GUILHERME FIUZA

O ESCRITOR DO CASSETA

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

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Autor conhecido pela biografia Meu nome não é Johhny, que originou o filme homônimo com mais de 2 milhões de espectadores, Guilherme Fiuza resolveu contar a história de Bussunda — um dos mais queridos humoristas brasileiros, morto em 17 de junho de 2006, em plena Copa da Alemanha.

O livro Bussunda – A Vida do Casseta(Objetiva) é um registro-homenagem que vai além das piadas e brincadeiras, Fiuza faz um recorte íntimo da trajetória do humorista, passando pela infância, adolescência e fase adulta. E tudo com o consentimento dos familiares e da turma do Casseta & Planeta.

Durante sua participação no Festival da Mantiqueira 2010, Guilherme Fiuza falou ao Saraiva Conteúdo detalhes sobre os bastidores da criação de seus livros, fazendo um retrato de sua própria carreira.

Quem é o Bussunda?

Guilherme Fiuza – Bussunda é um vagabundo, filho de uma família virtuosa, que quer que ele seja não apenas bom, mas o melhor. Ele passa toda a adolescência e juventude sendo um cara totalmente refratário, avesso a esse roteiro. Sendo um cara totalmente desleixado, “errado”. Ele consegue dar certo sendo “errado”. O Nelson Motta fez uma crônica muito bacana na televisão que resume isso muito bem: “O Bussunda tinha tudo para não ser nada.” A vida dele parecia uma dispersão: falta de ambição, falta de objetivo, falta de capacidade de construir coisas… E, de repente, ele vinga, se torna um personagem de sucesso na sociedade, bem-sucedido, famoso, rico… Sendo exatamente aquele cara “errado”, aquele cara completamente fora dos figurinos e do protocolo. É interessante para o autor encontrar quais eram as razões dele. Se ele era um assustado com aquilo, um perdido… Você acaba achando que ele era muito fiel ao seu próprio jeito de ser. No fundo, muito seguro da maneira como ele era, apesar de ser tímido. A inteligência que aparecia depois nas piadas, rápido e esperto… Ele se afirma através desse mesmo personagem, um cara desajustado.

Ao fazer a pesquisa para escrever a biografia do Bussunda, o que de mais surpreendente você encontrou?

GF – Algumas pessoas vendo o Bussunda pela televisão podem achar que ele é um gaiato estudado, que ele tem piadas treinadas… E que ele pessoalmente seria só um cara que ri de tudo. Mas a personalidade dele traz fatos muito reveladores dessa intuição que ele tinha na maneira de ser. Apesar do racional, cerebral, ele era muito intuitivo. Até uso no livro o termo “zen-bussundismo”, ele parece ter um sentimento do mundo, uma percepção das coisas a sua volta, de feeling muito grande…

Quando você está escrevendo um livro, há o pensamento de classificação desta produção? Ou a intenção é simplesmente contar a história?

GF – Hoje isso está mais ou menos resolvido com o Bussunda. Porque os meus três livros anteriores são histórias que não tinham elementos conhecidos pela opinião pública. Então, pintava muito essa questão: isso é ficção? Está romanceado? A minha premissa não era “ficcionalizar” a partir daquela base realista. Eu sempre gostei de escrever a história real, sempre buscando o que essa história tem de mais pujante, arrebatador, significativo em termos de emoção, de tudo que suscita interesse humano. Na história do Bussunda, quem lê percebe… A maior parte dos fatos é reconhecível, presumível como a vida do Bussunda. O leitor vai relaxar, tem relaxado, percebendo que está lendo sobre a vida de uma pessoa, não mais preocupado em distinguir onde o autor pode ter romanceado ou não. O leitor vai saborear uma linha, digamos assim. Os próprios cassetas quando leram o livro ficaram impressionados com a extensão do que eles tinham feito. O ato de contar história tem esse requisito. Qual o sentido que sua vida faz? Claro que toda vida faz sentido. Mas qual é a sua linha mestra? Quais os fatos, as características pessoais que governaram sua caminhada?

