EUCANAÃ FERRAZ

O GUARDIÃO DE VINÍCIUS

Por Ramon Nunes Mello [Portal Cultura.rj 2009]

   

 

Ainda menino, Eucanaã Ferraz deitava colo de sua mãe e pedia que cantasse “aquela música do mundo que caiu”. E sua mãe, paciente, entoava os versos de Maysa. Eucanaã não confirma, mas talvez tenha sido através da música o primeiro contato com a poesia. E, pelo visto, esse encontro poético será frequente na vida do professor e poeta.

“Como a maior parte dos brasileiros, tive mais contato com a canção do que com a literatura, mais contato do disco do que com o livro. Mas não saberia dizer se eu absorvia a música exatamente como poesia, entende?”,

Além de escrever seus livros – Cinemateca (ente os 10 finalistas do Prêmio Portugal Telecom 2009), Rua do mundoDesassombroMartelo e O outro e o outro -, Eucanaã organizou Letra só, com letras de música de Caetano Veloso; O mundo não é chato, com textos em prosa de Caetano; a antologia Veneno antimonotonia — Os melhores poemas e canções contra o tédio; e, 2003, Poesia completa e prosa de Vinícius de Moraes, junto com o amigo Antonio Cicero – iniciando assim uma intensa relação com o músico e poeta Vinicius de Moraes.

“Minha história com Vinicius de Moraes não é, digamos assim, antiquíssima (…) Eu não tinha grande intimidade com a poesia de Vinicius de Moraes, mas é claro que a conhecia e tinha por ela um grande apreço. A partir desse trabalho, fui convidado por Susana de Moraes para organizar o conteúdo do site oficial do Vinicius e colaborar com o cineasta Miguel Farias na pesquisa e no roteiro do seu documentário, Vinicius. (…) É, portanto, uma longa história, ainda que recente, essa minha com o Vinicius. E, sem dúvida, ele é um dos grandes encontros da minha vida”,

Todos os livros de Vinicius serão lançados individualmente, acompanhado de textos publicados na época do lançamento e de posfácio assinado por intelectuais como José Miguel Wisnik, Antonio Carlos Secchin, Alcides Villaça e Antonio Cicero. Um trabalho que manterá Eucanaã envolvido com Vinicius de Moraes, pelo menos, até 2012. O mergulho na obra do Vinicius rendeu outro convite, Eucanaã escreveu, junto com a dramaturga Daniela Pereira de Carvalho, a dramaturgia da peça ‘Tom e Vinicius‘, dirigida por Daniel Hertz.

Apesar da popularidade, Vinicius de Moraes é pouco lido, como a maioria dos autores brasileiros. E Vinicius ainda carrega o preconceito dos acadêmicos em relação a sua obra poética. A reorganização dos livros realizada pelo poeta e professor universitário Eucanaã Ferraz é uma maneira de romper com esses estigmas.

“Graças à música, Vinicius mantém um número fiel de leitores de poesia, embora ele seja mais citado que lido. Isso é flagrante por causa das canções e de alguns poemas que ficaram muito célebres, como o “Soneto de Fidelidade”. (…) A popularidade mantém Vinicius vivo, lido, falado, amado, e é claro que esse fenômeno tem a ver com a poesia e com a atuação dele como cancionista. É maravilhoso que a figura dele seja popular, mas a obra precisa estar presente nas universidades e nas escolas”, defende Eucanaã, que é professor de literatura brasileira na faculdade de letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

A poesia chegou a você através da música?

Eucanaã Ferraz – De certo modo, sim. Como a maior parte dos brasileiros, tive mais contato com a canção do que com a literatura, mais contato do disco do que com o livro. Mas não saberia dizer se eu absorvia a música exatamente como poesia, entende? Lembro, perfeitamente, que minha mãe sempre gostou de cantar. Ela ainda canta lindamente. E eu amava ouvi-la. Eu me deitava no colo dela e pedia canções da Maysa: Mãe canta aquela do mundo que caiu. Ela cantava: “Meu mundo caiu…” Mas não sei se posso afirmar que eu tinha consciência de que aquilo era poesia.

Em Livro primeiro (Edição do autor, 1990) há o seguinte poema: “Conheço o primeiro livro de poemas/ – Eu/ de Augusto dos Anjos / Meu pai o tem entre tratados de odontologia/ sem capa/ velho/ enferrujado“. Como foi a sua descoberta da poesia na infância?

