JOÃO PAULO CUENCA

 TÓQUIO COMO NARRATIVA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

 

O escritor João Paulo Cuenca foi para o Japão buscar inspiração para seu novo romance. Curador do projeto Amores Expressos, em que autores viajaram para diferentes países com a intenção de escrever histórias de amor, Cuenca dá voz a uma boneca inflável em sua narrativa urbana.

“Existem dois narradores: um é um japonês e o outro é uma boneca de silicone, que eles chamam de love doll. São bonecas supersofisticadas, caríssimas, que eles compram para transar, cuidar, vestir… Ou alugar, existe uma espécie de prostíbulo onde você aluga bonecas. Mas isso é uma coisa meio underground de Tóquio, não é fácil entrar numa loja e se deparar com esse tipo de coisa, com as bonecas”, explica Cuenca, e completa: “Tem o nome provisório de Noturno para submarinos, não sei se esse vai ser o nome final. Estou trabalhando nesse manuscrito, espero entregar nos próximos meses”, revela.

Aos 24 anos, João Paulo Cuenca lançou seu primeiro romance Corpo presente(Planeta) —, uma estreia muito bem sucedida para um jovem que havia se formado em Economia e criado seu primeiro blog em 1999. Antes da publicação do romance, Cuenca havia integrado antologias de contos e participado do livroParati para mim (Planeta), em parceria com Santiago Nazarian e Chico Mattoso, o que rendeu o convite para a primeira Festa Literária Internacional de Parati, a Flip.

“Participamos da primeira mesa da história da Flip, com mediação de Paulo Roberto Pires. Uma sensação engraçada porque vi o evento estourar, foi um estouro de mídia. Não se imaginava a dimensão midiática que ela poderia ter: capa dos principais cadernos de cultura até flashes ao vivo no Jornal Nacional”, relembra o autor, que assina crônicas semanais no suplemento Megazine, do jornal O Globo, e mantém o Blog de anotações.

Em 2007, publicou seu segundo romance, O dia Mastroianni (Agir). “O livro abre até com uma definição do ‘dia Mastroianni’, no sentido de adjetivo: o dia que se passa ao sabor das circunstâncias, sem destino planejado, na companhia de belas mulheres, preferencialmente tomando dry martini e, enfim, levando uma vida de dolce far niente — sem fazer nada e curtir.”

Como é, hoje aos 31 anos, o escritor João Paulo Cuenca? “Parece papo de escritor, talvez seja, mas eu achei que ficasse mais fácil escrever. E não fica.”

Você é o curador do projeto Amores Expressos, fale um pouco sobre esse projeto.

João Paulo Cuenca – Esse projeto surgiu através do Rodrigo Teixeira, ele teve a ideia de mandar os autores para cidades para escrever histórias de amor. Dois romances já foram publicados, do Bernardo Carvalho, O filho da mãe(Companhia das Letras), e do Daniel Galera, Cordilheira (Companhia das Letras). Eu fui para Tóquio em 2007 e, enfim, estou terminando o livro agora.

Esse livro já tem nome?

JPC – Tem o nome provisório de Noturno para submarinos, não sei se esse vai ser o nome final. Estou trabalhando nesse manuscrito, espero entregar nos próximos meses. Quer dizer, já entreguei uma primeira versão para a (editora) Companhia (das Letras). Esse primeiro manuscrito já teve algumas correções, estou trabalhando nessas revisões.

Você pode falar um pouco sobre a história do romance?

JPC – Na verdade, o que eu posso falar é que não têm brasileiros na história. Existem dois narradores: um é japonês e o outro é uma boneca de silicone, que eles chamam de love doll. São bonecas super sofisticadas, caríssimas, que eles compram para transar, cuidar, vestir… Muitas vezes, compram roupas de verdade para vestir as bonecas. Ou alugar, existe uma espécie de prostíbulo onde você aluga bonecas. Mas isso é uma coisa meio underground de Tóquio, não é fácil entrar numa loja e se deparar com esse tipo de coisa, com as bonecas. Tive que ter ajuda de uma intérprete, uma amiga minha, japonesa, que ligou e marcou o encontro. Os caras não abrem a porta para qualquer um, enfim. Eu transformei a boneca num dos narradores do livro. São duas histórias de amor que ocorrem em separado: uma é a história de amor da boneca com o pai desse outro narrador, e a outra é a história de amor de um narrador jovem, um japonês de trinta e poucos anos, esses salary men, esses engravatados japoneses que se vê em todos os lugares. Ele se apaixona por uma romena-polonesa, uma mulher do leste da Europa. São dois casais bem estranhos.