Como conciliar a produção literária e jornalística?

GF – Engraçado… Quando escrevi Meu nome não é Johhny achava que era uma reportagem. Havia algumas pessoas, a crítica, contestando porque (a escrita) tinha um jeito de romance. Nesta ocasião quem me socorreu foi o Antonio Torres, nosso grande escritor, romancista, que fez uma resenha na época dizendo que era um “romance-verdade”. Criou essa categoria que me ajudou muito. Outro dia conversando sobre o Bussunda com o Marcelo Moraes, montador de cinema genial, que tinha lido o livro e gostado muito, ele disse: “É interessante como cada capítulo do livro tem o lide.” E lide é um termo jornalístico, que significa a informação que lidera o texto, colocada em primeiro lugar, supostamente a mais importante, que cria expectativa para o texto que virá em seguida. Achei muito interessante essa visão do Marcelo Moraes porque é exatamente assim que eu trabalho, colocando o meu olhar… O texto jornalístico propriamente dito talvez seja mais seco, tenha menos voltas em termos de estilo. No fundo, a minha pegada é jornalística. Percebo sempre a história que tenho para contar, o que é mais importante. E da literatura, o lide vai ser o que segurar a dramaticidade. Mais do que capítulo por capítulo, às vezes o parágrafo tem um lide. Quando estou escrevendo, percebo isso, chego a essa estrutura. São dois ofícios muito misturados. Fui escrever livros porque eu gostava muito de escrever textos maiores, reportagens, mas mesmo assim me sentia limitado. Então, fui escrever livros porque eu queria expandir o texto.

Sobre Meu nome não é Johhny: você esperava o sucesso desse livro?

GF – Eu não esperava esse alcance, essa repercussão que a história Meu nome não é Johhny acabou tendo, livro e filme. Primeiro porque era um projeto muito humilde de um jornalista contando uma história. Era um cara de classe média que tinha tudo para ser uma pessoa “comum”. Ele tinha uma família normal, com boas escolas, boas referências… E realmente se tornou um traficante procurado pela polícia Federal, que foi investigado, condenado, preso… É muito difícil depois de tudo isso retomar uma vida normal. É muito difícil essa volta que o João Guilherme Estrela deu, muito peculiar. E me interessava o olhar de uma pessoa que poderia ser qualquer um de nós, generalizando um pouco. Fui fazer uma narrativa jornalística, só que eu sempre me empolgo e me impressiono com a emoção, com os fatos e relatos das situações bizarras. O que acabou se tornando uma narrativa atraente. Para minha surpresa, nem dois meses do livro lançado, tinha produtores de cinema firmemente interessados na história. E não era uma sondagem, eram propostas de produtores importantes do cinema brasileiro querendo comprar aquela história. Foi naquele momento que comecei a achar que a carreira do livro seria mais do que o normal. Mesmo assim é muito difícil, no início do processo cinematográfico, visualizar que aquilo vai realmente alcançar um público grande. Tem muito projeto de cinema que naufraga no meio do caminho, que tem que ser abortado, que leva muito tempo para se concretizar… Eu não tinha qualquer motivo para achar que minha história teria o impacto de milhões de pessoas assistindo, por mais otimista que eu pudesse ser. Talvez haja na sociedade uma certa demanda por tematizar a classe média quando ela está numa situação de desvio… Não mostrar o bandido de classe média, mas o cara comum que até não se achava bandido, em busca de liberdade com desejo de transgressão… Isso encontrou uma demanda. Ainda acho que os produtores de cultura deveriam tematizar um pouco mais a classe média. Tematizar a pobreza e a exclusão é muito importante, é essencial. Mas não significa que os dramas de quem nunca passou fome sejam dramas menores. O filme foi feito com uma pegada muito inteligente pelo Mauro Lima, o diretor, e Mariza Leão, a produtora, que teve a ideia, responsável pelo filme, e o Selton Mello, um ator inteligente. Por que fez dois milhões e duzentos mil espectadores? Não sei dizer exatamente. Foi uma surpresa completa. Mas até hoje estamos aí falando desse personagem e debatendo drogas. Lembro que me perguntavam muito: “Qual a mensagem que você pretendia?” Na verdade, eu não pretendia nenhuma mensagem. Pretendia contar uma história real que eu considerava intrigante. Eu também gosto de entreter, sou um pouco contador de casos. Os meus livros têm também essa função, que aprendi a não ter vergonha de considerar nobre, que é entreter e divertir. E não necessariamente passar uma mensagem. Essa história é a que talvez aborde o tema das drogas da maneira mais franca. Porque em geral vem acompanhada de slogan, de um jeito autoritário…

