JOÃO GILBERTO NOLL

 A LINGUAGEM COMO EXPERIÊNCIA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

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João Gilberto Noll é um “escritor de linguagem”, como gosta de afirmar. Ávido leitor de poesia, sua escrita está contaminada por um lirismo especial. Em todos os seus livros, Noll, contemporâneo de Caio Fernando Abreu, faz seus personagens saírem em busca de seus mistérios.

Em seu romance mais recente, Anjos das ondas (Scipione, 2010) — que dialoga diretamente com as angústias adolescentes de Sou eu! e O nervo da noite, igualmente editados este ano pela Scipione —, João Gilberto Noll narra a história de um garoto de quinze anos, Gustavo, que, após morar na Inglaterra, volta ao Brasil para morar com o pai no Rio de Janeiro, encontrando seu duplo no seu colega de escola, um surfista.

Em 2008, Noll lançou Acenos e afagos (Record), que lhe rendeu o segundo lugar no Prêmio Portugal Telecom. E, ainda, reviu cinco dos seus livros — O cego e a dançarinaA céu abertoRastros do verãoBandoleiros e A fúria do corpo — para a reedição pela editora Record. Já em 2009, pôde assistir à mais uma adaptação cinematográfica de suas histórias — desta vez foi Hotel Atlântico, sob a direção da experiente Suzana Amaral.

João Gilberto Noll tem uma voz e um tempo narrativos muito peculiares, condição fundamental para continuar a seduzir seus leitores. O encontro com o escritor gaúcho aconteceu no seu apartamento, em Porto Alegre. A conversa informal, interrompida por uma outra entrevista, passeou pela bem sucedida trajetória do autor e por algumas marcas de sua escrita, a libido e a experiência linguística extremada.

Em entrevista ao jornalista Luciano Trigo, você afirmou: “Quando escrevo, pareço um jazzista improvisando…”

João Gilberto Noll – Eu sou um sujeito muito compulsivo para escrever. Nunca sei o que quero realmente revelar, de narrativa. Nunca sei onde vai dar a narrativa, como é que vai terminar. Estudo muito pouco a onda narrativa, os personagens. Porque sou um autor de linguagem. O que me puxa é a linguagem, não qualquer contexto de conteúdo. Sou um escritor de linguagem. Nesse sentido que disse que seria um escritor como um jazzista improvisa. Sou um improvisador no que escrevo. Olha que escrevo romance! Talvez, o improvisador seja mais ligado, digamos, a um poeta ou a um contista. Mas eu sou assim no romance, a cada vez que sento para dar continuidade ao romance, naquele conflito do próprio instante que as coisas se dão. Não quero saber de ontem, nem de amanhã. Mas do que está se passando em mim e aquele espaço em branco que devo preencher. Então, o atrito com o instante. Eu queria dizer isso. São pequenos golpes de atrito que fazem você escrever, sabe? Outra coisa: sou um escritor de inconsciente. O inconsciente é a força propulsora da minha narrativa. Eu vou para ela como um cego. Bastante cego. Depois, meu personagem é um só… O cara que habita em mim, realmente. Ele habita em mim… Se bem que ele está sumindo, eu vejo as coisas muito posteriormente delas acontecerem. Não faz muito tempo que descobri que todos os meus protagonistas eram o mesmo. Não digo que meus livros sejam um a continuidade do outro. Não é isso. Cada livro tem o seu contexto dramático. Num livro, o cara é vagabundo, no outro, é escritor, no outro, ator… Essa solidão. Essa necessidade de se fundir ao outro, que está muito presente neste último livro (Anjo das ondas). O personagem cheio de lascívia, não é? Ele sonha realmente em se fundir ao outro. É um adolescente, é o meu personagem de sempre adolescente. Então ele fala assim:

(Noll faz a leitura do livro Anjo das ondas, muda o tom de voz.)

“Que o mundo lá fora continuasse sua rotina, com as rodas rodando, o chiclete de bola se projetando para fora da boca da criança, os mendigos jogando com uma bola de plástico arrebentada. Não importa o que mais. O certo é que naquele beijo havia não sei o que de eternidade. E que era para isso que a gente tinha vindo ao mundo, para um regalo de um beijo como aquele. Um simples beijo. Mãos com o calor da linhagem humana, aspirando à permanência do deleite. Sim, é o assombro diante de tanta inserção de um no coração do outro.”

