INÊS PEDROSA

UM CASO DE AMOR COM O BRASIL

Por Ramon Nunes Mello e Marcio Debellian [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 inespedrosa

 

A escritora e jornalista portuguesa Inês Pedrosa ficou conhecida entre os brasileiros em 2002, quando o editor Paulo Roberto Pires publicou o livro Fazes-me falta(Planeta). Desde sua passagem no Brasil, Inês tem conquistado leitores e cultivado amigos, entre eles o músico Caetano Veloso e o poeta Eucanaã Ferraz.

Atual diretora da Casa Fernando Pessoa, Inês acaba de publicar em Portugal Os íntimos. O livro é uma investigação sobre o universo dos homens, onde vozes masculinas tomam a narrativa, fazendo um paralelo com as três protagonistas femininas do livro Nas tuas mãos. O romance sai ainda este ano no Brasil pela editora Alfaguara.

Durante a conversa com o SaraivaConteúdo, Inês Pedrosa também revelou sua paixão pelo Brasil, em especial pela música e pela literatura. Além de falar de cada uma das histórias de seus livros (o amor sempre está presente), da força da produção da poesia portuguesa, e, ainda, do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Você acaba de lançar em Portugal o livro Os íntimos, onde você investiga o universo masculino. Fale sobre esse novo livro.

Inês Pedrosa – Os íntimos é um romance contado por homens, na primeira pessoa, por vários homens que se encontram regularmente para jantar ou em torno de futebol (porque todos são fãs de futebol), ou simplesmente para falar mal de alguém. Interessou-me, por um lado, dar fala ao masculino contemporâneo, que ainda tem distinções culturais em relação ao feminino. Não acredito na diferença de gênero. Vivi sempre no mundo de homens e tenho grandes amigos homens, mas noto que há uns rituais específicos dos países do sul da Europa, que têm uma cultura patriarcal muito forte. E que também têm, por sua vez, um matriarcado, maternal, muito castrador e muito forte, que dá vida ao cotidiano.

O livro lida com a intimidade do homem. Foi difícil chegar a essa voz masculina?

IP – Sou irmã de homem e sempre tive muitos amigos homens variados. O livro nasce da observação de coisas que eles dizem. E de começar a tomar nota de frases, de maneiras de olhar a realidade, recortes da realidade. Tem lá uma conversa no livro, de homem que diz que em casamento se contam as noites, que esteve casado não sei quantas mil noites, cada noite um marco no casamento. Ouvi isso num jantar, essa conversa não foi provocada por mim. Portanto, foi espontânea. Então, tomei nota da forma de falar. E têm muitas outras coisas. Procurei fazer um retrato desses homens, muito diferentes ente si. E fui percebendo — independente de machismo, conceito tradicional ou orientação sexual — homens têm uma infinita indulgência uns com os outros. Os homens são muito amigos porque não exigem muito uns dos outros. Noto que as mulheres exigem muito mais umas às outras, e provavelmente também aos seus amigos homens, do que os homens propriamente. Ou seja, pode ter uma discussão brava com alguém e voltar, com muito mais facilidade do que uma mulher. Talvez, porque nunca sonharam tão alto em relação a essa amizade. Então, podem deixar passar a tempestade e voltar a olhar para aquela pessoa sem amargura. Penso que seja por isso, porque os homens têm a expectativa baixa e são menos perfeccionistas do que as mulheres são educadas para ser. É claro que as relações passionais são muito parecidas entre homens e mulheres, entre homens e homens, entre mulheres e mulheres. Paixão é sempre uma relação complicada, que tem o ciúme, a posse, a fidelidade. A relação de amizade é francamente mais livre e menos exigente da parte dos homens entre si. Por isso, homens podem dizer “nós somos amigos para a vida”. Porque também exigem muito menos dessa amizade ao longo da vida.

Sua primeira publicação no Brasil foi o livro Fazes-me falta

IP – Sim. O Fazes-me falta foi publicado no Brasil um pouco depois de sair em Portugal. Em 2002, saiu em Portugal e 2002/2003 no Brasil, talvez início de 2003.

Você consegue analisar o que mudou na sua escrita desde a publicação do Fazes-me falta?

