GABRIELA GUIMARÃES GAZZINELLI

A PROSA DE PAPAGAIO

Por Ramon Nunes Mello [SaraivaConteúdo – 2010]

   

 gabrielaguimaraes

 

Gabriela Guimarães Gazzinelli venceu o Prêmio Sesc de Literatura 2009, na categoria Romance, com o livro Prosa de papagaio. Graduada em Grego pela Faculdade de Letras (Fale – UFMG) e mestre em Filosofia Grega pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich – UFMG), Gazzinelli estreia pela editora Record com uma escrita madura e delicada.

A história de uma família é narrada sob perspectiva do papagaio Louro, ave tagarela leitora de clássicos da literatura — tendo como referência outros animais falantes da literatura, como Xanto, o cavalo de Aquiles na Ilíada. Além do papagaio, o romance tem como personagens um casal de literatos, um professor de letras e uma escritora, as filhas gêmeas, a editora e o cãozinho.

O encontro com a escritora ocorreu durante a Flip 2010, em agosto, quando a autora participava da programação paralela na Off Flip. Com essa conversa é possível compreender que a delicadeza de Gabriela Guimarães Gazzinelli transparece na sua relação com as palavras.

O seu romance Prosa de papagaio, ganhador do Prêmio Sesc Literatura 2009, foi publicado pela editora Record…

Gabriela Guimarães Gazzinelli – O livro eu escrevi durante dois anos, mais ou menos. É um livro que tem muitas referências de autores que eu li. Tem uma ligação muito forte com os anos de faculdade, eu me formei em Letras Clássicas pela UFMG. E o papagaio, Louro, é leitor dos clássicos.

Por que estudar Letras?

GGG – Eu escolhi estudar letras por amor à literatura, um amor antigo. A leitura é vital para muita gente. Quando eu tinha uns 15/16 anos comecei a participar de uma lista de contos, pessoas novas que escreviam contos pelo Brasil afora. Foi uma experiência muito positiva, pelo contato com textos de outros escritores e por submeter os textos à crítica, ver o texto com outros olhos. Desde então, escrevo de maneira intermitente. Tem época que estou terminando dissertação de mestrado, ou trabalhando muito, e não consigo escrever muito. Mas tem época que consigo fazer da escrita um hábito mais ou menos regular.

Foi a primeira vez que você participou do Prêmio Sesc de Literatura?

GGG – Quando eu terminei o romance, mais ou menos em agosto de 2009, em setembro eu fiquei mais revisando… Eu entrei num site que reúne informações sobre vários concursos, e o Prêmio Sesc me pareceu mais interessante justamente pela perspectiva de publicar numa editora com boa distribuição. O prêmio inclui a publicação da obra pela editora Record. Para quem está começando o mais difícil é ser publicado. Eu não hesitei, era o concurso que me pareceu mais interessante.

Ficou surpresa com o resultado?

GGG – Fiquei porque já tinha enviado outros textos para concursos e não tinha ganhado… Mas tem que insistir, não é? Mandei, como das outras vezes, e esqueci. Senão ficamos muito ansiosos, ligados. Quando abri o e-mail e vi que havia sido premiado, fiquei muito surpresa (risos). Mas muito feliz também.

O livro Prosa de papagaio tem uma estrutura mais clássica, diferente da produção dos jovens autores. O que você lê?

GGG – Eu procuro ler tudo. Eu me formei em Letras Clássicas, com isso eu li muitos autores antigos. Mas eu também gosto de ficção científica… Agora tenho procurado ler autores brasileiros contemporâneos, sempre li muito os consagrados. Estou achando uma experiência muito legal porque tem muita gente escrevendo coisas muito boas. De fato, no Prosa tem uma estrutura que foge um pouco… Acho que isso teve um pouco a ver com minha formação porque fiz vários cursos… Todo mundo pensa na Grécia, na Antiguidade, como autores sérios, filósofos… Mas tem autores muito engraçados, tem poetas que escrevem poesia muito picante. Ovídio, Catulo… Existe essa tradição, um pouco marginal na literatura, que foi uma referência muito importante para mim. Esses autores permitem observar de longe as coisas, seja porque o narrador é um animal ou alguém que está viajando para lua. Acho que o Prosa de papagaio retoma essa tradição, se afastar um pouco para rir das coisas humanas.

Você também é formada em Filosofia?

GGG – Sou.

E o seu papagaio é quase um filósofo…

GGG- (risos) É. Eu fiz um mestrado em Filosofia sobre ceticismo pirrônico, uma escola antiga cética. Isso também me influenciou bastante. Agora ele (o papagaio) é um filósofo menos sério, faz uma filosofia meio ligeira (risos).

Além da formação em letras e filosofia, você é diplomata. Como é essa relação da escrita com o trabalho?

GGG – Tento ser muito responsável com o trabalho. Sou uma pessoa muito caseira, nas horas vagas fico lendo e escrevendo. Até agora tenho conseguido conciliar, tem época com mais facilidade, tem época é mais fácil conciliar as duas coisas. O fato de ter recebido o prêmio é um incentivo para continuar. É muito solitário escrever, você nunca sabe se está indo pelo caminho certo. Será que estou me perdendo aqui? Mas agora posso escrever com calma, deixar as ideias amadurecerem.

E o próximo livro?

GGG – Tenho umas ideias, já estou trabalhando, mas tem um processo natural…

Você também escreve poemas…

GGG – Isso na juventude, coisas da juventude, que vão ficar na gaveta mesmo (risos).

O que é necessário para se tornar um autor?

GGG – Primeiro você tem que persistir, literatura é uma coisa “laborosa”. Tem o prazer estético de escrever, mas tem o trabalho que é mais braçal. Quem escreve tem que entender isso… Outra coisa é ler tudo, sem preconceito, de maneira variada. Porque, às vezes, você vai encontrar autores com quem você se identifica onde menos espera. Lembro que quando eu tinha uns 14 anos um amigo me deu um livro e eu descobri um gênero que tem possibilidades fantásticas.

Você tem vontade de escrever ficção científica?

GGG – Talvez futuramente (risos). Quem sabe…

 


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