HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA

 E SUAS ESCOLHAS

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

 heloisabuarque

 

Com 70 anos comemorados em 26 de julho — Dia da Revolução Cubana e Dia das Avós —, Heloisa Buarque de Hollanda prossegue a trajetória com vigor intelectual, lançando mais uma (polêmica) antologia:ENTER – Antologia Digital. Desta vez, reúne poetas, prosadores, músicos, cordelistas e quadrinistas que mantêm a relação com a palavra na web.

“Eu abro para a palavra! Hoje a palavra — com toda essa tecnologia digital, com vários suportes — tem a convergência de mídias. E a palavra explodiu, ela vai para todos os lugares. Você querer que ela fique presa no texto, hoje, é uma loucura. Ela pode e está saindo do texto”, explica a ensaísta, que nos últimos anos, tem-se dedicado ao estudo da cultura produzida nas periferias das grandes cidades e ao impacto das novas tecnologias digitais na produção e no consumo culturais.

Responsável por famosas antologias como 26 Poetas Hoje e Esses Poetas – Anos 90, Heloisa defende a ideia de que a produção de uma antologia é um trabalho estritamente autoral, um recorte de sua visão sobre determinada época.

“Acho que a escolha não pode deixar de ser pessoal, você gosta ou você não gosta. Obviamente, vida a fora você vai agregando: estuda um pouquinho, lê um pouquinho…”,confessa a diretora da Aeroplano Editora e curadora do Portal Literal, que, em breve, vai lançar uma biografia intelectual pela Editora Língua Geral e ainda se encanta com as surpresas que a literatura lhe proporciona. As descobertas têm vindo da relação com a periferia.

“Fiz o Projeto Colisões, que veio a molecada de Nova Iguaçu, e mandei dar uma aula sobre Guimarães Rosa. Eles ficaram loucos e eu fiquei emocionada. Aquele bando de criança de 17, 18 anos descobrindo, com o olho arregalado, Guimarães Rosa para depois fazer um rap. Posso morrer, estou feita, estou no lucro. Eu não imaginava que fosse ver isso, entendeu?”

Você é muito conhecida pelas antologias que organiza, principalmente com 26 Poetas Hoje (anos 70) e Esses Poetas (anos 90). Agora você lança ENTER – Antologia Digital, onde há uma abertura para poetas, prosadores, músicos, quadrinistas…

Heloisa Buarque de Hollanda – Eu abro para a palavra! Hoje a palavra — com toda essa tecnologia digital, com vários suportes — tem a convergência de mídias. E a palavra explodiu, ela vai para todos os lugares. Você querer que ela fique presa no texto, hoje, é uma loucura. Ela pode sair do texto, ela está saindo do texto. No ENTER, a gente abre para fazer podcast e videocast, todo mundo entrou nessa. E quadrinhos… Quer dizer, os suportes ficaram todos muito disponíveis; acho que pela leveza e pelo preço. Todo mundo pode fazer, se usar outros recursos para a palavra. Antigamente, a palavra estava grudada no papel, no papel que ia ser impresso, na mão de uma editora. Soltou e multiplicou. E foi muito bom, não é? Porque aquele povo que está ali (na antologia digital), eu garanto a qualidade. É gente boa, não teve concessão. Juntamos muita gente. Tiramos muita gente, teve muita gente boa que tivemos que tirar. Na primeira varredura, juntamos muita gente. Existe muita gente fazendo muita coisa boa, isso é maravilhoso.

Como é o processo de escolha dos autores para uma antologia?

HBH – Acho que a escolha não pode deixar de ser pessoal, você gosta ou você não gosta. Obviamente, vida afora você vai agregando: estuda um pouquinho, lê um pouquinho… E você vai percebendo que têm ali alguns truques de qualidade: uma pessoa escreve melhor do que a outra; a outra pessoa tem um universo simbólico mais rico; tem gente que tem mais o que dizer; tem gente que tem pouco o que dizer, mas diz bem… Enfim, têm vários padrões, várias regras, que você pode ir medindo a literatura emergente. Mas o que você faz numa antologia é botar o que você gostou. Na primeira (antologia) eu fui boba. Na de 76, dos poetas marginais, fiquei querendo representar uma geração. E não representei, faltou muita gente. E tem muita gente dali que não ficou naquela geração.

Por exemplo?