IP – Na realidade, no Brasil se tem passado uma relação um pouco embaraçosa para um escritor. Eu apareci no Brasil com os livros que eu tinha publicado naquela época e depois começaram a publicar meus livros anteriores. Claro que um escritor prefere que comecem a publicar pelo primeiro porque, em princípio, se não pensasse que vai evoluindo, deixava de ser escritor. Nós temos sempre essa ideia de que vamos crescendo a cada livro. Eu não tenho tanto essa ideia porque, infelizmente — meio na brincadeira, mas meio a sério — depois de ter publicado A eternidade e o desejo, que é o romance que publiquei cronologicamente depois do Fazes-me falta, há pessoas que dizem, depois de ler esse livro: “Gostei muito, mas o Fazes-me falta que é o livro…” Já percebi, comparando com o dono dessa casa, Fernando Pessoa — uma comparação muito abusiva — que o meu Livro do desassossego, até agora, é o Fazes-me falta. É aquele que desassossega mais pessoas, de que as pessoas mais gostam. Devo a minha publicação ao Paulo Roberto Pires, meu primeiro editor. Eu dizia: “O problema é que em seguida (ao Fazes-me falta) vai publicar o Nas tuas mãos, que é o anterior. E em seguida o primeiro romance. Pode ser que os leitores digam que cada livro novo é pior do que o anterior.” O Paulo dizia: “O Nas tuas mãos não é pior do que o Fazes-me falta!” Fiquei muito grata por isso. O Fazes-me falta é composto por dois monólogos que se cruzam. Uma mulher que acabou de morrer, subitamente. Não estava preparada para morrer. E tinha uma relação por resolver, uma relação de amizade. Mas uma amizade onde passava um erotismo muito particular com um homem bastante mais velho. Por um lado, foi interessante fazer o confronto das duas vozes, de gêneros e gerações diferentes. E também porque as mesmas situações são descritas por duas pessoas de forma completamente diferente. A questão da perspectiva, o livro é muito isso.

Fale um pouco mais sobre Nas tuas mãos.

IP – Explicando um pouco o que é cada livro: Nas tuas mãos é um romance que começa nos anos 30 do século XX, em Portugal, por contar a história de uma mulher que teve um casamento branco — no sentido que não foi consumado porque seu marido lhe disse na noite de núpcias que ia ficar no quarto com o melhor amigo dele, que era, na verdade, o homem da vida dele. E ela ficaria num outro quarto. Então, ela guardou esse segredo por vergonha e tristeza porque ela tinha uma grande paixão pelo homem por quem se casou. E também porque não queria assumir-se como uma falhada no casamento. Quando a mulher ficou viúva, ela pediu aos sobrinhos que não se zangassem e deixassem ela se casar com o melhor amigo do marido, explicando que seria um casamento sem sexo — ela já com setenta anos por essa época. Isso para não ficar sozinha… Os sobrinhos deram-na como louca e não a deixaram casar. Ela acabou por morrer louca e sozinha pela ganância dos sobrinhos, que não queriam dividir o patrimônio dela com ninguém. Fiquei tão impressionada com essa história, que passei a pensar: “Como essa mulher viveu esta vida?” Então passou uma personagem louca e desgrenhada nos meus sonhos a dizer: “Tens que me entender. Eu não fui uma desgraçada. Eu não fui uma infeliz.” Construí uma mulher que chegou a conclusão, no meu livro, que era mais feliz com aquela vida pouco ortodoxa, porque tinha uma liberdade de ação e de movimento que mulher nenhuma na época tinha em Portugal. No livro, entram vários poetas e várias figuras literárias e da política. Ela tinha um certo nível de vida que lhe permitiu ter uma existência diferente da rotina das mulheres da época. Já meu primeiro romance,A instrução dos amantes, é sobre um grupo de adolescentes em torno de um suicídio, que não se percebe bem. Um caso policial sobre um jovem que se atira de uma janela. Depois começa a se suspeitar que ela foi atirada. É um grupo de adolescentes no subúrbio de Lisboa que estão entre dois mundos, acabou a infância e não começou a fase adulta. E eles estão a experimentar o amor, o sexo e a amizade pela primeira vez. E em A eternidade e o desejo, último livro que publiquei antes de Os íntimos, a história se passa no Brasil, em particular em Salvador, na Bahia. Ele resultou de uma viagem que fiz no trilho do Padre Antonio Vieira no Brasil. Ao mesmo tempo, fui lendo os Sermões dele, que são fortíssimos. E, de repente, o eco daquela voz, aquele púlpito permanente, fez-me fechar os olhos e imaginar-me cega naquele mundo. E como seria uma mulher guiada por aquela voz? Um mundo novo, onde ela encontrou a paixão e perdeu a vista. O que acontece muito, não é? (risos) A lucidez específica da paixão às vezes nos cega para outras coisas (risos). Nos Sermões, há textos infinitos sobre o desejo, de alguém que experimentou o desejo. Definindo a eternidade como convivência permanente com o desejo, a capacidade de não largar o desejo. Isso é eternidade de vida. Achei isso tão bonito que quis trazer para uma história de amor contemporânea. Em cada um dos livros, o que eu procuro é investigar a linguagem. No caso desse livro, o que procuro é claramente confrontar a língua do Padre Antonio Vieira com o português contemporâneo, e o português do Brasil com o de Portugal. O fato de os homens não terem nenhuma censura social sobre a linguagem, como têm as mulheres, usarem o palavrão, o calão, de um forma muito mais livre, permitiu-me esticar os limites do meu uso da língua portuguesa. O que procuro em cada livro é fazer um pintura da língua diferente do que já foi feito e do que eu própria fiz.

Qual sua posição sobre o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa?

