JOSÉ CASTELLO

REPÓRTER INTERIOR

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 josecastello

 

José Castello vive, constantemente, em busca de sua voz, seja escrevendo livros de ficção, biografias, artigos ou críticas para jornais. E, de fato, a encontrou em seu novo romance. Essa afirmação se ratifica após a leitura deRibamar (Bertrand Brasil, 2010). Acostumado a escrever no limite entre o jornalismo, a crítica e a ficção, Castello apresenta um romance que mantém ecos de reflexão fortemente relacionados a um livro de ensaios. Mas tem o cuidado de deixar o leitor livre para investigar seus próprios passos nos vazios da escrita.

Com diálogo explícito a Carta ao pai (1919), de Franz Kafka, o escritor José Castello utiliza a história de sua família como base para uma trama que embaralha memórias com ficção. Ribamar é um acerto de contas, ou uma tentativa de, com o pai – uma reflexão da própria trajetória pessoal do autor. A delicada estrutura da história está suspensa na partitura de uma canção de ninar (presente na capa do livro) – encontrada ao acaso, através do canto de ninar da mãe do escritor – onde cada capítulo do livro corresponde a uma nota musical; o que faz a narrativa fluir como uma bela e triste canção.

A escrita híbrida revela que autor, um leitor apaixonado, utiliza as diversas leituras para se investigar e construir a sua própria linguagem. Uma “reportagem interior”. O escritor faz de sua biografia matéria-prima para manter firme sua narrativa de Ribamar. Pelo fim do livro, algumas frases não abandonam o leitor, entre elas: “A verdade esfaqueia. A ficção enrijece.” E compreende-se que os caminhos da literatura são imprevisíveis e misteriosos.

Em entrevista ao SaraivaConteúdo, o escritor e jornalista José Castello – também autor de Vinicius de Moraes: o poeta da paixão (Companhia das Letras, 1994), Na cobertura de Rubem Braga (José Olympio, 1996), Inventário das sombras (Record, 1999), João Cabral de Mello Neto: O homem sem alma / Diário de tudo (Bertrand Brasil, 2006) e A literatura na poltrona (Record, 2007) – revela os bastidores de criação do seu novo romance e faz um passeio em sua trajetória profissional.

Sua estreia na ficção foi com o livro Fantasma (Record, 2001), que é considerado autobiográfico.

JC – Muita gente acha que é (autobiográfico).

Você é escritor e também trabalha como jornalista. Como é essa relação entre os dois ofícios?

JC – Eu sempre tive o projeto de escrever ficção. Sempre tentei escrever. Aos 18 para 19 anos, escrevi um romance, até hoje tenho uma prova dele guardada. É horrível, impublicável… Enfim, foi uma primeira tentativa. Sempre escrevi contos, rascunhei, fiz ficções em cadernos. Mas a pressão do dia a dia de jornalista sempre impediu, me tirava forças, não sobrava força nem tempo para fazer isso. Depois que comecei a me dedicar a essa atividade de crítica literária, de jornalismo literário, começou a sobrar mais tempo. O que acontece – isso está no Fantasma e, talvez, mais claro no Ribamar — é que, até por essa minha experiência de jornalista, de contato muito duro com a realidade, eu faço uma espécie de ficção limítrofe. Não é ficção realista. Eu não vou pelo caminho do João Antonio, que faz o conto-reportagem. O que eu tento fazer é uma ficção que parta da experiência. Sempre me pedem uma definição, tento definir assim: uma reportagem interior. Ribamar é uma Carta ao pai. Inclusive, ele é armado em cima de uma partitura musical, em sete notas da escala musical. Cada nota corresponde a um tema, cada capítulo corresponde a um dos temas. Um dos temas, a nota Mi, é relativo a [Franz] Kafka e ao livro Carta ao pai. Então o livro é um pouco um ensaio sobre o Kafka; é também um pouco um relato de uma viagem que fiz a Parnaíba (PI), a cidade onde meu pai morou na infância e na juventude… Tem um lado quase que de jornalismo, mas é tudo inventado, na verdade. Fui lá para mentir e não para apurar a verdade. E tem uma grande reflexão sobre a minha experiência pessoal, minha vida com meu pai que morreu há 30 anos. Mas não peguei isso para fazer memórias, peguei como base para fazer ficção. Só que é uma ficção que tem sempre um pé na minha experiência ou na realidade, no meu contato com os outros e no meu contato com a literatura.

