FERNANDA MONTENEGRO

 Atriz comemora 80 anos e prorroga temporada no rio

Por Ramon Nunes Mello [Portal Cultura.rj 2009]

   

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Aos 80 anos, celebrados em outubro, a atriz Fernanda Montenegro quer viver sem tempos mortos. O slogan, que marcou a geração 68 na França, é também o nome do monólogo em que a atriz encena a história da intelectual francesa Simone de Beauvoir. Se a escritora arrebatou o século XX com seus ensaios sobre a condição feminina, Fernandona vem revolucionando a dramaturgia brasileira a cada novo trabalho no teatro, cinema ou televisão.

Se Simone foi duramente criticada pela burguesia ao manter um longo relacionamento aberto com o filósofo Jean-Paul Sartre, Fernanda optou por um casamento tradicional de 60 anos com o ator Fernando Torres, de quem se despediu há um ano, e com quem teve dois filhos, a atriz Fernanda Torres e o diretor Cláudio Torres. Entre semelhanças e diferenças, Fernanda reza pela cartilha de Simone e afirma que não se nasce mulher, torna-se mulher.

Após escolher a periferia do Rio de Janeiro para a estreia de Viver sem tempos mortos, Fernanda passou por São Paulo – sucesso de público e crítica – e, agora, prorroga até novembro as apresentações do espetáculo dirigido por Felipe Hirsch, em cartaz no Teatro Fashion Mall.

Em entrevista ao Cultura.rj, a atriz fala sobre o subúrbio, o teatro, a perda do companheiro e seus sonhos.

Você nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, em Campinho. Essa condição foi importante na decisão de estrear o monólogo na Baixada Fluminense?

Fernanda Montenegro – Sim. Em nenhum momento me perguntei se o público entenderia Simone de Beauvoir. Não carrego o preconceito de achar que as pessoas do subúrbio têm menos intelecto, o que eles têm é menos oportunidade. Não há cidadania de segunda classe no subúrbio. Nasci em Campinho, mas depois morei muito tempo em Jacarepaguá, aliás, foi onde frequentei a primeira escola pública. (risos) Isso já tem mais de 70 anos. Sou uma suburbana. Eu adoro o subúrbio. Na época em que morei, o subúrbio era uma zona rural, havia casas com quintal, bichos domésticos, árvores frutíferas – não digo pomar porque é muito pedante. Não havia essa saturação de prédios. Ah, e aquela neblina de manhã cedo. Era muito bom, tanto que anos depois eu e Fernando voltamos ao subúrbio. Fernando era carioca, embora a família fosse do Espírito Santo, ele morou numa fazendola.

Você e Fernando ficaram muitos anos juntos…

FM – Nós ficamos juntos 60 anos. Hoje em dia ficar – não rapidinho –, ficar muito tempo já é uma atitude revolucionária.

Como é lidar com a vida após a perda do Fernando?

FM – Olha… Não é que seja impossível, mas a vida toma outro rumo, se torna outra coisa. Foram anos tão juntos que é como se ele estivesse junto. Tem a falta da presença física, mas é a cumplicidade que é inerente. Compreende… É como se…

Você estreou no teatro, aos oito anos, fazendo um papel masculino numa peça chamada Dois sargentos…

FM – Sim. Estreei no Campinho, na Paróquia.

Como é estrear, aos 80 anos, fazendo uma feminista?

FM – Para você ver como eu caminhei… (risos) É maravilhoso.

Como é participar da história do teatro brasileiro?

FM – Eu não armei isso, não esperei. A vida foi me surpreendendo à medida que fui vivendo. Eu amava, desde cedo, isso que eu quis fazer. Quanto aos resultados?! Se nada disso tivesse acontecido, se tivesse sido menos, eu estaria fazendo o que sempre quis fazer. Eu nunca esperei que Deus me desse o que me deu, que o teatro me desse o que me deu. Mas na medida em que fui trabalhando o acaso, segundo Simone e Sartre, a vida foi me dando. E assim eu fui tocando a minha vida. Opa! É por aqui? É por ali. É por aqui. Se apanhou, levanta, adiante. Não pode por aqui? A gente faz uma curva. E vamos vivendo porque são 60 anos de palco e cinco anos da Rádio Ministério, na Praça da República.

Nessa caminhada você fez personagens marcantes: Fedra, Lady MacBeth, Heda Glaber, Dona Doida, Romana…

FM – Eu tenho um repertório do qual me orgulho muito, principalmente em relação aos autores brasileiros: Adélia Prado, Jorge de Andrade, Naum Alves de Souza, Nelson Rodrigues, Millôr Fernandes, Silveira Sampaio, Abílio Pereira de Almeida… E estou me esquecendo de alguns nomes. E na TV, fiz durante 10 anos um teleteatro, ao vivo, com Sérgio Britto, Fernando Torres e Flávio Rangel. Nós fizemos 400 textos ou mais.