EF – Meu pai não tinha livros de literatura, só livros técnicos de odontologia, como diz o poema que você citou. O livro de Augusto dos Anjos era o único. Eu li o livro todo e fiquei louco, encantado, embora não fosse um livro para criança. Na escola, no ginasial, descobri a literatura. Uma das primeiras lembranças que tenho de um autor é a de Jacques Prévert, porque uma professora leu um poema traduzido.

Você já escrevia poesia nesta época?

EF – Não. Mas desenhava e eu era ótimo. Lembro de uma vez que um professor não acreditou que eu havia feito um desenho. Ele me desafiou, pedindo que eu desenhasse novamente. Fiquei com ódio, mas desenhei de novo. Foi um momento marcante, pela humilhação mas também pela vitória. Não fui em frente com esse negócio de desenho por vários motivos, mas uma coisa que me irritava era o fato de as pessoas acharem que desenhar ou pintar era copiar alguma coisa, e eu queria criar. A família queria me profissionalizar, todos diziam que eu devia entrar numa escola de pintura. Eu tinha talento, se tivesse investido, talvez aprendesse de fato. Mas pintura dá muito trabalho. E poesia não dá trabalho nenhum… (risos) Não precisa se sujar de tinta. Poeta só precisa de caneta e papel, nem precisa expor seu trabalho, pois ninguém quer comprar poesia (risos). Logo entendi que era esse o caminho.

Você falando assim me faz lembrar o documentário Palavra Encantada. Há um trecho em que o músico a Zeca Baleiro visita Hilda Hist na Casa do Sol para musicar os poemas dela. Hilda diz que deseja fazer música porque “as pessoas cagam para os poetas” …

EF – Ninguém espera nada dos poetas. Mas, ao mesmo tempo, esperam demais. Há uma espécie de vaga cobrança disseminada, que se faz a eles, como se coubesse à poesia salvar o mundo. E como ela não faz isso, essa impotência inexorável parece comprovar a inutilidade da poesia e dos poetas. De algum modo, direta ou indiretamente, pergunta-se ao poeta o que o seu poema faz, por exemplo, para melhorar o mundo, o país, de que modo um verso pode contribuir para diminuir as injustiças sociais etc. Mas por que ninguém pergunta isso a outros trabalhadores? Ora, porque esperam demais dos poetas. E como eles não podem corresponder, não se espera nada deles.

Na escola você era bom aluno?

EF – Eu desenhava bem. Sempre fui bom de Ciências, mas, Matemática, nem pensar. Nunca fui um aluno do tipo gênio. Quando mais novo eu era melhor e mais quieto. Antes de fazer vestibular para Letras, pensei em fazer Teatro. Nunca tive uma meta, eu achava que poderia ser qualquer coisa. Sou taurino, metido. Só não somos mais metidos que os leoninos… (risos). Na verdade, nunca me dediquei a ser uma determinada coisa. Mas eu sempre tive um senso prático. Minha família era pobre, eu tinha de estudar. No segundo grau, tive um professor de literatura que me influenciou muito, chama-se Sérgio Fonseca. Ele fazia música, nessa época, confirmei meu interesse por música e poesia. A escola é muito importante, pode parecer um discurso repetitivo, mas é verdade. A escola tem um papel decisivo nas nossas vidas, para bem ou para o mal.

Seu primeiro livro foi O outro e o outro (Luxo/Lixo, 1984), escrito em parceria com o poeta Vitor Loureiro?

EF – Sim. Foi um livro composto a quatro mãos. A parte do Vitor Loureiro é de poemas e a minha parte é de prosa poética. Nós editamos por nossa conta, na gráfica do jornal Correio da Lavoura, em Nova Iguaçu. Nessa época eu já estava na faculdade. Lia muito Fernando Pessoa e os heterônimos, e tinha mais simpatia pelo Alberto Caeiro. Quando fiz vestibular eu pensei em História e Teatro. Meu pai queria que eu fizesse Direito, mas resolvi fazer Letras. Comecei a estudar os autores que já faziam parte da minha vida: Drummond, Clarice, Pessoa… Na faculdade, esse meu pequeno repertório ganhou contexto, forma, sentido, cresceu.

Como foi o convite para participar do livro Esses poetas: uma antologia dos anos 90, de Heloisa Buarque de Hollanda?

EF – Acho que ela leu o livro Martelo (7 Letras, 1997) por sugestão do poeta Armando Freitas Filho. A Heloisa gostou e me mandou um telegrama. Eu não tinha telefone. Essa antologia não foi tão polêmica quanto a outra dos anos 70, mas foi muito importante.

Uma característica da geração 90 seria a formação superior em Letras?