Como se estabeleceu essa relação com a literatura?

JC – Meu contato com a literatura vem desde menino, mas na verdade se intensificou no final dos anos 1980, quando me tornei editor do Ideias & Livros, do Jornal do Brasil. Ali já entrei de cabeça. Depois saí do jornal para escrever a biografia do Vinicius (de Moraes), O poeta da paixão. E desde então passei a trabalhar no meu escritório, em casa, produzindo textos sobre literatura, entrevistas com escritores. Chamam de crítica literária, mas não sei se é isso que faço…

Você é formado em jornalismo, mestre em comunicação. Mas é identificado como crítico literário…

JC – Eu sempre estranho quando me chamam de crítico literário, sempre falo isso. Por uma razão muito simples, minha formação é jornalismo, não tenho sequer graduação em literatura. A minha relação com a literatura é totalmente leiga, sou um autodidata. Sou um cara que foi lendo caoticamente, como leio até hoje. Leio da maneira mais caótica… Existem vários autores importantes que nunca li. Leio muitos autores de séculos diferentes, estilos diferentes. Nesse ponto, me sinto um leitor comum. Procuro, inclusive nisso que eu faço, com minha coluna no Prosa & Verso nos sábados ou no meu blog (A literatura na poltrona), no Globo Online, partir dessa postura: não do especialista, mas de um cara que leu o livro, sofre um impacto com a leitura e escreve para relatar essa viagem que ele fez através do livro e que o livro fez através dele. Não me vejo como um legista, um anatomista, dissecando um cadáver, separando órgãos, classificando… Não, comigo é o contrário. Como se fosse um fantasma que me invadisse, me perturbasse. Eu relato essa experiência, que é uma experiência subjetiva. Eu não faço avaliação, não digo se o livro é bom ou se o livro é ruim, às vezes, deixo entender. É inevitável, mas não é meu objetivo. Por isso que eu acho que não faço crítica literária. Não trabalho com teoria literária. Leio pouquíssima teoria literária. Procuro conservar essa posição do leitor comum, que abre o livro, entra naquele livro, deixa o livro entrar nele, sofre o impacto e depois escreve para relatar. É o que eu faço. Se isso é crítica literária… Se for, então é crítica literária. A crítica literária tal qual a gente define…

(Castello é interrompido por um carro de som que está passando próximo ao local da entrevista)

A crítica clássica é feita pelos grandes estudiosos de formação acadêmica, pessoas que respeito muito, como Silviano Santiago, Leyla Perrone-Moisés, Luiz Costa Lima, Flora Süssekind, Beatriz Resende… O Brasil tem grandes críticos. São grandes estudiosos, pessoas que fizeram um percurso de estudos, graduação, pós-graduação, doutorado, se especializaram. Eu não sou um especialista. E digo isso, claramente, não porque me diminua ou aumente, mas porque sou outra coisa. Eu escrevo de outro lugar. O que é o leitor comum? É o leitor que está um pouco desarmado. Ele não tem armas, quando ele abre um livro ele não está preocupado se está equipado para entender ou não entender. Ele entra no livro ou não entra. E eu sou assim. Se começo a ler um livro e acho chato, largo na página dez, pode ser o Prêmio Nobel de Literatura, não tenho nenhum problema. Procuro preservar essa postura de quem mantém uma relação sentimental com o livro, de paixão. Isso que procuro preservar.

Você é autor de livros de ficção (romances) e não-ficção (artigos, entrevistas e biografias). Como é separar a essa escrita?

