GONÇALO M. TAVARES

LITERATURA COMO PROJETO DE VIDA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 goncalo

 

Gonçalo Tavares é considerado um dos mais importantes escritores portugueses de sua geração. Com mais de vinte livros publicados, Gonçalo mantém firme seu projeto literário, retirando-se da correria diária para voltar ao seu esconderijo repleto de palavras e muita reflexão.

De Luanda, sua cidade natal, o escritor guarda apenas algumas fotografias. Vivendo em Portugal desde os dois anos de idade, Gonçalo Tavares é um exímio observador, e é com esse olhar crítico que tem construído seu percurso literário, elogiado por críticos e escritores. “Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!”, José Saramago.

Como não há gênero literário em que se encaixe, Gonçalo costuma dividir seus livros em séries: O Reino, O Bairro, Livros Pretos, Enciclopédias, Blomm Books, Poesia, Estórias, Teatro, Arquivos e Investigações.

Com a devida autorização, fomos até seu esconderijo, em Lisboa, para conversar com Gonçalo M. Tavares e entender um pouco mais sobre seu projeto de vida, a literatura.

Você nasceu em Luanda, vive em Portugal e é publicado em diversos países. Como as cidades interagem com sua escrita?

Gonçalo Tavares – Realmente tenho uma relação muito forte com a cidade. Se eu tentar encontrar alguma vez que tenha escrito num campo ou num sítio calminho, com uma paisagem muito extensa, provavelmente vou chegar à conclusão de que nunca escrevi nada nesse tipo de paisagem. Ou seja, acho que escrevi sempre em alguma cidade. E, mais do que isso, a cidade é um conceito de que eu tiro imagens… Por exemplo: andar pela cidade, passear pela cidade, pelo meio de pessoas, muitas pessoas. Considero-a quase uma espécie de prefácio ao meu trabalho. É muito da observação, do comportamento das pessoas. E, portanto, não é um trabalho de observação da natureza, de coisas mortas, ou de objetos… Interessa-me muito, por isso, minha ligação com a cidade. Observar pequenos gestos entre namorados, pequenos encontros, pequenas tragédias… A cidade está cheia disso.

De que forma sua cidade natal é resgatada em sua escrita?

GMT – Eu nasci em Luanda porque meus pais estiveram em Angola durante quatro anos. Eu nasci nesse período, em 1970, na altura que Angola ainda pertencia a Portugal. Meus pais são portugueses, e meu pai estava lá a construir uma ponte. De certa maneira, essa foi a razão objetiva. Eu regressei aos dois anos, portanto não tenho uma imagem concreta, real, sobre Luanda. Tudo que eu tenho são fotografias minhas no espaço enquanto bebê ou criança. Construí um imaginário em volta daquelas fotografias, muitas vezes não corresponde à realidade. Nunca regressei, nasci no continente africano mas nunca regressei.

Não sente vontade de voltar?

GMT – Sim. Ultimamente tenho tido essa vontade de regressar a Luanda. Não para recuperar nada, toda a minha tradição de cultura é portuguesa. Mas há um desejo, que até há pouco eu não entendia, de voltar ao sítio onde se nasceu. Nem que seja para olhar a qualquer coisa que não sabemos o que é, nada material… Mas há essa vontade.

De onde surgiu seu interesse pela palavra?

GMT – As primeiras leituras foram a partir da biblioteca de meu pai. Ele já tinha uma biblioteca muito boa, eu resgatava os livros. Meu primeiro ataque aos livros foi atacar a biblioteca paternal. Depois, gradualmente, fui construindo meu próprio percurso. E a biblioteca que cada um constrói é quase como se fosse um percurso, um itinerário, não é? Quase (um itinerário) de vida. Portanto, a partir dos quinze, dezesseis anos, com mais força a partir dos dezenove, passei a construir minha biblioteca. Uma biblioteca lida.

Recentemente, você publicou um livro chamado Biblioteca, no Brasil publicado pela editora Casa da Palavra, onde conta relações com livros e escritores…

GMT – Sim. Minha primeira fase de escrita foi uma fase que eu chamaria “leitura/escrita”. Ou seja, eu estava a ler e, a partir de certa altura, começava a escrever. Eu considero a leitura a primeira parte da escrita. É evidente que o cinema, o teatro, a arte contemporânea, por exemplo, que me interessam bastante, são muito formativos e centrais. Mas não há nada que tenha, ao menos no meu caso, o peso que a literatura tem na constituição de nossa cabeça. O livro tem um tempo de reflexão que é dado ao leitor, ao processo de leitura, que nenhuma outra arte tem. Portanto, ler faz parte, simultaneamente, de uma necessidade, de uma sensação de estar a trabalhar, um pouco como quando passeio pela cidade. Vejo isso como uma atividade e não como uma passividade.