HBH – Zulmira Ribeiro Tavares, Antônio Carlos Secchin, essas pessoas foram para outro caminho…

Secchin está na ABL…

HBH – Secchin é da Academia Brasileira de Letras. Ele é um bom poeta, mas não é um que marcou como poeta independente. Ele marcou como um poeta tradicional. Essa coisa de achar que está representando… Levei muita porrada porque não tinha São Paulo, não tinha isso, não tinha aquilo, tinha pouco isso, tinha pouco aquilo… E na outra (antologia) eu quis representar, fiz uma outra para (editora) Abril, chamada Anos 80. Tentei fazer uma coisa representativa, ficou sem perfil. Ela até foi uma antologia bem legal porque foi de momento, ela não existia… Fui querer descobrir Minas, Nordeste, não sei aonde, para representar. Essa coisa de “representar” é mentira, você só representa o seu próprio gosto. É absolutamente seu próprio gosto. Uma antologia é uma obra autoral. É o autor da antologia que diz o que ele gosta; isso não quer dizer que ele esteja certo ou errado. Gosto não se discute, não é? Essa coisa de achar que você vai fazer uma antologia com objetividade é mentira. Quando percebi que tinha piorado muito quando quis melhorar, eu falei: “Agora está valendo, vou soltar a cachorra. Agora vai entrar o que acho bom.” E se não for bom, outra pessoa que faça. Se eu não tiver representando, vem outro fazer, tem tanto espaço para fazer antologia. Então, essa ENTER também é um pouco o que a gente gosta, nós dois. Sabe? Vai ver que outras pessoas não gostam, vai ver que está faltando… Aliás, faltando deve estar porque Internet é imensa. Inclusive, cheguei do Nordeste, fiz uma palestra no Festival de Literatura do Recife, que estava bombando. Fiz uma palestra sobre a palavra no século XXI e mostrei ENTER no telão. Ficou todo mundo: “Não tem Nordeste!” E não tinha mesmo o Nordeste, só tinha a dona Lourdes (Alves), representando o cordel.

Mas o Marcelino Freire está na antologia.

HBH – Não. Marcelino é São Paulo. Não inventa que é Recife. Marcelino é São Paulo, Rio antes de Recife. Ele nasceu em Recife. Aliás, nem em Recife ele nasceu, ele nasceu no interior de Pernambuco.

Em Sertânia.

HBH – É. Quem ficou foi dona Lourdes, mesmo assim representando o cordel, porque a gente quis botar o cordel. Mas, realmente, eu não conheço, é difícil descobrir. Na Internet não tem regional, não sabe de onde vem aquela pessoa ao menos que ela diga. Quer dizer, o Nordeste está mal representado, sim. Eles propuseram: “Vamos fazer um ENTER Nordeste.” Eu achei maravilhoso, a gente escolhe três pessoas para fazer a curadoria e dá um toque final. É algo muito fácil agora que já está formatado, pedindo o podcast e o videocast. E já tem o design que todo mundo adora. A Samara (Tanaka) bombou, todo mundo fala daquele design. Já tem o design constituído, só mudo o conteúdo. É fácil fazer agora outra (seleção). Fazer ENTER 1ENTER 2ENTER 3ENTER 4… (risos)

Essa é a vantagem da antologia digital: acrescentar ou retirar uma pessoa.

HBH – Exatamente. Mas continua sendo autoral. Não é uma antologia interativa, não pode ser. Até pode, mas não foi a ideia. Seria um portal. Eu tenho o Portal Literal, que é colaborativo, onde a gente bota e tira, todo mundo comenta. Não é para comentar, é um livro que a gente fez: digital. As pessoas não acreditam que possa existir um livro digital, ficam querendo passar para o papel. Lá mesmo as pessoas perguntaram: “Não vai para o papel?” Recife tem uma vitalidade tecnológica que Rio não tem. Recife é um polo digital. O emprego da periferia é todo na área digital, tem tecnologia no cotidiano das pessoas. Eu falei que não dá para fazer em livro: “Como vamos fazer um livro que não vai ter imagem, fala e movimento? Colocar no papel vai reduzir o trabalho, vai matar a voz dele.” Eles disseram: “Não. A gente pode fazer um livro e vai falando ao mesmo tempo…” Eles começaram a pirar, a fazer uma viagem de um livro que não é um e-book, que não é o suporte. Mas um livro que consiga fazer tudo isso. E falei que me recuso a fazer um livro com o CD num envelope porque é do século XIX, não é nem do XX (risos). Eles começaram a inventar: “A gente pode inventar a ideia de um ‘blotoks‘, que possa interagir com o texto.” Fiquei fascinada porque realmente a molecada começou a inventar uma coisa. Aí vai ser legal. Ficaram lá estudando, maravilhoso. Para publicar aquilo tem que estudar muito para não ter perda. Vai ter perda? Vai andar para trás? Conseguimos andar para frente, vamos andar para trás?

