LUIZ RUFFATO

OPERÁRIO DA PALAVRA

Por Ramon Nunes Mello e Colaboração de Bruno Dorigatti [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

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Eles eram muitos cavalos foi o primeiro livro de Luiz Ruffato a que tive acesso, por indicação da escritora Adriana Lisboa. Na ocasião, durante uma oficina literária no Estação das Letras, confesso que não entendi o romance e, logo, o classifiquei como chato. Dois anos depois, reli o livro que, atualmente, considero o melhor retrato da produção literária contemporânea. Leio, releio e indico, sempre.

“Tentei, pegando a tradição da literatura experimental, fazer um romance coletivista, sem um personagem principal e com várias vozes e possibilidades. Tento fazer com que o leitor tenha uma importância tão grande quanto o personagem, por isso as histórias não terminam. E só resolvi isso na prática com Eles eram muitos cavalos. Assim, encontro a solução para escrever Inferno Provisório.”

Por conta da paixão por esse livro, cultivei o interesse em entrevistá-lo e passei a ler toda sua obra. Enfim, a possibilidade do encontro surgiu em novembro de 2008, quando Ruffato encontrava-se no Rio de Janeiro para o lançamento deLivro das Impossibilidades, o quarto volume da coleção Inferno Provisório.

“É uma tentativa de capturar uma sociedade em que as coisas não têm começo, meio e fim. Essa literatura, mesmo fragmentada, tem uma visão da totalidade. A literatura é fragmentada porque o homem contemporâneo é fragmentado. Mas ainda, é individualista. A minha intenção é desconstruir a narrativa”.

Conversamos na recém-inaugurada livraria do Estação das Letras, no Flamengo, da poeta Suzana Vargas. Além de recordar a infância em Cataguases, Ruffato analisa o cenário da literatura atual e acentua o papel político do seu ofício: escritor, um operário da palavra.

“Se você me contar sobre sua infância, você vai construir a frase e não será mais verdade. E se eu perguntar ao seu irmão, ele vai me contar outra história. E você está mentindo? Não. É outra versão. Essa relativização do tempo e espaço muda a nossa visão de mundo. Então o que é ficção e realidade? A Cataguases que descrevo é diferente da Cataguases para outras pessoas”.

Também publicado na França, Itália e Portugal, Luiz Ruffato é, sem dúvida, um dos grandes nomes da literatura brasileira. Ler seus livros, ou as antologias organizadas por ele, é obrigação para quem deseja entender o que é o Brasil hoje.

 

Você já foi pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, jornalista, sócio de assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros, autônomo e, agora, é escritor. Como foi essa transição até chegar à literatura?

Luiz Ruffato – Na infância, eu não sabia o que era ser um escritor. Então, eu não podia querer ser escritor. Minha mãe e meu pai são do interior, de cidades próximas a Cataguases, cidade onde nasci, no interior de Minas Gerais. Eles foram morar em Cataguases, uma cidade industrial, vendo a possibilidade de ter uma vida mais digna. Comecei a ter consciência de que o único caminho era estudar. E o sonho dos meus pais era que os filhos se formassem numa profissão que desse dinheiro efetivo. Na época, tive a possibilidade de entrar no Senai que produzia mão de obra para São Paulo, na região de Diadema, São Bernardo e Santo André. Essa região era mítica para mim, eu já sabia de todas essas cidades antes de conhecê-las. Para que eu pudesse fazer tornearia mecânica tive de trabalhar em outras coisas, meu pai não tinha uma entrada fixa de dinheiro. Ele era pipoqueiro, mas não era o primeiro grande pipoqueiro da cidade: era o segundo pipoqueiro. Havia a praça principal e uma praça secundária onde meu pai trabalhava. Quando chegava época de chuva, meu pai não podia trabalhar e minha mãe sustentava todos os filhos como lavadeira.

Quantos irmãos?

