FRANCISCO BOSCO

 ENSAIOS EM VERSO E PROSA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

 franciscobosco

 

Francisco Bosco é ensaísta, compositor e poeta. Entretanto, ele se considera “primordialmente ensaísta”. Seu pensamento passeia no universo da música e poesia — as primeiras publicações (hoje renegadas) foram livros de poemas. Não é raro encontrar artigos do autor com o crédito de crítico e poeta; confusão que o agrada.

Banalogias, seu livro de ensaios, exibe uma relação afetiva e criteriosa com as palavras, que foge da frieza dos textos acadêmicos. O mérito de Francisco é oferecer ao leitor a possibilidade de pensar assuntos do cotidiano, aparentemente banais, de forma crítica e sensível. Habilidade de cronista, eu diria.

Francisco costuma dizer que “escrever é uma forma de manter um pacto com a admiração, isto é, com a erotização do mundo”. Essa relação, explícita nos textos, também está presente em sua palavra oral. Cada palavra é cuidadosamente escolhida para melhor revelar o pensamento, rigor de poeta e professor. Resultado? Uma conversa que desperta a percepção.

Como surgiu o Banalogias (Editora Objetiva, 2008)?

Francisco Bosco – Esse livro é o resultado de um percurso longo que remonta ao meu livro de poesia Da amizade (Editora 7Letras, 2003) e à minha dissertação de mestrado em teoria literária (defendida na UFRJ, também em 2003). É uma espécie de síntese das diversas vertentes da minha escrita e das questões que eu me colocava nessa época. Tanto no livro de poesia como na dissertação de mestrado há a presença forte de (Roland) Barthes.

Fabrício Carpinejar disse que você “mudou a pauta do ensaio”, que “costuma sofrer uma linguagem acadêmica, casmurra, com equações que espantam os iniciados”. Há influência de críticos como Ezra Pound, Roland Barthes, Walter Benjamin, por exemplo?

FB – Sim. Na escrita do Barthes há uma reivindicação central, que é a assunção do corpo pelo discurso crítico-teórico. Ele diz que foi formado por dois sistemas opressores, o marxista-historicista e o cientificista. Ou seja, o estudo literário dava pouco espaço para um tipo de escrita que trouxesse a marca da subjetividade. O que Barthes faz é trazer a possibilidade de um pensamento pessoal e inventivo para o campo da crítica literária. A partir dele, as fronteiras da crítica e da literatura se borraram muito. Ele tem um texto lapidar sobre esse assunto: “Da obra ao texto”.

Roland Barthes foi fundamental na sua formação?

FB – É verdade. Barthes desenvolveu uma espécie muito particular de semiologia. Ele radicalizou a negatividade fundamental da semiologia — o fato de ela não ter propriamente um objeto, pois é um conhecimento do signo, e qualquer coisa é potencialmente um signo —, levando seu olhar a fenômenos tradicionalmente ignorados pela tradição teórica. Banalogias procura levar adiante essa espécie de paixão pelo sentido, essa prática incessante de procurar dar espessura a tudo que há no mundo, até e sobretudo às coisas mais banais, aparentemente foscas, intratáveis.

Praticamente o olhar de um poeta.

FB – O que você acabou de dizer me agrada muito. Sabe por quê? Existe um frequente mal-entendido a meu respeito que eu gosto de alimentar. Quase sempre que publico um texto em jornal ou revista o crédito é de poeta e ensaísta. Entretanto eu não escrevo poesia desde 2003. Mas adoro ser chamado de poeta porque meu ensaísmo tem uma relação muito forte com a poesia, a começar por ele estabelecer uma relação mais “imediata” com a vida. Em geral, costuma-se pensar que a literatura é um discurso “direto” sobre a vida; a crítica, uma metalinguagem; e a teoria, uma metametalinguagem. Então o que eu quis fazer foi uma espécie paradoxal de teoria concreta.

Um trabalho entre a poesia e o ensaio…

FB – O compromisso desse livro é com o prazer, a ludicidade, a inventividade e o sentido. Não há compromisso com o saber, a verdade ou a demonstração. Existe uma forma de viver poética que considero existencialmente muito salutar. Quando um poeta tem um vislumbre, uma protoideia, uma abertura para escrever um poema, ele não lê uma série de livros com a finalidade de escrever esse poema. É a totalidade do lido e do vivido que será mobilizada a cada verso. Já o filósofo, o teórico, lê uma série de livros ad hoc, ou seja, há neste caso uma distância grande entre a ideia e a ação. O estudo é aquilo que permitirá que a ideia seja realizada nas suas melhores condições, mas é também aquilo que adia, indefinidamente, a realização. Essa tensão, para mim, é dolorosa. (Giorgio) Agamben resumiu-a bem quando disse que “Nada se compara à tristeza do letrado”. Em minha forma de viver ensaística, eu tenho procurado encurtar essa distância entre a ideia e a ação.