EF – É uma hipótese que não deve ter sido averiguada mas que, ainda assim, parece mais ou menos plausível. E, qualquer modo, ela foi útil para balizar certas análises de inspiração sociológica. Mas independentemente da veracidade da tese de que a geração 90 teria como marca a formação superior em Letras, não acho isso bom, porque que com tal perspectiva vem a ideia equivocada de que a poesia é um gênero erudito, para iniciados. Poesia não é só para professores e estudiosos. Drummond, por exemplo, foi farmacêutico, depois funcionário público. Faculdade não habilita ninguém a ser poeta. Entendo que a universidade é um lugar de encontro dos pares, mas poetas devem estar em qualquer lugar. O fato é que a geração 90 quer se mostrar mais intelectualizada do que a geração anterior, que ficou caracterizada como marginal, que se opôs às vanguardas intelectualizadas, formadas por poetas que eram também tradutores e ensaístas. Isso mudou com a chegada da garotada dos anos 70. Mas penso ainda que o fato de um certo número de autores exibir ou não sinais de formação intelectual pode não ser uma verdade biográfica. Ou seja, este ou aquele poeta pode simplesmente não desejar, por diferentes motivos, que sua poesia se mantenha longe de sua formação intelectual, ou profissional. Por outro lado, também tenho dúvidas de que a geração 90 seja tão intelectualizada quanto dizem. A escrita poética é um jogo. E não é o “jogo da verdade”.

Existe “vanguarda” hoje? Qual a cara da poesia que se faz hoje?

EF – Não, não há vanguarda, não há lugar para isso. Quanto à poesia de hoje, é difícil falar sobre ela estando dentro dela. Mas vejo nos mais novos, a princípio, duas orientações que se distinguem. Uma seria certa reação à poesia dos anos 90, com a adoção de uma escrita mais rápida, engraçada, adepta do verso livre, preocupada em parecer espontânea, como se não houvesse trabalho no poema, quase uma volta aos anos 70, ao espírito dela. No outro extremo, estaria um campo poético mais voltado para um hermetismo de aparência urbana, apegado a referências e intertextualidades, com um verso livre mais próximo da prosa, buscando mesmo uma espécie de curto-circuito na escrita mais tradicional. Tenho a impressão de que a volta à metrificação já não interessa tanto aos poetas que surgiram depois daqueles que, na geração 90, fizeram largo uso de metros regulares e formas fixas, como Paulo Henriques Britto, Antonio Cicero e Carlito Azevedo.

Qual o critério para avaliar uma produção poética?

EF – Os critérios sempre serão subjetivos e relativos. Mas isso não significa, por exemplo, que a afirmação de que Drummond “é um dos maiores poetas de todos os tempos” seja relativa. Essa verdade não está sob suspeita. É uma contradição, mas temos de trabalhar com esse paradoxo. Como? Tentando criar critérios objetivos, ainda que subjetivos, para tentar compreender o que seria a especificidade de um autor, de um livro, de um conjunto de livros, de autores. Isso leva tempo. Por isso a crítica não pode se mover pelo desejo da novidade e querer que a poesia se renove a cada ano. A formação de um poeta é lenta, mesmo hoje, ou sobretudo hoje, quando vivemos num tempo intensamente acelerado, que deixa pouco lugar para a reflexão e o amadurecimento. É um erro pretender que os valores sejam julgados nessa mesma velocidade. É uma burrice. Ao contrário, é preciso ter tempo, exigir tempo, inventar o tempo. Não adianta querer julgar a geração 90 como se ela estivesse canonizada. Mas é claro que precisamos, simultaneamente, estar ligados na produção literária de agora. O leitor, o crítico, a livraria, a editora, a universidade, todos devem estar atentos. Tudo isso forma a “literatura”, essa instituição histórico-cultural específica. Nós ainda estamos construindo o passado. Acho uma grande bobagem alguém querer ser o poeta “novíssimo”.

Como você conheceu a poesia de Vinicius de Moraes?

EF – Minha história com Vinicius de Moraes não é, digamos assim, antiquíssima. A aproximação aconteceu quando organizei, com Antonio Cicero, a Nova Antologia Poética (Cia. das Letras, 2003). Eu não tinha grande intimidade com a poesia de Vinicius de Moraes, mas é claro que a conhecia e tinha por ela um grande apreço. A partir desse trabalho, fui convidado por Susana de Moraes para organizar o conteúdo do site oficial do Vinicius e colaborar com o cineasta Miguel Farias na pesquisa e no roteiro do seu documentário, Vinicius. Logo depois, reorganizei para editora Nova Aguilar o volume de poesia completa e, adiante, fui convidado para cuidar da reedição da obra pela Companhia das Letras. É, portanto, uma longa história, ainda que recente, essa minha com o Vinicius. E, sem dúvida, ele é um dos grandes encontros da minha vida.