JC – Venho lutando cada vez mais em tudo que escrevo, Ribamar ou a coluna d’O Globo, seja o que for, para encontrar, preservar e investir numa linguagem minha pessoal. Que não é boa nem ruim, é a minha linguagem, a minha maneira de falar, de ser, de pensar. Eu gosto muito, por exemplo, quando leitores d’O Globo me escrevem – de vez em quando tem esse comentário – ou telefonam, passam e-mail, para dizer: “Nossa, eu leio você e tenho a sensação que está conversando comigo.” Sempre digo que procuro escrever como se estivesse ajoelhado perto de você, falando no teu ouvido, falando alguma coisa baixo… Fazendo uma pequena confissão a você, uma fofoca, uma confidência. Procuro ter essa relação com o leitor, de intimidade. E isso eu procuro na ficção também. A minha ficção é na primeira pessoa. Ribamar é na primeira pessoa, o narrador se chama José como eu, o pai do narrador se chama José Ribamar como meu pai se chamava… Sonhos que eu tive de fato eu relato no livro. Mas existem outros sonhos, que são mentirosos, e relato também. Vou misturando essas coisas, mas sempre em busca de uma maneira minha de falar e de pensar. Nas minhas oficinas literárias, faço a mesma coisa, não estou interessado em ensinar o que é escrever bem, o que é um conto ou uma novela. Nada disso me interessa. O que me interessa é incentivar a cada um a encontrar sua voz interior. Onde que você está à vontade? Que tipo de escrita está saindo de você? Você não está escrevendo para fazer certinho, para agradar os outros, para passar no vestibular… Não. Está fazendo porque é aquilo que está falando dentro de você. Na minha oficina procuro trabalhar assim porque acho que essa é grande literatura. Você pega os grandes escritores, Guimarães Rosa, Clarice [Lispector], Nelson Rodrigues, [José] Saramago… Arranca uma página qualquer de um livro de qualquer um desses caras e dá para uma pessoa medianamente informada ler. Ela vai sacar, com três linhas, se é Clarice, se é Saramago… Os grandes escritores são aqueles que encontram seu tom, sua voz interior. Eu tento perseguir isso, pelo menos. Não sei se vou encontrar. Se você quer fazer literatura, seu caminho é perseguir essa voz interior, singular, própria, que você tem.

Você saberia dizer um livro que tenha marcado sua vida de forma definitiva?

JC – Existem alguns. De imediato, me lembro de A paixão segundo GH (1964), de Clarice. Foi um livro que li pela primeira vez aos 19 anos ou 20. Eu caí doente, fiquei muito mal, atordoado. Fiquei mal. Foi um livro que me revirou a cabeça, me fez ver o mundo de outra maneira. Depois voltei a reler, já reli muitas vezes. A última vez que reli foi num ciclo de leitura, eram 10, 12 pessoas, nós lemos em voz alta, durante um mês, em Curitiba. E foi muito legal porque ninguém era área de literatura, tinha físico, ator, professor de química, produtor de cinema… Todos leitores apaixonados, como eu tento ser, nenhum especialista. Foi uma viagem maravilhosa. E foi, de novo, como acontece com os grandes livros, como ler da primeira vez, abriu um caminho inesgotável, que sempre me abala. É um livro que questiona a linguagem e a palavra. A literatura não é um jogo intelectual, uma atividade técnica, ela é uma aventura de alto risco, de vida ou morte. Para os grandes escritores é isso. Se você quer fazer literatura, tem que se colocar em risco. E tem que tentar isso. Não quer dizer que vai conseguir, que esteja conseguindo, entendeu? O caminho é esse. Clarice me ensinou isso, que a literatura não é uma técnica, não é um luxo, não é uma retórica, não é uma coisa de escrever bem… Literatura é outra coisa. É uma aventura interior e uma aventura de risco muito grande.

No livro Inventário das sombras está registrado seu encontro com Clarice Lispector. Você pode falar mais sobre esse dia?

JC – Isso foi nos anos 1970, ela morreu em 1977, acho que foi em 1976. Eu tinha 20 e poucos anos, colaborava com O Globo, na época, com o Segundo Caderno. Saiu uma nota que ela tinha declarado a alguém que iria parar de escrever. Então sugeri fazer uma entrevista com ela sobre o assunto. Foi difícil marcar a entrevista, ela marcava e desmarcava. Depois cheguei ao edifício e ela não queria me deixar subir… Finalmente consegui chegar à sala de estar da Clarice. Cheguei, conversando com ela, abri minha pasta, tirei um gravador e coloquei em cima da mesa. Assim que fiz isso, ela levantou e começou a gritar. Ela urrava, socava os ares, ficou vermelha, bufava… E eu não conseguia entender o que era. Primeiro, achei que tinha entrado um ladrão… “A casa está pegando fogo?” Eu comecei a pensar: “O que está acontecendo que essa mulher está assim?” Não consegui entender. Até que chegou uma amiga dela, do corredor, e a agarrou pelas costas como se fosse uma camisa-de-força. Fez ela se acalmar e disse: “Vamos lá para o quarto!” Ela pegou o gravador pela ponta do dedo, como quem pega um rato morto pela ponta do rabo, com nojo, e foi levando aquilo… Aí comecei a pensar que tinha a ver com o gravador. Fiquei uns 15, 20 minutos, sei lá quanto tempo, esperando na sala. Até que ela voltou, muito calma, com uma chave, e me disse: “Aquilo está preso em meu armário, no final eu te devolvo.” Descobri que ela tinha pânico de gravador, uma paranoia… Mais do que esse incidente, a questão do gravador – que é uma coisa incômoda ouvir sua voz gravada, você não se reconhece, realmente é chato –, deu para entender a hipersensibilidade da Clarice. Uma mulher que tinha os nervos expostos, hiper expostos, e para quem, no mundo, qualquer coisa batia com uma brutalidade absoluta. Foi um preço, de sofrimento pessoal, que ela certamente pagou. Mas foi graças a essa hipersensibilidade que ela fez a literatura que fez. O preço ela pagou na existência dela para ser o gênio que ela é.