Qual o tema da sua dissertação de mestrado?

FB – É sobre literatura moderna. Basicamente, tento identificar e conceitualizar quais foram os procedimentos da literatura moderna que começaram a mudar drasticamente a relação do leitor com o texto, tornando a produção de sentido mais lenta.

Como a filosofia interage na sua produção?

FB – Acredito, de uma maneira geral, que meu trabalho é dotado de um espírito filosófico, o que é diferente de uma escrita filosófica. Embora Banalogias esteja numa coleção intitulada “filosófica”, ele não é propriamente um livro de filosofia. Não há um diálogo direto com a tradição filosófica, com seu campo conceitual. O que há é o espírito filosófico, que pode ser entendido como na bela definição citada por Arthur Danto: “O filósofo é aquele que mostra que as coisas que parecem iguais são, no fundo, diferentes; e as coisas que parecem diferentes são iguais.”

Sempre que falo do seu livro, eu não penso em ensaio, é inevitável. Penso crônica. Como é essa relação?

FB – O Carpinejar falou disso em termos adequados: segundo ele, há um aproveitamento da crônica para o ensaio. Gosto dessa colocação porque esse livro tem pontos de contatos e pontos de desencontros com a crônica — esses últimos são mais decisivos do que os primeiros. Quais são os pontos de contato: a relação “direta” com a vida, o humor, a leveza, o olhar poético… Mas a crônica é uma tentativa de se irmanar com o tempo, daí seu próprio nome e o fato de ela estar ligada a suportes efêmeros como o jornal. Esse compromisso com o tempo é também o seu maior risco: o de não sobreviver a ele. É diferente da relação conceitual, que procura fixar as multiplicidades. Banalogias se relaciona com o conceito. E o conceito quer durar.

Você escreve o ensaio “O indireto afetivo na linguagem do carioca”, que retrata exatamente o “jeitinho” carioca de se relacionar. Fale um pouco sobre esse texto.

FB – De todos os textos do livro, eu diria que esse é o mais próximo da crônica. Esse texto surgiu antes do livro. O livro é um grande desdobramento do texto “Indireto afetivo”, que surgiu num momento de impasse da minha escrita. Eu já tinha escrito o livro Da amizade e em seguida defendido minha dissertação de mestrado. Eu percebia que minha escrita de poesia se esgotava, dava lugar a uma escrita teórica, em que, entretanto, eu não conseguira ainda obter um resultado inventivo. Esse texto foi uma tentativa de sair desse impasse, por meio de uma espécie de síntese entre a poesia — que se esgotava, enquanto tal — e a teoria.

Você é autor de dois livros de poesia: Florestado (editora 7 letras, 1996) e Da Amizade (editora 7 letras, 2003). Não há interesse de voltar a escrever poesia?

FB – Não é uma questão de interesse. Acho que não vai mais acontecer. Não está mais no horizonte, só isso. Hoje não tenho mais ideias-poemas, só ideias-ensaios.

Por que você renega os livros que publicou dos 18 aos 22 anos? Há até um ensaio sobre o tema no Banalogias

FB – Sou recordista mundial de livros renegados, tenho três (risos). O Da amizade não é renegado. O que faz com que um livro seja renegado? É o livro ser publicado num estado ingênuo de linguagem.

Você também analisa as dedicatórias. Qual foi a sua pior dedicatória?

FB – A gente nunca sabe (risos). O que falo nesse ensaio é que existem dois sistemas que se chocam quando o escritor vai autografar o livro: o sistema literário e o sistema afetivo. E eles nem sempre coincidem. Por exemplo, têm muitos amigos que nem vão ler o livro, só foram ao lançamento porque gostam de você. O que está em jogo é uma crise social da linguagem. A linguagem do livro não se comunica com a linguagem dos amigos que não o lerão. As dedicatórias tentam lançar uma ponte impossível entre esses dois mundos — e com isso acabam revelando o mal-estar dessa incomunicabilidade.