LR – Éramos três: eu, meu irmão e minha irmã. Mas meu irmão morreu muito cedo, aos 26 anos. Eu conto um pouco essa história no livro De mim já nem se lembra… Então, na verdade comecei a trabalhar com meu pai aos seis anos. Depois, aos 15 anos, fui trabalhar na indústria têxtil, com algodão hidrófilo. Quando me formei em tornearia mecânica, não tive a oportunidade de ir para o ABC por causa das grandes greves. Não havia muita opção, acabei indo para Juiz de Fora. Essa mudança foi importante para que eu pudesse me ver fora da cidade: olhar para Cataguases e não me ver mais lá.

Eu sou de Araruama, interior do estado do Rio de Janeiro. Percebo uma relação muito estranha quando volto a minha cidade, um olhar crítico.

LR – Sim, é estranho. Um olhar crítico, apesar da profunda relação afetiva. Você não consegue ter mais uma relação boa com a cidade (risos). Mas essa vivência desaguou na escrita literária específica que tento caminhar.

Você teve algum incentivo para se dedicar a literatura?

LR – Não. Estudei, até a 6a. série, em colégios muito ruins. Uma vez, ajudando meu pai no carrinho de pipoca, um homem olhou para mim e falou: “Que menino bonitinho. Você estuda onde?” Meu pai entrou na conversa: “Ele não estuda no Colégio Cataguases porque nunca há vaga…” O homem mandou meu pai aparecer no colégio, que ele arrumaria uma vaga – o cara era o diretor da escola. Nos anos seguintes, fui estudar nessa escola, mas não me adaptei. Era outro mundo, com pessoas muito diferentes de mim. Fiquei tão perdido naquela escola que comecei a me refugiar no único lugar em que não havia ninguém: a biblioteca. A moça que trabalhava na biblioteca não sabia que eu entrava ali para me esconder, ela achava que eu queria ler livros e tinha vergonha de dizer. Certo dia, ela pegou o livro e me deu. E eu, por educação, peguei o livro. Já que a moça me deu o livro, eu li. Ela achou que gostei e me deu outro. Ficou nessa coisa e achei interessante. Mas no final do ano, saí dessa escola e parei de ler. Só voltei a me interessar por leitura, de verdade, na faculdade.

Você é formado em jornalismo.

LR – Fiz jornalismo na Universidade Federal de Juiz de Fora. Foi quando descobri que não sabia porra nenhuma, nada. Entrei na universidade e levei anos só lendo. Comecei lendo muito física, química, zoologia. Depois li muita literatura.

Você não conhecia nenhum escritor? Não havia referência?

LR – Não. Conhecer pessoalmente? De jeito nenhum. Eu sabia da existência de escritores acadêmicos, bem mais velhos.

Algum livro especial?

LR – Acho que eu não tinha consciência. Minha leitura era intuitiva, havia coisas de que eu gostava e de que não gostava. Mas não sabia dizer o porquê. Comecei a pensar que um dia gostaria de escrever. E me perguntava: se eu for escrever, será sobre o quê? Pensei na vida operária, era o que eu conhecia. Passei a procurar tudo sobre a vida operária e levei um susto, não havia literatura sobre o assunto. Nada. Esse foi o primeiro baque que tomei.

E isso não foi bom?

