LIRINHA, JOSÉ PAES DE LIRA

POTÊNCIA ARTÍSTICA

Por Ramon Nunes Mello [Blog Click(IN)Versos – 2008]

   

 lirinha

 

Quando assisti ao Cordel do Fogo Encantado pela primeira vez, em 2003, no Circo Voador, fiquei muito impressionado. O que era aquele cara no palco, com os olhos virados, falando um poema longo para uma plateia, literalmente, alucinada?, perguntei. O poema, eu soube depois, era de João Cabral de Melo Neto. E o vocalista: Lirinha. Fiquei fã, acompanho os shows no Rio de Janeiro. E, agora, fico atento a sua produção literária e teatral.

“Acredito que todo ser humano é uma potência artística. Comecei recitando poesia aos 12 anos, minha escola foi a poesia. Eu fazia apresentações em intervalos de cantoria de viola,um microfone e um palco vazio. Tive uma relação muito íntima com a cantoria de viola e os poemas de improviso. Quando comecei a fazer teatro, aos 16 anos, descobri outras formas de expressão. A cantoria só permitia o contato com a poesia rimada e metrificada; o teatro me trouxe outras descobertas. Talvez, meu trabalho seja um conflito de tudo isso, uma contestação de não querer ficar num só lugar.”

Multiartista? ”Não”, responde Lirinha. Poeta. Pernambucano, natural de Arcoverde, descobriu a palavra nos recitais, com os violeiros. E, aos poucos, entendeu que não podia ficar preso na métrica dos versos. Ele chegou a cursar Letras, mas largou a faculdade para acompanhar ao Cordel que começava a fazer sucesso. Faz teatro, está em cartaz, sob a codireção da namorada Leandra Leal, com a peça Mercadorias e Futuro, homônimo do seu primeiro livro – lançado pela editora Ateliê Editorial, com incentivo do escritor Marcelino Freire.

“Eu tinha medo de atirar para tudo quanto é lado. Eu já falava em mesa de bar que eu era contrário a esse multiartista, superficialidade. Então, o Marcelino falou: ’Você está viajando! Você começou com a palavra, com a poesia’”.

Conversei com Lirinha na Livraria Odeon, na Cinelândia, após a oficina ministrada por ele e Marcelino, a convite de Ana Maria e Carolina Benjamim, para a estreia do evento literário Boca de Baco. Acompanhado pela atriz Camila Rhodi, mergulhei no universo poético de José Paes de Lira:

“Meu nome é Liroviski. Sou da Interlândia. Escrevo o teto vão do infinito e as pilastras desse salão que interferem na dança. Também sobre a visão que a plateia tem da Big Band, dentro da casa labiríntica”.

 

Você já declarou que tem a intenção de romper as barreiras entre as artes. Músico, poeta, ator. Como é esse trânsito entre linguagens? Há preconceito?

José Paes de Lira – Eu peço sempre, durante a divulgação do livro, atenção para minha relação com a literatura, com a poesia. Não é uma novidade, não estou me aventurando na literatura. A poesia foi o primeiro lugar em que trabalhei, com isso que chamam de artista. Não acredito nessa definição de artista. Acredito que todo ser humano é uma potência artística. Comecei recitando poesia aos 12 anos, minha escola foi a poesia. Eu fazia apresentações em intervalos de cantoria de viola,um microfone e um palco vazio. Tive uma relação muito íntima com a cantoria de viola e os poemas de improviso. Quando comecei a fazer teatro, aos 16 anos, descobri outras formas de expressão. A cantoria só permitia o contato com a poesia rimada e metrificada; o teatro me trouxe outras descobertas. Talvez, meu trabalho seja um conflito de tudo isso, uma contestação de não querer ficar num só lugar. Sinto que há preconceito contra o multiartista, preconceito que eu também tenho.

Você não se considera um multiartista?

JPL – Não. Eu não me considero. Tudo que faço gira num lugar semelhante. Comecei recitando poesia, tudo que faço vem da palavra. Eu falo poesia no Cordel do Fogo Encantado. Inclusive, eu não me considero cantor. Eu digo, grito, canto poesias. A estrutura do meu trabalho musical é o ritmo e a poesia.

Então, você é poeta?

JPL – Sim. Mas ao fazer um espetáculo entro em outra área, o ator. Eu não quero seguir carreira de ator.

Mas essas fronteiras entre linguagens não são tão rígidas…

JPL – Eu definiria esse espetáculo como performance. Mas não posso utilizar esse termo na divulgação do meu espetáculo porque no Brasil a perfomance é pouco entendida. Então, tenho de dizer: estou fazendo teatro. Minha atuação é estranha, fica entre a memória e a representação.

Em que lugar você se sente mais confortável? Música, teatro ou literatura?

