JOSÉ EDUARDO AGUALUSA

 NO RITMO DA ESCRITA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

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O escritor angolano José Eduardo Agualusa é figura conhecida no Brasil. Entre seus livros mais conhecidos, destacam-se Nação crioulaO ano em que Zumbi tomou o RioO vendedor de passados— os três editados aqui pela Gryphus — e As mulheres do meu pai, que saiu pela editora lusófona Língua Geral, onde é um dos sócios. Sua obra está traduzida para mais de dez idiomas, sua literatura rompe as fronteiras.

Dividindo-se entre Angola, Portugal e Brasil, Agualusa deixa-se contaminar pelas influências culturais dos caminhos traçados. A letra de uma canção, a cena de um filme, o trecho de um livro, ou a simples luz do ambiente podem ser fundamentais para a sua escrita, marcada por um ritmo próprio.

Durante sua passagem pelo Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier (SP), no final de maio de 2010, José Eduardo Agualusa conversou com o SaraivaConteúdo sobre seu novo livro, Barroco tropical (Companhia das Letras), “a história de amor entre uma cantora e um escritor”. Além disso, ele falou sobre a experiência de escrever letras de canções e peças teatrais.

Seu novo livro, Barroco tropical, marca sua estreia na editora Companhia das Letras. Fale sobre a história dessa mulher que cai do céu…

José Eduardo Agualusa – Diferente de outros livros, esse é um livro escuro. E também um livro de excessos, torrencial, com excessos de personagens. Eu tenho uma imaginação um pouco delirante, meu trabalho com os livros anteriores foi tentar podar o excesso. E nesse eu resolvi fazer justamente o contrário, decidi que havia de ser um livro, justamente, “barroco tropical”. Portanto, criei uma estrutura que permitisse a entrada de um número grande de personagens. O Bartolomeu Falcato, narrador do livro, é a pessoa que está escrevendo a história. Há outra personagem, uma cantora, Kianda. É a história de amor entre uma cantora e um escritor. O escritor vem do romance anterior, o Bartolomeu Falcato, que é documentarista e escritor. Ele aparece dez anos mais tarde, o livro se passa em 2020. É um olhar sobre Angola em 2020.

Em que medida Bartolomeu tem relação com Agualusa?

JEA – É um personagem parecido comigo, sim. As pessoas perguntam: é um alterego? Sim, é um alterego. É um escritor, têm elementos da vida dele que realmente se passaram comigo. Mas tem outras coisas que não são minhas, naturalmente. A experiência de vida dele é diferente da minha, até as opiniões políticas dele são um pouco diferentes. Ele é um personagem que vem de uma família ligada ao regime — só mais tarde passa a questionar seu posicionamento em relação ao regime.

Você transita em diferentes países: Brasil, Angola e Portugal. Como essa transição entre países interfere no seu modo de escrever?

JEA – Interfere sempre. Os livros, inevitavelmente, têm a ver com a biografia de quem escreve. E, portanto, o lugar onde a pessoa está ou os lugares onde a pessoa passa… Nos meus livros, isso é muito claro. Todos eles têm a marca desse trânsito entre Brasil, Angola e Portugal. Às vezes, eu próprio não me dou conta, mas as marcas estão lá. Também acho que os livros recebem muito daquilo que está à volta. Se eu escrever um livro agora aqui, neste momento, neste lugar, provavelmente ele vai receber uma luz. Uma coisa do ambiente, das árvores, do que está à volta. Os livros são muito marcados pela geografia do ambiente.

Recentemente a atriz Marília Gabriela encenou uma peça de teatro de sua autoria. O romance Vendedor de passados está sendo adaptado para o cinema. Você tem feito composições musicais em parceria. Além disso, acaba de lançar um romance. Como é a experiência de escrever em diferentes gêneros?

JEA – O mais interessante é a possibilidade de sair da solidão do escritor. Essas outras formas exigem a participação de outras pessoas. E o mais interessante de escrever para teatro é saber que o que estamos a escrever só faz sentido em palco. Só faz sentido quando for dito por outra pessoa. Às vezes, soa muito bem lido, mas não resulta em palco. Eu descobri que é importante trabalhar com o ator. Com a Marília Gabriela, trabalhei um pouco… Em outras peças não tive a mesma oportunidade. Depois fiz uma peça em conjunto com o Mia Couto, que correu muito bem em Portugal, esteve em Angola, Moçambique e vai estar no Festival de Teatro de Língua Portuguesa, no Rio de Janeiro… Chama-se Chovem amores na Rua do Matador. E também comecei a fazer letras para canções, que é outra atividade que se é cantada. Feita em parceria, é muito divertido.

