mas sempre tive uma “veia policial”. Sempre gostei de Agatha Christie e Edgar Allan Poe. Na adolescência, lia Kerouac, Eça, Gabriel García Márquez, Borges etc. Mas o início é o subúrbio, a criança suburbana tem mais imaginação. Depois foquei minha energia no jornalismo.

Você sempre se interessou pelo jornalismo?

FP – Eu queria escrever. Mas eu não queria escrever sem conhecer a sociedade, então fui estudar jornalismo. Achava que só o jornalismo poderia me dar isso, além de dar a técnica de escrita. Depois veio o mestrado e o doutorado em literatura, me aprofundei. Engraçado, me aprofundei na literatura, justamente para negá-la do jeito que é estudada na academia. Foi justamente o que eu quis dizer naquele artigo do “Prosa & Verso” (caderno do jornal O Globo), em que fui muito mal interpretado. Quando digo que a literatura contemporânea é chata, hermética e besta não estou dizendo que ela não deva ser lida. Tem muita coisa boa sendo feita, mas o problema é que não há uma estrada pavimentada para chegar à leitura dela. Por quê? Porque é uma coisa “elitizada”. Também não estou dizendo que uma literatura de entretenimento deva apenas servir de estrada para uma leitura erudita. Mas sem ela, fica difícil. O entretenimento basta por si mesmo. Podemos escrever apenas para entreter. Por que não? Mas inevitavelmente ela vai pavimentar o caminho para outras leituras.

O que é “uma estrada pavimentada”?

FP – Uma estrada pavimentada é o tipo de literatura que também forma leitores para chegar a essa literatura de linguagem mais complexa e mais difícil de ler. Há muitos autores fazendo literatura boa. Outro dia reli Eles eram muito cavalos(Boitempo 2001; Record, 2007), do (Luiz) Rufatto. É um livro excepcional, um dos melhores que já li, mas é uma leitura complicadíssima. Como você pede para alguém que nunca leu um livro apenas pelo prazer do entretenimento para entrar direto num livro como esse? Não vai entrar. Não estou dizendo que o livro não tenha valor, é exatamente o contrário. Mas o problema é que todo mundo está escrevendo dessa maneira, conforme a crítica literária acadêmica determina. Eu não tenho nada contra as pessoas que escrevem com a linguagem poética, hermética ou rebuscada. Muito pelo contrário, quero valorizar! Mas se só se escrever, assim não vai funcionar, vai ter sempre só meia dúzia de leitores.

Temos que criar espaço para o best-seller, para a literatura de entretenimento, para uma leitura popular. Como se fez com o cinema nacional, por exemplo. Até a década de 70/80 tinha só dois tipos de cinema no Brasil: pornochanchada ou cinema Neville de Almeida, hermético, fechado, numa linguagem que poucos entendiam. Até que chega a Carla Camurati e rompe com isso. E hoje você tem uma linguagem cinematográfica que é popular, mas que é bem elaborada. A música brasileira também é assim. Por que isso não acontece com a literatura? É essa a minha briga. A literatura é a única arte em que ainda permanece essa divisão entre erudito e popular. Em todas as outras, há misturas, fronteiras híbridas.

O que você propõe?

FP – Proponho livros que tenham uma linguagem que seja acessível ao grande público, o que não significa que sejam mal escritos, rasteiros ou vazios. O que vejo hoje são autores que escrevem um livro e dizem: “Olha, está vendo como sou genial!” “Tá vendo aquela passagem? Entendeu a minha sacada? Fui eu que fiz!” Ele não está se propondo a contar uma história. O autor está colocando o nome na frente do livro. Repare: não quero que eles parem de escrever assim. Cada um escreve como acha melhor. Só quero é que exista espaço para o entretenimento.

Você provocou polêmica ao publicar no suplemento “Prosa e Verso”, do jornal O Globo, um artigo que criticava a “mercantilização do saber” nas faculdades privadas e o = “hermetismo” dos escritores brasileiros contemporâneos, classificados de “chatos, herméticos e bestas”. Inclusive a escritora Adriana Lisboa reagiu a suas críticas com um artigo intitulado “A fogueira, as vaidades”. Essa, realmente, é a sua opinião sobre os escritores contemporâneos?