JPL – A música que faço é uma celebração.

É um ritual.

JPL – Essa ideia ficou clara através do camarim. O camarim de música é muito diferente do camarim de teatro. A Leandra (Leal), que me ajudou na direção, me puxou para aquecimento, concentração. Na música a minha relação é punk. O teatro é feito com o indivíduo. E minha música é feita com a multidão. O Cordel trabalha muito com a multidão, o que não é melhor ou pior do que a relação com o indivíduo, é diferente. Na música trabalho com a massa, com um dragão.

Essa relação foi difícil para você?

JPL – No começo, sim. Acabei levando coisas do Cordel para o Mercadorias e coisas do Mercadorias para o Cordel. Fiz uma apresentação com o AfroReagge, em São Paulo, em que cantei uma música do Cordel apenas com o tecladista. Eu já estava em cartaz com o Mercadorias. Ou seja, consegui cantar de uma outra maneira.

O escritor Marcelino Freire teve participação na trajetória do seu livro?

JPL – Sim, o Marcelino foi muito importante. Ele acompanhou, indicou a editora e me orientou. Eu tinha medo de atirar para tudo quanto é lado. Eu já falava em mesa de bar que eu era contrário a esse multiartista, superficialidade. Então, o Marcelino falou: “Você está viajando! Você começou com a palavra, com a poesia” Mas como me conhecem pelo Cordel do Fogo Encantado, as pessoas pensam assim: “Agora ele é escritor também!” Sobre a pergunta pelo ambiente em que me sinto mais confortável, estou muito encantado com a escrita e o processo individual.

Você tem vontade de escrever para teatro?

JPL – Sim. Quero trabalhar os diálogos, a dramaturgia.

Há diferença entre o processo de criação da música, da literatura e do teatro?

JPL – Sim, é tudo diferente. Na minha proposta de escrita, não há como fazer nas horas vagas. Escrever exige dedicação, em algum momento você é raptado para o subterrâneo. O livro me dá um conforto.

Camila Rhodi – Penso que o diferencial do Cordel é justamente isso: você é ator, poeta e músico. E todas essas atividades não se esvaziam. É algo que também percebo no Teatro Mágico. É enriquecedor.

JPL – O Cordel, antes de se tornar banda, era um espetáculo de teatro. Nós passamos dois anos, de 1997 a 1999, trabalhando o espetáculo Cordel do Fogo Encantado. Não era o nome do grupo musical. Em 99, nós fizemos um show no Recife, o Rec-Beat, e colocamos o nome Cordel do Fogo Encantado na programação. E, depois, a imprensa registrou o nome do espetáculo como nome do grupo. Lembro que o grupo fez uma reunião e optou por trabalhar com uma linguagem mais musical, havia 40 minutos só de poesia. Depois dessa reunião, começamos a compor. Eu comecei a compor no Cordel, antes eu não fazia música. Eu não sabia que eu tinha potencial de composição. Por isso, acredito que o ser humano é uma potência artística. Acredito mais na potência artística do que na figura do artista. A ideia inicial do Cordel era a poesia, com uma base musical para essa palavra ser dita.

Você chegou a cursar faculdade de Letras?

JPL – Cursei um tempo. Fiz só dois períodos numa faculdade da minha cidade, uma autarquia, para ser professor de português. O Cordel foi para São Paulo e pegou 40 dias de turnê, tive de abandonar.

Você costuma dizer que no seu show você quer transcender. Quando assisto a um show do Cordel, tenho a impressão de estar num ritual. Como é essa experiência?

JPL – O objetivo musical é esse, mas há muita gente que leva para o lado místico.

Há quem veja cores e formas em volta de você, durante a apresentação…

JPL – Viagem. Depende da onda de cada um (risos). A turma fica liberada para fazer o que quiser e fica assim. A gente não tem controle do que os outros tomam. A banda tem um objetivo musical, a construção de um som que tire a pessoa de um lugar e leve para outro. Mas isso não é misticismo! Nosso trabalho com as religiões africanas e a ligação com as músicas de Umbanda é pelo interesse do Cordel. Nós fazemos um trabalho de misturar sons, como um alquimista, provocando essa transcendência. Mas eu me distanciei muito desse tipo de papo.

Um jornalista da revista Veja relacionou seu trabalho com o sertão mítico…

JPL – Ridículo. Eu trabalhava muito com profecia no começo do Cordel, no primeiro disco havia muitas letras apocalípticas. Mas porque eu era fascinado por poesia que falasse do futuro. Não há necessidade de acertar a profecia. E nem se deve ter fé ou acreditar, não interessa. O que me interessa é o gênero literário.