E passou pela TV Tupi, Excelsior, Record, Globo…

FM – Quando a televisão começou, em 1951, eu fui a primeira atriz contratada pela TV. E logo fizemos uma retrospectiva do teatro brasileiro e teatro internacional. Nós começamos com Anchieta. Comecei fazendo Antígona, que não poderia estar fazendo, pela coragem e intuição maluca.

Como está o teatro contemporâneo?

FM – Não vejo todo teatro que é feito hoje, mas vejo alguns espetáculos. O Brasil produz muitos espetáculos bons. Há muitos grupos importantes tanto no Sul, Sudeste e Norte do país, com uma produção muito diversificada. Eu seria muito cretina se respondesse como está o teatro hoje. Vejo espetáculos horrendos e espetáculos maravilhosos. Ainda estou dentro do processo para fazer uma avaliação profunda. Está se fazendo o teatro, do ponto de vista de produção, que se pode fazer.

Em 1985, você já foi convidada para ser Ministra da Cultura do Governo Sarney. E se manifesta sobre política cultural toda vez que acha necessário. Como avalia a política cultural de hoje?

FM – Acho que estamos numa encruzilhada. Temos um passado, que eu vivi, de total independência do Estado. Você ia a um banco, se endividava e pagava o espetáculo com a bilheteria. Isso com um público diversificado, do espetáculo experimental ao espetáculo mais careta. Era uma independência. Não estávamos nesse funil que leva a todos nós a depender de uma comissão, que pode ser ideológica ou partidária. Sabemos que as comissões podem ser manobradas. Há um perigo de se dividir para governar: o teatro dos grupos e o teatro dos ‘globais’. Isso é uma loucura! Não vejo como aceitar esse preconceito. A sua vida é livre para você caminhar para onde há trabalho. Não pode haver esses estigmas. Não conheço ator de televisão. O Wagner Moura é ator de televisão e está fazendo Shakespeare. Então ele deveria ser olhado preconceituosamente como ‘ator de televisão’? Isso é muito doente e agressivo. Não sei onde vão parar essas discussões. Não sei. Não consigo entender o que está acontecendo. Sou de uma época de total independência: nós assinávamos os papagaios e pagávamos com a bilheteria. Por outro lado, todo mundo diz que teatro é caro. Nunca o teatro foi tão barato. Você tem teatro de cinco, 10, 20 e 50 reais… Meu Deus? Talvez a plateia esteja desmotivada, mas isso é outro problema. Não sei me mexer nesse mundo. Organizamos esse projeto e tivemos o patrocínio de uma firma através da Lei Rouanet, além de outras participações: Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Oi, SESC e Mafre – esta empresa está colaborando com a maior parte para se fazer esse espetáculo. Estou envolvida nessa peça, lutando por ele, se desdobrando como se fosse um ‘estado de emergência’. É a sopa na esquina. O que vai seguir daí? Não sei. Eu gostaria que o teatro não tomasse um rumo de ‘dirigismo’. Gostaria que o atendimento ao teatro não ficasse subordinado a preconceitos de nenhuma ordem. Mas não sei dizer que rumo isso tudo vai dar.

No livro Viagem ao outro – sobre a arte do ator, você cita Shakespeare, que se refere aos atores: “Nós somos feitos à matéria de que são feitos os sonhos”. Quais são seus sonhos?

FM – O que eu sonho? Ter fôlego, memória e saúde. Porque vontade de fazer as coisas e continuar no meu projeto de vida eu tenho. É engraçado que, numa certa altura da vida, acabamos meio fenômenos: tem 85 e fala, tem 85 e pula, tem 85 e faz uma cena que faz um ‘quatro’ bêbado… (risos) As pessoas contam como se fosse uma atração de circo. Não acho ruim me compararem a um artista circense, fiz circo na infância e tenho muito orgulho. Mas esse fenômeno circense tem de funcionar.

Você sempre trabalhou com diretores de diferentes gerações e tendências. Como está a parceria com Felipe Hirsch?

FM – Está ótima. Ele não tem nenhuma prepotência do saber, embora saiba. Ele não tem nenhuma violência cênica, de cutucar ou ‘neurotizar’. Pelo menos, ele segura muito bem os demônios dele. Então, trabalhamos na paz e com criatividade. Há diretor que precisa da doença para poder funcionar, já peguei muitos dessa ordem. Esse encontro com Felipe é na paz.


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