MANOELA SAWITZKI

 NARRATIVA DA DELICADEZA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 manoelasawitzki

 

Quando morava no interior do Rio Grande do Sul, em Santo Ângelo, a escritora Manoela Sawitzki, começou a rascunhar suas primeiras histórias. Fascinada por astronomia, Manoela passou a batizar as narrativas de “Nuvens de Magalhães” — galáxias anãs irregulares, visíveis a olho nu. O interesse pelas galáxias era tão grande que seu primeiro romance, publicado pela editora Mercado Aberto, foi intitulado de Nuvens de Magalhães.

“O primeiro esboço dessa história eu entreguei para um dos meus irmãos, um mais velho — uma pessoa que respeito muito. Entreguei, achando que ia conseguir uma aceitação fácil, eu acreditava muito naquilo e achava natural que ele também acreditasse. Ele não falou nada a respeito do que ele leu. Só me disse que eu devia ler muito e me entregou muitos livros, como se fosse um kit de primeiros socorros.” — conta a gaúcha que teve a adolescência marcada por livros de Virginia Wolf e Clarice Lispector.

Há dois anos radicada no Rio de Janeiro, Manoela Sawitzki entregou-se à ficção. Após incursões pela literatura dramática, ela trancou-se no apartamento de Copacabana para dedicar-se à história de Júlia Capovilla, no romance Suíte dama da noite (Record). Uma jovem que, mesmo depois de passar por uma realidade dolorida, continua a idealizar o amor eterno.

“O quanto tem de mim? Tem um pouco, é claro. Mas ela não é uma extensão minha. Talvez, a Júlia criança pareça mais com a Manoela criança do que a Júlia adulta e eu hoje em dia. Acho muito difícil que o personagem não roube alguma coisa de quem crie. Sendo assim, eu pareço também com o Klaus e também com o Leon. Todos os meus personagens são mosaicos de muitas pessoas que conheci. Ou que eu nem conheci, alguém que vi por cinco minutos.”

A narrativa de Manoela Sawitzki é marcada pela delicadeza, sua escrita seduz o leitor. Impossível ficar apático diante de suas palavras.

Você é gaúcha e mora no Rio de Janeiro. Como é a relação de sua produção literária com as cidades?

Manoela Sawitzki – Sou de uma cidade de interior, quase seis horas de Porto Alegre, interior mesmo, uma cidade chamada Santo Ângelo. Fui para Porto Alegre aos 17 anos. Publiquei o primeiro romance, aos 24, por uma editora gaúcha, Mercado Aberto. O livro se chama Nuvens de Magalhães. Eu vivi em Porto Alegre doze anos, dezessete anos em Santo Ângelo e, agora, dois anos no Rio. O Rio foi uma coisa curiosa, conheci tarde, aos 25 anos, por aí. Fiquei completamente apaixonada pela cidade. Desde então, eu tinha o projeto “morar no Rio de Janeiro”. E o projeto custou a se realizar, já tinha virado piada entre os meus amigos no Sul. Eu fazia um clima de despedida e melancolia, e dizia: “Olha, ano que vem estou indo, viu?” O Rio é, basicamente, o extremo oposto do Sul: a realidade do lugar, o comportamento das pessoas, o clima. Ele se distancia de uma forma que me interessou profundamente, me deixou perturbada. Eu vim atrás dessa perturbação. Eu vim atrás daquilo que o Rio trazia; que me era estranho, surpreendente… Eu queria voltar a me surpreender com as coisas.

O que te surpreende?

MS – Essa coisa mais despida do Rio. O povo gaúcho é mais conservador, nesse sentido, muito coberto. Um povo muito marcado pelo frio. Essa capacidade que o carioca tem de andar à vontade, acho extremamente interessante isso, fugir a qualquer padrão de beleza. Percebo as pessoas à vontade com o corpo que elas têm, independente do corpo que elas têm. Essa coisa mais sem vergonha do Rio mesmo. O gaúcho, principalmente o gaúcho de interior, é mais certinho, apegado às tradições… Não que eu tenha gostado da bagunça do Rio, mas a bagunça do Rio me interessou. Eu moro em Copacabana. Não posso dizer que gosto da bagunça de Copacabana, mas ela me interessa. Essa desordem, esse caos, que parece sempre pronta para explodir…

Esse caos interfere na sua literatura? Sua escrita, antes de morar no Rio, era mais certinha?

MS – Eu acho que sim. O Suíte dama da noite, eu escrevi a primeira versão no Sul. No meu primeiro ano de Rio, eu sentei para reescrever o livro. Depois de deixar o livro parado muito tempo, eu reabri o livro. Certamente, a minha vivência na cidade está impressa nesta nova versão. Não apenas a questão dos lugares que fui conhecendo. Em alguns momentos, eu passava por lugares e percebia que eles se encaixavam, que a personagem poderia ter passado por ali também. E uma certa limpeza que fiz na linguagem, no texto. Acho que partiu muito da minha experiência aqui, dessa experiência com o “descompromisso”. Uma leveza — não “leve” exatamente —, que permite com que as pessoas transitem com mais facilidade entre as situações.

O que Suíte dama da noite tem de Nuvens de Magalhães? E o queNuvens de Magalhães tem de Suíte Dama da Noite?