Sobre os autores que publicam na Internet: existe um diálogo com as gerações anteriores?

HBH – Existe total. O texto é muito parecido inclusive, um texto de sequência, com a geração 70, 80… Essas pessoas estão dentro da tradição. Você está dentro da tradição, bem claramente. Quer dizer, é uma poesia culta. Quem mais fingiu que não fazia isso foi o poeta marginal: “Sou iletrado, a poesia é para jogar fora.” Mas assim mesmo essa poesia é muito literária. É mentira que eles não liam, eles liam, sim. Agora, essa nova (geração) é muito culta, é obviamente muito culta. Todos leram, têm uma tradição. É consolidada, é literatura mesmo. Têm uns lugares que são excluídos, que as pessoas não prestam atenção. Por exemplo: HQ. Botar história em quadrinhos como sendo literatura, você vai ler de outro jeito. Isso que eu acho importante politicamente a gente fazer. Você pega uma coisa que todo mundo diz que não é literatura, é outra coisa. É, sim! Todo mundo vai, pelo menos, olhar. Pode ser que não concorde, mas vai olhar de uma forma mais qualitativa. Os quadrinhos hoje estão com uma qualidade absurda. Não é mais o Super-Homem.

Tem o Gabriel Bá e Fábio Moon…

HBH – São maravilhosos, é de uma criatividade, uma narratividade estupenda. Nem chama mais quadrinhos, chama novela gráfica: graphic novels. É importante fazer, quando se tem um canal na mão, a gente tem também uma responsabilidade. Uma responsabilidade de agitar um mercado, agitar um olhar mais tradicional. Então, é legal você dizer: “Isso aqui é literatura, sim!” Dá um briga, todo mundo diz que não é, que é… Mas olhou.

Abre caminhos?

HBH – Abre um olhar, passa a olhar com respeito. Aí xinga, mas não tem importância. Acho isso muito importante, é a função política de qualquer antologia. “Opa! Presta atenção, essa gente aqui não é débil mental.” Como sempre fiz (antologias) de contemporâneos, sempre foi nesse sentido.

Você também pesquisa a produção literária da periferia. Fale um pouco sobre esse trabalho.

HBH – A periferia está vindo com um trabalho novo, fantástico, de literatura. Está vindo com uma dicção própria e com uma visão de literatura como poder. Você tem que ler, mas não é para viajar no seu imaginário, rico e esplêndido. Tem que ler para sobreviver, falar. E chegar lá e pedir o que você precisa. A fala tem poder. É um treino, uma capacitação: falar, argumentar, saber. A periferia vê a literatura assim, é uma visão completamente nova. É chegar ao poder, falar como eles falam. Então, eles leem Flaubert, Machado de Assis — leem todos os livros de Machado de Assis de cabo a rabo. Eles leem tudo isso para conseguir um espaço e um poder. Não é como a burguesia que lê para se iluminar, deleite. Não é deleite. É para poder mandar ver, para ter o mesmo nível de demanda que tem a burguesia. É bacana.

Essa visão de literatura é uma visão nova, que me fascinou. A literatura como recurso e não só como encantamento, isso é maravilhoso. No meio sai um monte de poeta bom… É uma coisa impressionante, que você não vê nos poetas de classe média: a descoberta da palavra. Eu fiz o Projeto Colisões, que veio a molecada de Nova Iguaçu, e mandei dar uma aula sobre Guimarães Rosa. Estou há 40 anos dando aula, para enfiar Guimarães Rosa na garotada de classe média é dose, difícil. Você tem que dançar a dança do ventre para eles prestarem atenção, porque eles não gostam. A periferia babou com a sonoridade do Guimarães, por inventar palavras. Uma recepção que a classe média não tem. Quer dizer, a classe média especializada adora Guimarães, mas a classe média que não lê normalmente acha difícil, não encara. A periferia encarou de cara porque se amarrou em outra coisa: palavras inventadas e sonoras. Eles ficaram loucos e eu fiquei emocionada. Aquele bando de crianças de 17, 18 anos descobrindo, com o olho arregalado, Guimarães Rosa para depois fazer um rap. Posso morrer, estou feita, estou no lucro. Eu não imaginava que fosse ver isso, entendeu?