Em meio a esses trabalhos surgiu o musical Tom e Vinicius?

EF – A peça já estava caminhando quando a família do Vinicius me convidou para escrever o texto. Eu topei sem ter experiência com dramaturgia. Depois surgiu o nome da dramaturga Daniela Pereira de Carvalho. Ela, como eu, aceitou o convite. Começamos a trabalhar e imediatamente nos entendemos. O resultado está no palco. O público está gostando, o que é o mais importante.

Vinicius é mais conhecido como letrista de MPB…

EF – Graças à música, Vinicius mantém um número fiel de leitores de poesia, embora ele seja mais citado que lido. Isso é flagrante por causa das canções e de alguns poemas que ficaram muito célebres, como o “Soneto de Fidelidade”. As pessoas lembram uns versos e se esquecem do resto do poema. É como no refrão de música que você gosta e não sabe a letra toda. A popularidade mantém Vinicius vivo, lido, falado, amado, e é claro que esse fenômeno tem a ver com a poesia e com a atuação dele como cancionista. É maravilhoso que a figura dele seja popular, mas a obra precisa estar presente nas universidades e nas escolas.

Agora você está reorganizando toda a obra do Vinicius?

EF – Os livros dele, desde que tiveram suas primeiras edições, nunca foram reeditados individualmente. Isso aconteceu com quase todos os grandes poetas, como Drummond, Bandeira e Cecília Meireles. Os autores lançavam pequenas edições, que muitas vezes eles próprios bancavam – isso não é ima invenção dos “novíssimos”. Esses livros desapareceram como entidades isoladas e foram dissolvidos nas antologias. Agora, estamos publicando todos os livros do Vinicius isoladamente, num programa que vai até 2012. Cada volume traz textos que foram publicados na época do lançamento, como resenhas, prefácios, textos de orelha… E para cada volume encomendo um texto novo que se junta à obra como um posfácio. Já escreveram José Miguel Wisnik, Antonio Carlos Secchin, Alcides Villaça e Antonio Cicero. Além disso, cada livro se abre com um caderno de imagens composto por fotos e reprodução de manuscritos e documentos. Estou muito contente em fazer esse trabalho, é uma honra.

No livro Poemas espaços (Cia. das Letras, 2008) há produção inédita do Vinicius?

EF – Sim. Mas a ideia não foi fazer um volume com tudo o que ficou na gaveta. Por isso fiz uma seleção do que está à altura da obra editada. Esse livro tem, por exemplo, um poema incrível chamado “Sob o trópico do câncer”, que é bastante experimental e é sobre o câncer. É interessante observar o humor negro característico do Vinicius. A obra dele tem uma vertente muito rara na poesia brasileira, voltada para a morte, o horror, o terrível, o monstruoso. Esse é um poeta bem diferente daquele que parte do público consagrou como o “poeta dos diminutivos”.

O trabalho com a obra de Vinicius de Moraes inspira sua produção poética?

EF – Gostaria que sim.

Você organizou, de Caetano Veloso, os livros Letra só, com letras (Companhia das Letras, 2003), e O mundo não é chato (Companhia das Letras, 2005), com textos em prosa. Como surgiu o convite para esses trabalhos?

EF – Quando eu fiz a edição portuguesa do meu livro Desassombro, Jorge Reis-Sá, editor da Quasi, perguntou se eu não queria fazer um livro reunindo as letras do Caetano. Respondi que a ideia me parecia excelente e fiquei muito animado com a possibilidade de o projeto ir adiante. Lembro que fui, então, à casa de Caetano e perguntei a ele se ele topava. Ele disse: ‘Tá!’. Não acreditei. Perguntei novamente. Então, ele perguntou se eu queria que ele respondesse não! (risos) É que eu achei muito fácil, não acreditei. Foi uma experiência incrível rever as letras com ele.

Fale sobre o processo de criação do seu último livro, Cinemateca (Cia. das Letras, 2008).