LR – Foi bom por descobrir que não havia nada. Foi ruim por perceber como é a sociedade brasileira: estratificada. Aí vão falar de Jorge Amado. Mas é diferente. Existe uma literatura, que acho ruim sobre o ponto de vista estético, que fala sobre militância operária e política. Quando falo de vida operária, quero saber como determinada classe operária percebe a história. Operário é aquele que trabalha na indústria e mora na cidade. Veja bem: operário não é camponês. Por exemplo, a representação de marginais, bandidos e malandros como heróis na literatura brasileira é imensa. Uma visão extremamente romântica, perigosa inclusive. Sobre o operário não havia nada. Decidi trabalhar esse tema. Mas isso não resolve o problema, porque o tema era fácil. Como resolver essa questão? Por onde vou caminhar? Intuitivamente, fui lendo história da literatura e teoria literária. E um autor me apontou o caminho: Machado de Assis. Ele é um autor muito generoso. Ao contrário de Guimarães Rosa, por quem sou apaixonado. EmMemórias Póstumas de Brás Cubas encontrei o caminho. É o que (Harold) Bloom chama de “angústia da influência”. Ou seja, como um autor que vem antes fala de alguém que vem depois. Machado disse: vai ler fulano, fulano e fulano. Existe uma tradição de uma literatura não tradicional. E, para mim, começa com Cervantes. Então, depois do Machado, fui caminhando com Joyce… Tentei, pegando a tradição da literatura experimental, fazer um romance coletivista, sem um personagem principal e com várias vozes e possibilidades. Tento fazer com que o leitor tenha uma importância tão grande quanto o leitor, por isso as histórias não terminam. E só resolvi isso na prática com Eles eram muitos cavalos. Assim, encontro a solução para escrever Inferno Provisório.

 

 

Percebo que a estrutura de sua literatura é fragmentada. Você também trabalha a tipografia do romance. A que se deve essa “experimentação”?

LR – É uma tentativa de capturar uma sociedade em que as coisas não têm começo, meio e fim. Essa literatura, mesmo fragmentada, tem uma visão da totalidade. A literatura é fragmentada porque o homem contemporâneo é fragmentado. Mas ainda, é individualista. A minha intenção é desconstruir a narrativa. Caetano, na música Fora da Ordem, diz: “Aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína”. Essa imagem é o que sintetiza o Inferno Provisório, por mais que seja paradoxal. E isso se dá tanto na forma como no conteúdo, que entendo como um corpo único.

Sobre Inferno Provisório: Por que uma coleção de romances, que podem ser lidos individualmente e sem seguir a ordem de publicação?

LR – E pode pegar pedaços do livro como se fossem histórias fechadas.

É como se você estivesse dizendo para o leitor que o romance contemporâneo está completamente mudado…

LR – Acho impossível pensar no romance contemporâneo que seja diferente do que se fez até agora. A teoria literária tem de acompanhar o tempo dela. Não há como analisar a literatura que é produzida hoje com ferramentas do século XIX. A relação com o tempo e o espaço é muito diferente.

Beatriz Resende, crítica literária, acaba de lançar o livro Contemporâneos, com ensaios sobre jovens autores.

LR – Para você ver como o tempo muda até mesmo para a produção da crítica literária. Nesse sentido, não dá para entender um romance que ainda tem uma visão monolítica, fechada, onisciente. Porque não combina com o tempo em que vivemos. Não é uma crítica a X ou Y. Escrevo sobre o tempo em que vivo.

Cataguases aparece em seus livros quase como um personagem. Como é esse limite entre ficção e realidade?

LR – Existe limite entre ficção e realidade? (Risos.) Acho que não existe esse limite. Se você me contar sobre sua infância, você vai construir a frase e não será mais verdade. E se eu perguntar ao seu irmão, ele vai me contar outra história. E você está mentindo? Não. É outra versão. Essa relativização do tempo e espaço muda a nossa visão de mundo. Então o que é ficção e realidade? A Cataguases que descrevo é diferente da Cataguases para outras pessoas.

O que seria o Inferno Provisório? Cataguases?

LR – Não. O “provisório” nesse caso é otimista e apaixonada pelo Brasil. Você já imaginou céu e inferno definitivo? É uma visão de quem acredita profundamente em mudança. Sempre acreditei que quem ama é quem critica. Quem aplaude, na verdade, não gosta! A crítica motiva a mudança. É o momento difícil que estamos vivendo, mas não sei se temos competência para mudar. Um país complicadíssimo, com uma estrutura social arcaica e hierarquizada. Há um desprezo das elites, arrogância de quem ganha dinheiro muito fácil. A classe média tem tédio para tentar resolver os problemas e o proletariado tem desesperança. Mas sou extremamente otimista.

Você escreve romances, contos e poesia. Existe alguma predileção ou facilidade por determinado gênero?

