MARINA COLASANTI

 TINTAS, PAPÉIS E CANETAS

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2009]

   

 marinacolasanti

 

“Marina não queria ser escritora, Marina queria ser artista plástica; era o meu projeto de vida. Eu nunca pensei que eu fosse ser escritora. Embora eu escrevesse quando era criança, fazia poema — mas isso todo mundo faz”, declara a escritora e jornalista ítalo-brasileira, que nasceu na Eritreia, então colônia italiana no norte da África, que se tornou uma província da Etiópia nos anos 1960 até conseguir a independência, em 1993 — e imigrou para o Brasil ainda criança com o surgimento da II Guerra Mundial.

Como artista plástica, estudou Belas Artes e vem realizando desde a década de 1950 exposições, individuais ou coletivas. A arte plástica foi primordial para construção da trajetória da escritora, que até hoje ilustra as capas dos livros que escreve, e, na adolescência, viveu no mítico casarão do Parque Lage, no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro, que, na época pertencia a sua tia, a famosa cantora lírica Laura Besonini.

No entanto, Marina considera o trabalho com as tintas muito diferente do trabalho com as palavras. “Eu acho que é diferente, muito diferente da escrita. Primeiro, porque tem o prazer físico, sensual, que não tem na escrita. Para pintar, eu trabalho com óleo. Fazer um empasto da tinta, casar a construção da cor que você quer exatamente, aqui, ali, acolá…”

A escritora, que conta hoje com mais de 40 obras publicadas — entre crônicas, contos, poesia e literatura infanto-juvenil —, também distingue o processo de criação para cada gênero que exerce na escrita. “O processo de criação é diferente para cada produto, chamemos produto ao invés de gênero. É diferente o processo de criação, sobretudo em relação à poesia e aos contos de fada.”

E o que está fazendo a escritora que lançou seu primeiro livro, Eu sozinha, em 1968? “Agora estou fazendo um livro estupendo. Sabe o que é um livro estupendo? É um livro de poesia para crianças, são poesias alucinadinhas, muito curtas: ‘Nem de brincadeira fale a queima-roupa com a passadeira’, ‘Alguém me responda quem colocou na piscina essa anaconda’. São 80 poeminhas assim. O título é Classificados e nem tanto, confidencia, sem modéstia, e com a certeza de que não vai ilustrar o livro que sai pela Record. “Eu sempre soube que eu não ia ilustrar esse livro. Fiquei procurando na minha cabeça quem poderia ser. Já no meio livro eu tinha certeza quem seria meu ilustrador ideal. É Rubem Grillo.”

Você escreve romance, contos, literatura infanto-juvenil, poesia e crônicas. Como é o trabalho com diferentes gêneros?

Marina Colasanti – Eu tenho um projeto. Como diz a Luana Piovani, a fila anda. Eu tenho uma fila de projetos que vou completando, realizando, numa ordem que preestabeleço. Eu não pipoco pra cá e pra lá. Não estou aqui, saio e pinto um conto infantil, chego em casa e pinto um poema… Não é assim.

O processo de criação é diferente?

MC – O processo de criação é diferente para cada produto, chamemos produto ao invés de gênero. É diferente o processo de criação, sobretudo em relação à poesia e aos contos de fada. Porque os contos de fada não são um gênero infanto-juvenil, há um equívoco generalizado em volta disso. O que faz com que um conto seja um conto de fada é exatamente a sua possibilidade múltipla, infinitas leituras, servindo, portanto, para qualquer idade. Esse é um dos elementos que constituem o conto de fada. O conto de fada e a poesia são gêneros que têm outro tipo de exigência, são bastante próximos, mas ainda assim diferem do resto da produção. Porque trabalho também com ensaio, trabalhei muitos anos com comportamento, trabalho com crônica… Se você vai fazer crônica, um pé tem que estar na realidade, um pé tem que estar no cotidiano, ele está dentro de um veículo de imprensa. Então, é uma coisa que você tem que manter um link com o que está acontecendo porque você trabalha com o que está no ar.