Você começou a escrever aos 18 anos com mais disciplina. O que mudou desde que publicou o primeiro livro, Livro da dança?

GMT – O processo de escrita não mudou muito, tento manter uma coisa que é o chamado “esconderijo”. Há uma frase que me marcou muito: “Só temos uma boa vida se tivermos um bom esconderijo. Sem um bom esconderijo não se tem uma boa vida.” Eu tento manter, desde os 18 anos, meu esconderijo. Não é um esconderijo apenas espacial, que é até o mais importante. Esta ideia de esconderijo é temporal, o tempo em que estão escondidos todos os outros, de todas as outras pessoas, todas as solicitações. É um tempo que é apenas guardado para a leitura, a escrita. Essa manutenção do “esconderijo temporal” se mantém exatamente, desde que eu tinha 18 anos. São os períodos da manhã, escrevo muito de manhã, quando não marco nada. Tento fugir ao mundo de certa maneira. Sinto que é um tempo fora do mundo e dos dias normais. Muitas vezes o fato de uma tradução levar a pessoa a sair de seu espaço, era algo que eu não estava habituado. Mas agora, por exemplo, estou conseguindo escrever em outras cidades, em outros países. O essencial é manter disciplina e o tal tempo diferente, quase como uma arma. Isso é fundamental.

Você escreve contos, romances, poemas e peças teatrais. Como é a questão dos gêneros literários em sua produção?

GMT – Os gêneros literários são classificações de recepção, de quem está a receber, e não de quem está a emitir. Nesse aspecto, os gêneros literários podem ser muito limitadores do trabalho. Ou seja, se uma pessoa se senta a pensar “agora vou escrever um conto”, ou se senta a pensar “agora vou escrever um romance”, é como se sentasse com toda a tradição e a formalização do que é o romance. Quando decide que vai escrever um romance, está a decidir que vai escrever de uma determinada forma. Há algumas leis, algumas regras, ou, pelo menos, alguma tradição do processo. Acho que isso não é bom pra quem escreve. Eu tento sentar-me e escrever o que tenho necessidade de escrever, o que é necessário naquele momento. Nunca penso que estou a escrever um romance, um poema, um conto, ou um ensaio. Há divisões clássicas com que não me identifico. Por exemplo, uma ideia ultrapassada, mas que persiste, infelizmente: o ensaio é para pensar, o romance é para contar, o poema é para sentir… Esse tipo de divisões e separações é algo com que não me identifico normalmente. Costumo dar nomes como se fossem outros gêneros literários. Tem um livro que chamo Canções, não são canções no sentido de palavras para serem cantadas, nem contos, são pequenos fragmentos instintivos e afetivos. Algo que pode ser lido duas ou três vezes, como se fosse uma música, por isso se chama Canções. Sinto necessidade, muitas vezes, de criar nomes. Uma classificação é sempre uma redução do que é o livro.

Há uma frase curiosa a seu respeito, dita por José Saramago: “Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!” Em algum momento você reflete sobre essa trajetória?

GMT – Não. Tento não cair em nenhuma nostalgia ou reflexão sobre o meu percurso. O que me interessa é o que estou a fazer, ou coisas que já fiz e não foram publicadas, que estou a rever. Eu não tenho esse olhar sobre o meu percurso. O que publico, ou que vou publicar no futuro, é consequência prática de um olhar em movimento. Em nada me interessa essa memória.

Como conciliar as viagens em feiras literárias, a família, os filhos, a escrita?

GMT – O que me parece relevante é a questão da disciplina. Por um lado, defender a vida pessoal de uma forma muito convicta. E, por outro lado, transmitir a ideia de que nosso percurso individual também precisa ser defendido das pessoas que gostam de nós e de quem nós gostamos. Muitas vezes, o nosso percurso pessoal é, digamos, atacado pelas pessoas que mais amamos. Há uma frase do Novalis (escritor alemão) de que gosto muito: “Estamos sós com aquilo que amamos.” É uma frase forte que remete à solidão que faz sentido não individualmente, mas que é resultado de relações afetivas fortes. Acho que tenho um grande privilégio de conviver apenas com pessoas de quem gosto. Por isso, o respeito pela minha disciplina de trabalho é muito grande. Não sinto dificuldade em conciliar tudo porque tudo faz sentido.

E o ofício de professor?