(Ao terminar a leitura, Noll volta ao tom de voz “normal”.)

Essa questão da fusão amorosa. Não só com o corpo, a fusão cósmica mesmo, de você conseguir, enfim, ser um de uma vez por todas. O que é um sentimento muito perigoso. Porque é amoroso, mas, ao mesmo tempo, um sentimento que pode resultar na morte, na abdicação do seu próprio eu, da renúncia. De ser uma terceira coisa que não é você nem o outro, uma nova massa de existência.

A sexualidade e a libido são determinantes em sua escrita. No livroAcenos e afagos (Record, 2008), por exemplo, a linguagem vai-se transformando assim como a sexualidade da personagem…

JGN – Acho que isso vem de uma infância bastante reprimida sexualmente. Igreja Católica. Eu era coroinha… Você sabe o que é isso?

Fiz catequese, crisma e primeira comunhão. Uma vergonha (risos).

JGN – Então… Na minha adolescência, até hoje, a sexualidade sempre foi vital, muito crucial na minha vida. Não digo na minha vida, o que interessa aqui não é minha vida, mas meus livros. É o que sai quando escrevo. O ato de escrever já é muito erótico, não é? É muito erótico, essa coisa com a língua… Você justamente tentando ser o captador e a expressão, ao mesmo tempo, do jogo linguístico. A sexualidade é muito importante no que escrevo, sim, não resta dúvida. A gente pode ligar ao o que eu disse antes. Essa questão que, há pouco, li aqui: a eternidade do deleite. Quem que não pensou nisso alguma vez? Que bom que a gente fosse eterno enquanto durasse aquele boca a boca. E boca a boca em todos os sentidos, não só no beijo físico. Que possa estar realmente inserido no fôlego do outro, sei lá. A questão da solidão é muito política. A solidão nas grandes cidades é uma questão política. Quantos estão absorvidos em si mesmo sem conseguir uma ponte para qualquer coisa que se chama de humano? Eu sou um autor obsceno, sim. Obscenidade é uma coisa que sempre me chamou atenção na literatura. Chamar as coisas pelos nomes que elas têm, sexualmente falando. Uma coisa que sempre me inspirou muito foi porta de banheiro público, o lado interior da porta. As pessoas se “desrecalcando” ali, dizendo coisas que elas não diriam no plano social. Acho que a literatura é muito isso. É a palavra destituída daqueles ranços todos. É a palavra com essa crueza. Ao mesmo tempo, não é uma questão de dizer assim: “Eu sou um cara naturalista, vou fotografar os palavrões, as obscenidades, das portas de banheiros públicos.” Não, não é isso. É um elemento. Eu também gosto da literatura que bebe numa certa tradição de beleza.

Por exemplo?

JGN – T.S. Eliot. Leio muito mais poesia, até mais do que prosa. Acho que isso é demonstrado no que escrevo… Eu paro de expressar a ação da narrativa para especular poeticamente pelas coisas. Isso eu adoro na narrativa. Narrativa muito realista eu nem consigo mais ler. Quando eu sinto que o livro começa explicitamente figurativo… Se é que se pode dizer isso de uma narrativa… Pode-se sim. Esse tipo de narrativa eu já não consigo mais ler, tem que ter um tônus poético.

Quando você passou a se interessar em contar suas próprias histórias? Há um fato que tenha marcado esse despertar para a literatura?

JGN – Acho que foi na adolescência. Foi justamente ao ler A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Eu pensei: “Se ela faz isso, também quero fazer.” É essa narrativa que me interessa, que tenha um pouco de abstração, não fique só acompanhando o veio narrativo por si só. O que me interessa na Clarice não é tanto o “psicologismo” que ela possa eventualmente ter, mas o tom metafísico, eu e o mundo. Como anda essa relação entre o eu e as coisas? Me interessa muito a prosa metafísica dela, principalmente A paixão segundo G.H. Naquele quarto de empregada tão típico de uma certa Copacabana onde se passa o livro, aquela senzala da classe média… Ela consegue viver uma dimensão histórica, ela vai para as montanhas, para o Egito… é uma coisa muito, também… budista. Dei aula uma época na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e no semestre eu trabalhei A paixão segundo G.H. Logo que passei a leitura, pensei: “Que burrada eu fiz! E para um pessoal que está batalhando com a língua portuguesa…” Esses alunos tinham uma vivência budista e observaram o livro com esse tipo de captação. Aquela barata não era nojenta, nem pura, era uma coisa que existe, com uma certa neutralidade — onde entra a visão budista. É aceitação do que é. Acho uma beleza em Clarice aquele conto “O amor”, Laços de família, onde ela corta, fratura a relação de causa e efeito. O que tem a ver com nossa filosofia cotidiana uma mulher que vê um cego na parada de ônibus e tem um lampejo profundo, uma possibilidade que ela ainda não experimentou. E os ovos, que leva na sacola, ela deixa cair no colo. Gosto de Clarice porque ela ilumina questões que não são muito iluminadas.