A produção de crônicas em jornais influenciou em seu trabalho literário?

MC – É o contrário. Ou seja, a minha escrita literária surge da crônica. Eu era cronista do Jornal do Brasil e não era escritora. A partir da crônica, ou seja, do meu envolvimento com uma escrita que, embora seja jornalística, é literária — e percebendo que meu interesse era mais intenso para o lado literário —, comecei a escrever o meu primeiro livro. A partir daí, eu sempre trabalhei a crônica como uma questão muito literária. Mas não foi o contrário, não sou uma escritora que foi chamada para escrever crônicas…

Compreendo. Mas pergunto se a produção em jornal de alguma forma influencia na produção de textos literários.

MC – Não influencia em nada. Ela constitui um tipo de escrita, de que eu gosto muito, que funciona sozinha. A crônica funciona com a crônica. Mas ela não influencia…

De maneira nenhuma?

MC – De maneira nenhuma.

Você também é artista plástica. Fale um pouco sobre esse trabalho.

MC – É muito bom. Eu lamento ter parado de fazer isso, por falta de mercado. Porque eu gostava… Durante um tempo interessante eu trabalhei com as duas atividades juntas, eu tinha um marchand — que vendia para mim, eu não tinha com o que me preocupar. Eu não posso incluir na minha vida sair com quadro debaixo do braço para galeria, fazer essa parte… Isso não cabe na minha vida, não cabe no meu temperamento. Mas pintar é muito bom. É muito desafiante no meio do quadro ter certeza que perdi o quadro: “Perdi esse quadro! Perdi, perdi…” E aí você vai, no detalhe, na construção. É um trabalho de construção. Dá aquela pinceladinha ali e pronto: salvei o quadro. Recuperei, vou recuperar ele todo… Tem um momento de parar, você diz: “Agora está bom!” Está bom no sentido de “é hora de parar”, não que esteja. Não sou Michelangelo. Mas é muito bom para alma, para o corpo e a alma.

É muito diferente do prazer da escrita?

MC – Eu acho que é diferente da escrita, muito diferente da escrita. Primeiro porque tem o prazer físico, sensual, que não tem na escrita. Para pintar, eu trabalho com óleo. Fazer um empasto da tinta, casar a construção da cor que você quer exatamente — aqui, ali, acolá… Eu trabalho com terras, minha paleta é franciscana. Eu trabalho com terras, um azul e um verde; e acabou… Vermelho, só vermelho de Veneza, não trabalho com tintas químicas. Nada. Então, é uma coisa milimétrica, sabe? Tem uma alquimia que se dá muito bem com minha personalidade. Sou uma pessoa que gosta de cozinhar, que gosta de costurar… Eu gosto dessa coisa de pegar pequenos elementos que não são nada. Uma cebola sozinha não é nada, né? Aí você junta o alecrim… Uma terra de Siena sozinha não é nada. Você junta um vermelho de Veneza, uma terra verde… Pega cores simples e transforma numa transcendente. É muito bom.

Você ainda faz a ilustração dos seus livros?