Você já conhecia o Japão?

JPC – Foi a primeira vez.

O que mais impressiona no primeiro contato com a cultura japonesa?

JPC – O Japão é muito mais absurdo. Porque você já possui um imaginário quando você chega, né? Que vem do cinema, televisão, literatura. Mas você chega lá e percebe que a coisa é muito mais maluca, absurda, surrealista e onírica do que você imaginava. Então, eu tinha a sensação constante de que estava vivendo dentro de um sonho. Eu cheguei a escrever isso, o seu nível de compreensão das coisas se reduz muito. Em certos momentos, você vira uma criança, e você é tratado como tal, como uma criança. Você não entende o que está escrito na maioria dos lugares. Você não entende para que servem as coisas, os lugares. Você não entende o que vai ter depois de uma porta, quando você abre aquela porta. É quase como estar perdido num labirinto de imagens, incompreensíveis. Nesse sentido, para o escritor é muito rico.

Você conseguiu escrever quando estava no Japão?

JPC – Escrevi um pouco lá, anotei mais. Eu me preocupei mais em viver, passei um mês muito intenso. Cheguei em casa e acho que dormi três dias seguidos.

É difícil escrever por encomenda?

JPC – Não. É difícil de qualquer forma. Não acho que seja mais difícil do que escrever sem… A partir do momento que você publica um romance e decide que vai publicar outro — você decide que tem o que contar — aquilo se torna uma autoencomenda, autoexigência. Você precisa comunicar aquilo aos leitores, e, acima de tudo, a você mesmo. Então, eu não vejo muita diferença, não. Na verdade, o que estou querendo dizer nesse romance sobre o Japão, iria dizer de qualquer maneira se ele se passasse em outro lugar.

Seu segundo romance chama-se O dia Mastroianni. O que significa essa expressão?

JPC – É uma expressão dos meus amigos de São Paulo. O livro abre até com uma definição do ‘dia Mastroianni’, no sentido de adjetivo: o dia que se passa ao sabor das circunstâncias, sem destino planejado, na companhia de belas mulheres, preferencialmente tomando dry martini e, enfim, levando uma vida de dolce far niente — sem fazer nada e curtir. Na verdade, tento fazer um retrato mais ou menos satírico, que no final soou um pouco trágico, de uma geração que talvez um dia tenha sido a minha. Eu me vejo um pouco naqueles personagens quando tinha vinte e poucos anos, ainda existia um excesso de pretensão e pose completamente desproporcional à realização. Eu falo isso no livro: escritores sem livros, músicos sem discos, cineastas sem filmes, pessoas que têm pretensões artísticas, mas não concretizam porque estão distraídas na noite ou na Internet.

O dia Mastroianni foi lançado em outros países?

JPC – Foi lançado na Itália e Portugal.

Como é a experiência de lançar um livro em outros países?