IP – É um disparate, uma tontice. Porque não resolve nada. Complica. As diferenças relevantes entre o português de Portugal e o português do Brasil não são ortográficas. O Acordo está mal feito, por exemplo: vocês dizem recepção. E nós dizemos “receção”, tiramos o p. Onde está a unificação? O Acordo diz que a lei é a pronúncia. Isso significa que não ficam as coisas iguais. Dizem que é para ajudar os acordos internacionais etc. As diferenças essenciais estão nas construções das frases e não na ortografia. Não vejo porque tenham que ser igualadas. E não se consegue que os portugueses ou os brasileiros conjuguem o verbo de outra maneira. O nosso vocabulário é muito diferente, que só enriquece. Por que está a estreitar? Os meus livros têm sido publicados no Brasil em português de Portugal e ninguém deixa de perceber por causa disso. Assim como os livros do Jorge Amado são publicados cá em português do Brasil. E tem muita expressão regional, nem por isso deixou de ser um grande sucesso. Por isso, o Acordo não tem sentido.

Como é seu trabalho como diretora da Casa Fernando Pessoa?

IP – É muito estimulante, agradável. E a equipe é cheia de energias e ideias, o que é muito bom. Devo dizer que, quando fui convidada, hesitei muito. Sempre estive ligada à Casa desde que ela nasceu porque fui chamada para muitas coisas ao longo do tempo, enquanto escritora. E também porque vim assistir à programação. Eu sou muito entusiasmada e obsessiva, por isso tem sido mais forte do que eu pensava. Portanto, ocupando mais tempo e espaço. Mas tem sido muito criativo. Tem a biblioteca e o auditório onde fazemos sessões, debates, exibições de filmes… E temos feito teatro em várias zonas da Casa, até no jardim. Tem sido um convívio muito mais próximo à obra do Pessoa. Por ter deixado tantos papéis soltos e incompletos, o Pessoa parece que está a falar conosco. Tem funcionado com um estímulo muito grande.

Estimulou a escrever poemas? 

IP – Na verdade, eu tinha começado a fazer poesia em 2007. Desde meus quinze anos, eu não ousava escrever poemas. Foi em Lisboa, por causa de um encontro particular com uma pessoa do Brasil. Perdendo a vergonha, estive em São Paulo num período e escrevi para ele três, quatro poemas por dia. Devo muito ao Brasil a poesia que escrevo. A coragem também, o Brasil tem me feito perder o medo. O filme Palavra encantada explica muito essa relação. Talvez, eu perca esse medo e publique os poemas… Não sei. É mais fácil publicar poemas no Brasil e depois aqui. Sobretudo agora nessa função. Vão dizer: “Baixou o Pessoa sobre ela! Agora deu para escrever poesias.” Apesar de ser anterior. Claro que é estimulante, leio muito mais poesia por razões de programação.

Fale sobre a produção dos poetas contemporâneos. Você citaria alguém?

IP – Portugal é um país que sempre produziu muita poesia. Porque é um país pouco arriscado do ponto de vista do pensamento. Por termos medo de nos expor como pensamento radical, nos refugiamos na poesia. Porque poesia permite uma inovação ideológica, filosófica, sem ser “confrontacional”. A poesia tem qualquer coisa de redondo. A poesia tornou-se muito intensa e forte, hoje não tem uma poesia à altura da poesia portuguesa. Portugal continua a produzir muitos bons poetas. É sempre difícil falar dos que estão vivos. Depois, a cada cinco anos é uma nova geração que emerge. Há inclusive uma guerra de elite. Há a poesia do real, a poesia do cotidiano, a poesia experimental… Penso que no Brasil também há, uns fazem umas antologias que outros detestam e criticam… A verdade é que em Portugal a poesia se vende, a tiragem de poesia de Portugal é igual a da França. Temos casos de poetas muito populares como Manuel Alegre, que tem um linguagem muito coloquial e chega a muita gente. Ele tem uma tiragem de poesia de dez, vinte mil exemplares, esse nível. O que é extraordinário. Temos muitos bons poetas com tiragens de três mil exemplares que esgotam. Dos vivos contemporâneos, os nomes que primeiro me ocorrem: Nuno Júdice, Maria do Rosário Pedreira, Fernando Pinto do Amaral, Francisco José Viegas, José Agostinho Baptista, Herberto Helder, Manuel de Freitas, Luis Quintaes… E tem o Ruy Belo, um poeta que morreu muito jovem, que tem uma poesia simbólica, narrativa, muito ligada ao cinema. Sophia de Mello Breyner, que está publicada no Brasil, a poesia dela tem uma luminosidade que não se pode ultrapassar.

Sophia de Mello Breyner seria nossa Cecilia Meireles, com toda aquela relação com o mar…

IP – É muito parecida, essa relação é muito forte. O Brasil tem Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto. E Clarice, que é poesia em prosa… A língua portuguesa dá poesia. Infelizmente, com a relação música e poesia, em Portugal há uma série de grupos que só cantam em inglês. Dizem que é mais fácil de fazer músicas para cantar. Respondo: como é que se inventou a música popular brasileira? É a melhor música popular do mundo. Qualquer letra escrita no joelho do Caetano Veloso é melhor do que as letras dos Beatles.

 


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