Desde sua estreia, com O cego e a dançarina (1980), você recebeu o reconhecimento da crítica, tem ganhado prêmios… O que mudou?

JGN – O pior é que não muda nada, cara. Pode, talvez, mudar o pedigree dele com a mídia. Mas mudar, em transformar a minha inspiração? Não. O que pode mudar é a grana. Isso é interessante. O que eu gosto muito é quando um livro meu é adaptado para o cinema, me dá um prazer enorme.

A primeira adaptação cinematográfica foi um conto, feita por Murilo Salles, em 1983…

JGN – Foi do conto “Alguma coisa urgentemente” (do livro de estreia), que deu no filme Nunca fomos tão felizes (1984). Belíssimo filme! Adoro aquele filme, marcante.

E o cineasta Maurice Capovilla fez uma adaptação do romance premiado com o Jabuti, em 1994…

JGN – Harmada. E agora a Suzana Amaral fez a adaptação de Hotel Atlântico.

Como é sua relação com os diretores que fazem filmes a partir de suas histórias?

JGN – Não há grandes relações, nada muito próxima aos diretores. Eu não gosto, por exemplo, de participar do roteiro. Meu trabalho já está feito. Vou ficar matutando possibilidades cinematográficas? E o roteiro… A linguagem é trabalhada em termos absolutos ou não. Quando a linguagem é instrumento para imagem, para chegar o filme, não me interessa.

(Toca o telefone. Noll dá uma entrevista para uma rádio de Porto Alegre)

Você costuma dizer que se identifica com versos do “Poema de sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade: “Mundo, mundo, vasto mundo / mais vasto é o meu coração”.

JGN – Tenho a impressão que essas coisas de “mais vasto é o meu coração” da poesia é do sujeito que é um pouco esquizóide, como acho que sou. No sentido que o mundo de dentro é maior que o mundo de fora. Eu vivo numa certa linguagem perene, se eu não me cuidar, atropelo o mundo de fora. Eu vivo procurando um certo equilíbrio. Do contrário, é algo bastante destrutivo. Nem é uma escolha minha, estética. Por isso que eu gosto da poesia, a subjetivação em foco. O que anima mesmo é a voz, a voz do sujeito. Até porque, como disse, tenho uma formação musical. Eu ia ser cantor lírico. Mas vivi, na adolescência, um momento muito difícil. Fui me virando para a literatura porque estava numa crise de timidez profunda. Escolhi a literatura que é, primeiramente, uma atividade bastante solitária. Depois a gente pode participar de bate-papo, de leituras… Gosto muito de fazer leituras públicas, muito mesmo. Acho que é uma continuidade da escrita.

Você se sente solitário?

JGN – Eu me sinto. Faço um esforço diário para sair da solidão. Não. Quando estou escrevendo eu bendigo a solidão. Eu não poderia escrever com pessoas, com muita proximidade de mim. Qualquer escritor é assim, não é? É uma atividade muito solitária. Geralmente para o leitor também é. Não é possível alguém ler por alguém. Pode ser que leia alto, mas é outra coisa… Aquela leitura introspectiva, do teu imaginário ficar completando o que você está lendo, é uma dádiva, uma coisa muito importante. Essa palavra no seu mais alto esplendor. Os poetas? Drummond, acho magnífico, um poeta extraordinário. Simples, ele. Não era um cara enrolado, nem na fase dele mais magistral, mais metafísica, que é (no livroClaro enigma. Ele usa palavras do cotidiano. Fernando Pessoa. Alberto Caeiro, principalmente, um dos livros que mais admiro é o Livro do desassossego. Queria escrever um livro assim, com aquele grau de abstração. Não deixa de ter uma narrativa ali. Mario Quintana também, um poeta miniatural, das coisas mínimas. De ficar embasbacado com a igrejinha de uma torre só. O melhor de se estar vivo é a linguagem. É o atestado da genialidade do teor humano.