O que é o Inventário das Sombras (Record, 1999)?

JC – O Inventário são textos dedicados a escritores com quem tenho afinidade muito grande, a maioria deles que entrevistei como repórter literário. Tem Saramago, Clarice (Lispector), Nelson (Rodrigues), Manoel de Barros, Ana Cristina Cesar, Caio Fernando Abreu… Eu tinha feito estas entrevistas e foram publicadas no Estadão, n’O Globo, em vários lugares. Mas eu sempre tive muito claro, quando você escreve alguma coisa para jornal, por mais liberdade que deem, e sempre me deram muita liberdade, o jornalismo tem padrões, tem limites… Eu sempre ficava com a sensação que o principal escapava, as coisas mais importantes, que se passam nas entrelinhas, nas sombras, eu não conseguia relatar porque a entrevista é a transcrição de uma conversa. Essas coisas se passam em silêncio, coisas que você sente, que estão no ar, que não são ditas. Então eu resolvi escrever um livro voltando a essas entrevistas, mas tentando trabalhar… Esse livro muita gente chama de “aquela sua coletânea de entrevistas”. Não é. Peguei as entrevistas, li o que tinha gravado, registrado em caderno, os textos publicados, em busca do que ficou nas sombras, nas entrelinhas, que não consegui pegar porque não cabia na forma jornalismo, e tentar trabalhar com isso. É um “inventário das sombras” porque cada texto é um relato de um encontro com um escritor, mas não preocupado com a conversa clássica do escritor/repórter, preocupado com essas entrelinhas, essas sombras.

E o texto “A literatura na poltrona”, que dá título a livro seu e, atualmente, ao seu blog, no Globo Online.

JC – A literatura na poltrona (Record, 2007) é uma coletânea de artigos dispersos sobre literatura, publicados em vários lugares, que um dia resolvi reunir os que gostava mais. Algumas pessoas me pediam… E escrevi um artigo inédito, “A literatura na poltrona”, que deu título ao livro, um pouco para tentar unir os textos. Partir da imagem clássica do consultório de análise: o analista sentado na poltrona e o analisando sentado no divã, o analista interpretando o que o analisando diz. Essa imagem clássica, na questão da literatura, normalmente, é vista assim: você, o leitor, está sentado na poltrona e o livro no divã. E quando você lê está analisando, interpretando, dissecando, aquele livro. Eu digo, é o contrário: quem senta na poltrona é o livro, quem se deita [no divã] é o leitor. Quando você lê o livro, você pode até analisar e interpretar, mas, na verdade, quem te perturba, quem te interpreta, quem te desloca coisas dentro, quem te esfaqueia muitas vezes, é o livro. Quem está sentado na poltrona é o livro, a literatura. É a literatura que interpreta a gente, muito mais do que a gente interpreta a literatura. Nesse artigo, trato dessa ideia, que é uma ideia, na verdade, que rege todos os outros textos dispersos de temas específicos. Mas sempre nessa perspectiva, da literatura como um instrumento, que, acredito, muito poderoso, muito mais do que as pessoas se dão conta, de interpretação do mundo. É um instrumento independente, que não tem dogma, que não deve nada a ninguém, que aposta no singular, que aposta na liberdade interior. A literatura é um instrumento de uma potência muito mais forte do que as pessoas percebem.

Você é autor de biografias de escritores importantes: Vinicius de Moraes: O poeta da paixão (Companhia das Letras, 1994), João Cabral de Mello Neto: O Homem sem alma / Diário de tudo(Bertrand Brasil, 2006) e Na Cobertura de Rubem Braga (José Olympio, 1996). Como é o interesse por esse gênero? E o que o leva a debruçar-se na vida de um escritor?