Ao ler seu livro Amazônia, 20º andar faço uma relação ao livroChico Mendes – Crime e Castigo, de Zuenir Ventura. Fale um pouco sobre o processo de escrita deste livro.

GF – Eu tinha estado várias vezes na Amazônia, mas nunca no Acre — um Estado importante em termos de movimento ecológico, seringueiro. E fui encontrar a melhor história sobre a Amazônia no Rio de Janeiro, a partir do contato com pessoas que viviam confortavelmente na cidade, na vida urbana, dois empresários: João Augusto Fortes, da construção civil, e Bia Saldanha, estilista que tinha uma loja. Eles conheceram o Chico Mendes e gostaram daquele movimento. Um mês depois, o Chico Mendes foi assassinado, eles ficaram muito impressionados e tiveram o impulso de salvar a floresta. Mas a perspectiva das pessoas que não moram na Amazônia é aquele lugar simbólico, aquele lugar romântico: o pulmão do mundo, o banco genético… Então, eles tinham um pouco essa visão com imagens estereotipadas, fetiches sobre Amazônia. Eles vão se meter ali de uma maneira totalmente ingênua. Se tornar parceiro de índio e seringueiros e salvar a floresta se revela um negócio mais complicado do que eles imaginam, só que eles se metem assim mesmo. Deixam para trás sua vida confortável, inclusive a Bia deixa um casamento, momentaneamente um filho. E vai em busca de um sonho. Gostei dessa história porque não é uma história ecológica, mas uma história de paixão.

Que referências fazem parte do universo do escritor e jornalista Guilherme Fiuza?

GF – As minhas referências são muito misturadas. A música é algo que me interesse muito na hora de escrever. Não é nem a letra de música, é a música mesmo, a melodia. A emoção que aquilo me provoca tem uma metamorfose, ou uma alquimia, sei lá o que é, que passa para a criação de texto. Nelson Rodrigues é essencial para mim, um cara abusado com a língua. Só o estilo do Nelson, em estado puro, já é uma obra. O psicanalista Helio Pelegrino, ele tinha um jeito de escrever que me pegava. A linguagem amarrada, uma frase que encaixa na outra, que encaixa na outra… E os parágrafos do Helio Pelegrino eram arrebatadores. Você terminava de ler um parágrafo e queria guardar… Eu guardei vários! Tinha também Monteiro Lobato, um humor maravilhoso. E depois foi encaixar em Asdrúbal Trouxe o Trombone, que é teatro. Acho que influenciou, eu cultuava aquilo. Pedro Cardoso e Filipe Pinheiro, o chamado Besteirol, que eu não gosto de chamar assim porque tem muita substância. Casseta & Planeta desde a TV Pirata… João Saldanha falando de futebol. Um caldeirão de influências, na música: Beatles, Chico Buarque… Caetano também, mas Chico Buarque…

O que dizer para um jovem que deseja ser escritor?

GF – Outro dia minha filha Maria, de 13 anos, me apresentou uma redação dela. Encho o saco dela para me mostrar. Ela precisava desenvolver um parágrafo do Luis Fernando Veríssimo, eu achei genial. Eu disse para prestar atenção no que ela tinha escrito porque era muito interessante, um caminho muito bacana. Eu adorava escrever na escola porque talvez um professor tenha dito isso, que o que eu escrevia tinha valor. Então, é acreditar e valorizar sua própria palavra, que é tão peculiar. O ato de escrever é muito íntimo, tem que exercitar e persistir.

 


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