MARCELO COUTINHO

 MEMÓRIA CARTOGRÁFICA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

 marcelomoutinho

 

A narrativa de Marcelo Moutinho é uma espécie de cartografia do Rio de Janeiro, os afetos — principalmente relacionados à infância — abrem canais, ruas, vielas para o leitor caminhar por histórias ligadas à cidade.

“A visita a esses lugares da infância, aonde eu não ia há muitos anos porque morei 21 anos na Barra (da Tijuca), ficou muito latente na minha literatura. Não só os dilemas e lugares da infância, mas a própria ambientação.” E completa: “Na infância meu contato era muito maior com história em quadrinhos, de Mauricio de Sousa a Disney, eu lia muito. A literatura chegou através do interesse político. Em 86, aos 14 anos, durante a campanha do Gabeira para governador”, relembra o autor, admirador de Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector.

No trajeto de Moutinho, carregado por referências da literatura e da cultura popular, não há espaço para um atalho mais fácil, foge-se dos clichês. O olhar para a cidade é periférico, seja no ritmo alegre de uma escola de samba de Madureira ou o no swing de travesti da Glória. As histórias passeiam de um lado a outro da cidade, cruzam o túnel, mudam o foco, buscam a memória.

“Tem uma música do Arlindo Cruz que diz: ‘A oportunidade não cruza o Rebouças‘. É um pouco isso, as imagens do Rio, em geral, não cruzam o Rebouças. Ou, se cruzam, são formas clichês”, questiona o autor de Memória dos barcos (7Letras, 2001) e Somos todos iguais esta noite (Rocco, 2006).

Conforme declara o próprio autor, seu “vínculo com a literatura é de não pertencimento”. Marcelo Moutinho dedica-se à palavra, pode-se esperar o livre trânsito entre ofícios (exercícios) da escrita: resenhas literárias, livros de contos, ou antologias — que tem organizado com frequência, como Contos sobre tela(Pinakotheke, 2005), com Flávio Izhaki e o excelente Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009), com Jorge Reis-Sá, entre outras.

Na entrevista, confundem-se o escritor e o jornalista. É inevitável.

A infância está muito presente em seu livro Somos todos iguais esta noite (Rocco). Fale sobre esse período da sua vida.

Marcelo Moutinho – Em Memória dos barcos (7Letras), meu livro anterior, a infância não é tão presente. Quando estava escrevendo Somos todos iguais esta noite, passei novamente a frequentar a Madureira, meu bairro de infância, por conta do Império Serrano — sou apaixonado por escolas de samba. A quadra fica a 80 metros da loja do meu pai, mais ou menos, 600 metros da casa onde eu morava. E, também, perto da casa da minha bisavó, a matriarca da família, onde todos os parentes se reuniam. A visita a esses lugares da infância, aonde eu não ia há muitos anos, ficou muito latente na minha literatura. Não só os dilemas e lugares da infância, mas a própria ambientação.

O Rio de Janeiro é mostrado através um olhar que foge do clichê…

MM – Porque o Rio do clichê é da Zona Sul.

Lembrei do trecho de uma canção do Chico Buarque: “o Cristo está de costas…

MM – É verdade. Tem uma música do Arlindo Cruz que diz: ‘A oportunidade não cruza o Rebouças’. É um pouco isso, as imagens do Rio, em geral, não cruzam o Rebouças. Ou, se cruzam, são formas clichês.

O contato com a literatura aconteceu na infância?

MM – Na infância, meu contato era muito maior com história em quadrinhos, de Mauricio de Sousa a Disney, eu lia muito. A literatura chegou através do interesse político. Em 86, aos 14 anos, durante a campanha do Gabeira para governador. Venho de uma família de conservadores de direita, comerciantes de Madureira, meu pai não tinha sequer o primeiro grau e minha mãe não completou o segundo. Então, eu não tive livros em casa, definitivamente. Sou de uma família de seis irmãos, a minha irmã mais velha se formou em jornalismo. Ela participava muito da campanha do Gabeira e eu acompanhava. Fui ao abraço da Lagoa e ao comício do dia 13 de novembro, antes da eleição, o que me rendeu brigas homéricas com meu pai — um xingava o outro. E, a partir desse momento, passei a ler tudo o que você imagina. Não sei em que momento, nem exatamente o porquê, mas comecei a ler livros de ficção.