JC – Em O poeta da paixão, tentei fazer uma biografia clássica, estilo Ruy Castro, Fernando Morais, falando dos brasileiros. Tentei cobrir esse padrão, acho que consegui. É um livro que me orgulho de ter feito, que tem muito a minha cara. Desde garoto sou apaixonado pelo Vinicius, como poeta, sobretudo, um poeta genial. É um livro de que eu gosto, mas que trabalhei dentro desse cânone.

O João Cabral, solitário e velho, numa conversa comigo, disse que topava gravar entrevistas porque ele queria conversar. Ele não tinha quase ninguém para conversar. Mas só não queria conversar sobre vida pessoal, só sobre literatura e vida diplomática… Eu gravei durante mais de um ano entrevistas com ele. Foi o contrário da biografia clássica, não entrevistei mais ninguém. O livro é resultado dessas minhas conversas, mas não é uma transcrição da entrevista. Eu trabalho essas conversas. No final, no Diário de tudo, a segunda parte da edição nova da Bertrand, tem um pedaço de transcrição dessas conversas. O grosso é um ensaio a partir da conversa.

E o livro do Braga, na verdade, é um Dicionário Rubem Braga. O Braga tinha morrido e ficou aquele apartamento de cobertura maravilhoso em Ipanema, que ele plantava árvores imensas, tinha horta… Parecia uma “fazenda voadora”, como ele dizia. Eu fui lá, o filho dele me recebeu e mostrou o apartamento todo. E também conversei com pouca gente, 10 pessoas, sei lá. O principal foi ler as crônicas do Braga. E a partir da leitura de todas as crônicas fazer uma espécie de dicionário, palavra por palavra. Usando as palavras mais importantes do Braga, que mostrem a visão de mundo que ele transmitiu nas suas crônicas. Ele é o maior cronista brasileiro do século XX. Talvez o maior cronista da literatura brasileira, provavelmente é. A crônica, embora seja um gênero leve, considerado, às vezes, meio fútil… Eu não acho isso, é lírico, difícil. A crônica, dentro dela, sempre tem uma visão de mundo… O que eu tentei foi captar essa visão e transportar para esse dicionário.

Você já declarou que “nenhuma leitura se faz se você não se dispõe a ouvir com atenção os sinais emitidos pelo acaso”. Gostaria que você comentasse…

JC – Vou dar um exemplo do Ribamar. A estrutura do Ribamar é uma canção de ninar. Peguei uma canção de ninar. Um dia, estou visitando minha mãe, que está velhinha, mas lúcida, e ela começa a cantarolar uma canção de ninar. Pergunto o que é e ela diz: “É a canção que seu pai cantava para você dormir.” Ela cantou inteira… Passei para meu irmão, que toca violão, ele fez uma partitura. E dessa partitura, fiz a estrutura do livro. E o livro tem a forma que tem porque resolvi usar a partitura como estrutura. O que é isso? Não chegou a ser uma escolha minha. Se não vou visitar a minha mãe naquele dia, se ela não canta a canção de ninar, se não dou atenção à canção e pergunto o que é, ela podia cantar e eu não dar importância… Escutei o que aconteceu por acaso, que foi minha mãe cantando uma canção de ninar, cantarolando baixinho. Escutei e atribuí valor àquilo. O meu trabalho pelo menos é um pouco uma reportagem interior, no sentido de que é ficar escutando seus próprios sonhos, por exemplo. Tive muitos sonhos durante a escrita do Ribamar. Esses sonhos, eu ficava tentando pensar: “Que relação eles têm comigo? Onde eles entram nesse livro?” Isso na tentativa de escutar os meus próprios sonhos. É estar atento ao que aparece, o que você não planejou. O miolo do Ribamar, do meu trabalho em geral, é esse trabalho de escuta do que eu não esperava, do que não escolhi, de atenção. De atenção para o mundo. Nesse sentido que o acaso fica no centro do meu trabalho.

Sobre jovens autores…

JC – O que dizer para escritores jovens? Vou falar uma coisa óbvia, parece um chavão, é escutar a si mesmo. É sair do murmúrio do mundo, das modas literárias… Não que você não possa ir à Flip, Bienal, ter amigos escritores, frequentar bar e tal… Tudo bem, ótimo. Mas na hora de escrever tem que se limpar disso tudo e se centrar em você. Conforme você entra em contato com sua maneira de pensar… (barulho de um carro de propaganda, risos) …contato com sua maneira de pensar, soa esquisito (risos). Soa assim.

 


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