LYA LUFT

 ESCOLHAS DE VIDA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 lya

 

Aos 71 anos, a escritora gaúcha Lya Luft acaba de lançar o livro de ensaios Múltipla escolha(Record), que está dividido em partes, assim como a autora pensa a vida: “Um cenário com um palco e muitas portas.” O índice do livro é chamado de roteiro e os capítulos são denominados “Abrindo a cortina”, “Um palco para os mitos”, “A palavra difícil”, “Múltipla escolha” e “Cena final”. A autora situa seu texto entre o poético e o didático, expondo reflexões éticas e filosóficas a respeito da vida.

“Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce”, afirma Lya, compartilhando a frase de Hélio Pellegrino. Lya Luft é uma escritora que vende livros, muitos livros. Perdas e ganhos, seu best-seller, já vendeu mais de 1 milhão de exemplares. O público se mantém fiel, acompanhando a trajetória da escritora a cada nova publicação. Não se pode esquecer que Lya é acima de tudo romancista, autora de histórias inesquecíveis como A asa esquerda do anjo(1981) e Reunião de família (1982) — este último adaptado para o teatro pelo escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, seu estimado amigo. Além da prosa, Lya também escreve poemas.

Em entrevista ao Saraiva Conteúdo, numa tarde no hotel Sol Ipanema, no Rio de Janeiro, Lya Luft falou sobre o seu processo de escrita, a transição entre os gêneros literários, e a paixão pela vida. “As coisas mais importantes são os afetos, principalmente a família, as amizades.”

Múltipla escolha é um livro de ensaios sobre “os mitos enganosos da nossa cultura…”

Lya Luft – É uma espécie de ensaio. Eu chamo de “ensaio”, no sentido mais original da palavra. É um ensaio não-acadêmico. Algo que se usa na Europa e um pouquinho nos Estados Unidos, ensaiar é falar sobre determinado assunto — não tem nota de rodapé ou pesquisa. Eu gosto desse gênero. Tentei começar em O Rio do meio, de 1996, onde misturei um pouco de ficção. Porque, no fundo, sou uma ficcionista, sempre coloco uma historinha no meio. Fiz um pouco (de ensaio) no Perdas e ganhos, mas esse livro é um pouco mais elaborado, no sentido que eu quis fazer realmente esse tipo de ensaio, abordando alguns assuntos que falo desde os primeiros romances: drama existencial, o desencontro, incomunicabilidade… E hoje em dia colocando mais as questões da sociedade, da cultura. E esse mito moderno de que falo, a nossa servidão, a necessidade de nadar um pouco contra a correnteza. Quando começo a escrever, a pensar um livro, ele nem sempre sai no seu gênero. Por exemplo, o meu livro de ficção, O silêncio dos amantes, era para ser um romance, mas ele se fragmentou em contos. Esse livro, Múltipla escolha, eu nem sabia se ia ser um romance ou ficção. Acabou sendo esse ensaio. Escrevo depois de pensar muito sobre determinado tema. Quando sinto que o livro quer ser escrito, que já existe livro para ser escrito, eu rearrumo, rearranjo, reescrevo muito…

Como é esse sentimento de nascimento de um livro?

LL – Quando é um romance, tem um clima. O personagem principal e a história que se estruturou em torno dele. Nesse caso aqui (do ensaio), sinto que existe uma estrutura, que não vou escrever só fragmentos. Então, tento, tento… Se ele sai, é porque ele está quase pronto dentro de mim. Acho que meu trabalho é muito ao nível, mais ou menos, do inconsciente. Como já estou “macaca velha” nesse assunto, nesse “metiê”, tenho uma escuta interior boa a essa altura da vida. Você quando já tem um livro para ser escrito, às vezes começa e não sai. Espera, e daqui a pouco sai. Minha ideia, neste livro, foi falar diretamente com o meu leitor sobre os meus velhos temas.

Seu livro Múltipla escolha fala muito sobre as angústias da vida. O que é mais importante na vida?

LL – Primeiro, a vida é mais importante do que a literatura. Se não pudesse mais escrever, eu não morreria. Na vida, o mais importante são os afetos. Hélio Pellegrino dizia que minha verdadeira vocação não era escritora, era “galinha choca”. As coisas mais importantes são: os filhos, os netos, o marido, a casa… Eu estou no Rio há dois ou três dias e já estou louca da saudade de minha casa, do meu lugar. Eu sou muito bicho na minha toca, preciso ficar quieta. Tenho uma vida muito quieta em Porto Alegre, você não me vê em vernissage, lançamento, coquetel… Quando recebo homenagem, peço para uma amiga receber em meu nome. Preciso ficar quieta. As coisas mais importantes são os afetos, principalmente a família, as amizades. Depois a decência ética, comportamento. É muito importante. Eu tenho sete netos/netas e, eventualmente, eles perguntam: “Vovó, você é famosa?” A professora na escola falou de um livro meu… Digo, duas coisas que não têm importância: ser rico e ser famoso. Duas coisas que têm importância: ser legal e tentar ser feliz. Acho que são as coisas importantes na vida: afetos e a decência.

O escritor e psicanalista Hélio Pellegrino foi citado em sua fala. Você poderia falar um pouco de sua relação com ele?

LL – Não sou especialista em Hélio Pellegrino, mas nós estivemos juntos por dois anos e três meses. Eu tive o privilégio de ter parceiros excepcionais. O pai dos meus filhos, Celso Pedro Luft, um grande linguista — até hoje é meu guru, embora falecido há anos. Ele foi meu professor na faculdade, um homem sábio. O Hélio foi uma tempestade de primavera: agitada, turbulenta, idealista, sonhadora. E como psicanalista ele era excepcional. Eu ganhei, depois da morte dele, muitas cartas de pacientes e ex-pacientes. Todos mais ou menos assim: “Dr. Hélio salvou minha vida”. Era muito emocionante o depoimento das pessoas, testemunhei o amor, a dedicação que ele tinha aos seus pacientes. Foi uma época de mentes brilhantes, havia todo aquele fervor político, a questão da psicanálise, que tinha sofrido muitas questões políticas. Havia a turma dos quatro mineiros: Hélio (Pellegrino), Fernando (Sabino), Otto (Lara Resende) e Paulinho Mendes Campos. Era uma época dos intelectuais de grande idealismo. E Hélio deixou marcas. Seguidamente, quando falo com as pessoas sobre o Hélio é algo muito vivo. Não sei como está hoje com o público. Ele virou nome de avenida em São Paulo — o que acharia muita graça porque era extremamente humilde. Aprendi com ele: levo meu trabalho a sério, mas não me levo muito a sério. Enfim, ele era uma pessoa que marcava muito os outros.

Na vida, você fez alguma escolha que se arrependa?

LL – Acho que fiz algumas escolhas de que me arrendo. Só se eu fosse louca para dizer que nunca fiz uma escolha da qual eu me arrependia. Acho que sim. Mas não são de interesse geral.

Logo no início do livro, tem uma frase que diz: “Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce.”

LL – Essa frase é do Hélio. “Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce.” Achei uma frase maravilhosa, e é.

Como foi sua estreia na literatura?

LL – Na verdade, não estreei aos 41 anos como todos pensam. Eu já tinha três livros publicados, só que em pequenas editoras gaúchas, não saiu do Rio Grande do Sul. O primeiro foi um livro de poesia quando eu tinha 24, 25 anos, chama-se Canções de limiar (1964), que foi um prêmio do Concurso Estadual de Poesia, publicado pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul. Esse livro não existe mais. O segundo foi também um livro de poesia, chamadoFlauta doce (1972), numa editora do Rio Grande do Sul que depois fechou, chamada Sulina, cujo dono tinha o que ele batizou de “cota de fundo perdido”. Editou jovens poetas: Carlos Nejar, Lya Luft… Esse livro também não existe mais. Eram poemas que eu publicava em suplementos literários, inclusive em Minas (Gerais) e Rio Grande do Sul. O terceiro livro chama-se Matéria do cotidiano (1978), uma série de crônicas que escrevi em jornais. Faço crônica a vida inteira, praticamente. Juntei 40, 50 crônicas, não me lembro ao certo, que publicava no Correio do Povo, um jornal muito forte no Sul, naquela época. Foi uma estreia na ficção, uma estreia nacional, a Nova Fronteira editou porque eu estava traduzindo muito para essa editora. Resolvi mandar para eles o original de As parceiras (1980). Primeiro, enviei para uma amiga minha, Raquel Jardim, que escrevia e era muito amiga da Nova Fronteira; ela levou para a mesa do editor. Ele me ligou e disse: “Quero esse livro e tudo o mais que você escrever.” Não foi de repente, eu tinha toda uma trajetória antes. Em maio, completou 30 anos que saiu meu primeiro romance, As parceiras. Tive sorte porque saíram críticas muito boas nos grandes jornais e revistas… Vendeu bem. E, de repente, olhei e disse: “Eu nasci para fazer isso!” Eu já estava, mais ou menos, me demitindo da faculdade, eu era professora particular de Linguística. Então, fiquei só escrevendo… Porque abriu a comporta e eu não parava mais de escrever romances. E sai no ano seguinte A asa esquerda do anjo (1981). Quando saiu As parceiras, eu já estava escrevendo A asa… e no ano seguinte saiReunião de família (1982). Em 1984, eu tinha O quarto fechado, mas disse ao editor: “Pareço uma galinha botando um ovo por ano, esse ano não vai sair livro!” Foi uma estreia na ficção e uma estreia nacional.