Quando você saiu do subúrbio?

MM – Fui morar na Barra quando tinha uns 10 anos de idade, mas continuei estudando em Piedade. Depois fiz o segundo grau no Méier. Só saí do subúrbio quando comecei a fazer faculdade.

Qual a marca mais forte do subúrbio em sua vida?

MM – Escrever sobre o subúrbio não foi tão pensado e, sim, mais emocional, o reencontro. Acho que o subúrbio me traz, assim como um forte envolvimento com o carnaval, uma singularidade em relação à média da literatura brasileira contemporânea — uma literatura muito centrada em si mesma, feita por pessoas que viveram a vida inteira na Zona Sul, estudantes de Jornalismo ou de Letras. Não é à toa que grande parte dos protagonistas dessa produção é feita de jornalistas ou escritores frustrados.

Você é formado em jornalismo?

MM – Sim. Mas não imaginava ser escritor, nada disso. Na verdade, eu escrevia uns poemas muito ruins. Só em 1997 que comecei a escrever uns contos. A literatura era um interesse como leitor. Em algum momento mudei de canal, não sei exatamente quando. Sei que há livros marcantes, li quase tudo do Kafka na época da faculdade. Na primeira vez que li Notas de subsolo (de Dostoiévski) pensei: “Esse livro foi escrito para mim.” E depois conheci os livros do Caio Fernando (Abreu) e li tudo. Através do Caio, conheci a Clarice (Lispector), um caminho contrário. Meu vínculo com a literatura é de não pertencimento. Quando eu morava na Barra, estudava na Zona Norte. No Méier, eu era considerado um “mauricinho” rico e na Barra eu era considerado um cara que gostava do subúrbio. Difícil de encarar quando se é jovem porque se quer pertencer. Toda a literatura de que gosto é de não pertencimento, olhando para o retrovisor, enxergo isso.

Você tem um blog chamado Pentimento. É por causa de um trecho do livro Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu?

(Atravessei devagar o parque deserto enquanto ouvia de longe as sirenes das ambulâncias, carros de polícia e bombeiros, dei a volta pelo lago onde um barco solitário me fez lembrar, outra vez, aquela palavra que eu não sabia o significado. Pentimento, repeti: pentimento, um sentimento com pena. A roupa molhada secava contra o corpo, água de chuva e suor.)

MM – (risos) Não. É por causa da biografia da Lilian Hellman. O blog surgiu porque eu queria escrever sobre teatro e não me sentia preparado para publicar nos jornais. Um espaço de experimentação, diferente do rigor de uma publicação especializada. Pentimento é muito a ideia do rascunho, tudo que não é o quadro final. As pessoas, em geral, não sabem o que é. Por isso coloquei a definição da Hellman no layout.

Você faz resenhas e críticas para jornais. Como é resenhar e criticar autores contemporâneos?

MM – O espaço para a literatura nesses cadernos literários é muito pequeno em relação à quantidade de livros e autores, ou seja, os colaboradores são necessários. Teve uma ocasião engraçada: quando fiz a resenha do livro Dentro de um livro (Casa da Palavra, 2005), uma antologia de contos. Falei bem de uns contos e mal de outros, inclusive de um conto do Marcelino (Freire). E eu adoro o Marcelino, impossível não gostar dele. Ele tem uma virtude singular, é um amigo incondicional, muito generoso com os jovens autores. É um pouco constrangedor quando se conhece o autor. Mas vou deixar de resenhar? Acho que tenho capacidade de discernir a pessoa do livro. Meus livros também estão aí para serem criticados, faz parte do jogo. Quem escreve críticas não pode perder a dimensão do leitor que foi.

O que você espera como leitor?

MM – Eu quero que o texto me desconcerte ou me ilumine. Esse iluminar pode ser emocionar. Quero que o texto me mostre algo que eu conhecia, mas não sabia dizer. Quem me faz isso? Caio, nos Morangos mofados, por exemplo. O que é o conto “Dama da noite” (do livro Os dragões não conhecem o paraíso, de Caio F. Abreu)? Gosto muito do Fernando Sabino no Encontro marcado. O (Carlos Heitor) Cony é sensacional, ele tem um texto trágico que me interessa.