Quando fazia entrevistas, Clarice costuma perguntar: “Qual a coisa mais importante na vida?”

JGN – Acho que é a linguagem.

A resposta antecedeu a pergunta…

JGN – (risos)

Você tem medo da morte?

JGN – Eu tenho.

Você pensa muito nela?

JGN – Penso. Meus livros retratam muito a questão da morte. Não é que tenha medo do que possa acontecer depois. Eu queria continuar. Com todas as dificuldades, está tão bom. Sou curioso, quero saber como é que vai continuar essa história aqui. Interromper isso, eu acho uma sacanagem. Não acho que possa haver outra coisa.

Você acredita em Deus?

JGN – Não. Eu acredito no mistério que é isso aqui. Eu não entendo. O que significa isso que chamam de vida? É por isso que se escreve também. Produzimos sentido, esse sentido que falta. É aquela história do Freud, a civilização existe para tapar esse buraco da morte. Eu concordo. A cultura existe porque a morte existe. Se todos estivessem muito satisfeitos, debaixo do sol na praia, coçando o saco, não existiria cultura.

Sobre a produção contemporânea, você é otimista em relação à literatura que é produzida hoje?

JGN – Eu sou. Está havendo um renascimento da literatura brasileira, desses jovens de vinte, trinta anos, como Marcelino Freire, como você… Acho que sim. Daniel Galera. Quando comecei a publicar, não havia essa multidão de talentos, tão forte, tão incrível… Pessoas que vão com certeza ficar. Eu leio muito, leio bastante, gosto de ler pessoas jovens.

O que te encanta na nova geração?

JGN – Uma liberdade… Uma liberdade que na minha geração a gente batalhou muito para ter. Não só estilística, mas também a liberdade de abarcar os temas que eram considerados mais escabrosos no passado recente. A literatura tem que ser um susto. E vocês estão conseguindo dar esse susto.

Gostaria que você falasse sobre sua amizade com Caio Fernando Abreu.

JGN – Nós fomos colegas no curso de Letras aqui em Porto Alegre. Ficamos amigos porque gostávamos muito de escrever. Ele mais adiantado que eu, na escrita. Eu ainda estava em dúvida: música, literatura, ator de teatro… Ele estava mais interessado em relação à literatura. Houve muita coisa em comum entre nós dois, mas depois também houve uma distância. Dois escritores que pegam o aspecto positivo das coisas… Acho o Caio mais delicado, eu sou mais brutal. Tenho momentos líricos também, mas sou mais brutal. O Caio tem uma relação maior com o leitor, eu acho que já grito mais que ele. Caio é um cara que foi muito tempo cronista, no Estadão. Esse aspecto penetrou muito na obra de ficção dele. Um sujeito que verificava muito a quantas andava a geração dele. As coisas que faço são bem distantes da crônica, acho. Não tenho muito a preocupação de mostrar as coisas mais visíveis do meu tempo. É mais deformante, e deve ser assim, entendeu? Aquele personagem principal dos meus livros, agora está mudando… São pessoas muito deformadas para um certo padrão social, muito distante desse padrão, revoltados… Acho que os personagens do Caio são mais delicados.

O que dizer para um autor iniciante?

JGN – É muito difícil responder isso. A viagem é muito individual, não é? (silêncio) Eu acho que tem que doer um pouco, a escrita. Se não doer um pouco tem alguma coisa errada aí. A não ser que o cara seja um escritor de questões históricas… Seja muito distante da psicologia pessoal, está mais preocupado com o mundo objetivo etc. Se não, acho que tem que doer um pouco. Na literatura, tem que ir um pouco além daquilo que você vive, daquilo que se é obrigado a viver no meio social… Esconde-se muita coisa diante dos outros. E na literatura tem que se desvelar, revelar isso… É isso que dói. Eu quando escrevo fico pensando: “Essas coisas não se dizem! Não devem ser ditas.” Não, vamos dizê-las, sim.

Muito obrigado.

JGN – Obrigado a você, hein, cara.

 

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