MC – As capas dos meus livro na editora Record o (Victor) Burton criou um tipo de capa, um projeto fixo, que é feito a partir de quadros meus, que foram fotografados. É uma linha. Os livros infantis, só eu ilustro. Há exceções, uma delas foi um livro ilustrado pelas irmãs Drummond. Elas me pediram um conto, escolheram um conto para fazer um livro. As irmãs Drummond bordam as ilustrações, são bordados que depois são fotografados. É tão próxima da minha sensibilidade, do que gosto de fazer, achei ótimo. O livro ficou deslumbrante. E os originais são deliciosos. O livro ficou lindo! Agora estou fazendo um livro estupendo. Sabe o que é um livro estupendo? É um livro de poesia para crianças, são poesias alucinadinhas, muito curtas: “Nem de brincadeira fale a queima-roupa com a passadeira”, “Alguém me responda quem colocou na piscina essa anaconda.” São 80 poeminhas assim. O título é Classificados e nem tanto. Por que tem também “Procura-se e Vende-se”. Eu sempre soube que eu não ia ilustrar esse livro. Porque eu não tenho um traço irreverente, não está em mim fazer um traço irreverente. Se eu fosse forçar a minha mão para fazer um traço irreverente ficaria uma porcaria, fake. Fiquei procurando na minha cabeça que poderia ser. Lá no meio do livro eu tinha certeza quem seria meu ilustrador ideal. É Rubem Grillo. O Rubem é o maior gravador em madeira no Brasil, ele é um gênio da xilogravura. Sempre amei a gravura dele. Eu não sabia se ele ia querer fazer. Falei com ele: “Olha, Rubem, você pensa, vou mandar o texto. Não precisa gravar nada, a gente faz uma seleção das suas gravuras para você não ter trabalho.” E ele gravou tudo! Fez mais de cem gravuras, cada poema uma gravura, interagiu com a tipografia… O título ele gravou letra por letra no sentimento a imprimerie — que é a alma da gravura em madeira, da xilogravura. Fez um trabalho tão deslumbrante. Esse livro vai ser estupendo. E não é por mim, mas pela junção que permite um objeto livro perfeito, sabe? De junção de uma coisa com a outra. É tão raro isso. Mesmo quando ilustro não tenho esse resultado. Certamente não tenho porque não sou tão boa quanto o Rubem Grillo.

Como é avaliar a sua trajetória de escritora?

MC – Marina não queria ser escritora, Marina queria ser artista plástica — era o meu projeto de vida. Eu nunca pensei que eu fosse ser escritora. Embora eu escrevesse quando era criança, fazia poema — mas isso todo mundo faz. Eu não tinha um projeto de escrita, eu tinha um projeto de arte visual. Tanto que fiz Belas Artes. Como era linda aquela faculdade, que agora é a Funarte. Era um deleite, o centro da cidade era muito bonito. Depois trabalhei no Jornal do Brasil, um prédio histórico que foi derrubado… A partir do momento que comecei a escrever eu quis ser escritora. Eu não jogo para a arquibancada. Por isso, vou lhe dar a resposta que você me perguntou. É muito elegante a pessoa dizer que tem dúvidas e questionamentos sobre sua obra… Eu adoro. Eu gosto muito do percurso que eu fiz, consigo me surpreender com esse percurso. De repente, eu pego um texto: “Que é isso, Marina, de onde você tirou essa história?” Consigo me comover. Leio, às vezes, contos meus e me arrepio inteira. Não acredito em escritor que diz nunca se reler. Não é verdade. Por uma razão muito simples, você é obrigado a se reler. Porque, de repente, alguém pede um texto, você tem que reeditar uma coisa, fazer uma coletânea… Portanto, selecionar o seu trabalho. Eu gosto do que releio. Veja bem, não estou dizendo que acho que o que eu faço o “Nobel da escrita”. O que eu quero dizer é que aquilo que eu fiz continua em sintonia comigo. O início é gêmeo, no sentido da mesma genética, do “quase final”. Porque com 71 anos eu posso dizer “quase final”. Tudo sai da mesma matriz e é visível isso. Gosto que seja assim porque é um atestado de sinceridade, que nenhuma crítica, que nenhuma análise poderia me dar melhor. É essa genética mantida que me diz da sinceridade do meu trabalho — isso para mim é muito importante. E, além do mais, como faço um trabalho aparentemente fragmentado, porque me divido em muitos gêneros, a coesão é muito importante para mim. Eu só estou fazendo um trabalho fragmentado para os outros, para mim estou fazendo um trabalho só. É importante que ele seja coeso, não só do princípio até agora como o conjunto. Quero que qualquer gênero possa encaixar com cada peça de qualquer outro gênero. Isso é importante porque sei o que estou fazendo com o todo. Quero que fique isso no final, um painel muito harmonioso.

 


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