Sobre o trabalho de organizar antologias. É complicado?

MM – Fiz três antologias e encerro aqui. A primeira foi Prosas cariocas (Casa da Palavra, 2004). O Flávio (Izhaki) tinha acabado de fazer um conto sobre o Catete e me convidou para organizar o livro a quatro mãos — a Casa da Palavra comprou a ideia. O Contos sobre tela foi publicado pela Pinakoteque (em 2005). Mas eu disse que não faria mais nenhuma antologia porque estava ficando mais conhecido como organizador de antologias do que como autor. Os critérios de antologias são subjetivos, não adianta. Em todas as antologias, com exceção do Prosas cariocas (Casa da Palavra, 2004), que era somente com jovens autores cariocas, procuro misturar gerações de diferentes lugares. Em Contos sobre tela(Pinakotheke, 2005), tem de Ana Paula Maia a Adriana Lunardi, estilos completamente diferentes. A ideia do Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009) foi explorar a diversidade de autores e de escritas, de Antonio Torres a Marcelino Freire.

Sobre o seu primeiro livro, Memórias dos barcos

MM – Lancei esse livro antes das antologias, muito antes. Mas eu ainda não havia matado meus pais, o Caio Fernando era muito presente, por exemplo.Memórias dos barcos é um livro afetado pelas influências e por querer escrever bonito, uma tendência a “filosofices”. Isso me incomoda muito, tem de haver espaço para o leitor.

Você escreve romance?

MM – (silêncio) Não sei (risos). Ainda estou descobrindo.

Escrever um livro de contos é muito diferente de escrever um romance?

MM – Tem muita diferença. Eu não consigo pensar numa história longa, gosto de histórias de fôlego curto. Gosto do soco que nocauteia, do Cortázar. Não sei, pode ser que um dia eu escreva um romance. Não me cobro.

E poesia?

MM – Já brinquei. Inclusive publiquei umas poesias no blog — onde publico coisas com falta de critério (risos). O (poeta) Henrique Rodrigues disse que tenho que continuar escrevendo contos; confio no discernimento dele. Leio muita poesia, é o que mais me inspira a escrever contos. A prosa está carregada de enredo, prefiro partir de um sentimento ou uma epifania que a poesia me permite. Li muito Ana Cristina Cesar, Adélia Prado, Hilda Hilst,Drummond…

O que você pensa a respeito da não obrigatoriedade do diploma de jornalismo?

MM – Sou contra a obrigatoriedade do diploma, sempre fui. Mas acho que essa decisão não foi feita da maneira certa, com um projeto de lei que amarrasse uma regulamentação mínima. Eu não recomendo para ninguém a faculdade de comunicação, o jornalismo poderia ser apenas uma especialização de curso de Humanas.

É difícil escrever por encomenda?

MM – Não acho, não. Trabalho com jornalismo, então chegar em casa e escrever é penoso. A encomenda me dá foco, escrevo com disciplina.

Você tem horários para escrever?

MM – Não. Mas o jornalismo me deu a habilidade de escrever nos lugares mais improváveis. No começo, misturava o jornalismo à minha literatura. Só mais tarde aprendi a acionar cada chave na hora certa. Os textos dos jornalistas que são escritores são melhores porque há mais liberdade na escrita.

O que te leva a escrever?

MM – As cenas, frases de um filme. Muitas vezes, uma música, uma conexão muito forte com a música. Meu processo de criação também funciona muito bem encomenda. Existem janelas sensíveis, quando elas abrem, devemos escrever. Não é inspiração, só sensibilidade e trabalho. A memória é muito importante na minha escrita. Não é à toa que o título do meu primeiro livro éMemórias dos barcos. A memória é uma briga, um lamento, contra a inexorável finitude das coisas.

Você tem medo da morte?

MM – Não tenho, não, já perdi tanta gente. Perdi meu pai, uma irmã, alguns tios… A morte, o sofrimento e a dor trazem maturidade. Quem se interessa por perdas, se interessa por memórias, o recolhimento de tudo que se foi. Nenhuma memória é só feliz, muito menos a da infância (risos).

O que é necessário para ser escritor?

MM – Ser sincero com a escrita.


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