FP – Foi intencional a provocação. Mas a polêmica não foi. Apenas o debate. Queria criar um debate em relação a isso. A Adriana Lisboa se ofendeu à toa, não a citei em momento algum, nem acho a literatura dela tão hermética assim. Adriana faz uma tentativa de uma prosa poética que é muito boa, mas considero Daniela Versiani ainda melhor do que ela nesse estilo, o que é apenas uma opinião, um juízo de valor. Fiz mestrado e doutorado em literatura, estudei a fundo a teoria literária. O que falei foi para provocar um debate sobre a formação do público leitor no país. Quando escrevo meus romances quero simplesmente contar uma história. Enquanto escrevo, consulto pessoas não eruditas, pessoas que leem para se entreter: donas de casa, fisioterapeutas, advogados… E o porteiro do meu edifício, o Major. Ele é um personagem, comenta livros que lê. Proponho uma literatura popular, de fácil acesso. O que, repito, não significa ser superficial.

Há necessidade de se criar uma “literatura popular”?

FP – Não é criar, é valorizar. É necessário valorizar uma literatura popular para que ela seja também — e não apenas isso — uma estrada para a literatura erudita, para que forme leitores e até mesmo proponha misturas, dilua essa fronteira. A maioria da literatura contemporânea produzida hoje em dia é erudita, no sentido de que o autor se propõe a ser reconhecido pelo experimentalismo intelectual que ele faz com a linguagem, e não pela história que conta. Há exceções: Fernando Molica, por exemplo. Mas ele não é devidamente valorizado. Tem o português Miguel de Souza Tavares. Outra escrita excepcional: Tatiana Salem Levy. Mas ela tomou muita porrada, a primeira crítica que saiu foi muito negativa. Se você pega a lista dos dez mais vendidos de ficção não tem nenhum livro brasileiro. É inacreditável. Lá só entram o Chico, o Jô e o Paulo Coelho, que são midiáticos. Meu objetivo não é ser best-seller, mas apenas ser lido.

O objetivo de todo autor, não?

FP – Não, nem todo autor. Muitos querem ser reconhecidos, é uma “panela elitizada”. Existem 500 leitores de ficção no Brasil. E desses 500 leitores, 100 são autores contemporâneos, que ficam lendo uns aos outros, fazendo resenhas dos amigos nos jornais. Não quero fazer isso, não vou entrar nisso. Mesmo sabendo que não vou ter espaço na mídia, que meus livros não vão ter divulgação. Pela distribuição que teve, O analfabeto… está sendo lido pra caramba, estou feliz. Quero que as pessoas leiam meus livros com prazer. Quero propor um tipo de literatura que seja acessível, lúdica, que entretenha, só isso. O que é literatura? A literatura não é um clube de comadres. A literatura é uma forma de expressão que deve atingir a sociedade no maior horizonte possível, não deve se limitar a uma elite.

O que você tem lido?

FP – Tenho lido muitos autores contemporâneos: André de Leones, Nilza Resende, Daniela Versiani, Marcelo Moutinho, Adriana Lisboa, Daniel Galera, Marçal Aquino, Ana Paula Maia, Bernardo Carvalho, João Paulo Cuenca…

Você é professor universitário e escritor. Como você lida com o processo de criação?

FP – Tenho horário para escrever. Tomo um café preto e começo a escrever, cheio de restos noturnos de sono. Escrevo em jejum, embevecido pelo sono, uma três horas por dia. Tenho disciplina. A formação acadêmica não bloqueia o processo de criação, desde que não se fique refém da formação acadêmica — o que acontece frequentemente. Estudei muita literatura para entender o que não quero fazer. O jornalismo me ajudou a entender o que quero fazer: escrever com uma linguagem límpida, cristalina e fluente. Eu sou dos professores que acredita no diálogo claro, sem pompa, sem academicismos.

O Analfabeto… É apresentado como um romance-denúncia sobre a precariedade do sistema de ensino universitário brasileiro. A literatura precisa ter uma função política?

FP – Uma coisa é literatura panfletária e outra coisa é literatura engajada. Não faço literatura panfletária, não defendo ideologias nem partidos. Faço literatura engajada, o que é uma redundância porque toda literatura é engajada, no sentido em que não é solta no mundo, tem função mesmo que não se proponha a ter. O meu engajamento é mais explícito porque tem a intenção explícita de provocar um debate. Gosto de provocar essas discussões. No próximo livro, vou mexer num vespeiro: a psicanálise. Não sei se você sabe, mas a psicanálise não tem regulamentação no Brasil. Quero fazer essas discussões através da ficção, não quero mais escrever livros acadêmicos, tenho oito publicados. Eu quero ser lido por todos e não só pela academia. Quero me comunicar, discutindo temas relevantes. Não significa que eu seja panfletário, sou engajado no tema e quero provocar reflexão sobre esse tema.

Em O Analfabeto… Você une a crítica ao universo acadêmico com a literatura policial. Por quê?