Você acabou de completar 70 anos…

HBH – Você adora que eu fale dos 70 anos… (risos)

Como você lida com o envelhecimento?

HBH – Eu lido mal.

Por quê?

HBH – Porque eu tenho medo de limite físico. Daqui a pouco estarei numa cadeira de rodas empurrada na Avenida Ataulfo de Paiva (risos). Isso é assustador. Tenho medo de depender de filho. Eu tenho medo. Eu lido muito mal porque não é absolutamente verdade que envelhecer é muito bom. Não é! Entendeu? Você fica mais maluco porque não tem nada a perder, você vai fundo. Sabe dizer não… Têm os netos que é uma maravilha, têm umas vantagenzinhas. Mas isso, perto ao pânico da dependência, é absurdo. Dá muito medo. E 70 anos, que é esse aniversário que eu fiz, é assustador porque ele tem cheiro de morte. Por mais que você não queira, 70 anos… Inclusive, todo lugar que eu vou e digo: “Tenho 70 anos.” “Como?!” As pessoas têm medo, não sou eu que tenho medo. Todo mundo tem medo. Quando eu falo… “Não, não tem não!” Tenho. “Mas não parece.” Parece! Ninguém engole essa data (idade). É um novo momento, que tende a ficar esquisito…

Você vive o presente de forma muito intensa, inclusive seus trabalhos são um recorte do seu presente. Como é olhar para o passado?

HBH – Não olho.

Não olha?

HBH – Nem morta. Nunca olhei, não é de hoje. Nunca olhei, nunca olhei para trás. Você nunca viu uma coisa minha olhando para trás, nenhum trabalho. Olhando para trás, não. Eu não olho porque é uma certa viagem, não é nem porque eu não queira. Você está falando do ENTER e eu estou no ENTER Nordeste (risos). Já foi, estou no ENTER Nordeste. E vai ser muito engraçado porque a gente vai entupir de cordel. Tem um cordel que a gente não viu aqui, que é todo falando de Internet, de SPAM, de HD estourado… É muito engraçado esse cordel. A gente não achou, mas ele existe. Eles chamam de cordel digital, porque o tema é digital. Não é fácil achar na Internet, é muita produção. Difícil chegar lá aonde você quer. O Nordeste vai ter diferente, eles têm uma tradição que a gente não tem. Então, virão novas formas. Assim como estou batendo palmas para história em quadrinhos, a gente vai se encantar com o cordel.

A editora Língua Geral vai lançar sua biografia intelectual, utilizando o memorial que você escreveu para o concurso da UFRJ, em 1993. Fale sobre sua relação com a academia.

HBH – Eu tenho uma relação de amor e ódio violentíssima com a academia. De amor, porque é o único lugar que você consegue produzir na paz do Senhor. Porque você tem um salário, ninguém vai te demitir — principalmente na academia pública. Você tem incentivo à pesquisa de todos os lados. É só não ser preguiçosa, tem FAPERJ, CNPq… É um lugar confortável para trabalhar, com muito recurso. E tem a interlocução com aluno que não tem preço. O aluno vem com uma energia e com os hormônios violentos para cima de você. Aluno é uma coisa vigorosa! Então, você tem um público qualificado e recurso de todo lado. E, ao mesmo tempo, ela não quer que ninguém trabalhe. É muito engraçado. Ela proíbe você de criar. Então, você tem que ficar o tempo todo “malandrando”, fazendo uma coisa. Inventei um centro chamado Cieq e agora um programa chamado PACC, que é para me esconder. O Pingueli Rosa, com quem trabalhei no Fórum (de Ciência e Cultura da UFRJ) me disse assim: “O PACC não é da universidade, é uma ONG” (risos). Porque tem cara de ONG. Eu fico lá no canto, fazendo um negócio. A universidade é carreira, eu nunca fiz carreira, nunca fui diretora de nada.

Por quê, nunca quis?