MS – Eu costumo dizer que o Suíte está dentro do Nuvens de Magalhães e oNuvens de Magalhães está dentro do Suíte. Ambos estão dentro de mim… (risos) De formas distintas. Existe um percurso, um caminho que percorro desde criança. É um caminho que não se repete, que me mostra ambientes novos, lugares novos. A minha intenção de escrever é essa. Eu não quis me repetir no segundo livro, muito pelo contrário. Ir para onde eu não tinha ido. Então, o primeiro livro tem uma linguagem muito mais barroca, mais ornamental até. Eu tive um rigor com a linguagem no primeiro livro, que até denuncia a minha pouca idade. No fundo, eu era alguém de 22 anos querendo provar que era capaz de fazer um primeiro livro bem escrito. Embora isso tenha sido muito genuíno na época, uma experiência intensa, muito verdadeira, hoje eu percebo o que tem de ruído nisso. O quanto eu acabei me distanciando do que realmente interessava porque eu queria provar que poderia escrever um texto bem escrito. No segundo, já me interessou muito mais o que eu tinha a dizer ou o que eu podia dizer, o que eu tinha a descobrir, do que a forma.

De onde vem seu interesse por contar histórias?

MS – Eu não sei explicar muito bem. Foi muito natural, fez parte da minha formação. Eu não tive pais leitores, uma família ou uma escola que me incentivasse, foi natural. Diz a lenda que, antes de entrar na escola, aos cinco anos, eu infernizava as minhas irmãs mais velhas para que elas me ensinassem a escrever. E uma irmã mais nova pode ser bastante convincente (risos). Elas contam que eu já queria escrever umas coisas com o que aprendia. Eu queria escrever poemas, escrever versinhos…

Você escreve poemas?

MS – Eventualmente, com muito medo e muita reserva. Acho poesia extremamente difícil. Acho fácil você recair no óbvio ou numa certa esperteza na tentação de ser criativo, brincar com as palavras… E isso não significar muita coisa. E sou prolixa também… Eu escrevi muita poesia quando era garota, criança. Depois parei, acho que por conta disso: eu já era uma adolescente prolixa, que queria contar histórias e falar muito. Depois me apareceu uma história, em verso, eu não consegui escrever um poema, escrevi uma história em verso. Páginas, páginas e páginas e poemas…

A protagonista de Suíte dama da noite, Júlia Capovilla, passa por uma realidade dolorida, mas idealiza o amor eterno. O quanto tem da autora nesta personagem?

MS – O quanto tem de mim? Tem um pouco, é claro. Mas ela não é uma extensão minha. Talvez, a Júlia criança pareça mais com a Manoela criança do que a Júlia adulta e eu hoje em dia. Acho muito difícil que o personagem não roube alguma coisa de quem crie. Sendo assim eu pareço também com o Klaus e também com o Leon. Todos os meus personagens são mosaicos de muitas pessoas que conheci. Ou que eu nem conheci, alguém que vi por cinco minutos. Eu monto os personagens a partir de muitas visões.

Que escritores fazem parte de sua formação literária?

MS – A referência é um repertório. Em diferentes momentos, fases da sua vida, ou no próprio processo criativo, outros autores se comunicam com você. Mas eu tenho minha base, de certa forma. Virginia Wolf é uma referência muito forte. A Clarice Lispector, que foi uma referência e uma maldição ao mesmo tempo. Quando li os livros da Clarice, na adolescência, eu cheguei a queimar quase tudo que eu tinha escrito até então. Quando li Perto do Coração Selvagem — ela escreveu aos 17 anos, eu acho —, me senti uma farsante, uma impostora… (risos) Fiquei pensando que eu queria chegar aonde ela tinha chegado, portanto não podia repeti-la. Não era legítimo tentar repetir. Foi um estrago. Mas Gabriel Garcia Marquez foi uma referência muito forte na adolescência. Fernando Pessoa, Dostoiévski — Crime e Castigo foi o acontecimento da minha juventude. E muitos outros. Depois apareceu Beckett, o teatro…

Você é também é dramaturga. Há diferença entre escrever textos literários e textos dramáticos?

MS – Comecei a escrever para teatro muito tarde, embora eu tenha feito teatro quando criança na escola. Só tive coragem de sentar e escrever uma primeira peça aos 25/26 anos. Em algum momento, me apareceu uma imagem, uma história, uma situação, que fui escrever e não podia ser prosa. Os diálogos apareceram de forma direta e eu fui. Sou obediente… (risos)

O que você diz a um jovem autor que deseja se tornar escritor?

MS – Eu repito uma coisa que ouvi. Lá pelos 13/14 anos, eu escrevi o primeiro esboço de uma novela que curiosamente se chamava “Nuvens de Magalhães”. Eu tinha interesse por astronomia na época, fiquei encantada com o que significava as Nuvens de Magalhães. Eu batizava as minhas histórias de “Nuvens de Magalhães”. O primeiro esboço dessa história eu entreguei para um dos meus irmãos, um mais velho — uma pessoa que respeito muito. Entreguei, achando que ia conseguir uma aceitação fácil, eu acreditava muito naquilo e achava natural que ele também acreditasse. Ele não falou nada a respeito do que ele leu. Só me disse que eu devia ler muito e me entregou muitos livros, como se fosse um “kit de primeiros socorros”. “Você precisa ler isso para se salvar!” E falou que eu tinha que aprender com quem já tinha feito. Eu já lia muito quando escrevi esse primeiro esboço. Mas o que eu tinha feito — uma inocência, claro — era transposição do que eu já tinha lido e gostado para minha escrita. Ele falou: “Não, você tem que ler diferente!” A leitura é grande suporte, não adianta você sair escrevendo se você não tem um repertório, referências. Muita gente já fez coisas incríveis e nós temos que aprender com elas. A leitura é fundamental. E a escrita deve ser encarada como algo não definitivo. Acredito muito na reescrita, a voltar ao texto com humildade, em ser generoso com o próprio texto. É ler, escrever e reescrever infinitamente.

 


BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates