MARCUS VINÍCIUS FAUSTINI

 Diretor fala sobre o ousado longa-metragem Elvis & Madona que está conquistando os festivais de cinema

Por Ramon Nunes Mello [Portal Cultura.rj 2010]

   

 

O cineasta Marcelo Laffitte teve de suar a camisa para ver sua mais recente criação nas telas dos cinemas. As filmagens do longa-metragem Elvis & Madona– ganhador do Melhor Roteiro no Festival do Rio 2010, além de outros prêmios recebidos em mais de 20 festivais – acabaram no final de 2008, mas só chegarão ao grande público no início de 2011. E vale a pena esperar.

 

 

O filme conta a história de amor entre a motociclista Elvis (Simone Spoladore) – que sonha em ser fotógrafa, mas trabalha como entregadora de pizzas – e a travesti Madona (Igor Cotrin), uma cabeleireira que tem como meta produzir um show de teatro de revista. De um encontro inusitado entre as duas, nasce uma divertida história de amor.

A química do encontro entre esses personagens também está registrada em livro. E não se trata da publicação do roteiro do filme. O escritor paulista Luiz Biajoni vai publicar um romance, pela editora Língua Geral, inspirado no filme de Laffite. Um processo incomum de adaptação de uma história cinematográfica para a literatura.

Em entrevista ao Cultura.rj, Marcelo Laffitte conta sobre os bastidores da filmagem de Elvis & Madona, além de rever sua própria trajetória.

 

 

O livro Elvis & Madona, de Luiz Biajoni, é uma adaptação do seu filme. Como foi esse processo?

Marcelo Laffitte – Eu queria fazer um filme erótico e com muitas cenas de sexo, mas as ideias não vinham facilmente. Após as filmagens de Elvis & Madona, no fim de 2008, quando eu estava completamente sem recursos para terminar o filme, me deparei com o livro Sexo anal – Uma novela marrom, do escritor paulista Luiz Biajoni. Empolgado com a história, entrei em contato com o autor me apresentando como cineasta. Algum tempo depois, enviei primeira versão do filme e perguntei: ‘Biajoni, será que essa história não cabe num livro?’. O resultado é a obra publicada pela Língua Geral. Luiz Biajoni viu o filme e escreveu o romance.

 

 

A trajetória de captação de patrocínio para Elvis & Madona foi tortuosa. O que é mais difícil para realizar um filme?

ML -Começamos a captar em 2002, eu só tinha feito até então dois curtas-metragens. A única forma de viabilizar a produção seria batendo de porta em porta, nas grandes empresas. Foram essas empresas – bancos, montadoras de carros, laboratórios – que determinaram por muitos anos a cultura que seria feita no Brasil. Ainda é um pouco assim, mas os investimentos diretos dos governos têm aumentado bastante. Mas, voltando às empresas, nenhuma delas queria ver sua marca ligada a um filme cujos protagonistas eram um travesti e uma lésbica. Ou seja: não obtivemos sucesso algum. Até que, em 2005, ganhamos o edital do Ministério da Cultura. O valor, porém, era insuficiente para terminar o filme. Filmamos em parte em 2007, o dinheiro acabou e ficaram faltando quatro cenas, que só conseguimos terminar em 2008. Montamos um corte sem música e acabamento, e inscrevemos em outro edital em 2009, o da Oi, com recursos da Lei de Incentivo do Governo do Estado do Rio. Então a comissão de seleção viu o potencial e o valor do filme ainda inacabado e nos contemplou com os recursos para finalizar esta cópia que o público carioca viu no Cine Odeon. Para o lançamento, que será dia 28 de janeiro, recebemos patrocínio do edital da Petrobras pela Lei do Audiovisual da Ancine, mas que também não é o bastante para fazer o lançamento nacional. Então, ainda estamos tentando captar recursos.

Elvis & Madona conta história de amor entre uma lésbica e um travesti em Copacabana. Como foi a escolha por Simone Spoladore e Igor Cotrin como protagonistas? Não pensou em convidar um travesti? Quem fez a preparação de elenco?

ML - Sim, cogitei chamar uma travesti. Mas, infelizmente, não encontrei uma atriz transformista que tivesse as características e disponibilidades que o filme necessitava. Então surgiu Igor Cotrim, um ator muito inteligente e maleável, que compôs com Simone Spoladore a química perfeita para o casal protagonista. A partir daí, os dois atores fizeram laboratório com Ângela Durans por cerca de três meses, e o coreógrafo Bayard Tonelli (Dzi Croquetes) desenvolveu com Igor toda uma série de gestos e comportamentos para caracterizar fisicamente o personagem.

 

 

Além da atuação dos atores e do roteiro de Elvis & Madona, a trilha sonora do filme tem sido bastante elogiada. Quem a assina trilha?

ML – A trilha incidental e os arranjos das canções são de Victor Biglione, e este já é o terceiro filme que fazemos juntos. Mas houve também a parceria valiosíssima de Gabriel Moura, de Aleh Ferreira, de Luciana Lazulli e da dupla paulista pop K-Sis (Kênia e Keyla Boaventura), que compuseram canções especiais para o filme. Para interpretar algumas delas, convidamos Gilberto Gil, Elza Soares e Eduardo Dussek, e foi uma honra eles aceitarem, com cachês apenas simbólicos. Para completar a trilha, incluímos canções de Lanlan, Rodrigo Bittencourt, Alexandra Scotti e Le Andrade.

Você nasceu em Volta Redonda, no interior do Rio de Janeiro, e ingressou no cinema como assistente de produção em Bete Balanço(1984), de Leal Rodrigues. Além de dirigir curtas-metragens premiados no Brasil e no exterior (Fúria, Ópera Curta, Banquete e Vox Populi) e documentários (Um Dia, Um Circo e Regatão, O Shopping da Selva). Como avaliar esse percurso?

ML – Na nossa sessão de gala do Festival do Rio, no Cine Odeon, eu fiz um agradecimento aos não-patrocinadores. Afinal, se tivéssemos captado os recursos lá em 2002, eu faria um filme muito pior, e nem estaria naquele palco. Pode parecer ironia, mas não é não. Aprendi muito nos quatro curtas que fiz para cinema, todos em 35 mm, e nos documentários para a TV. É por isso que eu acho um equívoco os governos investirem cada vez menos em curtas e cada vez mais em novas mídias, na web. Se a gente não aprender a conquistar a atenção de uma sala de cinema, nunca teremos um audiovisual de qualidade.


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