JPC – Nossa, é riquíssimo. Fui a Roma lançar o livro. E na Europa os lançamentos são um pouco diferentes, não é esse modelo norte-americano de você sentar atrás de uma mesa e simplesmente assinar os livros. Você tem uma apresentação do livro, tem um crítico ou escritor que fala sobre o seu livro. Você é sabatinado, por ele e pelo público, depois você assina — é uma coisa curiosa. Eu estava nervosíssimo porque botaram um crítico italiano, super importante, para fazer a resenha do livro; e ele foi muito generoso. Graças a Deus. É interessante saber que o livro foi compreendido, a ironia do livro. É um livro muito irônico. O brasileiro cada vez menos entende ironia, aqui ele foi menos compreendido do que lá fora. Na Itália e Portugal entenderam melhor o livro do que aqui. Ele teve boas resenhas aqui também, mas talvez () eles estejam mais acostumados com ironia. O Mastroianni tem a ver com uma saudade que eu sinto — que acho que muita gente sente e você, talvez, sinta também — de um tempo que não se viveu: dos anos 1960, dos bares da Via Venneto, de uma Paris dos filmes de (Jean-Lu)] Goddard e (François) Truffaut, de um mundo onde ainda existiam utopias, ideologias, sexo sem camisinha… Ainda existia um monte de coisas, né? E hoje em dia a gente se vê soterrado por essa avalanche de desesperança, cinismo… O sentido Mastroianni também se relaciona com um espaço… no livro, um espaço inventado, uma mistura de várias cidades — uma espécie de caleidoscópio, que eu criei, de várias cidades. Foi muito rico ir a Roma e lançar o livro lá.

Em 2003, você participou da primeira edição da Flip, junto com os escritores Santiago Nazarian e Chico Mattoso. Como foi essa experiência?

JPC – Naquela época, eu tinha 24 anos, o meu primeiro romance — Corpo presente — não havia sido lançado ainda. A Flip não tinha a dimensão que veio a ter depois. Eu fiquei 25 dias em Parati, numa pousada, fora da temporada, para escrever um conto baseado na experiência de estar na cidade. Era um conto que se passava em Parati, que saiu no livro Parati para mim (Planeta). Participamos da primeira mesa da história da Flip, com mediação de Paulo Roberto Pires. Uma sensação engraçada porque vi o evento estourar, foi um estouro de mídia. Não se imaginava a dimensão midiática que ela poderia ter: capa dos principais cadernos de cultura e até flashes ao vivo no Jornal Nacional. Desde então, a Flip se tornou um ponto no calendário de lançamento de livros no Brasil, uma coisa importantíssima. A Flip foi melhorando, o principal problema é a infraestrutura de Parati, que, às vezes, não aguenta. Parati é uma cidade pequena, delicada. A festa consegue manter um clima, quase artesanal, de ainda poder esbarrar com os autores na rua.

Nessa época você estava ainda no primeiro livro…

JPC – Que não tinha nem sido publicado. Ia ser publicado pela (editora) Planeta em outubro (de 2003), se não me engano, e a Flip foi em agosto. Quer dizer, por causa da Flip o meu livro teve muito mais atenção — isso é uma coisa a se destacar. Os autores que participam da Flip ganham uma projeção midiática muito boa. Isso realmente é um fator de destaque a um jovem escritor. Foi muito importante eu ter sido convidado para essa primeira Flip, não sei se estaria no lugar que estou hoje se eu não tivesse vindo.

Como é, hoje aos 31 anos, olhar para trás e ver o Cuenca que lançou o primeiro livro aos 24 anos?

JPC – É engraçado. Eu estou escrevendo crônica para jornal vai fazer cinco anos, comecei mais ou menos naquela época da primeira Flip. Hoje faz três anos que estou escrevendo crônica semanal n’O Globo (no caderno Megazine). Nesse meio tempo, entre o Mastroianni e o Corpo presente, escrevi um romance que engavetei, em Paris. O que é engraçado: não fica mais fácil. Parece papo de escritor, talvez seja, mas eu achei que ficasse mais fácil escrever. E não fica mais fácil.

É uma cobrança?

JPC – Não é cobrança. Não tem nada a ver com cobrança, tem a ver com se jogar ao desconhecido. Cada vez que começo a escrever uma coisa, eu não sei se vou terminar. E não ficou mais fácil. Eu achei que fosse ficar mais fácil. A única coisa que posso dizer nesses seis anos é que não ficou mais fácil, continua exatamente igual. Tão desafiante quanto, tão difícil quanto, tão exigente e exaustivo quanto antes. Talvez agora o prazer que eu sinta lendo depois que terminei seja um pouco maior. Na verdade, eu sinto que escrevo para ler depois porque o processo não é muito agradável. Nesses seis anos, acho que posso dizer isso, achei que fosse ficar mais fácil e sair mais automaticamente as coisas… Não, fica igual, é tão difícil quanto.

 


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