HBH – Não, porque eu nunca quis ser reitora, o final dessa conversa é ser reitora. Eu queria é ficar naquele canto, cheia de recursos, com aquela garotada maravilhosa, inventando. Teve uma época que foi muito ruim, logo depois da abertura, a universidade foi muito cerceada e quando abriu ficou meio órfão. Você não sabia bem para onde ia, perdeu o chão. Não podia falar direito e, de repente, podia. Então, fiz com os alunos, um programa de TV chamado “Culturama”, um programa estudantil sem drama. Ia ao ar na TVE toda semana e era maravilhoso. Na universidade dá para você fazer isso, entendeu? Se eu estivesse trabalhando na Secretaria de Cultura, não poderia inventar. O programa de TV era um curso, mas obviamente não era. Eram alunos de comunicação que aprenderam a fazer um programa de televisão. A universidade é privilégio, tem quatro meses de férias por ano. É uma loucura. Que emprego é esse? Três meses no verão e um mês em julho. É um emprego ideal. Só é chato porque é muito competitivo e ela é muito antiga. A universidade perdeu o projeto, ela não sabe o que está fazendo ali. Não tem as profissões modernas, só nas particulares. Não tem gastronomia, uma profissão vibrante. Os professores estão cada vez mais sábios. E os alunos ficam reclamando porque não aprenderam a mexer numa câmera, não aprenderam a fazer uma entrevista. Os jornais tinham, antigamente, uma apostila: “De onde é que você veio? UERJ ou da UFRJ?” Davam a apostila porque sabiam o que os meninos não sabiam. Porque não prepara para o mercado. Se não prepara para o mercado, devia preparar para a sociedade. Não prepara. Não abre um milímetro para deixar o povo entrar, tem que fazer o vestibular ou não entra. Professor tem que fazer um concurso ou não entra. Ela é trancada, travadona.

Quais são seus poetas prediletos?

HBH – Murilo (Mendes) e (Carlos) Drummond (de Andrade).

Paixão de faculdade?

HBH – Paixão de vida. Eu tenho paixão. Depois (João) Cabral (de Melo Neto), (Manuel) Bandeira…

O que você diria aos jovens autores que desejam publicar?

HBH – Tenho que ler o texto (risos). Eu te digo uma coisa que a Lucia Riff me ensinou, que é maravilhosa. Procura um site “Escreva seu livro.” Conhece? Tem. A Lucia Riff, agente literária — todos os jovens do mundo ficam atrás dela querendo publicar — fez um link para esse site. Tem que fazer isso. Vai fazer o quê? É complicado. Porque não é só talento que faz você ser publicado, é uma conjunção: imprensa, misturado com padrinhos… É complicado. Eu sou editora também, publicar autor novo é gesto de caridade. É verdade. Uma editora é uma empresa, ela vai perder dinheiro com isso. Ou ela tem um Paulo Coelho para segurar e deixar fazer isso que chamamos de catálogo, digamos, que é o que não vende. Eu adoraria publicar todos os poetas porque sou fissurada em poesia, mas não publico. Como? A gente não tem capital. É muito caro para o retorno zero que tem. Você pode até vender uma edição, mas vai vender uma edição em três anos. E o livro vai ficando caro quando ele fica pronto. Fazer o livro não é caro. E pagar almoxarifado, depósito, viagem, distribuidor… Começa a despesa quando o livro fica pronto. Inclusive você pensa que está fazendo um livro, quando olha são três mil. E diz: “O que vou fazer com isso?” Tudo na minha frente. “Vou guardar onde?” Aliás, eu sei o que diria. Eu diria para procurar a (editora) Ediouro. Ela tem aquelas máquinas que faz de um em um, de dez em dez. Entendeu? Vem por demanda. É o que tem que ser quando não se tem um mercado garantido. Eu estou colocando os meus livros que estão esgotados — não da (editora) Aeroplano, meus pessoa física, meus de Heloisa —, estou colocando tudo nesse lugar. Não posso reeditar pela minha editora porque não vai vender. Já perdeu o pique do lançamento, mas ele continua sendo pedido pelas universidades. Qual a editora que vai topar isso? Que tenha juízo, nenhuma. É verdade. Não tem o trunfo do lançamento, vai vender muito pouquinho. É o que vou fazer com as minhas coisas, entregar para a Singular, do Paulo Roberto Pires (editor da Ediouro). As livrarias já sabem e pedem: “Quero dez!” É forma de quem não tem mercado seguro. Eu diria isso para o jovem escritor. Porque isso é tão novo, tem três meses, poucas pessoas sabem. É a saída.

 


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