EF – Depois de avaliar o livro anterior, resolvi desenvolver uma de suas vertentes, formada por poemas mais ou menos narrativos, nos quais há personagens, falas, diálogos, ambientes. Depois que já tinha um certo conjunto, percebi que esses poemas eram como pequenos filmes, “micrometragens”, e decidi que esse seria o eixo do livro. Mais adiante, eu me dei conta de que havia poemas solares, com muita luz, e outros com pouca luz, sombra. Com essa ideia dividi a estrutura do livro em três partes: 1ª luz, 2ª luz e 3ª luz. A primeira parte traz poemas solares, com situações luminosas, de positividade e alegria. Na segunda parte, a luz diminui e os poemas se tornam melancólicos. E na terceira parte, a luz praticamente desaparece e dá mesmo lugar à escuridão. Concebi essa estrutura como se a escrita estivesse obedecendo às orientações de criador que seria alguém entre o diretor de cinema, o fotógrafo e o roteirista.

Por isso o título Cinemateca

EF – Sim, ao dar ao livro esse nome, quis chamar a atenção para a narratividade e o caráter plástico dos poemas, bem como para os “movimentos de câmera” que marcam a dinâmica das imagens, da sintaxe e do arranjo das estrofes. O dialogo também cria um diálogo com a tradição moderna, com as vanguardas e a indústria cultural. Mas esta modernidade é já antiga e, daí, o título apontar uma direção museológica, os filmes como peças de coleção, velhos testemunhos da recente história do cinema. Eu não quis emprestar aos meus poemas o estatuto das altas obras de arte que merecem a salvaguarda dos museus. O que me interessou foi simplesmente o fato de que um poema é algo muito antigo e, ao mesmo tempo, é a coisa mais nova que existe. Todo poema tem frescor e novidade, porque nele a língua está agindo de uma forma que ela nunca agiu. Isso é lindo. Então,Cinemateca é um título que reúne tudo isso: o novo e o velho.

Você tem um horário para escrever?

EF – Não. Acredito que nenhum poeta tem horário para escrever. Romancista sim, tem horário para trabalhar, e se ele não fizer isso está ferrado. Ele tem que manter a continuidade, a atenção ligada. A personagem de um romance é uma língua estrangeira: você corre o risco de perdê-la se não praticar. O romancista tem que praticar as suas personagens, ele tem de estar em atividade para se manter vivo. Com a poesia não é assim.

E quanto ao livro?

EF – As etapas de planejamento, pelo menos no meu caso, acontecem paulatinamente. Os poemas vão sendo feitos, lidos, refeitos, reordenados… Eu vou entendendo o livro. O trabalho que eu mais gosto é reescrever e montar, é melhor do que ter uma ideia

Sente vontade de escrever romances?

EF – Não. Nenhuma vontade. Não tenho interesse por histórias. Sou aberto ao mundo, gosto das coisas fora de mim, interessa-me falar das coisas, mas, estranhamente, não tenho interesse pela prosa, amo a poesia.

Quais poetas despertam seu interesse?

EF – Interesso-me por todos os poetas. Interesso-me até por aqueles de que não gosto. Interessam-me os que acabam de lançar seus primeiros livros e interessam-me os clássicos. O poeta da minha vida é Drummond, que, com seus poemas, me ensinou o que sei. Esse aprendizado não para, ele é um poeta vasto, que terá algo a dizer a um jovem poeta daqui a cem anos. Mas tenho outras referências importantes, como o Bandeira. Tem o Vinicius, que é uma paixão nova e intensa, Eugénio de Andrade, Sophia de Melo Breyner Andresen e Borges, que é tão grande poeta quanto contista. Interesso-me pelos poetas que escrevem agora, no meu tempo, e que me dizem coisas: Armando Freitas Filho, Gastão Cruz, Antonio Cicero, Augusto de Campos, Paulo Henriques Britto, Chico Alvim, Ferreira Gullar.

Você é editor, com André Vallias, a revista on line Errática(www.erratica.com.br). É professor de literatura brasileira na faculdade de letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Como funciona essa relação com a internet?

EF – Quanto à Errática, eu e André publicamos ali poemas nascidos para a tela ou que nela se arranjam bem, pois acreditamos que diferentes meios e  suportes podem servir à poesia. Também publicamos na revista ensaios fotográficos, textos em prosa, áudio, ensaios críticos. Quanto ao meu trabalho como professor, é também um modo de estar próximo da poesia, pois estou sempre lendo, escrevendo, falando sobre poesia, poemas e poetas. Eu lhe disse, antes, que não gosto da ideia de que a poesia vem sendo feita por professores e estudantes de Letras. Eu acho isso mesmo, que a poesia não é um artefato técnico restrito a alguns estudiosos. Mas também acredito que a poesia e os poetas devem muito à Universidade, pois nela se formam críticos e leitores. Ela é um centro de recepção e divulgação formidável, insubstituível. Ela é uma escola.


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