Poemas, crônicas, romances, contos, ensaios… O seu modo de criar, escrever cada livro, se diferencia para cada gênero?

LL – Não digo “vou escrever um livro de poesia”. De vez em quando, escrevo poemas… (Barulho de um helicóptero interrompe a entrevista) Sempre que dou entrevistas aqui — frequento este hotel há vinte anos — passa um helicóptero. Mas não escrevo um livro de poesias, escrevo poemas. Por exemplo, paraMúltipla escolha, escrevi um poema para começar cada capítulo, vai chegar um dia que vou ter um número suficiente de poemas, aí vejo se há uma unidade possível, ou não… Porque, em geral, meus poemas também contam uma historinha, na minha cabeça, pelo menos. Escrever um poema é completamente diferente de escrever um conto, por exemplo. O poema é muito mais breve, o conto ainda é mais complexo. E, ainda, o romance muito mais complexo. Mas o poema, exatamente por ser breve, cada palavra, tem um peso muito importante. O poema é mais artesanal até. Eu sou uma escritora artesanal, e gosto muito de escrever, é lúdico. Tenho muito prazer escrevendo, não tenho angústia em escrever, angústia da página em branco.

Há uma história em que dizem que você lia em alemão, em francês quando criança…

LL – Não, isso é um mito. Eu falei alemão primeiro, antes de falar português, porque sou de uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Sul, descendente de imigrantes alemães. Com meus avôs, eu falava em alemão, aquela coisa… E muitos dos meus livros de história, por exemplo, os contos de fadas — onde está a raiz da minha literatura toda, eu acho — eram todos em alemão. Depois, li os clássicos adolescentes porque estavam disponíveis na biblioteca do meu pai. Mas eu não era um gênio por causa disso, era natural. Acontece que minha mãe guardava esses livros infantis em alemão, e, depois, eu anotava à margem, traduzia. Eu colocava o texto em português, traduzi para a editora Globo, cuja matriz era em Porto Alegre. Mas nunca traduzi poesia. Traduzi Thomas Mann, Günter Grauss…

Por que você escreve?

LL – Escrevo para tentar entender a vida, sobre coisas que não entendo. Desde criança, bem pequena, eu queria entender as coisas. Achava que a resposta estava nos livros, que se lesse todos os livros eu ia entender a vida. Depois, é claro, descobri que a vida não é assim. A vida não é para ser entendida, por isso ela é interessante. E por isso que escrevo. Normalmente, os artistas fazem seus trabalhos para tentar organizar na cabeça todo esse caos, belo e cruel, que no fundo é a vida da gente. Escrevo porque me dá muito prazer, muita alegria. Escrevo porque é muito lúdico — mesmo quando escrevo contos tristes ou famílias neuróticas em meus romances. Montar o conto ou romance, mexer com a linguagem, me dá uma grande alegria. Gosto de fazer isso. É como um chefe de cozinha que vai fazendo sua comida ou um pintor que vai fazendo seu quadro. Sou muito feliz quando escrevo, me dá muita alegria. Por isso que gostava tanto de traduzir, estava sempre mexendo com literatura, mesmo que fosse alheia. E sempre mexendo com palavras e linguagem. É a profissão ideal para mim.

O livro Perdas e ganhos (2003) é o seu best-seller. Dizia Tom Jobim: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal.” Você sente preconceito em relação ao seu trabalho?

LL – Eu não vivo no mundo literário, não faço vida literária. Tenho amigos escritores, por acaso, alguns muito queridos. Acho que tem preconceito no mundo inteiro. Vende muito, alguma coisa está errada. É uma questão de preconceito, ignorância, burrice, má vontade… As pessoas, de modo geral, não curtem o sucesso alheio. A mulher muito bonita é galinha. Se o homem é um empresário bem sucedido é porque roubou… O ser humano tem um lado infantil. Perdas e ganhos foi aleatório, não é meu melhor livro, não é o livro a que eu mais tenha me dedicado. Na verdade, foi um presente que me dei: escrever sobre os meus temas de uma maneira direta. Um pouco parecido com Rio do meio. Quando a Record comprou minha obra toda, em 2002, eu tinha acabado de escrevê-lo, estava inédito. Eu vim com minha obra toda, que eles compraram da Siciliano, e esse inédito que ninguém deu muita bola… Tanto que a editora fez uma edição minúscula de três mil exemplares, marketing zero. E depois de uma semana não tinha mais, fizeram vinte mil, trinta mil… E hoje deve ter vendido cerca de um milhão, algo completamente sem explicação. Vendeu para um monte de países. É claro, tem gente que acha que não é legal porque vende muito. Eu não dou bola. Esse tipo de coisa não tem nenhuma importância porque meus livros sempre venderam direito. Nunca tive livro encalhado… Esse (Múltipla escolha) está vendendo super bem. Mas, realmente,Perdas e ganhos foi fora de série. Que bom se todos fossem assim, mas não são.

