MARTHA MEDEIROS

 CORRENTE POÉTICA E CRÔNICAS SURPRESAS

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 marthamedeiros

 

Martha Medeiros é bastante conhecida pelos livros de ficção que, frequentemente, ganham adaptações para o cinema e o teatro. Ela também é reconhecida pelas crônicas que publica naRevista de Domingo do jornal O Globo. A cada texto veiculado, sua caixa de e-mails lota com dezenas e dezenas de mensagens dos leitores, um contato instantâneo de elogios e críticas.

“Antigamente eram as cartas. Hoje em dia não tem isso, o escritor está completamente na berlinda. Eu acho muito bom. É um espaço e, como existe um certo anonimato, distanciamento, o leitor se sente muito à vontade de dizer o que pensa. Ele vai lá, mete o dedo na ferida, se não gostou ele diz.”

O que muita gente desconhece é que Martha Medeiros iniciou sua carreira literária através da poesia, com o livro Strip-tease — um título bastante significativo para uma autora que acredita que a escrita é uma forma intensa de exposição.

“Eu pelo menos tenho uma relação de intimidade com o que produzo. Escrever é um ato de exposição, de falta de pudor até, a gente se coloca muito. Não tem como se afastar muito do que a gente fez”, afirma Martha, que publicou o primeiro livro, em 1985, pela coleção Cantadas Literárias, da Brasiliense, do editor Caio Graco Prado: “Nesta coleção estavam Ana Cristina César, Leminski, Cacaso, Chacal… Era uma turma da pesada, eu tive a sorte de ter meu livro editado por essa coleção. Em seguida com o primeiro, vem o segundo, o terceiro… Daí as portas se abrem com mais facilidade. Mas eu achei que ia ser pra sempre assim: a poesia como uma espécie de hobby e a propaganda — trabalhei anos como publicitária —, a minha profissão. Foi uma surpresa que eu começasse a escrever crônica, depois ficção, e que acontecesse tudo isso”, confessa a autora de Divã (Objetiva, 2002), livro recentemente adaptado para teatro e cinema, tendo Lilia Cabral como protagonista.

Antes de tudo isso, quem muito divulgou o nome de Martha Medeiros pelo circuito poético do Rio de Janeiro foi a poeta e atriz Elisa Lucinda. As duas, além de compartilhar a paixão pela poesia, conquistaram uma legião de fãs, em sua maioria o público feminino.

A amizade entre as duas é tão grande, que recentemente Martha desembarcou no Rio de Janeiro, mais precisamente em Botafogo, para assistir a um sarau com os poemas dela, organizado por Elisa com os alunos da Escola Lucinda de Poesia Viva, na Casa Poema. Na plateia, muitas mulheres aficionadas por poesia, entre elas a atriz Regina Duarte e cantora Beth Carvalho.

Na entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo, Martha Medeiros relembra o início da trajetória de escritora, conta sobre a relação com os leitores e a Internet, e compartilha as referências literárias e musicais que fizeram (e ainda fazem) sua cabeça. Além de confidenciar que se surpreende com a trajetória de escritora, iniciada após abandonar o trabalho no mercado publicitário.

Você declarou que a poeta Elisa Lucinda foi a primeira pessoa a receber seu trabalho no Rio de Janeiro. Como vocês se conheceram?

Martha Medeiros – Comecei em Porto Alegre, onde minha carreira se estruturou. A Elisa (Lucinda) descobriu os meus poemas e começou a me procurar, me telefonar: “Vamos fazer um recital dos seus poemas?” Eu já conhecia a Elisa, naturalmente, através do trabalho dela. Mas não a conhecia pessoalmente. Então, ela disse: “Agora chega de papo! Agora vem mesmo.” Foi então que vim para o Rio, fazia um tempão que não vinha. Ela foi me buscar no aeroporto, me levou para a casa dela, depois fizemos o recital. Daí iniciou essa amizade. Muito bacana porque a Elisa é esse furacão, tem essa vitalidade toda. E passa isso para os convidados dela, para os alunos. Assim começou uma corrente poética. O pessoal não conhecia assim a Martha Medeiros. Quem é, afinal? Caiu de paraquedas. E a Elisa me proporcionou que meu nome começasse a rodar num círculo seleto de pessoas que gostavam de poesia.

O que chegou primeiro: a prosa ou a poesia?

MM – Primeiro veio a poesia. Achei que ia parar na poesia, inclusive. Nunca achei que tivesse talento para a prosa. Meu primeiro livro de poesia saiu por aquela coleção, Cantadas Literárias, do Caio Graco Prado, na Brasiliense. Nossa, achei um luxo!