LR – Poesia, não vou fazer mais, é muito difícil. E vejo que a poesia está entranhada na prosa. Facilidade? Não sei. Todos os dias sento e trabalho. Às vezes, um texto curto é mais difícil do que um texto longo. Não tenho predileção.

O livro Eles eram muitos cavalos ganhou vários prêmios e foi publicado em outro países. Que diferença isso faz na sua carreira?

LR – Literariamente? Nenhuma. Mas do ponto de vista do amor próprio, muita!

Suas narrativas são carregadas de dramaticidade, inclusive alguns textos já foram adaptados para o teatro. Você tem vontade de escrever para teatro?

LR – Não. Sou incompetente para fazer qualquer coisa que não seja escrever livros. Quero sempre estar disponível para o teatro e o cinema, mas só como ajuda. São linguagens muito diferentes.

Você teve de escrever num blog para participar do projeto Amores Expressos. Como foi essa experiência?

LR – Não tenho vocação para blogueiro. A internet é melhor ferramenta para fazer pesquisa (risos).

Você organizou duas antologias sobre mulheres: 25 mulheres que estão fazendo a nova Literatura Brasileira e Mais 30 mulheres que estão fazendo a nova Literatura Brasileira (Record). Você pretende mais alguma antologia?

LR – Lancei essa antologia como provocação. Porque se falava em geração 90 e só havia homem. Eu conhecia algumas mulheres, então comecei a pesquisar para fazer a antologia. Também fiz outra antologia, que deu bastante resultado, sobre a questão da homossexualidade: Entre Nós, pela Editora Língua Geral. Vai sair uma antologia sobre a questão dos negros, também pela Língua Geral. E ainda estou organizando uma antologia de contos com autores que me influenciaram. Para mim, a antologia é um trabalho político, uma maneira de intervir nas discussões. É um saco que algumas pessoas fiquem insatisfeitas. Mas não me importo, porque sempre vamos desagradar. E a função não é agradar.

Como surgiu a ideia da antologia de contos gays? Houve uma confusão com Marcelino Freire e Santiago Nazarian…

LR – Na verdade, não é uma antologia de contos gays. Mas uma antologia sobre a questão da homossexualidade. Há muito material para fazer antologias sobre o mesmo tema, não houve roubo de ideia. Quanto mais antologias surgirem para discutir questões da sociedade, melhor. Não estamos aqui para discutir picuinhas e sim para discutir grandes temas, colocando como prioridade as questões políticas.

Que autores contemporâneos você lê?

LR – Há o João Anzanello Carrascoza, de São Paulo, e o Mario Araújo, de Curitiba. E há a Paloma Vidal, a Tatiana Salem Levy, Cíntia Moscovich, Tércia Montenegro, Miguel Sanches Neto, Marçal Aquino… E há um autor que não é entendido, o André Sant’Anna – ele faz uma crítica feroz à sociedade. Gosto do Fernando Bonassi. Na poesia, gosto do Fabrício Carpinejar, Tarso de Mello, Iacyr Anderson Freitas… A literatura contemporânea é muito rica. É a primeira vez que a periferia se manifesta com a sua voz própria, há o Ferréz como maior representante. É o momento mais efervescente da literatura brasileira, sem dúvidas. A crítica também está muito viva, temos: Flávio Carneiro, Beatriz Resende, Marisa Majolo, Renato Cordeiro Gomes, Heloisa Buarque de Hollanda, que na verdade sempre foi contemporânea da contemporaneidade. Heloisa é de um vigor intelectual absurdo. Fico espantado quando alguém reclama da literatura contemporânea.

O que você diria para um jovem que deseja ser escritor?

LR – Primeiro: leia! Não consigo entender um escritor que não lê. E faça desafios. É fácil escrever sobre o próprio umbigo. Tente escrever sobre o umbigo do outro. E uma coisa que acho fundamental: ser pretensioso, no bom sentido. Não queira ser o melhor escritor do seu prédio. Seja, pelo menos, o melhor escritor da sua rua.


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