FP – Porque a universidade brasileira é um caso de polícia. É a única explicação. Tanto é que a Receita Federal multou recentemente uma universidade em R$ 478 milhões por sonegação fiscal. A instituição é filantrópica a vida inteira, mas chega num determinado dia ela monta 50 campi e decide vender ações na Bolsa de Valores. Mas cadê o dinheiro que a ajudou a crescer, que veio de isenções de impostos exatamente por ser filantrópica? Isso é estelionato fiscal!

O livro remete ao caso do analfabeto que se classificou em oitavo lugar no vestibular de direito da Universidade Estácio de Sá, em 2001. E você foi vice-reitor da Estácio de Sá. Como é isso?

FP – Primeiro, quero deixar claro que o livro não é sobre a Estácio, apenas se apoia em dois episódios que aconteceram lá para ancorar a narrativa. Todo o resto é ficção. Aliás, gosto da universidade e das pessoas que estão lá. A Estácio em nenhum momento se manifestou oficialmente. É óbvio que houve reações, tenho amigos que me contam. No livro, o reitor Jaime Ortega é uma mistura de vários reitores que conheço, a maioria deles conheci. O objetivo era criar os personagens a partir de pessoas que conheço. Mas não sou contra o ensino privado, que fique claro isso. Quando fui vice-reitor, ainda não havia essa história de lançar ações na bolsa, foi nesse momento que saí da universidade privada e fui para universidade pública. Então, por isso, estou bem à vontade. O livro é ficcional, embora muitos episódios tenham saído do jornal.

Quais escritores você admira?

FP – Gosto muito do Rubem Fonseca, do Marçal Aquino, do Bernardo Carvalho e do (Luiz Alfredo) Garcia-Roza — este indicou uma leitora especial, sua editora, que me ajudou muito com o livro. N’O analfabeto…, faço uma homenagem aos escritores brasileiros de romances policiais. Cito uns seis ou sete.

Você também trabalha com muitos clichês n’O Analfabeto… Não é um risco?

FP – Os escritores tratam os clichês com o mesmo clichê que demonizam. É sinônimo de pouca criatividade e de repetição, mas esquecemos que eles podem ser usados como identificação pelo leitor. O problema é que ao nos identificarmos com eles aparece o medo de que o outro veja em nós um sinal claro de falta de erudição, de baixa cultura. Mas usamos clichês o tempo todo, com o irmão, a mulher, o vizinho. Pode parecer um paradoxo, mas não é: uso clichês para desconstruir os próprios clichês. Os riscos são inevitáveis. Para atravessar uma rua, eu corro o risco de ser atropelado. Utopia é acreditar que você estará vivo no dia seguinte. Não vale a pena escrever se não puder correr riscos. Vou continuar com os clichês e estereótipos porque eu tenho a noção do papel deles, são estratégias para os personagens e para a narrativa. Julgar alguém pelo estereótipo é uma avareza cognitiva que está presente na cultura o tempo inteiro. Uso os estereótipos tentando tornar os meus personagens complexos e marcar o leitor. Não quero deixar cascas de bananas na travessia do leitor, quero que seja lúdico. Quero que os meus leitores alcancem os livros “chatos, herméticos e bestas”.

Em 1998, você escreveu no livro A volta dos que não foram (7letras): “as elzas do catete sucumbiram ao mercado. Foram substituídas pelas patricinhas da Barra, ou melhor do Barra, o shopping”. E em 2008, no livro O Analfabeto que passou no vestibular: “a Barra da Tijuca é uma fauna em equilíbrio homeostático. A cadeia alimentar está bem definida. Não é difícil perceber quem come a carne ou vive dela. (…) Mas a variedade sociológica de espécies sobrevive em harmonia apenas pela unidade religiosa em torno de seus templos, que aqui são chamados de shopping centers”. A crítica continua…

FP – Tudo que faço é provocar discussão, é isso que estamos fazendo aqui. Há uma série de preconceitos e estereótipos com a Barra da Tijuca, então vamos colocar tudo isso no enredo. Adoro morar no Jardim Oceânico, é um pedaço do subúrbio dentro da Barra. Mas ninguém nunca vai dizer isso, porque será criticado, chamado de emergente. Esse é um clichê difundido por intelectuais que criticam os clichês. A Barra é tudo aquilo que descrevo no livro, mas também é o contrário. Tenho que trabalhar com o estereótipo para desconstruir o próprio estereótipo, é dialético. Tenho de criticar para combater os estereótipos e desconstruir mitos. É uma estratégia de risco, eu corro esse risco.

Você trabalhou na extinta TV Manchete. Como foi essa experiência?