Você se considera poeta ou romancista?

LL – Acho que sou mesmo uma romancista. Eu gosto muito de um romance chamado O ponto cego (1999), onde consegui realizar o velho sonho meu: uma de minhas famílias neuróticas, narrada por uma criança. Fiquei tentando por muito tempo e não consegui. Tem outro romance de que gosto muito, Exílio. Esse foi o livro que escrevi quando morava no Rio, com o Hélio. Tem um anão naquele livro que até hoje me assusta e me enternece, uma figura meio misteriosa. Talvez eu tenha retomado ele no menino de O ponto cego. Esses fios que se unem, misteriosos, é o que mais me agrada no meu trabalho. As coisas que não sei explicar direito, mas que estão ali.

Como você se relaciona com o tempo?

LL – Eu nunca perdi minha criança interior. O artista verdadeiro é aquela pessoa que nunca perdeu o olhar mágico da infância. Qualquer pessoa é capaz, mas a cultura, a sociedade, a escola, vão emburrecendo a gente. Vamos ficando com pudor, medo. Minhas netas perguntam: “Vovó, bruxa existe?” Por causa dos livros infantis, história da bruxa boa… “Fada existe?” Digo: “Para quem acredita, existe.” Quem sabe no bosque lá em Gramado — onde tenho uma casa que chamo de Casa da Bruxa Boa — não tem seres fantásticos. Por que não? Eu nunca vi. Se eu vir, saio correndo porque sou medrosa. Mas por que não?

Fale sobre sua relação de amizade com Caio Fernando Abreu.

LL – A gente se adorava, Caio era muito engraçado. Ele era exatamente dez anos mais moço que eu, sou de 15 de setembro. Eu acho que ele era de 16, por ali… (Caio nasceu em 12 de setembro de 1948.) Nós éramos as duas pessoas que tínhamos a vida mais diferente que se pudesse imaginar. A vida dele era aquela loucura. E eu era mãe de família, casada com um professor ilustre, aquela vidasuper tranquila. De vez em quando, ele me escrevia cartas ou aparecia em Porto Alegre, telefonava e vinha almoçar… Às vezes, ele estava no maior desbunde a noite toda, vinha com a gravata de lantejoulas verdes. Meus filhos eram adolescentes, super convencionais, olhavam “assim”… Ele tinha umas frases engraçadas a meu respeito. Um dia, ele disse para uns amigos, com muito carinho: “A Lya, com aqueles cândidos olhos azuis, não entende nada daquilo que escreve. É tudo psicografado!” (risos) De vez em quando, ele me escrevia uma carta dizendo assim: “Estou há três semanas, ou três meses, sem sexo. Pareço uma velhinha inglesa tomando chá, cuidando das minhas plantas…” Depois ele escrevia uma coisa bem louca de novo. Havia uma grande afinidade entre a gente, que era engraçado, pela nossa diferença. Pouco tempo antes de ele morrer, já no hospital em Porto Alegre, sofrendo muito, alguém me disse que ele queria falar comigo. Eu liguei, ele tinha aquela voz maravilhosa, e ele foi direto ao assunto: “O que você acha que vai acontecer comigo quando eu me livrar desse corpo?” Me lembro que chovia muito, eu estava sentada no meu escritório, não podia mentir: “Eu acho que vai acontecer o mesmo que com o Hélio e com o Celso”, eu já era viúva duas vezes. “A gente vai virar pura intuição, fulguração, e vai entender tudo aquilo que não entendemos, sobre o que nós escrevemos tanto nessa vida.” Ele parou e falou: “E se não for assim?” Eu disse: “Olha, Caio, se depois dessa vida tão complicada a gente descobrir que Deus é um velho chato, medindo nossos erros e acertos, nós vamos dar uma banana para ele…” (Novamente o barulho de helicóptero interrompe a entrevista)“Vamos virar dois diabos bem loucos e fazer muita maldade nesse mundo.”

 


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