Foi nessa coleção que o Caio Fernando Abreu lançou o primeiro livro…

MM –  Nesta coleção estava Ana Cristina César, Leminski, Cacaso, Chacal… Era uma turma da pesada, eu tive a sorte de ter meu livro editado por essa coleção. Em seguida com o primeiro, vem o segundo, o terceiro… Daí as portas se abrem com mais facilidade. Mas eu achei que ia ser pra sempre assim: a poesia como uma espécie de hobby e a propaganda — trabalhei anos como publicitária —, a minha profissão. Não imaginei que ia ter esses desdobramentos todos. Foi uma surpresa que eu começasse a escrever crônica, depois ficção, e que acontecesse tudo isso.

Você sente mais prazer em trabalhar com um determinado gênero?

MM – Prazer eu tenho em escrever, ponto. Gosto de todos. Mas eu admito que a ficção é mais desafiadora para mim, justamente porque é o que tenho menos experiência. É interessante criar um personagem, me dá uma certa liberdade de experimentar mais emoções que não vivi, coisas novas. Apesar de que sou muito umbilical, escrevo muito sobre meu universo. Mas ainda assim a ficção me desafia. Porque eu não sei escrever ficção! Essa que é a verdade. Não sei nem se a gente sabe escrever. Ou se eu sei escrever crônica ou poesia, ao menos tenho mais familiaridade. Com ficção ainda não, mesmo com o Divã (Objetiva, 2002) sendo o sucesso que foi e tudo… Ainda é uma coisa meio surpreendente para mim. Como leitora, gosto mais de ficção do que de poesia e de crônica. Então é interessante desenvolver mais esse lado. Mas prazer eu sinto com todos os gêneros.

Você tem muitos livros publicados. Há a preferência por algum?

MM – Cada livro tem sua história. Eu gosto muito de Selma e Sinatra (Objetiva, 2005), por exemplo. É o livro que teve menos repercussão. Tenho dezoito livros publicados, e o Selma e Sinatra foi o único que escrevi pensando que poderia dar uma boa peça de teatro. Eu fiz de uma maneira que tivesse muitos diálogos, são duas mulheres. E não muda de cenário, que é o quarto de uma delas. A história de uma jornalista escrevendo a biografia de uma cantora. Achei que poderia render, mas não teve tanta repercussão. Hoje, passado toda a história doDivã, algumas pessoas estão descobrindo Selma e Sinatra. Já têm pessoas me procurando para, quem sabe, encená-lo. Gosto muito daquele jogo de diálogos, mas não dá para dizer que é o meu preferido. Ele não tem a ver com um momento da minha vida. O Divã tem a ver com minha vida, sabe? Com um momento específico, apesar de não ser biográfico, totalmente biográfico. Mas a personagem tem elementos da minha vida pessoal, da maneira como vejo o mundo. Então, claro, tudo isso fica meio filho, uma relação realmente muito íntima com o que a gente produz. Eu pelo menos tenho uma relação de intimidade com o que produzo. Então, é difícil selecionar. Agora têm aqueles que são… O primeiro livro, Strip-tease, de poesia, por ser a estreia, tenho um carinho especial. Trem-bala (L&PM, 1999), de crônicas, foi um salto na minha carreira. Então, coloco este livro em outro patamar. Mas eu gosto de todos porque eles me traduzem de certa forma. Escrever é um ato de exposição, de falta de pudor até, a gente se coloca muito. Não tem como se afastar muito do que a gente fez.

Você é de Porto Alegre, uma cidade com fortes manifestações literárias. Que autores você apontaria como influência?

MM – Há um mercado que se autossustenta (em Porto Alegre). Não só em literatura, mas em música e teatro, quem quiser pode viver de arte no Rio Grande do Sul. Claro, não vai virar uma celebridade. Mas vai conseguir viver do seu trabalho, o que é muito honroso num país como o nosso, com todas as dificuldades que tem. Li muito desde pequena. Começando por Monteiro Lobato, passei pela fase do (Jerome Davi) Salinger, O apanhador no campo de centeio (Editora do Autor)… Todos aqueles ritos de passagem literários. A música popular brasileira tem uma influência grande na minha literatura…

Por exemplo?