FP – Primeiro trabalhei no jornal O Dia. Depois fui morar na Espanha. Em 1995, de volta ao Brasil, fui trabalhar na TV Manchete. Eu estava começando o mestrado quando vi no jornal um anúncio para o curso Bloch de repórter. Fiz uma prova escrita e fui um dos 40 aprovados, em mais de 400 inscritos. Por fim, fui o aluno selecionado. Em janeiro de 1996, comecei a trabalhar na emissora. Acredito na sorte. Mas já percebi que quanto mais trabalho mais sorte eu tenho.

No livro Teoria da biografia sem fim (Mauad, 2004), você pontua que atualmente as celebridades são biografadas diariamente pelas mídias. Como é escrever uma biografia hoje?

FP – Esse livro é a parte teórica da minha tese de doutorado, é um método de se fazer biografias. Eu critico o método utilizado por Ruy Castro e Fernando Morais, embora eu goste muito deles. Ruy Castro costuma dizer que ninguém sabe mais sobre Garrincha do que ele. Nem o próprio Garrincha sabia. Não é verdade! O que ele escreve é uma versão da vida. É o que Pierre Bourdieu (1986) chama de “A ilusão biográfica” (artigo presente no livro Usos e abusos da história oral (FGV, 2006. 8ª ed.)), a ilusão de que se pode circunscrever a história de uma vida com começo, meio e fim. Eu penso que isso é impossível. Por isso, elaborei os “fractais biográficos”. Por exemplo, escrevi a biografia do Adolfo Bloch em que cada capítulo é um fractal contado por alguém: o jornalista, o judeu, o empresário… O autor age como um mediador e não como um biógrafo.

Aos 27 anos, você publicou A volta dos que não foram (7letras, 1998), resultado do projeto de mestrado em Literatura Brasileira realizado na PUC-Rio, em 1998. Na introdução, você afirma: “Durante muito tempo, eu achei que tinha nascido na época errada. Queria participar da Passeata dos Cem Mil. Discursar para estudantes. Frequentar o Opinião. Acompanhar o Lamarca no sertão da Bahia. Lutar com Marighella. Ter um codinome, marcar ponto todo mês, por segurança (…)”. Quais seriam as utopias da Geração Web?

FP – Vejo essa geração com muito otimismo. Os jovens são muito antenados, produzem, estão lendo, criticam… Há um companheirismo nesse trabalho. Sou um professor atento à produção dessa geração. A única coisa de que tenho medo é que essas panelas, que tanto critico, tomem conta da mente desses jovens. Isso é triste e pobre. Quando escrevi esse livro, eu também percebia que aquela época era estereotipada. O Fredric Jameson, em Pós-modernismo: A lógica cultural do capitalismo tardio (Ática, 1996) explica como o que nós temos é uma imagem sobre uma determinada época. E essa imagem gera uma série de mitos. Quando digo que gostaria de estar com Lamarca pelo sertão é porque assisti ao filmeLamarca, do Sérgio Rezende e li sobre o personagem. Essa imagem pop produz simulacros. E refleti sobre esse sentimento, por isso o nome do livro A volta dos que não foram. A geração pós-68 não era alienada. Assim como acho que a geração da Internet não é alienada. A tendência de quem envelhece é considerar a geração anterior melhor do que a atual, isso é uma besteira. Você só chega à conclusão que é uma besteira quando se vê fazendo a mesma crítica. A Internet é uma utopia contemporânea, ainda tem muito para ser explorada.

Você possui cadastro no Orkut e mantém um site —http://www.felipepena.com.br — onde disponibiliza trechos de livros, programas de aulas, informações biográficas e divulga eventos. Como é a sua relação com a web?

FP – Uso a Internet como uma ferramenta de divulgação. Também é uma forma de chegar aos meus alunos. É uma forma de comunicação, abre muitas portas. E a literatura se vale muito da Internet, há muitos autores que publicam em blogs. As editoras e os cadernos literários deveriam se interessar mais com essa produção. O “Prosa e Verso” já faz isso muito bem.

Qual será o próximo livro?

FP – O próximo livro sairá por uma grande editora. A ideia já foi aprovada. Estou escrevendo. Assim como O analfabeto…, é baseada numa pesquisa de campo. Discuto o papel da psicanálise, dos psicanalistas e dos pacientes.

O que diria para um jovem que deseja ser escritor?

FP – Eu diria uma frase de Baudelaire: “Deve-se estar sempre embriagado, de poesia, de virtude, à tua escolha. Mas embriaga-te, embriaga-te sem cessar. Se você não se embriagar da escrita, nunca será um escritor.”


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