No ensaio sobre futebol, “Os nomes e a bola”, você examina a afetividade brasileira de apelidar os jogadores. Há pessoas que consideram o futebol alienante. Concorda?

FB – Nos últimos anos, mudou muito a relação do futebol com o pensamento intelectual. É cada vez mais frequente a produção de textos críticos sobre futebol. Atualmente, quem pensa melhor essa questão é José Miguel Wisnik. O futebol está relacionado às nossas maiores mazelas, aos aspectos mais perversos da nossa formação: a escravidão brasileira e a ociosidade a que os negros foram condenados após a abolição. Wisnik cunhou uma expressão perfeita para o futebol: Veneno remédio (título do livro de ensaio sobre o assunto) (Companhia das Letras, 2008). Existe uma dificuldade de se aceitar o futebol como realização brasileira pela relação com a nossa miséria, assim como ocorre com o carnaval e o samba. Mas temos que saber pensar o Brasil na sua ambiguidade irredutível, pois a chance de afirmarmos um projeto original de civilização está ligada a ela.

Que projeto é esse?

FB – Eu estou do lado dos intérpretes do Brasil que pensam o nosso projeto de civilização a partir da originalidade da formação do país, tentando detectar o que nela há de bom e ruim: Gilberto Freyre, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Caetano Veloso e a Tropicália… Atualmente, Antonio Risério, José Miguel Wisnik, Antonio Cicero, Roberto Mangabeira Unger… Estou me esquecendo de outras pessoas. Mas é a essa configuração que me alinho.

Ensaísta, crítico, compositor, poeta. Como se dá a intersecção desses trabalhos? Qual a diferença no processo de criação da literatura e da música?

FB – Sou primordialmente ensaísta. Hoje em dia quase não faço mais letras, comecei a pensar ensaisticamente a canção e isso foi tomando o lugar das letras. Além disso, meu trabalho como letrista tem uma ambição menor do que como ensaísta: apenas escrever uma boa letra para que ela ajude a formar uma boa canção.

E a questão do fim da canção? O que pensa sobre isso?

FB – Foi Chico Buarque quem trouxe essa questão. A canção popular no Brasil se formou no século XX com determinadas características: melodia muito marcante; letras com forte relação com a coloquialidade; desenvolvimento harmônico a partir da bossa-nova; relação com a alta cultura sobretudo a partir dos anos 1960… A canção que se apresenta hoje não tem essas características, sobretudo o rap. O rap faz tabula rasa da harmonia e da melodia, a letra tem uma crueza sem precedentes na tradição. Sobretudo Os Racionais MCs, que mostram uma cisão com o registro da canção. Eles estão dizendo: “Nós somos contra toda a interpretação do Brasil que postula uma harmonia.” No primeiro momento orap traz a palavra da cisão. Portanto, o que o Chico Buarque diz é que a canção hoje é diferente da canção no século XX. Mas é ainda a canção.

Qual a diferença no processo de criação na música? Você toca algum instrumento? 

FB – Não toco nenhum instrumento. Escrevo a partir de uma melodia que recebo. O que considero importante é que minha formação teve uma relação com as formas fixas da poesia. O meu livro Florestado (que é um renegado) é todo em decassílabos. A experiência com a forma fixa possibilita agir melhor diante das coerções da melodia. Não é à toa que Antonio Cicero é um grande compositor. Considero uma impossibilidade teórica fazer uma letra para ser musicada. Uma letra só é letra se ela estiver atrelada a uma melodia. O que se faz é um texto, que pode se tornar uma letra se receber uma música. É uma tolice achar que um texto é mais musicável do que outro. Se fosse assim a Cecília Meireles seria sempre musicada. E, no entanto, Caetano Veloso pega o poema concreto “Pulsar”, aparentemente imusicável, e faz uma canção belíssima.

Você faz música, escreve ensaio, pensa a canção. É impossível não relacioná-lo a escritores que fazem o mesmo: Eucanaã Ferraz, Antonio Cicero, Wisnik… Como lidar com as comparações?

FB – Hoje em dia está muito mais “borrado”. Perguntam muito: “Cadê os críticos literários jovens?” São escritores, cancionistas… As fronteiras não estão mais definidas.

Você nasceu num meio musical, seu pai (João Bosco) é cantor e compositor. De onde surgiu essa vontade de se dedicar à literatura?