MM – Caetano, Chico, Rita Lee… Lembro que eu ficava fascinada com as letras das músicas. Ouvi os discos, na época ainda LP, com os encartes juntos, acompanhando. Eu tive uma criação muito musical, muito forte por parte do meu pai. Novos Baianos, me veio agora na cabeça, faz tempo pra caramba… Acho que todo tipo de arte me alimenta de alguma maneira. Os filmes do Woody Allen, por exemplo, são uma fortíssima referência no que faço. Ele lida com essa complexidade humana com humor, sem se levar tão a sério. Tem um tipo de condução de texto cinematográfico que, de certa forma, eu bebo ali um pouquinho também. Luis Fernando Veríssimo, o papa da crônica, está ali ao lado. Agora, eu não saberia especificar exatamente. Acho que sofro a influência de tudo que leio, de tudo que ouço… Depois existe um filtro, não é?

Você escreve crônicas na Revista de Domingo, do jornal O Globo. Como ficou sua relação com o leitor a partir dessa experiência?

MM – Antigamente eram as cartas. Hoje em dia não tem isso, o escritor está completamente na berlinda. Eu acho muito bom. É um espaço e, como existe um certo anonimato, distanciamento, o leitor se sente muito a vontade de dizer o que pensa. Ele vai lá, mete o dedo na ferida, se não gostou, ele diz. E porque não gostou: “Martha você foi tendenciosa nisso. Não pegou certo aspecto da questão.” Eles têm razão, o espaço é limitado, então não tem como aprofundar, sempre a gente vai privilegiar um ângulo da questão e um outro vai ficar de fora. Não é um tratado, é só uma opinião. E muito carinho e muitos elogios, o ego vai às alturas, é muito legal. Claro que não tenho como criar um relacionamento com aquele leitor porque são muitos e-mails e a fila anda. Mas, pelo menos, acusar o recebimento, agradecer acho que é o mínimo que se deve fazer. Dar um retorno: “Recebi. Li. Obrigada.” Antigamente, e esse antigamente me inclui, não tinha Internet quando comecei a escrever, a gente jogava o livro no mercado e não sabia o que acontecia. Não sabia se estavam gostando ou não. Eventualmente, encontrava alguém na rua que havia lido… Os amigos que sempre gostam. Esse retorno imediato de pessoas que nunca vi na vida é sensacional. Um reflexo imediato. Vejo como um grande carinho e incentivo.

O que você lê de poesia?

MM – Sabe que não li muito poesia. Poesia nunca foi o meu gênero preferido. Isso foi engraçado porque eu acabei me manifestando através dela. Eu li muito (Mário) Quintana, meu conterrâneo. Fernando Pessoa e Drummond. E depois li muito essa poesia contemporânea: Leminski, Ana Cristina César… O pessoal que comecei junto. Sem querer me comparar, eu ali era uma intrometida. Paulo Leminski eu acho fabuloso.

No dia 07 de junho de 2009, completaram-se 20 anos da morte de Leminski…

MM – Pois é. Cheguei a conhecê-lo num evento literário, foi uma honra. Alice Ruiz, viúva dele, cheguei a conviver com ela também, considero uma grande poetisa. Mas eu não estou autorizada a falar muito em poesia porque é o gênero que leio menos. Fabrício Carpinejar, outro escritor lá do Sul, que é bacanérrimo.

Há uma produção muito intensa no Sul…

MM – Está todo mundo escrevendo. Mas ninguém pode dizer que todo mundo escreve, que todo mundo atua, que todo mundo toca guitarra. Mas escrever todo mundo sabe, ponto. Todos que foram alfabetizados sabem escrever. Quando alguém quer se manifestar artisticamente acaba tendo uma tendência pela facilidade da coisa: não precisa de um palco, não precisa de uma plateia… Põe um blog no ar e vira escritor. Tem de separar o joio do trigo, naturalmente. Tem uma produção enorme de pessoas. E dentro dessa enxurrada de gente que escreve, é claro que se destacam uns mais do que outros. Mas é muito difícil acompanhar tudo. Uso o computador para escrever e para pesquisar alguma outra coisa que me interessa, muito especificamente. Por exemplo: Orkut,FacebookTwitterMSN… Não uso nada disso, não entro em nada. Sou totalmente “jurássica”, mas faço questão porque quero ser assim. Porque senão eu não vou ter mais tempo para nada. Eu ainda quero ter meu tempo para caminhar, ouvir música, ler livros, (curtir) minhas filhas, ir ao cinema, encontrar amigos, namorar… O que é a vida. Porque daqui a pouco a vida está toda concentrada dentro do computador, sabe? Parece que a vida de todo mundo só existe se tiver um computador na frente. O que é tentador mesmo porque está ligado ao mundo inteiro, se sente pertencendo ao mundo. Só que ainda prefiro pertencer ao mundo em uma esfera mais íntima, que é onde eu acho que a vida acontece pra valer.

 


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