Você participou do CD do fadista português Antonio Zambujo…

JEA – Sim. E parte da letra que fiz em parceria com Antonio Zambujo está noBarroco tropical. É a canção de Kianda que dá título ao livro. No livro só estão dois, três versos, escrevi o restante dos versos e entreguei ao Ricardo, guitarrista e compositor, que trabalha com Antonio Zambujo. Também fiz canções para Thalma de Freitas. E tinha um projeto com a Vanessa da Matta também… E fiz em Portugal uma série de letras para um cantor luso-moçambicano, João Afonso. Ele está preparando um disco só com letras minhas e do Mia couto. É muito divertido.

Qual a maior dificuldade de compor?

JEA – Sabe que todos os meus livros têm uma coisa com música. Eu tenho uma grande preocupação com ritmo e melodia. A única coisa que digo aos tradutores é que tentem manter um ritmo. Ritmo é muito importante. Em determinada altura, eu estava em Lisboa e recebi um telefone de um músico português, João Gil, que é bastante conhecido em Portugal. João Gil ligou para mim e disse: “Quero que venhas em minha casa porque fiz uma música a partir do primeiro parágrafo de As mulheres do meu pai.” Eu tomei um susto. Disse: “Caramba, não é possível. Não vai resultar…” E fui a casa dele e fiquei surpreendido, ficou muito bonito. Tem uma música chamada “As mulheres do meu pai”, outra chamada “Barroco tropical” (risos). Agora cada livro que eu faço vai ter uma música (risos). Eu fiquei contente porque o texto, não sendo poesia, tem alguma melodia e algum ritmo. Por isso puderam fazer a música.

Você escreve ouvindo música?

JEA – Escrevo. Depende muito. Quando se está mesmo a escrever a sério não dá para ter música cantada. É difícil. Ouço muito Abdullah Ibrahim, um grande pianista sul-africano. Em certas ocasiões, ouvindo música cantada — ouço muito música popular brasileira —, as letras empurram você numa direção ou outra. Eu tenho sempre dificuldade de compreender aquelas pessoas que dizem: “Eu não leio enquanto escrevo, tenho medo de ser influenciado.” Comigo é ao contrário, eu quero ser influenciado, quero que alguém me empurre.

E adaptação do Vendedor de passados para o cinema?

JEA – Há vários projetos para cinema. O que está mais adiantado é o Vendedor de passados. Em princípio, será encenado pelo Lázaro Ramos. Fiquei muito feliz porque acho o Lázaro Ramos um grande ator. Se eu fosse o diretor teria escolhido o Lázaro Ramo [risos]. Mas o filme não é meu, tento ficar um pouco distante. As melhores adaptações que conheço são as que souberam desrespeitar o livro, subverter o livro. Uma coisa é o livro, outra coisa é o filme. São linguagens bem diferentes, portanto, me mantenho distante.

Que retrato você faria da literatura contemporânea feita em Portugal e no Brasil?

JEA – A literatura de língua portuguesa está a traçar um bom momento, acho mesmo. Em Portugal tem a ver com investimento demorado, longo, na cultura. Concretamente, Portugal criou uma rede de bibliotecas públicas muito boas. Excelente rede de bibliotecas públicas. E agora esse investimento em cultura começa a se notar. Há uma série de escritores jovens muito bons. Recentemente estive no lançamento de escritor português Pedro Rosa Mendes, de um livro que foi apresentado por Lobo Antunes — seguramente o escritor mais importante da literatura em língua portuguesa hoje —, e o Lobo Antunes dizia que a geração atual é melhor do que a geração dele. Eu também acho isso, há um grupo novo de escritores a surgir. Por exemplo, o Gonçalo Tavares, que também é publicado no Brasil, um escritor extraordinário. Ele tem livros muito divertidos e outros livros mais sombrios, ele próprio divide em Livros negros, Livros brancos… O Gonçalo é um dos grandes nomes a seguir, mas há outros. Esse livro do Pedro Rosa Mendes, A peregrinação de Manoel Jesus, é realmente muito bom. Tem uma série de autores: José Luis Tavares, Patrícia Reis, Inês Pedrosa… E no Brasil está a acontecer o mesmo, embora não com a vitalidade que seria de esperar num país com 180 milhões de habitantes. O Brasil está a viver um momento muito bom de recuperação econômica e cultural. A música vai sempre à frente, a literatura vem a seguir. Há um grupo de jovens autores igualmente muito bom.

O que dizer a um jovem que deseja ser escritor?

JEA – O principal é ler muito. Eu sou uma pessoa feliz hoje porque sou escritor. É uma atividade maravilhosa ver um livro ser construído, de repente, tudo começa a fazer sentido. É absolutamente maravilhoso. Aconselho, a qualquer jovem, que insista. Primeiro é ler muito. Segundo nunca perder a paciência, nem a vontade de continuar, mesmo que em princípio pareça difícil. Quando fazemos o que quer que seja com paixão, acabamos por fazer bem. E os livros bons acabam sempre por encontrar seus leitores.

 


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