FB – Acho que tem uma razão existencial. A adolescência estigmatiza a diferença, opera com registros ”identitários” grupais: os nerds, as patricinhas, osplayboys… Eu nunca me identifiquei plenamente com nenhum desses grupos (e nem eles comigo). E isso causava uma sensação existencial de desconforto, de atopia. Por acaso, esbarrei na literatura e descobri que por ela, com ela, poderia fundar um lugar próprio. Meus pais tinham uma biblioteca com livros maravilhosos, em algum momento bati ali e fiquei.

Você não tem blog, mas publica na Internet. Como você se relaciona com universo digital?

FB – Sou viciado em e-mailsE-mail é algo extraordinário porque você acessa as pessoas de maneira menos invasiva, elas respondem quando puderem. O blogtambém é interessante do ponto de vista das trocas afetivas e da interlocução entre artistas. Mas eu não tenho tempo mental para fazer blog. É preciso estudar.

Que escritores você destaca?

FB – Em poesia, gostaria de falar do Renato Rezende. Ele tem um livro lindo chamado Noiva, que merece um olhar especial. Há muitos outros: Angélica Freitas, Caio Meira, Claudia Roquette-Pinto, Eucanaã Ferraz, Paulo Henriques Britto… Em prosa leio os mais jovens, mas a geração mais velha, por ser mais velha, já tem uma obra mais desenvolvida, como Bernardo Carvalho, Chico Buarque e Milton Hatoum. Não tenho dúvidas de dizer que Budapeste(Companhia das Letras, 2003), de Chico Buarque, é um livro que fica para a História. E Dois irmãos (Companhia das Letras, 2000) é, pra mim, o maior romance brasileiro dos últimos 20 anos.

Budapeste é melhor do que Leite Derramado (Companhia das Letras, 2000), que você resenhou para o Prosa & Verso, d’O Globo?

FB – Sim. No jornal, fiz uma análise teórica, mais neutra. Aqui posso fazer um julgamento mais panorâmico, da ordem do gosto: esse livro não é tão bom quanto Budapeste. E Chico Buarque — o escritor e o cancionista — tem um único defeito: a perfeição.

Quais suas impressões sobre o filme Palavra Encantada?

FB – Esse filme é a transposição para o audiovisual, com todas as implicações que isso tem, de um pensamento crítico-teórico que vem se disseminando nas últimas décadas. É uma contribuição importantíssima a esse debate.

Um ensaio audiovisual sobre a canção.

FB – Essa definição é perfeita.

Recentemente você fez uma crítica sobre o livro Ensaios Radioativos(Confraria do Vento, 2008), de Márcio-André. E o autor reagiu com um artigo-resposta. Como você lida com essas manifestações?

FB – Faz parte do debate público. É desejável que todos digam o que pensam. Eu fui requisitado pelo jornal O Globo para fazer a resenha, li o livro e não gostei. E li com o cuidado e o rigor que me são habituais. Nunca faço nada com negligência, sempre leio com muita atenção. O problema desse tipo de reação é que ela se situa no campo do imaginário, do narcisismo. (Aliás, o livro dele transborda o imaginário. E eu ter identificado isso o incomodou, como sempre incomoda a revelação de um sintoma para quem o apresenta.) É evidente que não concordo com a resposta dele, ela me atribui posturas territoriais que me são completamente estranhas. Mas eu prefiro não tentar dirimir o mal-entendido, porque: 1) provavelmente ele responderia novamente e ressuscitaria os mal-entendidos e ainda lançaria outros; 2) o assunto — o livro dele — não me interessa; e 3) eu não tenho tesão em chafurdar no imaginário. A polêmica do pensamento é com o próprio pensamento, o que já dá muito trabalho.

Que escritores fazem a sua cabeça?

FB – A lista seria tão longa que prefiro não começá-la. Eu sou sobretudo um leitor. Poderia, talvez, deixar de escrever (se bem que acho que não), mas jamais poderia deixar de ler.

Você costuma dizer que “escrever é uma forma de manter um pacto com a admiração, isto é, com a erotização do mundo”. Então você escreve para erotizar o mundo?

FB – As coisas não têm um valor por si mesmas; é preciso ter força de percepção para lhes atribuir valor, para enxergar nelas a beleza, a grandeza, a profundidade. Escrever é uma forma de oferecer ao outro uma percepção das coisas na qual se possa fundar a admiração. E um mundo admirado, por sua vez, é um mundo erotizado.

O que diria para um jovem escritor?

FB – Rejuvenesça.


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