Você tem uma música chamada O Palhaço do Circo sem Futuro e o título do seu livro é Mercadorias e Futuro. Qual é a relação?

JPL – O Mercadorias tem uma relação com a minha história. Esse jornalista, que me atacou como ”profeta dos modernos”, perguntou: ”Por que profecia?” O livro é uma resposta, fecha um tema. Não quero mais tocar nesse tema a partir de agora. O livro tem vários momentos de questionamentos sobre a profecia; são as pessoas que esperam o cumprimento da profecia. Não se deveria esperar de um profeta o que não se espera de um poeta. A profecia era utilizada como gênero literário, foi a Igreja Católica que começou a perseguição: “cuidado com os falsos profetas!” Eu não sou sebastianista e escrevi: ”Os soldados de Dom Sebastião mostrarão o caminho.” Nos últimos shows, estou fazendo: ”Os cavalheiros de Aruanda mostrarão o caminho.” Conheci esses cavalheiros no Xukuru, uma tribo, em Pesqueira, durante uma celebração do assassinato do cacique Xicão – uma pessoa muito importante para mim. Ele foi calado com um tiro de 12, por uma questão de disputa de terra.

Há diferença entre o texto do livro e da peça Mercadorias e Futuro?

JPL – Primeiro comecei a fazer o livro, não sabia que faria o espetáculo. Como o livro é um pedaço de mim e um pedaço de ficção, fiquei à vontade para fazer o espetáculo. Há teatro em tudo, mas o Capitalismo tem a força de construir um cemitério de talentos. Os mercadores, por exemplo, têm muita técnica de teatro, mas eles são sugados pelo sistema. A partir disso, pensei na peça com um mercador estimulando o pensamento sobre o valor do livro. Foi importante tocar nesse assunto, porque desde cedo eu vendo algo que acho que não se vende. Tenho de botar preço na poesia, em algo que considero sublime. Não há dinheiro que compre a poesia. O Mercadorias e Futuro nasceu da venda de poesia e profecia, da bolsa de valores: Bolsa de Mercadorias e Futuro. Hoje, o único lugar onde encontramos um oráculo é na Bolsa de Valores, pois há previsão.

 

 

De que escritores você gosta?

JPL – Houve um livro de que gostei tanto que o transcrevi inteiro depois de ler: Lavoura Arcaica (Raduan Nassar). Acredito que há algo de muito especial nesse livro. É um livro exageradamente bem escrito. Eu tinha preconceito contra literatura estrangeira porque não sei outro idioma. Mas já perdi isso, porque sei que há bons tradutores. Estou muito envolvido com Borges.

Você acabou de comprar um livro dele.

JPL – Verdade (risos). Gosto muito do Ítalo Calvino. Li Cidades invisíveis, com tradução de Diogo Mainardi. Acredita? (Risos.) E é bom, impressionante. Durante a feitura do meu livro, li muito Calvino: Barão nas árvoresVisconde partido ao meioO cavaleiro inexistenteMarcovaldo… Graciliano Ramos também é muito importante.

E os poetas?

JPL – João Cabral, né? E, ano passado, tive a descoberta de Drummond. Ele é o famoso desconhecido, o nome dele é mais conhecido do que a poesia.

Na literatura é muito comum, as pessoas festejam os escritores mas não leem os livros.

JPL – Exatamente. E há uma turma de Recife: Jomard Muniz de Britto, Ericsson Luna, Pedro Américo, Miró…

Estou querendo muito entrevistar o Miró. Estive na Fliporto, mas não consegui falar com ele.

JPL – Fizemos uma turnê juntos, ele entrava no Cordel e falava as poesias dele. É difícil citar as pessoas, sempre esqueço alguém. E há aqueles que entram na vida por apenas uma tarde e influenciam muito. Osman Lins, por exemplo.

E na música?

JPL – Na música, passo por fases. Uma influência fundamental: Naná Vasconcelos. Não posso deixar de citar Nação Zumbi, embora seja muito lugar-comum, óbvio. Eu morava em Arcoverde, mas recebi o Chico Science – a metrópole enviando música para interior, não rola dialética. E há uma turma por que tenho me encantado: Gil Scott-Heron, um americano, que é poeta, músico e ator. Ele é o autor do poema: “A revolução não será televisionada”. Ele é considerado um dos fundadores do rap americano porque dizia textos em cima de bases musicais. Li um livro dele: Abutre.

Uma pergunta profética: o que você espera daqui a 10 anos?

JPL – Quero atuar mais na fronteira entre teatro, música e literatura. Pretendo exercitar a dramaturgia literária. Quero ficar nessa confusão.

O que você diria a um jovem que deseja ser artista?

JPL – Corpo e mente dilatados, integridade no fazer. Esteja inteiro para fazer o que for.


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