GMT – Dou aulas em faculdade. É relevante porque me obriga a sair do meu esconderijo, esse contato que existe com as pessoas marca um corte brutal com o ofício da escrita, que é completamente isolado. Pode parecer que não, mas é fundamental ter esse contato com as pessoas. Portanto, sinto muito prazer quando volto à escrita depois das aulas. Essas aulas são exercícios de pensar em voz alta.

Numa entrevista, você citou Clarice Lispector como uma referência, por ser uma escritora que transita por gêneros literários. Fale sobre seu diálogo com os escritores do Brasil.

GMT – Há dezenas e dezenas de autores brasileiros de que gosto muito. Dizer alguns nomes é quase impossível, eu fatalmente esqueceria de alguns. Aqui em Portugal são publicados Bernardo Carvalho e Milton Hatoum, autores de que gosto muito. Há muitíssimos outros, quando vou ao Brasil descubro sempre autores que não conhecia. A literatura brasileira tem claramente qualidade, tem uma coisa que não se vê em Portugal: uma variedade enorme. Pegamos quatro ou cinco livros e percebemos que vêm de mundos diferentes. Quando lemos um livro do Nordeste, por exemplo, é uma experiência diferente, um tipo de linguagem muito distinta. Clarice Lispector talvez seja uma das autoras que, quando comecei a ler com alguma força, logo de início me causou uma impressão muito forte. A experiência que tenho de ler Clarice Lispector é sempre uma experiência de ler muito lentamente, frase a frase, palavra a palavra, uma leitura lentíssima, de prazer. As pessoas associam o prazer da leitura com a velocidade. Como se isso fosse sinal de extraordinária qualidade. Há livros ótimos que são lidos muito rapidamente, mas há livros também fantásticos que nos obrigam a parar. Acredito muito nas velocidades diferentes da leitura. Ou seja, há livros que nos remetem a 10km/h, há outros que remetem a 100km/h — escrevi isso num pequeno ensaio. Em Clarice Lispector, o que acho assombroso é uma leitura que por vezes diminui para 10, 5 ou 2km/h, a chegar momentos em que andamos marcha atrás. Lermos a página e queremos voltar ao início da página. Marcha atrás movida pelo prazer, o que é muito raro encontrar. Uma autora fundamental para mim.

E a produção literária em Portugal? Você acompanha os autores contemporâneos?

GMT – Sim. Tento acompanhar o que se vai fazendo. A literatura contemporânea portuguesa tem também qualidade, vai passo a passo marcando o seu lugar. Apesar de ter menos variedade linguística em Portugal, cada escritor segue seu percurso, uma forma de olhar.

Conseguiria apontar algum livro seu pelo qual tenha mais apreço?

GMT – Costumo comparar os livros a espécies de animais. Não podemos dizer que uma girafa é melhor do que um tigre, ou que um tigre é melhor do que um elefante. Podemos dizer que uma girafa é mais alta, que um tigre é mais rápido. Ou seja, podemos gostar mais por uma característica e não por uma hierarquia absoluta. Por exemplo, um livro de que gosto mais em nível de força é Aprender a rezar na era da técnica. Mas se for pensar numa característica física como a velocidade, eu provavelmente escolheria meu primeiro romance, Um homem Klaus Klump. Se pensar em termos de paciência, optaria por outro livro, A máquina de Joseph Walse. Os livros são diferentes entre si e não são comparáveis numa hierarquia.

O que dizer para um jovem que deseja ser escritor?

GMT – A única dica que parece consistente é aconselhar que a pessoa leia muito livros bons. Receber muito da arte, do teatro, mas basicamente a leitura é essencial. Escrever, rever, corrigir, não se entusiasmar logo com o que se escreve. A pessoa que está a escrever deve se desligar do ato de publicar. Sinto que uma pessoa com vinte anos está muito ligada à escrita, à publicação. Um escritor não precisa publicar um livro. Temos na história grandíssimos escritores que não publicaram qualquer livro em vida. Escrita e publicação não são sinônimos. Escrever é um tempo diferente daquele do dia a dia. Quem quer escrever, tem que definir esse tempo. Quando somos rápidos é porque já fomos muito lentos. Só é possível acelerar quando já se teve muito tempo a ser paciente.

Por que você escreve?

GMT – É uma pergunta muito difícil de responder. Tem muito a ver com não se conceber a vida sem escrever. Como leitor, o livro é diário. Há dias, por exemplo, que não escrevo. Mas não há dias em que não leio. Quem lê, tem necessidade de escrever. Portanto, acho que a escrita tem a ver com uma necessidade pós-orgânica. Quando não escrevo, fico irritado, é muito próximo a um desconforto orgânico. Não escrever me obriga a sair do normal.

 


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